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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Habitar, construir e confiar: articulações entre Heidegger e Winnicott]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This paper is intended to examine Heidegger's approach to the terms build and inhabit in order to establish a conncection with the notion of trust in Winnicott's thought. From the investigation of the german words buan and bauen, we aim to demonstrate that the idea of living is deeply linked to the process of building and trust. This fact allows to demonstrate that trust, inhabit and build are concepts that have a common etymology and therefore can be theorized in a connected way. Such linkage provides subsidies for the building of the foundations of confidence Winnicott's thought.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>ARTIGOS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="4"><b>Habitar, construir e confiar: articulações entre Heidegger e Winnicott<a name="Link1" href="#2"><sup>1</sup></a></b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Inhabit, and build and trust: linkages between Heidegger and Winnicott</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Maria Teresa Saldanha<sup>I</sup></b><a name="Autor" href="#Autora"><sup>*</sup></a>; <b>Perla Klautau<sup>I, II</sup></b><a name="Autor1" href="#Autora1"><sup>**</sup></a></b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><sup>I</sup>Universidade Veiga de Almeida - Brasil    <br> <sup>II</sup>Círculo Psicanalítico do Rio de Janeiro - CPRJ - Brasil</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><a name="top" href="#end">Endereço para correspondência</a></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <HR size="1" noshade>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>RESUMO</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O presente artigo se destina a examinar a abordagem heideggeriana dos termos <i>construir</i> e <i>habitar</i> a fim de estabelecer uma articulação com a noção de <i>confiança</i> no pensamento de Winnicott. A partir da investigação das palavras alemãs <i>buan </i>e <i>bauen</i>, verificaremos que a ideia de habitar está profundamente vinculada ao processo de construir e de confiar. Fato este que permitiu demostrar que confiar, habitar e construir são conceitos que possuem uma etimologia comum e que, portanto, podem ser teorizados de forma conectada. Tal articulação fornece subsídios para a edificação das bases da confiança no pensamento de Winnicott.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Palavras-chave:</b>  Confiança, Heidegger, Winnicott, Habitar.</font></p> <HR size="1" noshade>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>ABSTRACT</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">This paper is intended to examine Heidegger's approach to the terms build and inhabit in order to establish a conncection with the notion of trust in Winnicott's thought. From the investigation of the german words buan and bauen, we aim to demonstrate that the idea of living is deeply linked to the process of building and trust. This fact allows to demonstrate that trust, inhabit and build are concepts that have a common etymology and therefore can be theorized in a connected way. Such linkage provides subsidies for the building of the foundations of confidence Winnicott's thought.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Keywords:</b>  Trust, Heidegger, Winnicott, Inhabit.</font></p> <HR size="1" noshade>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Para iniciar um ensaio que tem como objetivo estabelecer uma articulação entre a concepção de Heidegger a respeito das acepções habitar e construir e a noção de confiança no pensamento de Winnicott, é necessário, primeiramente, levarmos em consideração as procupações específicas, o contexto e o modo pelo qual cada um dos autores examinou as questões cujas respostas resultaram na elaboração de seus principais conceitos. Partindo de pontos completamente diferentes, o filósofo alemão e o psicanalista inglês teorizaram sobre temas cruciais para a reflexão acerca do ser e do viver humano. Cada um, com o uso de ferramentas conceituais específicas, edificou alicerces para investigações que atualmente ultrapassam tanto o campo filosófico quanto o psicanalítico, abrangendo as mais diversas áreas de saber.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Proveniente de um ambiente intelectual marcado por um grande interesse e inserção na vida acadêmica, Heidegger obteve reconhecimento no campo filosófico a partir da publicação de sua obra <i> Ser e tempo</i> (1927). Vindo de uma família humilde, Heidegger completou sua formação primária graças a uma bolsa eclesiástica que lhe permitiu iniciar também seus estudos em teologia e em filosofia. Heidegger estudou Teologia Católica Romana e, posteriormente, Filosofia na Universidade <i>Freiburg-im-Breisgau</i>, onde se tornou assistente de Edmund Husserl, do qual, em 1928, herdou a posição de preofessor de Filosofia.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Influenciado pela fenomenologia de Husserl, desde seus primeiros escritos, Heidegger se preocupou com o significado das noções de ser e existir. Ao investigar tais temas partiu do princípio de que o ser humano existe independente de qualquer definição pré-estabelecida a respeito do seu ser. Desta forma, pocisionou-se contra as especulações metafísicas de que haveria um propósito pré-estabelecido para o ser. Nesta direção, partiu da ideia de que é a partir da nossa existência no mundo que vamos adquirindo conhecimento a respeito da essência do ser.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Diante disto, postulou que o homem não nasce com um propósito pré-estabelecido para sua vida, sendo este propósito construído paulatinamente no decorrer de sua <i>existência</i>, isto é, a partir das suas vivências no mundo. Ao adotar tal visada, preconizou que no caso humano a <i>existência precede a essência</i>. A explicação para isto se baseia na ideia de que primeiramente o homem <i>existe</i> e só depois pode se <i>definir</i>.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">É importante ressaltar que o pensamento filosófico Heidegger foi marcado pela preocupação em resgatar o sentido da noção de <i>ser</i> considerado perdido pela tradição metafísica que apreendia o ser a partir do exame da coisa empreendendo, por este caminho, um estudo da substância. Tal preocupação foi desenvolvida a partir do estabelecimento de uma ontologia do ser em seu livro <i>Ser e tempo</i>. Ao desenvolver sua ontologia, o pensador alemão identificou no homem alguns traços que o distinguem dos demais seres e que, justamente, lhe conferem a condição de <i>ser</i>. Tais atributos e características seriam, portanto, <i>existenciais</i>. Nessa medida, Heidegger considera o ser humano como um <i>ente</i><i>destacado</i>, capaz de questionar o <i>ser</i>, numa busca pela compreensão do <i>existir</i>. Este <i>ente</i> - o homem - Heidegger chama de <i>Dasein</i>, ideia que pode ser traduzida como <i>ser-aí</i> ou <i>ser-no-mundo</i>, no movimento permanente de afetos e interesses. De acordo com esta visada, o homem não é visto como sujeito de uma relação sujeito-objeto, mas sim como <i>ser-aí</i> (<i>Dasein</i>). A essência do <i>ser-aí</i> se revela apenas na existência, sendo que o <i>ser-aí</i> está sempre inserido no mundo, um mundo de significações compartilhadas que abarca as possibilidades de <i>ser</i> a partir das quais este ente se compreende. Assim, em sua constituição fundamental, o <i>ser-aí</i> é <i>ser-no-mundo</i> (JARDIM, 2003). Nessa medida, o homem se caracteriza por ser <i>fora de si</i>, isto é, estar sempre diante de suas possibilidades, seus planos e ideais.</font></p>     <blockquote><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&#91;...&#93; primeiro eu não 'sou' 'eu', no sentido do próprio si mesmo, senão que sou os outros a maneira do 'a gente' (<i>Man</i>). Desde este e como este estou dado imediatamente a mim mesmo. Imediatamente, o <i>Dasein</i> é o 'a gente', e regularmente se mantém nisso. Quando o <i>Dasein</i> descobre e aproxima para si o mundo, quando abre para si mesmo o seu próprio modo de ser, este descobrimento do 'mundo' e esta abertura do <i>Dasein</i> sempre se levam a cabo como um afastar de encobrimentos e obscurecimentos, e como uma quebra das dissimulações com as quais o <i>Dasein</i> se fecha frente a si mesmo (HEIDEGGER, 1927, p. 153).</font></blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Mas como poderia o <i>Dasein</i> escolher entre possibilidades diferentes daquelas concedidas pelo "a gente"? Heidegger entendeu que é por intermédio da consciência. (HEIDEGGER, 1927/2015) É a consciência aquela que diz que ele tem de optar por escolher. Este é um chamado que vem do próprio <i>Dasein</i>, que nunca está total e irrecuperavelmente absorvido no "a gente". O <i>Dasein</i>, nessa medida, torna-se resoluto, afastando-se da multidão para tomar suas decisões à luz da sua vida como um todo (SEIBT, 2010). Heidegger (1927/2015) construiu sua ontologia do ser fundamentada na metodologia da fenomenologia e da hermenêutica. A intenção de Heidegger era trazer à luz aquilo que na maior parte das vezes se oculta naquilo que se mostra - mais precisamente seria o que se <i>manifesta</i> naquele que se mostra. Dessa forma, a partir do método hermenêutico, Heidegger pretendia <i>interpretar</i> aquilo que se mostra e é manifesto, mas que de início não se percebe. Nesse sentido, trata-se de um método que vai diretamente ao <i>fenômeno</i>, examinando a própria manifestação. Sendo assim, é importante notar que a fenomenologia (do grego <i>phainesthai</i> - aquilo que se apresenta ou que mostra - e <i>logos</i> - explicação, estudo), enquanto atitude intelectual e um método de investigação, afirma a importância dos fenômenos, consistindo numa atitude de reflexão em relação ao mundo que se mostra para nós.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Tal método de conhecimento e investigação até hoje é aplicado no campo das ciências humanas e da medicina. Entre 1959 e 1969, Heidegger realizou uma série de seminários filosóficos voltados para psiquiatras, que ficaram conhecidos como "Seminários de Zollikon". Tais seminários são considerados fundamentais na concepção e conceituação da construção do método que ficou conhecido como <i>Daseinsanalyse</i>. Os principais tópicos abordados foram as possibilidades de integração da ontologia e da fenomenologia de Heidegger à teoria e práxis da medicina, psicologia, psiquiatria e psicoterapia. Nestes Seminários, Heidegger discutiu a enfermidade como modo de ser do <i>Dasein</i>, ou seja, a enfermidade estaria relacionada à nossa dificuldade de suportar a abertura dos sentidos para o mundo. Os fenômenos de adoecimento psíquico, portanto, se relacionam com a condição de abertura do <i>Dasein</i>; tendo por fundamento a condição originária de liberdade. Nesse sentido, Heidegger afirma que as perturbações de saúde do indivíduo devem ser entendidas, antes de mais nada, como perturbações de adaptação e de liberdade (HEIDEGGER, 1987/2001, p. 178).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Voltado, inicialmente, para questões relacionadas ao adoecimento psíquico de crianças muito pequenas, Winnicott aliou à atividade de pediatra o interesse pelo modo como os bebês se desenvolvem e passam a possuir uma existência pessoal. Desde que se estabeleceu como consultor em medicina infantil, Winnicott percebeu que as crianças pequenas necessitavam de uma rede de cuidados capaz de fornecer ao pequeno indivíduo a possibilidade de <i>ser. </i> Neste sentido, diferentemente de Heidegger, que só no final de sua carreira acadêmica aproximou-se das aplicações práticas que seus conceitos poderiam obter no campo da saúde, o pediatra e psicanalista inglês adotou, justamente, a prática clínica como ponto de partida para a construção de seus principais conceitos teóricos.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Winnicott trabalhou cerca de quarenta anos no <i>Paddington Green Childen's Hospital</i>, onde desenvolveu um trabalho dirigido para a psiquiatria infantil que marcou decisivamente sua inserção na psicanálise. Em seus primeiros anos de formação, Winnicott foi influenciado, principalmente, pelas ideias de Anna Freud e de Melanie Klein. Ao elaborar sua descrição do desenvolvimento emocional, Winnicott aliou à experiência clínica adquirida no terreno da pediatria e da psiquiatria infantil o comprometimento com a ideia de um processo natural de desenvolvimento derivada da biologia darwiniana, principalmente no que se refere à importância dada ao meio ambiente nos primeiros anos de vida (PHILLIPS, 1998).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Sendo assim, partiu da dependência do bebê em relação ao meio ambiente para explicar justamente como um indivíduo cresce e adquire existência pessoal, ou seja, desvinculada da dependência do ambiente, considerado como sinônimo dos cuidados maternos. Ao seguir este caminho, Winnicott concentrou seu interesse na relação mãe-bebê e, consequentemente, na maneira pela qual o recém-nascido gradualmente se torna capaz de existir sem a dependência direta desses cuidados. Em 1966, numa palestra intitulada "A mãe dedicada comum", Winnicott apresentou seu entendimento das palavras ser e existir no contexto da relação estabelecida com o ambiente:</font></p>     <blockquote><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Poderíamos usar a palavra <i>existir</i>, em sua extração francesa, e falar a respeito da existência, transformar isso numa filosofia e chamá-la de existencialismo, mas de qualquer forma preferimos começar pela palavra 'ser', e em seguida pela afirmação <i>eu</i><i>sou</i>. O importante é que eu sou <i>não</i><i>significa</i><i>nada</i>, <i>a</i><i>não</i><i>ser</i><i>que</i><i>eu</i>, inicialmente, <i>seja</i><i>juntamente</i><i>com</i><i>outro</i><i>ser</i><i>humano</i> que não foi diferenciado. Por esse motivo, é mais verdadeiro falar a respeito de <i>ser</i> do que usar as palavras <i>eu sou</i>, que pertencem ao estágio seguinte (1966/2006, p. 9).</font></blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ao acompanhamos o raciocínio do autor, é possível observar que inicialmente bebê não é capaz de identificar-se como um ser com existência independente dos cuidados maternos. Em 1945, no artigo <i>Desenvolvimento emocional infantil</i>, Winnicott postula um estado inicial de indiferenciação <i>eu-não-eu</i> cuja unidade não é o bebê, mas sim o <i>conjunto</i><i>ambiente</i>-<i>indivíduo</i>, visto que nesse momento não faz a menor diferença em saber se existe ou não alteridade e nem se o cuidado materno, que ainda não é percebido como tal, é bem ou mal desempenhado. Neste momento o que está em questão é a experiência de <i>ser</i> que, tal como foi concebida pelo autor, deve ser entendida como "a mais simples de todas as experiências, a que se baseia no contato sem atividade &#91;...&#93;" (WINNICOTT, 1966/2006, p. 9). Este termo, contato sem atividade, pode ser entendido como algo pertencente ao momento inaugural da vida humana, numa época que ainda não há a percepção da exterioridade.</font></p>     <blockquote><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O bebê identifica-se com a mãe nos momentos calmos de contato, que é menos uma realização do bebê que um resultado do relacionamento que a mãe possibilita. Do ponto de vista do bebê, nada existe além dele próprio, e portanto a mãe é inicialmente parte dele. Em outras palavras, há algo, aqui, que as pessoas chamam de identificação primária. Isto é o começo de tudo, e confere significado a palavras muito simples, como ser (WINNICOTT, 1966/2006, p. 9).</font></blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Em relação a tradução da palavra ser, é importante ressaltar que, em inglês, Winnicott utiliza a expressão <i>going</i><i>on</i><i>being</i> que, em português, significa <i>estar</i><i>sendo</i>, dando a ideia de que o existir está intimamente relacionado a noção de movimento, de continuidade e de funcionamento preocessual. Como afirma Loparic (2006), Heidegger "parece ser o filósofo a ser levado em conta quando discutimos as referências filosóficas intencionais ou não de Winnicott". Entretanto, o objetivo do presente artigo não é realizar um exame das bases filosóficas do pensamento de Winnicott tampouco um estudo comparativo entre os dois autores<a name="Link3" href="#4"><sup>2</sup></a>. Pretendemos tão somente utilizar as ferramentas teóricas elaboradas por ambos para fazer dialogar as noções de <i>habitar</i>, <i>construir</i> e <i>confiar</i>. Acreditamos que um aprofundamento da articulação a ser apresentada pode propiciar outras possibilidades de pesquisa em torno do legado deixado por estes autores.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Habitar e construir: uma leitura heideggeriana</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Na Conferência intitulada <i>Construir, habitar, pensar,</i> Heidegger (1951/1954) examina a essência dos termos <i>construir</i> e <i>habitar</i>. Logo de início, apresenta as seguintes questões: O que significa habitar? Como o construir faz parte da habitação? Para responder tais questões, o filósofo conduz a explicação do fenômeno do <i>construir </i>e do <i>habitar</i> a partir da referência originária que ambos possuem com a linguagem. Primeiramente, costumamos associar a ideia habitar a um lugar, uma moradia, isto é, uma construção onde a vida se desenvolve. Mas a questão é: o habitar realmente acontece em todas as construções?</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Heidegger (1951/1954) constata que nem todas as construções constituem habitações. Por exemplo, uma ponte, um estádio, uma usina elétrica são construções e não habitações; a estação ferroviária, a autoestrada, o mercado são construções e não habitações. Essas várias construções estão, porém, no <i>âmbito de nosso habitar</i>, um âmbito que ultrapassa as construções sem limitar-se a uma habitação. Na autoestrada, o motorista de caminhão está em casa, embora ali não seja a sua residência; na tecelagem, a tecelã está em casa, mesmo não sendo ali a sua residência. O filósofo observa que, nessas construções, o homem de certo modo habita e não habita, se por habitar entende-se simplesmente possuir uma residência.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Dessa forma, deve ficar claro que a ideia de habitar não se prende no fato de se ter uma residência. O <i>habitar</i> abrange, na verdade, todas as formas pelas quais o homem <i>constrói</i> o mundo onde vive, seja um caminhão, uma tecelagem, uma usina elétrica, etc. Vale dizer: o homem habita tudo aquilo que é capaz de construir. Nessa medida, o <i>habitar</i> pode ser entendido como <i>o fim a que se propõe todo construir</i>.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Neste ponto torna-se necessário examinar os contornos da relação existente entre o <i>construir </i>e o <i>habitar</i>. Heidegger (1951/1954) demonstra que a palavra do antigo alemão <i>buan</i>, usada para dizer <i>construir</i>, significa também <i>habitar</i>, permanecer, morar. Dito de outra forma: <i>construir significa originariamente habitar</i>. Heidegger demonstra que <i>buan</i> deu origem à palavra <i>bauen</i> (construir), e o sentido de <i>habitar</i>, perdeu-se<a name="Link5" href="#6"><sup>3</sup></a>. Sem dúvida, a antiga palavra <i>buan</i> não dizia apenas que <i>construir </i>é propriamente <i>habitar</i>, mas também nos acenava como devemos pensar o <i>habitar</i> que aí se nomeia. Vejamos: quando se fala em <i>habitar,</i> representa-se em geral um comportamento que o homem realiza em meio a vários outros modos de comportamento. Ora, trabalhamos aqui e habitamos ali. Temos uma profissão, fazemos negócios, viajamos e, no meio do caminho, habitamos em locais diversos.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Heidegger (1978) destaca também que <i>bauen/buan</i> são, na verdade, a mesma palavra alemã <i>bin </i>(sou), do verbo <i>sein,</i> nas conjugações <i>ich bin, du</i><i>bist</i>, eu sou, tu és, nas formas imperativas <i>bis</i>, sei, sê, sede. Se levarmos isto em consideração, naturalmente chegamos a questão central do pensamento heideggeriano: o que quer dizer eu sou? Para responder esta pergunta, o pensador alemão identifica no homem alguns traços que o distingue dos demais seres e lhe conferem a condição de <i>ser</i>. Tais atributos e características seriam, portanto, <i>existenciais</i>. Nessa medida, Heidegger considera o ser humano como um "ente destacado", capaz de questionar o <i>ser</i>, numa busca pela compreensão do <i>mesmo</i>. Como vimos, este <i>ente</i>, o homem, Heidegger chama de <i>Dasein</i>, ideia que pode ser traduzida como <i>ser-o-aí</i> ou <i>ser-no-mundo</i>, no movimento permanente de afetos e interesses. Nessa abordagem, o homem se caracteriza por ser <i>fora de si</i>, isto é, estar sempre diante de suas possibilidades, seus planos e ideais. No entanto, este <i>Dasein</i> está em geral disperso e perdido na impessoalidade do "a gente" (<i>Das Man</i>).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Nesta condição fática, o <i>Dasein</i> tem a possibilidade de se <i>re-descobrir</i> como <i>ser-no-mundo</i> para encontrar a si mesmo na sua originalidade. Isso significa que ele <i>re-descobre</i> o mundo, torna transparente para si mesmo o seu modo de ser e, com isso, liberta as possibilidades autênticas do conhecimento. É preciso mostrar que na cotidianidade mantém-se encoberto esse fato originário do <i>Dasein</i> ser esse <i>des-encobridor</i>, de ser a condição de possibilidade do mundo. Essa transparência libera a verdade, a liberdade, a finitude, a temporalidade e a historicidade do <i>Dasein</i> (SEIBT, 2010). Deste modo, a "essência" do <i>ser-aí</i> (Dasein) se revela-se apenas na <i>existência</i>, sendo que o ser-aí está sempre inserido em um mundo de significações compartilhadas que abarca as possibilidades de <i>ser</i> a partir das quais este ente se compreende. Assim, em sua constituição fundamental, o <i>ser-aí</i> é <i>ser-no-mundo</i> (JARDIM, 2003)</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Se retornarmos à antiga palavra <i>bauen</i> (construir) a que pertence <i>bin</i>, "sou", e que, geralmente, acompanha a resposta <i>ich bin</i>, <i>du bist</i> (eu sou, tu és), temos também o significado: eu habito, tu habitas. A maneira como tu és e eu sou, o modo segundo o qual somos homens sobre essa terra é o <i>buan</i>, o <i>habitar</i>. <i>Ser</i> homem, ou seja, <i>ser</i> como um mortal sobre essa Terra, quer dizer: <i>habitar</i>. Em suma: a antiga palavra <i>bauen</i> (construir) diz que <i>o homem é à medida que habita.</i> Cabe observar que a palavra <i>bauen</i> significa também: fazer, erigir, proteger e cultivar. A palavra <i>construir</i> também remete à ideia de cultivo, cuidar do crescimento que, por si mesmo, dá tempo aos seus frutos. Por fim, Heidegger (1951/1954) ainda observa que o <i>construir</i> quando pensado a partir do latim <i>colere</i> possui o significado de cultura. Assim, "ambos os modos de construir como cultivar, em latim, <i>colere</i>, cultura, e construir como edificar construções, <i>aedificare</i><a name="Link7" href="#8"><sup>4</sup></a>, estão contidos no próprio <i>bauen</i>, isto é, no habitar" (HEIDEGGER, 1951/1954, p. 2).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">De fato, a transformação semântica que ocorre no âmbito das palavras faz com que não mais se realize a experiência de que <i>habitar</i> constitui o <i>ser</i> do homem, e não mais se pense, em sentido pleno, que <i>habitar é o traço fundamental do ser-homem</i>. O significado originário de <i>bauen</i> (construir) - qual seja, <i>habitar</i> - permanece latente. Somente a partir da constatação de que todo <i>construir</i> é, em si mesmo, um <i>habitar</i>, é que poderemos questionar o que o <i>construir</i> é em seu vigor de essência. Vale dizer: não <i>habitamos</i> porque <i>construímos</i>. Ao contrário; <i>construímos</i> e chegamos a <i>construir</i> à medida que <i>habitamos</i>, ou seja, à medida que somos como aqueles que <i>habitam</i>. Mas, afinal, em que consiste o vigor essencial do habitar?</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Para responder essa questão Heidegger examina a palavra <i>friede</i> (paz), "que significa o livre, <i>freie, frye, e fr</i>y diz: preservado do dano e da ameaça, preservado de, ou seja, resguardado" (HEIDEGGER,1951/1954, p. 3). Nesse sentido, libertar-se significa propriamente resguardar. Resguardar é, em sentido próprio, algo positivo e acontece quando deixamos alguma coisa entregue, de antemão, ao seu vigor de essência, quando devolvemos, de maneira própria, alguma coisa ao abrigo de sua essência, seguindo a correspondência com a palavra libertar (<i>freien</i>): libertar para a paz do abrigo da essência. <i>Habitar</i>, ser trazido à paz de um abrigo, quer dizer o seguinte: "permanecer pacificado na liberdade de um pertencimento, resguardar cada coisa em sua essência" (HEIDEGGER,1951/1954, p. 3).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Segundo Heidegger, o traço fundamental do <i>habitar </i>é esse resguardo, ou seja, a entrega - e libertação - de alguma para o abrigo da essência. O resguardo, nessa perspectiva, perpassa o <i>habitar</i> em toda a sua amplitude. O <i>habitar,</i> então, consiste no próprio resguardo, isto é, <i>no recolhimento da intimidade necessário ao encontro com o ser</i>. Habitar é, assim, o traço essencial do <i>ser</i>, pois o habitar reflete um <i>deixar-ser, numa situação de continuidade</i>.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Como vimos, a palavra <i>bauen</i> (construir), é propriamente <i>habitar</i>. Nessa media, é possível afirmar que em todo <i>construir</i> existe a ideia de <i>habitar</i>. A esta altura, cabe observar o seguinte: a palavra <i>bauen</i> também significa confiança, mais precisamente a expressão <i>bauen auf, </i>que quer dizer confiar em alguém ( MICHAELIS, 2010). Sendo assim, habitar, construir e confiar possuem uma etimologia comum. Levando isto em conta, na tentativa de pensar os três termos de forma conectada, surge a pergunta: como articulá-los? Vejamos como a da noção de confiança, tal como foi concebida por Winnicott, pode fornecer elementos para encaminhar esta questão.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>A construção da confiança no pensamento de Winnicott</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A palavra <i>confiança</i> está, no senso comum, relacionada ao sentimento daquele que <i>confia</i>. Neste sentido, significa fiar-se em algo ou alguém, acreditando que este não falhará. Essa mesma acepção é utilizada quando nos propomos a examinar a ideia de confiança no pensa mento de Winnicott. De acordo com o autor, no início da vida, o bebê não é capaz de identificar-se como um ser independente dos cuidados maternos: para o bebê, ele e a mãe constituem uma unidade. Se partirmos desse cenário, é possivel perceber que a mãe tem uma tarefa fundamental na teoria do desenvolvimento emocional primitivo. Neste percurso são estabelecidos três estágios sucessivos: dependência absoluta, dependência relativa e rumo à independência. Do primeiro ao último, é importante destacar o modo pelo qual o bebê torna-se capaz de viver sem a dependência dos cuidados maternos. Isto acontece na medida em que a criança adquire a capacidade de confiar no ambiente que, primordialmente, pode ser resumido sob a forma dos cuidados maternos. Sendo assim, é possível afirmar que, na teoria winicottiana, a confiança é algo construído a partir da relação estabelecida com, digamos assim, a mãe-ambiente.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Durante os primeiros meses de vida, o bebê encontra-se no estado de dependência absoluta. Embora exista uma total dependência em relação ao ambiente, o bebê desconhece este estado pois seu psiquismo ainda não se encontra estruturado de forma unitária, a ponto de ter a capacidade de distinguir dentro/fora, interno/externo, objetivo/subjetivo, eu/não-eu. Desse modo, o relacionamento primário com a realidade se dá de forma subjetiva. Em outras palavras, de acordo com o bebê, ele e seu ambiente, isto é, a mãe, são um só. Tal configuração é proporcionada pelo estado de preocupação materna primária (WINNICOTT, 1956). Neste estado, em que a mulher grávida sadia ingressa pouco antes de dar a luz, cuja duração não ultrapassa algumas semanas após o nascimento do bebê, é possível o estabelecimento de um estado aguçado de sensibilidade em que a mãe torna-se capaz de identificar-se ativamente com as necessidades do bebê. Cabe ressaltar que este estado é temporário: do mesmo modo que é tarefa da mãe estar disposta a atender às necessidades da criança também é esperado que gradativamente esta possa passar a não atender tais necessidades respeitando, assim, ritmo de tolerância de seu filho. O sucesso dessa passagem depende do movimento de alternância entre momentos de presença e de ausência da mãe que, atuando como um ambiente facilitador, proporcionará, gradativamente ao seu bebê, um sentimento de confiança no ambiente.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A construção do sentimento de confiança abrange alguns momentos designados por Winnicott (1945) como cruciais para o desenvolvimento: a integração do eu; a formação da psique que habita o corpo e a relação com os objetos de forma objetiva, em outras palavras, a adaptação à realidade compartilhada. Numa correspondência com esses itens, destacam-se três funções da maternas:&nbsp; a integração (alcançada pelo <i>holding</i>), a personalização (alcançada pelo <i>handling</i>) e a relação objetal (alcançada através da apresentação dos objetos). Na teoria winnicottiana, <i>holding</i> remete à provisão ambiental que abrange as particularidades do cuidado materno, as quais incluem tanto a provisão física quanto psicológica. Em outros temos, é possível fazer referência à firmeza como o bebê é sustentado no colo da mãe capaz de confortar e proteger. A ideia de <i>handling </i>(manipulação), refere-se ao conjunto de cuidados da mãe com o recém nascido, a experiência de entrar em contato com as diversas partes do corpo através das mãos cuidadosas da mãe (WINNICOTT, 1987/ 2006). Tais cuidados físicos, como o de ser sustentado com segurança e ter suas necessidades apaziguadas, é que vão garantindo ao bebê a confiança necessária para o sentimento de existir através da confiança no ambiente (BREZOLIN; PINHEIRO, 2011). O ambiente facilitador, portanto, é criado a partir da confiabilidade nele depositada e se manifesta a partir dos cuidados especiais que a mãe dispensa ao bebê nos estágios iniciais da vida. Em suma, o <i>holding </i>e o<i> handling</i> devem ocorrer no contexto da confiança que decorre da forma como o bebê é segurado e manipulado. Por último, temos a apresentação dos objetos (também chamada de <i>realização</i>), em que a mãe auxilia a criança a entrar em contato com elementos da realidade objetiva. Neste estágio, "a mãe começa a mostrar-se substituível e a propiciar ao seu bebê o encontro e a criação de novos objetos que serão mais adequados ao seu atual estado de desenvolvimento" (COUTINHO, 1997, p. 103 ). De posse da descrição desses três momentos, é importante perceber que t odos convergem numa mesma direção: "a caracterização de uma determinada qualidade da interação entre indivíduo e ambiente, cujo cerne reside nas noções de regularidade e continuidade" (SALEM, 2007, p. 170)</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Dessa forma, a adequada provisão ambiental vai imprimindo no bebê a sensação de continuidade e previsibilidade, requisitos fundamentais para a construção da confiança.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Apenas o ambiente que se mostre seguro, contínuo e previsível, permitindo a antecipação do comportamento e das consequências de suas ações, despertará no bebê o conforto do sentimento de confiança. Vale dizer, a emergência da confiança em seu ambiente inicial dependerá da previsibilidade do comportamento da mãe, o que se dá a partir dos hábitos gerados na interação mãe-bebê (SALEM, 2006). O desenvolvimento do <i>hábito</i> deve se manifestar na implementação de uma rotina que se torne familiar e confiável. Cabe observar que a palavra hábito vem do latim <i>habitu</i> e significa "disposição duradoura adquirida pela repetição duradoura de um ato, uso costume" (FERREIRA, 1986, p. 712). Nessa linha, trazemos à baila Ramos &#38; Stein (2000, p. 229), que definiram a palavra "hábito" como: "ato, uso, costume ou padrão de reação adquirido por frequente repetição de uma atividade". Se reunirmos estes elementos para fazer referência à noção de confiança, é possível dizer que se trata, na verdade, de um processo que se desenrola no terreno seguro da rotina e dos hábitos de cuidado da mãe com o bebê. Vale dizer que a pentencialidade do desenvolvimento de um sentimento de confiança pode ser traduzida como uma expectativa de continuidade de cuidados maternos. Winnicott sugere que à medida que o <i>self</i> se constrói e o indivíduo se torna capaz de incorporar e reter lembranças do cuidado ambiental , e portanto de cuidar de si mesmo, a integração se transforma num estado cada vez mais con&shy;fiável (WINNICOTT, 1988/1990). Numa palavra: a integração do indivíduo depende de que o ambiente seja confiável.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">É a partir da construção da confiança no ambiente que o bebê pode prosseguir seu desenvolvimento psíquico e, gradualmente, fazer a distinção entre <i>eu/não-eu</i>, de maneira a reconhecer existência - de uma realidade externa, separada dele (SALEM, 2007; KLAUTAU; SALEM, 2009). Dito de outro modo: é a condição materna de ambiente confiável que permite e auxilia o bebê a se perceber como um indivíduo autônomo, isto é, separado do ambiente externo. Este é o estágio da dependência relativa, que ocorre entre 6 meses a 2 anos de idade. O desenvolvimento bem sucedido desse estágio conduz ao reconhecimento da existência de uma realidade externa. Nessa passagem deve ser destacado o modo pelo qual o bebê torna-se capaz de viver sem a dependência direta dos cuidados maternos. Isto acontece na medida em que a criança passa a fazer uso dos objetos e fenômenos transicionais - experiência que abrirá caminho para o brincar infantil e, porteriomente, para o uso da linguagem e inserção no mundo cultural.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Em seu artigo <i>Objetos transicionais e fenômenos transicionais</i>, Winnicott (1951/1971), deixa claro que a questão investigada não deve ser entendida como um estudo do primeiro objeto <i>não-eu</i>, mas sim do uso feito desta primeira possessão. Desta forma, o objeto transicional pode se materializar num ursinho, numa boneca, num cobertor, num novelo de lã, etc. O importante é notar que esse objeto não pertence exclusivamente ao campo subjetivo e nem somente ao mundo externo, em outros termos, à realidade compartilhada: "não é um objeto interno (que é um conceito mental) - é uma possessão. Tampouco é (para o bebê) um objeto externo" (p. 24). Desta forma, é possível afirmar que os objetos e fenômenos transicionais não fazem parte e nem são distintos do eu. É de fato um objeto qualquer, mas que desempenha uma função psíquica de valor fundamental para o desenvolvimento, posto que funciona como uma simbolização da ausência materna, como símbolo que substitui a mãe, auxiliando na separação entre <i>eu/não-eu</i>. Sendo assim, é possível vincular o início da atividade de pensar e fantasiar ao uso dos objetos transicionais já que, diferentemente do seio materno, não disponível todo o tempo, o objeto transicional é controlado pela criança que, por sua vez, possui a capacidade de obter sua posse total e, consequentemete, o poder mantê-lo tal como desejar, assegurando-lhe conforto e confiança.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O objeto transicional transporta o indivíduo dos limites de sua subjetividade para a objetividade, proporcionando a gradual adaptação ao mundo externo a partir, digamos assim, da capacidade de <i>habitar a realidade compartilhada. </i>Se retornarmos à análise feita por Heiddeger do sentido da palavra habitar (<i>buan</i>), vemos que esta guarda a mesma acepção de construir e que sua derivação (<i>bauen</i>) significa também confiar. Todos esses termos carregam consigo a ideia de permanecer, morar e ser numa situação de continuidade. Diante disto, é possível afirmar que <i>só é possível habitar a realidade compartilhada a partir do </i><i> estabelecimento de um sentimento de confiança</i><i>no ambiente</i>.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Em outras palavras, é a partir do sentimento de confiança que a criança adquire a segurança necessária para o desenrolar do processo de integração rumo à independência. Neste estágio do desenvolvimento, o sentimento de confiança proporciona a edificação de uma morada no mundo em que a realidade é percebida de forma objetiva e compartilhada com os outros. O reconhecimento objetivo da realidade é estabelecido ao longo do processo de separação mãe-bebê intermediado pelo uso dos objetos e fenômenos transicionais. O objeto transicional é produzido nos espaços de tempo estabelecidos pelas ausências maternas. Este intervalo pode ser considerado como propiciador da experiência de frustração que, quando bem dosada, permite à adaptação à realidade.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Portanto, a partir de uma dose de cuidado negativo, a experiência de não atendimento das necessidades infantis imposta pela realidade externa é introduzida, propiciando ao bebê a percepção dos objetos como separados de si mesmo e, consequentemente, instalando a divisão <i>eu/não-eu</i>. Para a criança lidar com a realidade de forma compartilhada é necessário não somente que os objetos sejam percebidos como externos e separados do eu, mas também, como permanentes no tempo e no espaço. Diante disso, pode-se pensar que o sentimento de identidade exige oposição <i>eu/não-eu</i>. Isto traz consigo a ideia de que é a partir do encontro com o <i>não-eu </i>que a criança descobre o eu e, consequentemente, os objetos podem ser objetivamente percebidos como externos.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">À luz do que foi exposto, podemos verificar que, gradualmente, a partir do processo de constituição do eu, quando realizado sob uma atmosfera da confiança, a criança sente-se segura para entrar em contato com a realidade compartilhada. Desta forma, torna-se possível atribuir externalidade aos objetos, retirando-os da área subjetiva a ponto de ser possível compartilhar com os outros. Esta conquista propicia o sentimento de confiança pessoal, garantindo permanência, estabilidade e continuidade que, por sua vez, possibilitam a condição de habitar o mundo e tornar-se parte deste sem misturar-se com o mesmo.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Considerações finais</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">De acordo com o pensamento de Heidegger, t odo <i>construir</i> contém a ideia de <i>habitar</i>, ou seja, <i>ser e estar </i>sobre a Terra. O termo <i>construir</i>, nessa medida, remete à experiência daquilo que <i>sempre é,</i> de forma <i>habitual</i> e <i>contínua</i>. Dito de outra forma, o termo <i>construir</i> carrega em si mesmo a ideia de <i>ser</i> e <i>estar</i> sobre a terra, isto é, de <i>habitar</i>. Sendo assim, podemos dizer que <i>construir</i>, em sua essência, significa <i>ser</i> na medida em que se <i>habita</i>.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">H eidegger (1951) considera o <i>habitar</i> como o traço essencial do <i>ser</i>, o que se reflete num <i>deixar-ser</i>, numa situação de continuidade. O traço fundamental do <i>habitar</i> para Heidegger é o <i>resguardo</i>, isto é, o recolhimento da intimidade necessário ao encontro com o <i>ser</i>. Enquanto isso, Winnicott entende que desde as etapas mais primitivas da existência humana, o indivíduo não pode ser pensado como fenômeno isolado, apartado do meio que o circunda. O que existe é o par ambiente-indivíduo, construído a partir da experiência inicial vivida pela dupla mãe-bebê. É a partir das interações físicas entre a mãe e o bebê e das experiências da mutualidade que processo de construção do <i>self</i> do infante se desenvolve, dando-se o assentamento da psique no corpo físico (ou <i>soma</i>), isto é, a sensação de <i>habitar</i> o próprio corpo.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Por outro lado, Winnicott considera que é preciso que sejam desempenhados cuidados físicos - como o de ser sustentado com segurança e te r suas necessidades apaziguadas - para que o bebê possa ir adquirindo a<i>confiança</i> necessária para prosseguir em seu processo de integração do <i>self</i> até conquistar o sentimento de <i>existir</i>. Dito de outra forma, é a partir da construção da confiança no ambiente que o bebê pode , gradualmente, fazer a distinção entre <i>eu/não-eu</i>, de maneira a reconhecer a existência - de uma realidade externa e se perceber como um indivíduo autônomo, separado da mãe. É importante observar, portanto, que na perspectiva de Winnicott o sentimento de <i>existir</i> é tratado como uma <i>conquista</i> da criança que, com o apoio e os cuidados da mãe-ambiente, conseguiu progredir nas etapas do processo de desenvolvimento e integração do <i>self</i>. Este é o estágio da dependência relativa, que ocorre entre 6 meses a 2 anos de idade. O desenvolvimento bem sucedido desse estágio conduz ao reconhecimento da existência de uma realidade externa.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Para Winnicott, o reconhecimento objetivo da realidade é estabelecido ao longo do processo de separação mãe-bebê intermediado pelo uso dos objetos e fenômenos transicionais. A função do objeto transicional é transportar o indivíduo dos limites de sua subjetividade para a objetividade, proporcionando a gradual adaptação ao mundo externo<i>.</i> Dessa forma, torna-se possível perceber que, na visão winnicottiana, a <i>confiança</i> do bebê na mãe-ambiente é algo fundamental para que ele possa adquirir o sentimento de <i>existir</i> e, posteriormente, <i>habitar</i> a realidade compartilhada. Nessa perspectiva, podemos dizer que é preciso <i>confiar</i> para <i>habitar</i>.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Em outras palavras: é partir do sentimento de confiança que a criança irá avançar em seu processo de formação de um <i>self</i> autônomo e sentir-se segura para <i>habitar</i> a realidade compartilhada.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Referências</b></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">BACHELARD, Gaston. A Poética do Espaço. In: BACHELARD, Gaston. <i>Os pensadores</i><i> XXXVIII</i>. São Paulo: Abril Cultural, 1974. p. 359; 365-366.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4713976&pid=S1413-6295201600020000900001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">BREZOLIN, Renan de Lima; PINHEIRO, Nadja Nara Barbosa. Construção, interpretação e holding: reflexões a partir de um acontecer clínico. <i>Cad. Psicanál. (CPRJ)</i>, Rio de Janeiro, v. 33, n. 25, p. 258-271, 2011, p. 266. Disponível em: &#60;http://www.cprj.com.br/imagenscadernos/caderno25_pdf/21_CP_25_CONSTRUCAO_INTERPRETACAO_E_HOLDING.pdf&#62;. Acesso em: 03 ago. 2015.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4713978&pid=S1413-6295201600020000900002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">COUTINHO, F. <i>O ambiente facilitador</i>: a mãe suficientemente boa. In: PODIKAMINI, Angela B.; GUIMARÃES, Marco Antônio C. (Org.). <i> Winnicott</i><i>:</i> 100 anos de um analista criativo. Rio de Janeiro: Nau, 1997. p. 103.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4713980&pid=S1413-6295201600020000900003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. <i>Novo dicionário da língua portuguesa</i>. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4713982&pid=S1413-6295201600020000900004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">HEIDEGGER, M. (1951). <i>Construir, habitar, pensar.</i> Trad. Marcia Sá Cavalcante Schuback. Disponível em: &#60;http://www.prourb.fau.ufrj.br/jkos/p2/heidegger_construir,%20habitar,%20pensar.pdf&#62;. Acesso em: 30 jan. 2016.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4713984&pid=S1413-6295201600020000900005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">HEIDEGGER, M.; BOSS, M. (Org.). <i> Seminários de Zollikon</i>. Petrópolis: Vozes; Bragança Paulista, SP: Universitária São Francisco, 2009.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">HEIDEGGER, M. (1927). <i>Ser e tempo</i>. Tradução Márcia Sá Cavalcanti Schuback. 10. ed. Petrópolis: Vozes; Bargança Paulista: Editora Universitária São Francisco, 2015. p. 359-384.</font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">HEIDEGGER, M. (1927). <i> Ser y tiempo</i>. 2&#170; ed. Tradução Jorge Eduardo Rivera. Santiago de Chile: Editorial Universitária, 1998.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4713988&pid=S1413-6295201600020000900008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">HEIDEGGER, M. (1987). <i>Seminários de Zollikon</i>. Petrópolis: Vozes, 2001.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4713990&pid=S1413-6295201600020000900009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">JARDIM, Luis Eduardo. <i>A preocupação liberadora no contexto da prática terapêutica</i>. Trabalho de conclusão de curso (Graduação) - Faculdade de Psicologia PUC-SP, Pontifícia Universidade Católica, São Paulo, 2003. p. 3.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4713992&pid=S1413-6295201600020000900010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">KELLER, Alfred J. (Ed.). Michaelis: minidicionário alemão:... 2. ed. São Paulo: Melhoramentos, 2010. p. 31.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4713994&pid=S1413-6295201600020000900011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">KLAUTAU, Perla; SALEM, Pedro. <i>Dependência e construção da confiança</i>: a clínica psicanalítica nos limites da interpretação. <i>Nat. hum</i>. São Paulo, v. 11, n. 2, fev. 2009, p. 38. Disponível em: &#60;http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&#38;pid=S151724302009000200002&#38;lng%20pt&#38;nrm=iso&#62;. Acesso em: 02 ago. 2015.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4713996&pid=S1413-6295201600020000900012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">LOPARIC, Zeljko. Heidegger e Winnicott. <i> Winnicott e-prints</i>, São Paulo, v. 1, n. 2,p. 1-18, 2006. Disponível em &#60;http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&#38;pid=S1679-432X2006000200002&#38;lng=pt&#38;nrm=iso&#62;. Acesso em: 31 jan. 2016.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4713998&pid=S1413-6295201600020000900013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">RAMOS, M.; Stein, L. M. Desenvolvimento do comportamento alimentar infantil. <i>Jornal de Pediatria</i>, 76, 229-237. Suplemento 3.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4714000&pid=S1413-6295201600020000900014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">SALEM, Pedro. <i>A gramática da quietude: </i>um estudo sobre o hábito e confiança na formação da identidade. 2006. 148f. Tese (Doutorado) - Instituto de Medicina Social, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2006. p. 90-106.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4714002&pid=S1413-6295201600020000900015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">SALEM, Pedro. Reflexões sobre confiança e hábito em D.w. Winnicott e J. Dewey. In: ORTEGA, Francisco; BEZERRA Jr., Benilton. <i>Winnicott e seus interlocutores</i>... Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2007.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4714004&pid=S1413-6295201600020000900016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">SEIBT, Cézar Luís. Temporalidade e propriedade em Ser e Tempo de Heidegger. <i> Rev. Filos</i>. <i>Aurora</i>, Curitiba, v. 22, n. 30, p. 247-266, jan. /jun., 2010, p. 250-253.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4714006&pid=S1413-6295201600020000900017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">WINNICOTT, D. W (1945). Desenvolvimento emocional primitivo. WINNICOTT, D. W. <i>Textos selecionados</i>: da pediatria à psicanálise. 2. ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1978. p. 269-285.</font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">WINNICOTT, D. W (1948). Pediatria e psiquiatria. In: WINNICOTT, D. W. (1948). Pediatria e psiquiatria. 1958. p. 237-238.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4714009&pid=S1413-6295201600020000900019&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">WINNICOTT, D. W (1958). <i>O ambiente e os processos de maturação</i>: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Trad. Irineo Constantino Schuch Ortiz. Porto Alegre: Artmed, 1983. p. 81, 84, 87.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4714011&pid=S1413-6295201600020000900020&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">WINNICOTT, D. W (1960). The theory of the parent-infant relationship<i>.</i> In: CALDWELL, L.; JOYCE, A. (Ed.). <i>Reading Winnicott.</i> Routledge: London, 2011. p. 168.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4714013&pid=S1413-6295201600020000900021&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">WINNICOTT, D. W (1987). <i>Os bebês e suas mães</i>. 3&#170; ed. São Paulo: Martins Fontes, 2006.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4714015&pid=S1413-6295201600020000900022&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">WINNICOTT, D. W (1988). <i>Natureza humana</i>. Tradução de: Human Nature. Rio de Janeiro: Imago, 1990.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4714017&pid=S1413-6295201600020000900023&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">WINNICOTT, D. W (1967). Mirror-role of mother and family in child development. In: WINNICOTT, D. W. <i>Playing and reality</i>. London: Tavistock, 1975.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4714019&pid=S1413-6295201600020000900024&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">WINNICOTT, D. W (1986). <i>Tudo começa em casa</i>. São Paulo: Martins Fontes, 2011. p. 23.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4714021&pid=S1413-6295201600020000900025&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Artigo recebido em: 06/04/2015    <br> Aprovado para publicação em: 08/10/2016</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><a name="end"></a><a href="#top"> Imagem Seta <b> Endereço para correspondência</b></a>    <br> <b>Maria Teresa Saldanha</b>    <br> E-mail: <a href="mailto:Texto">mtsaldanha@terra.com.br</a></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><a name="Autora" href="#Autor"><sup>*</sup></a>Mestranda em Psicanálise, Saúde e Sociedade/Universidade Veiga de Almeida.    <br> <a name="Autora1" href="#Autor1"><sup>**</sup></a>Psicanalista, membro efetivo Círculo Psicanalítico do Rio de Janeiro (CPRJ), profa. Programas de Mestrado Profissional e Doutorado em Psicanálise, Saúde e Sociedade/Universidade Veiga de Almeida.    <br> <a name="2"></a><a href="#Link1"><sup>1</sup></a>Este artigo foi produzido no âmbito da pesquisa <i>O método psicanalítico e suas extensões: o lugar da dimensão não-discursiva no processo de associatividade</i>, realizada com recursos da Fundação Nacional de Desenvolvimento do Ensino Superior Particular (FUNADESP).    ]]></body>
<body><![CDATA[<br> <a name="4"></a><a href="#Link3"><sup>2</sup></a>Esta tarefa que tem sido desempenhada ao longo de alguns anos pelo filósofo Z. Loparic. Sobre o tema, recomendamos a leitura de LOPARIC, Zeljko. Heidegger e Winnicott. Winnicott e-prints, São Paulo, v. 1, n. 2, p. 1-18, 2006.    <br> <a name="6"></a><a href="#Link5"><sup>3</sup></a>Heidegger (1951/1954) destaca que um vestígio encontra-se resguardado ainda na palavra <i>Nachbar</i>, vizinho. O <i>Nachbar</i> (vizinho) é o <i>Nachgebur</i>, o <i>Nachgebauer</i>, aquele que habita a proximidade.    <br> <a name="8"></a><a href="#Link7"><sup>4</sup></a>Aqui, cumpre esclarecer que o verbo edificar - que significa erguer; levantar; ou construir algo - tem origem na palavra latina "aedificare".</font></p>      ]]></body>
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