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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>MANIFESTA&Ccedil;&Otilde;ES</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Manifesta&ccedil;&otilde;es de junho - um breve balan&ccedil;o</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>June demonstrations: a brief balance</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Manifestaciones de Junio - un breve balance</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Marcelo Coelho</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Soci&oacute;logo e colunista da Folha de S. Paulo</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr size="1" noshade>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>RESUMO</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em junho de 2013 manifesta&ccedil;&otilde;es populares de grande envergadura aconteceram nas principais cidades brasileiras. O fen&ocirc;meno gerou perplexidade no in&iacute;cio, dados os altos &iacute;ndices de aprova&ccedil;&atilde;o popular ao governo federal. A variedade de revindica&ccedil;&otilde;es e demandas expressas naqueles movimentos sugere a exist&ecirc;ncia de uma crise de representatividade no sistema pol&iacute;tico, aliadas a fatores conjunturais que este artigo procura brevemente analisar.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Palavras-chave:</b> mobiliza&ccedil;&otilde;es urbanas, manifesta&ccedil;&otilde;es de junho, crise de representatividade, poder pol&iacute;tico, internet.</font></p> <hr size="1" noshade>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ABSTRACT</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">In June 2013, large-scale popular demonstrations took place in major Brazilian cities. At first, the phenomenon generated perplexity considering the high level of popular approval of the federal government. The diversity of claims and demands expressed in those movements suggest the existence of a political representation crisis coupled with situational factors that this article seeks to briefly examine.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Keywords:</b> public demonstrations, June protests, crisis of representation, political power, internet</font></p> <hr size="1" noshade>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>RESUMEN</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Durante el mes de Junio de 2013, hubo manifestaciones populares de gran envergadura en las principales ciudades de Brasil. Inicialmente, el fen&oacute;meno gener&oacute; perplejidad, dado el alto &iacute;ndice de aprobaci&oacute;n popular del gobierno federal. La variedad de reivindicaciones y demandas expresadas en esos movimientos sugiere la existencia de una crisis de representaci&oacute;n pol&iacute;tica junto a factores coyunturales que este art&iacute;culo intenta analizar brevemente.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Palabras clave:</b> mobilizaciones urbanas, manifestaciones de Junio, crisis de representaci&oacute;n, poder pol&iacute;tico, internet</font></p> <hr size="1" noshade>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/jp/v46n84/a13img01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">"Afinal, o que querem os manifestantes?". A pergunta, cujo eco freudiano deixo &agrave; interpreta&ccedil;&atilde;o do leitor, repetiu-se durante as mobiliza&ccedil;&otilde;es urbanas do &uacute;ltimo m&ecirc;s de junho, e logo foi acompanhada de uma constata&ccedil;&atilde;o no mesmo tom: "sejamos sinceros, ningu&eacute;m est&aacute; entendendo nada".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No come&ccedil;o, era poss&iacute;vel concordar com essa afirma&ccedil;&atilde;o. A partir de um movimento com objetivos bastante definidos, a suspens&atilde;o do aumento nas tarifas de transporte p&uacute;blico, as ruas passaram a ser ocupadas por palavras de ordem as mais variadas, e por pessoas de diferente extra&ccedil;&atilde;o social. Defensores da libera&ccedil;&atilde;o da maconha e senhoras torcendo pela pris&atilde;o de Jos&eacute; Dirceu desfilaram lado a lado; o remanescente stalinista do pc do b sucedia militantes da causa transexual; era poss&iacute;vel ser ao mesmo tempo contra a repress&atilde;o policial do governo Alckmin, o petismo tecnocratizado de Fernando Haddad e a oposi&ccedil;&atilde;o sect&aacute;ria dos pequenos partidos de extrema esquerda ao mesmo tempo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O fato de haver tantas causas e bandeiras, e pessoas t&atilde;o diversas - ainda que a maioria fosse de jovens n&atilde;o abastados - n&atilde;o tornou todavia leg&iacute;tima, pelo menos depois de alguns dias de manifesta&ccedil;&otilde;es repetidas, a opini&atilde;o de que tudo era incompreens&iacute;vel. Dizer que "ningu&eacute;m est&aacute; entendendo nada" &eacute; tamb&eacute;m uma forma de recusar-se a entender alguma coisa, e na pergunta sobre "o que eles querem, afinal?" esconde-se, certamente, menos o desejo de que algo seja conquistado e mais o sentimento de que n&atilde;o h&aacute; nada a reivindicar ou corrigir.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Durante aqueles dias, sensibilizei-me com a avalia&ccedil;&atilde;o de alguns intelectuais e comentaristas, como Jos&eacute; Arthur Giannotti, por exemplo, que apontavam nos movimentos de massa o sintoma de uma "crise de representa&ccedil;&atilde;o".</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Sem d&uacute;vida: se uma passeata serve para tantos grupos distintos, e veicula ideias t&atilde;o variadas, &eacute; porque foi vista como ocasi&atilde;o para interpelar governantes e parlamentares sobre tudo o que, no cotidiano pol&iacute;tico, parecem voluntariamente ignorar, voltados que est&atilde;o a outros interesses e outra l&oacute;gica administrativa.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Evidentemente, estava a&iacute; a raiz para o fato de que os manifestantes n&atilde;o eram necessariamente "de esquerda" ou "de direita", se entendermos como esquerda tudo o que for pr&oacute;ximo a Lula, a Dilma Rousseff, a Fernando Haddad e ao pt, e se entendermos como direita tudo o que for pr&oacute;ximo a Geraldo Alckmin, a Fernando Henrique Cardoso, a Andrea Matarazzo ou ao PSDB -para nada falar do deputado evang&eacute;lico Feliciano, Renan Calheiros ou Jos&eacute; Sarney, figuras ali&aacute;s especialmente destacadas pelos manifestantes.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Esse entendimento da cis&atilde;o esquerda/direita como equivalente &agrave; cis&atilde;o PT/PSDB constituiu, por certo, passaporte seguro para a conclus&atilde;o de que "n&atilde;o estamos entendendo nada". A experi&ecirc;ncia dos anos Lula, entretanto, deveria ter ensinado que esquerdismo e direitismo n&atilde;o coincidiram nunca com a divis&atilde;o partid&aacute;ria e, n&atilde;o digo ideol&oacute;gica, mas public&iacute;stica, jornal&iacute;stica, que cindiu as opini&otilde;es entre, por exemplo, admiradores da revista "Veja" e seguidores da "Caros Amigos".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O que n&atilde;o quer dizer que "Veja" n&atilde;o seja de direita e "Caros Amigos" de esquerda. Vis&otilde;es de mundo bastante claras se contrap&otilde;em ali. O problema &eacute; que, quando se traduzem para o mundo da pol&iacute;tica partid&aacute;ria, tudo se embaralha. Quando o ent&atilde;o presidente Lula, por motivos consider&aacute;veis, aliou-se a Paulo Maluf, a Fernando Collor, a Renan Calheiros, a Jos&eacute; Sarney, a Roberto Jefferson e ao pl de Valdemar da Costa Neto, sem contar os evang&eacute;licos de v&aacute;rias legendas, &eacute; evidente que a prefer&ecirc;ncia partid&aacute;ria de um eleitor (pelo pt, digamos) n&atilde;o se via refletida no mundo real. E que partidos deixavam, mais do que nunca, de servir como canais (n&atilde;o digo de participa&ccedil;&atilde;o, porque n&atilde;o chegaram a tanto no Brasil) mas de identifica&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica. Tampouco serviriam, como sempre serviram, como m&aacute;quinas capazes, em determinadas circunst&acirc;ncias, de levar pessoas &agrave;s ruas numa manifesta&ccedil;&atilde;o. Sobraram PSTU, PCO, PSOL, ainda assim minorit&aacute;rios nos acontecimentos de junho.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nada mais incorreto, desse ponto vista, do que as cr&iacute;ticas ao car&aacute;ter antipartid&aacute;rio, e mais ainda supostamente "fascista" das manifesta&ccedil;&otilde;es. N&atilde;o h&aacute; nada de fascista, diga-se de passagem, no fato de algu&eacute;m ser contra os partidos existentes. O fascismo pode ter todos os defeitos do mundo, mas precisamente se constitui por meio de um partido, endeusado acima da pr&oacute;pria sociedade. Por longo tempo, mesmo no Brasil, foi ponto de honra dos movimentos sociais manter uma linha independente de qualquer partido. Formula&ccedil;&otilde;es radicais do socialismo autogestion&aacute;rio, do anarquismo, do ideal libert&aacute;rio, do feminismo e do pacifismo foram hostis aos partidos existentes e &agrave; forma de organiza&ccedil;&atilde;o partid&aacute;ria sem por isso serem identificadas com o fascismo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No fundo, muitas das bandeiras e do &iacute;mpeto presente nas mobiliza&ccedil;&otilde;es de junho poderiam ter sido perfeitamente encampadas pelo pt de 20 ou 30 anos atr&aacute;s. Poucas organiza&ccedil;&otilde;es de esquerda apresentavam discurso t&atilde;o cerrado contra a corrup&ccedil;&atilde;o quanto o partido de Lula e Genoino durante os governos Sarney, Collor e Fernando Henrique Cardoso. Para nada dizer da simpatia pelo movimento gay, e mais ainda no que diz respeito &agrave; revolta contra aumentos de tarifas. Um "petismo sem PT", ao qual n&atilde;o faltavam tintas socialistas e de condena&ccedil;&atilde;o ao consenso neoliberal, poderia definir, sem muita imprecis&atilde;o, o esp&iacute;rito da maioria dos manifestantes - cuja extra&ccedil;&atilde;o social, de classe m&eacute;dia ampliada e com forte presen&ccedil;a estudantil, n&atilde;o diferia daquela de muitos eleitores petistas na primeira d&eacute;cada de sua funda&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A crise de representatividade apontada por Giannotti e outros comentaristas n&atilde;o se restringiu, todavia, &agrave; decep&ccedil;&atilde;o com os partidos. Parece-me claro que, desde as recusas iniciais a reverter o aumento nas tarifas de &ocirc;nibus, o movimento se voltou n&atilde;o exatamente contra a figura das autoridades que mantinham sua decis&atilde;o. Foi, principalmente, uma revolta contra o modo de agir, de governar, presente em tantos atos executivos, aqui ou em qualquer outro pa&iacute;s. Existe nos prefeitos, governadores, presidentes, uma tend&ecirc;ncia quase autom&aacute;tica, que s&oacute; n&atilde;o se manifesta no per&iacute;odo de propaganda eleitoral. Trata-se de dizer "n&atilde;o". "N&atilde;o d&aacute;", "n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel". &Oacute;bvio que nem tudo &eacute; poss&iacute;vel. Todavia, o marketing das campanhas sugere habitualmente o contr&aacute;rio: "d&aacute; para fazer", "basta vontade pol&iacute;tica", "vai melhorar".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O apelo ao "princ&iacute;pio da realidade" quando se recusa, por exemplo, a proposta de transporte p&uacute;blico mais barato (ou gratuito, no plano ut&oacute;pico dos deflagradores do movimento) sofre, entretanto, n&atilde;o apenas em fun&ccedil;&atilde;o dos velamentos publicit&aacute;rios - a que estamos cotidianamente expostos, tamb&eacute;m fora da pol&iacute;tica -, mas tamb&eacute;m porque os "fatos" da administra&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica padecem de grande intranspar&ecirc;ncia. N&atilde;o &eacute; algo que se soubesse com clareza quando come&ccedil;aram as manifesta&ccedil;&otilde;es, mas de todo modo os ativistas do Movimento Passe Livre, ainda que radicais em suas reivindica&ccedil;&otilde;es, n&atilde;o tinham ilus&otilde;es quanto &agrave; racionalidade e &agrave; razoabilidade dos acordos firmados entre Prefeitura e empresas de &ocirc;nibus, por exemplo. O mero ostentar de planilhas de custos, por um prefeito ou governador, carecia de legitimidade - ainda mais quando, diante da press&atilde;o popular, terminou-se voltando atr&aacute;s e aceitando a manuten&ccedil;&atilde;o do pre&ccedil;o das passagens.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ocorre que n&atilde;o foram apenas planilhas o que se ostentou. Como em qualquer governo democr&aacute;tico, ali&aacute;s, ostentaram-se tamb&eacute;m escudos e cassetetes. Essa cis&atilde;o entre promessas de mudan&ccedil;a e realidade econ&ocirc;mica, aliada &agrave; pura autoridade policial, tem sido a regra em toda cidade, em qualquer pa&iacute;s, nas mais diversas circunst&acirc;ncias. O uso de uma pra&ccedil;a para um projeto de interesse imobili&aacute;rio na Turquia, a imposi&ccedil;&atilde;o de medidas econ&ocirc;micas de austeridade depois de promessas de emprego e crescimento, na Gr&eacute;cia ou na Espanha: multiplicam-se, e estopins n&atilde;o faltam, os sinais de uma crise de legitimidade profunda nos sistemas democr&aacute;ticos. Primeiro, porque mesmo ao cidad&atilde;o mais iludido parece claro que a mudan&ccedil;a do governo A para o governo B pouca influ&ecirc;ncia pode ter diante das press&otilde;es da economia global. Um fechamento das alternativas no plano macroecon&ocirc;mico naturalmente possibilita, ainda que de modo ocasional, que pequenas decis&otilde;es cotidianas (a derrubada de um edif&iacute;cio hist&oacute;rico, o fechamento de determinado posto de sa&uacute;de) possam servir para a canaliza&ccedil;&atilde;o de insatisfa&ccedil;&otilde;es difusas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Durante os anos mais duros da crise econ&ocirc;mica nos pa&iacute;ses em desenvolvimento, esse h&aacute;bito ou necessidade governamental de "dizer n&atilde;o" esteve de tal modo incorporado &agrave; vida dos cidad&atilde;os, a come&ccedil;ar dos pr&oacute;prios sal&aacute;rios, que talvez a indigna&ccedil;&atilde;o ou o protesto n&atilde;o encontrassem incentivo suficiente do ponto de vista subjetivo, an&iacute;mico.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em especial nos &uacute;ltimos anos do governo Lula, contudo, a sensa&ccedil;&atilde;o de maior flexibilidade, de maior largueza nas concess&otilde;es do Estado frente a demandas sociais, e tamb&eacute;m de menor austeridade no modo com que as pr&oacute;prias pessoas de classe baixa e m&eacute;dia geriam suas contas dom&eacute;sticas. O acesso a bens de consumo n&atilde;o apenas elevou larga parcela da popula&ccedil;&atilde;o para o limiar da classe m&eacute;dia; trouxe um aumento de auto-estima, a que se somaram as facilidades no acesso ao ensino superior e, sem d&uacute;vida, a pr&oacute;pria sensa&ccedil;&atilde;o de que se afastavam as perspectivas de fracasso hist&oacute;rico que tanto pesaram sobre o pa&iacute;s nos anos da recess&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Esse aquecimento das expectativas, dentro do qual as obras da Copa do Mundo se inclu&iacute;am com monumentalidade, veio a confrontar-se com a queda no ritmo do crescimento econ&ocirc;mico, no governo Dilma Rousseff. Curiosamente, e o ponto foi assinalado pelo cientista pol&iacute;tico Andr&eacute; Singer em palestra<a name="1a"></a><a href="#1b"><sup>1</sup></a> sobre as manifesta&ccedil;&otilde;es, a presidente empenhou-se em efetivar um "pacto produtivista", pressionando pela baixa dos juros e pela desonera&ccedil;&atilde;o fiscal. A retomada do crescimento, nota Singer, n&atilde;o veio; caberia enfatizar, para al&eacute;m de suas considera&ccedil;&otilde;es, o fato de que os pr&oacute;prios investimentos p&uacute;blicos se travaram durante esses anos, enquanto a infla&ccedil;&atilde;o deu sinais de acelerar-se.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O tempo do "n&atilde;o" voltou a se impor - exce&ccedil;&atilde;o feita, naturalmente, aos financiadores de campanha, bancos e empreiteiras que n&atilde;o fazem distin&ccedil;&atilde;o partid&aacute;ria. Enquanto isso, a capacidade para ouvir "n&atilde;o" estava muito diminu&iacute;da. A pr&oacute;pria internet, t&atilde;o importante na organiza&ccedil;&atilde;o dos movimentos, age no sentido do imediatismo, da resposta instant&acirc;nea ao que teclamos. Mas o principal &eacute; que, uma vez esgotado o ciclo de aquisi&ccedil;&atilde;o dos bens b&aacute;sicos de consumo, os servi&ccedil;os de transporte, sa&uacute;de, educa&ccedil;&atilde;o, surgiram mais do que nunca com as defici&ecirc;ncias de sempre. O cidad&atilde;o-consumidor, sem recursos ainda para morar perto do local de trabalho ou de estudo, sem sobras para matricular os filhos na escola particular, muitas vezes sem conv&ecirc;nio privado para atendimento m&eacute;dico, viu sua condi&ccedil;&atilde;o de "classe m&eacute;dia" limitada por tudo o que ainda faz dele um membro da "classe popular": o transporte p&uacute;blico em especial.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nesse sentido, ainda que faltem dados estat&iacute;sticos a respeito, &eacute; natural que a esquerda petista tenha reconhecido, nas manifesta&ccedil;&otilde;es, componentes de "direita". Houve uma corrida para atribuir a responsabilidade dos movimentos a um grupo de classe m&eacute;dia tradicional, privilegiado, em geral eleitor do psdb. Sem tanta crueza, a an&aacute;lise de classes feita por Andr&eacute; Singer indicava que a pol&iacute;tica "antiprodutivista", com altos juros - tais como estabelecidos tanto por Fernando Henrique quanto por Lula - n&atilde;o beneficiava apenas os detentores do capital financeiro. Uma base populacional grande o bastante para ter atua&ccedil;&atilde;o na pol&iacute;tica de massas beneficiava-se da renda financeira de suas aplica&ccedil;&otilde;es, e do real valorizado nas suas viagens e compras no exterior. Ao mesmo tempo, argumenta Singer, os maiores benefici&aacute;rios do "lulismo", vastos contingentes pobres no interior do pa&iacute;s, pertencem a um "subproletariado" distante dos cen&aacute;rios urbanos da luta sindical.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Faltaria falar de outro benefici&aacute;rio desses anos de prosperidade, a classe dos produtores rurais, os milion&aacute;rios da agroexporta&ccedil;&atilde;o. Seja como for, &eacute; ineg&aacute;vel que o ambiente urbano estava mais dividido, politicamente, do que o rural, em seu apoio a Lula.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Seria apenas essa classe m&eacute;dia tradicional, amea&ccedil;ada pela ascens&atilde;o dos pobres e pela queda nos juros, o terreno da oposi&ccedil;&atilde;o a Lula? Em boa parte, sim. Mas n&atilde;o seria essa classe m&eacute;dia o principal componente de manifesta&ccedil;&otilde;es em que a corrup&ccedil;&atilde;o era, sem d&uacute;vida, um dos temas mais presentes; o pre&ccedil;o dos &ocirc;nibus ou a repress&atilde;o policial, as reclama&ccedil;&otilde;es por melhores servi&ccedil;os de sa&uacute;de e educa&ccedil;&atilde;o tinham um componente popular muito mais marcado. Tamb&eacute;m a cr&iacute;tica tradicional ao "estatismo" da esquerda, a seu intervencionismo etc., n&atilde;o t&ecirc;m por que se restringirem a parcelas mais privilegiadas da popula&ccedil;&atilde;o. &Eacute; o micro-empreendedor, o trabalhador aut&ocirc;nomo, a trabalhadora em servi&ccedil;os de enfermagem, a quituteira ou o revendedor de roupas quem reclama, tanto quanto o grande empres&aacute;rio, da alta carga tribut&aacute;ria - e da corrup&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Mais um aspecto: a repress&atilde;o policial, nos dias de hoje, n&atilde;o mais se restringe a um tema caro aos antigos participantes das manifesta&ccedil;&otilde;es pelo fim da ditadura. O jovem negro da periferia, j&aacute; estudante universit&aacute;rio e dispondo de algum bem de consumo, v&ecirc;-se amea&ccedil;ado corriqueiramente pela abordagem das for&ccedil;as policiais; o protesto, no caso, tinha tamb&eacute;m o sentido de ajuste de contas, por vezes violento, e n&atilde;o apenas o da reivindica&ccedil;&atilde;o de determinadas melhorias nos servi&ccedil;os p&uacute;blicos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Vemos assim uma crise mais ampla de representa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica, ao lado de uma conjuntura desfavor&aacute;vel na economia urbana. Para quem viveu situa&ccedil;&otilde;es econ&ocirc;micas infinitamente mais dram&aacute;ticas do que a dos &uacute;ltimos anos, talvez pare&ccedil;a pouco o tempor&aacute;rio travamento no pib ou a moderada acelera&ccedil;&atilde;o nos pre&ccedil;os. Mas a turbul&ecirc;ncia que se produziu, n&atilde;o que tenha apenas essas causas, &eacute; mostra de que o pa&iacute;s vinha mesmo mudando.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O quanto ir&aacute; prosseguir essa mobiliza&ccedil;&atilde;o, e que frutos mais permanentes podem surgir da&iacute;, &eacute; certamente uma inc&oacute;gnita. Seus aspectos imediatos, econ&ocirc;micos, locais, podem determinar alguma acomoda&ccedil;&atilde;o. Como toda festa, em que o prazer de estar com mais pessoas, de ver e de ser visto &eacute; fundamental, os movimentos de junho n&atilde;o poderiam durar para sempre. Todavia, a crise mais ampla, que atinge todas as democracias, tamb&eacute;m expostas a esc&acirc;ndalos de corrup&ccedil;&atilde;o e a mudan&ccedil;as puramente cosm&eacute;ticas na c&uacute;pula do poder, ir&aacute; prolongar-se, a meu ver, enquanto novas formas de representa&ccedil;&atilde;o e delibera&ccedil;&atilde;o popular n&atilde;o vierem a se consolidar. N&atilde;o ser&aacute; nos pr&oacute;ximos dez ou quinze anos, mas tendo a considerar poss&iacute;vel um aperfei&ccedil;oamento das iniciativas de legisla&ccedil;&atilde;o e controle popular por meio das redes da internet. J&aacute; come&ccedil;a a parecer estranho, a mim pelo menos, que eu possa comprar produtos com cart&atilde;o de cr&eacute;dito, mandar documentos escaneados pelo email, fazer a declara&ccedil;&atilde;o de Imposto de Renda pelo computador, e ainda assim tenha de comparecer pessoalmente a uma urna no dia da elei&ccedil;&atilde;o. O pr&oacute;prio princ&iacute;pio da representa&ccedil;&atilde;o parlamentar, com sua hist&oacute;ria de s&eacute;culos, &eacute; remanescente de dificuldades de comunica&ccedil;&atilde;o e discuss&atilde;o a dist&acirc;ncia que hoje desapareceram. Evidentemente, a internet n&atilde;o &eacute; resposta para tudo; uma das vit&oacute;rias dos ativistas de junho ter&aacute; sido, com efeito, sair do mundo virtual para o encontro face a face - com tudo o que representa de surpresa e de reconhecimento. O anonimato, a falta de surpresa, e a incapacidade de reconhecimento fazem parte, na verdade, do mundo do poder pol&iacute;tico, tal como &eacute; exercido hoje em dia - e isso, cedo ou tarde, ter&aacute; de mudar.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Recebido em: 18/6/2013    <br>   Aceito em: 25/6/2013</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Marcelo Coelho. <a href="mailto:coelhofsp@uol.com.br">coelhofsp@uol.com.br</a>    <br>   <a name="1b"></a><a href="#1a">1</a> Palestra de Andr&eacute; Singer: <a href="http://escola.dieese.org.br/escola/events/videos-conferencia-andre-singer" target="_blank">http://escola.dieese.org.br/escola/events/videos-conferencia-andre-singer</a>.</font></p>      ]]></body>

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