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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[O sacrifício: é preciso ver o que o artista preparou para nós]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[The sacrificie: it is necessary to see what the artist has prepared for us]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This is a commentary on the discussion that followed the showing of Andrei Tarkovsky&#8217;s film "The Sacrifice", in which the author examines the effects on the psychism of the trauma of the threat of nuclear destruction, on the basis of an analysis of the director&#8217;s work and revisions of the Freudian concept of the death instinct.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>EM    PAUTA - CULTURA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="4"><b><i>O sacrif&iacute;cio</i>: &eacute; preciso ver o que o artista preparou para n&oacute;s<a name="1"></a><a href="#1a"><sup>*</sup></a></b></font></p>       <p>&nbsp;</p>        <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b><i>The sacrificie</i>: it is necessary to see what the artist has prepared for us</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Cecilia Maria de Brito Orsini<a name="2"></a><a href="#2a"><sup>**</sup></a></b></font></p>       <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><a name="end"></a><a href="#end2">Endere&ccedil;o    para correspond&ecirc;ncia</a></font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p> <hr noshade size="1">     <p> <font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>RESUMO</b></font></p>     <p> <font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><strong></strong>Coment&aacute;rio ao debate que se seguiu &agrave; proje&ccedil;&atilde;o do filme <i>O sacrif&iacute;cio</i>, de Andrei Tarkovsky, em que a autora observa as conseq&uuml;&ecirc;ncias para o psiquismo do trauma da amea&ccedil;a de destrui&ccedil;&atilde;o nuclear, a partir de algumas an&aacute;lises da obra do cineasta e de revis&otilde;es da no&ccedil;&atilde;o freudiana da puls&atilde;o de morte. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Palavras-chave</b>:    Amea&ccedil;a nuclear, Puls&atilde;o de morte, Psican&aacute;lise e cinema, Sacrif&iacute;cio, Trauma.  </font></p> <hr noshade size="1">     <p> <font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>ABSTRACT</b></font></p>     <p> <font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">This is a commentary on the discussion that followed the showing of Andrei Tarkovsky&rsquo;s film &ldquo;The Sacrifice&rdquo;, in which the author examines the effects on the psychism of the trauma of the threat of nuclear destruction, on the basis of an analysis of the director&rsquo;s work and revisions of the Freudian concept of the death instinct.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Keywords</b>:    Nuclear threat, Death instinct, Psychoanalysis and cinema, Sacrifice, Trauma.</font></p>   <hr noshade size="1">     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Estranhos   cantos de pastores suecos, gritos esparsos, ru&iacute;dos de p&aacute;ssaros e do mar,   gaivotas... Tudo isso comp&otilde;e uma melodia sinistra, &ldquo;i-&oacute;-iluru-iluru-i-&oacute;-iluru-iluru&rdquo;.Ela   invade minha mente, n&atilde;o me abandona e fala de alguma coisa que eu ainda n&atilde;o sei   dizer. Rostos com faces distantes, indistingu&iacute;veis, paralisia, ang&uacute;stia. O que   tudo isso significa? </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O objeto de an&aacute;lise, no caso, o filme <i>O sacrif&iacute;cio</i> de Andrei   Tarkovsky, impregna minha mente e, durante v&aacute;rios dias, sequer consigo chegar ao   final da proje&ccedil;&atilde;o. Mas, subitamente, o que foi no princ&iacute;pio alvo de resist&ecirc;ncia, (pois eu   adormecia implacavelmente depois de certo tempo de proje&ccedil;&atilde;o), transmudou-se, ap&oacute;s   a cena final do sacrif&iacute;cio, em objeto de fascina&ccedil;&atilde;o. Foi assim que se deu meu   contato com o filme. &Eacute; esse o nosso m&eacute;todo de trabalho: se deixar impregnar vivamente   pelo objeto, emprestar seu corpo e alma a ele e devolver algo a partir de seu   interior &– o seu e o do objeto fundidos &– mediante um laborioso trabalho de   interpreta&ccedil;&atilde;o. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O filme, fazendo uma pequena sinopse, narra o encontro de   alguns familiares e amigos para a comemora&ccedil;&atilde;o do anivers&aacute;rio do protagonista,   Alexander, setent&atilde;o desiludido, ex-professor de filosofia e ex-dramaturgo. O   pequeno grupo se re&uacute;ne em sua casa localizada numa remota ilha de beleza   incomum, ao norte da Su&eacute;cia. Lugar especialmente escolhido para passar a velhice   em paz,na companhia da mulher e do filhinho de quatro ou cinco anos, chamado no   filme de &ldquo;o menino&rdquo;. Na cena de abertura &– e todos conhecemos a import&acirc;ncia das   aberturas &– Alexander planta e &ldquo;o menino&rdquo;, que parece ter operado a   garganta, rega uma &aacute;rvore seca. Ao mesmo tempo em que Alexander reflete   desiludido sobre os rumos que a humanidade vem seguindo, ele conta ao filho a   lenda da &aacute;rvore ressequida: aquela que renasce por interm&eacute;dio da cren&ccedil;a de um   monge de que ela reviveria desde que fosse regada, persistentemente, todos os   dias. O tema, portanto, j&aacute; est&aacute; anunciado: &eacute; de vida e de morte, de desesperan&ccedil;a   e de cren&ccedil;a, amor e sacrif&iacute;cio (a rega di&aacute;ria) o que vai se tratar. Depois, os   convivas passam &agrave; casa, os di&aacute;logos s&atilde;o tensos. Parece haver um certo   desconforto, uma grande ang&uacute;stia contida em cada gesto, em cada olhar. Nas   intermin&aacute;veis cenas que antecedem o jantar de comemora&ccedil;&atilde;o, inopinadamente, todos   ouvem pela tev&ecirc;, estarrecidos, que devem permanecer em casa devido &agrave; iminente   amea&ccedil;a da eclos&atilde;o da guerra nuclear. Explica-se o arrastar-se das cenas numa   angustiosa paralisia: &eacute; do terror sem nome que tamb&eacute;m se vai tratar. Alexander,   apesar de ateu, aterrorizado como todos, reage &agrave; terr&iacute;vel amea&ccedil;a oferecendo-se a   Deus em sacrif&iacute;cio, por interm&eacute;dio de uma promessa que lhe faz: afastar-se de   tudo o que mais preza e ama e calar-se para sempre, para que Deus impe&ccedil;a que a   hecatombe aconte&ccedil;a. Passa-se o dia, angustiante e estranho, com conversas e   emo&ccedil;&otilde;es surpreendentes, bizarras, partilhadas pelos personagens. At&eacute; que, num   dado momento, a amea&ccedil;a se desfaz e a hecatombe n&atilde;o acontece. Ent&atilde;o, numa esp&eacute;cie   de anticl&iacute;max final, Alexander cumpre sua terr&iacute;vel promessa: toca fogo a casa e   emudece para sempre, para horror dos demais. &Eacute; a&iacute; que &ldquo;o menino&rdquo;, que estava   &ldquo;mudo&rdquo; devido &agrave; uma inflama&ccedil;&atilde;o da garganta recupera a fala e dirige-se de modo   comovente &agrave; &aacute;rvore e ao pai, retomando a cena inicial, nos instantes finais da   proje&ccedil;&atilde;o. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Este n&atilde;o &eacute; um filme f&aacute;cil de se assistir e menos ainda de   comentar. Seja pelo seu conte&uacute;do, seja pela sua forma eivada de ang&uacute;stia e de   sentimentos de paralisia. Aqui, forma e conte&uacute;do est&atilde;o magistralmente fundidos.   E mais, pelo seu implac&aacute;vel compromisso po&eacute;tico, &eacute; uma obra dif&iacute;cil de abordar.   O que falar da poesia, se ela j&aacute; fala por si mesma? Um filme simples, dir&aacute;   Tarkovsky, que demanda expressamente que seus filmes sejam vistos como as   imagens que veiculam, nada mais, nada menos. Este &eacute; o seu segredo, est&aacute; tudo l&aacute;,   para quem quiser ver. A narra&ccedil;&atilde;o passa a ser conseq&uuml;&ecirc;ncia das imagens sens&iacute;veis. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Seja como for, resolvi enfrentar a tarefa de coment&aacute;-lo como um   solene desafio. E com muita rever&ecirc;ncia. Trata-se de um filme magn&iacute;fico, que me   fez entender de modo cabal aquilo que uma de nossas decanas, Lygia Amaral,   sempre dizia, malgrado nossa falta de tempo, quando insistia que f&ocirc;ssemos ver   alguma produ&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica: &ldquo;&eacute; preciso ir ver o que o artista preparou para   n&oacute;s&#33;&rdquo;. Foi esta aindaga&ccedil;&atilde;o que me guiou: &ldquo;o que o artista preparou para n&oacute;s?&rdquo;. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Para come&ccedil;o de conversa, o filme nos emudece, ficamos &ldquo;mudos   como um peixe&rdquo;, traumatizados como &ldquo;o menino&rdquo;, t&atilde;o pequeno e inocente, com sua   garganta inflamada. A garganta, o &ldquo;bolo na garganta&rdquo;, &eacute; um dos lugares   privilegiados de representa&ccedil;&atilde;o de sentimentos de ang&uacute;stia. &ldquo;&lsquo;No princ&iacute;pio era o   verbo&rsquo;, por que papai?&rdquo;, pergunta o menino, quando recupera a fala, na   fant&aacute;stica e comovente cena final. E assim, ao findar a proje&ccedil;&atilde;o, sa&iacute;mos do   filme e do trauma revigorados, porque descobrimos, novamente, que &eacute; preciso   falar para recriar o mundo, principalmente quando se trata de destro&ccedil;os, de   aus&ecirc;ncia de inscri&ccedil;&atilde;o, do trauma. E Alexander, o protagonista, emudece de uma   fala vazia, tecnocr&aacute;tica, que afasta o homem de si, da natureza e dos outros   homens. &Eacute; essa bela trajet&oacute;ria, que descreverei melhor mais adiante. Ademais, o &ldquo;artista&rdquo;   consegue esta proeza em meio ao maior caos pessoal. Tarkovsky encontrava-se   exilado com a mulher e longe do filho,como uma estrat&eacute;gia das autoridades   sovi&eacute;ticas de enlouquec&ecirc;-lo, de vez que n&atilde;o permitiam a sa&iacute;da do &ldquo;menino&rdquo; da   R&uacute;ssia. &Eacute; ao filho a quem n&atilde;o via h&aacute; quase quatro anos que o cineasta dedica,   n&atilde;o sem raz&atilde;o, esse fant&aacute;stico filme testamento, conforme o pungente relato em   seudi&aacute;rio. Causa forte impacto observar, nos relatos de seu di&aacute;rio referentes ao   per&iacute;odo de execu&ccedil;&atilde;o do filme, como o artista prossegue incans&aacute;vel o seu trabalho, mergulhado em dificuldades das mais   diferentes ordens: montando comit&ecirc;s de ajuda pol&iacute;tico-financeira &agrave; sua fam&iacute;lia,   procedendo a <i>d&eacute;marches</i> incr&iacute;veis com a produtora do filme em torno de verbas e   outros que tais, escrevendo cartas para os presidentes de Fran&ccedil;a e Estados   Unidos, al&eacute;m de diversas autoridades, montando e desmontando apartamentos. E o   pior ainda estava por vir: na &eacute;poca da montagem do filme, Tarkovsky &eacute; acossado   por um grav&iacute;ssimo c&acirc;ncer pulmonar. Seja como for, o filme j&aacute; estava gestado   antes de todos estes terr&iacute;veis acontecimentos que, em realidade, s&oacute; fizeram   enriquec&ecirc;-lo. Em meio a tudo isso, ou melhor, incentivado a viver por tudo isso, o   artista conseguiu preparar para a posteridade seu libelo de amor e liberdade.   Tinha raz&atilde;o D. Lygia... &Eacute; mesmo fundamental conhecer  o que &ldquo;o artista preparou para n&oacute;s&rdquo;, quando se trata de   grande arte. Como um complemento a esta id&eacute;ia, Ingmar Bergman dir&aacute; que foi para   ele como um milagre travar conhecimento com Tarkovsky, foi como abrir uma porta   cuja chave lhe faltava. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O filme tematiza algo que n&atilde;o se inscreve, que n&atilde;o est&aacute; no   filme &– o absoluto da cat&aacute;strofe nuclear. &Eacute; imposs&iacute;vel representar diretamente a   cat&aacute;strofe, a qual se inscreve pelo negativo (Nestrovski 2000), nessas   disson&acirc;ncias do canto dos pastores suecos, no in&iacute;cio do filme, o estranho   distanciamento do rosto dos personagens nas primeiras cenas e nas s&uacute;bitas e   estranhas mudan&ccedil;as de colora&ccedil;&atilde;o. Essas impress&otilde;es formam um conjunto s&iacute;gnico que   expressa um mundo exaurido, esgotado, que precisa ser urgentemente recriado, nem   que seja por um ato extremo, de tocar fogo a casa, cujo calor torna,   surpreendentemente, verde a grama ao redor, pois derrete o gelo glacial que a   cobria e ao filme. A casa de Alexander, metaforicamente, figura a nossa casa   mundial, o nosso planeta. Fabio Herrmann (2006) prop&otilde;e que, desde a guerra fria,   a humanidade sofre, em sil&ecirc;ncio, de um trauma da ordem do totalmente impens&aacute;vel,   portanto indiz&iacute;vel: o trauma relativo &agrave; amea&ccedil;a de o ser humano ser capaz de   explodir o mundo,por um &uacute;nico ato de apertar os bot&otilde;es das bombas nucleares,   trauma que &eacute; vicariamente vivido em causas menores, como as ecol&oacute;gicas, frente &agrave;   magnitude e despropor&ccedil;&atilde;o do ato de destrui&ccedil;&atilde;o instant&acirc;nea e final da humanidade.   Em absoluto n&atilde;o se menciona esta possibilidade; melhor, &eacute; como se nunca   cheg&aacute;ssemos, verdadeiramente, a acreditar naquilo que poderia ter acontecido em   1961, na chamada&ldquo;crise dos m&iacute;sseis&rdquo;: a destrui&ccedil;&atilde;o completa a partir de um ato   &uacute;nico. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Frente a essa amea&ccedil;a, Alexander quer come&ccedil;ar de novo, com novos   custos, como diria Lacan (1991), quando reinterpreta a no&ccedil;&atilde;o de puls&atilde;o de morte.   A puls&atilde;o de morte, na concep&ccedil;&atilde;o freudiana, impele tudo aquilo que &eacute; vivo para um   estado anterior de coisas; no limite, para   a quietude do inanimado. A chamada compuls&atilde;o &agrave; repeti&ccedil;&atilde;o que, se de um lado   tenta, toscamente, cicatrizar o traum&aacute;tico e o inomin&aacute;vel por interm&eacute;dio de um   comportamento repetitivo, por outro lado clama pelo retorno &agrave; quietude do   inanimado. Onde est&aacute; o ruidoso prazer er&oacute;tico a&iacute;? Somente em 1929, em <i>O mal-estar   na civiliza&ccedil;&atilde;o</i> &eacute; que a puls&atilde;o de morte, al&eacute;m de um eterno retorno, ser&aacute; tamb&eacute;m   colocada como uma &acirc;nsia cega de destrui&ccedil;&atilde;o. E ser&aacute; a partir de Lacan que vamos   reencontrar a puls&atilde;o de morte numa dimens&atilde;o vitalizante: zerar tudo para   recome&ccedil;ar com novos custos. &Eacute; exatamente o que prop&otilde;e o at&eacute; h&aacute; pouco descrente   Alexander, em sua barganha com Deus : &ldquo;permita, senhor, que tudo volte a ser   como era antes de hoje &#91;do inomin&aacute;vel, da destrui&ccedil;&atilde;o nuclear&#93; e me desfarei de   tudo o que me &eacute; mais caro: minha casa, meu filho que tanto amo, minha fam&iacute;lia e   por fim minha fala&rdquo;. &Eacute; assim, mediante essa oferta, queAlexander destr&oacute;i tudo. E   aqui, contudo, &eacute; preciso bastante aten&ccedil;&atilde;o, pois Alexander n&atilde;o o faz com um sentido   tan&aacute;tico, mort&iacute;fero, e,sim,com um sentido cheio de esperan&ccedil;a e vitalidade, para   que &ldquo;o menino&rdquo; possa viver, pois, nessa dimens&atilde;o, a puls&atilde;o de morte &eacute; aquilo que   p&otilde;e em causa tudo o que existe. &Eacute; esse o seu legado &– me auto-imolo para que meu   filho possa sobreviver, para que eu mesmo, contido em meu filho, possa   prosseguir vivendo. Do mesmo modo, a repeti&ccedil;&atilde;o no filme n&atilde;o tem natureza   tan&aacute;tica. &Eacute; a repeti&ccedil;&atilde;o diferencial, n&atilde;o &eacute; aquela mort&iacute;fera, que leva sempre ao   mesmo e que redunda em nada, mas sim aquela outra, que tenta uma re-liga&ccedil;&atilde;o, como   a extraordin&aacute;ria lenda da &aacute;rvore ressequida &– a f&aacute;bula da tentativa, bem   sucedida, de religa&ccedil;&atilde;o com seus frutos. Est&aacute; a&iacute; a dimens&atilde;o profundamente   religiosa do filme, neste <i>re-ligare</i>, na etimologia mesma da palavra religi&atilde;o.   Sabemos, por interm&eacute;dio dos relatos de sua trajet&oacute;ria e de suas concep&ccedil;&otilde;es   est&eacute;ticas, que Tarkovsky (2002), em seu livro <i>Esculpir o tempo</i>, critica duramente a estreiteza do materialismo   dial&eacute;tico por negar sua rela&ccedil;&atilde;o com outras dimens&otilde;es do existir, para al&eacute;m do   determinismo econ&ocirc;mico. </font></p>             <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O que vale uma vida frente &agrave; amea&ccedil;a da cat&aacute;strofe nuclear?   Como em todo o sacrif&iacute;cio ritual, o protagonista toma a parte pelo todo &– minha   casa pela casa dos homens. Minha casa, pela casinha do menino, comovente   oferenda feita por ele e por Otto, o misterioso carteiro, que tamb&eacute;m est&aacute; no   encontro do aniversariante e que anuncia, quando lhe oferece seu presente: todo   presente implica em algum sacrif&iacute;cio. Todo ato de amor que se pretenda genu&iacute;no   envolve alguma dose de sacrif&iacute;cio. De outro lado, o sacrif&iacute;cio, na acep&ccedil;&atilde;o antropol&oacute;gica de Ren&eacute; Girard   (1990), &eacute; um ato desde sempre violento, que recobre uma outra viol&ecirc;ncia, uma   viol&ecirc;ncia mais fundamental,como o sacrif&iacute;cio do animal tot&ecirc;mico recobre o   parric&iacute;dio original. O sacrif&iacute;cio de Alexander, que recobre a viol&ecirc;ncia   fundamental da destrui&ccedil;&atilde;o do mundo, n&atilde;o se insere numa cultura arcaica,   ritual&iacute;stica. O mais pungente &eacute; que o sacrif&iacute;cio de Alexander acontece, na   verdade, fora do ritual; portanto, ele s&oacute; pode ser decodificado como um ato de   dem&ecirc;ncia. Por isso, no final do filme, nosso her&oacute;i sucumbe &agrave; interna&ccedil;&atilde;o   hospitalar, j&aacute; que uma ambul&acirc;ncia, surgida do nada, vem apanh&aacute;-lo. Na verdade,   Alexander &eacute; uma esp&eacute;cie de her&oacute;i tr&aacute;gico moderno. Ele figura o sacrif&iacute;cio do   her&oacute;i tr&aacute;gico para lidar com as coisas do mundo, para a cria&ccedil;&atilde;o de novas for&ccedil;as. O her&oacute;i   encarna esse embate com as for&ccedil;as vitais para increment&aacute;-las, seja &agrave;s pr&oacute;prias   for&ccedil;as, seja ao pr&oacute;prio embate (Meiches 2000). </font></p>         <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Tarkovsky tamb&eacute;m n&atilde;o menciona claramente no filme a cat&aacute;strofe   absoluta. Como disse mais atr&aacute;s, ela aparecer&aacute; antes em negativo no filme, na   sua linguagem s&iacute;gnica: no escondido dos rostos que quase nunca aparecem de   frente ou em <i>closes</i>, em seus estranhos ru&iacute;dos, nas quedas s&uacute;bitas de coisas e   personagens, no misterioso ru&iacute;do de supostos avi&otilde;es ca&ccedil;a, no aflitivo ranger de   portas e janelas, em seus componentes bizarros, na apreens&atilde;o do invis&iacute;vel. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Frente a esse inomin&aacute;vel, Tarkovsky preparou um testamento, uma   ora&ccedil;&atilde;o, uma pungente liturgia, um comovente ritual sacrificial de um pai para um   filho,especialmente dirigidos para uma cultura que se esqueceu como se faz para   rezar. Em <i>Esculpir o tempo</i>, o cineasta conclama o homem na sua responsabilidade   em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; sua disposi&ccedil;&atilde;o para o sacrif&iacute;cio. N&atilde;o, entretanto, o sacrif&iacute;cio   como castigo e sim como uma dimens&atilde;o essencial do existir: </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O que me impeliu foi o tema da   harmonia que nasce apenas do sacrif&iacute;cio, da dupla depend&ecirc;ncia do amor. N&atilde;o se   trata de amor m&uacute;tuo: o que ningu&eacute;m parece entender &eacute; que o amor s&oacute; pode ser   unilateral, que n&atilde;o existe outra esp&eacute;cie de amor, que, sob qualquer outra forma,   n&atilde;o &eacute; amor ... Acima de tudo, estou preocupado com o indiv&iacute;duo capaz de   sacrificar a si mesmo e a seu modo de vida &– sem se preocupar em saber se o   sacrif&iacute;cio &eacute; feito em nome de valores espirituais, pelo bem do pr&oacute;ximo, para sua   pr&oacute;pria salva&ccedil;&atilde;o, ou em nome de tudo isso. Tal comportamento exclui, por sua   pr&oacute;pria natureza, todos aqueles interesses ego&iacute;stas que constituem uma base   l&oacute;gica &ldquo;normal&rdquo; para a a&ccedil;&atilde;o; recusa as leis de uma vis&atilde;o de mundo materialista.   &Eacute; sempre absurdo e pouco pr&aacute;tico. E, apesar disso &– ou, na verdade, justamente   por isso &– a pessoa que age desse modo realiza mudan&ccedil;as fundamentais nas vidas   das pessoas e no curso da hist&oacute;ria. (p. 260). </font></p> </blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&Eacute; de uma radicalidade t&atilde;o   impressionante que nos soa muito estranha. Continuo a cit&aacute;-lo: </font></p>     <blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O artista &eacute; sempre um servidor, e   est&aacute; eternamente tentando pagar pelo dom que, como que por milagre, lhe foi   concedido. O homem moderno, por&eacute;m, n&atilde;o quer fazer nenhum sacrif&iacute;cio, muito   embora a verdadeira afirma&ccedil;&atilde;o do eu s&oacute; possa se expressar no sacrif&iacute;cio (p. 41). </font></p> </blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">E o cineasta cita Gogol, que   afirmava ser a arte uma hom&iacute;lia. Nada mais estranho ao hedonismo de nosso tempo   que o esp&iacute;rito do sacrif&iacute;cio. Tarkovsky &eacute; consciente disso: </font></p>     <blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">No mundo de hoje, por&eacute;m, as   rela&ccedil;&otilde;es pessoais fundamentam-se quase que exclusivamente na &acirc;nsia de nos   apropriarmos de tanto quanto for poss&iacute;vel daquilo que pertence ao pr&oacute;ximo, ao   mesmo tempo que defendemos com unhas e dentes os nossos pr&oacute;prios interesses (p.   280). </font></p> </blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">J&aacute; a pr&oacute;pria apresenta&ccedil;&atilde;o do   filme, na exibi&ccedil;&atilde;o de seus cr&eacute;ditos, exemplifica magistralmente essa posi&ccedil;&atilde;o   est&eacute;tica: no in&iacute;cio da proje&ccedil;&atilde;o, Tarkovsky   condensa tudo o que est&aacute; por vir; ao fundo,escutamos a bel&iacute;ssima m&uacute;sica de   Bach,&ldquo;A paix&atilde;o de Cristo segundo s&atilde;o Mateus&rdquo;, e nos deparamos com a tela de   Leonardo, <i>A adora&ccedil;&atilde;o dos reis magos</i>, em que o mago oferece ao &ldquo;menino&rdquo;, Jesus,   naturalmente, seu futuro terr&iacute;vel e &uacute;nico (expresso na beleza e poesia da   &ldquo;Paix&atilde;o&rdquo; de Bach que toca em contraponto). J&aacute; est&aacute; colocada a preocupa&ccedil;&atilde;o do   cineasta na apresenta&ccedil;&atilde;o mesma dos cr&eacute;ditos: a men&ccedil;&atilde;o &agrave; paix&atilde;o de Cristo e ao   seu destino: o seu ato sacrificial. A &ldquo;cita&ccedil;&atilde;o&rdquo; &eacute; por demais direta para exigir   qualquer interpreta&ccedil;&atilde;o. Ser&aacute; abordada a dimens&atilde;o crist&atilde; do sacrif&iacute;cio, como   contraponto ao desenvolvimento material. Basta lembrar mais um expressivo   detalhe do filme, que a rigor n&atilde;o exatamente um detalhe: a mulher que ama   Alexander e&ldquo;o menino&rdquo;&eacute; a criada que se chama Maria, como a virgem. &Eacute; uma mulher   simples, tida como uma esp&eacute;cie de &ldquo;feiticeira&rdquo;, com quem Alexander oniricamente   copular&aacute; para salvar os homens do desastre. A prop&oacute;sito, &eacute; a &uacute;nica personagem   que desde a primeira apari&ccedil;&atilde;o tem seu expressivo rosto filmado nitidamente e em   close. N&atilde;o h&aacute; nada do &ldquo;embara&ccedil;o&rdquo;, ou do emba&ccedil;amento burgu&ecirc;s que se observa nos   outros personagens. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Sutilmente, logo ap&oacute;s os cr&eacute;ditos, e, ainda confundidos com a   apresenta&ccedil;&atilde;o, a tela de Leonardo e a m&uacute;sica de Bach, entram o som do mar e   gaivotas, o pai, a &aacute;rvore ressequida e o filho. O pai diz: &ldquo;Agora voc&ecirc; tem que   me ajudar filho&rdquo;, ao mesmo tempo que est&aacute; plantando uma &aacute;rvore japonesa,   acredito eu que qualquer cita&ccedil;&atilde;o &agrave; Hiroshima, como tamb&eacute;m &agrave; proverbial paci&ecirc;ncia   e amor aos rituais no mundo oriental &eacute; praticamente auto-evidente. Depois da   primeira frase, que condensa tudo, pois assim como Jesus veio para &ldquo;ajudar o   pai&rdquo;, o &ldquo;menino&rdquo; de Tarkovsky impele o pai ao sacrif&iacute;cio, que o faz como uma   oferenda &agrave; sua posteridade. Enquanto plantam a desolada &aacute;rvore, o pai conta ao   filho a bela lenda da &aacute;rvore ressequida, que cumpre molhar todos os dias, dia   ap&oacute;s dia, at&eacute; que frutifique. Aparece, ent&atilde;o, Otto, o estranho carteiro   emiss&aacute;rio, colecionador de eventos extraordin&aacute;rios. Chega e cumprimenta   Alexander, pelo seu natal&iacute;cio. Ficamos sabendo ent&atilde;o que ele &eacute; um homem culto e   descrente. J&aacute; Otto, n&atilde;o. Otto cr&ecirc; e ao mesmo tempo descr&ecirc;, e teme o vazio do   eterno retorno. Enquanto os dois trocam intermin&aacute;vel palavr&oacute;rio, o menino   brinca, prende a roda da bicicleta do carteiro que cai ao tentar sair com ela;   cai e ri, pois acabava de dizer que &ldquo;creia que &agrave; v&oacute;s &eacute; dado, e &agrave; v&oacute;s   acontecer&aacute;&rdquo;. Do ponto de vista da crian&ccedil;a, perspectiva sempre privilegiada no   cineasta, todo este palavr&oacute;rio n&atilde;o passa de uma brincadeira, palavras jogadas ao   vento, o menino brinca com o eterno retorno,que n&atilde;o significa nada frente &agrave; sua   vida e &agrave; sua inoc&ecirc;ncia. <i>&ldquo;Words, words, words&rdquo;</i>, dir&aacute; Alexander, citando Hamlet. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A brincadeira come&ccedil;a pouco a pouco, depois de alguns minutos de   proje&ccedil;&atilde;o, a se tornar sinistra: ouvimos ao fundo o tonitroar de uma tempestade que se anuncia tamb&eacute;m nas   atormentadas falas de Alexander e que vai desabar sobre todas as cabe&ccedil;as, mais   adiante, na cena em que todos assistem ao aviso da cat&aacute;strofe nuclear pela   televis&atilde;o. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">No entanto, sobra uma importante interroga&ccedil;&atilde;o, esp&eacute;cie de   efeito residual do filme: ser&aacute; a id&eacute;ia de sacrif&iacute;cio crist&atilde;o suficiente para   recobrir tal traumatismo?</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Seja como for, a cena final retoma o come&ccedil;o. &Eacute; um verdadeiro   poema: voltamos &agrave; rega da &aacute;rvore, &agrave; maravilhosa m&uacute;sica de Bach, ao belo cen&aacute;rio   natural, &agrave; espl&ecirc;ndida fotografia de Sven Nikvist, o fot&oacute;grafo de Bergman, uma   ode ao belo, renovando as esperan&ccedil;as nas gera&ccedil;&otilde;es que est&atilde;o por vir. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&ldquo;No princ&iacute;pio era o verbo, por qu&ecirc;, papai?&rdquo; </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Porque a linguagem, o nosso absoluto, cria das trevas do   inominado, o mundo das coisas. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Parafraseando Freud, no final de <i>O mal-estar na civiliza&ccedil;&atilde;o,</i>   nesse eterno combate entre Eros e T&acirc;natos, s&oacute; nos resta esperar. Esperar que   Eros consiga vencer o seu n&atilde;o menos imortal inimigo &– T&acirc;natos. &ldquo;Apenas n&atilde;o   sabemos se e por quanto tempo&rdquo; (Freud, 1930&#47;1974, p.171), acrescenta Freud este   aviso sinistro, em 1933, que advinha a amea&ccedil;a hitlerista que estava por vir e   que come&ccedil;ava, debilmente, a se insinuar. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Dir&aacute; Tarkovsky em <i>Esculpir o tempo</i>: &ldquo;As obras primas, nem   sempre distintas ou percept&iacute;veis entre todas as obras com pretens&atilde;o &agrave;   genialidade, est&atilde;o dispersas pelo mundo como sinais de advert&ecirc;ncia num campo   minado. E s&oacute; por muita sorte n&atilde;o voamos pelos ares&#33;&rdquo; (p. 61). </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O banho de dignidade em que nos submerge Tarkovsky, descubro   que &eacute;, por fim, o que nos redime e fascina. E de onde emergimos, renovados. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O filme aviso, sua obra-prima final, faz o espectador percorrer   todo o caminho do trauma, tudo aquilo que se anuncia, sem necessidade de maiores   explica&ccedil;&otilde;es. O espectador vive a pura ang&uacute;stia do mais importante e renegado   trauma da humanidade, para dali emergir com &ldquo;o menino&rdquo;, que entra na a&ccedil;&atilde;o   mudo, mais n&atilde;o sai calado&#33; E que se pergunta sobre o mist&eacute;rio da cria&ccedil;&atilde;o, como o   faz o homem desde tempos imemoriais. E por que n&atilde;o dizer, junto com a obra aviso   do autor, que desde o holocausto nos perguntamos tamb&eacute;m sobre o mist&eacute;rio da   destrui&ccedil;&atilde;o. Pois o verbo, ao passo que &eacute; capaz de criar a vida, &eacute; capaz, tamb&eacute;m,   de criar a radia&ccedil;&atilde;o. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O sacrif&iacute;cio repete, recobre e substitui, ent&atilde;o, como desde   sempre, uma viol&ecirc;ncia fundamental. A viol&ecirc;ncia da vida por refer&ecirc;ncia ao   inanimado, a viol&ecirc;ncia do sil&ecirc;ncio face ao rumor vital, a viol&ecirc;ncia do rumor   vital na quietude: a viol&ecirc;ncia do ru&iacute;do da vida por sobre o sil&ecirc;ncio do   inanimado. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">E, para terminar, cito um trecho da carta de uma espectadora,   dos mais impressionantes dentre todos os relatados por Tarkovsky (2002): &ldquo;Voc&ecirc;   sabe, no escuro daquele cinema, olhando para aquele peda&ccedil;o de tela iluminado   pelo seu talento, senti pela primeira vez que n&atilde;o estava s&oacute;&rdquo; (p. 5). O respeito   &agrave; obra &eacute; o nosso mais profundo agradecimento ao artista e ao seu divino talento. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Refer&ecirc;ncias</b></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Chnaiderman, M. (1991). No   come&ccedil;o era o verbo?: Vida e morte em Tarkovski. In <i>Anu&aacute;rio Brasileiro de Psican&aacute;lise</i> (pp. 171-174). Rio   de Janeiro: Relume Dumar&aacute;. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1138645&pid=S0101-3106200800010001700001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Freud, S. (1969). Al&eacute;m do princ&iacute;pio do prazer. In S. Freud,   <i>Edi&ccedil;&atilde;o standard brasileira das obras psicol&oacute;gicas completas de Sigmund Freud</i>   (Vol. 18, pp. 13-85) Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado   em 1920). </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1138646&pid=S0101-3106200800010001700002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Freud, S. (1974). O mal-estar na   civiliza&ccedil;&atilde;o. In S. Freud, <i>Edi&ccedil;&atilde;o standard brasileira das obras psicol&oacute;gicas   completas de Sigmund Freud</i> (Vol. 21, pp. 75-171). Rio de Janeiro: Imago.   (Trabalho original publicado em 1930). Rio de Janeiro: Imago </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1138647&pid=S0101-3106200800010001700003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Garcia-Roza, L. A. (1990). <i>O mal radical em Freud</i>. Rio de Janeiro: Jorge   Zahar. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1138648&pid=S0101-3106200800010001700004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Garcia-Roza, L. A. (1993). <i>Acaso e repeti&ccedil;&atilde;o em psican&aacute;lise: Uma introdu&ccedil;&atilde;o &agrave; teoria das puls&otilde;es</i> (4. ed.). Rio de Janeiro: Jorge Zahar. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1138649&pid=S0101-3106200800010001700005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Girard, R.   (1990). <i>A viol&ecirc;ncia e o sagrado</i>. Rio de Janeiro: Paz e Terra. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1138650&pid=S0101-3106200800010001700006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Herrmann, F. A.   (2002). Como conclus&atilde;o: Daqui p&rsquo;ra frente. In L. Barone (Org.), <i>O psicanalista hoje e amanh&atilde;</i>.; S&atilde;o Paulo: Casa do Psic&oacute;logo,   281-291 </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Herrmann, F. (2006). Psican&aacute;lise e pol&iacute;tica: No mundo em que vivemos. <i>Percurso: Revista de Psican&aacute;lise, 18</i> (36), 5-24. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1138652&pid=S0101-3106200800010001700008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Lacan, J. (1991). <i>O   semin&aacute;rio: Livro 7</i> (2. ed.). Rio de Janeiro: Jorge Zahar. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1138653&pid=S0101-3106200800010001700009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Meiches, M. P. (2000).   <i>A travessia do tr&aacute;gico em an&aacute;lise</i>. S&atilde;o Paulo: Casa do Psic&oacute;logo. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1138654&pid=S0101-3106200800010001700010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Nestrovsky, A. (2000). Vozes de crian&ccedil;as. In A. Nestrovski & M.   Seligmann-Silva (Orgs.), <i>Cat&aacute;strofe e representa&ccedil;&atilde;o</i> (pp. 185-205). S&atilde;o Paulo:   Escuta. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1138655&pid=S0101-3106200800010001700011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Tarkovsky, A. (2002). <i>Esculpir o tempo</i>. S&atilde;o Paulo: Martins Fontes. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1138656&pid=S0101-3106200800010001700012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Tarkovsky,   A. (2004). <i>Journal 1970-1986</i>. Paris: &Eacute;ditions du Cahiers du Cin&eacute;ma. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1138657&pid=S0101-3106200800010001700013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><a name="end2"></a><a href="#end"><img src="/img/revistas/ide/v31n46/seta.gif" border="0">Endere&ccedil;o   para correspond&ecirc;ncia</a>    <br>   Cec&iacute;lia Maria de Brito Orsini    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   Rua Artur de Azevedo, 1857&#47;74    <br>   05414-015 &– S&atilde;o Paulo &– SP    <br>   Tel.: 11 3083-0796     <br>   E-mail: <a href="mailto:ceciliaorsini@uol.com.br">ceciliaorsini@uol.com.br</a></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Recebido: 15&#47;09&#47;2007    <br> Aceito: 05&#47;10&#47;2007</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><sup><a name="1a"></a><a href="#1">*</a></sup> Coment&aacute;rio sobre a proje&ccedil;&atilde;o do filme de mesmo nome, de Andrei Tarkovsky, no debate com o cr&iacute;tico de cinema Alcino Leite Neto. I Ciclo de Cinema e Psican&aacute;lise: &ldquo;Trauma e Representa&ccedil;&atilde;o&rdquo;, promovido pela Sala Cinemateca de S&atilde;o Paulo em parceria com a Comiss&atilde;o Cient&iacute;fica da SBPSP. S&atilde;o Paulo, julho de 2005.    <br> <sup><a name="2a"></a><a href="#2">**</a></sup> Psicanalista pela Sociedade Brasileira de Psican&aacute;lise de S&atilde;o Paulo.</font></p>     ]]></body>
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