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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This paper aims to determine the causes of racism and discrimination through a psychosocial perspective, demonstrating the cultural roots of prejudiced manifestations and its origins in the myth of the scapegoat. The objective is, thus, to show our almost complete immersion in the dominant ideology, dealing mainly with the concepts of social imaginary, ideology, hegemony and authority and its historical construction. An anti-authoritarian point of view is placed. Through it, Psychology's challenge in getting rid of its manacles, imposed by the dominant ideology, that hinders it from being a science not involved with the dominant classes.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>ARTIGOS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="4"><b><a name="top"></a>Pluralidade    racial: um novo desafio para a psicologia</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Caio Maximino    de Oliveira</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Estudante do 2o.    ano noturno na UNESP - Bauru. Ligado ao Coletivo Samizdat, &agrave; Mail Art    e ao Grupo de Estudos Sociais Universidade Invis&iacute;vel</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><a href="#back">Endere&ccedil;o    para correspond&ecirc;ncia</a></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr size="1" noshade>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>RESUMO</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Esse artigo tem    por objetivo analisar os elementos que constituem o racismo e a discrimina&ccedil;&atilde;o    por meio de uma perspectiva psicossocial, demonstrando as ra&iacute;zes culturais    das manifesta&ccedil;&otilde;es de preconceito e sua origem no mito do bode    expiat&oacute;rio. Visa mostrar a nossa imers&atilde;o quase completa na ideologia    dominante, jogando principalmente com os conceitos de imagin&aacute;rio social,    ideologia, hegemonia e autoridade e sua constru&ccedil;&atilde;o social. Apresenta    um ponto de vista anti-autorit&aacute;rio e por meio deles, demonstra o desafio    da Psicologia em se livrar dos grilh&otilde;es impostos pela ideologia dominante    que a impedem de ser ci&ecirc;ncia n&atilde;o comprometida com as classes dominantes.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Palavras-chave:</b>    Racismo, ideologia, autoridade, imagin&aacute;rio social.</font></p> <hr size="1" noshade>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>ABSTRACT</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">This paper aims    to determine the causes of racism and discrimination through a psychosocial    perspective, demonstrating the cultural roots of prejudiced manifestations and    its origins in the myth of the scapegoat. The objective is, thus, to show our    almost complete immersion in the dominant ideology, dealing mainly with the    concepts of social imaginary, ideology, hegemony and authority and its historical    construction. An anti-authoritarian point of view is placed. Through it, Psychology's    challenge in getting rid of its manacles, imposed by the dominant ideology,    that hinders it from being a science not involved with the dominant classes.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Keywords:</b>    Racism, ideology, autorithy, social imaginary.</font></p> <hr size="1" noshade>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A democracia racial    brasileira &eacute; um grande sofismo, uma armadilha de urso que nos captura    e n&atilde;o nos permite enxergar a falta de negros nos shopping centers e sua    presen&ccedil;a quase exclusiva na periferia, o campo de concentra&ccedil;&atilde;o    da pol&iacute;tica neoliberal. H&aacute; a pluralidade racial, mas n&atilde;o    h&aacute; a igualdade de oportunidades nem a igualdade de rela&ccedil;&otilde;es.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Nunca poderia haver    numa sociedade que estabelece rela&ccedil;&otilde;es de domina&ccedil;&atilde;o    em todos os n&iacute;veis - em que o pr&oacute;prio Estado "ap&oacute;ia-se    sobre o paradigma domina&ccedil;&atilde;o/submiss&atilde;o que impregna a sucess&atilde;o    das gera&ccedil;&otilde;es e a diferen&ccedil;a dos sexos" (Colombo, 2001, p.    32). A igualdade pressup&otilde;e necessariamente conceituar e julgar o outro    como respons&aacute;vel pela sua identidade, que s&oacute; se forma enquanto    alteridade e como ser humano. O produto social constr&oacute;i na sociedade    a no&ccedil;&atilde;o de <i>identidade cultural: ''Na estrutura da domina&ccedil;&atilde;o</i>    unem-se o fantasma, o mito e a institui&ccedil;&atilde;o" (Colombo, 2001, p.    32). Todo individualismo &eacute; um universalismo, j&aacute; nos professavam    os anarco-comunistas do s&eacute;culo XIX. Se essa m&aacute;xima &eacute; verdadeira,    ent&atilde;o o que queremos &eacute; ser iguais. Diferentemente iguais.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Por discrimina&ccedil;&atilde;o,    entendemos a separa&ccedil;&atilde;o, aparta&ccedil;&atilde;o ou segrega&ccedil;&atilde;o    com base em ra&ccedil;a, sexo, orienta&ccedil;&atilde;o sexual, idade ou qualquer    caracter&iacute;stica que se atribua como indesejada sem base em racioc&iacute;nio    l&oacute;gico e prova cient&iacute;fica. Resumindo, a pol&iacute;tica que objetiva    separar e isolar no seio de uma sociedade as minorias. Uma minoria pode ser    racial, social, religiosa etc.; &eacute; poss&iacute;vel delimitar duas formas    principais de preconceito: o preconceito flagrante (forma aberta) e o preconceito    sutil (forma disfar&ccedil;ada). Na nossa sociedade, o preconceito n&atilde;o    se estabelece majoritariamente pela atribui&ccedil;&atilde;o de caracter&iacute;sticas    negativas, mas pela nega&ccedil;&atilde;o de caracter&iacute;sticas positivas    aos grupos discriminados. Assim, poderia afirmar-se que o preconceito sutil    trabalha mais profundamente na nossa sociedade, arraigado no pr&eacute;-consciente    pela ideologia dominante.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Por ideologia dominante,    podemos entender a "elabora&ccedil;&atilde;o intelectual incorporada pelo senso    comum social" (Chau&iacute;, 1999, p.174), cuja fun&ccedil;&atilde;o principal    &eacute; "ocultar e dissimular as divis&otilde;es sociais e pol&iacute;ticas,    dar-lhes apar&ecirc;ncia de indivis&atilde;o e de diferen&ccedil;as naturais    entre os seres humanos" (Chau&iacute;, 1999, p. 174). Desse modo, podemos observar    tr&ecirc;s procedimentos da ideologia, como nos aponta Chau&iacute;: a invers&atilde;o,    posi&ccedil;&atilde;o dos efeitos no lugar das causas, fabricando id&eacute;ias    e falsas causalidades; a produ&ccedil;&atilde;o do imagin&aacute;rio social,    transformando imagens diretas e imediatas da experi&ecirc;ncia social em um    conjunto coerente, l&oacute;gico e sistem&aacute;tico de id&eacute;ias, e o    sil&ecirc;ncio, as brechas que s&atilde;o ignoradas por negarem a coer&ecirc;ncia    e a unidade da ideologia (Chau&iacute;, 1999, pp. 174-175).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O julgamento humano    sobre o diferente, em nossa rela&ccedil;&atilde;o espa&ccedil;o-temporal, calca-se    na desigualdade. A sociedade ocidental moderna -capitalista, heterogestion&aacute;ria,    patriarcal, viciada em hierarquias - parece ser viciada na segrega&ccedil;&atilde;o    do diferente. Um dos alicerces morais dessa sociedade parece ser que confirmamos    nossa lealdade ao grupo ao afirmar a deslealdade de outros. Nossa lealdade ao    grupo parece seguir uma l&oacute;gica de mercado: ela &eacute; comprada. Compramos    nossa participa&ccedil;&atilde;o na comunidade atrav&eacute;s da exclus&atilde;o    de outros.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Se compararmos    o canibal "primitivo" ao homem "moderno", podemos observar, nesse ponto, diferen&ccedil;as    e semelhan&ccedil;as. O canibal incorpora suas v&iacute;timas para conseguir    virtude; expelimos nossas v&iacute;timas para conquistar inoc&ecirc;ncia. O    nosso crime n&atilde;o &eacute; apenas mais complexo, mas talvez seja tamb&eacute;m    mais grave. E &eacute; o crime que todos n&oacute;s, como sociedade, exigimos    mutuamente. A recusa a perseguir um bode expiat&oacute;rio socialmente aceito    &eacute; interpretada como um ataque &agrave; sociedade. Isso ficou claro durante    a Inquisi&ccedil;&atilde;o, na Alemanha nazista, no Apartheid. &Eacute; igualmente    verdade, hoje, para o louco, para o homossexual, e ainda para as mulheres e    para os n&atilde;o-brancos. Defender os direitos dos supostos "divergentes"    &eacute; sentido como um ataque &agrave; integridade da sociedade. A tend&ecirc;ncia    &eacute; colocar o defensor no papel do advogado insensato (ou pior) dos "direitos"    dos "tarados sexuais" para incomodar pessoas do mesmo sexo, ou de "man&iacute;acos    suicidas" para atacar seus vizinhos. O fato de que se comete mais viol&ecirc;ncia    contra esses segregados do que aquela que estes cometem contra os outros n&atilde;o    importa. A a&ccedil;&atilde;o da tribo, ou do coletivo, do Estado, &eacute;    sentida como correta; a do indiv&iacute;duo independente, como errada. Kenneth    Burke estava parcialmente certo ao concluir que "o princ&iacute;pio de sacrificar    ("o bode expiat&oacute;rio") &eacute; intr&iacute;nseco &agrave; reuni&atilde;o    humana" (Burke, 1968, p. 450). Parcialmente porque percebe essa tend&ecirc;ncia    da sociedade moderna em fazer isso, mas tamb&eacute;m errou ao dizer que isso    &eacute; intr&iacute;nseco &agrave; natureza da sociedade humana. Quando se    diz que algo &eacute; natural, diz-se que n&atilde;o pode ser mudado. Se acharmos    que n&atilde;o h&aacute; mudan&ccedil;a, nos tornamos v&iacute;timas do conformismo.    Bruke resume da seguinte maneira seu argumento a respeito: "Se existe ordem    (social), existe culpa; se existe culpa, existe necessidade de reden&ccedil;&atilde;o;    mas qualquer "pagamento" desse tipo &eacute; fazer v&iacute;timas. (...) Ou,    se existe a&ccedil;&atilde;o, existe drama; se existe drama, existe conflito;    se existe conflito, existem v&iacute;timas" (Burke, 1968, p. 450). A convic&ccedil;&atilde;o    profunda de que as v&iacute;timas devem, de algum modo, ser culpadas e merecedoras    de seu destino - em outras palavras, que, porque foram castigadas (e a segrega&ccedil;&atilde;o    racial constitui, sim, um castigo), devem ter sido culpadas da perturba&ccedil;&atilde;o    da ordem social - &eacute; exemplificada por Hannah Arendt, quando observa que    "o senso comum reagiu aos horrores de Buchenwald e Auschwitz com o argumento    plaus&iacute;vel de que (sic) 'que crime essas pessoas devem ter cometido para    que fizessem tais coisas com elas!'" (Arendt, 1951, p. 418).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Sempre que o homem    deseja degradar, explorar, oprimir ou matar o Outro, declara que este n&atilde;o    &eacute; "realmente" humano. Isso tem sido um aspecto caracter&iacute;stico    de conquistas, escraviza&ccedil;&otilde;es e assassinatos em massa, em toda    a Hist&oacute;ria. Na realidade, o opressor precisa sempre saber se a v&iacute;tima    &eacute; ou n&atilde;o um ser (integralmente) humano. Esse foi o problema b&aacute;sico    no anti-semitismo sistem&aacute;tico na Espanha e na Alemanha; nas ca&ccedil;as    &agrave;s bruxas na Europa; na escravid&atilde;o negra nos Estados Unidos, e    na persegui&ccedil;&atilde;o moderna, praticamente em todo o mundo, do diferente.    Afinal, se a v&iacute;tima <i>n&atilde;o</i> &eacute; integralmente humana,    se <i>n&atilde;o</i> &eacute; uma pessoa, disso decorre que, tal como um gato,    um c&atilde;o ou qualquer outro ser n&atilde;o-humano, n&atilde;o pode aspirar    aos direitos garantidos a todo ser humano (Ssazz, 1971, pp. 323-327).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Quem quer que valorize    a liberdade individual, a diversidade humana e o respeito por pessoas n&atilde;o    pode deixar de ficar consternado com o espet&aacute;culo atual (como adverte    Emerson, "por toda parte a sociedade conspira contra o valor de cada um dos    seus membros. A virtude mais exigida &eacute; o conformismo. A confian&ccedil;a    em si mesmo &eacute; sua avers&atilde;o" (Emerson, 1954, p. 55) onde pintar    p&aacute;ssaros se tornou uma atividade aceita, e que, entre as cores mais usadas,    vejamos a segrega&ccedil;&atilde;o em todas as partes.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Essa segrega&ccedil;&atilde;o,    esse mito do bode expiat&oacute;rio, tem sua origem no imagin&aacute;rio social.    Colombo nos coloca:</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A dimens&atilde;o    do imagin&aacute;rio social n&atilde;o &eacute; apenas o local da ilus&atilde;o,    da mistifica&ccedil;&atilde;o, da fraude. A materialidade cotidiana do mundo    constr&oacute;i-se sobre projetos que j&aacute; s&atilde;o tradi&ccedil;&otilde;es,    sobre mitos que foram profecias, sobre utopias transformadas em realidades.    &Eacute; uma mat&eacute;ria viva, din&acirc;mica, em perp&eacute;tuo movimento,    mas "curvada" pela dupla <i>lei do movimento social:</i> a institucionaliza&ccedil;&atilde;o    e a repress&atilde;o (Colombo, 2001, pp. 16-17, it&aacute;licos no original).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Assim como o Complexo    de Edipo se constr&oacute;i no tabu do incesto (Freud, 1913), tamb&eacute;m    o racismo se constr&oacute;i no mito da diferen&ccedil;a, que s&oacute; existe    no imagin&aacute;rio social. A discrimina&ccedil;&atilde;o racial, verdadeira    Puls&atilde;o de Morte, s&oacute; t&ecirc;m realidade palp&aacute;vel no imagin&aacute;rio    social, nunca em uma verifica&ccedil;&atilde;o do real. A inferioridade de determinada    ra&ccedil;a, comportamento, orienta&ccedil;&atilde;o sexual - enfim, daquilo    que constitui a minoria - &eacute; uma fic&ccedil;&atilde;o, um mito inventado    pela sociedade para justificar suas a&ccedil;&otilde;es. Walter Benjamin nos    pontuava que o passado justificava as a&ccedil;&otilde;es no presente (Benjamim).    Pois bem, o mesmo mecanismo ocorre na discrimina&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Freud nos ensina    que toda viol&ecirc;ncia contra o Outro &eacute; uma viol&ecirc;ncia contra    si mesmo, uma tentativa de levar o eu a um estado inorg&acirc;nico anterior.    A isso, Freud chamou de Puls&atilde;o de Morte, que tem uma tend&ecirc;ncia    &agrave; repeti&ccedil;&atilde;o e vai contra o princ&iacute;pio do prazer.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Do mesmo modo,    a viol&ecirc;ncia vem em n&iacute;veis, e a cl&aacute;ssica agress&atilde;o    f&iacute;sica direta &eacute; somente a mais &oacute;bvia e facilmente observ&aacute;vel.    A discrimina&ccedil;&atilde;o sempre &eacute; viol&ecirc;ncia, visto que n&atilde;o    respeita o Outro, que viola sua integridade, que esvazia o sujeito de seu sentido,    de sua humanidade. A discrimina&ccedil;&atilde;o, desde a toler&acirc;ncia at&eacute;    a agress&atilde;o, &eacute; atividade teleol&oacute;gico-finalista, j&aacute;    que tem um fim em si mesma. A discrimina&ccedil;&atilde;o &eacute; teogonia    de si mesma.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A viol&ecirc;ncia    da discrimina&ccedil;&atilde;o passa pelo mutismo da sociedade. Paulo Endo,    em seu trabalho "A Viol&ecirc;ncia Intermin&aacute;vel: Onde Ela Estanca?",    apresentado no XI Encontro Nacional da Associa&ccedil;&atilde;o de Psicologia    Social, afirmou que "o mutismo da viol&ecirc;ncia sentida retrata-se no mutismo    da viol&ecirc;ncia assentida" (Endo, 2001)<a name="top1"></a><a href="#back1"><sup>1</sup></a>    . Esse processo s&oacute; pode se manter com o consenso da sociedade atrav&eacute;s    do mito fundador da diferen&ccedil;a, que existe no imagin&aacute;rio social.    Walter Benjamin, em sua obra incompleta "O Livro das Passagens", estabelece    a imagem dial&eacute;tica do mito enquanto tentativa de fundar-se uma rela&ccedil;&atilde;o    com o passado. Benjamin relata a super-estrutura do capitalismo moderno como    mitologia do contempor&acirc;neo (Benjamim, s/d). A narrativa do mito da diferen&ccedil;a,    que &eacute; categoria necess&aacute;ria &agrave; justificativa do preconceito,    &eacute; a reden&ccedil;&atilde;o e a salva&ccedil;&atilde;o do passado caracter&iacute;stica    da escatologia que &eacute; a mitologia do contempor&acirc;neo, oferecendo o    ideal her&oacute;ico de ser humano imposto na sociedade brasileira atual (branco,    rico, do sexo masculino, heterossexual e cat&oacute;lico). A an&aacute;lise    dessa rela&ccedil;&atilde;o entre a fantasia e o preconceito pode ser feita    atrav&eacute;s da frase de Adorno: "a realidade tornou-se teologia de si mesma",    e isso constitui o fetichismo contempor&acirc;neo, onde &eacute; poss&iacute;vel    dizer que realidade e ilus&atilde;o se misturam. Somente o sujeito esvaziado    de si mesmo, o sujeito que mistura realidade e ilus&atilde;o, esse sujeito imag&eacute;tico    do capitalismo contempor&acirc;neo &eacute; capaz de aceitar o preconceito da    forma como ele se imp&otilde;e.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A an&aacute;lise    do fen&ocirc;meno da discrimina&ccedil;&atilde;o ser&aacute; feita aqui em dois    recortes: a hist&oacute;ria da discrimina&ccedil;&atilde;o no Brasil e o mito    fundador da discrimina&ccedil;&atilde;o. Esses recortes pretendem analisar o    fen&ocirc;meno da discrimina&ccedil;&atilde;o enquanto processo psicossocial    recrudescido no mito da diferen&ccedil;a, tornando-se um recurso para entender    como fatores pol&iacute;tico-econ&ocirc;mico-sociais contribu&iacute;ram para    estruturar o preconceito na sociedade capitalista atual e qual a real extens&atilde;o    desse processo na forma&ccedil;&atilde;o da subjetividade.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>A Hist&oacute;ria    da Discrimina&ccedil;&atilde;o no Brasil</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A an&aacute;lise    hist&oacute;rica do preconceito leva &agrave; percep&ccedil;&atilde;o de como    a discrimina&ccedil;&atilde;o (de ra&ccedil;a, de sexo, de idade, de orienta&ccedil;&atilde;o    sexual, de classe econ&ocirc;mica) &eacute; um sintoma de nossa cultura. Assim,    entender a din&acirc;mica da discrimina&ccedil;&atilde;o &eacute; entender a    din&acirc;mica dessa sociedade e do sujeito que dela se apropria. Essa linha    do tempo recai sobre uma an&aacute;lise do espa&ccedil;o-tempo, concreto ou    virtual, e as transforma&ccedil;&otilde;es deste sob a &oacute;tica da ideologia    dominante:</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O que antes de    mais nada na verdade nos intranquiliza &eacute; a irreversibilidade do sofrimento    do <i>passado,</i> a injusti&ccedil;a em rela&ccedil;&atilde;o aos inocentemente    maltratados, desonrados e assassinados, injusti&ccedil;a que ultrapassa toda    escala de repara&ccedil;&atilde;o humana poss&iacute;vel. Perdeu-se a esperan&ccedil;a    na ressurrei&ccedil;&atilde;o, e isso deixa atr&aacute;s de si um vazio not&aacute;vel    (Habermas, 2002, p. 9).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Sem sombra de d&uacute;vida,    a hist&oacute;ria da discrimina&ccedil;&atilde;o no Brasil coincide com o momento    inicial da chegada dos europeus &agrave;s terras dominadas pelas comunidades    ind&iacute;genas. O registro da Hist&oacute;ria da <i>terra brasilis</i> do    ponto de vista dos europeus marca o primeiro momento, o alicerce inicial de    uma Hist&oacute;ria marcada pela hierarquiza&ccedil;&atilde;o de uma elite branca    sobre todas as outras ra&ccedil;as. A chegada de Cabral e sua esquadra trouxe    consigo o legado sangrento da escravid&atilde;o, essa verdadeira viol&ecirc;ncia    contra todos os n&atilde;o-brancos. A sociedade subseq&uuml;ente das col&ocirc;nias    em muito se assemelhava &agrave; de Portugal, no que se refere ao seu car&aacute;ter    fechado e aristocratizante. O Novo Mundo representava para os colonizadores    a possibilidade de um Para&iacute;so terreno, a gratifica&ccedil;&atilde;o do    Jardim do &Eacute;den:</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ao mesmo tempo    que vislumbravam na Am&eacute;rica a possibilidade de encontrar o para&iacute;so    terrestre gra&ccedil;as &agrave; sua beleza, diversidade e riqueza, os europeus    viam os homens americanos como poss&iacute;veis express&otilde;es do inferno,    j&aacute; que estes cultuavam outros deuses, tinham h&aacute;bitos diferentes    e alguns at&eacute; comiam carne humana (Montellato, 2000, p. 71).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Os autores continuam,    demonstrando as conseq&uuml;&ecirc;ncias dessa dicotomia:</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Assim, julgaram    que o diferente e desconhecido deveria ser dominado, destru&iacute;do ou transformado,    tendo por base o modelo do homem europeu. Em nome da salva&ccedil;&atilde;o    de suas almas, desconsideraram o modo de vida desses povos. Muitos ind&iacute;genas    foram mortos e sua cultura, destru&iacute;da (idem, p. 71).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Os primeiros trinta    anos do dom&iacute;nio portugu&ecirc;s no Brasil (1500-1530) s&atilde;o chamados    de per&iacute;odo pr&eacute;-colonial, visto que o governo portugu&ecirc;s n&atilde;o    esbo&ccedil;ou um plano de ocupa&ccedil;&atilde;o da terra, limitando-se a explor&aacute;-la    periodicamente e a defend&ecirc;-la contra intromiss&otilde;es estrangeiras,    principalmente francesas. Importa, inicialmente, verificar a articula&ccedil;&atilde;o    da coloniza&ccedil;&atilde;o portuguesa na Am&eacute;rica com a quest&atilde;o    da acumula&ccedil;&atilde;o de capital na &aacute;rea central, isto &eacute;,    na Europa ocidental.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A coloniza&ccedil;&atilde;o    se deu por raz&otilde;es j&aacute; conhecidas: no territ&oacute;rio brasileiro    n&atilde;o existiam excedentes que pudessem ser apropriados pelos europeus,    impossibilitando o dom&iacute;nio atrav&eacute;s da instala&ccedil;&atilde;o    de feitorias. O "sentido" da coloniza&ccedil;&atilde;o ou a pr&oacute;pria ess&ecirc;ncia    do dom&iacute;nio portugu&ecirc;s no Brasil &eacute; expresso por Caio Prado    Jr.:</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Se vamos &agrave;    ess&ecirc;ncia da nossa forma&ccedil;&atilde;o, veremos que na realidade nos    constitu&iacute;mos para fornecer a&ccedil;&uacute;car, tabaco, alguns outros    g&ecirc;neros, mais tarde, ouro e diamantes; depois algod&atilde;o e, em seguida,    caf&eacute; para o com&eacute;rcio europeu. Nada mais que isto. &Eacute; com    tal objetivo, objetivo exterior, voltado para fora do Pa&iacute;s e sem aten&ccedil;&atilde;o    a considera&ccedil;&otilde;es que n&atilde;o fossem o interesse daquele com&eacute;rcio,    que se organizar&atilde;o a sociedade e a economia brasileiras. Tudo se dispor&aacute;    naquele sentido: a estrutura bem como as atividades do Pa&iacute;s. Vir&aacute;    o branco europeu para especular, realizar um neg&oacute;cio; inverter&aacute;    seus cabedais e recrutar&aacute; m&atilde;o-de-obra que precisa: ind&iacute;genas    ou negros importados. Com tais elementos, articulados numa organiza&ccedil;&atilde;o    puramente produtora, industrial, se constituir&aacute; a col&ocirc;nia brasileira    (Prado Jr., 1973, p. 25).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Dentro desse contexto,    organiza-se a produ&ccedil;&atilde;o colonial, calcada no trip&eacute;: monocultura,    latif&uacute;ndio e escravid&atilde;o, determinando um alto grau de especializa&ccedil;&atilde;o,    t&atilde;o bem assinalado por Fernando Novais:</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A economia colonial,    quando encarada no contexto da economia europ&eacute;ia, de que faz parte, &eacute;    seu centro din&acirc;mico, aparece como altamente especializada. E isto mais    uma vez se enquadra nos interesses do capitalismo comercial que geraram a coloniza&ccedil;&atilde;o:    concentrando os fatores na produ&ccedil;&atilde;o de alguns poucos produtos    comerci&aacute;veis na Europa, as &aacute;reas coloniais se constituem ao mesmo    tempo em outros tantos consumidores dos produtos europeus (Novais, 1968, p.    67).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Assim se estabelecem    os dois lados da apropria&ccedil;&atilde;o de lucros monopolistas a que nos    referimos acima. Novais continua:</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Mas n&atilde;o    s&oacute; na aloca&ccedil;&atilde;o de fatores produtivos, na elabora&ccedil;&atilde;o    de alguns produtos ao mercado consumidor europeu se revela a depend&ecirc;ncia    da economia colonial face ao seu centro din&acirc;mico. O sistema colonial determinar&aacute;    tamb&eacute;m o modo de sua produ&ccedil;&atilde;o. A maneira de se produzirem    os produtos coloniais fica, tamb&eacute;m, necessariamente, subordinada ao sentido    geral do sistema: isto &eacute;, a produ&ccedil;&atilde;o se devia organizar    de modo a possibilitar aos empres&aacute;rios metropolitanos ampla margem de    lucratividade. Ora, isto impunha a implanta&ccedil;&atilde;o, nas &aacute;reas    coloniais, de regimes de trabalho necessariamente compuls&oacute;rios, semi-servis    ou propriamente escravistas... &Eacute; em fun&ccedil;&atilde;o dessas determina&ccedil;&otilde;es    (abund&acirc;ncia do fator terra e produ&ccedil;&atilde;o vinculada do centro    din&acirc;mico metropolitano) que renasce na &eacute;poca moderna, no mundo    colonial, a escravid&atilde;o e toma uma gama de formas servis e semi-servis    de rela&ccedil;&otilde;es de trabalho, precisamente quando na Europa tende a    se consolidar a evolu&ccedil;&atilde;o no sentido contr&aacute;rio, isto &eacute;,    da difus&atilde;o cada vez maior do regime assalariado (idem, p. 67).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O final do texto    do professor Novais toca no ponto chave das discuss&otilde;es envolvendo o antigo    sistema colonial no que nos importa: a quest&atilde;o da escravid&atilde;o africana    ter existido no territ&oacute;rio americano. Com efeito, a historiografia tradicional    sempre insistiu na tese de que a introdu&ccedil;&atilde;o do negro africano    no Brasil se devia ao fato de que os &iacute;ndios eram "pregui&ccedil;osos,    ap&aacute;ticos" e desconheciam a agricultura. Esses mitos n&atilde;o resistem    &agrave; mais leve an&aacute;lise.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&Eacute; evidente    que n&atilde;o se pode concordar com a id&eacute;ia da "apatia" ou "pregui&ccedil;a"    do &iacute;ndio. A quest&atilde;o de se dizer que o &iacute;ndio "n&atilde;o    se adaptou" ao trabalho escravo tamb&eacute;m &eacute; imprudente, pois quem    se adapta a tal? Trabalho escravo &eacute; compuls&oacute;rio, n&atilde;o &eacute;    uma quest&atilde;o de adapta&ccedil;&atilde;o. Na realidade, por tr&aacute;s    desses mitos, esconde-se um violento racismo, pois est&aacute;-se afirmando    que o negro se adaptou &agrave; escravid&atilde;o, o que n&atilde;o &eacute;    verdade:</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Humilhado, espezinhado,    maltratado, submetido a vexames e at&eacute; sadismo inimagin&aacute;veis, como    salgamento de feridas produzidas por chicotadas, castra&ccedil;&atilde;o, corte    de seios, quebra de dentes a martelada e emparedamento vivo, o negro nunca aceitou    sua condi&ccedil;&atilde;o documente, como tantas vezes se propalou (L&oacute;pez,    1983a, p. 43).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">As revoltas, os    quilombos, as fugas e outras formas de resist&ecirc;ncia pontilharam o per&iacute;odo    colonial e demonstram a falsidade desses argumentos, a fantasia mitol&oacute;gica    que futuramente ir&aacute; se cristalizar em pr&aacute;tica corrente.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Na realidade, como    t&ecirc;m procurado alguns autores, recentemente, demonstrar, o que levou &agrave;    utiliza&ccedil;&atilde;o do escravo africano foi o tr&aacute;fico, uma das mais    rent&aacute;veis opera&ccedil;&otilde;es comerciais da &eacute;poca, garantia    de enormes possibilidades de acumula&ccedil;&atilde;o de capitais. Assim, os    interesses do tr&aacute;fico &eacute; que determinaram a exist&ecirc;ncia da    escravid&atilde;o e n&atilde;o o contr&aacute;rio.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Temos ent&atilde;o    um segundo momento, onde ocorre a crise desse sistema colonial. A partir de    um determinado momento, os alicerces do antigo sistema colonial sofrem uma fratura,    ocasionando o rompimento. &Eacute; preciso atentar ao fato de que a quest&atilde;o    fundamental para entender a crise est&aacute; diretamente relacionada com a    introdu&ccedil;&atilde;o do modo de produ&ccedil;&atilde;o capitalista, cujas    exig&ecirc;ncias n&atilde;o poderiam ser atendidas pelos mecanismos b&aacute;sicos    do antigo sistema colonial, j&aacute; que este fora o instrumento do capital    comercial.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Frisemos tamb&eacute;m    a influ&ecirc;ncia das id&eacute;ias iluministas nos movimentos emancipat&oacute;rios.    E ineg&aacute;vel que tais id&eacute;ias chegaram a ser conhecidas pelos elementos    das classes dominantes coloniais. Mas n&atilde;o se deve exagerar a penetra&ccedil;&atilde;o    das id&eacute;ias iluministas, na medida em que elas, no momento de sua formula&ccedil;&atilde;o,    atendiam basicamente aos interesses de uma burguesia europ&eacute;ia, sendo    outros os interesses das classes dominantes do Brasil colonial. Dessa forma,    enquanto a id&eacute;ia de igualdade, na Europa, pressupunha o combate &agrave;s    diversas formas de trabalho compuls&oacute;rio', na Am&eacute;rica, conforme    a regi&atilde;o, os interesses da classe dominante eram justamente no sentido    da manuten&ccedil;&atilde;o dessas formas compuls&oacute;rias. Portanto, a "independ&ecirc;ncia"    n&atilde;o se fez acompanhar, obrigatoriamente, do fim da escravid&atilde;o,    do fim do latif&uacute;ndio. Pelo contr&aacute;rio. Evidentemente, pode-se concluir    que a "independ&ecirc;ncia" interessou apenas a alguns segmentos da sociedade    colonial, que foram os &uacute;nicos beneficiados, uma vez que puderam atingir    o poder pol&iacute;tico que n&atilde;o possu&iacute;am enquanto o sistema colonial    esteve em funcionamento.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Um terceiro momento    desse nosso caminho historiogr&aacute;fico &eacute; a transi&ccedil;&atilde;o    para o trabalho assalariado e conseq&uuml;ente moderniza&ccedil;&atilde;o do    capitalismo no Pa&iacute;s, na segunda metade do s&eacute;culo XIX. Esse processo    estava, obviamente, associado ao surto imigrat&oacute;rio. Antes de 1850, algumas    tentativas de fixa&ccedil;&atilde;o do imigrante europeu haviam sido feitas,    mas nada de expressivo se alcan&ccedil;ara.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">As press&otilde;es    inglesas contra o tr&aacute;fico negreiro, presentes desde a assinatura dos    Tratados de 1810 e reiteradas quando de sua renova&ccedil;&atilde;o em 1827,    eram uma constante. O desdobramento natural da posi&ccedil;&atilde;o inglesa    levou o Parlamento ingl&ecirc;s a baixar o <i>Bill Aberdeen,</i> em 1845. Essa    medida se explica, inclusive, pela insist&ecirc;ncia do governo brasileiro,    controlado pela aristocracia rural escravocrata, em n&atilde;o cumprir os compromissos    assumidos com a Inglaterra para p&ocirc;r fim ao tr&aacute;fico, como a Lei    anti-tr&aacute;fico, de 1831. De acordo com o <i>Bill Aberdeen,</i> a Marinha    Brit&acirc;nica se atribu&iacute;a o direito de aprisionar navios suspeitos    de estarem praticando o tr&aacute;fico, com julgamento da tripula&ccedil;&atilde;o    pelo Almirantado Brit&acirc;nico. Evidentemente, o alvo eram os traficantes    brasileiros.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A solu&ccedil;&atilde;o    encontrada pelas elites agr&aacute;rias brasileiras foi o est&iacute;mulo &agrave;    imigra&ccedil;&atilde;o europ&eacute;ia. Num primeiro momento, tentou-se, sem    sucesso, o chamado "sistema de parceria", que atrelava o imigrante rec&eacute;m-chegado    ao Brasil &agrave; mais completa depend&ecirc;ncia em rela&ccedil;&atilde;o    ao propriet&aacute;rio da fazenda. Segundo esse sistema, o fazendeiro pagava    as despesas do imigrante (financiamento da viagem e das primeiras despesas do    imigrante e da fam&iacute;lia) e, em troca, este se comprometia a ressarcir    o fazendeiro mediante a comercializa&ccedil;&atilde;o (para o pr&oacute;prio    fazendeiro) de uma parte da produ&ccedil;&atilde;o conseguida pelo imigrante    e sua fam&iacute;lia. Em fun&ccedil;&atilde;o dos altos juros, o imigrante continuava,    permanentemente, na depend&ecirc;ncia do fazendeiro.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Diante do fracasso    desse sistema, alterou-se o esquema inicial da imigra&ccedil;&atilde;o. A partir    de ent&atilde;o, o governo imperial passou a custear as despesas da viagem,    ficando o fazendeiro respons&aacute;vel pela manuten&ccedil;&atilde;o do imigrante    e sua fam&iacute;lia por um ano. Acrescente-se que a corrente imigrat&oacute;ria    ganha &iacute;mpeto a partir de 1860, em fun&ccedil;&atilde;o dos movimentos    de unifica&ccedil;&atilde;o na It&aacute;lia e Alemanha (guerras) e devido ao    violento processo de proletariza&ccedil;&atilde;o dos trabalhadores rurais europeus,    o que implicava em conseq&uuml;ente expropria&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Obviamente, a aboli&ccedil;&atilde;o    n&atilde;o se transfigurou no sonho de igualdade que pretendia ser. "A pr&oacute;pria    cr&iacute;tica &agrave; escravid&atilde;o se fundava muitas vezes no racismo"    (Pedro et. al., 1988, p. 28). Isso porque acompanhava a apologia &agrave; imigra&ccedil;&atilde;o,    que sempre sonhou e visou a integrar um projeto modernizador que tinha como    categoria necess&aacute;ria a exig&ecirc;ncia do branqueamento da popula&ccedil;&atilde;o.    "Ao negro, considerado culturalmente inapto para participar desse processo civilizat&oacute;rio,    restava a marginaliza&ccedil;&atilde;o" (idem, p. 28). Emilia Costa disserta    sobre isso:</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A Aboli&ccedil;&atilde;o    n&atilde;o correspondeu nem aos receios dos escravistas, nem &agrave;s expectativas    dos abolicionistas. N&atilde;o foi cat&aacute;strofe nem reden&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Greg&oacute;rio    Bezerra conta, em suas mem&oacute;rias, a hist&oacute;ria de um preto que era    <i>feitor</i> numa fazenda do nordeste, onde Bezerra trabalhou quando menino    (na primeira d&eacute;cada deste s&eacute;culo). "Ele tinha sido escravo", escreve    Bezerra: "E tinha saudade da escravid&atilde;o, porque, segundo ele, naquela    &eacute;poca comia carne, farinha e feij&atilde;o &agrave; vontade e agora mal    comia um prato de xer&eacute;m com &aacute;gua e sal."</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Fruto do desespero    de um homem que depois da Aboli&ccedil;&atilde;o fora abandonado &agrave; pr&oacute;pria    sorte, sem que a sociedade lhe assegurasse m&iacute;nimas condi&ccedil;&otilde;es    de vida, esse depoimento de um escravo que tinha saudades da escravid&atilde;o    n&atilde;o deve ser entendido como um coment&aacute;rio a favor da escravid&atilde;o.    Ele &eacute;, de fato, um testemunho eloq&uuml;ente das condi&ccedil;&otilde;es    de vida em que se encontraram muitos ex-escravos, para os quais a Aboli&ccedil;&atilde;o    representara apenas o direito de ser <i>livre</i> para escolher entre a mis&eacute;ria    e a opress&atilde;o em que viveram (e ainda vivem) um grande n&uacute;mero de    trabalhadores brasileiros.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Dessa forma, a    Aboli&ccedil;&atilde;o foi apenas um primeiro passo em dire&ccedil;&atilde;o    &agrave; emancipa&ccedil;&atilde;o do povo brasileiro. O arb&iacute;trio, a    ignor&acirc;ncia, a viol&ecirc;ncia, a mis&eacute;ria, os preconceitos que a    sociedade escravista criou ainda pesam sobre n&oacute;s. Se &eacute; justo comemorar    o Treze de Maio, &eacute; preciso, no entanto, que a comemora&ccedil;&atilde;o    n&atilde;o nos ofusque a ponto de transformamos a liberdade que simboliza num    mito a servi&ccedil;o da opress&atilde;o e da explora&ccedil;&atilde;o do trabalho    (Costa, 1982, p. 96, it&aacute;licos no original).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A marginalidade    do negro relaciona-se &agrave; aboli&ccedil;&atilde;o da escravatura nesse sentido    de desapropria&ccedil;&atilde;o de sua pr&oacute;pria humanidade, de esvaziamento    do sentido de sua condi&ccedil;&atilde;o. O negro carrega at&eacute; o hoje    o estigma da escravid&atilde;o.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">E ent&atilde;o    entra o s&eacute;culo XX e uma nova forma de rela&ccedil;&atilde;o de trabalho,    o trabalho assalariado. Vemos a industrializa&ccedil;&atilde;o e a forma&ccedil;&atilde;o    de uma burguesia industrial urbana e sua classe antag&ocirc;nica, o proletariado:</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O moderno crescimento    industrial brasileiro marcou o fim da velha sociedade mandonista, herdeira do    per&iacute;odo colonial. Em termos gerais, o processo industrial em nosso pa&iacute;s    inseriu-se no contexto capitalista dos anos 30, marcado por uma profunda recess&atilde;o,    cujo primeiro sintoma tinha sido a queda da Bolsa de Valores de Nova York, em    1929 (L&oacute;pez, 1983b, p. 78).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Do ponto de vista    econ&ocirc;mico, a situa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o se altera muito com a mudan&ccedil;a    para o regime republicano, uma vez que o caf&eacute; continuou a ser o grande    produto da exporta&ccedil;&atilde;o brasileira at&eacute; a crise de 29, quando    se inicia o avan&ccedil;o do setor industrial. A partir de 1930, fruto dos compromissos    assumidos pelo governo Vargas com a nova classe industrial, pode-se observar    um impulso crescente na dire&ccedil;&atilde;o da industrializa&ccedil;&atilde;o.    A "Era Vargas" v&ecirc; algumas mudan&ccedil;as significativas.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&Eacute; prematuro    afirmar que as classes m&eacute;dias teriam chegado ao poder, uma vez que &eacute;    bem n&iacute;tida a presen&ccedil;a de antigas oligarquias na estrutura (o pr&oacute;prio    Vargas pertencia &agrave; oligarquia rio-grandense). Na realidade, o governo    Vargas &eacute; o t&iacute;pico "Estado de compromisso", na medida em que importantes    concess&otilde;es t&ecirc;m de ser feitas &agrave; classe m&eacute;dia e oper&aacute;ria.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O proletariado    urbano era composto por oper&aacute;rios nacionais e estrangeiros (na sua maioria).    As condi&ccedil;&otilde;es de vida da classe oper&aacute;ria eram as piores    poss&iacute;veis: longas jornadas de trabalho, baixos sal&aacute;rios, inexist&ecirc;ncia    de organiza&ccedil;&atilde;o sindical, inexist&ecirc;ncia de leis trabalhistas,    explora&ccedil;&atilde;o desenfreada do trabalho infantil e feminino. Depois    de 1930, como j&aacute; foi assinalado, o governo de Get&uacute;lio Vargas iniciou    uma pol&iacute;tica populista, evidentemente com o objetivo de manipular a crescente    classe oper&aacute;ria, a partir de determinadas concess&otilde;es. Nesse quadro,    explica-se a aprova&ccedil;&atilde;o da CLT (Consolida&ccedil;&atilde;o das    Leis Trabalhistas). Diga-se, a prop&oacute;sito, que essa lei foi inspirada    na <i>Carta del Lavoro,</i> do fascismo italiano.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Quem eram os trabalhadores?    Negros. Nordestinos. Imigrantes. Todos aqueles que n&atilde;o faziam parte do    modelo "privilegiado". Todos aqueles que ainda hoje s&atilde;o discriminados.    N&atilde;o &eacute; preciso se estender mais nessa historiografia do racismo    no Brasil. J&aacute; se demonstrou o que queria.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>O Mito Fundador</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Hoje, um dos problemas    fundamentais de uma proposta de mudan&ccedil;a na realidade - aquilo que Benjamin    chama de despertar do sonho para concretizar a utopia (Benjamin, s/d) - &eacute;    essa consci&ecirc;ncia dilacerante de estarmos fechados no c&iacute;rculo demon&iacute;aco    da repeti&ccedil;&atilde;o, sitiados pela capacidade onimodal do institu&iacute;do,    de recuperar, devorar tudo o que &eacute; inova&ccedil;&atilde;o, mudan&ccedil;a,    transforma&ccedil;&atilde;o. &Eacute; preciso reconhecer essa tend&ecirc;ncia    &agrave; repeti&ccedil;&atilde;o - que Freud chamava demon&iacute;aca -, quando    ela se op&otilde;e ao princ&iacute;pio de prazer, uma das caracter&iacute;sticas    pr&oacute;prias do inconsciente. O recalcado retorna &agrave; cena do real e    repete os gestos, os atos, os comportamentos ligados ao passado, a um conflito    n&atilde;o analisado. "O que permaneceu incompreendido retorna; tal uma alma    penada, n&atilde;o tem repouso at&eacute; que sejam reencontradas resolu&ccedil;&atilde;o    e liberta&ccedil;&atilde;o" (Freud, 1910). E o aspecto compulsivo da repeti&ccedil;&atilde;o    aparece como destino, como fracasso inevit&aacute;vel do imagin&aacute;rio prof&eacute;tico.    O reinado da ideologia dominante &eacute; o triunfo da puls&atilde;o de morte.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Puls&atilde;o de    morte, destino, eis a met&aacute;fora e a imagem do inelut&aacute;vel: elas    representam a vit&oacute;ria da profecia inicial. O mito fundador &eacute; respons&aacute;vel    pela ilus&atilde;o de destino, fatalidade, que acompanha a exist&ecirc;ncia    da fantasia da ideologia dominante e a traz o car&aacute;ter de necessidade.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Tomando por base    essa leitura, o trabalho do negativo amplia o campo de sua a&ccedil;&atilde;o    criativa. A "realidade social"-que se constitui imediatamente negando a si mesma    para tornar-se algo diferente do que &eacute; - n&atilde;o pode deixar de ser    trabalhada por inteiro por esse processo cr&iacute;tico da <i>nega&ccedil;&atilde;o</i>    (que n&atilde;o deve ser confundida com a (de)nega&ccedil;&atilde;o em seu sentido    psicanal&iacute;tico de defesa diante de uma representa&ccedil;&atilde;o que    n&atilde;o se quer admitir), esp&eacute;cie de ap&oacute;fase secular, que se    torna assim um elemento essencial do projeto de altera&ccedil;&atilde;o, de    mudan&ccedil;a e contribui para polarizar os movimentos sociais contra o car&aacute;ter    institu&iacute;do da ideologia dominante e sua viol&ecirc;ncia repressiva.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Diz&iacute;amos,    que a realidade social &eacute; constru&iacute;da, e que a dimens&atilde;o do    imagin&aacute;rio coletivo d&aacute;-lhe uma parte de sua direcionalidade, de    seu sentido. E o sentido, como toda atribui&ccedil;&atilde;o de significado,    &eacute; a resultante de um contexto m&iacute;tico, fantasm&aacute;tico e institucional.    &Eacute; nesse n&iacute;vel que se apresenta o problema da legitima&ccedil;&atilde;o    do saber, tanto narrativo quanto cient&iacute;fico.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O mito &eacute;    uma reflex&atilde;o circular sobre as origens e o fim. "Um mito, ou ent&atilde;o    a pr&aacute;tica que se funda a&iacute; e o atesta - a saber, o ritual - tem    sempre em algum lugar sua vers&atilde;o contradit&oacute;ria; vers&atilde;o    <i>que &eacute;, de fato, uma invers&atilde;o, um inverso"</i> (Valabrega, 1977,    p. 17, it&aacute;lico nosso).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Esse mito de que    nos fala Valabrega pode ser comparado &agrave; no&ccedil;&atilde;o benjaminiana    de <i>alegoria,</i> um procedimento ret&oacute;rico atrav&eacute;s do qual se    exprime um sentido, n&atilde;o imediatamente compreens&iacute;vel, diverso do    sentido literal<a name="top2"></a><a href="#back2"><sup>2</sup></a>:</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O alegorista, em    seu fazer art&iacute;stico, retira os objetos de sua localiza&ccedil;&atilde;o    hist&oacute;rica habitual e lhes confere, no novo contexto, um significado material    diverso do origin&aacute;rio. Pelas m&atilde;os do alegorista, o objeto &eacute;,    assim, extra&iacute;do do seu conte&uacute;do e esvaziado de sua significa&ccedil;&atilde;o    habitual. Com isso, o objeto morre para poder renascer. Ocorre, portanto, uma    pulveriza&ccedil;&atilde;o do mundo: a realidade &eacute; desmontada e reduzida    a fragmentos, sendo que cada um deles pode receber uma nova significa&ccedil;&atilde;o.    &Eacute; pr&oacute;prio do procedimento aleg&oacute;rico essa disjun&ccedil;&atilde;o    entre o <i>significado</i> (o conte&uacute;do, o que se expressa) e o <i>significante</i>    (a forma) (Frederico, 1997, p. 69, it&aacute;licos no original).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Luk&aacute;cs,    por isso, diferencia tamb&eacute;m alegoria de s&iacute;mbolo. Goethe define    a alegoria filosoficamente como um fazer po&eacute;tico em que o particular    remete ao universal que est&aacute; fora dele. Luk&aacute;cs afirma que o s&iacute;mbolo,    contrariamente &agrave; alegoria, exprime o universal no particular (idem, p.    73).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Isso posto, cabe    aqui uma an&aacute;lise do mito fundador: "a ra&ccedil;a branca &eacute; superior    e veio ao mundo para domin&aacute;-lo". Por mito fundador na discrimina&ccedil;&atilde;o    entende-se aqueles conceitos que d&atilde;o base te&oacute;rica &agrave; pr&aacute;tica    preconceituosa, aquelas fantasias e fic&ccedil;&otilde;es explanat&oacute;rias    que permitem e justificam a pr&aacute;tica preconceituosa. Afirmar que o negro    n&atilde;o possui alma, como o fez a Igreja Cat&oacute;lica, retira desse personagem    a categoria de ser humano. A narrativa do preconceito no senso comum passa pelo    discurso religioso, cient&iacute;fico, psicologizante, &eacute;tico-moral e    psico-sociol&oacute;gico. Quando se julga o &iacute;ndio por seu paganismo,    quando se demonstra a inferioridade emp&iacute;rica das outras ra&ccedil;as,    quando se atribui a caracter&iacute;stica da indol&ecirc;ncia e da pregui&ccedil;a    ao negro ou ao nordestino, quando se atribui a criminalidade ao negro ou ao    nordestino, quando se atribui a inferioridade de uma outra cultura, todas essas    pr&aacute;ticas s&atilde;o a narrativa que cristaliza o preconceito enquanto    m&ocirc;nada nas rela&ccedil;&otilde;es intersubjetivas. Essa cristaliza&ccedil;&atilde;o    n&atilde;o passa de um mito, j&aacute; que para que o outro possa ser observado    em sua radical alteridade, n&atilde;o se pode apelar para a compara&ccedil;&atilde;o,    a introje&ccedil;&atilde;o, a analogia ou a fus&atilde;o afetiva. Atrav&eacute;s    de um processo sens&iacute;vel-perceptivo, pode-se compreender o outro enquanto    diferen&ccedil;a. Dizer que o ego, antes do outro, est&aacute; s&oacute;, &eacute;    estabelecer uma outra realidade onde o outro j&aacute; est&aacute; presente,    e &eacute; justamente na invers&atilde;o disso que trabalha a ideologia dominante    para cristalizar o mito enquanto m&ocirc;nada.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&Eacute; necess&aacute;rio    deslocar tamb&eacute;m o mito da racializa&ccedil;&atilde;o - a identifica&ccedil;&atilde;o    pela ra&ccedil;a ou pela cor - do sentido de desvio ou idiossincrasia. Esse    mito difundido na sociedade ocidental &eacute; uma "tend&ecirc;ncia que integra    um conjunto de id&eacute;ias em circula&ccedil;&atilde;o entre a popula&ccedil;&atilde;o"    (Pedro, 1988, p. 28).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">No entanto, a a&ccedil;&atilde;o    preconceituosa &eacute; desprovida de sentido, que sempre ser&aacute; constitu&iacute;do    na rela&ccedil;&atilde;o intersubjetiva, que processa a realidade e produz sentidos    que a reconstroem nas rela&ccedil;&otilde;es sociais cotidianas. Para compreender    isso, &eacute; preciso compreender tr&ecirc;s conceitos: indexicabilidade (relativo    &agrave;s express&otilde;es cujo sentido completo est&aacute; vinculado ao seu    contexto de produ&ccedil;&atilde;o, analisados transitualmente); intersubjetividade    (relativo &agrave; reciprocidade necess&aacute;ria para que as pessoas em intera&ccedil;&atilde;o    possam alcan&ccedil;ar uma vis&atilde;o compartilhada da realidade que possibilite    a comunica&ccedil;&atilde;o) e reflexividade (relativo &agrave; capacidade do    ser humano de tomar-se como objeto de auto-conhecimento e auto-avalia&ccedil;&atilde;o,    podendo, portanto, posicionar-se socialmente no cotidiano das rela&ccedil;&otilde;es    sociais) (Lima, 2001).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Essa an&aacute;lise    n&atilde;o privilegia nem um foco macrossocial, nem um foco microssocial, compreendendo    a intera&ccedil;&atilde;o dial&eacute;tica entre os campos micro e macrossocial    - como a ideologia dominante atua a servi&ccedil;o dos modos de produ&ccedil;&atilde;o    e reprodu&ccedil;&atilde;o social para se infiltrar na cultura subjetiva do    superego, do ego e do id. Chau&iacute;, com maestria, faz uma discuss&atilde;o    comparativa dos termos ideologia dominante e inconsciente que &eacute; de extremo    interesse para a discuss&atilde;o pretendida por esta monografia. Vale a pena    reproduzir todo o trecho:</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Dissemos que a    ideologia se assemelha ao inconsciente freudiano. H&aacute;, pelo menos, tr&ecirc;s    semelhan&ccedil;as principais entre eles:</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&#149; o fato de    que adotamos cren&ccedil;as, opini&otilde;es, id&eacute;ias sem saber de onde    vieram, sem pensar em suas causas e motivos, sem avaliar se s&atilde;o ou n&atilde;o    coerentes e verdadeiras;</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&#149; ideologia    e inconsciente operam atrav&eacute;s do imagin&aacute;rio (as representa&ccedil;&otilde;es    e regras sa&iacute;das da experi&ecirc;ncia imediata e do sil&ecirc;ncio, realizando-se    indiretamente perante a consci&ecirc;ncia. Falamos, agimos, pensamos, temos    comportamentos e pr&aacute;ticas que nos parecem perfeitamente naturais e racionais    porque a sociedade os repete, os aceita, os incute em n&oacute;s pela fam&iacute;lia,    pela escola, pelos livros, pelos meios de comunica&ccedil;&atilde;o, pelas rela&ccedil;&otilde;es    de trabalho, pelas pr&aacute;ticas pol&iacute;ticas. Um v&eacute;u de imagens    estabelecidas se interp&otilde;e entre nossa consci&ecirc;ncia e a realidade;</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&#149; inconsciente    e ideologia n&atilde;o s&atilde;o delibera&ccedil;&otilde;es volunt&aacute;rias.    O inconsciente <i>precisa</i> de imagens, substitutos, sonhos, lapsos, atos    falhos, sintomas, sublima&ccedil;&atilde;o para se manifestar e, ao mesmo tempo,    se escondere da consci&ecirc;ncia. A ideologia <i>precisa</i> das id&eacute;ias-imagens,    da invers&atilde;o de causas e efeitos, do sil&ecirc;ncio para manifestar os    interesses da classe dominante e escond&ecirc;-los como interesse de uma &uacute;nica    classe social. A ideologia n&atilde;o &eacute; o resultado de uma vontade deliberada    de uma classe social para enganar a sociedade, mas &eacute; o efeito necess&aacute;rio    da exist&ecirc;ncia social da explora&ccedil;&atilde;o e domina&ccedil;&atilde;o,    &eacute; a interpreta&ccedil;&atilde;o imagin&aacute;ria da sociedade do ponto    de vista de uma &uacute;nica classe social (Chau&iacute;, 1999, p. 176, it&aacute;lico    no original).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Assim, essa penetra&ccedil;&atilde;o    da ideologia dominante na cultura subjetiva - atrav&eacute;s da mimesis - &eacute;    vazia, pois leva a uma descarga de energia social que nunca ir&aacute; conduzir    &agrave; mudan&ccedil;a. Atuam mecanismos de libera&ccedil;&atilde;o de energia    represada, oriunda da viv&ecirc;ncia social e das repress&otilde;es; de refor&ccedil;o    de posi&ccedil;&otilde;es e de inten&ccedil;&otilde;es das pessoas e grupos;    de quebra da censura, de forma cat&aacute;rtica de e conserva&ccedil;&atilde;o    da realidade externa pela marginaliza&ccedil;&atilde;o e pela n&atilde;o-transforma&ccedil;&atilde;o    desta atrav&eacute;s da posi&ccedil;&atilde;o reacion&aacute;ria. A reprodu&ccedil;&atilde;o    do argumento e da atua&ccedil;&atilde;o racista se transformam em mimesis enquanto    express&atilde;o da nostalgia da felicidade perdida, momento extremamente contradit&oacute;rio    se verificarmos a evolu&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica do racismo e percebermos    que a felicidade perdida aqui &eacute; vaga e fantasiosa. Ciro Marcondes Filho    nos fala:</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A viol&ecirc;ncia    &eacute; valorizada porque confirma a repress&atilde;o ao desejo de felicidade    (em favor de uma austera consci&ecirc;ncia de culpa) (...) A viol&ecirc;ncia    assim associada ao castigo dos pais, &agrave; puni&ccedil;&atilde;o, &agrave;    dor f&iacute;sica contra a libera&ccedil;&atilde;o pela dos desejos, &eacute;    uma <i>confirma&ccedil;&atilde;o</i> de certas atitudes. Quem todos os dias    vive experi&ecirc;ncias de priva&ccedil;&atilde;o, quem tem de abrir m&atilde;o    de suas vontades em prol de um princ&iacute;pio de realidade opressor e an&ocirc;nimo,    quem "precisa" padecer sob as normas da sociedade e recalcar todas as aspira&ccedil;&otilde;es    de felicidade, precisa encontrar na TV - mas n&atilde;o s&oacute; nela - a valoriza&ccedil;&atilde;o    de seu sofrimento (Filho, 1998, pp. 87-88, it&aacute;lico no original).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Os exemplos na    ind&uacute;stria cultural<a name="top3"></a><a href="#back3"><sup>3</sup></a>    s&atilde;o numerosos. S&atilde;o raros os n&atilde;o-brancos na televis&atilde;o,    no cinema, at&eacute; mesmo na m&uacute;sica - onde se limitam ao estere&oacute;tipo.    Quando aparecem, s&atilde;o sempre, de forma sutil, subalternos ao homem branco.    Se o contr&aacute;rio &eacute; verdadeiro, trata-se sempre do merchadising social    de uma determinada emissora ou produtora. N&atilde;o &eacute; preciso lembrar    que n&atilde;o h&aacute; um s&oacute; negro nas hist&oacute;rias b&iacute;blicas,    nem mesmo da dicotomia entre o "branco" e o "negro" enquanto s&iacute;mbolos    para o bem e o mal. Tamb&eacute;m n&atilde;o h&aacute; a necessidade de se ilustrar    os filmes vespertinos e suas tribos africanas atrasadas, ing&ecirc;nuas e ignorantes.    Talvez Malcolm X estivesse certo ao postular o "dem&ocirc;nio branco". J&aacute;    temos um quadro razoavelmente completo se simplesmente pararmos para lembrar    o que a ind&uacute;stria cultural nos tem a dizer. Ao mesmo tempo, o negro ganha    sal&aacute;rios inferiores ao branco quando tem o mesmo cargo - o que em geral    n&atilde;o acontece, j&aacute; que os negros costumam tamb&eacute;m receber    cargos inferiores aos brancos. A pluralidade racial do Brasil nos permite observar    o mesmo fato em rela&ccedil;&atilde;o a todos os n&atilde;o-brancos.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ainda assim, temos    o processo m&iacute;tico da invers&atilde;o<a name="top4"></a><a href="#back4"><sup>4</sup></a>.    Portanto, n&atilde;o &eacute; surpreendente encontrar do lado dos oprimidos    o mito do "mundo &agrave;s avessas", a saber, a cultura do "100% Negro". Uma    observa&ccedil;&atilde;o atenta mostra que a invers&atilde;o m&iacute;tica deixa    intacta a ordem social; a pir&acirc;mide &eacute; invertida, mas as regras de    funcionamento s&atilde;o as mesmas. Lourau chama a isso o efeito M&uuml;hlmann,    que descreve "um aspecto ami&uacute;de negligenciado pela institucionaliza&ccedil;&atilde;o:    o simulacro de realiza&ccedil;&atilde;o do projeto inicial acompanha for&ccedil;osamente    o fracasso desse projeto" (Lourau, 1952, p. 66).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Isso posto, segundo    M&uuml;hlmann (M&uuml;lhmann, 1968), a profecia inicial que exprime o aspecto    vision&aacute;rio da mudan&ccedil;a desejada, e que cont&eacute;m o "projeto"    que porta o movimento, est&aacute; votada ao fracasso, pois &eacute; ilus&oacute;ria.    De todo modo, a maioria dos movimentos sobrevive ao fracasso da profecia, mas    n&atilde;o enquanto movimentos. O fracasso da profecia inicial &eacute; uma    causa da institucionaliza&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o acidental ou fortuita,    mas estruturalmente necess&aacute;ria.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Inversamente, o    trabalho da nega&ccedil;&atilde;o pressup&otilde;e a possibilidade da contesta&ccedil;&atilde;o    total do sistema estabelecido. O mundo &agrave;s avessas do "100% Negro" confere    &agrave; profecia inicial seu car&aacute;ter din&acirc;mico, porta a fun&ccedil;&atilde;o    ut&oacute;pica e subversiva do desejo projetado para al&eacute;m do presente.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A ideologia dominante    penetra pelas fissuras do cotidiano, e o cotidiano penetra pelas fissuras da    ideologia dominante, numa dial&eacute;tica entre fantasia e realidade que permeia    as rela&ccedil;&otilde;es intersubjetivas micro e macrossociais. Essa dial&eacute;tica    instaura a gratifica&ccedil;&atilde;o cat&aacute;rtica do impulso proibido,    que se transfigura na a&ccedil;&atilde;o - a tentativa de se retirarem os opositores    &agrave; dor de um ego esvaziado de investimentos libidinais, a que chamamos    normalmente de viol&ecirc;ncia.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Poder&iacute;amos,    para concluir a an&aacute;lise do mito, falar tamb&eacute;m sobre o mito recrudescido    na linguagem. A linguagem &eacute; fascista, como queria Barthes (Barthes, 1992,    p. 14). A g&iacute;ria, a significa&ccedil;&atilde;o, a constru&ccedil;&atilde;o    do sentido da palavra "negro" ou "liban&ecirc;s" ou "&iacute;ndio" ou "branco"    ou "judeu" &eacute; o refor&ccedil;o e a base do mito que fundamenta o racismo.    Roland Barthes dizia que "por sua pr&oacute;pria estrutura, a l&iacute;ngua    implica uma rela&ccedil;&atilde;o fatal de aliena&ccedil;&atilde;o" (idem, p.    13).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Mas a&iacute; mesmo    &eacute; que reside a fraqueza do mito: n&atilde;o resiste a si mesmo. As brechas,    as contradi&ccedil;&otilde;es, os espa&ccedil;os vazios do sentido do mito fazem    com que este caia frente a uma an&aacute;lise mais cuidadosa, revelando o limite    hist&oacute;rico de si. Esse mito oscila entre o leve vislumbre e a mais profunda    an&aacute;lise, desabando e encontrando sua perda inevit&aacute;vel e dissolu&ccedil;&atilde;o    nos pequenos <i>gaps</i> da hist&oacute;ria que conta.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Conclus&atilde;o</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Adorno e Horkheimer,    em seu "Conceito de lluminismo", nos diziam da tentativa do lluminismo em esvaziar    o sentido do mito e trazer uma ci&ecirc;ncia que desvendasse a natureza enquanto    fen&ocirc;meno. "Desde sempre o lluminismo, no sentido mais abrangente de um    pensar que faz progressos, perseguiu o objetivo de livrar os homens do medo    e de fazer deles senhores" (Adorno e Horkheimer, 1999, p. 17). Os fil&oacute;sofos    completam: "Mas, completamente iluminada, a terra resplandece sobre o signo    do infort&uacute;nio triunfal. O programa do iluminismo era o de livrar o mundo    do feiti&ccedil;o" (idem, p. 17), tarefa essa feita falha pelo pr&oacute;prio    percurso da raz&atilde;o ocidental e dos processos da ideologia dominante. Uma    ci&ecirc;ncia n&atilde;o-neutra, a servi&ccedil;o das classes dominantes, completamente    ideol&oacute;gica, tem transformado o preconceito racial em algo naturalizado:</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">No plano social    mais amplo, a manipula&ccedil;&atilde;o pode ser feita por complexos sistemas    sociais que legitimam qualquer vis&atilde;o deturpadora, sistemas institu&iacute;dos    que, pela sua pr&oacute;pria <i>forma</i> social, emanam uma apar&ecirc;ncia    de verdade: s&atilde;o os meios de comunica&ccedil;&atilde;o, os livros de divulga&ccedil;&atilde;o    cient&iacute;fica, a ci&ecirc;ncia, as confer&ecirc;ncias e as palestras. Diante    desses mecanismos, os n&atilde;o-familiarizados com o assunto, os iniciantes,    os desinformados, podem ser facilmente manipulados (Filho, 1998, p. 90).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">No come&ccedil;o    do s&eacute;culo XX, o conceito de ra&ccedil;a biol&oacute;gica era ampliado    para a ra&ccedil;a humana, instaurando o darwinismo social. No fim do mesmo    s&eacute;culo, livros como "The Bell Curve" (Herrnstein e Murray, 1994) demonstram    "cientificamente" que a intelig&ecirc;ncia &eacute; gen&eacute;tica e que os    negros e os latinos s&atilde;o inferiores aos brancos e orientais. Ao fundamentar    uma an&aacute;lise cient&iacute;fica em cima de uma concep&ccedil;&atilde;o    de neutralidade da ci&ecirc;ncia, o cientista cumpre o que Levy-Leblond denomina    de papel ideol&oacute;gico da ci&ecirc;ncia:</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A ci&ecirc;ncia    &eacute; invocada para cobrir como uma m&aacute;scara de objetividade e tecnicismo    a domina&ccedil;&atilde;o (...) A ci&ecirc;ncia serve, desse modo, para justificar    todo esse aparato da hierarquia social, proporcionando-Ihe crit&eacute;rios    'objetivos'. Aparentemente essa hierarquia j&aacute; n&atilde;o refletiria,    no momento presente, a divis&atilde;o de classes da sociedade, mas unicamente    as aptid&otilde;es e a compet&ecirc;ncia dos indiv&iacute;duos (Levy-Leblond,    1975, p. 87).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Como poder&iacute;amos    chamar qualquer ci&ecirc;ncia de neutra frente a essas evid&ecirc;ncias? Logicamente,    essa &eacute; uma acusa&ccedil;&atilde;o que inclui as Ci&ecirc;ncias Psicol&oacute;gicas.    N&atilde;o poderia deixar de s&ecirc;-lo. Qual seria, ent&atilde;o, o grande    desafio da Psicologia frente &agrave; pluralidade racial? Com certeza, essa    pergunta agora pode ser respondida com maior facilidade: esse desafio &eacute;    justamente desvencilhar-se dos ensejos da ideologia dominante, produzir conhecimento    cient&iacute;fico s&eacute;rio que nos tire do mito, cumprir a fun&ccedil;&atilde;o    do lluminismo de forma verdadeira, erguer o v&eacute;u que tapa nossos olhos.    Habermas afirma sobre isso:</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A f&eacute; cientificista    numa ci&ecirc;ncia que um dia n&atilde;o apenas complemente, mas <i>destitua</i>    a autocompreens&atilde;o pessoal por meio de uma autodescri&ccedil;&atilde;o    objetivante n&atilde;o &eacute; ci&ecirc;ncia, e, sim, m&aacute; filosofia.    N&atilde;o haver&aacute; ci&ecirc;ncia que prive o "common sense" cientificamente    ilustrado de, por exemplo, avaliar como n&oacute;s (...) devemos lidar com a    vida humana pr&eacute;-pessoal (Habermas, 2002, p. 9).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Os fil&oacute;sofos    pr&eacute;-socr&aacute;ticos postulavam que a Natureza &eacute; mobilidade permanente.    A mudan&ccedil;a -nascer, morrer, mudar de qualidade ou quantidade - chama-se    movimento e o mundo est&aacute; em movimento permanente (Chau&iacute;, 1999,    p. 35). As formas tradicionais de reivindicar a mudan&ccedil;a social, no entanto,    aos poucos ca&iacute;ram por terra. Adorno criticava a pr&aacute;xis brutal    da sobreviv&ecirc;ncia (Arantes, 1999, p. 10), procurando novas respostas na    reflex&atilde;o e na a&ccedil;&atilde;o. A pr&aacute;xis violenta &eacute; justamente    a a&ccedil;&atilde;o que acaba por recrudescer o mito da superioridade, transformando    as outras ra&ccedil;as em b&aacute;rbaros, quando na verdade a barb&aacute;rie    &eacute; toda da ra&ccedil;a branca. Talvez seja tempo de procurar novos caminhos,    que necessariamente passam por uma reflex&atilde;o da pr&oacute;pria fun&ccedil;&atilde;o    social da Psicologia e da viol&ecirc;ncia com que essa tem atingido seus objetivos.    &Eacute; um caminho &aacute;rduo, mas que deve ser percorrido. Aprendemos que    Crist&oacute;v&atilde;o Colombo descobriu a Am&eacute;rica. Da Independ&ecirc;ncia    &agrave; Aboli&ccedil;&atilde;o, da Proclama&ccedil;&atilde;o da Rep&uacute;blica    ao Estado Novo, a Hist&oacute;ria tem sido escrita da perspectiva viciada da    elite poderosa. Desde o nosso nascimento contam-nos mentiras e mitos e esperam    que n&atilde;o somente acreditemos neles, mas os cultuemos. No falso altar do    progresso do capitalismo, devemos aprender a questionar a Hist&oacute;ria e    medir cada "fato" dentro de seus pr&oacute;prios m&eacute;ritos.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Mas ainda h&aacute;    esperan&ccedil;a, e esta come&ccedil;a a se infiltrar no topo. Certa vez, assistia    distra&iacute;do a um seriado enlatado de TV em um canal a cabo quando me deparei    surpreendido com uma profunda cr&iacute;tica &agrave; discrimina&ccedil;&atilde;o.    "Todos somos racistas", postulava o personagem principal. "Ent&atilde;o dever&iacute;amos    reconhecer isso logo e parar de frescura. Poder&iacute;amos ver um grupo de    gays ali, um grupo de negros l&aacute;, um grupo acol&aacute;", diz, apontando    com o bra&ccedil;o para diversas dire&ccedil;&otilde;es enquanto citava grupos    &eacute;tnicos e minorias dessa sociedade falocrata. Come&ccedil;a ent&atilde;o    a generalizar grupos, substituindo coisas espec&iacute;ficas por express&otilde;es    gen&eacute;ricas, enquanto passa a apontar somente para a frente. Quando se    percebe, o personagem est&aacute; fazendo o gesto da m&atilde;o espalmada de    sauda&ccedil;&atilde;o ao f&uuml;rher. "Est&aacute; vendo? &Eacute; f&aacute;cil    se acostumar com isso", fala, com tom ir&ocirc;nico e, ao mesmo tempo, de pesar.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Refer&ecirc;ncias    bibliogr&aacute;ficas</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Adorno, T. W. e    Horkheimer, M. (1999). Conceito de lluminismo. In: <i>Theodor W. Adorno</i>    - <i>Textos Escolhidos.</i> S&atilde;o Paulo: Nova Cultural. Cole&ccedil;&atilde;o    "Os Pensadores". p. 17</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2087599&pid=S1414-9893200200040000500001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Arantes, P. E.(    1999). Adorno - Vida e Obra. In: <i>Theodor W. Adorno</i> -Textos <i>Escolhidos.</i>    S&atilde;o Paulo: Nova Cultural, Cole&ccedil;&atilde;o "Os Pensadores", p.10.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2087600&pid=S1414-9893200200040000500002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Arendt, H. (1951).    <i>The Burden ofOurTime.</i> Londres: Secker & Warburg.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2087601&pid=S1414-9893200200040000500003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Barthes, R. (1992).    <i>Aula -Aula Inaugural da Cadeira de Semiologia Liter&aacute;ria do Col&eacute;gio    de Fran&ccedil;a, Pronunciada Dia 7 de Janeiro de 1977.</i> S&atilde;o Paulo:    Cultrix. p. 14.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2087602&pid=S1414-9893200200040000500004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Benjamin, W. Sobre    o Conceito de Hist&oacute;ria. In: <i>Obras Escolhidas I</i></font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2087603&pid=S1414-9893200200040000500005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">_________, Walter,    s/d. O <i>Livro das Passagens.</i> Obra incompleta</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2087604&pid=S1414-9893200200040000500006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Burke, K.(1968).    Interaction: III. Dramatism. In: SILLS, D. L. (org.), <i>International Encyclopedia    of the Social Sciences,</i> Vol. 7. Nova Iorque: Macmillan and Free Press.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2087605&pid=S1414-9893200200040000500007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Chau&iacute;, M.    (1999). <i>Convite &agrave; Filosofia.</i> S&atilde;o Paulo: &Aacute;tica.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2087606&pid=S1414-9893200200040000500008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Colombo, E. (2001).    An&aacute;lise do Estado. In: <i>An&aacute;lisedo Estado</i> - <i>O Estado como    Paradigma de Poder.</i> S&atilde;o Paulo: Imagin&aacute;rio.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2087607&pid=S1414-9893200200040000500009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Costa, E. V. da,    (1982). <i>A Aboli&ccedil;&atilde;o.</i> S&atilde;o Paulo: Global, p. 96.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2087608&pid=S1414-9893200200040000500010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Emerson, R. W.,    (1954). Self-reliance. In: Lindeman, Eduard C. (org.), <i>Basic Selections From    Emerson: Essays, Poems, and Apothegms.</i></font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2087609&pid=S1414-9893200200040000500011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Endo, R (2001).    <i>A Viol&ecirc;ncia Intermin&aacute;vel: Onde Ela</i> Estanca? Trabalho apresentado    no XI Encontro Nacional da Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de Psicologia    Social, 14-17/Novembro/2001.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2087610&pid=S1414-9893200200040000500012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Filho, C. M. 1998.    <i>Televis&atilde;o: A Vida Pelo V&iacute;deo.</i> S&atilde;o Paulo: Moderna,    p. 87-88</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2087611&pid=S1414-9893200200040000500013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Frederico,C. 1997.    Luk&aacute;cs e Walter Benjamin. In: <i>Luk&aacute;cs: Um Cl&aacute;ssica do    S&eacute;culo XX.</i> S&atilde;o Paulo: Moderna, p. 69.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2087612&pid=S1414-9893200200040000500014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Freud, S. (1910).    Cinco Li&ccedil;&otilde;es de Psican&aacute;lise. In: <i>Edi&ccedil;&atilde;o    Eletr&ocirc;nica das Obras Psicol&oacute;gicas Completas de Sigmund Freud.</i>    Rio de Janeiro: Imago. CD-Rom</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2087613&pid=S1414-9893200200040000500015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">______, Sigmund,    (1913). Totem e Tabu. <i>In: Edi&ccedil;&atilde;o Eletr&ocirc;nica Brasileira    das Obras Psicol&oacute;gicas Completas de Sigmund Freud.</i> Rio de Janeiro:    Imago. CD-Rom.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2087614&pid=S1414-9893200200040000500016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Habermas, J. (2002).    <i>F&eacute; e Conhecimento.</i> Artigo publicado no caderno Mais! do jornal    <i>A Folha de S. Paulo,</i> pp. 5-11.6/Jan/2002.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2087615&pid=S1414-9893200200040000500017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Herrnstein, R.    e Murray, C. (1994). <i>The Bell Curve.</i> Nova York: Simon and Schuster.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2087616&pid=S1414-9893200200040000500018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Levy-Leblond, J.    M.(1975). Acerca de Ia Neutralidad de Ia Ciencia. In: <i>La Ideologia del/en    F&iacute;sica Contempor&acirc;nea y Otros Ensaios Cr&iacute;ticos.</i> Barcelona:    Editorial Anagrama, p. 87.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2087617&pid=S1414-9893200200040000500019&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Lima, A. B.(2001).    Teoria e <i>M&eacute;todo em Psicologia do Trabalho.</i> Trabalho apresentado    no XI Encontro Nacional da Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de Psicologia    Social, 14-17/Novembro/2001</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2087618&pid=S1414-9893200200040000500020&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">L&oacute;pes, L.R.    (1983a). <i>Hist&oacute;ria do Brasil Colonial.</i> Porto Alegre: Mercado Aberto,    2ª. edi&ccedil;&atilde;o, p. 43.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2087619&pid=S1414-9893200200040000500021&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Lourau, R (1952).    <i>L'&Eacute;tat Inconscient.</i> Paris, Payot. p. 66.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2087620&pid=S1414-9893200200040000500022&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Montellato, A.,    et al.(2000). <i>Diversidade Cultural e Conflitos.</i> S&atilde;o Paulo: Scipione.    "Cole&ccedil;&atilde;o Hist&oacute;ria Tem&aacute;tica". p. 71.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2087621&pid=S1414-9893200200040000500023&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">M&uuml;hlmann,    W. E. (1968). <i>Messianismes R&eacute;volutionaires du Tiers Monde.</i> Paris:    Gallimard.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2087622&pid=S1414-9893200200040000500024&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Novais, E A. (1968).    O Brasil nos Quadros do Antigo Sistema Colonial. In: MOTA, Carlos Guilherme    (org.). <i>Brasil em Perspectiva.</i> S&atilde;o Paulo: Difel, p. 67</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2087623&pid=S1414-9893200200040000500025&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Pedro, J. M. et.    al.(1988). Aboli&ccedil;&atilde;o e Branqueamento. In: Negros <i>Brasileiros.</i>    Encarte Especial da Revista <i>Ci&ecirc;ncia Hoje,</i> suplemento vol. 8no.48.,p.28</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2087624&pid=S1414-9893200200040000500026&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Prado JR., C. (1973).    <i>Forma&ccedil;&atilde;o do Brasil Contempor&acirc;neo.</i> S&atilde;o Paulo:    Ateniense, 13ª. edi&ccedil;&atilde;o, p. 25</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2087625&pid=S1414-9893200200040000500027&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ssazz, T. (1971).    <i>A Fabrica&ccedil;&atilde;o da Loucura.</i> Rio de Janeiro: Guanabara.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2087626&pid=S1414-9893200200040000500028&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Valabrega, J.-R    (1977). <i>Phantasme, Mythe, Corps et Sens.</i> Paris: Payot p. 17.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=2087627&pid=S1414-9893200200040000500029&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b><a name="back"></a><a href="#top"><img src="/img/revistas/pcp/v22n4/seta.gif" border="0">    Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a>    <br>   </b> Caio Maximino de Oliveira<b>    <br>   </b> Rua: Maria Cristina Aguiar, 172    <br>   CEP 05379-040 - S&atilde;o Paulo/SP</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Recebido 22/04/02    <br>   Aprovado 16/08/02</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><a name="back1"></a><a href="#top1">1</a>    <i>Esse "mutismo da viol&ecirc;ncia assentida"pode ser comparado ao conceito    de Marilena Chau&iacute; do</i> sil&ecirc;ncio <i>enquanto procedimento da ideologia    dominante, como visto &agrave;s p&aacute;ginas 3 e 4 dessa monografia (N. do    A.).</i>    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   <a name="back2"></a><a href="#top2">2</a> <i>Obviamente, &eacute; sempre preciso    notar que Walter Benjamin falava sobre a alegoria em um sentido completamente    diverso daquele utilizado nessa monografia. A compara&ccedil;&atilde;o, no entanto,    &eacute; &uacute;til em termos de explica&ccedil;&atilde;o (N. do A.).</i>    <br>   <a name="back3"></a><a href="#top3">3</a> <i>Por ind&uacute;stria cultural,    entendemos o termo empregado por Adorno e Horkheimer pela primeira vez em "Dial&eacute;tica    do Iluminismo", significando a explora&ccedil;&atilde;o sistem&aacute;tica dos    bens considerados culturais. Horkheimer dizia que o termo "ind&uacute;stria    cultural" visava a substituir o termo "cultura de massa", argumentando que este    &uacute;ltimo termo necessariamente induz ao engodo que satisfaz os interesses    dos detentores dos ve&iacute;culos de comunica&ccedil;&atilde;o de massa, dando    a entender que se trata de algo como uma cultura surgindo espontaneamente das    pr&oacute;prias massas (N. do A.).</i>    <br>   <a name="back4"></a><a href="#top4">4</a> <i>Comparar com a invers&atilde;o    na ideologia dominante, como para Marilena Chau&iacute; (p&aacute;ginas 3 e    4 dessa mesma monografia) (N. do A.).</i></font></p>      ]]></body>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Conceito de lluminismo]]></article-title>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Adorno - Vida e Obra]]></article-title>
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<surname><![CDATA[Arendt]]></surname>
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