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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>ESPECIAL</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="4"><b>Geraldo de barros: jogar com o tempo</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Silvana Rea<sup><a name="1"></a><a href="#1a">*</a></sup></b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Sociedade Brasileira de Psican&aacute;lise de S&atilde;o Paulo</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>     <p align="right"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Se s&oacute; guardamos lembran&ccedil;as dos momentos tristes ou alegres, enlouquecemos. Felizmente existem os restos.    <br>Geraldo de Barros</font></p> </blockquote>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Nos anos 1996-1998, o artista brasileiro Geraldo de Barros dedica-se &agrave; s&eacute;rie de fotografias "Sobras", feita com a ajuda de sua assistente ap&oacute;s uma sequ&ecirc;ncia de isquemias cerebrais que o levaram a perder a fala e parte dos movimentos. Trata-se n&atilde;o apenas de seu &uacute;ltimo trabalho fotogr&aacute;fico. Antes, &eacute; sua derradeira obra e seu retorno &agrave; fotografia ap&oacute;s quase quatro d&eacute;cadas dedicadas &agrave; pintura, artes gr&aacute;ficas, design de m&oacute;veis e desenho<sup><a name="2"></a><a href="#2a">1</a></sup>.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">De fato, ele se dedicara &agrave; fotografia no in&iacute;cio de sua carreira, em 1946 (entre 1946 e 1947 inicia as Fotoformas). Mas depois da exposi&ccedil;&atilde;o "Fotoformas", em 1950, no Museu de Arte de S&atilde;o Paulo-MASP, n&atilde;o retoma esse campo de pesquisa ao longo dos anos seguintes. At&eacute; que ele encontra, guardadas em uma caixa, fotos de passeios e viagens em fam&iacute;lia feitas por ele nas d&eacute;cadas de 1950 e 1970. Aqui, fiel a seu compromisso experimental, Geraldo inventa uma t&eacute;cnica: recorta os negativos, interv&ecirc;m sobre eles com tinta e os remonta entre l&acirc;minas de vidro, criando diferentes tipos de colagens.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/ide/v37n59/59a14f1.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Em "Sobras", portanto, ele retoma imagens n&atilde;o mais lembradas, fragmentos de sua vida registrados pela c&acirc;mera em um instante congelado, em um tempo igualmente fragmentado, para efetuar uma interven&ccedil;&atilde;o na pr&oacute;pria mem&oacute;ria &ndash; mem&oacute;ria afetiva. Como a igualmente foto de fam&iacute;lia "A m&atilde;e no Jardim de Inverno", encontrada por Barthes entre pertences encaixotados, surge a necessidade de remontar o tempo. Geraldo, ent&atilde;o, justap&otilde;e personagens, recria situa&ccedil;&otilde;es e paisagens &ndash; constr&oacute;i novas possibilidades de leitura.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/ide/v37n59/59a14f2.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">No processo de recordar e recortar, ele tra&ccedil;a com tinta uma moldura branca ou preta, destaca momentos chamando-os &agrave; percep&ccedil;&atilde;o e simultaneamente cria espa&ccedil;os vazios sem fundo, nos quais os elementos da composi&ccedil;&atilde;o correm o risco de cair, de serem engolidos pelo esquecimento, na imin&ecirc;ncia de perecer. S&atilde;o fotos suspensas em um tempo igualmente suspenso, atemporal. Na mistura de realidade e fic&ccedil;&atilde;o, o v&iacute;nculo exemplar com a quest&atilde;o do tempo e da mem&oacute;ria.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ora, se uma fotografia &eacute; um fragmento do real reproduzido, a altera&ccedil;&atilde;o do negativo para criar uma nova realidade leva a linguagem fotogr&aacute;fica ao seu limite, subvertendo sua voca&ccedil;&atilde;o inicial. Contraria-se, aqui, a ideia de repeti&ccedil;&atilde;o mec&acirc;nica do instante que nunca mais poder&aacute; ser vivido existencialmente. Pois ao alterar o negativo, Geraldo interfere diretamente na matriz, impedindo novas reprodu&ccedil;&otilde;es do material anterior. E uma vez modificada a refer&ecirc;ncia ao fato vivido no passado, cria-se outro momento, uma viv&ecirc;ncia a partir da qual ele n&atilde;o faz mais estritamente uma foto, faz forma, faz imagem.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/ide/v37n59/59a14f3.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&Eacute; fato que entre uma imagem e a realidade est&atilde;o presentes muitas outras imagens, invis&iacute;veis, por&eacute;m operantes, posto que h&aacute; em toda imagem algo que a excede. Como sobras que a ultrapassam, mesmo quando s&atilde;o restos esquecidos em uma caixa na mem&oacute;ria. O exerc&iacute;cio do olhar sempre nos mostra um conjunto de n&atilde;o vividos, de esquecidos &agrave; espera de seu momento de apari&ccedil;&atilde;o, que uma nova leitura revela.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Por outro lado, quando nos encontramos diante de qualquer obra visual, estamos frente a uma montagem de tempos heterog&ecirc;neos. Porque a visualidade coloca-nos na simultaneidade da experi&ecirc;ncia presente e da mem&oacute;ria por ela convocada, onde o presente e o passado reconfiguram-se, continuamente. E mais, devemos tamb&eacute;m reconhecer que como elemento de perman&ecirc;ncia, do futuro, ela nos sobreviver&aacute;; e que o elemento transit&oacute;rio somos n&oacute;s.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ao realizar uma montagem dos negativos fotogr&aacute;ficos, Geraldo tamb&eacute;m comp&otilde;e uma forma em ritmo visual e, portanto, temporal. Afinal, a montagem &eacute; uma forma de manipular o tempo, por ser um processo pelo qual o passado n&atilde;o desaparece, mas se reincorpora, reinterpretado no presente. Isso porque qualquer imagem nos apresenta a hist&oacute;ria da qual &eacute; contempor&acirc;nea, mas tamb&eacute;m nos leva de volta a algo anterior, que a pr&oacute;pria elabora&ccedil;&atilde;o da obra havia encoberto, uma mem&oacute;ria recalcada da qual ela seria o retorno.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">"Sobras" apresenta uma dimens&atilde;o afetiva e existencial humana que est&aacute; invis&iacute;vel (ou recalcada) na po&eacute;tica construtiva concretista e na <i>pop art</i>, op&ccedil;&otilde;es de Geraldo de Barros em sua trajet&oacute;ria art&iacute;stica. Portanto, curioso pensar que essa s&eacute;rie se desenvolve em situa&ccedil;&atilde;o de relevantes limites f&iacute;sicos, a poucos anos de seu falecimento.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ora, sabemos j&aacute;, desde Freud (1915&#47;1969, p. 327), que "no inconsciente cada um de n&oacute;s est&aacute; convencido de sua pr&oacute;pria imortalidade". Essa &eacute; uma das inexor&aacute;veis quest&otilde;es do homem, espremido entre o desejo de n&atilde;o ter fim e a finitude corporal. A fotografia fixa o tempo, como o "instante decisivo" de Cartier-Bresson, e "embalsama o tempo", como afirma Andr&eacute; Bazin. Evidencia o que est&aacute; morto no "isso foi" de Barthes, para quem a vida e a morte s&atilde;o o paradigma do disparo que separa a pose inicial do resultado final. Geraldo de Barros, ao intervir em negativos antigos, recupera um tempo perdido (ou morto) e o recomp&otilde;e no presente, criando um novo tra&ccedil;o de mem&oacute;ria para o futuro. Transforma o passado dando a ele uma forma nova, antes que ele desapare&ccedil;a no esquecimento. E o faz tomando o tempo em suas m&atilde;os. Faz, destruindo ao mesmo tempo que constr&oacute;i, morte e vida. A nova imagem &eacute; o vest&iacute;gio que resta, algo que "sobra" de sua passagem pelo mundo, marcas afetivas de uma vida em fam&iacute;lia. Testemunho que fica na mem&oacute;ria de quem a v&ecirc;, Geraldo de Barros consegue jogar com o tempo fazendo desse jogo sua obra, eludindo a constata&ccedil;&atilde;o de que temos um fim. N&atilde;o seria essa a maior e mais bem-sucedida fic&ccedil;&atilde;o humana?</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Referências</b></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Barthes, R. (2008). <i>A c&acirc;mara clara</i>. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1170959&pid=S0101-3106201500010001400001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Didi-Huberman, G. (2000). <i>Devant les temps</i>. Paris: Les &Eacute;ditions de Minuit.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1170961&pid=S0101-3106201500010001400002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">______. (2011). <i>L' &eacute;xperience des images</i>. Bry-sur-Marne: INA &Eacute;ditions.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1170963&pid=S0101-3106201500010001400003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">______. (2013). Before the image, before time: the sovereignty of anachronism. In Groom, A. (Org.). <i>Time</i>. Londres: Whitechappel.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1170965&pid=S0101-3106201500010001400004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Eisenstein, S. (2002). <i>A forma do filme</i>. Rio de Janeiro: Zahar.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1170967&pid=S0101-3106201500010001400005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Fernandes Jr., R. (2006). (AS)simetrias. In De Barros, G. <i>Sobras</i>. S&atilde;o Paulo: Cosac Naify.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1170969&pid=S0101-3106201500010001400006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Freud, S. (1969). Reflex&otilde;es para os tempos de guerra e morte. In E.S.B. <i>A hist&oacute;ria do movimento psicanal&iacute;tico, artigos sobre metapsicologia e outros trabalhos</i> (Vol. XIV). (Trabalho original publicado em 1915).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1170971&pid=S0101-3106201500010001400007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Rouille, A. (2009). <i>A fotografia: entre o documento e a arte contempor&acirc;nea</i>. S&atilde;o Paulo: Senac.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1170973&pid=S0101-3106201500010001400008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><sup><a name="1a"></a><a href="#1">*</a></sup> Membro associado da Sociedade Brasileira de Psican&aacute;lise de S&atilde;o Paulo, doutora em Psicologia da Arte pela USP.    <br>   <sup><a name="2a"></a><a href="#2">1</a></sup> Em vida de intensa atividade criativa e de pesquisa, em 1948 cria o Grupo XV, com Yoshiya Takaoka e Athaide de Barros, de influ&ecirc;ncia expressionista. Em 1952, ele participa da cria&ccedil;&atilde;o do movimento Ruptura, marco inicial da arte concreta no Brasil. De 1954 a 1967, seguindo o ideal de integrar a arte na vida cotidiana, preconizado pela Bauhaus, dedica-se &agrave; f&aacute;brica de m&oacute;veis Unilabor, de autogest&atilde;o oper&aacute;ria. Em 1964, ele idealiza sua pr&oacute;pria f&aacute;brica, a Hobjeto, onde o consumidor adquiria m&oacute;veis industrializados de acordo com suas pr&oacute;prias necessidades e desejos. Em 1966, juntamente com Wesley Duke Lee e Nelson Leirner, funda o Grupo Rex, marcado pelo humor e pela cr&iacute;tica ao sistema de arte.</font></p>      ]]></body>
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