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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b> RESENHAS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Paulo Roberto Almada Ferraz</b><a name="Autor" href="#Autora"><sup>&#42;</sup></a></b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Universidade Presidente Ant&ocirc;nio Carlos &#45; Brasil</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">RUDGE, Ana Maria &#40;org&#41;. <i>Traumas.</i> S&atilde;o Paulo: Escuta, 2006. 188p. ISBN 85&#45;7137&#45;250&#45;0</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Numa abordagem bastante atual, em fun&ccedil;&atilde;o das circunst&acirc;ncias que a humanidade vive, a obra &eacute; realmente pertinente ao trazer para discuss&atilde;o o tema &#34;traumas&#34;. &Eacute; o resultado da reuni&atilde;o de diversos trabalhos apresentados no I Congresso Internacional de Psicopatologia Fundamental e VII Congresso Brasileiro de Psicopatologia Fundamental, realizado em setembro de 2004, na PUC&#45;Rio.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ao ter a express&atilde;o &#34;trauma&#34; como significado, no &acirc;mbito psicol&oacute;gico, de altera&ccedil;&atilde;o na personalidade do indiv&iacute;duo causada por experi&ecirc;ncia emocional violenta que modifica o seu psiquismo, os organizadores desse volume, prefaciado por Ana Maria Rudge, foram pertinentes ao trazer para discuss&atilde;o o assunto. Embora n&atilde;o seja um exemplar endere&ccedil;ado para leigos, foi estruturado de forma clara, objetiva e coerente com as quest&otilde;es suscitadas por pacientes nas sess&otilde;es anal&iacute;ticas atuais.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O livro est&aacute; dividido em doze partes, al&eacute;m de trazer um pref&aacute;cio e uma sucinta bibliografia sobre cada autor, que permeia cada t&oacute;pico, com propriedade, para estudiosos da Psicologia, em fun&ccedil;&atilde;o do uso de termos e de express&otilde;es pr&oacute;prias desse meio, tanto freudianas quanto lacanianas. Com narrativa instigante, os organizadores fazem uma viagem pelo tempo, demonstrando os v&aacute;rios momentos em que o homem &eacute; acometido pelos arreveses que o desequilibram emocionalmente, em fun&ccedil;&atilde;o das mais diversas circunst&acirc;ncias. A obra nos permite voltar os olhos para as v&aacute;rias facetas da dualidade amor e &oacute;dio vivida pelo sujeito, nos mais diferentes momentos da vida, que culmina na forma de viol&ecirc;ncias e de traumas.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A leitura nos faz repensar n&atilde;o apenas quanto &agrave; express&atilde;o &#34;trauma&#34;, mas tamb&eacute;m quanto ao papel da psican&aacute;lise no tempo hodierno, em que os pacientes j&aacute; n&atilde;o s&atilde;o como os de antes, assim como as problem&aacute;ticas levadas ao <i>setting</i> terap&ecirc;utico. As discuss&otilde;es s&atilde;o frutos de considera&ccedil;&otilde;es anal&iacute;ticas de v&aacute;rios pesquisadores, que estimulam a reflex&atilde;o quanto ao posicionamento do analista frente a esse sujeito, novo n&atilde;o apenas em sua maneira de ver e sentir o mundo, mas tamb&eacute;m no que tange &agrave;s novas e singulares queixas. Somos remetidos &agrave;s falas de Freud &#40;1909&#41;, quando j&aacute; considerava que, para tratar o sujeito, era necess&aacute;rio que tal trabalho fosse realizado por meio da observa&ccedil;&atilde;o dele no meio em que vive, junto &agrave; coletividade, com seus percal&ccedil;os e os obst&aacute;culos pr&oacute;prios de cada cultura.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Percebemos qu&atilde;o atuais s&atilde;o os conceitos trabalhados pelo Pai da Psican&aacute;lise, tais como o mal&#45;estar cultural, a puls&atilde;o de vida e a puls&atilde;o de morte, realidades t&atilde;o presentes no sujeito do s&eacute;culo XXI, que precisa viver numa linha t&atilde;o t&ecirc;nue entre o amar e o odiar.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Os textos nos induzem a uma an&aacute;lise do caos por que passa o homem, desde os tempos dos campos de Auschwitz at&eacute; as barb&aacute;ries praticadas no presente, em nome da paz, da religi&atilde;o, da pol&iacute;tica, que t&ecirc;m, como conseq&uuml;&ecirc;ncia, o trauma ps&iacute;quico do pr&oacute;prio homem. Apresenta&#45;nos a necessidade de an&aacute;lise da influ&ecirc;ncia dos traumas em cada sujeito, em fun&ccedil;&atilde;o de que cada indiv&iacute;duo percebe os transtornos emocionais de maneira singular, mas n&atilde;o descarta a possibilidade de pensar o trauma coletivo em que estamos sujeitos. At&eacute; mesmo porque as guerras, os assassinatos em massa, e os atos de terrorismo t&ecirc;m ocorrido de maneira generalizada em todo o planeta como uma &#34;cultura&#34; de morte, em que para cessar a matan&ccedil;a do outro &eacute; preciso mat&aacute;&#45;lo... e tudo em nome do bem.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&Eacute; um chamamento, segundo Eliane Mendlowicz &#40;p. 51&#41;, para a tentativa de verificar que contribui&ccedil;&otilde;es a psican&aacute;lise pode prestar a esse sofrimento moderno, numa necessidade premente de aprofundar a investiga&ccedil;&atilde;o dos fen&ocirc;menos depressivos. Com essa preocupa&ccedil;&atilde;o, a autora faz refer&ecirc;ncia aos fatores que hoje assolam o sujeito moderno e que n&atilde;o podem ser desconsiderados pela influ&ecirc;ncia nefasta que causa no psiquismo do indiv&iacute;duo. Mendlowicz ainda insiste que n&atilde;o se pode mais considerar traum&aacute;ticas apenas as experi&ecirc;ncias negativas de natureza sexual, haja vista os in&uacute;meros casos atestados na rotina das cl&iacute;nicas psicoter&aacute;picas nos dias de hoje.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Veremos como a psican&aacute;lise se encontra inserida no contexto hist&oacute;rico atual, em que se observa a banaliza&ccedil;&atilde;o do mal. A m&iacute;dia contribui com essa quest&atilde;o, mostrando cenas em que o sujeito &eacute; coisificado, tornando&#45;se algo que pode ser descartado quando n&atilde;o mais dele se precisa.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Seremos levados a questionar, tamb&eacute;m, a voz de um Outro, o Estado e suas for&ccedil;as parceiras, no controle e na puni&ccedil;&atilde;o do indiv&iacute;duo, sob o pretexto de medidas de seguran&ccedil;a e de prote&ccedil;&atilde;o. Esses tamb&eacute;m s&atilde;o fatores que fazem surgir, para a psican&aacute;lise, nova demanda de atendimento, em fun&ccedil;&atilde;o das novas exig&ecirc;ncias levadas pelo sujeito na terapia. Sujeito esse que se v&ecirc; oprimido, submisso a uma for&ccedil;a potencial que se configura como ilus&oacute;ria realiza&ccedil;&atilde;o de si mesmo. Eis o desafio da psican&aacute;lise: auxiliar esse sujeito num contexto pol&iacute;tico dominador.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Outro fator complicador, tamb&eacute;m inserido no processo da an&aacute;lise terap&ecirc;utica, abordada pelos autores, diz respeito &agrave; toxicomania, al&eacute;m de outras formas de viol&ecirc;ncia, como o alcoolismo, a delinq&uuml;&ecirc;ncia etc. Os autores lan&ccedil;am a pergunta: &#34;Por que o homem contempor&acirc;neo n&atilde;o consegue barrar sua autodestrui&ccedil;&atilde;o? Esse processo de autodestrui&ccedil;&atilde;o pode ter sua origem na agressividade do homem por ser castrado, de acordo com as falas de Lacan &#40;1966&#41;, haja vista que essa agressividade tem estreita rela&ccedil;&atilde;o com a identifica&ccedil;&atilde;o narc&iacute;sica do sujeito.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Os autores nos direcionam a ver o homem da atualidade como desamparado, ao apresentar uma s&eacute;rie de situa&ccedil;&otilde;es que provocam essa falta produtora de ang&uacute;stia, que est&aacute; sempre ligada &agrave;s diversas perdas que o sujeito &eacute; acometido ao longo de sua vida, seja de si mesmo, de seu objeto de desejo, ou de seus ideais. S&atilde;o, conforme afirmam, os acontecimentos traum&aacute;ticos recentes que produzem as depress&otilde;es da atualidade, devido &agrave;s in&uacute;meras press&otilde;es ps&iacute;quicas pelas quais passa o sujeito nesta sociedade fren&eacute;tica, em que o desemprego bate &agrave; porta, os postos de trabalho s&atilde;o extintos, as rela&ccedil;&otilde;es de maior significado para o indiv&iacute;duo desmoronam etc. Em tais circunst&acirc;ncias, o sujeito se v&ecirc; invadido por uma for&ccedil;a ps&iacute;quica que quebra as resist&ecirc;ncias mais seguras e lhe causa enorme vazio e, em conseq&uuml;&ecirc;ncia, a perda da auto&#45;estima. Nessa concep&ccedil;&atilde;o, perceberemos que at&eacute; mesmo as pequenas trag&eacute;dias podem ter valor de puls&atilde;o de morte muito grande, em fun&ccedil;&atilde;o de seu significado junto ao Eu do sujeito envolvido que, ao ter sua estrutura narc&iacute;sica abalada, perde o sentido da vida.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Freud &#40;1919&#41; j&aacute; aprofundava seus estudos acerca das neuroses traum&aacute;ticas desde a Primeira Guerra Mundial, embora a abordagem naquelas circunst&acirc;ncias apresentasse um sujeito diferente de hoje, em fun&ccedil;&atilde;o das tamb&eacute;m diferentes caracter&iacute;sticas daquele tempo. No entanto, respeitadas as particularidades, o texto nos remete a uma reflex&atilde;o sobre a potencialidade das diferen&ccedil;as entre um tempo e outro. Em ambas as &eacute;pocas, no entanto, o sujeito carrega o peso dos traumas sofridos. Nesse contexto, o psicanalista se v&ecirc; &agrave; merc&ecirc; de ter que enfrentar a quest&atilde;o da puls&atilde;o de morte. Mudaram&#45;se os nomes, de Guerra Mundial para atentados, seq&uuml;estros, assassinatos em massa etc, mas os transtornos a que est&atilde;o expostos os sujeitos continuam sendo um fardo para seu psiquismo suportar.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&Eacute; retratado, tamb&eacute;m, a for&ccedil;a traum&aacute;tica e sacrificial com a inser&ccedil;&atilde;o do Nome do Pai, trauma originado pelo encontro com o real. Essa situa&ccedil;&atilde;o &eacute; apresentada, na obra, pelas observa&ccedil;&otilde;es feitas por Gerez&#45;Ambertin &#40;p. 67&#41;, quando menciona a interpreta&ccedil;&atilde;o de Lacan &#40;1963&#41; de textos b&iacute;blicos que envolvem Abra&atilde;o &#40;pai&#41; e Isaac &#40;filho a ser sacrificado&#41;, fazendo ainda uma rela&ccedil;&atilde;o com &#34;Totem e Tabu&#34;, de Freud &#40;1912&#41;.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Para o sujeito viver em sociedade, h&aacute; uma integra&ccedil;&atilde;o com sua cultura na qual existem perdas e ganhos. No entanto, a falta ou o excesso na satisfa&ccedil;&atilde;o das puls&otilde;es leva o indiv&iacute;duo &agrave; viol&ecirc;ncia. Segundo um dos autores, Ceccarelli &#40;p. 122&#41;, &#34;a tend&ecirc;ncia que temos em atribuir &agrave; atualidade maior viol&ecirc;ncia se deve a quest&otilde;es eminentemente narc&iacute;sicas!&#34;.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Outra quest&atilde;o destacada, com &ecirc;nfase, na obra diz respeito aos transtornos oriundos das paix&otilde;es, nos quais o sujeito se v&ecirc; &agrave; merc&ecirc; de Outro e entregue a suas fantasias e aos seus devaneios.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Fica claro que o homem sempre esteve acompanhado dos traumas ps&iacute;quicos desde os prim&oacute;rdios, fossem eles oriundos de desastres, guerras, acidentes, inc&ecirc;ndios, crimes ou outros fatores. Em todos esses momentos, principalmente, nas guerras, &eacute; ineg&aacute;vel o sofrimento de veteranos acometidos por sintomas de neurose traum&aacute;tica. Atualmente n&atilde;o temos as mesmas guerras, mas enfrentamos outros conflitos, de monumental sofistica&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica, al&eacute;m da criminalidade globalizada e o terrorismo, que deixam o sujeito com as estruturas ps&iacute;quicas e o comportamento alterados, a ponto de lev&aacute;&#45;lo a viver em constante &#34;estado de s&iacute;tio&#34; dentro de sua pr&oacute;pria casa.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Essa realidade apresenta&#45;se cada vez mais pr&oacute;xima e insuport&aacute;vel e faz com que o homem sinta&#45;se impotente diante da for&ccedil;a comercial da ind&uacute;stria da droga, principalmente nas grandes capitais. &Eacute; nesse contexto, de acordo com a fala de um dos autores, Rouanet &#40;p. 141&#41;, que a psican&aacute;lise deve atuar. Ela deve buscar analisar a situa&ccedil;&atilde;o na qual o trauma atinge o sujeito e a forma que com que ele elabora o material recalcado pelos transtornos sofridos. O autor vai al&eacute;m dessa quest&atilde;o, quando aborda a quest&atilde;o traum&aacute;tica de forma coletiva ao relembrar o epis&oacute;dio de 11 de setembro de 2001.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">H&aacute; tamb&eacute;m uma reflex&atilde;o sobre o papel da religi&atilde;o junto ao homem da contemporaneidade. A religi&atilde;o tenta consol&aacute;&#45;lo, mesmo com explica&ccedil;&otilde;es n&atilde;o corroboradas pela ci&ecirc;ncia. Somos compelidos, ainda, a enxergar, no s&eacute;culo XXI, a possibilidade de ter a neurose traum&aacute;tica como a doen&ccedil;a ps&iacute;quica do s&eacute;culo, assim como a histeria o foi no s&eacute;culo XIX.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Trata&#45;se, portanto, de uma obra interessante e v&aacute;lida dentro do contexto anal&iacute;tico psicol&oacute;gico sobre as causas das afli&ccedil;&otilde;es atuais do ser humano.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><a name="Autora" href="#Autor"><sup>&#42;</sup></a>Acad&ecirc;mico do 6&#186; per&iacute;odo de psicologia UNIPAC/Ub&aacute;.</font></p>     ]]></body>
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