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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><B>RESENHAS</B></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Leandro Alves Rodrigues dos Santos<sup><a name="1a"></a><a href="#1">1</a></sup></b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Centro Universit&aacute;rio Santo Andr&eacute;/UNI-A </font></p>     <p><font size=2 face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="end"></a><a href="#enda">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>FINGERMANN, Dominique; DIAS, Mauro Mendes. <i>Por causa do pior.</i> S&atilde;o Paulo: Iluminuras, 2005. 174 p. ISBN 85-7321-215-2.</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">H&aacute; certos enunciados de grandes psicanalistas que marcam, e s&atilde;o repetidamente evocados. Atribui-se a Lacan alguns deles, mas um em especial aqui nos interessa: a psicoterapia conduz ao pior!</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">De que pior estaria falando Lacan? Em uma leitura mais tradicional poder&iacute;amos pensar que a psicoterapia, discursivamente, funcionaria em um registro misto entre a universidade e a mestria, que diz ao sujeito dividido o que fazer, como fazer, e sobretudo o tranq&uuml;iliza sobre os efeitos que o mal-estar &ndash; intr&iacute;nseco &agrave; divis&atilde;o &ndash; inevitavelmente acarreta. Ou seja, a psicoterapia favoreceria a repress&atilde;o. E como bem sabemos, tudo que &eacute; recalcado retorna!</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Talvez seja desse pior que Lacan nos dizia, que retorna ainda pior que antes da passagem pela psicoterapia ou de qualquer outro tratamento do Real arquitetado pela cultura. Mas problematizar e avan&ccedil;ar nessa quest&atilde;o do pior sempre foi do interesse da Psican&aacute;lise, desde Freud e seus textos ditos &ldquo;culturais&rdquo;. Lacan nunca se furtou a avan&ccedil;ar a pesquisa que Freud propunha, at&eacute; porque o sintoma singular de cada neur&oacute;tico est&aacute;, de uma forma ou de outra, atado ao imagin&aacute;rio de uma &eacute;poca, aos significantes que representam essa &eacute;poca, e que desvelam algumas particularidades das diversas modalidades de la&ccedil;o social que imperam em um determinado per&iacute;odo hist&oacute;rico.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ali&aacute;s, &eacute; sempre bom <i>re</i>-lembrar que Lacan apontava a necessidade de o psicanalista estar afinado &agrave; subjetividade de seu tempo. Os autores desse livro d&atilde;o uma boa amostra do que &eacute; pensar a subjetividade de uma &eacute;poca, tomando como objeto de investiga&ccedil;&atilde;o justamente o mal-estar, o pior dos dias atuais.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">E tratando dos autores cabe aqui destacar a ousadia de uma proposta: dois psicanalistas de institui&ccedil;&otilde;es diferentes, atuando em conjunto na estrutura&ccedil;&atilde;o de um semin&aacute;rio composto por dez encontros, produzindo juntos sem eliminar a alteridade necess&aacute;ria e sem perder o tom, tamb&eacute;m sustentando um fio condutor essencial ao longo do livro. Estamos falando de Dominique Fingermann, psicanalista radicada em S&atilde;o Paulo, e membro atuante da Escola de Psican&aacute;lise do Campo Lacaniano. J&aacute; Mauro Mendes Dias &eacute; ligado &agrave; Escola de Psican&aacute;lise de Campinas, atua com quest&otilde;es de atendimento p&uacute;blico em Sa&uacute;de Mental, notadamente nos casos de psicose. Ambos igualmente envolvidos com atividades de transmiss&atilde;o da Psican&aacute;lise e forma&ccedil;&atilde;o &ndash; tanto a pr&oacute;pria quanto dos pares &ndash;, e ambos ajudando a avan&ccedil;ar a Psican&aacute;lise.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Portanto, este <i>Por causa do pior</i> &eacute; uma tentativa de se fazer avan&ccedil;ar o campo psicanal&iacute;tico, e sobretudo, de poder servir como fonte de inspira&ccedil;&atilde;o para outros psicanalistas que j&aacute; pensam sobre o pior. Pois certamente todos n&oacute;s somos afetados por esse pior, independentemente de qu&atilde;o vigoroso seja nosso poder de nega&ccedil;&atilde;o. Aos que pretendem enclausurar-se em consult&oacute;rios, com o quase convincente &ldquo;N&atilde;o me ocupo disso!&rdquo;, cabe lembrar que o pior, o d&rsquo;isso, atravessa a subjetividade de seus (im)pacientes.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Na introdu&ccedil;&atilde;o a quatro m&atilde;os os autores afirmam que &ldquo;colocar o pior em causa&rdquo; (p. 15) foi o mote central do semin&aacute;rio, e movidos pelas discuss&otilde;es com os participantes chegaram a um ponto nodal que permeia os escritos desse livro: o pior como causa, e paradoxalmente <i>causando</i> o ser humano, no sentido mais freudiano da <i>coisa</i>, daquilo que faz advir &agrave;s possibilidades da neurose, da pervers&atilde;o e da psicose, conforme a estrutura&ccedil;&atilde;o que cada sujeito pode concatenar frente &agrave; castra&ccedil;&atilde;o, tomada como fen&ocirc;meno de linguagem, <i>lacanianamente</i> falando.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ainda na introdu&ccedil;&atilde;o os autores informam como chegaram a esse ponto nodal, pois o t&iacute;tulo visa lan&ccedil;ar luzes sobre um necess&aacute;rio debate, que nas palavras desses autores possa tomar forma a partir de algumas quest&otilde;es:</font></p>     <blockquote>       <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">1. A partir da experi&ecirc;ncia da psican&aacute;lise e da estrutura do sujeito que nela se desenvolve (se transfere), pretendemos expor como o pior demonstra-se causa da estrutura humana do qual ele tamb&eacute;m &eacute; <i>efeito</i>. Usamos o termo &ldquo;pior&rdquo; no sentido do extremo, do c&uacute;mulo do mal, mas sobretudo como avesso do ideal, do bem supremo sonhado pela filosofia, pela religi&atilde;o e pela ci&ecirc;ncia. Usamos o termo &ldquo;causa&rdquo; em refer&ecirc;ncia &agrave; releitura lacaniana da teoria das causas aristot&eacute;licas.</font></p>       <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">2. Pretendemos averiguar quais s&atilde;o as modalidades e/ou os avatares poss&iacute;veis desse pior em causa, cingir as conseq&uuml;&ecirc;ncias patol&oacute;gicas da l&oacute;gica humana que conta o pior como sua causa (paran&oacute;ia, pervers&atilde;o, melancolia, depress&atilde;o, ang&uacute;stia).</font></p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">3. Almejamos, enfim, participar da indaga&ccedil;&atilde;o &eacute;tica da qual os psicanalistas n&atilde;o podem se omitir: como a &ldquo;civiliza&ccedil;&atilde;o&rdquo; e sua suposta &ldquo;excel&ecirc;ncia&rdquo; est&aacute; tratando dos efeitos do pior no la&ccedil;o social? (p. 17).</font></p> </blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Cada um dos autores, direcionados por essas quest&otilde;es, toma caminhos diferentes, abordando tem&aacute;ticas que nos ajudam a pensar o pior.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Dominique Fingermann, por exemplo, parte da quest&atilde;o da identifica&ccedil;&atilde;o na contemporaneidade, e em um segundo momento problematiza a quest&atilde;o da psicoterapia, que apesar das boas inten&ccedil;&otilde;es, conduz o sujeito ao pior do pior, cristalizando o sintoma. Mais &agrave; frente aborda os &ldquo;destinos do mal: pervers&atilde;o e capitalismo&rdquo; (p. 73), cap&iacute;tulo no qual p&otilde;e em quest&atilde;o o discurso capitalista &ndash; pouco explorado por Lacan se pensarmos comparativamente aos outros quatro discursos &ndash;, colocando sua horr&iacute;vel face &agrave; mostra, especialmente nos dias atuais. Como resistir a isso, aos <i>gadgets</i> da cultura? A autora teoriza sobre a arte como resist&ecirc;ncia, tratando dos filmes que se contrap&otilde;em ao ritmo holywoodiano de produ&ccedil;&atilde;o de imagens, que servem &agrave; economia de gozo dos expectadores e/ou consumidores da m&iacute;dia globalizada. Paraela, sujeitos como &ldquo;(...) cineastas, os artistas, apesar do pior, apesar de como o pior piora com a modernidade, continuam achando caminhos, resistindo ao entorpecimento, ao ass&eacute;dio e &agrave; violenta&ccedil;&atilde;o, abrindo caminhos novos, atalhos que talvez n&atilde;o levem a lugar algum, desvios renovados, trilhas, ponte e t&uacute;neis, passagens do pior: eles permitem sua travessia&rdquo; (p. 90).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Assim, os &ldquo;passadores do pior&rdquo; (p. 93) s&atilde;o convocados por Dominique, que mostra como a possibilidade da Psican&aacute;lise em extens&atilde;o ainda pode render bons frutos, pois ao perscrutar autores intensos como Samuel Beckett, Maurice Blanchot e Marguerite Duras, acaba por encontrar denso material para reflex&atilde;o &ndash; aquele que nos surge quando fechamos os livros.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">J&aacute; Mauro Mendes Dias segue outra trilha, iniciando pela quest&atilde;o do pior na cl&iacute;nica, especialmente a depress&atilde;o, passando pela identifica&ccedil;&atilde;o, mas reservando precioso espa&ccedil;o para um interlocutor pitoresco, o Unabomber, com o qual trocou cartas. Esse tr&aacute;gico personagem, autor de cartas-bombas enviadas na Am&eacute;rica, hoje est&aacute; encerrado em um pres&iacute;dio, mas disp&ocirc;s-se a trocar correspond&ecirc;ncias com o psicanalista brasileiro. E o que surge dessa troca de cartas &eacute; uma teoriza&ccedil;&atilde;o de Mauro sobre a psicose e suas diferentes tentativas de inser&ccedil;&atilde;o discursiva em uma cultura, que como notamos cotidianamente, n&atilde;o lhe abre espa&ccedil;o. Talvez pelas bombas, quem sabe?</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Esse autor j&aacute; lan&ccedil;ara anteriormente um livro sobre moda, e nessa tradi&ccedil;&atilde;o brinda-nos com um cap&iacute;tulo no qual alinhava roupas, vestir-se e gozo, como podemos atestar em suas pr&oacute;prias palavras: &ldquo;ainda que a moda permita situar o agenciamento do olhar como meio de gozo, &eacute; importante perceber que sua complexidade n&atilde;o se esgota nesta indica&ccedil;&atilde;o, porque o uso e a escolha da roupa tamb&eacute;m participam, desde sempre, da economia do fantasma, no sentido que se encontram determinados pelo tipo de rela&ccedil;&atilde;o promovido entre o sujeito e o Outro. Para o neur&oacute;tico obsessivo, por exemplo, &eacute; not&oacute;rio seu privil&eacute;gio em escolher roupas que ressaltem seu car&aacute;ter de corre&ccedil;&atilde;o e asseio, a partir do qual ele procura afastar qualquer tenta&ccedil;&atilde;o sexual. Em contrapartida, na histeria vamos encontrar uma dupla dire&ccedil;&atilde;o alternando entre vestir-se segundo o que sup&otilde;e ser o que o Outro deseja, cativando seu olhar, ao lado de um embara&ccedil;o completo para a escolha do vestu&aacute;rio, ocasi&atilde;o em que os signos do desejo do Outro se encontram menos evidentes&rdquo; (p. 156).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Qual o efeito que um livro como esse pode causar em um psicanalista? Qual efeito deveria causar? Inquieta&ccedil;&atilde;o e elabora&ccedil;&atilde;o acerca do momento pelo qual passa o mundo, dos povos que o habitam, e por extens&atilde;o, dos seres de linguagem que chegam em busca de algum saber, justamente do psicanalista citado no in&iacute;cio do par&aacute;grafo. Que esse analista n&atilde;o se furte a associar a partir das provoca&ccedil;&otilde;es dos autores, das tem&aacute;ticas suscitadas por eles, e especialmente daquilo que pode criar na solid&atilde;o de seu consult&oacute;rio, junto aos que o procuram afetados pelo pior.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Uma hip&oacute;tese interessante acerca dos efeitos nefastos do jogo social promovido pelo capitalismo contempor&acirc;neo &eacute;, para al&eacute;m da medicaliza&ccedil;&atilde;o dos sintomas, a explica&ccedil;&atilde;o sociol&oacute;gica dos sintomas sociais ou as tentativas pedag&oacute;gicas e psicol&oacute;gicas de se domar o mal-estar; &eacute; pensar como cada sujeito pode <i>responder</i> ao lugar que lhe &eacute; destinado nesse jogo. Parece que Freud foi o estetosc&oacute;pio que auscultou o mal-estar das hist&eacute;ricas, que n&atilde;o aceitavam passivamente o lugar a elas destinadas pelo jogo de ent&atilde;o. No jogo capitalista atual, qual &eacute; o lugar do sujeito?</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">E por que n&atilde;o estender a pergunta: qual o papel da Psican&aacute;lise frente a esse cen&aacute;rio, t&atilde;o bem representado pela capa do livro, pensada a partir do cl&aacute;ssico quadro de Pieter Brueghel, <i>O triunfo da morte</i>. Quem, ou o qu&ecirc;, triunfa nos dias de hoje?</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Talvez pud&eacute;ssemos pensar o gozo como uma tentativa de sempre triunfar; afinal, o sujeito aferra-se tenazmente ao seu quinh&atilde;o de gozo, evitando perder, como nos mostra cotidianamente as experi&ecirc;ncias cl&iacute;nicas.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Afinal, se lidamos com a linguagem, como devemos decodificar o grito que vem do pior? Nas diversas manifesta&ccedil;&otilde;es art&iacute;sticas, o inferno &eacute; sempre representado por horr&iacute;veis labaredas, sofrimento eterno, e a trilha sonora &eacute; de gritos, terr&iacute;veis e lancinantes. Metaforizando-se essa alegoria, poder&iacute;amos perguntar: hoje, a Psican&aacute;lise escuta esses gritos? S&atilde;o do pior?</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size=2 face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="enda"></a><a href="#end">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a></font>    <br> <font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Leandro Alves Rodrigues dos Santos    <br> e-mail: <a href="mailto:leandro.psi@uol.com.br">leandro.psi@uol.com.br</a></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><sup><a name="1"></a><a href="#1a">1</a></sup>Psicanalista; Mestre em Psicologia (USP); Membro Participante do F&oacute;rum do Campo Lacaniano; Professor e Supervisor (Centro Universit&aacute;rio Santo Andr&eacute;/UNI-A).</font></p>      ]]></body>

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