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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>ESPECIAL</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="4"><b>Fotografia: o instante e o permanente</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Rog&eacute;rio Nogueira Coelho de Souza<sup><a name="1"></a><a href="#1a">*</a></sup></b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Sociedade Brasileira de Psican&aacute;lise de S&atilde;o Paulo</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ao tratar das rela&ccedil;&otilde;es entre o vis&iacute;vel e aquele que v&ecirc;, Merleau-Ponty questiona:</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><i>N&atilde;o h&aacute;, portanto, coisas id&ecirc;nticas a si mesmas, que, em seguida, se oferecem a quem v&ecirc;, n&atilde;o h&aacute; um vidente, primeiramente vazio, que em seguida se abre para elas, mas sim algo de que n&atilde;o poder&iacute;amos aproximar-nos mais a n&atilde;o ser apalpando-o com o olhar, coisas que n&atilde;o poder&iacute;amos sonhar ver "inteiramente nuas", porquanto o pr&oacute;prio olhar as envolve e as veste com sua carne... Qual a raz&atilde;o por que, envolvendo-os, meu olhar n&atilde;o os esconde e, enfim, velando-os, os desvela?</i> (2007, p. 128)</font></p> </blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Certa vez um paciente mostrou-me uma s&eacute;rie de fotos feitas no fim de semana. Uma chamou-me &agrave; aten&ccedil;&atilde;o. Em sintonia com as outras se destacava, certamente por sua qualidade art&iacute;stica, uma vez que me fazia pensar sobre o conflito que pode haver entre o imediato, do instante presente, e o permanente duradouro. Algo que remetia a certas ang&uacute;stias daquele paciente.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">N&atilde;o posso apresentar a foto. Qualquer descri&ccedil;&atilde;o minha n&atilde;o lhe faria justi&ccedil;a. Tratava-se da imagem colorida, em cores n&atilde;o muito vivas, de uma praia ao amanhecer. Mar, c&eacute;u, areia, montanhas ao fundo, a imprecisa figura de uma pessoa na praia, tudo iluminado pela luz do sol nascente, ainda fraca, por&eacute;m envolto por bruma, t&iacute;pica de manh&atilde; de outono em seus primeiros momentos.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">N&atilde;o posso me deter na sess&atilde;o, nem em seu caso cl&iacute;nico. No entanto, a partir do sofrimento vivido por aquele paciente, algumas quest&otilde;es poderiam ser feitas. Seria poss&iacute;vel fotografar todos os instantes? Recuper&aacute;-los em sequ&ecirc;ncia e resgatar por completo, sem perda, toda a experi&ecirc;ncia vivida? Por que sua insist&ecirc;ncia com o instante?</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ele queria apreender o belo, perceber-lhe o sentido, dar-lhe significado. Aponto-lhe a foto que me atra&iacute;ra. Mostro-lhe o que permanece l&aacute;, independentemente do instante em que foi feita. L&aacute; continuar&atilde;o c&eacute;u, mar, areia, montanhas. Esses permanecer&atilde;o. Luminosidade, bruma, figura humana, naquele ambiente, s&atilde;o instante apreendido. Instante e permanente comp&otilde;em-se. A foto integrara o que poderia ser paradoxo. Pela fotografia, o instante, fortuito, permaneceria na companhia do permanente, que estaria l&aacute; ainda que n&atilde;o fosse capturado pela vis&atilde;o interpretativa do fot&oacute;grafo. Aquela foto era verdadeira interpreta&ccedil;&atilde;o para o paciente.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Fotografar &eacute; interpretar, em seu sentido amplo, escrever sobre fotografia &eacute; fazer uma interpreta&ccedil;&atilde;o, pessoal e limitada, sobre esse amplo campo de conhecimento. Sirvo-me da interpreta&ccedil;&atilde;o fotogr&aacute;fica do paciente, pela qual muito aprendi.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ampliando minha vis&atilde;o, utilizo-me das palavras de Barthes: <i>&#91;...&#93; a palavra mais adequada para designar (provisoriamente) a atra&ccedil;&atilde;o que sobre mim exercem certas fotos era aventura. Tal foto me adv&eacute;m, tal outra n&atilde;o. O princ&iacute;pio da aventura permite-me fazer a Fotografia existir</i> (2012, p. 26).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Acompanho a dire&ccedil;&atilde;o apontada, pois tamb&eacute;m para mim &eacute; preciso que uma fotografia promova uma esp&eacute;cie de aventura, de anima&ccedil;&atilde;o, que desencadeie algo similar &agrave;quilo de vivo, inesperado, sentido quando do acontecimento interpretativo em Psican&aacute;lise. Sabemos que fotografias n&atilde;o s&atilde;o reflexos da realidade, s&atilde;o rupturas do tempo, do fluir da vida. S&atilde;o inven&ccedil;&otilde;es, fic&ccedil;&otilde;es, em que a c&acirc;mera fotogr&aacute;fica separa um momento de outro, captura o instante, de maneira bem diferente de nossos olhos que, mesmo apurados, n&atilde;o conseguem perpetuar o visto do mesmo modo que no registro fotogr&aacute;fico.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A mem&oacute;ria revelada pela c&acirc;mera n&atilde;o &eacute; suficientemente esclarecedora, pois, quanto mais uma foto conta, possivelmente menos se poder&aacute; saber do fotografado. O instante fotografado n&atilde;o esteve retido em nossa mem&oacute;ria da mesma maneira que na fotografia. Nossa mem&oacute;ria recria o vivido, interpretando-o d&aacute;-lhe sentido, mesmo que falso. Fotografias fixam instantes, tornam o presente absoluto e aparentemente inquestion&aacute;vel. Apenas apar&ecirc;ncia, porque sendo um corte no tempo s&oacute; ganhar&aacute; vida, anima&ccedil;&atilde;o e aventura se sofrer significa&ccedil;&atilde;o interpretativa do espectador. Talvez seja esta a arte da fotografia, a sofrida interpreta&ccedil;&atilde;o que se imp&otilde;e a nosso dedicado olhar frente ao que se v&ecirc; no registro do fot&oacute;grafo.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Uma fotografia torna uma imagem perene (como o c&eacute;u, mar, areia e as montanhas da foto referida), mas o car&aacute;ter vivo de uma imagem est&aacute; no olhar interpretativo daquele que v&ecirc;, dando-lhe de modo instant&acirc;neo a significa&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica imanente ao trabalho fotogr&aacute;fico feito com arte (como a luminosidade particular, a bruma, a presen&ccedil;a fugaz da figura humana na foto citada fizeram-me compreender que ali se fazia presente uma resposta &agrave; ang&uacute;stia do paciente).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Aponta Heidegger: "<i>Na obra de arte, p&otilde;e-se em obra a verdade do ente. 'Por' significa aqui erigir. Um ente... acede na obra ao estar na clareira do seu ser. O ser do ente acede &agrave; perman&ecirc;ncia do seu brilho</i>"(2007, p. 27).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ensina o fil&oacute;sofo que na obra de arte opera-se a emerg&ecirc;ncia do ente na medida em que houver o desvelamento do seu ser, ao qual nos referimos como verdade. Na obra de arte (como pode ocorrer na fotografia), <i>se nela acontece uma abertura do ente, no que &eacute; e no modo como &eacute;, est&aacute; em obra um acontecer da verdade</i> (Heidegger, 2007, p. 27). Eis o que permite &agrave; arte da fotografia promover sentido e experi&ecirc;ncia &agrave;quele que pode ver a verdade exposta em imagem.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Nos estudos fundamentais da Psican&aacute;lise, investigando os sonhos, Freud usou o modelo dos instrumentos &oacute;pticos para compreender a localiza&ccedil;&atilde;o ps&iacute;quica dos fen&ocirc;menos mentais. Destaca o car&aacute;ter regressivo do sonho, demarca sua essencial caracter&iacute;stica de figurabilidade e lembra-nos de que a a&ccedil;&atilde;o dos sonhos desenvolve-se em uma cena diferente da vida representacional de vig&iacute;lia. Permanecendo no campo psicol&oacute;gico e evitando qualquer correla&ccedil;&atilde;o anat&ocirc;mica, sugere:</font></p>     <blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><i>&#91;...&#93; visualizarmos o instrumento que executa nossas fun&ccedil;&otilde;es an&iacute;micas como semelhante a um microsc&oacute;pio composto, um aparelho fotogr&aacute;fico ou algo desse tipo. Com base nisso, a localiza&ccedil;&atilde;o ps&iacute;quica corresponder&aacute; a um ponto no interior do aparelho em que se produz um dos est&aacute;gios preliminares da imagem</i>. (Freud, 1987, p. 491)</font></p> </blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A primeira teoria do aparelho ps&iacute;quico, e sua teoria do funcionamento mental, n&atilde;o &agrave; toa, faz analogia com a c&acirc;mera fotogr&aacute;fica. Continuamos a estudar a complexa capacidade representacional do psiquismo. Houve mudan&ccedil;as no entendimento da mem&oacute;ria, ganhou-se conhecimento pela semi&oacute;tica, mas o modelo do instrumento fotogr&aacute;fico utilizado por Freud continua propondo, por analogia, um modo de pensar como &eacute; poss&iacute;vel, pela interpreta&ccedil;&atilde;o da experi&ecirc;ncia emocional, promover mudan&ccedil;a ps&iacute;quica.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">No caso daquele paciente tudo isso se apresentou de modo peculiar, pois se pode tomar sua fotografia como imagem expressiva da busca por uma interpreta&ccedil;&atilde;o, que, produzindo suficiente convic&ccedil;&atilde;o afetiva, lhe trouxesse alternativa a seus sofrimentos. Na ocasi&atilde;o o paciente compartilhou comigo sua surpresa pelo efeito que a foto promovia e, comovido, p&ocirc;de refletir com mais consequ&ecirc;ncia sobre suas dificuldades emocionais.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Freud, investigando os sonhos, destacando sua caracter&iacute;stica imag&eacute;tica e assim ampliando a compreens&atilde;o do funcionamento ps&iacute;quico, nos remete &agrave;s decisivas palavras de Merleau-Ponty sobre o que, inicialmente, se questionara: &#91;...&#93; <i>o pr&oacute;prio olhar &eacute; incorpora&ccedil;&atilde;o do vidente no vis&iacute;vel, busca dele pr&oacute;prio, que L&Aacute; EST&Aacute;, no vis&iacute;vel</i> &#91;...&#93; (2007, p. 128).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Referências</b></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Barthes, R. (2012). <i>A c&acirc;mara clara</i>. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1170905&pid=S0101-3106201500010001300001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Freud, S. (1987). A interpreta&ccedil;&atilde;o dos sonhos. (Cap&iacute;tulo VII). In <i>Edi&ccedil;&atilde;o standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud</i> (Volume V, pp. 468-561). Rio de Janeiro: Imago.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1170907&pid=S0101-3106201500010001300002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Heidegger, M. (2007). <i>A origem da obra de arte</i>. Lisboa: Edi&ccedil;&otilde;es 70.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1170909&pid=S0101-3106201500010001300003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Merleau-Ponty, M. (2007). <i>O vis&iacute;vel e o invis&iacute;vel</i>. S&atilde;o Paulo: Perspectiva.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1170911&pid=S0101-3106201500010001300004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><sup><a name="1a"></a><a href="#1">*</a></sup> Membro filiado da Sociedade Brasileira de Psican&aacute;lise de S&atilde;o Paulo.</font></p>      ]]></body>
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