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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Fora de vista: sobre imagem e montagem na clínica psicanalítica]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[The present article analyses the role of image in the psychoanalytic practice. The subject of image is dealt with through two main concepts: fantasy and fetish. Both are constructs of images that contain in their structures the marks of the inner psychic tensions that shape them, and through that they characterize the dimension of image in psychoanalysis. A conception of the psychoanalytic treatment as a form of clinic that dwells in the space between images and words is proposed, as well as a parallel between such practice and cinematographic montage. The goal of psychoanalytic treatment would be, thus, remaking the montage of the symptomatic narrative of the subject undergoing psychoanalysis, through the handling of transference.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><B>ARTIGOS</B></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="4"><b>Fora de vista: sobre imagem e montagem na cl&iacute;nica psicanal&iacute;tica</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Out of sight: on image and montage in psychoanalytic practice</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Pablo Bergami Goulart Barbosa<sup><a name="Ia"></a><a href="#I">I</a></sup>; Tania Rivera<sup><a name="IIa"></a><a href="#II">II</a></sup></b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Universidade de Bras&iacute;lia. Departamento de Psicologia Cl&iacute;nica</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><a name="end"></a><a href="#enda">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr noshade size="1">     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>RESUMO</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O presente artigo constr&oacute;i uma reflex&atilde;o acerca do lugar da imagem na cl&iacute;nica psicanal&iacute;tica. Apresenta-se brevemente a quest&atilde;o do olhar e da imagem na teoria psicanal&iacute;tica por meio de dois conceitos primordiais: o de fantasia e o de fetiche. Ambos s&atilde;o constru&ccedil;&otilde;es imag&eacute;ticas que carregam em sua estrutura as marcas das tens&otilde;es intraps&iacute;quicas que os moldam e caracterizam a dimens&atilde;o da imagem na an&aacute;lise. Prop&otilde;e-se uma concep&ccedil;&atilde;o do tratamento psicanal&iacute;tico como incidindo no espa&ccedil;o <i>entre</i> imagem e palavra, e aproxima-se tal concep&ccedil;&atilde;o do conceito de montagem cinematogr&aacute;fica. O tratamento anal&iacute;tico teria por visada, por meio do manejo da transfer&ecirc;ncia, <i>remontar</i> a narrativa sintom&aacute;tica do sujeito em an&aacute;lise.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Palavras-chave:</b> Psican&aacute;lise, Imagem, Transfer&ecirc;ncia, Cinema, Montagem.</font></p> <hr noshade size="1">     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>ABSTRACT</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">The present article analyses the role of image in the psychoanalytic practice. The subject of image is dealt with through two main concepts: fantasy and fetish. Both are constructs of images that contain in their structures the marks of the inner psychic tensions that shape them, and through that they characterize the dimension of image in psychoanalysis. A conception of the psychoanalytic treatment as a form of clinic that dwells in the space <i>between</i> images and words is proposed, as well as a parallel between such practice and cinematographic montage. The goal of psychoanalytic treatment would be, thus, remaking the montage of the symptomatic narrative of the subject undergoing psychoanalysis, through the handling of transference.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Keywords:</b> Psychoanalysis, Image, Transference, Cinema, Montage.</font></p> <hr noshade size="1">     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&Eacute; digna de nota, e com certeza provocadora ainda de um certo estranhamento, a disposi&ccedil;&atilde;o espacial de um tratamento anal&iacute;tico. O analisando deita-se em um div&atilde;. Na poltrona, atr&aacute;s dele, aloja-se o analista que escuta sua fala (que &eacute; endere&ccedil;ada a quem?) em estado de peculiar invisibilidade.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Pode-se imaginar que em uma &eacute;poca em que &ldquo;ser visto&rdquo; tornou-se quase sin&ocirc;nimo de existir &#150; se &eacute; que em algum momento houve total independ&ecirc;ncia entre esses termos &#150; e em que a escopofilia encontra-se em um prov&aacute;vel pico hist&oacute;rico, n&atilde;o sejam poucos os analisandos, e talvez tamb&eacute;m os analistas, que sintam certo desconforto em tal situa&ccedil;&atilde;o<a name="1a"></a><a href="#1"><sup>1</sup></a>. N&atilde;o s&atilde;o poucas nem perif&eacute;ricas as quest&otilde;es levantadas por essa &ldquo;invisibilidade&rdquo; anal&iacute;tica. Tentaremos aqui lidar brevemente com algumas delas no intuito de delinear o papel da imagem e do olhar na cl&iacute;nica psicanal&iacute;tica e a fun&ccedil;&atilde;o que o arranjo do div&atilde; viria cumprir nesse enquadre.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Pode-se dizer, de sa&iacute;da, que o div&atilde; protege o analista. Freud j&aacute; o declara na &uacute;nica passagem de sua obra que trata diretamente dessa quest&atilde;o &ldquo;pr&aacute;tica&rdquo;, cuja ascend&ecirc;ncia hist&oacute;rica remonta ao m&eacute;todo de tratamento hipn&oacute;tico iniciado com Breuer: &ldquo;ele &#91;o div&atilde;&#93; merece ser mantido por muitas raz&otilde;es. A primeira &eacute; um motivo pessoal, mas que outros podem partilhar comigo. N&atilde;o posso suportar ser encarado fixamente por outras pessoas durante oito horas (ou mais) por dia&rdquo; (1913, p. 176). Al&eacute;m da fun&ccedil;&atilde;o de esconder as express&otilde;es faciais do analista ou poup&aacute;-lo do olhar suplicante ou cr&iacute;tico de seus pacientes, ou do que quer que seja que incomodava Freud nesse olhar, h&aacute; tamb&eacute;m um segundo benef&iacute;cio prescrito no mesmo texto. O analista, colocando-se atr&aacute;s do paciente, promoveria de certa forma um isolamento da transfer&ecirc;ncia. &Eacute; no intuito t&eacute;cnico de &ldquo;impedir que a transfer&ecirc;ncia se misture imperceptivelmente &agrave;s associa&ccedil;&otilde;es do paciente&rdquo;, para &ldquo;isolar a transfer&ecirc;ncia e permitir-lhe que apare&ccedil;a, no devido tempo, nitidamente definida como resist&ecirc;ncia&rdquo; (p. 176), que o analista &ldquo;esconde-se&rdquo; em sua poltrona.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Mas o que quer dizer, efetivamente, &ldquo;isolar a transfer&ecirc;ncia&rdquo; e &ldquo;impedir que ela se misture imperceptivelmente &agrave;s associa&ccedil;&otilde;es&rdquo; (p. 176). Freud parece esperar que o compreendamos sem maior dificuldade, j&aacute; que n&atilde;o volta mais ao assunto. Devemos ent&atilde;o explorar essa afirma&ccedil;&atilde;o, interpret&aacute;-la, trabalh&aacute;-la, na tentativa de compreender a fun&ccedil;&atilde;o do dispositivo espacial anal&iacute;tico. Essa tentativa exige um sobrev&ocirc;o te&oacute;rico sobre a quest&atilde;o do olhar e da imagem em sua incid&ecirc;ncia no &acirc;mbito da teoria freudiana.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Puls&atilde;o esc&oacute;pica, fetiche e fantasia</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A compreens&atilde;o psicanal&iacute;tica da imagem e do olhar relaciona-se intimamente a dois conceitos: o fetiche e a fantasia. Vamos abord&aacute;-los a partir de um texto fundamental, <i>Tr&ecirc;s ensaios sobre a teoria da sexualidade</i> (Freud, 1905), no qual se estabelecem as balizas te&oacute;ricas que orientar&atilde;o todo o desenvolvimento futuro desses objetos te&oacute;ricos e o conceito de puls&atilde;o esc&oacute;pica, a puls&atilde;o que constitui o olhar, &eacute; pela primeira vez enunciado em sua especificidade.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Freud trata a quest&atilde;o do olhar em harmonia com suas demais reflex&otilde;es acerca da constitui&ccedil;&atilde;o da sexualidade humana, tomando como ponto de partida a pervers&atilde;o em que este &eacute; o componente central, a escopofilia, e seu complemento, o exibicionismo. Estes, em conjunto com v&aacute;rias outras correntes pulsionais perversas, s&atilde;o as funda&ccedil;&otilde;es que podem vir a constituir a sexualidade humana &ldquo;normal&rdquo;. Assim, ele prop&otilde;e o olhar constitu&iacute;do pulsionalmente como extens&atilde;o do toque, a servi&ccedil;o da atividade er&oacute;gena de contempla&ccedil;&atilde;o dos pr&oacute;prios &oacute;rg&atilde;os genitais, a qual ocorre via de regra acompanhada da exibi&ccedil;&atilde;o dos mesmos, e complementarmente da atividade de contempla&ccedil;&atilde;o do sexo de outras crian&ccedil;as. Essa busca do objeto sexual pelo olhar direciona-se de sa&iacute;da ao outro, e n&atilde;o mais se volta apenas para o pr&oacute;prio corpo da crian&ccedil;a. Isso &eacute; digno de nota, uma vez que ocorreria em uma fase ainda pr&eacute;-genital do desenvolvimento psicossexual, cuja caracter&iacute;stica mais marcante &eacute; a busca de satisfa&ccedil;&atilde;o sexual por meios predominantemente auto-er&oacute;ticos. A puls&atilde;o esc&oacute;pica &eacute; tamb&eacute;m o que garante, promove e suporta a puls&atilde;o de saber. A curiosidade infantil funda-se a partir da curiosidade sexual, e o olhar que come&ccedil;a como atividade er&oacute;tica poder&aacute; com o tempo, caso o curso de desenvolvimento psicossexual aponte a sublima&ccedil;&atilde;o como um de seus destinos privilegiados, transfigurarse at&eacute; o extremo da observa&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica. N&atilde;o h&aacute; olhar que n&atilde;o seja, portanto, fundamentalmente um olhar sexual.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A curiosidade acerca do enigma do sexo e a via de satisfa&ccedil;&atilde;o fundada pelo prazer de natureza escopof&iacute;lica s&atilde;o os primeiros passos libidinais que eventualmente podem levar &agrave; constru&ccedil;&atilde;o do fetiche &#150; tanto na perspectiva de uma hipot&eacute;tica psicog&ecirc;nese individual quanto no fazer te&oacute;rico psicanal&iacute;tico.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O fetiche, presente em graus variados em toda escolha de objeto amoroso, e n&atilde;o apenas no extremo da pervers&atilde;o fetichista, &eacute; constitu&iacute;do pelo pr&oacute;prio olhar. &Eacute; o movimento congelado do olhar que o erige, esse monumento &agrave; castra&ccedil;&atilde;o que agrega a aceita&ccedil;&atilde;o e a nega&ccedil;&atilde;o em uma coexist&ecirc;ncia tensa e imag&eacute;tica (Freud, 1927). O deparar-se com a aus&ecirc;ncia do p&ecirc;nis materno, imagem (ou melhor, n&atilde;o-imagem, aus&ecirc;ncia de imagem) aterrorizante que torna efetiva a amea&ccedil;a de castra&ccedil;&atilde;o &eacute; quase insuport&aacute;vel; &eacute; necess&aacute;rio algum escape diante disso, uma fuga para o olhar antes que advenha a cegueira<a name="2a"></a><a href="#2"><sup>2</sup></a>. Na fuga apressada os olhos pousam sobre o que estiver mais pr&oacute;ximo, sobre a imagem &agrave; beira do abismo: botas, meias, p&eacute;s, tapa-sexo etc. A lista &eacute; t&atilde;o extensa quanto forem os fetichistas &#150; e vale lembrar que em algum grau todos n&oacute;s o somos &#150; e os poss&iacute;veis deslocamentos da imagem salvadora (ainda que n&atilde;o garanta salva&ccedil;&atilde;o alguma), agora &ldquo;fossilizada&rdquo;. J&aacute; apontamos em outro trabalho a natureza substitutiva dessa opera&ccedil;&atilde;o, que vem explicitar o car&aacute;ter de descontinuidade entre o s&iacute;mbolo e o que &eacute; simbolizado no fetiche (Rivera, 1997).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O fetiche &eacute;, assim, uma tentativa fracassada de esconder o <i>real</i> da castra&ccedil;&atilde;o, tentativa que ao buscar ocult&aacute;-lo torna-se o testemunho mais convincente de que &ldquo;h&aacute; algo l&aacute;&rdquo;. Ou melhor, torna-se evid&ecirc;ncia de que algo <i>n&atilde;o h&aacute;</i>. &Eacute; justamente a falta que ele, o fetiche, tenta anular pela recusa  (<i>Verleugnung</i>). Nesse movimento oscilante entre recusa e aceita&ccedil;&atilde;o d&aacute;-se a inscri&ccedil;&atilde;o do sujeito no simb&oacute;lico. &Eacute; uma opera&ccedil;&atilde;o de simboliza&ccedil;&atilde;o, que permite substituir precariamente a falta e dar in&iacute;cio ao infind&aacute;vel deslize do desejo, modo de funcionamento que garante sempre um certo <i>desconhecimento</i> da realidade da falta e permite a cria&ccedil;&atilde;o do mundo pelo psiquismo. &Eacute; nesse ponto de tens&atilde;o que o fetiche aproxima-se e ao mesmo tempo se afasta da fantasia. Ambos v&ecirc;m se sobrepor &agrave; falta origin&aacute;ria, mas por vias diversas.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A fantasia &eacute; uma forma&ccedil;&atilde;o ps&iacute;quica que busca realizar um desejo que n&atilde;o pode ser diretamente satisfeito pela a&ccedil;&atilde;o motora. &Eacute; uma tentativa de &ldquo;enganar&rdquo; a interdi&ccedil;&atilde;o que pesa sobre o desejo. A fantasia &eacute; composta de elementos conscientes e inconscientes, e est&aacute; ligada em sua origem &agrave; atividade masturbat&oacute;ria da fase f&aacute;lica  (Freud, 1908). Um trabalho do in&iacute;cio da carreira de Freud d&aacute; &oacute;timas indica&ccedil;&otilde;es do que seria a l&oacute;gica da fantasia na teoria freudiana. Em <i>Lembran&ccedil;as encobridoras</i> (1899) ele trata da natureza da mem&oacute;ria, mais especificamente de <i>imagens</i> mn&ecirc;micas que cont&ecirc;m em si duas correntes antag&ocirc;nicas da vida pulsional. Uma delas busca fixar na mem&oacute;ria eventos de grande import&acirc;ncia para o indiv&iacute;duo, enquanto a outra tende a recalc&aacute;-los devido &agrave; natureza aversiva dos afetos despertados por eles, amea&ccedil;adores &agrave; unidade do eu. Trata-se ent&atilde;o de uma conflituosa mescla de recalque e desejo na cria&ccedil;&atilde;o de imagens mn&ecirc;micas, que n&atilde;o s&atilde;o exatamente o evento ocorrido, mas um epis&oacute;dio que guarda &iacute;ntima rela&ccedil;&atilde;o com aquilo que foi recalcado. Freud utiliza, para o desenvolvimento de sua argumenta&ccedil;&atilde;o, a an&aacute;lise de uma lembran&ccedil;a pr&oacute;pria (que no texto &eacute; atribu&iacute;da a um paciente) concernente a um epis&oacute;dio de sua primeira inf&acirc;ncia, quando teria dois ou tr&ecirc;s anos de idade, e que lhe parece estranha, principalmente devido &agrave; sua banalidade.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Trata-se de uma cena campestre na qual o pequeno Sigmund e um primo roubam um buqu&ecirc; de flores amarelas da menina que com eles brincava, e em seguida comem um delicioso p&atilde;o preto que lhes &eacute; dado por uma camponesa. O delicioso sabor do p&atilde;o e o intenso amarelo das flores destacam-se nessa imagem como elementos aberrantes, exagerados. Atrav&eacute;s da interpreta&ccedil;&atilde;o dessa cena, ocasionada pelo remetimento de sua manifesta&ccedil;&atilde;o consciente a um tempo posterior, chega-se &agrave; conclus&atilde;o de que n&atilde;o se tratava necessariamente de um epis&oacute;dio real e sim de uma lembran&ccedil;a encobridora, que vinha ocultar fantasias de defloramento de uma jovem e de obedi&ecirc;ncia &agrave; determina&ccedil;&atilde;o paterna de buscar uma profiss&atilde;o mais &ldquo;ganha-p&atilde;o&rdquo;. Tamb&eacute;m se insere na cadeia associativa de Freud sobre essa &ldquo;cena&rdquo; a revolta contra a perda do id&iacute;lico lar campestre, inconscientemente atribu&iacute;da ao pai. Tais fantasias recalcadas acharam sua express&atilde;o na forma&ccedil;&atilde;o de compromisso oferecida pela mem&oacute;ria encobridora, que se p&ocirc;s a servi&ccedil;o de dois mestres, o recalque e o desejo. Essas fantasias ter-se-iam originado em um momento muito posterior ao da lembran&ccedil;a, mais precisamente no fim da adolesc&ecirc;ncia de Freud, quando ele fez uma viagem de volta &agrave; sua terra natal e hospedou-se com uma fam&iacute;lia na qual havia uma menina de cerca de quinze anos de idade, por quem ele ent&atilde;o se apaixonou.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&Eacute; de mem&oacute;ria e fantasia que Freud nos fala nesse texto, ensejando a possibilidade de haver entre elas uma rela&ccedil;&atilde;o de equival&ecirc;ncia. A partir da lembran&ccedil;a encobridora e da amn&eacute;sia infantil pode-se pensar que grande parte, sen&atilde;o a totalidade, daquilo que aceitamos como nossa mem&oacute;ria autobiogr&aacute;fica &eacute; uma fic&ccedil;&atilde;o constru&iacute;da sobre uma verdade n&atilde;o-objetiva<a name="3a"></a><a href="#3"><sup>3</sup></a>. A narrativa que nos garante respostas mais ou menos est&aacute;veis para as perguntas &ldquo;quem sou?&rdquo; e &ldquo;de onde venho&rdquo; &eacute;, em sua dimens&atilde;o consciente e imag&eacute;tica, t&atilde;o ficcional quanto um conto liter&aacute;rio. O que resta ao sujeito s&atilde;o tra&ccedil;os mn&ecirc;micos, marcas, sobre as quais ser&atilde;o feitas imagens. Imagens essas que perdem, ap&oacute;s a interpreta&ccedil;&atilde;o psicanal&iacute;tica, a garantia de uma pretensa objetividade, mas que ent&atilde;o possibilitar&atilde;o em troca a aproxima&ccedil;&atilde;o vacilante de uma verdade bem menos ut&oacute;pica &#150; a verdade do sujeito que a&iacute; se inscreve.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Esses desenvolvimentos indicam o abandono por Freud de sua teoria da sedu&ccedil;&atilde;o, e apontam para a primazia da realidade ps&iacute;quica como constituinte do sujeito e tamb&eacute;m do sintoma, que caracterizam da&iacute; em diante seu pensamento. &Eacute; a fantasia que vem construir o que se apresenta como lembran&ccedil;a, como realidade acontecida, e uma fantasia posterior &agrave; &eacute;poca do evento lembrado, o que deixa entrever o entrela&ccedil;amento temporal na fantasia, em que presente, passado e futuro misturam-se sem exclus&atilde;o, subvertendo a ordem cronol&oacute;gica. A cena interpretada aponta para a atemporalidade do inconsciente, ao mesmo tempo em que se cristaliza em uma seq&uuml;&ecirc;ncia cronol&oacute;gica linear, como narrativa de si. Freud aborda ainda nesse mesmo texto a proximidade, na conflu&ecirc;ncia de duas correntes da vida ps&iacute;quica conflitantes, que se verifica entre o mecanismo da fantasia e o mecanismo de forma&ccedil;&atilde;o de sintomas neur&oacute;ticos. &Eacute; tamb&eacute;m uma forma&ccedil;&atilde;o de compromisso, uma tentativa tensa e fadada ao fracasso de servir a dois mestres, que ocasiona o surgimento do sintoma neur&oacute;tico.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&Eacute; importante, por fim, ressaltar o que distingue essas forma&ccedil;&otilde;es ps&iacute;quicas. Fantasias e sintomas guardam uma rela&ccedil;&atilde;o &iacute;ntima, j&aacute; que as primeiras conformam os &uacute;ltimos (Freud, 1908). Est&atilde;o entrela&ccedil;ados de forma inextric&aacute;vel no psiquismo e se constituem pela mesma opera&ccedil;&atilde;o, s&atilde;o forma&ccedil;&otilde;es de compromisso entre puls&atilde;o e recalque. O fetiche, contudo, &eacute; produto de uma opera&ccedil;&atilde;o ps&iacute;quica de outra ordem. N&atilde;o se enquadra no padr&atilde;o de funcionamento mental que dar&aacute; origem aos sintomas neur&oacute;ticos, j&aacute; que &eacute; uma recusa &#150; e n&atilde;o uma conjuga&ccedil;&atilde;o &#150; a opera&ccedil;&atilde;o que ele busca efetivar. Com ele n&atilde;o se trata de achar um meio termo, um ponto na batalha pulsional em que os dois lados da disputa tenham cedido algum terreno e atingido um ponto de impasse din&acirc;mico &#150; como poderiam ser caracterizados o sintoma e a fantasia. O fetiche &eacute; imagem fixa em oposi&ccedil;&atilde;o &agrave; cena, a breve narrativa da fantasia sobre a qual o sintoma pode ser erigido. O fetiche &eacute; a pr&oacute;pria imobilidade, a imutabilidade que mant&eacute;m presentes na recusa, em oscila&ccedil;&atilde;o, as duas possibilidades em jogo: aceita&ccedil;&atilde;o e n&atilde;o-aceita&ccedil;&atilde;o da falta do falo materno. Na f&oacute;rmula de Mannoni (1969), o fetiche aponta, contudo, para o &ldquo;eu sei... mas mesmo assim&rdquo; neur&oacute;tico, que faz com que a coisa perdida seja articulada sempre de outra forma, por substitui&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>A imagem em transfer&ecirc;ncia</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Seria &oacute;bvio tratar do sonho ao se abordar a imagem na teoria psicanal&iacute;tica. Parece-nos, contudo, que o sonho d&aacute; mostras de uma l&oacute;gica de constru&ccedil;&atilde;o de imagens an&aacute;loga &agrave; da lembran&ccedil;a encobridora. Seriam fen&ocirc;menos ps&iacute;quicos id&ecirc;nticos, n&atilde;o fosse a cren&ccedil;a na realidade da cena que falta ao sonho (apesar de alguns sonhos parecerem durante o sono ou logo ap&oacute;s o despertar, de forma an&aacute;loga &agrave; lembran&ccedil;a encobridora, absolutamente <i>reais</i>). Tanto o sonho como as fantasias s&atilde;o cenas constru&iacute;das sobre o desejo, uma tentativa de satisfa&ccedil;&atilde;o deste, que cede terreno ao recalque. Suas formas narrativas e figurativas finais s&atilde;o determinadas por esse jogo de for&ccedil;as intraps&iacute;quico, e em ambos h&aacute; um atravessamento dos registros da imagem e da palavra. Freud prop&otilde;e, muito antes de indicar que a matriz da fantasia &eacute; uma senten&ccedil;a, que os sonhos figuram um pensamento inconsciente em que um desejo &eacute; articulado no modo optativo (1901). Assim, o processo de estrutura&ccedil;&atilde;o on&iacute;rica est&aacute; suficientemente pr&oacute;ximo ao da fantasia para justificar que abordemos apenas a &uacute;ltima, considerando a &ecirc;nfase que desejamos colocar em sua import&acirc;ncia para a cl&iacute;nica, sem que haja grandes preju&iacute;zos ao desenvolvimento de nossa reflex&atilde;o.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Pode-se neste momento propor que o ponto de contato entre as distintas forma&ccedil;&otilde;es ps&iacute;quicas que abordamos acima est&aacute; em seu car&aacute;ter imag&eacute;tico e no jogo de for&ccedil;as ps&iacute;quicas conflitantes subjacentes a elas. Todas plasmam significantes, que ser&atilde;o o emblema das tens&otilde;es que sustentam. Essas estruturas s&oacute; nos s&atilde;o dadas a conhecer na cl&iacute;nica sob a chancela da transfer&ecirc;ncia. &Eacute; esse movimento, que traz em si outro par antit&eacute;tico &#150; fonte de maior resist&ecirc;ncia ao tratamento e for&ccedil;a motriz do mesmo &#150;, que nos permite pensar o lugar da imagem e daquilo que poderia ser pensado como um recalque desta, no dispositivo psicanal&iacute;tico.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A transfer&ecirc;ncia j&aacute; foi (e ainda &eacute;) pensada por meio da no&ccedil;&atilde;o do transporte das <i>imagos</i> parentais. Lacan (1998) problematiza o termo e demonstra o papel criador (e alienante) que a imagem do pr&oacute;prio corpo tem para a fun&ccedil;&atilde;o do eu, e que &eacute; a abertura mesma de todas as possibilidades posteriores de identifica&ccedil;&atilde;o (definida a&iacute; como &ldquo;assumir uma imagem&rdquo;) que se fazem presentes de alguma forma no processo anal&iacute;tico. Isso sublinha a import&acirc;ncia do registro da imagem na constitui&ccedil;&atilde;o ps&iacute;quica humana. Tal registro &eacute; colocado, com Lacan, na aurora da constitui&ccedil;&atilde;o subjetiva, no est&aacute;dio do espelho. Isso nos permite relan&ccedil;ar a quest&atilde;o, tornando-a mais contundente: por que ent&atilde;o nos escondemos da vis&atilde;o do paciente, ou seja, qual &eacute; a rela&ccedil;&atilde;o entre a &ldquo;invisibilidade&rdquo; preconizada pelo <i>setting</i> anal&iacute;tico e a natureza da transfer&ecirc;ncia? A resposta a ela est&aacute; em parte contida no que foi dito anteriormente, mas antes vamos tentar delimitar com um pouco mais de apuro o que se quer dizer com o termo <i>transfer&ecirc;ncia</i>.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O conceito de transfer&ecirc;ncia carrega consigo as id&eacute;ias de transporte e movimento. Mais do que um &ldquo;colocar sobre o analista&rdquo; as <i>imagos</i> parentais, ou transferir afetos e id&eacute;ias de um passado infantil, em um sentido linear, do analisando ao analista, ela indicaria um movimento pendular e cont&iacute;nuo do qual n&atilde;o se pode ver um ponto de chegada. &Eacute; tamb&eacute;m um movimento temporal no qual o passado infantil vem se atualizar. O &ldquo;amor transferencial&rdquo;, diz Freud (1915), guarda uma identidade com as paix&otilde;es da vida real em sua dimens&atilde;o de repeti&ccedil;&atilde;o, mas provocado pela situa&ccedil;&atilde;o anal&iacute;tica &#150; a&iacute; reside sua peculiaridade e sua possibilidade terap&ecirc;utica.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Freud apresenta, no j&aacute; citado <i>Observa&ccedil;&otilde;es sobre o amor transfer&ecirc;ncia</i>, uma preciosa met&aacute;fora que ser&aacute; mais tarde retomada e expandida por J.B. Pontalis (1991). A transfer&ecirc;ncia &eacute; caracterizada a&iacute; como o fogo que irrompe no teatro no meio da encena&ccedil;&atilde;o de uma pe&ccedil;a. Essa <i>imagem</i> (&eacute; disso, em certa medida, que se trata em uma met&aacute;fora, fazer imagens) convoca-nos a reconhecer o que h&aacute; de <i>real</i> na transfer&ecirc;ncia e o que h&aacute; de ficcional em toda a exist&ecirc;ncia humana. Como nota Jean Laplanche, o analista encontra-se na estranha posi&ccedil;&atilde;o de receber uma carta an&ocirc;nima da qual desconhece o destinat&aacute;rio, mas que lhe &eacute; entregue, a ele e a mais ningu&eacute;m (1993). A&iacute; est&aacute; a prec&aacute;ria posi&ccedil;&atilde;o que ele deve ocupar: sem negar-se a receber tal mensagem, saber que &eacute; apenas um destinat&aacute;rio transit&oacute;rio, e n&atilde;o o destinat&aacute;rio, sendo a atualidade desse recebimento o que pode conferir algo de novo ao ciclo imposto pela repeti&ccedil;&atilde;o. &Eacute; por essa via que se abre a possibilidade do novo feito do velho, de re-editar a mensagem. Essa re-edi&ccedil;&atilde;o s&oacute; ocorre sob a condi&ccedil;&atilde;o de que o analista consiga garantir esse lugar da &ldquo;transfer&ecirc;ncia em vazio&rdquo; (Laplanche, 1993), esse lugar onde o analista <i>n&atilde;o-&eacute;</i>, n&atilde;o toma lugar como sujeito de seu pr&oacute;prio sintoma, mas <i>faz falta</i>. Essa peculiar posi&ccedil;&atilde;o corresponde ao que foi chamado por Freud de &ldquo;abstin&ecirc;ncia&rdquo; (1915), e &eacute; a defini&ccedil;&atilde;o pr&oacute;pria da atitude do analista para com a transfer&ecirc;ncia. &Eacute; s&oacute; em abstin&ecirc;ncia que se realiza uma an&aacute;lise. &Eacute; ela que vai permitir ao analista n&atilde;o se tornar mais um ator no teatro transferencial.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Agora que o percurso te&oacute;rico foi apresentado, devemos retomar a afirma&ccedil;&atilde;o de Freud acerca do div&atilde; que motivou nossa interroga&ccedil;&atilde;o. Vejamos, novamente, as raz&otilde;es que ele nos d&aacute; para o uso do arranjo do div&atilde;:</font></p>     <blockquote>       <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">a primeira &eacute; um motivo pessoal, mas que outros podem partilhar comigo. N&atilde;o posso suportar ser encarado fixamente por outras pessoas durante oito horas (ou mais) por dia. Visto que, enquanto estou escutando o paciente, tamb&eacute;m me entrego &agrave; corrente de meus pensamentos inconscientes, n&atilde;o desejo que minhas express&otilde;es faciais d&ecirc;em ao paciente material para interpreta&ccedil;&atilde;o ou influenciem-no no que me conta. &#91;...&#93; Insisto nesse procedimento, contudo, pois seu prop&oacute;sito e resultado s&atilde;o impedir que a transfer&ecirc;ncia se misture imperceptivelmente &agrave;s associa&ccedil;&otilde;es do paciente, isolar a transfer&ecirc;ncia e permitir-lhe que apare&ccedil;a, no devido tempo, nitidamente definida como resist&ecirc;ncia (1913, p. 176).</font></p> </blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&Eacute; claro que a transfer&ecirc;ncia &eacute; seu eixo central. N&atilde;o deixar que o paciente veja as express&otilde;es faciais do analista &eacute; uma forma de reafirmar a necessidade da &ldquo;aten&ccedil;&atilde;o livremente flutuante&rdquo; que se prop&otilde;e como complemento da atividade de associa&ccedil;&atilde;o livre. &Eacute; claro que o analista &eacute; humano e, como Freud aponta, ser&aacute; tomado tamb&eacute;m no curso da an&aacute;lise por seus pr&oacute;prios conte&uacute;dos inconscientes, comparecer&aacute; como sujeito do inconsciente (a abstin&ecirc;ncia &eacute; um horizonte e n&atilde;o um estado permanente). Come&ccedil;a, ent&atilde;o, a ficar mais claro como o div&atilde; prestar-se-ia a isolar a transfer&ecirc;ncia.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Uma outra possibilidade de aproxima&ccedil;&atilde;o desse &ldquo;estar fora da vista&rdquo; do analisando, e que vem ao encontro do que foi exposto anteriormente, &eacute; enfocar o que representa para a constitui&ccedil;&atilde;o do sujeito a teoria do fetiche. A cena constru&iacute;da por Freud indica <i>um dos</i> (j&aacute; que o inconsciente &eacute; atemporal e &eacute; &ldquo;s&oacute; depois&rdquo; que a neurose se constitui) momentos fundadores da neurose ou da pervers&atilde;o por ser o pr&oacute;prio embate do sujeito com a castra&ccedil;&atilde;o, e assim definidor de sua rela&ccedil;&atilde;o com o mundo. Pode-se imaginar uma equival&ecirc;ncia simb&oacute;lica entre o lugar do analista, e conseq&uuml;entemente o do dispositivo psicanal&iacute;tico, e sexo materno, o lugar da falta. Um analisando aponta isso agudamente quando um dia diz &agrave; sua analista, de chofre: &ldquo;<i>voc&ecirc; &eacute; um buraco</i>&rdquo;. &Eacute; a isso que pode se propor uma psican&aacute;lise, &agrave; recoloca&ccedil;&atilde;o do conflito, &agrave; re-encena&ccedil;&atilde;o desse momento de confronto com a falta, do qual emerge o sujeito e o sofrimento. &Eacute; a re-encena&ccedil;&atilde;o que pode incidir sobre a disjun&ccedil;&atilde;o significante e promover a reescrita dessa hist&oacute;ria infantil, e que permitir&aacute;, talvez, colocar novamente em movimento o que foi anteriormente fixado, congelado no tempo. A an&aacute;lise trabalha, quando &eacute; eficaz, nesse espa&ccedil;o de descontinuidade entre o s&iacute;mbolo e o termo simbolizado. Aponta a falha da recusa, a impossibilidade de esconder a falta que o fetiche tenta tamponar, levando o sujeito a se haver com isso.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Essa busca da atualiza&ccedil;&atilde;o do arcaico da constru&ccedil;&atilde;o subjetiva parece estar tamb&eacute;m na base daquilo que uma an&aacute;lise tenta efetuar sobre as fantasias. Elas surgem como aquilo que permite a satisfa&ccedil;&atilde;o do desejo, a despeito ou mesmo a partir da restri&ccedil;&atilde;o que pesa sobre ela. &Eacute; da ren&uacute;ncia &agrave; satisfa&ccedil;&atilde;o pulsional imposta pelo complexo de &Eacute;dipo que a fantasia deriva sua estrutura conflitiva. Ela compartilha uma ascend&ecirc;ncia comum com o fetiche, emblema negativo da castra&ccedil;&atilde;o, e como j&aacute; apontamos, constitui o n&uacute;cleo dos sintomas neur&oacute;ticos. Pontalis nos diz que &ldquo;a hist&eacute;rica n&atilde;o &eacute; uma doente imagin&aacute;ria, mas uma doente do imagin&aacute;rio&rdquo; (1991, p. 73). Trata-se principalmente de fantasias em uma an&aacute;lise, esse &eacute; o registro no qual o paciente deve ser introduzido para estar em an&aacute;lise, &eacute; no registro da fantasia que ele falar&aacute; no div&atilde; na maior parte do tempo, como bem lembra Versiani (1995). Ser&aacute; tamb&eacute;m sobre esse registro que a maior parte das interpreta&ccedil;&otilde;es do analista ser&atilde;o feitas. &Eacute; ent&atilde;o uma impossibilidade de manter a repeti&ccedil;&atilde;o exigida pela fantasia que o analista presente-ausente vai impor com sua escuta espec&iacute;fica, promovendo uma transforma&ccedil;&atilde;o da cena em associa&ccedil;&atilde;o livre.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Tomando o problema por outro &acirc;ngulo, se a fantasia &eacute; imagem e ocupa um lugar central no tratamento anal&iacute;tico, poder-se-ia propor que este seja, por excel&ecirc;ncia, um tratamento de imagens. A disposi&ccedil;&atilde;o espacial do tratamento, longe de ser uma nega&ccedil;&atilde;o do registro do visual, configurar-se-ia como uma ferramenta que busca fazer a an&aacute;lise agir justamente sobre os princ&iacute;pios desse registro. Estranha caracteriza&ccedil;&atilde;o para o m&eacute;todo definido pela m&aacute;xima da &ldquo;cura pela fala&rdquo;, e no qual os participantes efetivamente n&atilde;o se v&ecirc;em. Caracteriza&ccedil;&atilde;o que, no entanto, torna-se menos estranha se lembramos que a fantasia &eacute; imagem e frase.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Em <i>Uma crian&ccedil;a &eacute; espancada</i> (Freud, 1919), ficamos sabendo que a f&oacute;rmula da fantasia &eacute; uma frase. &Eacute; um enunciado que origina a imagem. Quase como o roteiro de um filme ou de uma pe&ccedil;a determina a sua <i>mise-en-sc&egrave;ne</i>. Mas o mesmo Freud nos ensina, a&iacute; e em outros textos, dos quais se pode citar <i>Constru&ccedil;&otilde;es em an&aacute;lise</i> (1937) como fonte principal, que esse enunciado, essa frase que produz a fantasia n&atilde;o segue a ordem cronol&oacute;gica da produ&ccedil;&atilde;o dram&aacute;tica. Na seq&uuml;&ecirc;ncia temporal da produ&ccedil;&atilde;o de um filme, por exemplo, o primeiro passo &eacute; a escrita do roteiro. Com a fantasia, no entanto, o roteiro se escreve &ldquo;s&oacute;-depois&rdquo;, ele &eacute; constru&iacute;do <i>a posteriori</i>. H&aacute; ent&atilde;o uma rela&ccedil;&atilde;o entre frase e imagem que constitui a matriz da fantasia, e por conseq&uuml;&ecirc;ncia tamb&eacute;m a matriz do sintoma. A an&aacute;lise propor-se-ia a trabalhar esse espa&ccedil;o entre a enuncia&ccedil;&atilde;o e a imagem que dela deriva ou que, ao inverso, a conforma (a rela&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; linear), em uma tentativa de dar contornos e remontar essa rela&ccedil;&atilde;o que conforma o desejo.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Imagem, montagem e an&aacute;lise</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Tomemos uma id&eacute;ia de Miriam Chnaiderman, que pode nos ajudar a pensar a dimens&atilde;o imag&eacute;tica/textual da psican&aacute;lise. Ela afirma: &ldquo;para escutar o desejo &eacute; preciso transformar o discurso em imagem, &eacute; preciso ter uma escuta que olha&rdquo; (1988, p. 6). Essa peculiaridade da escuta anal&iacute;tica reenviaria o discurso &agrave; ordem da imagem, na qual as conex&otilde;es significativas podem se desfazer e refazer. A an&aacute;lise seria an&aacute;lise (vale lembrar: a etimologia da palavra remete a &ldquo;quebra&rdquo;) de imagens. O analista entrega-se &agrave; contempla&ccedil;&atilde;o dessas imagens que o analisando lhe oferece em transfer&ecirc;ncia, toma-as em sua materialidade significante, o que permite <i>quebr&aacute;-las</i> em seus componentes. Segue-se aqui a l&oacute;gica proposta para a interpreta&ccedil;&atilde;o dos sonhos, e que pode servir como paradigma de toda interven&ccedil;&atilde;o anal&iacute;tica.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Levado adiante, esse racioc&iacute;nio permite tamb&eacute;m reverter a afirma&ccedil;&atilde;o de Chnaiderman: a escuta n&atilde;o s&oacute; faz imagem do discurso como propicia que se fa&ccedil;a discurso das imagens do inconsciente. Ao se quebrarem as fixa&ccedil;&otilde;es significativas, surge a possibilidade de que se rearranjem os fragmentos, permitindo novas aberturas de <i>montagem</i> que podem levar a v&aacute;rias enuncia&ccedil;&otilde;es origin&aacute;rias (a f&oacute;rmula da fantasia que ser&aacute; constru&iacute;da na an&aacute;lise), que por sua vez podem novamente abrir possibilidades de se (re)fazer cenas, de recri&aacute;-las, colocando em movimento aquilo que se encontrava fossilizado, mortalmente imobilizado no sintoma.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O termo <i>montagem</i> que usamos acima &eacute; tomado emprestado da teoria cinematogr&aacute;fica. A montagem, recurso t&eacute;cnico e expressivo mais essencial &agrave; arte cinematogr&aacute;fica, oferece um interessante paralelo com a t&eacute;cnica psicanal&iacute;tica. Um filme se faz pela jun&ccedil;&atilde;o de peda&ccedil;os, fragmentos, fotogramas que s&atilde;o emparelhados de forma a estabelecer uma narrativa. A rela&ccedil;&atilde;o que ser&aacute; estabelecida entre esses fragmentos n&atilde;o &eacute; regida por qualquer princ&iacute;pio natural que regule e limite as poss&iacute;veis jun&ccedil;&otilde;es. Ainda que a cren&ccedil;a em um naturalismo e realismo narrativos tenha sido pressuposto de grande parte da produ&ccedil;&atilde;o cinematogr&aacute;fica desde seu in&iacute;cio, diversos autores e realizadores apontaram o car&aacute;ter de reinven&ccedil;&atilde;o do cont&iacute;nuo espa&ccedil;o-temporal que o cinema, por meio da montagem, comporta.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A narrativa &eacute; sobredeterminada pela concep&ccedil;&atilde;o do cineasta e n&atilde;o pela &ldquo;realidade objetiva&rdquo; capturada pela c&acirc;mera. Os fotogramas podem ser combinados, por exemplo, colocando-se lado a lado imagens de lugares geogr&aacute;fica e historicamente distantes, de forma a criar uma nova unidade intelectual, emotiva ou perceptual. Unidade que &eacute; mais que a mera soma das percep&ccedil;&otilde;es dos fragmentos individuais e que se efetiva como tal apenas no momento de sua frui&ccedil;&atilde;o pelo espectador de cinema. A cronologia linear de uma narrativa pode ser invertida ou embaralhada, o espa&ccedil;o f&iacute;sico representado na pel&iacute;cula pode estar distorcido por in&uacute;meros recursos &oacute;ticos, ou meramente pela sele&ccedil;&atilde;o dos &acirc;ngulos e quadros que ser&atilde;o mostrados. O <i>close-up</i>, a c&acirc;mera lenta, a dupla exposi&ccedil;&atilde;o, entre outros recursos, constituem altera&ccedil;&otilde;es na percep&ccedil;&atilde;o do mundo, ou mesmo na constru&ccedil;&atilde;o de uma realidade, que servem a uma esp&eacute;cie de naturalismo de outra ordem. Promovem uma verossimilhan&ccedil;a n&atilde;o a uma realidade objetiva concebida sob a l&oacute;gica cartesiana, mas uma aproxima&ccedil;&atilde;o &agrave; verdade do inconsciente.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O grande cineasta russo Sergei Eisenstein, um dos primeiros, e at&eacute; hoje um dos mais importantes te&oacute;ricos da montagem, propunha que a verdadeira potencialidade criativa do cinema est&aacute; em uma montagem que tenha por for&ccedil;a motriz o conflito. O conflito entre diferentes campos sensoriais, diferentes est&iacute;mulos nesses diversos campos, dentro do quadro e no &acirc;mbito da montagem, e mesmo o conflito ideol&oacute;gico contido na narrativa cinematogr&aacute;fica. Acerca de um pretenso realismo na montagem Eisenstein escreve: &ldquo;a descri&ccedil;&atilde;o n&atilde;o proporcional de um evento &eacute; organicamente natural para n&oacute;s desde o in&iacute;cio (...) O realismo absoluto n&atilde;o &eacute; de modo algum a forma correta de percep&ccedil;&atilde;o. &Eacute; simplesmente a fun&ccedil;&atilde;o de uma determinada forma de estrutura social&rdquo; (1990, p. 39). A linguagem do cinema parece aproximar-se mais da l&oacute;gica do processo prim&aacute;rio do que da l&oacute;gica diurna, linear do processo secund&aacute;rio. Suas imagens guardam uma analogia estrutural com as imagens on&iacute;ricas e as cenas da fantasia.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Tomando as id&eacute;ias acima apresentadas como ponto de partida podemos propor o dispositivo anal&iacute;tico como uma esp&eacute;cie de <i>sala de montagem</i>, na qual analista e analisando tomam esses fotogramas alinhados pela neurose e p&otilde;em-se a &ldquo;quebr&aacute;-los&rdquo;, recort&aacute;-los. Ent&atilde;o, e ao mesmo tempo, busca-se deixar que uma nova montagem, uma re-montagem (cujo roteiro escreve-se simultaneamente ao fazer) se estabele&ccedil;a. Sem objeto final pr&eacute;-concebido, mas seguindo as aproxima&ccedil;&otilde;es que o pr&oacute;prio material aponta. Deve-se ressaltar que o resultado final n&atilde;o &eacute; uma narrativa linear bem estabelecida da hist&oacute;ria do sujeito, que lhe garantir&aacute; as respostas necess&aacute;rias a uma exist&ecirc;ncia ideal e livre de sofrimento. E muito menos que a narrativa sintom&aacute;tica que foi inicialmente trazida ao consult&oacute;rio, seja totalmente desintegrada, seu engodo desfeito de forma quase m&aacute;gica. Talvez tudo o que essa remontagem possa atingir seja justamente colocar em foco, incluir no quadro a pr&oacute;pria estrutura de montagem da cena com que se come&ccedil;ou o trabalho. Apontar as linhas mestras de sua constru&ccedil;&atilde;o, expor o conflito que lhe d&aacute; forma, j&aacute; &eacute; transform&aacute;-la um tanto.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Essa <i>imagem</i> pode informar um dos aspectos mais essenciais do trabalho psicanal&iacute;tico, as interpreta&ccedil;&otilde;es e constru&ccedil;&otilde;es que s&atilde;o feitas sobre e na rela&ccedil;&atilde;o transferencial. &Eacute; somente agindo sobre a transfer&ecirc;ncia e a partir dela que o trabalho do analista abre possibilidades de atualiza&ccedil;&atilde;o da montagem (remontagem) da narrativa da neurose.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Acreditamos ser essa uma boa aproxima&ccedil;&atilde;o do que seria o movimento pendular de uma an&aacute;lise ao qual nos referimos anteriormente, e tamb&eacute;m do que caracterizaria o trabalho do analista em tal movimento. Trabalho de despeda&ccedil;amento e montagem que s&oacute; se faz gra&ccedil;as a esse fogo no teatro &#150; ou na sala de proje&ccedil;&atilde;o? &#150; que estilha&ccedil;a ele mesmo a cena e possibilita a cria&ccedil;&atilde;o de uma nova fic&ccedil;&atilde;o, na qual espera-se que os significantes possam permanecer em movimento.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Refer&ecirc;ncias Bibliogr&aacute;ficas</b></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">CHNAIDERMAN, Miriam. Narrativa e imagem: movimentos do desejo. <i>Percurso</i>. (1), 1988. Dispon&iacute;vel em: www2.uol.com.br/percurso/main/pcso1/artigo0125.htm.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2363121&pid=S1415-1138200600010000900001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">DUDAI, Yadin. The neurobiology of consolidations, or, how stable is the engram?. <i>Annual Review of Psychology</i>. Palo Alto, CA, USA, (55): 51-86, 2004.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2363122&pid=S1415-1138200600010000900002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">EISENSTEIN, Sergei M. Fora de quadro. In: EISENSTEIN, Sergei M. <i>A forma do filme</i>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1990.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2363123&pid=S1415-1138200600010000900003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">FREUD, S. (1899). <i>Lembran&ccedil;as encobridoras</i>. In: FREUD, S. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1972. vol. III.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2363124&pid=S1415-1138200600010000900004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">FREUD, S. (1901). <i>Sobre os sonhos</i>. In: FREUD, S. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1972. vol. V.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2363125&pid=S1415-1138200600010000900005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">FREUD, S. (1905). <i>Tr&ecirc;s ensaios sobre a teoria da sexualidade</i>. In: FREUD, S. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1972. vol. VII.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2363126&pid=S1415-1138200600010000900006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">FREUD, S. (1908).<i> Fantasias hist&eacute;ricas e sua rela&ccedil;&atilde;o com a bissexualidade</i>. In: FREUD, S. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1976. vol. IX.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2363127&pid=S1415-1138200600010000900007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">FREUD, S. (1913). <i>Sobre o in&iacute;cio do tratamento (novas recomenda&ccedil;&otilde;es sobre a t&eacute;cnica da psican&aacute;lise I)</i>. In: FREUD, S. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1976. vol. XII.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2363128&pid=S1415-1138200600010000900008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">FREUD, S. (1915&#91;1914&#93;). <i>Observa&ccedil;&otilde;es sobre o amor transferencial (novas recomenda&ccedil;&otilde;es sobre a t&eacute;cnica da psican&aacute;lise III)</i>. In: FREUD, S. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1976. vol. XII.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2363129&pid=S1415-1138200600010000900009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">FREUD, S. (1919). <i>O estranho</i>. In: FREUD, S. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1976. vol. XVII.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2363130&pid=S1415-1138200600010000900010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">FREUD, S. (1919). <i>Uma crian&ccedil;a &eacute; espancada</i>: uma contribui&ccedil;&atilde;o ao estudo da origem das pervers&otilde;es sexuais. In: FREUD, S. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1976. vol. XVII.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2363131&pid=S1415-1138200600010000900011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">FREUD, S. (1927). <i>Fetichismo</i>. In: FREUD, S. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1976. vol. XXI.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2363132&pid=S1415-1138200600010000900012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">FREUD, S. (1937). <i>Constru&ccedil;&otilde;es em an&aacute;lise</i>. In: FREUD, S. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1976. vol. XXIII.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2363133&pid=S1415-1138200600010000900013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">LACAN, Jacques. O est&aacute;dio do espelho como formador da fun&ccedil;&atilde;o do eu. In: LACAN, Jacques. <i>Escritos</i>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2363134&pid=S1415-1138200600010000900014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">LAPLANCHE, Jean. Da transfer&ecirc;ncia: sua provoca&ccedil;&atilde;o pelo analista. <i>Percurso</i>. S&atilde;o Paulo, (10): 73-83, 1993.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2363135&pid=S1415-1138200600010000900015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">MANNONNI, Octave. Je sais bien, mais quand m&ecirc;me... In: MANNONNI, Octave. <i>Clefs pour L&rsquo;imaginaire ou L&rsquo;autre Sc&egrave;ne</i>. Paris: Ed. du Seuil, 1969.</font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">PONTALIS, J.-B. (1991). A estranheza da transfer&ecirc;ncia. In: PONTALIS, J.-B. <i>A for&ccedil;a de atra&ccedil;&atilde;o</i>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1991.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2363137&pid=S1415-1138200600010000900017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">RIVERA, Tania. O fetiche, subvers&atilde;o do s&iacute;mbolo. <i>Percurso</i>. S&atilde;o Paulo, (19): 13-20, 1997.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2363138&pid=S1415-1138200600010000900018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">VERSIANI, Estela R. Fantasia na an&aacute;lise. <i>Boletim de Novidades Pulsional</i>. (73): 53-58, 1995.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2363139&pid=S1415-1138200600010000900019&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>&nbsp;</P>     <p>&nbsp;</P>     <p><font size=2 face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="enda"></a><a href="#end"><img src="/img/revistas/psyche/v10n17/seta.gif" border="0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a>    <br> Pablo B.G. Barbosa    <br> SQN 407 / bl. B / 302    <br> 70855-020 Bras&iacute;lia - DF    <br> Tel.: +55-61 340-9401    <br> E-mail: <a href="mailto:pbergami@gmail.com">pbergami@gmail.com</a></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Tania Rivera    <br> SHIS QI 23 / Ch&aacute;cara 16    <br> 71660-730 Bras&iacute;lia - DF    <br> Tel.: +55-61 366-3756    <br> E-mail: <a href="mailto:taniarivera@uol.com.br">taniarivera@uol.com.br</a></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Recebido em 06/04/05    <br> Vers&atilde;o revisada recebida em 17/08/05    <br> Aprovado em 18/08/05</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Notas</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><a name="I"></a><a href="#Ia"><sup>I</sup></a> Psic&oacute;logo e Mestrando em Psicologia Cl&iacute;nica (UnB).    <br> <a name="II"></a><a href="#IIa"><sup>II</sup></a> Psicanalista; Professora do Departamento de Psicologia Cl&iacute;nica (UnB); Doutora em Psicologia (Universit&eacute; Catholique de Louvain, B&eacute;lgica); Pesquisadora Bolsista do CNPq.    <br> <a name="1"></a><a href="#1a"><sup>1</sup></a> Freud j&aacute; advertia, em <i>Sobre o in&iacute;cio do tratamento</i> (1913), da resist&ecirc;ncia inicial de seus pacientes a deitarem-se no div&atilde; &#150; resist&ecirc;ncia que era mais forte quanto mais central &agrave; sua neurose fosse a puls&atilde;o esc&oacute;pica.    <br> <a name="2"></a><a href="#2a"><sup>2</sup></a> Identificada por sua vez com a castra&ccedil;&atilde;o em uma equival&ecirc;ncia simb&oacute;lica em que &ldquo;olhos&rdquo; se emparelham com p&ecirc;nis. Essa equival&ecirc;ncia ecoa o mito de &Eacute;dipo em sua reconstru&ccedil;&atilde;o psicanal&iacute;tica, e &eacute; abordada em <i>O estranho</i>  (Freud, 1919).    <br> <a name="3"></a><a href="#3a"><sup>3</sup></a> &Eacute; claro que essa compreens&atilde;o da mem&oacute;ria diz respeito aos fragmentos de mem&oacute;ria dos primeiros anos da inf&acirc;ncia, antes da inscri&ccedil;&atilde;o efetiva do sujeito no campo da linguagem, opera&ccedil;&atilde;o que lhe permitiria estabelecer uma narrativa mais coesa e est&aacute;vel sobre sua pr&oacute;pria hist&oacute;ria. N&atilde;o se trata da mem&oacute;ria operacional, ou de curto prazo, como a chamam as neuroci&ecirc;ncias. Vale ressaltar, no entanto, que mesmo os neurologistas e os neuropsic&oacute;logos prop&otilde;em que, por uma quest&atilde;o de otimiza&ccedil;&atilde;o do armazenamento e da recupera&ccedil;&atilde;o, dados de menor import&acirc;ncia sejam apagados regularmente de nossa mem&oacute;ria. Essas lacunas deixam espa&ccedil;o para a &ldquo;falsifica&ccedil;&atilde;o&rdquo; e altera&ccedil;&atilde;o dos registros mn&ecirc;micos, mesmo ap&oacute;s a idade adulta, o que apresenta uma interessante proximidade com as concep&ccedil;&otilde;es freudianas sobre a mem&oacute;ria e a no&ccedil;&atilde;o de <i>apr&eacute;s-coup</i> em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s forma&ccedil;&otilde;es ps&iacute;quicas. Sobre a perspectiva neurobiol&oacute;gica da consolida&ccedil;&atilde;o da mem&oacute;ria ver Dudai, 2004.</font></p>      ]]></body>
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