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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[As patologias do niilismo em nossa modernidade]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[In our culture there is a common denominator between the formal envelopes of symptoms and the psychopathological models that try to apprehend them. This common point is not any other than the denial of the Other to whom the symptom is addressed, and that it includes in a certain way. The place of the Other in the fabrication of symptoms and in their address is still the blind spot for both the new psychopathological diagnoses and the heuristic models which try to account for their intelligibility and treatment. This denial results from the substance of a civilization, and the way in which it expresses its pathologies. Today it is the addict, who better testifies, as a martyr, on this indulgence between a form of civilization and its pathologies, the nihilism of our modernity.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>SE&Ccedil;&Atilde;O TEM&Aacute;TICA </b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>As patologias do niilismo em nossa modernidade</b> </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>The pathologies of nihilism in our modernity</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Roland Gori </b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Psicanalista; Professor da Universidade de Aix-Marseille I. Autor dos livros A prova pela fala, S&atilde;o Paulo, Escuta, 1998 e L&oacute;gica das paix&otilde;es, Rio de Janeiro, Cia de Freud, 2004</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Tradu&ccedil;&atilde;o:</b> Ana Rudge </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr size="1" noshade>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>RESUMO</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">H&aacute; em nossa cultura um ponto comum entre os envelopes formais dos sintomas e os modelos psicopatol&oacute;gicos que tentam apreend&ecirc;-los. Esse ponto comum n&atilde;o &eacute; nada al&eacute;m do que um desmentido do Outro ao qual o sintoma se endere&ccedil;a e que, de certa maneira, ele inclui. O lugar do Outro na fabrica&ccedil;&atilde;o dos sintomas e em seu endere&ccedil;amento mant&eacute;m-se como o ponto cego, tanto nos novos diagn&oacute;sticos psicopatol&oacute;gicos quanto nos modelos heur&iacute;sticos voltados para sua inteligibilidade e tratamento. O desmentido procederia tanto da subst&acirc;ncia de uma civiliza&ccedil;&atilde;o quanto das formas de express&atilde;o de suas patologias. E &eacute; o adicto que vem hoje testemunhar, como m&aacute;rtir, esta solidariedade entre uma forma de civiliza&ccedil;&atilde;o e suas patologias, o niilismo de nossa modernidade. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Palavras-chave:</b> adicto; civiliza&ccedil;&atilde;o; desmentido; diagn&oacute;stico; niilismo; patologia. </font></p> <hr size="1" noshade>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ABSTRACT</b> </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> In our culture there is a common denominator between the formal envelopes of symptoms and the psychopathological models that try to apprehend them. This common point is not any other than the denial of the Other to whom the symptom is addressed, and that it includes in a certain way. The place of the Other in the fabrication of symptoms and in their address is still the blind spot for both the new psychopathological diagnoses and the heuristic models which try to account for their intelligibility and treatment. This denial results from the substance of a civilization, and the way in which it expresses its pathologies. Today it is the addict, who better testifies, as a martyr, on this indulgence between a form of civilization and its pathologies, the nihilism of our modernity. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Keywords:</b> addict; civilization; denegation; diagnostic; nihilism; pathology. </font></p> <hr size="1" noshade>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>&#91;...&#93; n&atilde;o se deve dizer que uma hora (de trabalho) de um homem vale uma hora de um outro homem, mas sim que um homem de uma hora vale um outro homem de uma hora. O tempo &eacute; tudo, o homem n&atilde;o &eacute; mais nada; ele &eacute; no m&aacute;ximo a carca&ccedil;a do tempo.</i>    <br>   (Marx, citado por Lukacs, 1960: 117) </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Desejo introduzir a quest&atilde;o desta civiliza&ccedil;&atilde;o do niilismo que &eacute; a nossa - e da qual testemunham tanto as patologias sociais atuais quanto os modos de conhecimento que tentam lev&aacute;-las em conta - pela evoca&ccedil;&atilde;o de um romance contempor&acirc;neo cuja verdade me parece bem mais profunda que in&uacute;meras bobagens psicol&oacute;gicas ou m&eacute;dicas que s&atilde;o regularmente publicadas hoje em dia (Zeh, &#91;2004&#93; 2007). </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Trata-se de <i>A mo&ccedil;a sem qualidades</i>, de Juli Zeh (2004), publicado na vers&atilde;o francesa em 2007. Em um liceu alem&atilde;o, o jogo perverso de dois adolescentes de nossa &eacute;poca termina em um banho de sangue. Ada, filha autoproclamada do niilismo, designa-se a si mesma como o "prot&oacute;tipo" de nossa civiliza&ccedil;&atilde;o, "uma mo&ccedil;a sem qualidades", sem identidade, e <i>que procura apenas comportar-se com a maior efici&ecirc;ncia poss&iacute;vel. </i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para o professor que lhe censura suas opini&otilde;es em suas disserta&ccedil;&otilde;es filos&oacute;ficas, ali&aacute;s geniais, ela faz uma demonstra&ccedil;&atilde;o l&oacute;gica l&uacute;cida, que chega ao ponto de desestabilizar esse professor, temido por todos os outros alunos. Ao professor, que observa que para qualquer coisa se pode encontrar, pelo menos, duas perspectivas poss&iacute;veis das quais nenhuma poderia pretender ser tomada como verdade absoluta, ela retorque por uma argumenta&ccedil;&atilde;o l&oacute;gica: "O senhor &eacute; casado? Ama sua mulher? J&aacute; lhe ocorreu que teria podido, da mesma maneira, odi&aacute;-la?". "N&atilde;o, claro", responde o professor! "Se &eacute; o caso", diz ela em voz baixa, "ent&atilde;o pare com essas sandices de duas perspectivas poss&iacute;veis para qualquer coisa". </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">"H&ouml;fi abriu a boca, depois fechou. Ele aquiesceu com a cabe&ccedil;a como se tivesse obtido uma informa&ccedil;&atilde;o relativamente secund&aacute;ria, mas indispens&aacute;vel, e que ele esperava h&aacute; bastante tempo; depois prosseguiu seu curso" (Zeh, &#91;2004&#93; 2007: 20)... pelo menos at&eacute; seu suic&iacute;dio. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ada l&ecirc; muito, imp&otilde;e aos outros respeito e medo, mas nenhuma simpatia, n&atilde;o mais do que ela se concede a si mesma. Ela se quer "bisneta" dos niilistas, e para ela a exist&ecirc;ncia deve ser gerida como um computador: ante uma situa&ccedil;&atilde;o dif&iacute;cil "Ada, o olho perdido, procurava o menu 'ajuda'" (Zeh, &#91;2004&#93; 2007: 69). Ela odeia, "de todo seu cora&ccedil;&atilde;o, seu pr&oacute;prio corpo, e teria sem d&uacute;vida acabado anor&eacute;tica se n&atilde;o fosse t&atilde;o relaxada" (Zeh, &#91;2004&#93; 2007: 71). Ada se mostra rebelde a qualquer terapia porque seu &uacute;nico problema consiste em que ela deve viver acima dos seus meios e ambiente, m&atilde;e depressiva e pai ausente. Toda sua exist&ecirc;ncia &eacute; racionalizada, instrumentalizada, e quando quer dar um presente para o jovem pelo qual ela sente algum afeto, &eacute; a si mesma que oferece como presente. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Mas n&atilde;o &eacute; de qualquer maneira, porque o que ela lhe d&aacute; por seu anivers&aacute;rio &eacute; uma fela&ccedil;&atilde;o preparada com anteced&ecirc;ncia pela pr&aacute;tica de assistir a cassetes pornogr&aacute;ficos que ela olha como uma documenta&ccedil;&atilde;o: as imagens n&atilde;o t&ecirc;m para ela qualquer sentido. "Ela teria podido, da mesma forma, olhar um document&aacute;rio zool&oacute;gico sobre o acasalamento de anf&iacute;bios" (Zeh, &#91;2004&#93; 2007: 98). Ela se prepara para a prova a partir de uma cena precisa, digitalizada em sua consci&ecirc;ncia: </font></p> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">     <blockquote>A passagem que interessava a Ada consistia em uma fela&ccedil;&atilde;o de v&aacute;rios minutos de dura&ccedil;&atilde;o. Ela volta &agrave; cena v&aacute;rias vezes para rev&ecirc;-la, estuda a forma como a assistente colocava cabe&ccedil;a e corpo, grava em sua mem&oacute;ria o &acirc;ngulo formado pela cabe&ccedil;a da mulher e o instrumento do cliente, pois os detalhes geom&eacute;tricos desta t&eacute;cnica deveriam ter sua import&acirc;ncia para evitar n&aacute;useas e mal-estar respirat&oacute;rio (Zeh, &#91;2004&#93; 2007: 99). </blockquote> </font>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A fela&ccedil;&atilde;o acontece, mas o encontro fracassa. &Eacute; ent&atilde;o que aparece em sua vida seu c&uacute;mplice em intelig&ecirc;ncia, viol&ecirc;ncia e infelicidade: Alev. Para ele "todo interlocutor era um advers&aacute;rio e toda conversa&ccedil;&atilde;o uma batalha. &#91;...&#93; A busca de sentido &eacute; puro narcisismo, diz ele" (Zeh, &#91;2004&#93; 2007: 123). &Eacute; um &ecirc;mulo da teoria dos jogos. A vida n&atilde;o tem qualquer sentido, al&eacute;m disso n&atilde;o h&aacute; qualquer raz&atilde;o para tomar &agrave; esquerda ou &agrave; direita, salvo uma fun&ccedil;&atilde;o definida pelos pap&eacute;is ou probabilidades. Esses adolescentes, nascidos durante a Primeira Guerra do Golfo, crian&ccedil;as durante a Guerra dos B&aacute;lc&atilde;s e no 11 de setembro, s&atilde;o <i>os herdeiros de nosso terrorismo</i>, aquele de nossa hist&oacute;ria e da estrutura de nossas civiliza&ccedil;&otilde;es. Eles s&atilde;o atra&iacute;dos apenas pelos jogos de pap&eacute;is, as drogas, as m&uacute;sicas apocal&iacute;pticas e as excita&ccedil;&otilde;es na manipula&ccedil;&atilde;o dos outros e de si. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Alev &eacute; impotente. Ele &eacute; todo poderoso no controle de si mesmo e dos outros, mas n&atilde;o tem ere&ccedil;&atilde;o. &Eacute; ent&atilde;o em uma outra cena que ele vai gozar com Ada. Depois de lhe ter explicado o "dilema do prisioneiro", Alev inicia Ada no grande jogo da reifica&ccedil;&atilde;o do outro. Ela deve se fazer beijar por um jovem professor - Smutek - enquanto Alev tira fotos, a fim de poderem depois "fazer dele o que quisermos". O projeto agrada a Ada que decide coloc&aacute;-lo em pr&aacute;tica, n&atilde;o sem, preparatoriamente, desvirginar-se, ela mesma, com um vibrador, friamente, tristemente, quase inteiramente vestida. Mas como lhe repete o impotente e todopoderoso Alev, tudo &eacute; equivalente, quer dizer, tudo vale a mesma coisa... exceto os jogos matem&aacute;ticos. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Sem "desvirginar" ainda mais a intriga do romance, sublinhemos que Smutek, o professor seduzido e sedutor, torna-se um objeto nas m&atilde;os deles, sob a amea&ccedil;a de ver as fotos de suas folias com Ada divulgadas pela Internet. Nesse contexto, Alev pode dizer que "o terrorismo aparecia como um problema ret&oacute;rico" (Zeh, &#91;2004&#93; 2007: 260). Ele n&atilde;o acredita mais nem no niilismo. A cren&ccedil;a n&atilde;o basta mais, &eacute; preciso tamb&eacute;m a reifica&ccedil;&atilde;o do outro para que a exist&ecirc;ncia possa manter uma ponta de consist&ecirc;ncia. Tudo deve ser realizado com precis&atilde;o cir&uacute;rgica para que o novo inferno seja feito de luz e de a&ccedil;o. Ada entrev&ecirc; a viol&ecirc;ncia contida nesse "mundo digitalizado": </font></p> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">     <blockquote>O mais aterrorizante, &eacute; que provavelmente nada disso me aterroriza (diz Ada). Ada havia pousado sua m&atilde;o sobre o mouse e se p&otilde;e a clicar para fazer desfilar o resto de sua cole&ccedil;&atilde;o. Ela n&atilde;o se sentia mais concernida por esse amontoado de carne do que por suas pr&oacute;prias lembran&ccedil;as; como se conhecia, ela sabia pertinentemente que a aus&ecirc;ncia de concord&acirc;ncia entre presente e passado n&atilde;o procedia de uma necessidade de autoprote&ccedil;&atilde;o, mas antes de um problema t&eacute;cnico (Zeh, &#91;2004&#93; 2007: 285-285). </blockquote> </font>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&Eacute; como te&oacute;logo que Alev persegue sua obra de destrui&ccedil;&atilde;o, obrigando Smutek, sob amea&ccedil;a, a reproduzir suas farras. <i>O jogo consiste ent&atilde;o em fazer realizar na sujei&ccedil;&atilde;o o que se deseja, para aniquilar o desejo. A pessoa reproduz transitivamente sua pr&oacute;pria aboli&ccedil;&atilde;o subjetiva. &Eacute; uma forma de inicia&ccedil;&atilde;o ao trauma e pelo trauma. </i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Smutek sente-se esmagado por esses jovens perturbados, errantes no pr&oacute;prio interior de sua gera&ccedil;&atilde;o, como muitas "constru&ccedil;&otilde;es voadoras"<a name="1b"></a><a href="#1a"><sup>1</sup></a>, guerrilheiros da exist&ecirc;ncia sem guerra. Mas Smutek n&atilde;o quer mais "perguntas nem respostas. Ele se preparava para obedecer" (Zeh, &#91;2004&#93; 2007: 293). N&atilde;o se trata mais aqui de "gozar sem sujei&ccedil;&atilde;o", nem mesmo de "gozar da sujei&ccedil;&atilde;o", mas sim de "gozar na sujei&ccedil;&atilde;o", para que exista pelo olho e pela imagem <i>o ponto de inconsist&ecirc;ncia de um adolescente impotente. </i>Tal &eacute; o segredo de nossa civiliza&ccedil;&atilde;o: "ela n&atilde;o tinha nada a fazer, sen&atilde;o gozar da capacidade que a natureza lhe tinha dispensado com a maior liberalidade: indiferen&ccedil;a com respeito &agrave; sua pr&oacute;pria exist&ecirc;ncia. Estava l&aacute; todo o segredo" (Zeh, &#91;2004&#93; 2007: 313). Com "Internet: provedor de cor local para naturezas n&ocirc;mades" (Zeh, &#91;2004&#93; 2007: 316), estes bisnetos dos niilistas podem dizer: "N&oacute;s n&atilde;o temos mais nada em que possamos n&atilde;o acreditar. Resulta disso, matematicamente, que acreditamos em tudo. Tudo &eacute; indiferente, equivalente" (Zeh, &#91;2004&#93; 2007: 408). </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O que esses adolescentes perderam foi o medo de perder, que faz a subst&acirc;ncia &eacute;tica do conflito intersubjetivo e pol&iacute;tico de uma civiliza&ccedil;&atilde;o. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ent&atilde;o, para concluir esse ponto: trata-se menos, para mim, de submeter os enunciados deste bel&iacute;ssimo romance a uma interpreta&ccedil;&atilde;o que fique sem objeto (Stein, 1994), do que convid&aacute;-los a deixar-se interpretar pelos efeitos que a leitura deste romance pode produzir sobre n&oacute;s quando hoje nos interrogamos sobre a viol&ecirc;ncia. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Se cada cultura tem a patologia mental que merece e a psicopatologia que lhe conv&eacute;m, o que &eacute; hoje da nossa, que n&atilde;o cessa de insistir sobre as perturba&ccedil;&otilde;es do comportamento e suas determina&ccedil;&otilde;es neurogen&eacute;ticas? </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O que &eacute; hoje dessas psicopatologias, e dos sofrimentos que elas supostamente diagnosticariam, enquanto reveladoras da subst&acirc;ncia &eacute;tica da cultura da qual elas emergem, e que elas contribuem, em retorno, para recodificar? </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">H&aacute; em nossa cultura um ponto comum entre os envelopes formais dos sintomas e os modelos psicopatol&oacute;gicos que tentam dar conta deles. Este ponto comum n&atilde;o &eacute; outro do que o de um desmentido do Outro<a name="2b"></a><a href="#2a"><sup>2</sup></a> para qual o sintoma se endere&ccedil;a e que, de certo modo, ele inclui. O lugar do Outro na fabrica&ccedil;&atilde;o dos sintomas e no seu endere&ccedil;amento mant&eacute;m-se como o ponto cego, tanto dos novos diagn&oacute;sticos psicopatol&oacute;gicos como dos modelos heur&iacute;sticos que visam sua inteligibilidade e tratamento. Este desmentido me parece proceder tanto da subst&acirc;ncia de uma civiliza&ccedil;&atilde;o como das formas de express&atilde;o de suas patologias. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Tive a oportunidade de dizer em outro lugar que a adic&ccedil;&atilde;o, a depress&atilde;o, o autismo, o transtorno de d&eacute;ficit da aten&ccedil;&atilde;o com hiperatividade (TDAH), o transtorno desafiador opositivo (TDO), a delinqu&ecirc;ncia, as v&aacute;rias disfun&ccedil;&otilde;es, todas estas patologias s&atilde;o atualmente sistematicamente abordadas sem que o lugar do Outro para o qual elas se endere&ccedil;am seja situado, ainda que pouco. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nada de espantoso, desde ent&atilde;o, que a psican&aacute;lise e uma certa filosofia possam se tornar objetos de &oacute;dio desta civiliza&ccedil;&atilde;o sem Outro (Roudinesco, 2005). &Oacute;dio da transfer&ecirc;ncia, &oacute;dio do pensamento, &oacute;dio da linguagem. Tal civiliza&ccedil;&atilde;o inscreve na cultura t&eacute;cnicas dessubjetivantes de sujeitar. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Este <i>impasse sobre o lugar do Outro no sintoma </i>me parece predispor os indiv&iacute;duos &agrave; reifica&ccedil;&atilde;o dos outros e deles mesmos, a esta coisifica&ccedil;&atilde;o pela qual eles expressam preferencialmente seu sofrimento e da qual, em retorno, eles contratransferencialmente se tornam as v&iacute;timas no jogo dos diagn&oacute;sticos e dos cuidados que os tomam a cargo. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para dizer de outra forma, se os sintomas atualmente s&atilde;o diagnosticados preferencialmente dentro do modelo das patologias do agir, isso talvez se deva menos &agrave; natureza dos indiv&iacute;duos que os expressam do que aos vetores da civiliza&ccedil;&atilde;o que participam em sua constru&ccedil;&atilde;o. Porque h&aacute; uma verdadeira isomorfia entre os envelopes formais dos sintomas pelos quais os sofrimentos ps&iacute;quicos e sociais se exprimem e os modelos heur&iacute;sticos que os teorizam: nega&ccedil;&atilde;o do Outro para o qual se endere&ccedil;a a queixa, nega&ccedil;&atilde;o da realidade interior do sujeito, assim como de seus parceiros, nega&ccedil;&atilde;o da representa&ccedil;&atilde;o mental, do sentido e da hist&oacute;ria, nega&ccedil;&atilde;o dos afetos em proveito das experi&ecirc;ncias emocionais e dos desempenhos comportamentais. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No sentido winnicottiano do termo, estar&iacute;amos aqui em uma "defesa man&iacute;aca" (Winnicott, &#91;1935&#93; 1969) compartilhada intersubjetiva e tacitamente entre os diferentes parceiros da transa&ccedil;&atilde;o terap&ecirc;utica, pacientes e cuidadores imersos na mesma civiliza&ccedil;&atilde;o. Winnicott deu uma defini&ccedil;&atilde;o desta "patologia" que nos parece pertinente: </font></p> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">     <blockquote>A express&atilde;o "defesa man&iacute;aca" se prop&otilde;e cobrir a capacidade da qual disp&otilde;e uma pessoa para negar a ang&uacute;stia depressiva inerente ao desenvolvimento afetivo, ang&uacute;stia que pertence &agrave; capacidade de sentir a culpabilidade, de reconhecer sua responsabilidade pelas experi&ecirc;ncias instintivas e pela agressividade na fantasia que acompanha as experi&ecirc;ncias instintivas (Winnicott, &#91;1935&#93; 1969: 32). </blockquote> </font>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">N&atilde;o quero dizer com isso que todo sujeito, paciente ou cuidador, esteja inevitavelmente condenado a esta s&eacute;rie de desmentidos, mas simplesmente que ele tem que se debater sempre mais com os novos dispositivos de civiliza&ccedil;&atilde;o que incitam a esta reifica&ccedil;&atilde;o. Sem d&uacute;vida, &eacute; o cora&ccedil;&atilde;o do debate que mantenho com meu amigo Jean-Pierre Lebrun: no meu ponto de vista, estamos menos em presen&ccedil;a de "novos sujeitos" do que em presen&ccedil;a de novos dispositivos de subjetiva&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o nos deixam abordar os sujeitos sen&atilde;o atrav&eacute;s dos modelos que os reificam, e constituem verdadeiramente profecias autorrealizadoras. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Um exemplo entre cem: fala-se que a viol&ecirc;ncia dos menores n&atilde;o cessa de aumentar, mas o que se esquece &eacute; que se trata menos do incremento da viol&ecirc;ncia individual do que do alargamento cada vez maior do per&iacute;metro que a define! </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&Eacute; menos a viol&ecirc;ncia que aumenta do que nosso limiar de toler&acirc;ncia social que se reduz, e isto tanto mais que, na solid&atilde;o extrema de nossa cultura hiperindividualista e empresarial, a "almofada" social que a amortizava se torna cada vez menos eficiente. H&aacute; um apagamento antropol&oacute;gico dos sofrimentos ps&iacute;quicos e sociais em proveito de uma concep&ccedil;&atilde;o da psiquiatria muito associada &agrave; seguran&ccedil;a p&uacute;blica. Fazendo isso, essa medicaliza&ccedil;&atilde;o dos desvios que n&atilde;o acredita mais no cuidado, nem no car&aacute;ter redentor da puni&ccedil;&atilde;o e no que a san&ccedil;&atilde;o implica como perd&atilde;o e como promessa, essa medicaliza&ccedil;&atilde;o do desvio social fabrica tamb&eacute;m popula&ccedil;&otilde;es de exclu&iacute;dos nas quais ela localiza os determinantes neurogen&eacute;ticos das viol&ecirc;ncias. A exemplaridade das dores individualizadas, projetada segundo o modelo das empresas em liquida&ccedil;&atilde;o de bens, mascara o retorno do conceito de "classes perigosas", no seio das quais o indiv&iacute;duo &eacute; um exemplar da esp&eacute;cie. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Esse abaixamento do limiar de toler&acirc;ncia social se manifesta hoje de maneira obscena tamb&eacute;m na recomposi&ccedil;&atilde;o dos saberes e das pr&aacute;ticas profissionais da psicopatologia. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Assistimos a uma mudan&ccedil;a de paradigma: as novas pr&aacute;ticas psicol&oacute;gicas e m&eacute;dicas quase n&atilde;o lidam mais com os conceitos de realidade ps&iacute;quica, ang&uacute;stia, culpa ou desejo. S&oacute; se imp&otilde;em as t&eacute;cnicas de rentabilidade comportamental, as estrat&eacute;gias de administra&ccedil;&atilde;o das condutas, que v&atilde;o educar o indiv&iacute;duo para melhor se governar, para gerir seu "capital humano" de acordo com seus interesses. E este governo das condutas se inscreve no campo "natural" do mercado de acordo com uma l&oacute;gica do lucro que faz de todo indiv&iacute;duo um "empres&aacute;rio de si mesmo" (Foucault, 1974-1975). </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os dispositivos de sa&uacute;de mental n&atilde;o t&ecirc;m mais que apreender o indiv&iacute;duo em sua estrutura ps&iacute;quica ou em sua ecologia social, mas devem garantir o levantamento dos comportamentos individuais, o esquadrinhamento e a localiza&ccedil;&atilde;o das popula&ccedil;&otilde;es e a modelagem de suas racionalidades pelo governo digital e pela escultura dos psicotr&oacute;picos. &Eacute; assim que se veio a oferecer a toda crian&ccedil;a uma mam&atilde;e mol&eacute;cula e um papai TCC. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Simultaneamente, os sintomas em nome dos quais os pacientes v&ecirc;m se consultar parecem mudar de envelopes formais e se exprimem sempre mais em perturba&ccedil;&otilde;es do comportamento, patologias do agir e instrumentaliza&ccedil;&otilde;es de si mesmo e dos outros. Estes sintomas s&atilde;o hoje agrupados na grande fam&iacute;lia dos "dis", o imp&eacute;rio do "dis", disl&eacute;xicos, disortogr&aacute;ficos, discalc&uacute;licos, disf&oacute;ricos, dist&iacute;micos, disfuncionantes er&eacute;teis, em suma, os "disfuncionais" de todos os tipos. A psiquiatria se ocupava do diagn&oacute;stico e do cuidado dos indiv&iacute;duos em sofrimento mental, a sa&uacute;de mental se preocupa com os "disfuncionantes" cujo campo pode ser estendido at&eacute; o infinito. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Este "dis" &eacute; um produto dos dispositivos de fabrica&ccedil;&atilde;o do "handicap", que apagam as diferen&ccedil;as, homogeneizam os sofrimentos e, ao mesmo tempo, localizam e amplificam as imperfei&ccedil;&otilde;es e os "estigmas". </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">N&atilde;o h&aacute; mais "vadios", "idiotas" ou "bobos", escreveu uma jornalista de Proven&ccedil;a (Manelli, 2007), mas crian&ccedil;as "dis"... Quarenta e cinco mil apenas na regi&atilde;o de Provence-Alpes-C&ocirc;te d'Azur. "Os progressos da neurologia permitem cada vez mais diagnosticar precisamente esses impedimentos, cuja origem &agrave;s vezes &eacute; gen&eacute;tica, &agrave;s vezes ligada a acidentes de nascimento" e, se "n&atilde;o se cura destes transtornos, aprende-se a contorn&aacute;-los &#91;...&#93;. Uma crian&ccedil;a &acute;dis&acute;, corretamente tratada, pode perfeitamente prosseguir uma escolaridade normal e obter diplomas universit&aacute;rios", concluiu a jornalista que entrevistava o chefe de servi&ccedil;o de psiquiatria (Manelli, 2007: s/p). </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&Eacute;, portanto, toda uma nova maneira de dizer o mundo que se estabelece. O "dis" como vetor desta novil&iacute;ngua constitui uma h&aacute;bil inven&ccedil;&atilde;o lingu&iacute;stica que permite responder &agrave;s necessidades sociais e &agrave;s necessidades antropol&oacute;gicas do neoliberalismo. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O que &eacute; um "dis"? "Dis" vem do prefixo grego "<i>dus</i>" para exprimir um sentimento de dificuldade, de falta ou de dor no funcionamento dos dispositivos da exist&ecirc;ncia. Alain Rey (1992) nota que este prefixo &eacute; um elemento de composi&ccedil;&atilde;o muito antigo e produtivo, j&aacute; que durante toda a hist&oacute;ria do grego antigo esse prefixo serviu para formar mais de mil palavras em todos os g&ecirc;neros liter&aacute;rios. Nota-se que, em compara&ccedil;&atilde;o, o DSM-IV, com seus 395 transtornos do comportamento, ainda faz figura de pai pobre... mas n&atilde;o desesperemos, o mercado est&aacute; promissor. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Acrescentemos, &agrave; grande fam&iacute;lia dos "dis", estas minidelinqu&ecirc;ncias que seriam os transtornos desafiadores opositivos, os transtornos de conduta, os transtornos invasivos do desenvolvimento, os transtornos da adapta&ccedil;&atilde;o, o transtorno do d&eacute;ficit de aten&ccedil;&atilde;o com hiperatividade (TDAH), as adic&ccedil;&otilde;es, as depend&ecirc;ncias cibern&eacute;ticas, as depress&otilde;es da realidade virtual, etc. Constata-se ent&atilde;o que o grupo dos an&ocirc;malos n&atilde;o cessa de aumentar, tanto quanto o menu das ilegalidades. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Hoje, como ontem, a recodifica&ccedil;&atilde;o m&eacute;dica da psiquiatria opera pela jun&ccedil;&atilde;o do jur&iacute;dico e do org&acirc;nico. &Eacute; a quest&atilde;o do transtorno, do perigo, do risco que permite de novo &agrave; psiquiatria esse retorno para o "pensamento m&eacute;dico". N&atilde;o se poderia compreender os debates atuais em torno da preven&ccedil;&atilde;o da delinqu&ecirc;ncia sem uma perspectiva hist&oacute;rica que permitisse apreender a liga&ccedil;&atilde;o constante, desde o s&eacute;culo XIX, do jur&iacute;dico e do org&acirc;nico. &Eacute; esta liga&ccedil;&atilde;o que permite a amplia&ccedil;&atilde;o quase infinita do dom&iacute;nio de inger&ecirc;ncia do psiquiatra, e sua participa&ccedil;&atilde;o a partir de um modelo org&acirc;nico na defesa da ordem social (Foucault, 1974-1975). Hoje, como ontem, o poder demanda &agrave; psiquiatria, rebatizada de sa&uacute;de mental, que diga como identificar o desvio do sujeito antes mesmo que ele tenha se estabelecido. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O futuro pertence aos ep&iacute;gonos de <i>Lombroso</i><a name="3b"></a><a href="#3a"><sup>3</sup></a>, nesta nova obsess&atilde;o social que constitui a preocupa&ccedil;&atilde;o de apreender o mais cedo poss&iacute;vel os &iacute;ndices e os sinais das "anomalias" a partir das tecnologias biom&eacute;tricas, e a exig&ecirc;ncia de identificar seus potenciais de "periculosidade". Lombroso &eacute;, al&eacute;m disso, mencionado desde a p&aacute;gina 2 do relat&oacute;rio <i>Inserm </i>de 2005 sobre "o transtorno de conduta na crian&ccedil;a e no adolescente"<a name="4b"></a><a href="#4a"><sup>4</sup></a>, relat&oacute;rio de avalia&ccedil;&atilde;o que mobilizou uma grande emo&ccedil;&atilde;o no pa&iacute;s e iniciou o movimento <i>Pas de 0 de conduite</i><a name="5b"></a><a href="#5a"><sup>5</sup></a>. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para melhor compreender a forma pela qual as t&eacute;cnicas atuais de obter a sujei&ccedil;&atilde;o dessubjetivante podem permitir a precipita&ccedil;&atilde;o, no sentido qu&iacute;mico, das patologias, poder&iacute;amos tamb&eacute;m fazer um desvio pela adic&ccedil;&atilde;o. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Quem melhor que o adicto poderia hoje vir testemunhar sobre essa recusa do Outro e da realidade interna? </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Quem melhor que o adicto pode hoje, como m&aacute;rtir, testemunhar essa solidariedade<a name="6b"></a><a href="#6a"><sup>6</sup></a> entre uma forma de civiliza&ccedil;&atilde;o e suas patologias? </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Quem melhor que o adicto, no desespero das viol&ecirc;ncias feitas a si mesmo e aos outros, poderia hoje em dia vir testemunhar sobre nosso niilismo e suas patologias? </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Freud escreve a Fliess em 22 de dezembro de 1887: "Passei a acreditar que a masturba&ccedil;&atilde;o &eacute; o &uacute;nico grande h&aacute;bito, o 'v&iacute;cio prim&aacute;rio' e que &eacute; apenas como substitutos e suced&acirc;neos dela que os outros v&iacute;cios - &aacute;lcool, morfina, tabaco e coisas parecidas - passam a existir" (Freud, &#91;1887-1904&#93; 1969: 211-212). Em <i>Mal-estar na civiliza&ccedil;&atilde;o </i>Freud (&#91;1929&#93; 1971) aborda de forma precisa esta fun&ccedil;&atilde;o do t&oacute;xico na economia libidinal dos indiv&iacute;duos e dos povos: </font></p> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">     <blockquote>N&atilde;o lhes devemos apenas um prazer imediato, mas tamb&eacute;m um grau de independ&ecirc;ncia ardentemente desejada com rela&ccedil;&atilde;o ao mundo exterior. Sabemos que, com a ajuda do "afogador de preocupa&ccedil;&otilde;es", pode-se a cada instante subtrair-se ao fardo da realidade e refugiar-se em um mundo pr&oacute;prio que reserva melhores condi&ccedil;&otilde;es &agrave; sensibilidade. Mas sabe-se tamb&eacute;m que essa propriedade dos estupefacientes constitui precisamente seu perigo e sua nocividade (Freud, &#91;1929&#93; 1971: 23). </blockquote> </font>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Considerando todo o alcance da an&aacute;lise freudiana, pode-se medir a que ponto a fun&ccedil;&atilde;o do t&oacute;xico se revela como uma recusa ao mundo exterior e &agrave; amea&ccedil;a que ele cont&eacute;m, o que o psicanalista experimenta cotidianamente no manejo da transfer&ecirc;ncia particular que o paciente toxic&ocirc;mano p&otilde;e em a&ccedil;&atilde;o. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>A masturba&ccedil;&atilde;o, como a droga, recusa o desejo</i>, foge dele e libera da depend&ecirc;ncia ao outro, transformando a depend&ecirc;ncia poss&iacute;vel a um Outro em uma depend&ecirc;ncia a um produto. O produto recusa a altera&ccedil;&atilde;o contida em toda alteridade e faz obje&ccedil;&atilde;o tanto ao amor como ao desejo, que sup&otilde;em o reconhecimento de uma falta deportada ao campo do Outro. O produto consagra o "fetichismo da mercadoria" em uma economia subjetiva que encontra nas formas de civiliza&ccedil;&atilde;o os envelopes formais de seus sintomas. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O toxic&ocirc;mano &eacute; um man&iacute;aco que se libera do real, fazendo do produto um obst&aacute;culo ao objeto. Sabemos que o objeto &eacute; o que &eacute; jogado antes - <i>objectum -</i>, ante esse "real"<a name="7b"></a><a href="#7a"><sup>7</sup></a> que a psican&aacute;lise nos ensinou a cernir sob as diferentes categorias de falta. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ante esse objeto que vela a falta, assim como lhe d&aacute; uma forma, o toxic&ocirc;mano joga um fetiche, o fetiche do produto. Aqui &eacute; o produto que faz obst&aacute;culo ao objeto. Mas de qual objeto se trata? </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Essa quest&atilde;o &eacute; essencial tanto para dar conta da psican&aacute;lise do toxic&ocirc;mano quanto para dever reconhecer o estatuto dos objetos em nossa civiliza&ccedil;&atilde;o. Desde j&aacute; poder&iacute;amos esquematicamente enunciar que os objetos de nossa civiliza&ccedil;&atilde;o s&atilde;o mercadorias que fazem obje&ccedil;&atilde;o &agrave;quilo que a psican&aacute;lise chama justamente de objeto. O toxic&ocirc;mano, melhor que ningu&eacute;m, nos convida a interrogar o estatuto do objeto em psican&aacute;lise e a entender o objeto menos como o conceito do que foi perdido do que <i>como o nome daquilo que jamais foi possu&iacute;do ou que escapa &agrave; apropria&ccedil;&atilde;o</i>. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nesse sentido, o produto, a subst&acirc;ncia, os efeitos de &ecirc;xtase dos quais o toxic&ocirc;mano se mostra t&atilde;o dependente n&atilde;o s&atilde;o ainda um objeto no sentido psicanal&iacute;tico do termo. Nesse sentido ainda, a paix&atilde;o das drogas obedece estritamente a uma l&oacute;gica do desmentido, l&oacute;gica espec&iacute;fica das paix&otilde;es (Gori, 2004). Como o erot&ocirc;mano ou qualquer outro delirante passional, o toxic&ocirc;mano procura na miragem passional a consist&ecirc;ncia ontol&oacute;gica que lhe falta. E essa consist&ecirc;ncia ontol&oacute;gica que lhe falta prov&eacute;m justamente de seu desmentido do objeto, ou seja, da falta, do real pelo qual se constitui a subjetividade. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nossa civiliza&ccedil;&atilde;o participa a seu modo desta fixa&ccedil;&atilde;o do toxic&ocirc;mano &agrave; l&oacute;gica do desmentido da falta, que &eacute; apenas outro nome do desmentido do Outro de que falamos. E a participa&ccedil;&atilde;o de nossa civiliza&ccedil;&atilde;o nesta l&oacute;gica do desmentido do objeto, no sentido psicanal&iacute;tico, em proveito da mercadoria, evidencia-se no pr&oacute;prio diagn&oacute;stico de "adic&ccedil;&atilde;o" com o qual ela veste o apaixonado pela droga. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Com efeito, qual o "nicho ecol&oacute;gico" (Hacking, 1998) deste conceito de adic&ccedil;&atilde;o que a sociedade contempor&acirc;nea prefere &agrave;quele de toxicomania ou ao de paix&atilde;o das drogas? O que &eacute; que essa escolha terminol&oacute;gica de adic&ccedil;&atilde;o vem revelar da "subst&acirc;ncia &eacute;tica" de nossa cultura e de sua participa&ccedil;&atilde;o no sintoma? </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Se nos deixamos guiar pelo sentimento lingu&iacute;stico, constatamos que com o termo adic&ccedil;&atilde;o esse apaixonado das drogas surge como um irm&atilde;o do consumidor p&oacute;s-moderno, do cidad&atilde;o p&oacute;s-pol&iacute;tico, do <i>homo clausus </i>de nossa civiliza&ccedil;&atilde;o que convida o sujeito a se tornar um indiv&iacute;duo, "empres&aacute;rio de si mesmo", microempresa ultraliberal autogerada e competitiva, aut&ocirc;noma e solit&aacute;ria, voltada ao isolamento pelo consumo de suas pr&oacute;prias experi&ecirc;ncias de vida, mercantilizadas, virtualizadas, descart&aacute;veis e ef&ecirc;meras. Essa civiliza&ccedil;&atilde;o de <i>Tamagoshi</i><a name="8b"></a><a href="#8a"><sup>8</sup></a> oferece um gozo masturbat&oacute;rio evitando ter que passar pelo Outro para amar, odiar ou desejar. O objeto e o sujeito n&atilde;o s&atilde;o mais que posi&ccedil;&otilde;es ou experi&ecirc;ncias virtuais sem cessar mercantilizadas pela "sociedade do espet&aacute;culo" (Debord, 1967). </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Com esse lembrete, queria simplesmente sublinhar que o nicho ecol&oacute;gico do diagn&oacute;stico de adic&ccedil;&atilde;o prov&eacute;m tanto do sofrimento ps&iacute;quico de um sujeito quanto da subst&acirc;ncia &eacute;tica da cultura ao seio da qual os especialistas elaboram seu saber. "Adicto, tu &eacute;s um outro tu mesmo", poderia retorquir o apaixonado pelas drogas ao psiquiatra veterin&aacute;rio que tende a medicalizar seu sofrimento, sua ang&uacute;stia e sua loucura, reduzindo-as a um "transtorno do comportamento" adictivo. O que &eacute; a adic&ccedil;&atilde;o? </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O termo adic&ccedil;&atilde;o designava um estado de depend&ecirc;ncia e escravid&atilde;o, de constrangimento do corpo sancionando um sujeito que n&atilde;o pagou suas d&iacute;vidas. A marginalidade do adicto de hoje participa de uma contracultura que se revela insepar&aacute;vel da civiliza&ccedil;&atilde;o no seio da qual ela se desenvolve e das pr&aacute;ticas sociais que estabelecem esse diagn&oacute;stico. Com o termo adic&ccedil;&atilde;o, a psiquiatria revela que tudo pode ser desviado de seu uso - Internet, jogo, v&iacute;deo, &aacute;lcool, medicamento, solvente, jogo de azar, sexo, terapia, amor, trabalho, p&aacute;tria, etc. - para se tornar o objeto de uma paix&atilde;o louca, de uma escravid&atilde;o livremente consentida pelo sujeito que a ele empenha corpo e alma. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A medicaliza&ccedil;&atilde;o da exist&ecirc;ncia coloca sob controle sanit&aacute;rio tanto as margens toler&aacute;veis quanto os excessos dessas condutas do consumo "normais" mas desregradas, indicando ao indiv&iacute;duo como ele deve se comportar para bem se portar (Gori &amp; Del Volgo, 2005). O adicto de hoje n&atilde;o &eacute; mais o apaixonado rom&acirc;ntico dos para&iacute;sos artificiais do s&eacute;culo XIX, nem o toxic&ocirc;mano de ontem, adepto sem o saber de uma cren&ccedil;a maurrasiana segundo a qual apenas a realidade material n&atilde;o mente, mas sim esse positivista radicalmente aberto e oferecido a todas as mercadorias proteiformes e virtuais que ele compra, e sob as quais n&atilde;o mais reconhece sua pr&oacute;pria vida. A este t&iacute;tulo, o adicto de hoje testemunha, como m&aacute;rtir, as ilus&otilde;es de uma sociedade neoliberal e fetichista, que d&aacute; novas faces &agrave; paix&atilde;o do nada por n&atilde;o saber assumir a experi&ecirc;ncia tr&aacute;gica da exist&ecirc;ncia. O adicto de hoje decomp&otilde;e o espectro de uma sociedade do espet&aacute;culo e do consumo, no seio da qual a falta a ser se encontra convertida em falta a ter, onde os valores utilit&aacute;rios de nossas condutas tendem sem cessar a substituir nossas quest&otilde;es fundamentais sobre a experi&ecirc;ncia tr&aacute;gica da condi&ccedil;&atilde;o humana. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Assim, nascem novos tabus e novas cren&ccedil;as, e tamb&eacute;m novas doen&ccedil;as que v&ecirc;m se abrigar na l&oacute;gica e ecologia de uma &eacute;poca. Na extrema medicaliza&ccedil;&atilde;o de normas secretando o Prozac para o enlutado, a Ritalina para o agitado, as terapias cognitivo-comportamentais (TCC) para o agoraf&oacute;bico, o Cialis para o diser&eacute;til, os antioxidantes para o envelhecimento, a grande fam&iacute;lia dos horm&ocirc;nios para a menopausa, os produtos dopantes para os esportivos etc., o toxic&ocirc;mano testemunha como m&aacute;rtir o sofrimento ps&iacute;quico de uma sociedade que oferece &agrave; falta a ser todos os recursos do ter e dos produtos de consumo. O adicto se torna um consumidor muito bem fidelizado pelos negociantes clandestinos que trabalham em um mercado paralelo ao de nossas economias oficiais. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Essa cultura do "fetichismo da mercadoria" atingiu tal ponto que os produtos de consumo se desmaterializam sempre mais sob a forma de jogos e atividades virtuais que se oferecem como <i>ersatz </i>de nossas experi&ecirc;ncias de vida. Na sequ&ecirc;ncia de Marx, fil&oacute;sofos como Zizek (1998) e Rifkin (2000) mostram que compramos cada vez menos produtos, menos objetos materiais, mas que nos tornamos cada vez mais consumidores de estados de consci&ecirc;ncia e de experi&ecirc;ncias vividas, tanto culturais como corporais ou relacionais. &Eacute; a pr&oacute;pria vida que se torna uma mercadoria que o indiv&iacute;duo consome, depois que a desmaterializou, virtualizou, imaginarizou. &Eacute; uma transforma&ccedil;&atilde;o maior na natureza de nossas sensibilidades sociais e psicol&oacute;gicas. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Sem ter que retomar aqui as an&aacute;lises que consagramos em outros lugares a esse universo digital, compreendemos porque, em nossa cultura atual, abre-se verdadeiramente um novo mercado de adic&ccedil;&otilde;es &agrave; realidade virtual. Os cyberadictos s&atilde;o apenas os m&aacute;rtires de uma civiliza&ccedil;&atilde;o que virtualizou o real em uma "vida l&iacute;quida", na qual a conting&ecirc;ncia toma lugar e fun&ccedil;&atilde;o de necessidade. Dominar essa desubjetiva&ccedil;&atilde;o e essa desmaterializa&ccedil;&atilde;o do mundo e de si mesmo constitui a ambi&ccedil;&atilde;o dos cyberadictos. Conhecemos cada vez mais casos de cyberadic&ccedil;&atilde;o, conduzindo os internautas mais dependentes a descolar-se da vida real para viver no mundo digital dos jogos de v&iacute;deo de todo o tipo, abandonando seus empregos e fam&iacute;lias para se consagrar inteiramente &agrave; sua paix&atilde;o. Esses apaixonados se nomeiam entre eles de "<i>Nolife</i>"<a name="9b"></a><a href="#9a"><sup>9</sup></a> e tendem a consultar, cada vez mais, os servi&ccedil;os especializados no tratamento das adic&ccedil;&otilde;es. Essa fuga da realidade exterior corresponde ponto por ponto &agrave; an&aacute;lise que Freud (&#91;1929&#93; 1971) consagra &agrave;s drogas em "Mal-estar na civiliza&ccedil;&atilde;o". Mas aqui nenhuma necessidade de m&eacute;todo qu&iacute;mico e de intoxica&ccedil;&atilde;o substancial, o digital basta. N&atilde;o estaremos aqui na presen&ccedil;a de uma forma de s&iacute;ndrome de Estocolmo? </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Com a desmaterializa&ccedil;&atilde;o profunda dos objetos de consumo, a velha tese marxista do <i>Manifesto </i>retoma toda sua atualidade: tudo o que era s&oacute;lido, bem estabelecido, se volatiliza. Esse traumatismo do ordin&aacute;rio &eacute; t&atilde;o vivo em nossa cultura que os psicanalistas constataram a emerg&ecirc;ncia de sintomas particulares em sua clientela. Trata-se de pacientes que v&ecirc;m &agrave; sess&atilde;o de an&aacute;lise menos para conduzir sua an&aacute;lise que para encontrar um lugar e um tempo onde depositar a exist&ecirc;ncia de sua "realidade ps&iacute;quica", mal colocada em suas vidas cotidianas. O espa&ccedil;o anal&iacute;tico participa ent&atilde;o da reconstru&ccedil;&atilde;o de uma realidade ps&iacute;quica dando um sentido e um lugar a uma exist&ecirc;ncia &agrave;s vezes t&atilde;o dispersa que evoca o estado de <i>sultitia </i>do qual falavam os fil&oacute;sofos gregos. O <i>stultus </i>&eacute; aberto aos quatro ventos, sem mem&oacute;ria, sem vontade, dispersado no tempo e no espa&ccedil;o, e deixa a vida escorrer sem a ter vivido. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">N&atilde;o &eacute; apenas uma vontade de nada que est&aacute; hoje em dia no cora&ccedil;&atilde;o de nossa civiliza&ccedil;&atilde;o, mas, bem mais, o nada de uma vontade que abandonou a &uacute;ltima coragem de um Bartleby (Melville, &#91;1853&#93; 1995) enunciando melancolicamente "eu preferia n&atilde;o"; a pr&oacute;pria melancolia foi perdida. N&atilde;o &eacute; mais a figura do n&ocirc;made que se imp&otilde;e a tal cultura, mas antes aquela do errante, um SDF feliz, aberto &agrave; felicidade atemporal assegurada por um implante que, permanentemente e de maneira autorregulada por um computador interativo colocado desde o nascimento, lhe proporciona as doses &oacute;timas de Zoloft e de Ritalina para faz&ecirc;-lo esquecer a condi&ccedil;&atilde;o tr&aacute;gica de sua exist&ecirc;ncia. Nessa interpassividade fren&eacute;tica e moralmente ap&aacute;tica, o indiv&iacute;duo cyberliberal, resignado ao &uacute;til e &agrave; <i>performance</i>, n&atilde;o reivindica suas emo&ccedil;&otilde;es sen&atilde;o com a condi&ccedil;&atilde;o expressa de que elas sejam ef&ecirc;meras, descart&aacute;veis, televisuais e "virtuais". Nossa cultura oferece ao indiv&iacute;duo mitos e cultos de uma beatitude que o transformam em sujeito passivo, moroso, deprimido, psicotropiado, tomando suaTCC simultaneamente a seu RMI e sua CMU, e gozando avidamente do espet&aacute;culo da revolta desses outros que ele n&atilde;o ser&aacute;. Aqui se projeta o espectro de uma nova forma p&oacute;s-moderna de s&iacute;ndrome de Cotard sobre a qual voltaremos. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nossa cultura convida a esse <i>desmentido da realidade interior </i>que se pode descrever, com Winnicott (&#91;1935&#93; 1969), como uma "defesa man&iacute;aca". Pode-se notar que esse desmentido da realidade ps&iacute;quica se encontra menos no centro das patologias individuais do que no cora&ccedil;&atilde;o dos dispositivos da psiquiatria que delas visam dar conta. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nessa l&oacute;gica antropol&oacute;gica, a droga se revela como o "afogador de preocupa&ccedil;&otilde;es" do qual falava Freud, tanto da preocupa&ccedil;&atilde;o consigo como com o outro. A droga participa desta ilus&atilde;o de poder recusar tanto o objeto quanto o sujeito em uma autonomia artificial. Todo praticante conhece essa dificuldade particular nas psicoterapias dos toxic&ocirc;manos: o paciente tem necessidade da droga com o mesmo apego que o psic&oacute;tico tem a seu del&iacute;rio. Um amor narc&iacute;sico que protege da alteridade. Por que o apaixonado de drogas correria o risco de amar ao risco de perder ou de sofrer? Ele prefere, ao modo de um melanc&oacute;lico acometido pela s&iacute;ndrome de Cotard, negar a exist&ecirc;ncia do objeto e a de sua subjetividade para melhor recusar a altera&ccedil;&atilde;o que comporta toda alteridade como condi&ccedil;&atilde;o do desejo. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Antes de prosseguir sobre esse ponto, queria lembrar, com Olivier Thomas (2007), que a paix&atilde;o do t&oacute;xico se revela para a an&aacute;lise da transfer&ecirc;ncia como uma aut&ecirc;ntica paix&atilde;o odiosa, quer dizer, um "amor morto" que encanta o sujeito e o cativa em uma inconsol&aacute;vel nostalgia. O t&oacute;xico n&atilde;o &eacute;, falando propriamente, um objeto, mas sim um fetiche, uma tela que vem envolver a imagem enterrada de um objeto traumaticamente perdido. A paix&atilde;o do t&oacute;xico recobre uma paix&atilde;o mais primordial, mais ontol&oacute;gica, que &agrave;s vezes se manifesta no encontro terap&ecirc;utico quando o psicanalista lhe d&aacute; o tempo e os meios para se instalar. Mas esta paix&atilde;o do t&oacute;xico nos ensina que, em nossa civiliza&ccedil;&atilde;o e em sua patologias, <i>n&atilde;o &eacute; o objeto que quer</i>. O que nomeamos correntemente de objetos, materiais ou virtuais, n&atilde;o s&atilde;o objetos para a psican&aacute;lise. Frequentemente esses produtos ou mercadorias materiais ou virtuais n&atilde;o s&atilde;o sen&atilde;o meios para recusar e de evitar o que a psican&aacute;lise conceitua como objeto, causa de desejo. A l&oacute;gica passional ensina melhor do que qualquer outra que o objeto do qual se trata de fazer o luto n&atilde;o foi jamais possu&iacute;do e escapa a toda apropria&ccedil;&atilde;o. &Eacute; exatamente este ponto que situa toda paix&atilde;o na proximidade da melancolia, que ela conjura pela exuber&acirc;ncia man&iacute;aca, pela febre voluptuosa do desespero e pela ela&ccedil;&atilde;o narc&iacute;sica que esculpe as formas do nada. A paix&atilde;o das drogas n&atilde;o escapa a esta l&oacute;gica que faz de toda paix&atilde;o uma paix&atilde;o niilista, desmentindo tanto o objeto como a perda. Mas, como toda paix&atilde;o, a paix&atilde;o das drogas &eacute; uma adic&ccedil;&atilde;o &agrave; perda, ao desmame, &agrave; separa&ccedil;&atilde;o, mais do que ao objeto. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Sabe-se que foi o psiquiatra Krafft-Ebing quem primeiro falou de "del&iacute;rio niilista" para dar conta de certas formas delirantes nas quais os pacientes consideravam uma parte de seu corpo, ou sua totalidade, como "morto". Mas &eacute; a Jules Cotard que se deve a descri&ccedil;&atilde;o fina e precisa de uma s&iacute;ndrome aut&ocirc;noma encontrada no curso de observa&ccedil;&otilde;es de melanc&oacute;licos ansiosos. O que se tornou desde ent&atilde;o a "s&iacute;ndrome de Cotard" designa um discurso ao longo do qual um paciente nega a exist&ecirc;ncia de seu corpo, de seus &oacute;rg&atilde;os, de seu ser ou, ainda, do mundo exterior. Sem entrar em detalhes, recordemos rapidamente a g&ecirc;nese do conceito de "del&iacute;rio de nega&ccedil;&otilde;es" de Cotard, que, a meu ver, esclarece indiretamente a l&oacute;gica passional. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">De acordo com Cacho (1993), Jules Cotard, na grande tradi&ccedil;&atilde;o da Escola Francesa de Psiquiatria, descreve uma cl&iacute;nica da melancolia ansiosa no seio da qual se manifestam ideias hipocondr&iacute;acas de n&atilde;oexist&ecirc;ncia e de destrui&ccedil;&atilde;o de &oacute;rg&atilde;os. O primeiro texto de Cotard consagrado &agrave; descri&ccedil;&atilde;o cl&iacute;nica desses sintomas (1880) chama de "del&iacute;rio hipocondr&iacute;aco" &agrave; sistematiza&ccedil;&atilde;o e organiza&ccedil;&atilde;o coerente do del&iacute;rio. &Eacute; sob a forma de queixas hipocondr&iacute;acas que o discurso de nega&ccedil;&atilde;o se exprime inicialmente, mas, ao contr&aacute;rio dos del&iacute;rios de persegui&ccedil;&atilde;o, o paciente se imputa toda a carga e a culpabilidade que o condenam, por sua indignidade, &agrave; dana&ccedil;&atilde;o eterna. Desde o in&iacute;cio, Cotard distingue no seio deste "del&iacute;rio de nega&ccedil;&otilde;es" for&ccedil;as "centr&iacute;petas", que empurram o paciente a localizar a destrui&ccedil;&atilde;o sobre sua pessoa e seu corpo, e for&ccedil;as "centr&iacute;fugas", que tendem a irradi&aacute;-la para os objetos exteriores, at&eacute; os confins do mundo material e metaf&iacute;sico. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Vejamos a evolu&ccedil;&atilde;o das descri&ccedil;&otilde;es de Cotard na sequ&ecirc;ncia de seus textos: o "del&iacute;rio hipocondr&iacute;aco" se torna "del&iacute;rio de nega&ccedil;&otilde;es". A irradia&ccedil;&atilde;o totalit&aacute;ria deste del&iacute;rio se manifesta pelas m&uacute;ltiplas vers&otilde;es tem&aacute;ticas que v&atilde;o da nega&ccedil;&atilde;o dos &oacute;rg&atilde;os &agrave; n&atilde;o-exist&ecirc;ncia do mundo, at&eacute; &agrave; infinitude do tempo (imortalidade, dana&ccedil;&atilde;o eterna) e do espa&ccedil;o (del&iacute;rio de enormidade e de desaparecimento dos limites f&iacute;sicos). </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A quest&atilde;o que se coloca hoje no prolongamento desta tese de Cotard &eacute; a seguinte: n&atilde;o estamos na presen&ccedil;a, em nossa cultura, de uma forma p&oacute;s-moderna de del&iacute;rio de nega&ccedil;&otilde;es de si mesmo e do Outro, desmentindo o sentido, a subst&acirc;ncia e a hist&oacute;ria de nossas experi&ecirc;ncias para produzir, em troca, viol&ecirc;ncias maiores ou menores com rela&ccedil;&atilde;o aos outros e a si mesmo? </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Como n&atilde;o perceber aqui a origem desta viol&ecirc;ncia cruel, fria e instrumental feita a um Outro, sem &oacute;dio e sem emo&ccedil;&otilde;es, como aquela colocada em obra nos <i>Happy slapping</i>, essa pr&aacute;tica que consiste em filmar a agress&atilde;o f&iacute;sica de uma pessoa com a ajuda de um telefone celular? Como n&atilde;o ouvir, nestes atos de delinqu&ecirc;ncia, a fria instrumenta&ccedil;&atilde;o de um gozo niilista, no qual o verdadeiro sujeito &eacute; a imagem da qual os protagonistas n&atilde;o s&atilde;o sen&atilde;o os atores? A imagem vem aqui no lugar disso que se furta &agrave; representa&ccedil;&atilde;o e aos afetos. &Eacute; neste lugar, precisamente, que as patologias niilistas contempor&acirc;neas, da delinqu&ecirc;ncia maior ao cinismo menor, me parecem consubstanciais &agrave; nossa civiliza&ccedil;&atilde;o e que, como tais, elas se revelam tamb&eacute;m como patologias sociais. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O que &eacute; hoje dos modelos neuropsiqui&aacute;tricos e neuroecon&ocirc;micos em vigor em nossa cultura? Como, uma vez ainda, n&atilde;o reconhecer o la&ccedil;o secreto que une as patologias niilistas de que falamos a esses modelos que reduzem o sujeito e o outro a puros sistemas neuroecon&ocirc;micos? A sa&uacute;de mental sofre hoje em dia de uma forma p&oacute;s-moderna de s&iacute;ndrome de Cotard, conduzindo-a ao desmentido daquilo que a funda e que n&atilde;o &eacute; nada al&eacute;m do que a psican&aacute;lise nomeia de objeto. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para concluir, a paix&atilde;o do t&oacute;xico e os efeitos que ela produz sobre o sujeito podem constituir um objeto tela, uma vestimenta, para uma profunda melancolia, em um del&iacute;rio de nega&ccedil;&otilde;es que chega, &agrave;s vezes, at&eacute; &agrave; nega&ccedil;&atilde;o completa da exist&ecirc;ncia do outro, assim como de sua pr&oacute;pria realidade subjetiva. &Eacute; do desmame que o toxic&ocirc;mano &eacute; dependente, n&atilde;o do produto. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">As pr&aacute;ticas de sa&uacute;de mental fingem ignorar essa distin&ccedil;&atilde;o, no que elas se revelam consubstanciais &agrave; patologia de que se sup&otilde;e que se encarreguem. O que n&atilde;o significa, de forma alguma, que, ao tomar a cargo os apaixonados da droga, n&oacute;s n&atilde;o tenhamos que utilizar os produtos de substitui&ccedil;&atilde;o ou outras t&eacute;cnicas paliativas. Seu uso n&atilde;o contradiz esse ponto: o que falta ao drogado &eacute; o objeto, n&atilde;o o produto. &Eacute; dessa imposs&iacute;vel separa&ccedil;&atilde;o em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; falta que temos que tratar (Thomas, 2007). </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O trabalho psicoterap&ecirc;utico consiste, idealmente, em permitir um deslocamento progressivo deste objeto fetiche que &eacute; o t&oacute;xico para o objeto de transfer&ecirc;ncia que &eacute; o psicanalista, ao risco de que essa transfer&ecirc;ncia para o psicanalista se decline sob um modo passional (Thomas, 2007). O objeto recusado pela tomada do t&oacute;xico se revela como um objeto que jamais foi possu&iacute;do e que escapa a toda apropria&ccedil;&atilde;o. &Eacute; um objeto ontol&oacute;gico ao qual, depois do luto da paix&atilde;o, o amor d&aacute; &agrave;s vezes seu lugar. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>REFER&Ecirc;NCIAS</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Cacho, J. (1993). <i>Le d&eacute;lire des n&eacute;gations. </i>Paris: Association Freudienne Internationale.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4440558&pid=S0101-4838201000010000600001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Debord, G. (1967). <i>La Soci&eacute;t&eacute; du spectacle</i>. Paris: Editions Champ Libre.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4440560&pid=S0101-4838201000010000600002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Freud, S. (1929/1971). <i>Malaise dans la civilisation</i>. Paris: PUF.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4440562&pid=S0101-4838201000010000600003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Freud, S. (1887-1904/1969). Lettres &agrave; Wilhelm Fliess. In: <i>La Naissance de la psychanalyse </i>(pp. 211-212). Paris: PUF.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4440564&pid=S0101-4838201000010000600004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Foucault, M. (1974-1975). <i>Les Anormaux. Cours au Coll&egrave;ge de France</i>. Paris: Gallimard / Le Seuil.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4440566&pid=S0101-4838201000010000600005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Gori, R. (2004). <i>L&oacute;gica das paix&otilde;es</i>. Rio de Janeiro: Companhia de Freud.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4440568&pid=S0101-4838201000010000600006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Gori, R. &amp; Del Volgo, M. J. (2005). <i>La Sant&eacute; totalitaire. Essai sur la m&eacute;dicalisation de l'existence</i>. Paris: Deno&euml;l.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4440570&pid=S0101-4838201000010000600007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Hacking, I. (1998). <i>L'Ame r&eacute;&eacute;crite</i>. Paris: Les emp&ecirc;cheurs de penser en rond.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4440572&pid=S0101-4838201000010000600008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Lukacs, G. (1960). <i>Histoire et conscience de classe. </i>Paris: Editions de Minuit.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4440574&pid=S0101-4838201000010000600009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Manelli, S. (2007). Dans chaque classe, il y a au moins un enfant "dys". <i>La Provence</i>, 10 Mai 2007, s/p.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4440576&pid=S0101-4838201000010000600010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Melville, H. (1853/1995). <i>Bartleby</i>. Paris: Le Nouveau Commerce.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4440578&pid=S0101-4838201000010000600011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Rey, A. (org.). (1992). <i>Dictionnaire historique de la langue fran&ccedil;aise</i>. Paris: Dictionnaires Le Robert.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4440580&pid=S0101-4838201000010000600012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Rifkin, J. (2000). <i>L'&acirc;ge de l'acc&egrave;s. La r&eacute;volution de la nouvelle &eacute;conomie. </i>Paris: La D&eacute;couverte.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4440582&pid=S0101-4838201000010000600013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Roudinesco, E. (org.) (2005). <i>Pourquoi tant de haine?</i> Paris: Navarin.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4440584&pid=S0101-4838201000010000600014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Stein, C. (1994). La travers&eacute;e du tragique en psychanalyse. <i>&Eacute;tudes freudiennes, 35</i>, 33-48.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4440586&pid=S0101-4838201000010000600015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Thomas, O. (2007). <i>Le Toxique au f&eacute;minin. </i>Toulouse: &Eacute;r&egrave;s.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4440588&pid=S0101-4838201000010000600016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Winnicott, D. W. (1935/1969). La d&eacute;fense maniaque. In: <i>De la p&eacute;diatrie &agrave; la psychanalyse </i>(pp. 15-32). Paris: Payot.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4440590&pid=S0101-4838201000010000600017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Zeh, J. (2004/2007). <i>La Fille sans qualit&eacute;s</i>. Arles: Actes Sud.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4440592&pid=S0101-4838201000010000600018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Zizek, S. (1998). <i>Le Spectre r&ocirc;de toujours. </i>Paris: Nautilus.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4440594&pid=S0101-4838201000010000600019&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Zizek, S. (2002/2005). <i>Bienvenue dans le d&eacute;sert du r&eacute;el. </i>Paris: Flammarion.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4440596&pid=S0101-4838201000010000600020&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>NOTAS</b> </font></p>     <p><a name="1a"></a><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a href="#1b">1</a> "As constru&ccedil;&otilde;es voadoras s&atilde;o elementos de constru&ccedil;&atilde;o destinadas a serem montadas e desmontadas de maneira repetida em diversos lugares" (Zeh, &#91;2004&#93; 2007: 353). </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a name="2a"></a><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a href="#2b">2</a> O Outro adquire em Lacan um destaque conceitual essencial. Ele se distingue do pequeno outro, o semelhante, o mesmo. O Outro &eacute; o lugar da palavra, o lugar vazio que a propicia e a relan&ccedil;a. Quando um sujeito fala para algu&eacute;m, ele se endere&ccedil;a, inconscientemente, para al&eacute;m de seu interlocutor, a um Outro, um sobredestinat&aacute;rio. Nossa civiliza&ccedil;&atilde;o busca preencher de todas as maneiras esse lugar vazio, fingindo reduzir o sujeito ao indiv&iacute;duo, e o Outro ao outro. E quando um sujeito fala sozinho na rua, a quem ele se endere&ccedil;a? Quando, no encontro amoroso, se constata que os atores atuaram na mesma cena, mas n&atilde;o na mesma hist&oacute;ria, o que se torna a "transpar&ecirc;ncia" de nossa comunica&ccedil;&atilde;o ao outro? O Outro &eacute; a condi&ccedil;&atilde;o do inconsciente e sua demonstra&ccedil;&atilde;o procede da transfer&ecirc;ncia. </font></p>     <p><a name="3a"></a><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a href="#3b">3</a> Cesare Lombroso, professor de medicina legal italiano, &eacute; conhecido por suas teses sobre o morfotipo dos criminosos. Publicou em 1876 <i>O homem delinquente</i>, obra na qual ele defende a tese de que a delinqu&ecirc;ncia seria claramente mais frequente em certas pessoas portadoras de certas caracter&iacute;sticas f&iacute;sicas, o que favoreceria o car&aacute;ter inato de certos comportamentos. </font></p>     <p><a name="4a"></a><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a href="#4b">4</a> Em 2005 o <i>Inserm </i>publicou uma pesquisa sobre o "transtorno de condutas na crian&ccedil;a e no adolescente". O relat&oacute;rio preconizava a demarca&ccedil;&atilde;o das perturba&ccedil;&otilde;es do comportamento desde a creche e a escola maternal para evitar o surgimento de comportamentos delinquentes na adolesc&ecirc;ncia. Dispon&iacute;vel em: &lt;<a href="http://ist.inserm.fr/basisrapports/trouble_conduites/trouble_conduites_synthese.pdf" target="_blank">http://ist.inserm.fr/basisrapports/trouble_conduites/trouble_conduites_synthese.pdf</a>&gt;. Acesso em: 16/04/2010. </font></p>     <p><a name="5a"></a><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a href="#5b">5</a> Ver: <i>Pas de 0 de conduite pour les enfants de 3 ans/</i>obra coletiva, Toulouse: &Eacute;r&egrave;s. </font></p>     <p><a name="6a"></a><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a href="#6b">6</a> <i>Entgegenkommen</i> &#91;<i>Complaisanc</i>&#93; - no sentido freudiano de "co-incid&ecirc;ncia". </font></p>     <p><a name="7a"></a><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a href="#7b">7</a> O conceito de real foi introduzido por Lacan para dar conta de uma necessidade estrutural: a exist&ecirc;ncia de um ponto de impasse de toda formaliza&ccedil;&atilde;o das duas realidades, material e ps&iacute;quica. Este conceito &eacute; correlativo de duas outras categorias, as do imagin&aacute;rio e simb&oacute;lico. O "real" se deduz de uma divis&atilde;o da realidade pelo aparelho da linguagem e dos modos de doa&ccedil;&atilde;o do mundo pela imagem. Ele &eacute; o resto n&atilde;o recuperado. Na cl&iacute;nica &eacute; marcado como </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">o "mau encontro" vivido pelo sujeito e faz levar em conta a exist&ecirc;ncia de um traumatismo distinto do traumatismo sexual. Na cl&iacute;nica de certas situa&ccedil;&otilde;es extremas, esse "real" no limite do ps&iacute;quico, no limite de nossa experi&ecirc;ncia, esse "imposs&iacute;vel", esse resto inassimil&aacute;vel, essa coisa que "volta sempre ao mesmo lugar" n&atilde;o se encontra mais enla&ccedil;ada pela rede de significantes, mas simplesmente assinalada pela repeti&ccedil;&atilde;o do traumatismo e do medo. </font></p>     <p><a name="8a"></a><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a href="#8b">8</a> Tamagoshi: pequeno brinquedo digital japon&ecirc;s que se comporta como um animal dom&eacute;stico virtual, cachorro, p&aacute;ssaro, ou qualquer outro animal que tenha necessidade de que cuidem dele. Ele determina a rela&ccedil;&atilde;o por sinais aos quais a crian&ccedil;a deve responder para satisfazer suas necessidades, ou ent&atilde;o deix&aacute;-lo morrer. A crian&ccedil;a se torna um parceiro cibern&eacute;tico da situa&ccedil;&atilde;o de jogo. </font></p>     <p><a name="9a"></a><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a href="#9b">9</a> NT: <i>nolife</i> &eacute; em ingl&ecirc;s "n&atilde;o-vida". </font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Recebido em 24 de outubro de 2009     <br>   Aceito para publica&ccedil;&atilde;o em 21 de abril de 2010 </font></p>      ]]></body>
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