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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Entrevista com Arlindo Pimenta: 50 anos de círculo psicanalítico de Minas Gerais]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Through an interview to Reverso, Arlindo Pimenta presents historical data related to Minas Gerais psychiatry in the 1960s and the influence of psychoanalysis on the development of this medical specialty. It also presents data and facts from the beginning of the CPMG and the political-structural turning point in the early 1980s and how it was resumed and improved in the administrations that followed until today.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ENTREVISTA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="verdana,arial,helvetica,sans-serif"><a name="enda"></a><b>Entrevista com <i>Arlindo</i> Pimenta: 50 anos de c&iacute;rculo psicanal&iacute;tico de Minas Gerais</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Interview with <i>Arlindo</i> pimenta: 50 years of c&iacute;rculo psicanal&iacute;tico de Minas Gerais</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr size="1" noshade>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>RESUMO</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Atrav&eacute;s da entrevista &agrave; <i>Reverso, Arlindo</i> Pimenta apresenta dados hist&oacute;ricos relacionados &agrave; psiquiatria mineira nos anos 1960 e a influ&ecirc;ncia da psican&aacute;lise no desenvolvimento dessa especialidade m&eacute;dica. Apresenta ainda dados e fatos do in&iacute;cio do CPMG e a virada pol&iacute;tico-estrutural no in&iacute;cio dos anos 1980 e como foi retomada e aperfei&ccedil;oada nas gest&otilde;es que se seguiram at&eacute; os dias de hoje.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Palavras-chave:</b> Hist&oacute;ria, C&iacute;rculo Psicanal&iacute;tico Minas Gerais, Estrutura, Evolu&ccedil;&atilde;o, Transforma&ccedil;&otilde;es.</font></p> <hr size="1" noshade>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ABSTRACT</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Through an interview to <i>Reverso, Arlindo</i> Pimenta presents historical data related to Minas Gerais psychiatry in the 1960s and the influence of psychoanalysis on the development of this medical specialty. It also presents data and facts from the beginning of the CPMG and the political-structural turning point in the early 1980s and how it was resumed and improved in the administrations that followed until today.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Keywords:</b> History, Minas Gerais Psychoanalytic Circle, Structure, Evolution, Transformations.</font></p> <hr size="1" noshade>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Reverso: Arlindo</i>, como foi sua aproxima&ccedil;&atilde;o com a psican&aacute;lise?</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Arlindo</i>: A primeira vez que ouvi falar em psican&aacute;lise foi na aula de filosofia, quando fazia o terceiro ano cient&iacute;fico no col&eacute;gio Santo Ant&ocirc;nio. O professor falou da psican&aacute;lise e achei intrigante o tema.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Reverso</i>: E o que aconteceu depois?</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Arlindo</i>: Iniciei o curso de medicina e sempre tive vontade de estudar alguma coisa que tivesse a ver com o sistema nervoso.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Reverso</i>: E ent&atilde;o?</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Arlindo</i>: Quando cursava as cadeiras de cl&iacute;nica, procurei algum espa&ccedil;o que tivesse a ver com o sistema nervoso. Optei pela anestesia, fiz um est&aacute;gio e cheguei a participar de algumas cirurgias.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Reverso</i>: N&atilde;o prosseguiu?</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Arlindo</i>: N&atilde;o, n&atilde;o era bem o que eu queria. Al&eacute;m do mais, nessa &eacute;poca (in&iacute;cio dos anos 1960), havia uma forte ebuli&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica e quest&otilde;es ligadas &agrave; participa&ccedil;&atilde;o da medicina nas doen&ccedil;as relacionadas &agrave; pobreza (parasitol&oacute;gicas e a desnutri&ccedil;&atilde;o). Fui envolvido por essas ideias e cheguei a fazer parte de um grupo (A&ccedil;&atilde;o Popular) que se propunha a tentar compreender a realidade brasileira sobre seus v&aacute;rios &acirc;ngulos, inclusive o m&eacute;dico.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Reverso</i>: E como voc&ecirc; chegou &agrave; psiquiatria?</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Arlindo</i>: Em uma aula de <i>Doen&ccedil;as tropicais</i>, encontrei meu colega C&eacute;zar Rodrigues Campos, com um exemplar da revista <i>Arquivos da Cl&iacute;nica Pinel</i>. Achei interessante. Ele me falou do Hospital Galba Veloso e o projeto de se implantar ali uma nova forma de atendimento psiqui&aacute;trico. E me convidou para conhecer o hospital.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Reverso</i>: E voc&ecirc; foi?</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Arlindo</i>: Fui. Achei interessante o projeto de <i>open door</i>, de como se abria m&atilde;o dos meios de conten&ccedil;&atilde;o at&eacute; ent&atilde;o usados na psiquiatria (camisa de for&ccedil;a, quarto forte) e se substitu&iacute;a esses m&eacute;todos pelo uso de neurol&eacute;pticos e de uma assist&ecirc;ncia mais ass&iacute;dua aos pacientes. O Galba, &agrave;quela &eacute;poca, era um hospital onde s&oacute; se internava mulher. Essa pol&iacute;tica assistencial dirigida pelo Dr. Jorge Paprocki inaugurou um cap&iacute;tulo novo e importante na psiquiatria mineira. Fiz as entrevistas e fui admitido como acad&ecirc;mico. Passei a dar plant&otilde;es, a participar e acompanhar pacientes da terceira enfermaria.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Reverso</i>: E como a psican&aacute;lise entrou nisso?</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Arlindo</i>: Entrei para o Hospital Galba Veloso em 1965. Com pouco tempo de exist&ecirc;ncia, o C&iacute;rculo iniciara suas atividades das quais participavam o Dr. Jorge Paprocki e a Dra. Eunice Rangel, diretores do hospital. Era, ent&atilde;o, recomendado que o corpo cl&iacute;nico e os acad&ecirc;micos estivessem em an&aacute;lise. Nesse mesmo ano, iniciei minha participa&ccedil;&atilde;o em terapia de grupo com o Dr. Jarbas Portela at&eacute; 1968, quando me decidi pela psican&aacute;lise e iniciei meu processo anal&iacute;tico.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Reverso</i>: E ent&atilde;o?</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Arlindo</i>: Nesse per&iacute;odo esteve em Belo Horizonte o Prof. Igor Caruso. Fez v&aacute;rias confer&ecirc;ncias abertas ao p&uacute;blico e assisti a algumas delas. Com a vinda de Caruso, houve tamb&eacute;m uma reestrutura&ccedil;&atilde;o no C&iacute;rculo Brasileiro de Psicologia Profunda - Se&ccedil;&atilde;o Minas Gerais. O modelo adotado era o da IPA, com v&aacute;rias etapas desde analista autorizado at&eacute; o analista didata. Com a vinda de Caruso, aconteceu uma amplia&ccedil;&atilde;o do n&uacute;mero de analistas didatas e uma aproxima&ccedil;&atilde;o com o grupo da Dra. Katrin Kemper, al&eacute;m da ideia de ampliar o C&iacute;rculo em outros estados brasileiros.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Reverso</i>: Que outras consequ&ecirc;ncias a vinda de Caruso provocou?</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Arlindo</i>: Muitas consequ&ecirc;ncias se seguiram &agrave; vinda de Caruso. Uma das principais foi a mudan&ccedil;a do nome da institui&ccedil;&atilde;o de C&iacute;rculo Brasileiro de Psicologia Profunda - Se&ccedil;&atilde;o Minas Gerais para C&iacute;rculo Psicanal&iacute;tico de Minas Gerais (CPMG), o que significava n&atilde;o s&oacute; uma mudan&ccedil;a de nome, mas tamb&eacute;m uma op&ccedil;&atilde;o pela psican&aacute;lise, porque anteriormente, al&eacute;m da psican&aacute;lise, era privilegiada a terapia de casal, de fam&iacute;lia e de grupos. Mas aconteceu uma diverg&ecirc;ncia: houve uma primeira cis&atilde;o e, em fun&ccedil;&atilde;o disso, foi criado o Instituto de Estudos Psicoterap&ecirc;uticos (IEPSI). Alguns membros fundadores do C&iacute;rculo foram ao congresso no M&eacute;xico junto com Caruso, para tentar a filia&ccedil;&atilde;o junto &agrave; IFPS, mas n&atilde;o foram aceitos de in&iacute;cio.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Reverso</i>: Outras consequ&ecirc;ncias?</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Arlindo</i>: A ida ao congresso no M&eacute;xico e o contato com Caruso foram muito frut&iacute;feros para o CPMG. Foi repensada toda a estrutura de forma&ccedil;&atilde;o psicanal&iacute;tica at&eacute; aquela data, e os quatro analistas didatas fundaram a Comiss&atilde;o de An&aacute;lise Did&aacute;tica (CAD), que se encarregava de todos os aspectos administrativos e da forma&ccedil;&atilde;o do C&iacute;rculo. Tudo que acontecia passava for&ccedil;osamente pela CAD. A CAD foi muito importante para dar uma estrutura ao CPMG, at&eacute; ent&atilde;o muito confusa e dispersa. Houve um aumento r&aacute;pido de ades&otilde;es ao CPMG, que &agrave;quele tempo s&oacute; aceitava m&eacute;dicos e psic&oacute;logos para forma&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Reverso</i>: O que aconteceu ent&atilde;o?</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Arlindo</i>: Como disse, aconteceu uma estrutura&ccedil;&atilde;o, mas a CAD, com o tempo, passou a ter um poder muito grande, pois todas as an&aacute;lises eram feitas com eles, al&eacute;m das supervis&otilde;es e dos cursos. E quem tem muito poder, frequentemente abusa. Isso gerou, ent&atilde;o, um clima de inibi&ccedil;&atilde;o, medo e sil&ecirc;ncio nos s&oacute;cios. Algu&eacute;m apresentava um trabalho e praticamente ningu&eacute;m opinava ou questionava. Em uma palavra, havia muito medo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Reverso</i>: E quais as consequ&ecirc;ncias?</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Arlindo</i>: Isso foi se tornando um clima de revolta e, aos poucos, de questionamento do C&iacute;rculo Psicanal&iacute;tico de Minas Gerais. Na sua gest&atilde;o, o Dr. Jarbas Portela convidou alguns analistas da gera&ccedil;&atilde;o mais jovem para integrar a Diretoria. Assim, alguns colegas e eu passamos a participar mais de perto das decis&otilde;es da Diretoria.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em pouco tempo, o Dr. Jarbas se desentendeu com a CAD, deixou a presid&ecirc;ncia do CPMG, assumida pelo vice-presidente Dr. Luiz Carlos Drummond, que manteve a Diretoria anterior. O n&iacute;vel do mal-estar foi crescendo progressivamente. A gest&atilde;o seguinte, a de Dr. Elias Hadad, j&aacute; contou com a participa&ccedil;&atilde;o de um grupo mais organizado dos descontentes, que atuava basicamente em duas frentes: uma junto &agrave; Diretoria atual tentando p&ocirc;r em pauta a possibilidade de os cargos administrativos serem exercidos por n&atilde;o didatas e outro atuando na reforma do regimento interno do Instituto de Forma&ccedil;&atilde;o. Um fato causou muita pol&ecirc;mica. O anteprojeto de reforma do regimento do Instituto foi enviado para aprova&ccedil;&atilde;o da Diretoria quando ainda estava em discuss&atilde;o. Esse fato levou alguns componentes do grupo a n&atilde;o aceitar o ocorrido e a enviar uma carta ao coordenador do Instituto, em que manifestavam sua discord&acirc;ncia com aquela atitude. Diziam na carta que n&atilde;o cabiam mais atitudes como aquela (comuns aos didatas). Na ocasi&atilde;o, faz&iacute;amos um curso de psican&aacute;lise e literatura a partir de um romance <i>A menina morta</i>, uma trama que se passava na Fazenda do Grot&atilde;o. E muitos de n&oacute;s faz&iacute;amos parte desse grupo. O grupo do Grot&atilde;o virou grup&atilde;o. Alguns membros desse grupo j&aacute; haviam escrito textos em jornadas, apontando os desacertos e os desmandos da CAD. Por fim, foi votada em assembleia geral a modifica&ccedil;&atilde;o estatut&aacute;ria, que permitia que outros membros n&atilde;o didatas ocupassem cargos de Dire&ccedil;&atilde;o.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Reverso</i>: E o que ocorreu?</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Arlindo</i>: Ap&oacute;s a assembleia, fui procurado por alguns colegas tendo &agrave; frente a Lena Moreira Santos e Renato Dousi, que diziam que eu teria de assumir o comando do movimento. Confesso que fiquei surpreso, pois julgava que no Grup&atilde;o havia colegas com mais compet&ecirc;ncia para assumir o posto. Insistiram e, como n&atilde;o sou de correr da raia, acabei assumindo o comando e, consequentemente, a candidatura &agrave; presid&ecirc;ncia na elei&ccedil;&atilde;o seguinte.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Reverso</i>: E depois?</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Arlindo</i>: Passado o susto, percebi que a miss&atilde;o n&atilde;o era f&aacute;cil e que seu sucesso dependia de um grupo de apoio o maior poss&iacute;vel. Passamos a fazer o que os didatas n&atilde;o faziam, ou seja, escutar a sociedade. Organizamos v&aacute;rios pequenos grupos que escutavam os s&oacute;cios e as demandas dos colegas. A maioria atendeu nosso convite. Alguns n&atilde;o. Chegaram a tentar articular uma chapa "pr&oacute;-didatas", que acabou n&atilde;o emplacando.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Reverso</i>: Como foram elaboradas as propostas e a composi&ccedil;&atilde;o da chapa?</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Arlindo</i>: Nossa chapa foi escolhida entre os membros do grup&atilde;o, por elei&ccedil;&atilde;o interna, e foi proposta uma plataforma que constava dos seguintes t&oacute;picos:</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>1.</b> Proposta de uma estrutura nova para o CPMG, que rompesse com aquela da IPA. Uma tentativa de remediar, aquilo que Caruso n&atilde;o propusera, isto &eacute;, romper com a ortodoxia. Em nossa discuss&atilde;o das v&aacute;rias propostas encaminhadas, duas sobressa&iacute;am: uma de M&aacute;rcio Pinheiro, uma sociedade entre pares, e outra partindo de C&eacute;lio Garcia, uma sociedade entre &iacute;mpares, fazendo uma corre&ccedil;&atilde;o na primeira. As duas propostas foram articuladas em uma terceira que passou a fazer parte de nossa proposta: uma sociedade entre pares/&iacute;mpares. Pares em termos de hierarquia e &iacute;mpares em termos de respeito &agrave; subjetividade e ao percurso de cada um.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>2.</b> Reestudo da forma&ccedil;&atilde;o psicanal&iacute;tica.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>3.</b> Revis&atilde;o da produ&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica, extremamente baixa entre n&oacute;s.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>4.</b> Cria&ccedil;&atilde;o de um espa&ccedil;o interdisciplinar. O CPMG se colocava de forma muito isolada em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s outras sociedades psicanal&iacute;ticas. As disciplinas afins poderiam nos enriquecer bastante. Tentar&iacute;amos promover cursos de filosofia, antropologia, bem como de artes mantendo o curso de literatura j&aacute; em andamento.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>5.</b> Ativa&ccedil;&atilde;o do projeto da Cl&iacute;nica Social que, por algumas raz&otilde;es, n&atilde;o ia para frente.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>6.</b> Registro da hist&oacute;ria do CPMG, que naquele ano completava 21 anos. Havia necessidade de ter clareza do caminho percorrido at&eacute; ent&atilde;o.</font></p>    <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Depois da elei&ccedil;&atilde;o, que se realizou numa quinta-feira, recebi das m&atilde;os do coordenador do Instituto, uma carta de demiss&atilde;o. Na quarta-feira seguinte, recebi, por interm&eacute;dio de minha secret&aacute;ria, um recado da Secretaria do CPMG me informando que estava sendo convocado para uma reuni&atilde;o no Instituto. Fiquei assustado porque se tratava de uma convoca&ccedil;&atilde;o. Eu n&atilde;o entendia bem. Como Presidente do CPMG, eu n&atilde;o deveria ser convocado por um &oacute;rg&atilde;o subordinado &agrave; presid&ecirc;ncia. Deveria ser convidado. E nessa condi&ccedil;&atilde;o de convidado, tomei a liberdade de estender o convite aos colegas, uma vez que nosso regime de funcionamento &eacute; o de colegiado, e comparecemos &agrave; reuni&atilde;o do Instituto. Foi uma reuni&atilde;o extremamente tensa. Vivemos um sil&ecirc;ncio terr&iacute;vel. Depois da reuni&atilde;o perguntei a um amigo quantos minutos de sil&ecirc;ncio se passaram naquela reuni&atilde;o. Talvez uns dez ou quinze minutos. Para mim, no entanto, eles foram vivenciados como se fossem pelo menos duas horas ou mais. Ent&atilde;o, nessa situa&ccedil;&atilde;o extremamente tensa, come&ccedil;ou a se estabelecer um clima de confronta&ccedil;&atilde;o. E nesse clima, a compreens&atilde;o foi imposs&iacute;vel.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Eu havia retomado a minha an&aacute;lise com o Dr. Jarbas, mas se estabeleceu, como disse um colega, um verdadeiro entrevero entre n&oacute;s dois. &Eacute; claro que, nessas condi&ccedil;&otilde;es, a minha an&aacute;lise estava terminada ali mesmo. Propusemos, ent&atilde;o, uma segunda reuni&atilde;o, na qual a Diretoria, dessa vez e j&aacute; tendo condi&ccedil;&otilde;es, pudesse propor alguma coisa. Essa reuni&atilde;o foi um pouquinho mais amena, e a Diretoria prop&ocirc;s o seguinte: que os colegas que compunham o Instituto de Psican&aacute;lise nos enviassem uma lista tr&iacute;plice da qual pud&eacute;ssemos indicar o novo coordenador do Instituto. Mas, menos de uma semana depois, fomos surpreendidos com uma carta do Dr. Jarbas dizendo que a Diretoria n&atilde;o reconhecia a legitimidade dos colegas integrantes do Instituto e que, por esse motivo, ele pedia demiss&atilde;o das suas fun&ccedil;&otilde;es de coordenador do ensino e professor da disciplina Teoria da cl&iacute;nica do Instituto. Esse momento foi vivenciado pelo grupo de forma muito angustiante. Uma coisa chamou a aten&ccedil;&atilde;o: alguns colegas da Diretoria adoeceram nesse per&iacute;odo. Adoeceram mesmo. Circulava um clima de ang&uacute;stia. Por parte de alguns colegas, fomos tamb&eacute;m, verbalmente ou por telefone, objeto de uma carga pesada, que parecia de &oacute;dio e ressentimento muito grande. Lembro-me de um colega, com quem mantinha relacionamento de amizade, que me telefonou para me xingar e me dizer que "est&aacute;vamos sujando o prato em que com&iacute;amos" - foi essa a express&atilde;o que ele usou. Paralelamente a toda essa tens&atilde;o emocional em que nos encontr&aacute;vamos, come&ccedil;ou a haver uma cobran&ccedil;a das atividades cientificas por parte dos colegas. Apenas em novembro conseguimos fazer a elei&ccedil;&atilde;o da Comiss&atilde;o Cient&iacute;fica.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Voltando ao Instituto, entramos em contato com algumas pessoas e trocamos ideias, salientando a destrutividade daquele clima em que nos encontr&aacute;vamos. Conseguimos que a lista tr&iacute;plice fosse enviada. Foram designados os nomes do Dr. Fl&aacute;vio Neves, Dr. Cl&aacute;udio P&eacute;rsio e da Dra. Pomp&eacute;ia Pires. Conversamos com os tr&ecirc;s sobre a disponibilidade de cada um deles e, a partir dessas conversas, indicamos o Fl&aacute;vio para assumir a coordena&ccedil;&atilde;o do Instituto. Um outro aspecto que come&ccedil;ou a aparecer nessa &eacute;poca foi a necessidade de criar uma Comiss&atilde;o Sociocultural que se encarregasse da circula&ccedil;&atilde;o das ideias dentro e fora da sociedade, conforme constava da plataforma.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Durante todo esse per&iacute;odo, o que mais nos chamou a aten&ccedil;&atilde;o na atitude dos analistas didatas, foi a recusa do di&aacute;logo, com duas exce&ccedil;&otilde;es. N&atilde;o s&oacute; nas primeiras reuni&otilde;es, mas tamb&eacute;m posteriormente. E essa recusa se fazia principalmente de tr&ecirc;s formas: uma tentativa de fazer caricatura do grupo emergente, uma presen&ccedil;a silenciosa e uma aus&ecirc;ncia f&iacute;sica total. No contexto de tudo o que foi dito, compreende-se que o CPMG vivia no momento um medo profundo. Havia tamb&eacute;m o medo do fratric&iacute;dio ante a dificuldade de elabora&ccedil;&atilde;o dessa viv&ecirc;ncia, como elabor&aacute;-la se havia recusa de di&aacute;logo nas tr&ecirc;s formas que coloquei. Todos sabemos que a morte do pai deve acontecer simbolicamente. Mas quando isso acontece em termos reais, a elabora&ccedil;&atilde;o se torna muito dif&iacute;cil.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nos dias 24 e 25 de mar&ccedil;o de 1984, foi realizado em Belo Horizonte o Simp&oacute;sio do C&iacute;rculo Brasileiro de Psican&aacute;lise, em que as unidades integrantes apresentavam um hist&oacute;rico de cada unidade, cuja experi&ecirc;ncia seria permutada, bem como os projetos de forma&ccedil;&atilde;o psicanal&iacute;tica. Os trabalhos apresentados pelos integrantes do CPMG eram todos te&oacute;ricos e n&atilde;o mencionavam a situa&ccedil;&atilde;o institucional que viv&iacute;amos. V&aacute;rios colegas das unidades do C&iacute;rculo Brasileiro de Psican&aacute;lise vieram me questionar por que n&atilde;o se falava da institui&ccedil;&atilde;o CPMG. Fui obrigado, de improviso a expor para as demais unidades do CBP a situa&ccedil;&atilde;o que viv&iacute;amos. Esse depoimento em sua &iacute;ntegra consta dos <i>Cadernos de Psican&aacute;lise</i> do C&iacute;rculo de Pernambuco (ano I, n&uacute;mero especial, jun. 1984).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Reverso</i>: E o que se seguiu?</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Arlindo</i>: Sa&iacute;mos fortalecidos desse simp&oacute;sio e convocamos, uma assembleia geral em 48 horas. Seguiram-se v&aacute;rias outras at&eacute; que em junho j&aacute; t&iacute;nhamos o modelo da nova estrutura proposta. Terminava a hierarquia, e todas as grandes decis&otilde;es da sociedade deveriam ser tomadas em assembleia geral. Quase todos os didatas se demitiram, &agrave; exce&ccedil;&atilde;o do Prof. Malomar, que mais adiante tamb&eacute;m se demitiu. Ficou apenas Ant&ocirc;nio Ribeiro, que se manteve ligado ao CPMG conduzindo semin&aacute;rios e cursos at&eacute; seu falecimento.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Reverso</i>: E ent&atilde;o?</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Arlindo</i>: Partimos para novos contatos, no sentido de arejar a institui&ccedil;&atilde;o e fazer novos la&ccedil;os.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Reverso</i>: Quais contatos?</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Arlindo</i>: Nosso contato inicial foi com Marilena Chau&iacute;, que nos indicou Joel Birman e Renato Mezan. Fizemos tamb&eacute;m contatos no Rio de Janeiro com Wilson Chebabi e H&eacute;lio Pellegrino, que nos indicou Jurandir Freire Costa. Realizamos uma pequena jornada de fim de semana com esses tr&ecirc;s convidados. Come&ccedil;amos a fazer la&ccedil;os com o meio art&iacute;stico e participamos do debate de duas pe&ccedil;as teatrais: <i>No Natal a gente vem te buscar e Despertar da primavera</i>. Na &aacute;rea pol&iacute;tica, conseguimos que o CPMG fosse declarado de utilidade p&uacute;blica municipal. A partir da&iacute;, pleiteamos um terreno onde seria constru&iacute;da nossa sede pr&oacute;pria. Estava sendo aberta a Avenida dos Andradas e, apesar das tentativas, a pol&iacute;tica, ou politicagem, falou mais alto, e hoje no lugar em que seria nossa sede, ergue-se o <i>shopping</i> do Am&eacute;rica Futebol Clube.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Reverso</i>: E no n&iacute;vel internacional?</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Arlindo</i>: Fizemos duas viagens: a primeira &agrave; Europa, porque em Madri se realizava o Congresso da IFPS. Fiquei conhecendo a Dra. A. Turkel, naquela &eacute;poca presidente da IFPS. E a segunda aconteceu em Cuba, em Havana, por ocasi&atilde;o do I Congresso de Psican&aacute;lise e Marxismo. Viv&iacute;amos um problema: ao mesmo tempo que romp&ecirc;ramos com a estrutura da IPA, n&atilde;o nos interessava a proposta de Escola Lacaniana que chegava at&eacute; n&oacute;s, proposta pelo Sr. Jacques-Alain Miller, extremamente arrogante, com seus integrantes bem pr&oacute;ximos da estrutura de uma seita fundamentalista. Vanessa e eu nos encontramos em Cuba com Geraldino Alves Ferreira Neto, Oscar Cezarotto e M&aacute;rcio Peter de Souza Leite, que formavam a <i>Associa&ccedil;&atilde;o Livre</i>, um grupo lacaniano n&atilde;o ligado ao Sr. Miller. Feito o convite, Oscar Cezarotto ministrou semin&aacute;rios no CPMG por v&aacute;rios anos. Mediante o contato e o prest&iacute;gio de C&eacute;lio Garcia, estiveram entre n&oacute;s Marie Claire Boons, Alain Badiou, Pierre F&eacute;dida e Ren&eacute; Major. Por indica&ccedil;&atilde;o de nossa colega Frida Grimbaum, fizemos contatos e por alguns anos estivemos estudando com o Prof. Greg&oacute;rio Baremblit. Houve algumas comemora&ccedil;&otilde;es em homenagem a Michel Foucault, que esteve entre n&oacute;s e que havia falecido. Em resumo, procuramos p&ocirc;r em pr&aacute;tica nossa plataforma &agrave; exce&ccedil;&atilde;o de dois itens: a Cl&iacute;nica Social, que foi retomada posteriormente, e a sede pr&oacute;pria, que foi encaminhada e resolvida na gest&atilde;o seguinte, de Renato Dousi. Foi uma experi&ecirc;ncia muito penosa, muito pesada e muito dif&iacute;cil, mas ao mesmo tempo muito rica e de muito crescimento.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Reverso</i>: E as gest&otilde;es posteriores?</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Arlindo</i>: Foram todas extremamente importantes. Mas seria muito extenso aqui examinar o esfor&ccedil;o e o trabalho das gest&otilde;es que se seguiram. A biblioteca tem uma videoteca em que foram entrevistados todos os presidentes at&eacute; 2003, (40 anos de CPMG). &Eacute; um trabalho que merece ser continuado.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Reverso</i>: E atualmente como voc&ecirc; v&ecirc; o CPMG em sua estrutura e funcionamento?</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Arlindo</i>: O CPMG mant&eacute;m sua estrutura pr&oacute;pria. N&atilde;o segue o modelo inicial da IPA nem se transformou em uma escola lacaniana. Tem uma posi&ccedil;&atilde;o terceira, ao mesmo tempo em que se prop&otilde;e ser uma "metamorfose ambulante". Temos um modelo de forma&ccedil;&atilde;o psicanal&iacute;tica pr&oacute;pria em dois tempos, que vai se aperfei&ccedil;oando progressivamente. Temos uma programa&ccedil;&atilde;o regular de semin&aacute;rios, uma jornada anual sempre muito concorrida, publica&ccedil;&atilde;o da <i>Reverso</i>. Al&eacute;m disso, contamos muitas vezes com convidados de outras institui&ccedil;&otilde;es. A gest&atilde;o atual, muito atuante, mant&eacute;m e aperfei&ccedil;oa nossas atividades, agindo no sentido da moderniza&ccedil;&atilde;o, informatiza&ccedil;&atilde;o e divulga&ccedil;&atilde;o de nossa institui&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No mais, obrigado pelo espa&ccedil;o concedido e pela aten&ccedil;&atilde;o a mim dedicada.</font> &#966;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Belo Horizonte, 02 de mar&ccedil;o de 2020.</font></p>      ]]></body>

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