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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Sigmund Freud e as interseções entre psicanálise e cultura]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This article approaches the intersections between Psychoanalysis and Culture, focusing on the cultural and scientific impact that the Theory of the Unconscious provoked. The author also presents a brief social and political panorama of the beginnings of Psychoanalysis and concludes with considerations on the legacy that Psychoanalysis has brought to the contemporary culture.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><B>HOMENAGEM    AOS 150 ANOS DO NASCIMENTO DE SIGMUND FREUD</B></font></p>     <p align="right">&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Sigmund    Freud e as interse&ccedil;&otilde;es entre psican&aacute;lise e cultura</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Sigmund    Freud and the intersections between psychoanalysis and culture</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">    <b>Eliana Rodrigues Pereira Mendes</b><sup><a href="#II">I</a><a name="I"></a></sup></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">C&iacute;rculo    Psicanal&iacute;tico de Minas Gerais</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a href="#cor">Endere&ccedil;o    para correspond&ecirc;ncia</a><a name="end"></a></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <HR NOSHADE SIZE = "1">     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>RESUMO</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">    O artigo aborda as interse&ccedil;&otilde;es entre Psican&aacute;lise e Cultura,    enfocando o impacto cient&iacute;fico-cultural que a Teoria do Inconsciente    provocou, para depois apresentar um breve panorama s&oacute;cio-pol&iacute;tico    da cria&ccedil;&atilde;o da Psican&aacute;lise. Por fim considera o legado que    a psican&aacute;lise trouxe &agrave; cultura contempor&acirc;nea.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Palavras-chave:    </b>Interse&ccedil;&atilde;o, Cultura, Inconsciente, Discurso, Mal-estar, Subjetividade,    Culpa, Gozo</font></p> <HR NOSHADE SIZE = "1">     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ABSTRACT</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">    This article approaches the intersections between Psychoanalysis and Culture,    focusing on the cultural and scientific impact that the Theory of the Unconscious    provoked. The author also presents a brief social and political panorama of    the beginnings of Psychoanalysis and concludes with considerations on the legacy    that Psychoanalysis has brought to the contemporary culture.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Keywords:    </b>Intersection, Culture, Unconscious, Discourse, Discontents, Subjectivity,    Guilt, Enjoyment</font></p> <HR NOSHADE SIZE = "1">    <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> A comemora&ccedil;&atilde;o    dos cento e cinq&uuml;enta anos do nascimento de Sigmund de Freud nos d&aacute;    o pretexto para a elabora&ccedil;&atilde;o desse pequeno artigo. Ao falar das    interse&ccedil;&otilde;es entre Psican&aacute;lise e Cultura vamos primeiro    abordar o impacto da Teoria do Inconsciente na cultura da &eacute;poca, para    depois apresentarmos um breve panorama pol&iacute;tico-cultural da cria&ccedil;&atilde;o    da Psican&aacute;lise e finalmente considerar sobre o legado que a psican&aacute;lise    trouxe &agrave; cultura de nossos dias.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b><font size="3">O    impacto cient&iacute;fico-cultural da teoria do inconsciente</font></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No final do s&eacute;culo    XIX, o chamado S&eacute;culo das Luzes, Freud vem trazer a ruptura da racionalidade    atrav&eacute;s de sua descoberta do inconsciente, junto de outros contempor&acirc;neos    seus como Nietzsche (que ao desmantelar a teologia que sustentava o sistema    pol&iacute;tico mostrou como os valores s&atilde;o condicionados) e como Marx    (ao mostrar que a raz&atilde;o &eacute; balizada pelas condi&ccedil;&otilde;es    pol&iacute;tico-econ&ocirc;micas). </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Essa no&ccedil;&atilde;o    de inconsciente vem confirmar o terceiro grande descentramento do Homem, na    sua concep&ccedil;&atilde;o narc&iacute;sica.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Antes de Freud,    Nicolau Cop&eacute;rnico j&aacute; havia demonstrado que a terra n&atilde;o    &eacute; o centro do universo, mas gira em torno do sol. Charles Darwin mostrava    que o homem &eacute; apenas um elo de uma longa cadeia evolutiva. Sigmund Freud    vem falar que a capacidade de escolha do homem &eacute; limitada, pois ele tem    uma inst&acirc;ncia, em seu psiquismo, que &eacute; capaz de gerar efeitos e    que n&atilde;o se confunde com a consci&ecirc;ncia. O fato de que o beb&ecirc;    humano nas&ccedil;a sempre do desejo de um outro e de que tenha uma depend&ecirc;ncia    total deste outro para a sua sobreviv&ecirc;ncia, faz com que ele seja "falado"    por uma polissemia de vozes e discursos que v&ecirc;m ressoar em seu inconsciente,    formado de significantes que "falam" por ele.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No tempo de Freud,    as id&eacute;ias de um inconsciente j&aacute; eram muito ventiladas por v&aacute;rios    autores, inclusive por Franz Brentano, de quem Freud foi aluno, que falava de    uma pr&eacute;-consci&ecirc;ncia. No entanto, Freud representou o amadurecimento    de um processo desse conceito que j&aacute; vinha sendo elaborado. A genialidade    de sua descoberta foi a de dar ao inconsciente um status de alteridade radical    e n&atilde;o apenas o de uma grada&ccedil;&atilde;o da consci&ecirc;ncia. O    inconsciente de que fala Freud n&atilde;o &eacute; acess&iacute;vel em termos    volitivos e cognitivos e tem suas leis pr&oacute;prias como atemporalidade,    l&oacute;gica singular e n&atilde;o depend&ecirc;ncia da raz&atilde;o. Foram    essas afirma&ccedil;&otilde;es de Freud que fizeram dele um criador original,    e que mesmo tendo sido atacadas pelo meio cient&iacute;fico de ent&atilde;o,    revolucionaram o conhecimento humano. Como Ci&ecirc;ncia do Inconsciente, a    psican&aacute;lise ainda n&atilde;o foi confrontada com nada que a superasse.    A &oacute;tica freudiana enfocou desde os atos mais corriqueiros da vida cotidiana,    como um lapso de mem&oacute;ria ou uma troca de palavras, passando pela compreens&atilde;o    dos sonhos como realiza&ccedil;&atilde;o de desejos latentes, pela sexualidade    como sendo um continuum na vida do sujeito, at&eacute; as quest&otilde;es mais    altamente estimadas, como a sublima&ccedil;&atilde;o das puls&otilde;es pelo    trabalho intelectual e pela arte. As quest&otilde;es que t&ecirc;m a ver diretamente    com as institui&ccedil;&otilde;es da cultura como a ordem social, a religi&atilde;o,    a moral e a &eacute;tica tamb&eacute;m foram minuciosamente trabalhadas em seus    textos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ao considerar a    psican&aacute;lise primordialmente como Ci&ecirc;ncia do Inconsciente, deixando    em segundo plano o seu lugar de procedimento terap&ecirc;utico, Freud quis evitar    que ela se transformasse apenas num cap&iacute;tulo a mais da psicopatologia    e que fosse colocada como tal nos manuais de psiquiatria.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ali&aacute;s, uma    grande preocupa&ccedil;&atilde;o de Freud sempre foi colocar a psican&aacute;lise    no estatuto cient&iacute;fico, pois ele n&atilde;o queria v&ecirc;-la ligada    &agrave; religi&atilde;o (um dos motivos de seu afastamento de Carl Jung) ou    &agrave; ideologia. Tampouco quis consider&aacute;-la como uma vis&atilde;o    de mundo ou um sistema filos&oacute;fico, porque a psican&aacute;lise nunca    se encarrega de preencher os furos do edif&iacute;cio universal. Ao contr&aacute;rio,    ela fala do que h&aacute; de inconsciente na cultura, daquilo que se manifesta    no discurso da cultura. Embora a ci&ecirc;ncia n&atilde;o se preocupe com o    sujeito que opera como produtor dela mesma, a psican&aacute;lise parte do que    a ci&ecirc;ncia deixa de lado, que &eacute; justamente o sujeito do inconsciente    e o mal-estar nas rela&ccedil;&otilde;es com a cultura. Apesar disso, Freud    usou o referencial cient&iacute;fico para construir as fic&ccedil;&otilde;es    te&oacute;ricas com as quais o discurso anal&iacute;tico opera, o que fez tamb&eacute;m    Lacan na inclus&atilde;o da ling&uuml;&iacute;stica e da topologia nas suas    teoriza&ccedil;&otilde;es.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A psican&aacute;lise    n&atilde;o &eacute; aplic&aacute;vel como a ci&ecirc;ncia, mas ela &eacute;    um discurso que se constitui como um efeito da interdiscursividade, ou seja,    ela possibilita que diferentes discursos da cultura se relacionem.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Freud sempre foi    um homem atento aos sinais de seu tempo e, por isto, sempre se interessou em    pensar a cultura, tanto quanto se dedicou &agrave; pr&aacute;tica cl&iacute;nica.    Somos agora levados, ent&atilde;o, a um passeio a Viena de Freud, onde tudo    teve seu in&iacute;cio.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> <b><font size="3">Breve    panorama sociocultural da cria&ccedil;&atilde;o da psican&aacute;lise</font></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> A cria&ccedil;&atilde;o    da psican&aacute;lise em Viena, localizada no cora&ccedil;&atilde;o geogr&aacute;fico    da Europa, na encruzilhada entre o Oriente e o Ocidente, teve sua raz&atilde;o    de ser. A situa&ccedil;&atilde;o sociopol&iacute;tica que predominava na Europa    Central durante a maior parte do s&eacute;culo XIX era: de um lado, o Imp&eacute;rio    Multinacional sediado em Viena, com dezenas de grupos etnolingu&iacute;sticos,    e do outro a fragmenta&ccedil;&atilde;o das popula&ccedil;&otilde;es de l&iacute;ngua    alem&atilde; em mais de trinta territ&oacute;rios aut&ocirc;nomos, sobre os    quais Viena mantinha sua influ&ecirc;ncia pol&iacute;tica, por meio da flex&iacute;vel    estrutura da confedera&ccedil;&atilde;o germ&acirc;nica. A dinastia dos Habsburgo    teve in&iacute;cio em 1805, com a dissolu&ccedil;&atilde;o do Sacro Imp&eacute;rio    Romano-Germ&acirc;nico. Em 1815 formava-se um estado que congregava alem&atilde;es,    h&uacute;ngaros, poloneses, tchecos, croatas, romenos, ucranianos, entre outros.    O elemento integrador era, sobretudo, a dinastia reinante que procurava manter-se    acima das querelas nacionalistas, que iriam confrontar esses diversos grupos    ao longo de todo o s&eacute;culo XIX (e que se estenderam at&eacute; os dias    de hoje com os cismas pol&iacute;ticos das rep&uacute;blicas dos B&aacute;lc&atilde;s).    Francisco Jos&eacute; I foi o governante da &Aacute;ustria desde 1848 at&eacute;    o ano de sua morte em 1916. O Imp&eacute;rio Austro-H&uacute;ngaro foi formado    em 1867, com o compromisso da &Aacute;ustria com a Hungria. Francisco Jos&eacute;    era o imperador da &Aacute;ustria, onde havia um Parlamento, e rei da Hungria,    politicamente mais atrasada e que funcionava como celeiro do Imp&eacute;rio.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No seu desejo de    unir for&ccedil;as para fortalecer a Coroa, o imperador decreta, em 1869, a    emancipa&ccedil;&atilde;o dos judeus. Esse fato beneficiou Freud diretamente,    pois se essa emancipa&ccedil;&atilde;o tivesse demorado mais, ele n&atilde;o    poderia ter estudado medicina e estaria condenado ao confinamento nos guetos    judaicos. Essa abertura &agrave; comunidade semita propiciou que se formasse    uma brilhante elite judaica no Imp&eacute;rio Austro-H&uacute;ngaro, ansiosa    por uma atua&ccedil;&atilde;o significativa em todas as &aacute;reas que lhe    foram franqueadas (as carreiras tanto militar quanto pol&iacute;tica ainda lhe    eram vetadas). No entanto, se a emancipa&ccedil;&atilde;o abriu a porta para    a integra&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mico-social dos judeus, o anti-semitismo,    nunca totalmente extinto, se encarregava de "p&ocirc;-los em seu lugar".    Tanto assim que Freud s&oacute; pode ser nomeado professor-adjunto da Universidade    de Viena depois de muitos anos de trabalho e atrav&eacute;s da intercess&atilde;o    de uma cliente n&atilde;o-judia. Gustav Mahler, o grande compositor, s&oacute;    pode assumir a dire&ccedil;&atilde;o da &Oacute;pera de Viena ap&oacute;s converter-se    ao catolicismo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A atmosfera de    Viena era ao mesmo tempo conservadora e fr&iacute;vola. Como tra&ccedil;os marcantes    apresentava um ritmo lento de vida, o esvaziamento dos espa&ccedil;os p&uacute;blicos,    o voltar-se para os afazeres pessoais, a falta de entusiasmo pelo novo, a coqueteria    das discuss&otilde;es sobre as pe&ccedil;as de teatro e a vida dos artistas.    A polidez e a jovialidade que davam o tom nas rela&ccedil;&otilde;es eram imprescind&iacute;veis    para se obter destaque nos diferentes dom&iacute;nios da vida social. Viena    ignorava os antagonismos &eacute;tnicos &agrave; sua volta e neutralizava os    conflitos, reduzindo-os ao "pitoresco", para n&atilde;o ter de enfrent&aacute;-los.    O clima "Belle &Eacute;poque" do final do s&eacute;culo XIX e princ&iacute;pio    do s&eacute;culo XX levava a crer que tudo ia bem, mas se isso enganava alguns,    n&atilde;o convencia outros.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">As lutas de classe    eram anuladas atrav&eacute;s de medidas paliativas e o culto ao bom gosto e    &agrave; necessidade de parecer bem igualava as contradi&ccedil;&otilde;es entre    a burguesia e a nobreza.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O anti-semitismo    da sociedade atribu&iacute;a aos judeus a culpa pela especula&ccedil;&atilde;o    financeira e a crescente infla&ccedil;&atilde;o. Esse inimigo comum permitia    que se unissem contra ele o proletariado e a pequena burguesia, assim como esta    e a grande burguesia, na escolha de pol&iacute;ticos anti-semitas que governaram    Viena por d&eacute;cadas. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Freud abominava    a superficialidade vienense e tinha uma rela&ccedil;&atilde;o de muita ambival&ecirc;ncia    com a cidade que se notabilizou pelo seu culto ao vinho, mulheres e m&uacute;sica.    A harmonia de fachada dessa sociedade repressiva veio trazer &agrave; tona a    insatisfa&ccedil;&atilde;o das hist&eacute;ricas, que pagavam com o pr&oacute;prio    corpo a repress&atilde;o da sexualidade e a impossibilidade de uma realiza&ccedil;&atilde;o    mais efetiva, condenadas a serem meros objetos. Ao desmascarar o que havia de    falso em suas pacientes, Freud deu lugar &agrave; outra cena por tr&aacute;s    da dissimula&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A primeira guerra    mundial eclodiu por causa das lutas das etnias rebeldes, o que culminou com    o assassinato de Francisco Ferdinando, sobrinho de Francisco Jos&eacute; e herdeiro    do trono, em Sarajevo, 1914. Incapacitado de solucionar satisfatoriamente esses    embates &eacute;tnicos, o poderoso Imp&eacute;rio Austro-H&uacute;ngaro desapareceu    do mapa em 1918. O imperador Francisco Jos&eacute; morre em 1916, sendo que    sua esposa Elizabeth da Baviera, a c&eacute;lebre Sissi, uma das mulheres mais    belas da Europa e das primeiras anor&eacute;xicas de que se tem not&iacute;cia,    morre assassinada em 1898 em Genebra, pelas m&atilde;os de um anarquista italiano.    O &uacute;nico herdeiro direto do casal de imperadores, o pr&iacute;ncipe Rodolfo,    j&aacute; havia se suicidado em Mayerling, matando consigo sua jovem amante    Maria Vetsera. Este foi o fim da dinastia dos Habsburgo. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O t&eacute;rmino    da guerra, por&eacute;m, veio consolidar o conceito de ruptura da raz&atilde;o,    trazendo uma vis&atilde;o pulsional dos processos hist&oacute;ricos coletivos.    Na guerra a puls&atilde;o &eacute; superdimensionada e pode-se ver que a tradi&ccedil;&atilde;o    &eacute; extremamente prec&aacute;ria e a cultura tem limita&ccedil;&otilde;es;    al&eacute;m disso, tudo o que &eacute; produzido pelo homem &eacute; relativo,    havendo, nessa circunst&acirc;ncia, uma quebra dos padr&otilde;es e dos ideais    de normalidade. Essa constata&ccedil;&atilde;o veio dar credibilidade crescente    &agrave; psican&aacute;lise, que passou a ter mais prest&iacute;gio e come&ccedil;ou    a ser mais divulgada.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">As id&eacute;ias    de modernidade que j&aacute; se impunham desde o fim do s&eacute;culo XIX passam    a ser vigentes. A intelectualidade judaica se encarrega de trazer as novidades.    Nas artes pl&aacute;sticas temos Gustav Klimt, Egon Schiele, Max Ernst e depois    Oskar Kokoshchka, que buscam um novo conceito de interioriza&ccedil;&atilde;o    para a pintura. O advento da fotografia liberou em definitivo a pintura de seu    aspecto puramente descritivo. A arquitetura, com Otto Wagner e Adolf Loos, passa    a ser funcional, abandonando um estilo mais historicista e decorativo. A literatura    com Arthur Schnitzler, Hugo Hofmannsthal, Stefan Zweig deixa de lado as belas    letras e vai falar de motiva&ccedil;&otilde;es inconscientes, desmascarando    a sociedade de seu tempo. A m&uacute;sica se torna mais profunda e erudita com    Gustav Mahler, e Arnold Schoenberg cria a m&uacute;sica dodecaf&ocirc;nica,    atonal e amel&oacute;dica, com a "emancipa&ccedil;&atilde;o da disson&acirc;ncia",    segundo suas pr&oacute;prias palavras. Freud e seus companheiros Karl Abra-ham,    Sandor Ferenczi, Otto Rank, Max Eitingon, Hans Sachs, entre outros, revolucionaram    o conhecimento do psiquismo, com a cria&ccedil;&atilde;o da psican&aacute;lise.    Toda essa evolu&ccedil;&atilde;o criativa tem um final tr&aacute;gico com a    anexa&ccedil;&atilde;o da &Aacute;ustria, em 1938, ao Terceiro Reich de Berlim    e a ascens&atilde;o do nazismo, que ca&ccedil;ou e expatriou os psicanalistas    judeus, indesej&aacute;veis ao sistema. Freud teve suas obras destru&iacute;das,    o que lhe valeu o seguinte coment&aacute;rio: "Fizemos progresso. Na Idade    M&eacute;dia teriam queimado o autor, hoje se contentam em queimar os livros".    Mal sabia ele que os campos de concentra&ccedil;&atilde;o se encarregariam de    exterminar tamb&eacute;m os homens. O regime de Hitler devastou a psican&aacute;lise    de l&iacute;ngua alem&atilde;. O que se pode notar &eacute; que a psican&aacute;lise    nunca pode sobreviver em regimes totalit&aacute;rios, pois ela &eacute; libert&aacute;ria    em sua ess&ecirc;ncia. A submiss&atilde;o e a opress&atilde;o s&atilde;o incompat&iacute;veis    com o desejo do analista.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b><font size="3">O    legado da psican&aacute;lise &agrave; cultura de nossos dias</font></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Assim como Freud,    que se exilou na Inglaterra antes de sua morte, o centro do mundo psicanal&iacute;tico    foi tamb&eacute;m transferido para Londres, onde se desenvolveram as escolas    antag&ocirc;nicas de Anna Freud e Melanie Klein e pouco depois o pensamento    de Donald Winnicott.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ap&oacute;s a experi&ecirc;ncia    adaptacionista dos anos 50 nos Estados Unidos, a psican&aacute;lise teve um    sopro de renova&ccedil;&atilde;o, a partir dos anos 60, com a releitura da obra    freudiana por Jacques Lacan, que a situou bem no &acirc;mago da p&oacute;s-modernidade.    Ele desenvolveu quest&otilde;es fundamentais em sua teoriza&ccedil;&atilde;o,    como o conceito de gozo, absolutamente pertinente &agrave; cultura de frui&ccedil;&atilde;o    extremada de nossos dias, seja atrav&eacute;s das adi&ccedil;&otilde;es e de    sintomas como anorexia, bulimia, seja atrav&eacute;s de comportamentos radicais    em atividades que envolvam o corpo em perigo mortal como a pr&aacute;tica de    certos esportes, ou a varia&ccedil;&atilde;o intensa de parceiros sexuais, com    a exposi&ccedil;&atilde;o a doen&ccedil;as letais como a Aids, ou a outras de    menor risco, mas igualmente lesivas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A psican&aacute;lise    est&aacute; t&atilde;o intrincada na cultura atual que j&aacute; n&atilde;o    podemos imaginar o mundo sem seus conceitos b&aacute;sicos e seu jarg&atilde;o    peculiar.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A influ&ecirc;ncia    claramente assumida dos seus conceitos por movimentos art&iacute;sticos como    o surrealismo nas artes pl&aacute;sticas e no cinema, com nomes como Salvador    Dal&iacute;, Andr&eacute; Breton, Lu&iacute;s Bu&ntilde;uel entre outros, com    seu arrojo criativo e desconstru&ccedil;&atilde;o das conven&ccedil;&otilde;es,    desconcertou o pr&oacute;prio Freud, ele mesmo um burgu&ecirc;s comportado,    herdeiro da &eacute;poca vitoriana em sua vida pessoal.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A psican&aacute;lise    veio trazer uma grande &ecirc;nfase &agrave; subjetividade. Dessa forma, todo    o empenho que foi dado nos &uacute;ltimos anos &agrave; pedagogia e &agrave;    educa&ccedil;&atilde;o das crian&ccedil;as, assim como o movimento de libera&ccedil;&atilde;o    das mulheres e a busca de maior paridade entre os sexos s&atilde;o tribut&aacute;rios    da teoria psicanal&iacute;tica. Ali&aacute;s, o acatamento &agrave;s diversidades    sexuais e a luta pela aceita&ccedil;&atilde;o das minorias &eacute;tnicas tamb&eacute;m    est&atilde;o no caudal do legado psicanal&iacute;tico &agrave; cultura. Mesmo    os avan&ccedil;os das neuroci&ecirc;ncias foram, de algum modo, pensados por    Freud como uma quest&atilde;o em aberto.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Se a subjetividade    da &eacute;poca freudiana emanava de uma sociedade repressora que gerava o recalque    e a culpa, formando neur&oacute;ticos, hoje ela se ancora nos excessos sociais    que trazem a recusa e o gozo, fazendo aparecer os perversos. A cl&iacute;nica    sofre as conseq&uuml;&ecirc;ncias destas mudan&ccedil;as e o psicanalista, assim    como o fez Freud, tem de estar ligado ao seu tempo. A psican&aacute;lise &eacute;    chamada a dar conta de algo que ela mesma ajudou a trazer &agrave; luz. Como    ela sempre tem de incidir no sem sentido e no insuport&aacute;vel do mal-estar,    seu legado de instrumental cr&iacute;tico &agrave; pr&oacute;pria cultura n&atilde;o    pode nunca ser desconsiderado. Se as hist&eacute;ricas do s&eacute;culo XIX    denunciaram, com sua doen&ccedil;a, as dissimula&ccedil;&otilde;es da sociedade,    nossos clientes atuais, com seus sintomas, nos guiar&atilde;o aos caminhos que    a psican&aacute;lise ter&aacute; de tomar.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b><font size="3">Bibliografia</font></b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> GAY, Peter. <i>Freud</i>:    uma vida para o nosso tempo. S&atilde;o Paulo: Companhia das Letras, 1989.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2387296&pid=S0102-7395200600010000400001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">ILEYASSOF, Ricardo.    <i>El psicoan&aacute;lisis en la instituci&oacute;n de la cultura</i>: la    pol&iacute;tica freudiana. Apostila.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2387297&pid=S0102-7395200600010000400002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">MEZAN, Renato.    <i>Freud, o pensador da cultura</i>. S&atilde;o Paulo: Brasiliense, 1986.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2387298&pid=S0102-7395200600010000400003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">SCHORSKE, Carl    E. <i>Viena fin-de-si&egrave;cle</i>: pol&iacute;tica e cultura. S&atilde;o    Paulo: Unicamp, 1988.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2387299&pid=S0102-7395200600010000400004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a href="#End"><img src="img/revistas/reverso/v28n53/seta.gif" border="0"></a>    <a href="#end">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a><a name="cor"></a>    <br>   Rua Araguari, 1541/7&ordm; andar - Santo Agostinho    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   30190-111 - Belo Horizonte/MG    <br>   Tel.: (31) 3337-1583    <br>   E-mail: <a href="mailto:tarcisiomendes@uol.com.br">tarcisiomendes@uol.com.br</a></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Recebido    em 30/05/2006    <br>   Aprovado em 03/07/2007</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><sup><a href="#I">I</a></sup><a name="II"></a>    Psic&oacute;loga. Psicanalista. Membro do C&iacute;rculo Psicanal&iacute;tico    de Minas Gerais - CPMG.</font></p>      ]]></body>
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