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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>FORMA&Ccedil;&Atilde;O: ENTRE O P&Uacute;BLICO E O PRIVADO</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>De ocupa&ccedil;&otilde;es e err&acirc;ncias</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Marcio de F. Giovannetti</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Membro efetivo da Sociedade Brasileira de S&atilde;o Paulo SBPSP</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Avec ma gueule de m&eacute;t&egrave;que    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   De juif errant, de p&acirc;tre grec,    <br>   Et mes cheveux aux quatre vents<a name="1a"></a><a href="#1b"><sup>1</sup></a>    <br>   (Georges Moustaki,<i> Le m&eacute;t&egrave;que</i>)</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O corpo editorial deste <i>Jornal</i> convocou-me a uma tarefa: escrever um texto-coment&aacute;rio sobre os artigos que comp&otilde;em a se&ccedil;&atilde;o Tema deste <i>Jornal</i>.<a name="2a"></a><a href="#2b"><sup>2</sup></a> "Tornar o <i>Jornal</i> mais aberto a quest&otilde;es e debates, saindo do isolamento do texto definitivo", assim instigou-me Marina Massi, apesar do parco tempo que deu para cumprir a tarefa: quinze dias. Dei uma r&aacute;pida e diagonal lida nos artigos e fiquei totalmente seduzido pela ideia. Compromisso feito, comecei a l&ecirc;-los com a aten&ccedil;&atilde;o devida e o prazo me aterrorizou: o campo abarcado por eles &eacute; t&atilde;o vasto e complexo, suscitando tanta reflex&atilde;o que pe&ccedil;o, antes de tudo, desculpas aos seus autores e tamb&eacute;m aos leitores por saber que n&atilde;o consegui fazer jus a nenhum deles e muito menos ao seu conjunto. Mas conforme escreveu Kristeva, citada por Elias Mallet da Rocha Barros, "todo texto se constr&oacute;i como um mosaico de cita&ccedil;&otilde;es", e este &eacute; o mosaico poss&iacute;vel para mim em t&atilde;o breve tempo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">"Nossa tradi&ccedil;&atilde;o e hist&oacute;ria nos permitem viver a passagem do tempo, ou prop&otilde;em uma nostalgia de um passado que fecha a escuta para o novo e sua for&ccedil;a disruptiva?" pergunta a equipe do <i>Jornal</i> em sua carta convocat&oacute;ria para o eixo tem&aacute;tico "Forma&ccedil;&atilde;o: entre o p&uacute;blico e o privado"; "A Psican&aacute;lise como disciplina &eacute; um saber estrangeiro, da&iacute; sua forma&ccedil;&atilde;o dever ser pensada em termos singulares e distintos de quaisquer outras disciplinas" pontua Mariano em seu belo artigo; o "espa&ccedil;o intersticial como espa&ccedil;o de risco" nas agudas reflex&otilde;es que Vera Adamo fez, partindo de ideias de Roussilon; a recupera&ccedil;&atilde;o de nossa hist&oacute;ria atrav&eacute;s das figuras de Lygia e Virginia sendo acusadas de charlatanismo pelo <i>establishment</i> m&eacute;dico dos anos 1950, ao mostrarem em p&uacute;blico a cara do psicanalista, reatualizada no canto de Cazuza t&atilde;o bem aproveitado no texto de Gustavo Alarc&atilde;o; a ideia da cl&iacute;nica extensa j&aacute; indiciada no texto escrito para a <i>Folha de S. Paulo</i> nos anos 1980 por Fabio Herrmann, aquele que foi para mim "o amigo necess&aacute;rio para o psicanalista", segundo Pontalis; e, a fort&iacute;ssima imagem do "meteco", aquele que se faz sempre estrangeiro n&atilde;o importando a cidade que habite, tamb&eacute;m trazida por Mariano. &Eacute; a partir do impacto dessas vozes e dessas falas - outras vir&atilde;o depois - que vou construindo meu mosaico. Desafinadamente tentando parafrasear Georges Moustaki, cantor e compositor greco-franc&ecirc;s, que no final dos anos 1960, com seu canto, apresentou-me &agrave; figura do "meteco". Nessa mesma &eacute;poca fui me iniciando na err&acirc;ncia da Psican&aacute;lise.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Err&acirc;ncia e ocupa&ccedil;&atilde;o. Est&aacute; a&iacute; colocado o paradoxo que define o lugar do psicanalista, o lugar fora do lugar, o lugar do meteco. Intersticial, impreciso, imperfeito. Nossos institutos de Psican&aacute;lise tem como proposta a forma&ccedil;&atilde;o poss&iacute;vel daqueles que nos procuram para se tornarem psicanalistas, uma ocupa&ccedil;&atilde;o errante. Mas ao oferecerem esse espa&ccedil;o, correm muitas vezes o risco de deturparem a pr&oacute;pria proposta. Mariano trabalha bastante com essa quest&atilde;o, seja apontando os riscos de uma identifica&ccedil;&atilde;o daquilo que &eacute; o privado dentro da institui&ccedil;&atilde;o com o dom&eacute;stico, com o familiar, seja na interfer&ecirc;ncia do "p&uacute;blico", isto &eacute;, de certa press&atilde;o institucional que adentra inevitavelmente os espa&ccedil;os privados da an&aacute;lise e da supervis&atilde;o, enfatizando que a lei, inst&acirc;ncia p&uacute;blica necess&aacute;ria para impedir o "acoplamento sem fissuras" entre o didata e seu analisando n&atilde;o deve ser confundida "com um sacrossanto respeito aos <i>standards</i> que tendemos a colocar em um lugar idealizado". Mas tamb&eacute;m, e aqui discordo um tanto dele, &eacute; importante que pensemos o lugar da institui&ccedil;&atilde;o como um lugar dentro de um lugar maior, a cidade. Pois se ele &eacute; um meteco, ele tamb&eacute;m &eacute; um cidad&atilde;o comum, sendo fundamental que n&atilde;o transforme a institui&ccedil;&atilde;o psicanal&iacute;tica em sua casa ou seu pa&iacute;s. &Eacute; o trabalho de Gustavo aquele que traz mais explicitamente essa quest&atilde;o. Ao tratar da inser&ccedil;&atilde;o do psicanalista em lugares outros que n&atilde;o seus consult&oacute;rios, ele denuncia a tend&ecirc;ncia que temos a n&atilde;o mostrar a cara. N&atilde;o seria essa tamb&eacute;m uma raz&atilde;o a mais para a nossa dificuldade em debatermos at&eacute; entre n&oacute;s, aumentando um pouco a lista proposta pelo Elias?</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Tamb&eacute;m o "mostrar ou n&atilde;o a cara" tem a ver com os espa&ccedil;os intersticiais dentro da institui&ccedil;&atilde;o. Pois nem sempre se sabe qual &eacute; a pr&oacute;pria cara, conforme nos mostrou Freud, e os agrupamentos tot&ecirc;micos dentro de institui&ccedil;&atilde;o psicanal&iacute;tica colocam em evid&ecirc;ncia. Mais do que inser&ccedil;&otilde;es escol&aacute;sticas, ser freudiano, kleiniano, p&oacute;s-kleiniano, bioniano, winnicottiano, greeniano, e outros sobrenomes que n&atilde;o cessam de ser adjetivados, esses agrupamentos se prestam como m&aacute;scaras que escondem a pr&oacute;pria cara. Pois &eacute; a pr&oacute;pria cara que, n&atilde;o importa quanta an&aacute;lise tenha sido feita, se mant&eacute;m sempre em xeque: s&atilde;o esses restos, sempre e inesgotavelmente transferenciais, que deslizam r&aacute;pida e sutilmente para o interst&iacute;cio das institui&ccedil;&otilde;es. O que implica pensarmos sempre na an&aacute;lise como algo profano, nunca sagrado, isto &eacute;, a questionar sempre a pr&oacute;pria an&aacute;lise e a pr&oacute;pria institui&ccedil;&atilde;o. Os mais perigosos de nossos fetiches s&atilde;o sem d&uacute;vida a pr&oacute;pria an&aacute;lise e a "excel&ecirc;ncia" da institui&ccedil;&atilde;o. &Eacute; por a&iacute; que leio "Binoche como analista" que nos trouxe Mariano. Piera Aulagnier (1990), em "Sociedades de psican&aacute;lise e analistas de sociedade", j&aacute; trazia &agrave; tona esta problem&aacute;tica ao pontuar que a an&aacute;lise mais bem sucedida de todas foi aquela que Freud fez com Fliess, pois nem Fliess sabia que era analista nem Freud sabia que era analisando. A an&aacute;lise imposs&iacute;vel de ser fetichizada s&oacute; poderia ser aquela realizada <i>avant la lettre,</i> pois nenhum dos dois lugares estaria ainda institucionalizado. Nem haveria ainda o lugar do suposto saber, que corre sempre imenso perigo quando se v&ecirc; e se vive a institui&ccedil;&atilde;o como "excel&ecirc;ncia" e a an&aacute;lise como sagrada.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">N&atilde;o apenas o lugar do analista &eacute; aquele do suposto saber, como definiu Lacan, mas nosso grande acervo conceitual necessita assim ser apreendido. Essa &eacute; mais uma das dificuldades que incluo &agrave; lista feita pelo Elias. Pois o que fica mais claro em um debate entre n&oacute;s &eacute; a err&acirc;ncia de nossos conceitos, a sua imperfei&ccedil;&atilde;o, como disse Luiz Ten&oacute;rio de Lima,<a name="3a"></a><a href="#3b"><sup>3</sup></a> o seu car&aacute;ter nominalista. Por isso, acho infrut&iacute;feros os debates em busca de uma "precis&atilde;o conceitual" e aqui estou frontalmente em desacordo com o Elias. Tamb&eacute;m n&atilde;o penso que as aproxima&ccedil;&otilde;es que tendemos a fazer com a literatura, com a filosofia, com a antropologia, enfim, com as demais humanidades sejam formas de escapismo. Ao contr&aacute;rio, nosso campo, o lugar da Psican&aacute;lise &eacute; justamente o fronteiri&ccedil;o, o intersticial com as demais humanidades. Isso j&aacute; ficou evidente na pr&oacute;pria obra de Freud que, na maioria de seus textos se socorreu sempre dos outros saberes. Seria mesmo uma pervers&atilde;o da pr&oacute;pria ideia psicanal&iacute;tica pensar em uma "precis&atilde;o conceitual": se n&oacute;s estamos &agrave;s voltas com a <i>talking cure</i> como tornar "precisa" a pr&oacute;pria l&iacute;ngua? N&atilde;o s&atilde;o os <i>lapsi linguae</i> aquilo de mais revelador segundo o pr&oacute;prio Freud? N&atilde;o s&atilde;o os sonhos a "estrada real" para aquilo que ele chamou de inconsciente? Estamos sempre &agrave;s voltas com uma l&iacute;ngua desconhecida, uma l&iacute;ngua estrangeira, n&atilde;o para aprend&ecirc;-la ou traduzi-la, mas para nos darmos conta do imenso campo sem&acirc;ntico que n&atilde;o cessa de estar sendo sempre criado por nossos pacientes. O trabalho de Mariano aponta para isso e tamb&eacute;m o de Vera, se lermos os v&aacute;rios significados que a palavra "interst&iacute;cio" adquire dependendo do campo em que ela est&aacute; sendo empregada. Vale tamb&eacute;m lembrar aqui o pensamento de Fabio Herrmann a respeito das "altas teorias" e do m&eacute;todo psicanal&iacute;tico.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">As recentes manifesta&ccedil;&otilde;es nas ruas brasileiras nos trouxeram o melhor exemplo de uma fala viva e nova para a qual n&atilde;o havia resposta j&aacute; conceituada: nenhum dos pol&iacute;ticos conseguiu dar uma resposta satisfat&oacute;ria a elas por escut&aacute;-la a partir de par&acirc;metros j&aacute; consagrados. Um l&iacute;der, n&atilde;o havia. Uma palavra de ordem, tamb&eacute;m n&atilde;o. Havia sim, uma grande quantidade de falas e muitas vozes, caracter&iacute;stica b&aacute;sica deste in&iacute;cio de um novo mil&ecirc;nio trazida pelas nov&iacute;ssimas redes sociais. Mas o que vimos e ouvimos todos n&oacute;s foi que a juventude</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">ressignificou o mapa do Brasil, profanando o mais sagrado sentimento de brasilidade at&eacute; ent&atilde;o existente. Pois o que ela dizia ao mundo &eacute; que o Brasil n&atilde;o &eacute; mais o pa&iacute;s do futebol. &Eacute; um pa&iacute;s! Sem complementos adnominais. O Brasil mostrou sua nova cara. Em plena sintonia com o novo, foi justamente o mais jovem entre os autores dos trabalhos aqui discutidos, Gustavo Alarc&atilde;o, aquele que, resgatando as figuras fundadoras de nossa sociedade, leva a institui&ccedil;&atilde;o psicanal&iacute;tica &agrave;s ruas, resituando-a em seu lugar origin&aacute;rio, a cidade. Mas, n&atilde;o mais a Viena do final do s&eacute;culo XIX, e sim a megal&oacute;pole contempor&acirc;nea, lugar de uma nova subjetividade.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Err&acirc;ncia, ocupa&ccedil;&atilde;o, p&uacute;blico, privado. S&atilde;o palavras-ideias que, &agrave; semelhan&ccedil;a de for&ccedil;as magn&eacute;ticas, configuram e estruturam o campo psicanal&iacute;tico, que &eacute; maior, bem maior do que nosso acervo conceitual e as diversas escolas de pensamento conseguem abarcar. Por que ent&atilde;o nossos institutos deveriam fechar suas portas a palavras outras de saberes outros para os semin&aacute;rios daqueles que est&atilde;o em forma&ccedil;&atilde;o? N&atilde;o seria um enorme ganho para nossa institui&ccedil;&atilde;o fazer parcerias com as boas universidades, incluindo em nosso curr&iacute;culo, cursos outros de outros campos? De forma alguma trazendo-os para dentro da institui&ccedil;&atilde;o, mas estimulando o jovem aprendiz a buscar tamb&eacute;m fora dela, para al&eacute;m de suas fronteiras, um tanto da psican&aacute;lise. Na pior das hip&oacute;teses, estar&iacute;amos passando a eles a mensagem de que somos apenas suposto saber, e que a an&aacute;lise, seja ela did&aacute;tica ou leiga, n&atilde;o leva nenhum de n&oacute;s &agrave; excel&ecirc;ncia. E que, n&atilde;o havendo mesmo texto definitivo, o espa&ccedil;o institucional se manteria aberto, servindo de ancoragem &agrave; dualidade origin&aacute;ria de seu campo.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Refer&ecirc;ncia</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Aulagnier, P. (1990). Sociedades de psican&aacute;lise e psicanalista de sociedade. In P. Aulagnier, <i>Um int&eacute;rprete em busca de sentido.</i> (Vol. 1, pp. 59-100). S&atilde;o Paulo: Escuta.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1340771&pid=S0103-5835201300010001200001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Recebido em: 14/6/2013    <br>   Aceito em: 18/6/2013</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Marcio de Freitas Giovannetti. Rua Desembargador Joaquim Celid&ocirc;nio, 36 | Jardim Paulistano. 01443-060 S&atilde;o Paulo, SP. Tel: 11 3159-8604. <a href="mailto:nnetti@uol.com.br">nnetti@uol.com.br</a>    <br>   <a name="1b"></a><a href="#1a">1</a> "Com minha cara/garganta de meteco, de judeu errante, de pastor grego, e meus cabelos aos quatro ventos"    <br>   <a name="2b"></a><a href="#2a">2</a> O artigo de Jo&atilde;o Frayze-Pereira n&atilde;o consta neste texto, pois foi recebido pelo <i>Jornal</i> ap&oacute;s o envio deste coment&aacute;rio.    <br>   <a name="3b"></a><a href="#3a">3</a> Em debate recente na SBPSP (abril 2013).</font></p>      ]]></body>
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