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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><B>RESENHAS</B></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Helenice O. Rocha<a name="1a"></a><sup><a href="#1">1</a></sup></b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Universidade S&atilde;o Marcos </font></p>     <p><font size=2 face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="end"></a><a href="#enda">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>MENEZES, Lucianne Sant&rsquo;Anna de. <i>P&acirc;nico</i>: efeito do desamparo na contemporaneidade &#150; Um estudo psicanal&iacute;tico. S&atilde;o Paulo: Casa do Psic&oacute;logo, FAPESP, 2006. 240 p. ISBN 85-7396-431-6.</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">N&atilde;o constitui novidade no campo da psican&aacute;lise o interesse em buscar articula&ccedil;&otilde;es entre as quest&otilde;es sociais e o sujeito ps&iacute;quico. Este interesse permanente confirma a tese freudiana da necessidade em pensar a constitui&ccedil;&atilde;o do sujeito como algo que n&atilde;o &eacute; dado <i>a priori</i>, mas como um processo tamb&eacute;m determinado pela for&ccedil;a da cultura.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Desde <i>Totem e tabu</i> (1913), passando por <i>Psicologia de grupo e an&aacute;lise do ego</i> (1921), <i>O mal-estar na civiliza&ccedil;&atilde;o</i> (1930), e culminando em <i>Mois&eacute;s e o monote&iacute;smo</i> (1938), Freud nos advertiu que a compreens&atilde;o dos processos individuais (incluindo aqui suas dimens&otilde;es patol&oacute;gicas), necessita de uma teoriza&ccedil;&atilde;o que permita conectar esses processos ao funcionamento social.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O livro de Lucianne Sant&rsquo;Anna de Menezes abre um campo para a (re) explora&ccedil;&atilde;o do sujeito em sua dimens&atilde;o social. Apenas esse estudo j&aacute; seria fecundo o bastante, e da maneira sistem&aacute;tica    como foi empreendido pela autora j&aacute; nos ofereceria um campo vasto para reflex&otilde;es. No entanto, a problematiza&ccedil;&atilde;o central deste trabalho vai al&eacute;m. Ela gira em    torno da articula&ccedil;&atilde;o entre os fen&ocirc;menos sociais contempor&acirc;neos e o p&acirc;nico como experi&ecirc;ncia do campo psicopatol&oacute;gico do angustiante.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Dentre as v&aacute;rias conseq&uuml;&ecirc;ncias    das articula&ccedil;&otilde;es feitas neste livro, fruto    da disserta&ccedil;&atilde;o de mestrado da autora, encontramos a prova evidente da riqueza para as teorias psicanal&iacute;ticas proveniente da pesquisa universit&aacute;ria.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&Eacute;, portanto, em uma disposi&ccedil;&atilde;o rigorosa que Lucienne se coloca para esmiu&ccedil;ar, em um primeiro momento de seu trabalho, aquilo que Freud denominou de &ldquo;o angustiante&rdquo;, com a finalidade de examinar a problem&aacute;tica do p&acirc;nico. Ao inclinar-se sobre esta quest&atilde;o, a autora nos leva a uma incurs&atilde;o no pensamento freudiano, que vai desde <i>As neuropsicoses de defesa</i>, texto de 1894, at&eacute; a metapsicologia.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ao explorar a concep&ccedil;&atilde;o psicanal&iacute;tica do afeto, a autora refaz os trajetos freudianos a respeito desse conceito, demonstrando as altera&ccedil;&otilde;es que ele sofreu ao longo do tempo. Assim, realiza um minucioso trabalho de articula&ccedil;&atilde;o entre o afeto e a ang&uacute;stia na obra de Freud, para apresentar, em um segundo momento, o p&acirc;nico como uma express&atilde;o dos diferentes modos do afeto de ang&uacute;stia.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Encontramos, durante a explora&ccedil;&atilde;o deste campo, uma profunda teoriza&ccedil;&atilde;o da ang&uacute;stia que n&atilde;o exclui as contradi&ccedil;&otilde;es e d&uacute;vidas a respeito de quantas teorias sobre ela podem ser pensadas. Apoiada na id&eacute;ia de uma s&oacute; teoria da ang&uacute;stia, cuja origem desse enigm&aacute;tico afeto &eacute; localizada em uma experi&ecirc;ncia traum&aacute;tica primitiva, e cujas manifesta&ccedil;&otilde;es posteriores se configuram como revivesc&ecirc;ncias desta, a autora insere em seu texto a proposta de pensar a ang&uacute;stia como um afeto fundado sobre o desamparo (<i>Hilflosigkeit</i>).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Assim, tendo como operador metapsicol&oacute;gico fundamental a no&ccedil;&atilde;o freudiana de <i>Hilflosigkeit</i>, o texto possibilita uma articula&ccedil;&atilde;o clara e precisa entre este conceito e a ang&uacute;stia. Em sua dimens&atilde;o metaf&oacute;rica, o estado de desamparo &#150; fruto da precariedade do funcionamento do psiquismo primitivo, e que revela em &uacute;ltima inst&acirc;ncia a falta de garantias sobre a exist&ecirc;ncia &#150; pode ser pensado, conforme sugere Lucienne, como uma experi&ecirc;ncia estruturante do psiquismo e como concretiza&ccedil;&atilde;o desse desamparo na situa&ccedil;&atilde;o traum&aacute;tica.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Dessa maneira, a autora nos remete &agrave; possibilidade de pensar o p&acirc;nico como    a resposta ps&iacute;quica frente &agrave; desilus&atilde;o provocada pela perda de um ideal protetor que at&eacute; ent&atilde;o, de maneira onipotente, assegurava ao sujeito sua estabilidade.    O p&acirc;nico &eacute;, nesta perspectiva, a experi&ecirc;ncia de uma express&atilde;o m&aacute;xima de ang&uacute;stia e uma evid&ecirc;ncia cl&iacute;nica do desamparo.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ap&oacute;s concluir esse primoroso trabalho em torno do campo do angustiante, a autora nos prop&otilde;e uma descentraliza&ccedil;&atilde;o do olhar cl&iacute;nico em dire&ccedil;&atilde;o &agrave; cultura, ao abordar a natureza e a constru&ccedil;&atilde;o do v&iacute;nculo social a partir da perspectiva da lei, dos ideais e das identifica&ccedil;&otilde;es.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&Eacute; novamente das teses freudianas, mais especificamente da hist&oacute;ria do    mito origin&aacute;rio da humanidade contada    em <i>Totem e tabu</i>, do mecanismo de funcionamento dos grupos descrito em <i>Psicologia de grupo e an&aacute;lise do ego</i> e do mal-estar como conseq&uuml;&ecirc;ncia da ren&uacute;ncia pulsional frente &agrave;s exig&ecirc;ncias da cultura enunciado em <i>O mal-estar na civiliza&ccedil;&atilde;o</i>, que o texto de Lucianne se nutre para elucidar os processos que constituem e regulam os la&ccedil;os sociais.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Nesse ponto do livro, a &ecirc;nfase recai no ser humano como ser social. No entanto, a partir dos conceitos de identifica&ccedil;&atilde;o, ego ideal, ideal do ego e pai simb&oacute;lico, entre outros, opera-se uma rela&ccedil;&atilde;o inevit&aacute;vel entre o ser social e o ser pulsional. A autora recorta de maneira conseq&uuml;ente, de cada tese freudiana acima mencionada, os pontos em que a experi&ecirc;ncia do desamparo como condi&ccedil;&atilde;o estruturante do sujeito aparece determinando e sendo determinado pelo social. Assim sendo, durante todo seu percurso pelos textos pol&iacute;ticos de Freud, a autora permanece fiel &agrave; motiva&ccedil;&atilde;o principal do trabalho, na medida em que n&atilde;o se afasta da problem&aacute;tica do p&acirc;nico.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Na &uacute;ltima parte do livro vemos, na brilhante articula&ccedil;&atilde;o entre o desamparo e a contemporaneidade, o desenvolvimento da hip&oacute;tese central do trabalho de Lucienne, ou seja, do fen&ocirc;meno do p&acirc;nico como uma express&atilde;o subjetiva encontrada pelo sujeito frente ao desamparo na contemporaneidade. Poderia ser o p&acirc;nico um dos efeitos das novas formas de subjetiva&ccedil;&atilde;o? Seria o p&acirc;nico uma das express&otilde;es do mal-estar contempor&acirc;neo?</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Para a investiga&ccedil;&atilde;o dessas quest&otilde;es, a autora responde de maneira consistente e respons&aacute;vel, passando longe do risco de usar as teorias at&eacute; ent&atilde;o apresentadas como ferramentas para psicanalisar o social. Pelo contr&aacute;rio, ao fazer uso tamb&eacute;m de outros campos do saber na tentativa de encontrar subs&iacute;dios para responder &agrave;s perguntas feitas acima, o resultado obtido revela-se ao mesmo tempo inteligente e prof&iacute;cuo.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Da sociologia s&atilde;o usados principalmente os estudos de Anthony Giddens e Zigmunt Bauman para se estabelecer um di&aacute;logo com as concep&ccedil;&otilde;es da psican&aacute;lise. Das produ&ccedil;&otilde;es psicanal&iacute;ticas atuais, a autora remete-se principalmente aos trabalhos de Joel Birman.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&Eacute; por meio da contempla&ccedil;&atilde;o da modernidade e suas repercuss&otilde;es na    cena social atual que compreendemos, na leitura deste livro, as diferentes formas de subjetiva&ccedil;&atilde;o e a conseq&uuml;ente re-configura&ccedil;&atilde;o do velho mal-estar. &Eacute; na subjetividade autocentrada, cujo efeito &eacute; a fragiliza&ccedil;&atilde;o dos v&iacute;nculos sociais; na subjetividade, cuja &ecirc;nfase recai no exterior em detrimento do interior; na cultura, onde n&atilde;o se pode mais contar com a figura do pai protetor, j&aacute; que se trata de um deslocamento radical da ordem paterna como referencial central, que a autora recoloca a quest&atilde;o do p&acirc;nico como uma produ&ccedil;&atilde;o social, incluindo a&iacute; a dimens&atilde;o masoquista, o amor &agrave; servid&atilde;o que busca proteger o sujeito de seu desamparo. O tra&ccedil;o masoquista principal &eacute;, nesta perspectiva, desenhado pelo apelo &agrave; prote&ccedil;&atilde;o do pai.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A autora nos convida a pensar o p&acirc;nico como fen&ocirc;meno do campo da ang&uacute;stia e    como algo que resulta da rela&ccedil;&atilde;o com    o grupo. Conforme sublinha Lucienne,    a contemporaneidade oferece poucas alternativas para processos alterit&aacute;rios leg&iacute;timos. No lugar destes aparecem os processos de subjetiva&ccedil;&atilde;o apoiados no narcisismo, e cujo resultado &eacute; a experi&ecirc;ncia, sempre terror&iacute;fica, do vazio. Assim, a tese    na qual a autora se ap&oacute;ia &eacute; a de que &ldquo;o    p&acirc;nico expressaria o descompasso entre as exig&ecirc;ncias do tipo psicol&oacute;gico ideal atual,    da exalta&ccedil;&atilde;o desmesurada do eu e da estetiza&ccedil;&atilde;o da exist&ecirc;ncia, e a incapacidade no cumprimento dessas exig&ecirc;ncias&rdquo; (p. 220).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Todas essas quest&otilde;es, delicadamente alinhavadas pela autora, permitem e &#150; por que n&atilde;o dizer &#150; nos convocam para uma reflex&atilde;o de certa forma urgente para que a esta obra e a todas as indaga&ccedil;&otilde;es aqui levantadas, o leitor responda a partir de    suas pr&oacute;prias inquieta&ccedil;&otilde;es &#150; resultado de toda boa leitura psicanal&iacute;tica &#150;, com sua disposi&ccedil;&atilde;o para pensar o p&acirc;nico como um sofrimento individual, mas sobretudo, como nos adverte Lucienne, &ldquo;como um grito de alerta para o desamparo radical do sujeito contempor&acirc;neo&rdquo; (p. 227).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><i> P&acirc;nico: efeito do desamparo na contemporaneidade</i> &eacute; um estudo psicanal&iacute;tico dirigido a todos aqueles que se interessam pelo &ldquo;<i>pathos</i>&rdquo; ps&iacute;quico e pelo campo social, e que n&atilde;o vendo neles qualquer possibilidade de uma dicotomiza&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o correr&atilde;o o risco de trabalhar na esterilidade.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Refer&ecirc;ncias Bibliogr&aacute;ficas</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">FREUD, S. (1894). <i>As neuropsicoses de defesa</i>. In: FREUD, S. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1987. vol. III.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">FREUD, S. (1913). <i>Totem e tabu</i>. In: FREUD, S. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1987. vol. XIII.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">FREUD, S. (1921). <i>Psicologia de grupo e a an&aacute;lise do ego</i>. In: FREUD, S. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1987. vol. XVIII.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">FREUD, S. (1930). <i>O mal-estar na civiliza&ccedil;&atilde;o</i>. In: FREUD, S. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1987. vol. XXI.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">FREUD, S. (1939&#91;1934-38&#93;). <i>Mois&eacute;s e o monote&iacute;smo</i>. In: FREUD, S. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1987. vol. XXIII.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size=2 face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="enda"></a><a href="#end"><img src="/img/revistas/psyche/v11n20/seta.gif" border="0">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a>    <br> Helenice O. Rocha    <br> E-mail: <a href="mailto:helenice.o.rocha@uol.com.br">helenice.o.rocha@uol.com.br</a></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><a name="1"></a><a href="#1a"><sup>1</sup></a>Psicanalista (Instituto <i>Sedes Sapientiae</i>); Mestranda em Psicologia (Universidade S&atilde;o Marcos).</font></p>      ]]></body>

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