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<publisher-name><![CDATA[Departamento de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro]]></publisher-name>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Homoparentalidade: uma entre outras formas de ser família]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Universidade de São Marcos  ]]></institution>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[Nowadays the family imposes a great challenge to those who dedicate themselves to study it. Its transformations are getting more and more visible, both from the point of view of the relationships internal to the family and of the relations kept with the other social institutions. In this work, we try to examine the homo-parentally, believing that this modality of family presents the most significant changes in the conjugal and parental relations, since it denies the paradigm from which the family originates: the sexual differentiation. The will of a couple to have a son, the mourning for the biological impossibility to conceive it, the choice of a way, amongst several, to carry through this desire, the relation with a third person that makes possible the coming of the son, are some of the questions we will face here.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana" size="2"><b>SE&Ccedil;&Atilde;O TEM&Aacute;TICA    <br>   </b></font><font face="Verdana" size="2"><b>CONJUGALIDADE, PARENTALIDADE E G&Ecirc;NERO</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>      <p><font face="Verdana" size="4"><b>Homoparentalidade: uma entre outras formas    de ser fam&iacute;lia </b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font face="Verdana" size="3">Homoparentally: one among other ways of being    a family</B></font></p>      <p>&nbsp;</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><font face="Verdana" size="2"><b>Maria Consu&ecirc;lo Passos</b></font></p>      <p><font face="Verdana" size="2">Professora da PUC-SP e da Universidade de S&atilde;o    Marcos</font></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>      <p>&nbsp;</p>  <hr size="1"noshade>     <p><font face="Verdana" size="2"><b>RESUMO</b> </font></p>      <p><font face="Verdana" size="2">A fam&iacute;lia imp&otilde;e hoje, &agrave;queles    que se dedicam a estud&aacute;-la, um grande desafio. Suas transforma&ccedil;&otilde;es    s&atilde;o cada vez mais vis&iacute;veis, tanto do ponto de vista das rela&ccedil;&otilde;es    intragrupo como daquelas mantidas com outras institui&ccedil;&otilde;es sociais.    Neste trabalho, procuramos examinar a homoparentalidade, acreditando que essa    modalidade de fam&iacute;lia apresenta as mais significativas mudan&ccedil;as    nas rela&ccedil;&otilde;es conjugais e parentais, uma vez que nega o paradigma    do qual se origina a fam&iacute;lia: a diferencia&ccedil;&atilde;o sexual. O    desejo do casal de ter um filho, o luto pela impossibilidade biol&oacute;gica    de conceb&ecirc;-lo, a escolha de uma forma, dentre v&aacute;rias, para realizar    esse desejo, a rela&ccedil;&atilde;o com um terceiro sujeito que viabiliza a    vinda do filho s&atilde;o algumas das quest&otilde;es que enfrentaremos aqui.    </font></p>      <p><font face="Verdana" size="2"><b>Palavras-chave:</b> fam&iacute;lia, crian&ccedil;a,    casal, homoparentalidade </font></p>  <hr size="1"noshade>     <p><font face="Verdana" size="2"><b>ABSTRACT</b> </font></p>      <p><font face="Verdana" size="2">Nowadays the family imposes a great challenge    to those who dedicate themselves to study it. Its transformations are getting    more and more visible, both from the point of view of the relationships internal    to the family and of the relations kept with the other social institutions.    In this work, we try to examine the homo-parentally, believing that this modality    of family presents the most significant changes in the conjugal and parental    relations, since it denies the paradigm from which the family originates: the    sexual differentiation. The will of a couple to have a son, the mourning for    the biological impossibility to conceive it, the choice of a way, amongst several,    to carry through this desire, the relation with a third person that makes possible    the coming of the son, are some of the questions we will face here. </font></p>      <p><font face="Verdana" size="2"><b>Keywords:</b> family, children, couple, homoparentally</font></p> <hr size="1"noshade>     <p>&nbsp;</p>      <p>&nbsp;</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana" size="3"><b>REFLEX&Otilde;ES INICIAIS</b></font></p>      <p><font face="Verdana" size="2">As diferentes modalidades de fam&iacute;lia surgidas    nos &uacute;ltimos tempos expressam transforma&ccedil;&otilde;es muito significativas    na rela&ccedil;&atilde;o fam&iacute;lia-indiv&iacute;duo-sociedade. Algumas    dessas modalidades est&atilde;o fundadas em nuances muito singulares; no entanto,    nenhuma &eacute; t&atilde;o revolucion&aacute;ria quanto a fam&iacute;lia homoparental,    j&aacute; que esta destitui um princ&iacute;pio fundamental na constitui&ccedil;&atilde;o    do grupo familiar: a diferencia&ccedil;&atilde;o sexual. Embora a homossexualidade    tenha uma longa hist&oacute;ria em v&aacute;rios cen&aacute;rios culturais,    nos quais, muitas vezes, as pessoas tinham filhos, s&oacute; muito recentemente    a homoparentalidade vem se tornando mais vis&iacute;vel no contexto social brasileiro.    </font></p>      <p><font face="Verdana" size="2">Mesmo assim, ainda hoje s&oacute; podemos acess&aacute;-la    como objeto de pesquisa, por meio de informa&ccedil;&otilde;es de amigos ou    figuras que circulam na m&iacute;dia como &iacute;cones de uma pretensa vanguarda    social. Fora desses contextos, sobrevivem, ainda, a dissimula&ccedil;&atilde;o    e o medo de declarar, ou mesmo o "nada a declarar", o que atesta sua    clandestinidade. As institui&ccedil;&otilde;es, evidentemente, corroboram essa    situa&ccedil;&atilde;o. H&aacute; pouco ouvi o depoimento de uma mo&ccedil;a    que dizia: "Ainda bem que o juiz n&atilde;o descobriu minha orienta&ccedil;&atilde;o    sexual, pois, se o fizesse, certamente n&atilde;o teria autorizado a ado&ccedil;&atilde;o    do meu filho". Muitos subterf&uacute;gios criados pelos homossexuais para    assegurar e/ou legitimar o direito de ter filhos, ou de constituir fam&iacute;lia,    acabam por engendrar padr&otilde;es relacionais muito diferentes daqueles hegem&ocirc;nicos    na fam&iacute;lia dita tradicional, constitu&iacute;da pelos padr&otilde;es    patriarcais. Neste sentido, a pergunta que se imp&otilde;e &eacute;: estariam    estes padr&otilde;es a servi&ccedil;o de uma desordem nos la&ccedil;os que instituem    o grupo familiar, ou seriam eles constitutivos de uma nova ordem relacional    no interior deste grupo? Eis a quest&atilde;o que debateremos a seguir. </font></p>     <p>&nbsp;</p>      <p><font face="Verdana" size="3"><b>POR UMA NOVA &Eacute;TICA RELACIONAL</b></font></p>      <p><font face="Verdana" size="2">A multiplicidade de formas revelada pela fam&iacute;lia    hoje exige uma boa dose de flexibilidade de quem sobre ela se debru&ccedil;a    de modo a assegurar que posi&ccedil;&otilde;es pr&eacute;-concebidas ou preconceituosas    n&atilde;o prejudiquem a compreens&atilde;o dos distintos la&ccedil;os que estruturam    as fam&iacute;lias. De um modo geral, buscamos um entendimento das diferentes    modalidades de fam&iacute;lia a partir das premissas hist&oacute;ricas do patriarcado.    A homoparentalidade n&atilde;o foge a esta regra e, nesse sentido, se torna    dif&iacute;cil, e &agrave;s vezes perigoso, o debate que se estabelece em rela&ccedil;&atilde;o    a suas especificidades e seu potencial de subjetiva&ccedil;&atilde;o, uma vez    que &eacute; muito comum sua condena&ccedil;&atilde;o <i>a priori</i>, por n&atilde;o    oferecer um quadro referencial compat&iacute;vel com aquele institu&iacute;do    pelo <i>status quo</i> patriarcal. Penso que a&iacute; est&aacute; um grande    equ&iacute;voco, j&aacute; que, nesse caso, &eacute; imposs&iacute;vel um ajuste    entre modelos; afinal, as rela&ccedil;&otilde;es homoparentais exigem uma configura&ccedil;&atilde;o    de fun&ccedil;&otilde;es e lugares distinta da parentalidade heterossexual.    </font></p>      <p><font face="Verdana" size="2">Embora n&atilde;o possamos falar em uma total    fal&ecirc;ncia do sistema patriarcal, &eacute; preciso reconhecer que suas leis    e no&ccedil;&otilde;es internas n&atilde;o d&atilde;o mais conta das demandas    relacionais criadas nas sociedades liberais e democr&aacute;ticas, onde os cidad&atilde;os    criam e recriam mais livremente suas experi&ecirc;ncias afetivas. Al&eacute;m    disso, contam com recursos t&eacute;cnicos da medicina reprodutiva para escolher    como desejam conceber seus filhos. Neste sentido, o decl&iacute;nio do patriarcado    tem se mostrado evidente em muitos contextos relacionais, dos quais a fam&iacute;lia    &eacute; o mais vis&iacute;vel, mas ele permanece ainda com certa for&ccedil;a    no imagin&aacute;rio social de sociedades ainda fr&aacute;geis do ponto de vista    do favorecimento da express&atilde;o livre de seus cidad&atilde;os. Isto se    verifica n&atilde;o s&oacute; nas manifesta&ccedil;&otilde;es afetivas, mas    na forma como &eacute; conduzida, com freq&uuml;&ecirc;ncia, a pol&iacute;tica    das rela&ccedil;&otilde;es entre g&ecirc;neros. Vivemos, assim, muitas contradi&ccedil;&otilde;es:    na pr&aacute;tica acompanhamos a diversifica&ccedil;&atilde;o dos modelos familiares,    mas em tese continuamos, em grande medida, a consider&aacute;-los a partir de    concep&ccedil;&otilde;es que se tornam cada vez mais obsoletas. </font></p>      <p><font face="Verdana" size="2">Ao refletir sobre tais ambig&uuml;idades, Parseval    defende a id&eacute;ia de que existe uma &eacute;tica geral da procria&ccedil;&atilde;o.    Ela afirma que: </font></p>      <blockquote>       <p><font face="Verdana" size="2">A &eacute;tica que rege as fam&iacute;lias      homoparentais, como a da ado&ccedil;&atilde;o ou a que deveria reger as procria&ccedil;&otilde;es      medicamente assistidas, s&oacute; pode ser compreendida em um quadro de uma      &eacute;tica mais global, fundada sobre a justi&ccedil;a inerente &agrave;s      transforma&ccedil;&otilde;es humanas. O equil&iacute;brio relacional entre      os diferentes protagonistas destas hist&oacute;rias tem este pre&ccedil;o.      &Eacute; neste sentido que o "fio vermelho" da &eacute;tica relacional      me parece a mais heur&iacute;stica a considerar, centrada sobre a responsabilidade      em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s gera&ccedil;&otilde;es futuras (Parseval,      1998: 09). </font></p> </blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana" size="2">A partir desta posi&ccedil;&atilde;o, inferimos    tr&ecirc;s aspectos que julgamos fundamentais para a compreens&atilde;o das    novas configura&ccedil;&otilde;es familiares: sua considera&ccedil;&atilde;o    dentro de um contexto mais amplo das rela&ccedil;&otilde;es sociopol&iacute;ticas    de uma dada realidade; a observa&ccedil;&atilde;o de uma &eacute;tica relacional    que d&ecirc; conta das transforma&ccedil;&otilde;es que ocorrem nos pequenos    grupos regidos pelas redes de afeto; e, por fim, o entendimento de que uma &eacute;tica    relacional que assegure as especificidades de cada contexto possa evitar, em    futuras gera&ccedil;&otilde;es, o mart&iacute;rio advindo de posi&ccedil;&otilde;es    preconceituosas que excluem os sujeitos por n&atilde;o pertencerem aos padr&otilde;es    estabelecidos e n&atilde;o se regularem pelos valores hegem&ocirc;nicos. </font></p>      <p><font face="Verdana" size="2">Estamos, com isso, propondo que as novas formas    de ser fam&iacute;lia hoje sejam consideradas a partir de uma &eacute;tica que    leve em conta as demandas afetivas dos sujeitos nelas envolvidos. Esta &eacute;tica    deve estar assentada, portanto, nas diferentes formas de conjugalidade, parentalidade    e filia&ccedil;&atilde;o que configuram um contexto familiar baseado nos la&ccedil;os    de afeto. Seus princ&iacute;pios adviriam n&atilde;o mais das leis gerais que    fundamentam a ordem familiar patriarcal, mas das novas redes que sustentam as    rela&ccedil;&otilde;es de afeto nas novas fam&iacute;lias. Isto significa dizer    que ela est&aacute; sendo reconstru&iacute;da permanentemente a partir das express&otilde;es    relacionais que se diferenciam, repercutindo no contexto da sociedade mais ampla,    ao mesmo tempo que s&atilde;o marcadas pelas tramas sociais. </font></p>      <p><font face="Verdana" size="2">Vejamos a seguir algumas especificidades da fam&iacute;lia    homoparental. </font></p>     <p>&nbsp;</p>      <p><font face="Verdana" size="3"><b>A CONSTITUI&Ccedil;&Atilde;O DOS LA&Ccedil;OS    HOMOPARENTAIS </b></font></p>      <p><font face="Verdana" size="2">Os casais homossexuais que desejam ter filhos    enfrentam o desafio de encontrar uma forma menos dolorosa para a realiza&ccedil;&atilde;o    dos seus desejos. Isto porque a impossibilidade de gerar filhos exige um trabalho    ps&iacute;quico que envolve, em princ&iacute;pio, duas quest&otilde;es centrais.    A primeira se refere &agrave;s contradi&ccedil;&otilde;es vividas por cada membro    do casal que, se, por um lado, deseja ter filhos, por outro se sente impedido    de ger&aacute;-los. A decis&atilde;o parece impor um trabalho de dif&iacute;cil    elabora&ccedil;&atilde;o, uma vez que se trata de abrir m&atilde;o de um princ&iacute;pio    narc&iacute;sico de continuidade biol&oacute;gica e aceitar a submiss&atilde;o    a agentes externos no que diz respeito &agrave; concep&ccedil;&atilde;o do filho.    A segunda diz respeito ao esfor&ccedil;o empreendido pelo casal no sentido de    encontrar a forma menos amea&ccedil;adora de conceber esse filho. Digo amea&ccedil;adora    porque, seja qual for a modalidade escolhida, haver&aacute; sempre uma incompletude    e uma impossibilidade de gerar, marcadas no desejo projetado no filho. </font></p>      <p><font face="Verdana" size="2">De acordo com Parseval, esse tem sido um grande    dilema na assun&ccedil;&atilde;o da maternidade/paternidade pelos homossexuais;    para ela: </font></p>      <blockquote>       <p><font face="Verdana" size="2">O trabalho do luto da fertilidade est&aacute;      no centro das quest&otilde;es de esterilidade. N&atilde;o poder transmitir      a vida &eacute; uma ferida existencial muito pesada; ferida que necessita      de um longo tempo e um longo trabalho de luto, etapa essencial em todas as      hist&oacute;rias de esterilidade do casal (os casais homossexuais em primeiro      lugar). Sabe-se que os lutos n&atilde;o feitos podem dificultar, travar o      processo de tornar-se pai/m&atilde;e. Vemos em diferentes tratamentos como      os impasses administrativos, longe de ajudar os casais a fazerem o luto de      sua fertilidade, ampliam, ao contr&aacute;rio, suas dificuldades (Parseval,      1998: 17). </font></p> </blockquote>     <p><font face="Verdana" size="2">Sabe-se que hoje os homossexuais t&ecirc;m diferentes    possibilidades de ter seus filhos. Todas, entretanto, exigem do casal um esfor&ccedil;o    e um trabalho elaborativo para definir e assumir as conting&ecirc;ncias da gesta&ccedil;&atilde;o    e do parto, &agrave;s vezes de dif&iacute;cil assimila&ccedil;&atilde;o. Podemos    pensar, nas seguintes composi&ccedil;&otilde;es familiares: </font></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana" size="2">1. A recomposi&ccedil;&atilde;o, na qual um membro    do casal traz para sua rela&ccedil;&atilde;o homossexual o(s) filho(s) de um    casamento heterossexual anterior. </font></p>      <p><font face="Verdana" size="2">2. A co-parentalidade, em que um dos membros    do casal homossexual gera um filho com um homem ou uma mulher, n&atilde;o necessariamente    homossexual, e este filho passa a fazer parte do n&uacute;cleo parental de um    dos pais biol&oacute;gicos. </font></p>      <p><font face="Verdana" size="2">3. Uma terceira forma &eacute; a ado&ccedil;&atilde;o,    legalizada ou n&atilde;o, feita pelo casal. </font></p>      <p><font face="Verdana" size="2">4. H&aacute; ainda a possibilidade da insemina&ccedil;&atilde;o    artificial realizada com o s&ecirc;men de um doador, no caso de um casal de    mulheres, ou de uma m&atilde;e substituta, que gera um filho com o s&ecirc;men    de um dos parceiros do casal homossexual masculino. </font></p>      <p><font face="Verdana" size="2">Em todas elas h&aacute; um terceiro, mediando    o desejo de conceber um filho. Em &uacute;ltima an&aacute;lise, o casal depende    de um outro para realizar seu projeto. Esse outro que permanecer&aacute; no    imagin&aacute;rio da fam&iacute;lia, com o qual os pais precisam conviver, se    interp&otilde;e na forma&ccedil;&atilde;o dos la&ccedil;os afetivos com os filhos    de modos diferentes, dependendo de como ele &eacute; assimilado/elaborado por    esses pais. Algumas vezes, o outro imagin&aacute;rio toma a forma de uma figura    que se superp&otilde;e aos pais. Outras vezes, aparece como sombra enigm&aacute;tica    que acompanha e perturba o reconhecimento dos filhos, podendo ainda ser assimilado    como elemento sem o qual a filia&ccedil;&atilde;o n&atilde;o existiria. </font></p>      <p><font face="Verdana" size="2">Assumir essa falta, por meio de um trabalho de    luto, &eacute; fundamental, pois permite ao casal instaurar a parentalidade    em bases mais s&oacute;lidas, j&aacute; que exigiu um trabalho de elabora&ccedil;&atilde;o    das suas impossibilidades de gerar filhos juntos. Todas essas negocia&ccedil;&otilde;es    t&ecirc;m uma profunda repercuss&atilde;o quando se trata de pensar os la&ccedil;os    constitutivos das fam&iacute;lias homoparentais, sobretudo no momento de sua    instaura&ccedil;&atilde;o. </font></p>      <p><font face="Verdana" size="2">Quando se trata do processo de filia&ccedil;&atilde;o,    em qualquer tipo de fam&iacute;lia, &eacute; preciso ressaltar, em um primeiro    plano, as fun&ccedil;&otilde;es que o casal e cada um dos membros, individualmente,    exercer&aacute; junto &agrave; crian&ccedil;a, inscrevendo-a e a eles pr&oacute;prios    em uma cadeia simb&oacute;lica. Os prim&oacute;rdios dessa fun&ccedil;&atilde;o    surgem quando o filho &eacute; apenas um desejo e prossegue quando a crian&ccedil;a    nasce. H&aacute; um processamento ps&iacute;quico dos la&ccedil;os produzidos    a partir de investimentos constitu&iacute;dos pelas representa&ccedil;&otilde;es    e afetos que circulam reciprocamente entre os membros da inter-rela&ccedil;&atilde;o.    </font></p>      <p><font face="Verdana" size="2">Embora tratada aqui de forma supersimplificada,    essa conceitua&ccedil;&atilde;o serve de par&acirc;metro para pensar os fundamentos    mais universais das fun&ccedil;&otilde;es familiares, que dizem respeito &agrave;    recep&ccedil;&atilde;o, ao acolhimento, ao reconhecimento e &agrave; inser&ccedil;&atilde;o    da crian&ccedil;a em uma cadeia de transmiss&atilde;o ps&iacute;quica. Essas    fun&ccedil;&otilde;es, engendradas no contexto das novas concep&ccedil;&otilde;es    de fam&iacute;lia, possibilitam um espa&ccedil;o no qual se torna plaus&iacute;vel    a n&atilde;o-diferencia&ccedil;&atilde;o sexual no tri&acirc;ngulo familiar.    </font></p>      <p><font face="Verdana" size="2">As refer&ecirc;ncias para pensar essa triangula&ccedil;&atilde;o    n&atilde;o podem ser jamais aquelas fundadas na hegemonia do poder paterno,    nem tampouco no princ&iacute;pio de g&ecirc;nero e de diferencia&ccedil;&atilde;o    sexual. Tratando dessa nova fam&iacute;lia, Roudinesco afirma: </font></p>      <blockquote>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana" size="2">De agora em diante esta n&atilde;o ser&aacute;      mais vista apenas como uma estrutura do parentesco que restaura a autoridade      derrotada do pai, ou sintetizando a passagem da natureza &agrave; cultura      atrav&eacute;s dos interditos e das fun&ccedil;&otilde;es simb&oacute;licas,      mas como um lugar de poder descentralizado e de m&uacute;ltiplas apar&ecirc;ncias.      Em lugar da defini&ccedil;&atilde;o de uma ess&ecirc;ncia espiritual, biol&oacute;gica      ou antropol&oacute;gica da fam&iacute;lia, fundada no g&ecirc;nero e no sexo      ou nas leis do parentesco, e em lugar daquela, existencial, induzida pelo      mito edipiano, foi institu&iacute;da outra, horizontal e m&uacute;ltipla,      inventada pelo individualismo moderno e logo dissecada pelo discurso dos especialistas.      Essa fam&iacute;lia se assemelha a uma tribo ins&oacute;lita, a uma rede assexuada,      fraterna, sem hierarquia nem autoridade, na qual cada um se sente aut&ocirc;nomo      ou funcionalizado (Roudinesco, 2003: 155). </font></p> </blockquote>     <p><font face="Verdana" size="2">Esta posi&ccedil;&atilde;o da autora segue a    mesma dire&ccedil;&atilde;o das id&eacute;ias que procuramos sugerir ao longo    destas reflex&otilde;es, ou seja, a perspectiva de que n&atilde;o podemos nostalgicamente    nos reportamos ao modelo cl&aacute;ssico de fam&iacute;lia, usando-o como &uacute;nica    refer&ecirc;ncia dos modelos atuais, sem corrermos o risco de caricaturarmos    as experi&ecirc;ncias afetivas que s&atilde;o criadas nos novos contextos. Neste    sentido, a fam&iacute;lia de hoje imp&otilde;e, no lugar da hegemonia dos pap&eacute;is    e dos lugares fixos, uma maior flexibilidade na constitui&ccedil;&atilde;o de    posi&ccedil;&otilde;es e fun&ccedil;&otilde;es dos membros do grupo. Assim,    ganha muito mais for&ccedil;a a forma como os pais do mesmo sexo, cada um a    sua maneira, representa este filho como um outro que atualiza seu desejo de    transmiss&atilde;o e continuidade, investindo-o, portanto, de um afeto fortemente    narc&iacute;sico. </font></p>      <p><font face="Verdana" size="2">Nesse caso, pouco importa se a triangula&ccedil;&atilde;o    &eacute; constitu&iacute;da por dois homens e um filho ou por duas mulheres    e uma filha, a circula&ccedil;&atilde;o dos afetos se faz numa circunst&acirc;ncia    em que a identifica&ccedil;&atilde;o entre os pais e os filhos n&atilde;o exige    mais os contornos de antes. Em outras palavras, o jogo especular da triangula&ccedil;&atilde;o    edipiana, no qual a identifica&ccedil;&atilde;o com o igual exigia a presen&ccedil;a    do diferente, perde a sua for&ccedil;a. Parece ganhar mais relev&acirc;ncia    no jogo entre iguais o processamento ps&iacute;quico dos desejos dos pais, associado    ao reordenamento que a crian&ccedil;a faz do material percebido. Nesse caso,    o filho adquire cada vez mais um estatuto de ordenador de sua heran&ccedil;a,    heran&ccedil;a esta engendrada em um ambiente que o reconhece como autor de    sua pr&oacute;pria hist&oacute;ria. </font></p>      <p><font face="Verdana" size="2">Em um contexto onde as refer&ecirc;ncias da fam&iacute;lia    patriarcal caem em desuso, releva-se o princ&iacute;pio do reconhecimento, n&atilde;o    como compensa&ccedil;&atilde;o pelo enfraquecimento das identifica&ccedil;&otilde;es    no modelo edipiano cl&aacute;ssico, mas como princ&iacute;pio fundamental do    processo de filia&ccedil;&atilde;o. Para Ka&euml;s, a filia&ccedil;&atilde;o    &eacute; o reconhecimento que os pais fazem, ao mesmo tempo, do lugar que a    crian&ccedil;a ocupa em suas continuidades narc&iacute;sicas, da preced&ecirc;ncia    dos seus desejos na cria&ccedil;&atilde;o do filho e de sua aloca&ccedil;&atilde;o    na ordem das gera&ccedil;&otilde;es. Segundo o autor: </font></p>      <blockquote>       <p><font face="Verdana" size="2">Este reconhecimento &eacute; tamb&eacute;m      uma preced&ecirc;ncia necess&aacute;ria &agrave; inscri&ccedil;&atilde;o do      estatuto civil da crian&ccedil;a, sobre o registro ou sobre a &aacute;rvore      dos ancestrais: signos de re-conhecimento pr&eacute;vio para o seu surgimento      como sujeito do desejo, sujeito da palavra e sujeito do grupo. &Eacute; neste      triplo assujeitamento que cada um e cada uma &eacute; declarado(a), conhecido(a)      e reconhecido(a) filho ou filha de (Ka&euml;s, 2000: 64). </font></p> </blockquote>     <p><font face="Verdana" size="2">Evidentemente, estas condi&ccedil;&otilde;es    existem em qualquer rela&ccedil;&atilde;o parental, mas, quando se trata de    um grupo familiar formado por pais do mesmo sexo, &eacute; preciso considerar    uma negocia&ccedil;&atilde;o em torno da funcionalidade do grupo como tal, das    suas posi&ccedil;&otilde;es internas, o que parece supor, como foi dito anteriormente,    que nesta funcionalidade ganhe sentido o fantasma do outro, respons&aacute;vel    pela concep&ccedil;&atilde;o biol&oacute;gica do filho. Nessa equa&ccedil;&atilde;o,    &eacute; preciso ressaltar que este outro passa a ter uma fun&ccedil;&atilde;o    simb&oacute;lica que n&atilde;o poder&aacute; mais ficar ausente do processo    de subjetiva&ccedil;&atilde;o da crian&ccedil;a. </font></p>      <p><font face="Verdana" size="2">O papel desse outro deixa de ser apenas instrumental    para ocupar um estatuto simb&oacute;lico, uma vez que ele faz parte da rede    de desejos dos pais como elemento que medeia e viabiliza a concep&ccedil;&atilde;o    da crian&ccedil;a e lhes permite experienciar a castra&ccedil;&atilde;o. A atribui&ccedil;&atilde;o    de sentidos a este agente permitir&aacute; aos pais constru&iacute;rem seus    lugares e fun&ccedil;&otilde;es perante o filho sem que haja amea&ccedil;as    ou persecutoriedades. S&oacute; assim ser&aacute; poss&iacute;vel pensar a diferencia&ccedil;&atilde;o    e os limites entre a reprodu&ccedil;&atilde;o biol&oacute;gica e a reprodu&ccedil;&atilde;o    social da humanidade, o que parece corroborar uma nova ordem simb&oacute;lica    na fam&iacute;lia. </font></p>      <p><font face="Verdana" size="2">Ainda assim, cabe questionar: quais as posi&ccedil;&otilde;es    que estariam sustentando a composi&ccedil;&atilde;o interna desta nova ordem    familiar? Ao menos no que concerne &agrave; homoparentalidade, alguns matizes    s&atilde;o fundamentais: </font></p>      <p><font face="Verdana" size="2">1. Aus&ecirc;ncia de pap&eacute;is fixos entre    os membros. Isso significa que a estrutura do grupo familiar deve suportar trocas    e deslocamentos de pap&eacute;is e lugares. </font></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana" size="2">2. Preval&ecirc;ncia de uma horizontalidade nas    rela&ccedil;&otilde;es internas, marcada pela inexist&ecirc;ncia de hierarquias    e por uma circula&ccedil;&atilde;o permanente das lideran&ccedil;as no grupo.    </font></p>      <p><font face="Verdana" size="2">3. M&uacute;ltiplas formas de composi&ccedil;&atilde;o    familiar e, conseq&uuml;entemente, de forma&ccedil;&atilde;o dos la&ccedil;os    afetivos e sociais, o que possibilita distintas refer&ecirc;ncias de autoridade,    tanto dentro do grupo como no mundo externo. </font></p>      <p><font face="Verdana" size="2">4. Tend&ecirc;ncia a uma constitui&ccedil;&atilde;o    de sujeitos que se filiam n&atilde;o s&oacute; &agrave; fam&iacute;lia, mas    tamb&eacute;m a grupos onde preponderam os la&ccedil;os de amizade. </font></p>      <p><font face="Verdana" size="2">Estas caracter&iacute;sticas, que reformulam    a funcionalidade do grupo, n&atilde;o implicam, necessariamente, uma minimiza&ccedil;&atilde;o    das refer&ecirc;ncias de autoridade no processo de desenvolvimento da crian&ccedil;a.    Elas ser&atilde;o sempre e inevitavelmente necess&aacute;rias. Trata-se, isso    sim, de considerar que os deslocamentos processados nas rela&ccedil;&otilde;es    internas da fam&iacute;lia imp&otilde;em, al&eacute;m de uma nova concep&ccedil;&atilde;o    de autoridade, o reconhecimento de que ela tem sido exercida "silenciosamente"    por outras figuras pr&oacute;ximas &agrave; crian&ccedil;a. &Eacute; o caso,    por exemplo, da autoridade exercida pelos irm&atilde;os. Sobre esta quest&atilde;o,    Costa (2000) afirma que a autoridade da fun&ccedil;&atilde;o paterna s&oacute;    tinha um poder hegem&ocirc;nico porque o pai vis&iacute;vel sustentava uma realidade,    simb&oacute;lica, real e imagin&aacute;ria, insuspeit&aacute;vel. Para o autor,    aquele pai n&atilde;o mais existe e em seu lugar ganham for&ccedil;a outros    pares, como os irm&atilde;os. Ali&aacute;s, os irm&atilde;os sempre tiveram    a fun&ccedil;&atilde;o de sustentar a for&ccedil;a do pai, &agrave; custa de    algumas ren&uacute;ncias - n&atilde;o foi isso que Freud nos ensinou? Pois bem,    ao deslocamento do pai sucede o deslocamento de outros pares, sobretudo dos    irm&atilde;os, que, ali&aacute;s, t&ecirc;m lugar destacado na estrutura&ccedil;&atilde;o    ps&iacute;quica da fam&iacute;lia. Mas este &eacute; outro debate. </font></p>     <p>&nbsp;</p>      <p><font face="Verdana" size="3"><b>IMPASSES NA CONSOLIDA&Ccedil;&Atilde;O DE    UMA NOVA ORDEM FAMILIAR </b></font></p>      <p><font face="Verdana" size="2">Ressaltei anteriormente a impossibilidade de    seguirmos adotando as mesmas refer&ecirc;ncias das fam&iacute;lias patriarcais    nas distintas configura&ccedil;&otilde;es que surgem na sociedade atual. Gostaria    de evidenciar agora alguns significados da manuten&ccedil;&atilde;o de uma ordem    obsoleta na forma&ccedil;&atilde;o dos novos grupos familiares e, em certa medida,    no processo de subjetiva&ccedil;&atilde;o dos filhos. &Eacute; preciso assinalar,    no entanto, que, mesmo em decl&iacute;nio, algumas leis do sistema patriarcal    brasileiro ainda t&ecirc;m grande repercuss&atilde;o em nossa sociedade, em    particular nos pequenos grupos sociais. A id&eacute;ia do homem provedor e da    mulher respons&aacute;vel pela educa&ccedil;&atilde;o dos filhos, por exemplo,    ainda se mant&eacute;m em grande medida no Brasil. </font></p>      <p><font face="Verdana" size="2">Embora nossas pesquisas ainda n&atilde;o nos    permitam trazer dados consistentes sobre os filhos das fam&iacute;lias homoparentais,    algumas reflex&otilde;es nos permitem, ao menos, acenar com certas perspectivas    que repercutem na din&acirc;mica destas fam&iacute;lias e, conseq&uuml;entemente,    na constitui&ccedil;&atilde;o ps&iacute;quica de seus filhos. </font></p>      <p><font face="Verdana" size="2">Disse acima que o reconhecimento do filho decorre,    entre outros aspectos, da forma como ele foi imaginariamente concebido pelos    pais. Pois bem, e se ele foi concebido sob o manto da vergonha, de um desejo    que se quer calar? N&atilde;o seria essa uma marca que o estrutura? Uma esp&eacute;cie    de falta que antecipa a pr&oacute;pria castra&ccedil;&atilde;o como fundamento    da psique? Por outro lado, como podemos pensar a chegada de uma crian&ccedil;a    envolta no sil&ecirc;ncio ou na mentira como acontece muito freq&uuml;entemente?    Enfim, todas estas quest&otilde;es precisam ser enfrentadas, n&atilde;o para    criar hostilidades ou patologizar as fam&iacute;lias homoparentais, mas para    ressaltar poss&iacute;veis intercorr&ecirc;ncias geradas pelas sociedades que,    ainda hoje, estigmatizam e negam o que jamais poder&aacute; ser negado: a possibilidade    que deve ter cada sujeito de criar e recriar livremente sua vida. </font></p>      <p><font face="Verdana" size="2">Muitas vezes, as estrat&eacute;gias utilizadas    pelos homossexuais para assegurarem o direito de constituir fam&iacute;lia e    ter filhos possibilitam a manuten&ccedil;&atilde;o de padr&otilde;es relacionais    que, em vez de transgredir o que para eles &eacute; inaceit&aacute;vel - como    preconceitos velados e at&eacute; escancarados -, reproduzem o que h&aacute;    de mais conservador nessas fam&iacute;lias. &Eacute; muito freq&uuml;ente pais    ou m&atilde;es homossexuais silenciarem em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; exist&ecirc;ncia    do(a) parceiro(a), pois como pais celibat&aacute;rios s&atilde;o muito mais    aceitos socialmente. Tais estrat&eacute;gias revelam que a aus&ecirc;ncia de    uma legitimidade jur&iacute;dica e social dificulta a constitui&ccedil;&atilde;o    dos la&ccedil;os homoparentais e, por vezes, gera artif&iacute;cios dissonantes    com a forma&ccedil;&atilde;o das refer&ecirc;ncias demandadas pela crian&ccedil;a,    as que s&atilde;o estruturantes dos la&ccedil;os afetivos em qualquer tipo de    fam&iacute;lia: cuidar, acolher, conter, reconhecer e inserir a crian&ccedil;a    em uma cadeia de transmiss&atilde;o geracional. A crian&ccedil;a tamb&eacute;m    precisa ser reconhecida por ela mesma e n&atilde;o como possibilidade de mitigar    as faltas e frustra&ccedil;&otilde;es dos seus pais. Ela precisa, sobretudo,    ter acesso, em quaisquer circunst&acirc;ncias, &agrave; hist&oacute;ria verdadeira    de sua origem. </font></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana" size="2">A clandestinidade na qual se mant&eacute;m boa    parte das fam&iacute;lias homoparentais sem d&uacute;vida gera sofrimento para    seus membros e, nesse caso, as crian&ccedil;as s&atilde;o as maiores v&iacute;timas.    De um modo geral, se atribui &agrave; n&atilde;o-diferencia&ccedil;&atilde;o    sexual os males dos quais as crian&ccedil;as ser&atilde;o v&iacute;timas, embora    at&eacute; hoje n&atilde;o haja estudos que atestem essa enuncia&ccedil;&atilde;o.    No caso das novas formas de fam&iacute;lia, em particular na fam&iacute;lia    homoparental, parece ter sido criado um ciclo vicioso onde fen&ocirc;menos novos    devem caber em teorias cujas refer&ecirc;ncias emp&iacute;ricas est&atilde;o    em extin&ccedil;&atilde;o. </font></p>      <p> <font face="Verdana" size="2">&Eacute; nesse sentido que proponho, na abordagem    da homoparentalidade, uma concep&ccedil;&atilde;o que procure discernir, em    um primeiro plano, quais as demandas da crian&ccedil;a em rela&ccedil;&atilde;o    &agrave; fam&iacute;lia. Dito de outro modo, &eacute; preciso verificar quais    as premissas relacionais dentro do espa&ccedil;o familiar que s&atilde;o fundamentais    para a estrutura&ccedil;&atilde;o ps&iacute;quica da crian&ccedil;a. Assim,    ser&aacute; poss&iacute;vel compreendermos se as condi&ccedil;&otilde;es inerentes    &agrave; estrutura&ccedil;&atilde;o do psiquismo infantil, ditas acima, est&atilde;o    ou n&atilde;o presentes na parentalidade homoafetiva. Nesse caso, mudamos de    paradigma e evitamos o uso abusivo de predetermina&ccedil;&otilde;es e preconceitos.    </font></p>      <p><font face="Verdana" size="2">Tudo isso nos leva a pensar que h&aacute; uma    indecifr&aacute;vel plasticidade no psiquismo humano, o que nos imp&otilde;e    uma maior prud&ecirc;ncia quando se trata de afirma&ccedil;&otilde;es categ&oacute;ricas    ou previs&otilde;es quanto ao que ser&aacute; prejudicial ou favor&aacute;vel    &agrave; sua constitui&ccedil;&atilde;o. Aqui h&aacute; apenas uma certeza,    a de que &eacute; imprescind&iacute;vel olharmos para essas fam&iacute;lias    com flexibilidade e bom senso, procurando instaurar uma &eacute;tica relacional    que possibilite a express&atilde;o dos sujeitos em suas singularidades s&oacute;cio-afetivas.    </font></p>      <p><font face="Verdana" size="2">Para finalizar, gostaria de dizer que as condi&ccedil;&otilde;es    por meio das quais os homossexuais constroem seus la&ccedil;os afetivos, no    Brasil, est&atilde;o longe de obter uma legitimidade social e jur&iacute;dica    e, enquanto esse quadro n&atilde;o se reverte, teremos fam&iacute;lias, pais    e filhos envergonhados. Resta explorarmos os sentimentos desta vergonha nas    produ&ccedil;&otilde;es de subjetividade que decorrem da&iacute;. Cabe-nos tamb&eacute;m    o enfrentamento rigoroso das teorias, que s&atilde;o insuficientes para dar    conta das profundas transforma&ccedil;&otilde;es processadas nas fam&iacute;lias,    sobretudo em seus enredamentos afetivos. </font></p>     <p>&nbsp;</p>      <p><font face="Verdana" size="3"><b>REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></font></p>      <!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2">Cadoret, A. (2002). <i>Des parents comme les    autres - Homosexualit&eacute; et parent&eacute;</i>. Paris: Odile Jacob. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1575856&pid=S0103-5665200500020000300001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2">Costa, J. F. (2000). Playdoier pelos irm&atilde;os.    Em Kehl, M. R. (Org.). <i>Fun&ccedil;&atilde;o fraterna</i> (pp. 7-30). Rio    de Janeiro: Relume Dumar&aacute;. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1575857&pid=S0103-5665200500020000300002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2">Dubreuil, &Eacute;. (1998). <i>Des parents de    m&ecirc;me sexe</i>. Paris: Odile Jacob. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1575858&pid=S0103-5665200500020000300003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2">Gross, M. (Org.), (2000). <i>Homoparentalit&eacute;s,    &eacute;tat des lieux - Parents et diff&eacute;rence des sexes</i>. Issy-les-Moulineaux:    ESF. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1575859&pid=S0103-5665200500020000300004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2">Ka&euml;s, R. (2000). Filiation et affiliation.    Em <i>Le divan familial</i> (pp. 45-56). Paris: In Press. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1575860&pid=S0103-5665200500020000300005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2">Nadaud, S. (2002). <i>Homoparentalit&eacute;.    Une nouvelle chance pour la famille?.</i> Paris: Arth&egrave;me Fayard. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1575861&pid=S0103-5665200500020000300006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2">Parseval, G. (1998). Pr&eacute;face. Em Dubreuil,    &Eacute;. <i>Des parents de m&ecirc;me sexe</i> (pp. 9-17). Paris: Odile Jacob.    </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1575862&pid=S0103-5665200500020000300007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2">Passos, M. C. (2005). Nem tudo que muda, muda    tudo: um estudo sobre as fun&ccedil;&otilde;es da fam&iacute;lia. Em: F&eacute;res-Carneiro,    T. (Org.). <i>Fam&iacute;lia e casal - efeitos da contemporaneidade</i> (pp.    11-23). Rio de Janeiro: PUC-Rio. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1575863&pid=S0103-5665200500020000300008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana" size="2">Roudinesco, E. (2003). <i>A fam&iacute;lia em    desordem</i>. Rio de Janeiro: Zahar. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1575864&pid=S0103-5665200500020000300009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>&nbsp;</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><font face="Verdana" size="2">Recebido em 21 de junho de 2005    <br>   Aceito para publica&ccedil;&atilde;o em 3 de outubro de 2005 </font></p>       ]]></body>
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