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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Da separação impossível ao tratamento do outro possível... A criança indaga o tratamento]]></article-title>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[From the unfeasible separation to the other possible treatment… The child question the treatment]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This text suggests, through the study of a case attended at Lugar de Vida Therapeutics Pre-School, to inquire as a last resort, the self-mechanism of the institutional treatment. Aiming that, questions about a child’s subject of constitution, her subjective position in her parent’s speech and the construction of the Other to her, were the main articulators to its reading. It is also intended, through the written text from the case, to transcribe what is from the Real order in the clinic of psychoses for a feasible inscription of the Other’s order and what is for the other. It is from the clinic and in the clinic, questioning the subject in matter, that the acting subject of the treatment will also put in evidence his self-position and his submission in face of the ‘unknown’.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>DOSSIÊ</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="4"><b>Da separa&ccedil;&atilde;o imposs&iacute;vel ao tratamento do outro poss&iacute;vel... A crian&ccedil;a indaga o tratamento</b></font></p> </p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>From the unfeasible separation to the other possible treatment&hellip; The child question the treatment</b></font>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Cristina Keiko Inafuku</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Pr&eacute;-Escola Terap&ecirc;utica Lugar de Vida   </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><a name="end"></a><a href="#enda">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <HR noshade size="1">     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>RESUMO</B></FONT></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O presente artigo prop&otilde;e-se a discutir o dispositivo de tratamento institucional, por meio do estudo de um caso atendido na Pr&eacute;-Escola Terap&ecirc;utica Lugar de Vida. Para tal, o questionamento sobre a constitui&ccedil;&atilde;o do sujeito na crian&ccedil;a, a posi&ccedil;&atilde;o subjetiva da crian&ccedil;a no discurso dos pais e a constitui&ccedil;&atilde;o do Outro para a crian&ccedil;a foram articuladores centrais para a leitura do caso. Pretende-se tamb&eacute;m atrav&eacute;s da escrita do caso transcrever o que &eacute; da ordem do Real na cl&iacute;nica das psicoses para uma inscri&ccedil;&atilde;o poss&iacute;vel no que &eacute; da ordem do Outro e para o outro. &Eacute; a partir da cl&iacute;nica e na cl&iacute;nica, indagando o sujeito em quest&atilde;o que o sujeito-agente-interventor do tratamento colocar&aacute; tamb&eacute;m em evid&ecirc;ncia sua pr&oacute;pria posi&ccedil;&atilde;o e seu assujeitamento diante do n&atilde;o-Saber.</font></P>      <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Palavras-chave: </b>Caso cl&iacute;nico, Constitui&ccedil;&atilde;o do sujeito, Constitui&ccedil;&atilde;o do Outro, Tratamento institucional.</font></p> <hr noshade size="1"> </p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>ABSTRACT</B></FONT></P>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">This text suggests, through the study of a case attended at Lugar de Vida Therapeutics Pre-School, to inquire as a last resort, the self-mechanism of the institutional treatment. Aiming that, questions about a child&rsquo;s subject of constitution, her subjective position in her parent&rsquo;s speech and the construction of the Other to her, were the main articulators to its reading. It is also intended, through the written text from the case, to transcribe what is from the Real order in the clinic of psychoses for a feasible inscription of the Other&rsquo;s order and what is for the other. It is from the clinic and in the clinic, questioning the subject in matter, that the acting subject of the treatment will also put in evidence his self-position and his submission in face of the &lsquo;unknown&rsquo;.</font></p>      <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Keywords: </b>Clinic case, Subject&rsquo;s constitution, The other&rsquo;s constitution, Institutional treatment.</font></p> <hr noshade size="1">     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>      <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>O hist&oacute;rico do desenvolvimento</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Yolanda chega ao &ldquo;Lugar de Vida&rdquo; em novembro de 2001, com oito anos, tran&ccedil;as adornadas com coloridas fivelas e uma enorme e assustadora boca, aos berros. A principal queixa trazida pelos pais &eacute; a de que n&atilde;o fala e tem crises. Quais crises? Y. berra e bate a cabe&ccedil;a na parede quando fica nervosa ou quando recebe um n&atilde;o. Seus pais temem que essas crises desencadeiem uma convuls&atilde;o. Do Hospital das Cl&iacute;nicas, vem com o diagn&oacute;stico psiqui&aacute;trico de G40 + F72 (epilepsia e retardo mental grave). </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Do ponto de vista org&acirc;nico, Y. &eacute; uma crian&ccedil;a bastante investigada: exames de eletroencefalograma, tomografia, audiometria e gen&eacute;tica, todos com resultados normais. At&eacute; os quatro meses era uma crian&ccedil;a dita normal, ativa, sorridente e firme. Por olta dos cinco meses, come&ccedil;a a apresentar refluxos, ficando com a boca roxa e extremidades do corpo frias. Torna-se um beb&ecirc; &ldquo;molinho&rdquo; e desconectado. Maria, a m&atilde;e, relata as situa&ccedil;&otilde;es de refluxo com muita ang&uacute;stia e desespero. N&atilde;o sabia o que fazer: chorava, enrolava Y. no cobertor e a abra&ccedil;ava para aquec&ecirc;-la. Paralisada, n&atilde;o conseguia dirigir-lhe nenhuma palavra.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Aos sete meses, ainda era um beb&ecirc; mole demais; n&atilde;o sentava e n&atilde;o sustentava a cabe&ccedil;a. Engatinhou com um ano e andou com tr&ecirc;s, quando ent&atilde;o come&ccedil;ou a reconhecer mais os pais. Antes, era indiferente &agrave; presen&ccedil;a deles e de outras pessoas. Usou fraldas at&eacute; seis anos. Em julho de 2000, foi avaliada em cl&iacute;nica neurol&oacute;gica de conv&ecirc;nio particular, faz exame de cari&oacute;tipo e tomografia de cr&acirc;nio. O relat&oacute;rio m&eacute;dico indicou atraso no DNPM (desenvolvimento neuropsicomotor) e registrou uma &ldquo;pequena&rdquo; observa&ccedil;&atilde;o: <i>crian&ccedil;a sem condi&ccedil;&otilde;es de freq&uuml;entar escola normal</i>. Segundo os pais, os m&eacute;dicos disseram que havia uma pequena mancha no c&eacute;rebro, que poderia sumir com o tempo, e que seria provavelmente devido &agrave; &ldquo;gera&ccedil;&atilde;o&rdquo; (fala da m&atilde;e referindo-se &agrave; gesta&ccedil;&atilde;o). O psiquiatra do mesmo conv&ecirc;nio receitara Neuleptil e Pasalix para acalmar e dormir melhor &agrave; noite; a m&atilde;e, no entanto, n&atilde;o aceitara a medica&ccedil;&atilde;o por discordar da conduta m&eacute;dica, &ldquo;ele nem olhou para ela&rdquo;.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>O significante do nome Yolanda e o casal parental</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O nome Y. foi escolhido pelo pai, nome de uma personagem de novela, mulher poderosa e autorit&aacute;ria que comandava uma grande empresa. Em casa, Y. se apossava dos controles das duas televis&otilde;es e impedia aos berros que os demais assistissem a qualquer outro programa. Por esse motivo, na discuss&atilde;o interna da equipe de triagem, o caso foi batizado de &ldquo;Yolanda-manda&rdquo;: n&atilde;o comandava uma grande empresa, mas mandava e desmandava em uma casa inteira.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Y. nasceu num ano de muitas discuss&otilde;es entre o casal que, naquele momento, pensava em se separar. Segundo os pais, ap&oacute;s o nascimento de Y., pararam de brigar; diziam que era como se Deus tivesse mandado uma b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o. Pode-se pensar que, no discurso dos pais, Y. viera ocupar o lugar de uma oferenda, um Messias com uma miss&atilde;o a cumprir: apaziguar as brigas de seus pais. Estes, por sua vez, retribuem, satisfazendo-a em todos os seus desejos. Nesse momento, Y. acaba ocupando para seus pais o lugar de representante imagin&aacute;rio do grande Outro, que dita as regras da fam&iacute;lia e diante do qual t&ecirc;m que se curvar e calar. De qualquer modo, Y. vem para calar n&atilde;o s&oacute; as brigas, mas, com seus berros, calar tamb&eacute;m a fala dos pais. Estes, ent&atilde;o, nada t&ecirc;m a dizer sobre sua filha; nada sabem sobre ela e esperam dos profissionais todo o saber.</font>          <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>O lugar do pai e a Fun&ccedil;&atilde;o Paterna</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A gravidez de Y. foi marcada, na hist&oacute;ria da m&atilde;e, pela morte de seu pai, homem alco&oacute;latra que, tentando evitar o estupro de uma adolescente, na valentia de sua embriaguez acabou sendo esfaqueado pelo agressor. No relato materno, tamb&eacute;m h&aacute; uma refer&ecirc;ncia ao av&ocirc; paterno de Y., homem igualmente alco&oacute;latra, com crises de epilepsia que o impediam de trabalhar. Por sua vez, o pai de Y., filho mais velho e &uacute;nico homem entre quatro irm&atilde;s, desde cedo assumiu as despesas e responsabilidades da casa. M. se queixa de que C. sempre foi mais filho em sua fam&iacute;lia de origem do que pai na fam&iacute;lia que constituiu com ela. Refere-se ao marido como homem muito fechado e t&iacute;mido, assim como ela, e um pai sem paci&ecirc;ncia e firmeza com os filhos, pois, por n&atilde;o ag&uuml;entar os berros de Y., sempre acaba cedendo aos desejos dela. Diz ele <i>&lt;&lt;eu fico agoniado, n&atilde;o sei o que fazer; a&iacute; dou logo o que ela quer para parar de berrar&gt;&gt;</i>. Esse pai, diante do horror e da paralisia materna frente &agrave; crian&ccedil;a, responde tamb&eacute;m com sua impaci&ecirc;ncia e impot&ecirc;ncia em ampar&aacute;-las. Quando Y. tinha tr&ecirc;s meses, o pai decidiu fazer vasectomia. <i>&lt;&lt;J&aacute; t&iacute;nhamos conseguido um casal e por Y. ter vindo com problemas, achei melhor eu fazer a cirurgia, tamb&eacute;m porque minha mulher sofria com os anticoncepcionais&gt;&gt;... &lt;&lt;depois que a Y. nasceu, s&oacute; nos preocup&aacute;vamos com a sa&uacute;de dela. Eu nem tinha mais tempo ou disposi&ccedil;&atilde;o para pensar em querer e fazer mais filhos&gt;&gt;</i>. Com essa decis&atilde;o, sela tamb&eacute;m em seu corpo o que imaginariamente poderia dar sustenta&ccedil;&atilde;o a um lugar f&aacute;lico. A partir do nascimento de Y., o casal une-se fraternalmente nos cuidados com a crian&ccedil;a doente, ficando no esquecimento ou na indisposi&ccedil;&atilde;o o casal sexual.</font></p>      <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Interessante e ao mesmo tempo desanimador notarmos tamb&eacute;m o significante do nome do pai de Y. (reserva-se a n&atilde;o cita&ccedil;&atilde;o do nome). Como se n&atilde;o bastasse a posi&ccedil;&atilde;o de clem&ecirc;ncia, junta-se a ela o lugar de cordeiro, duplamente resignado. Refere a si mesmo com as seguintes afirma&ccedil;&otilde;es: <i>&lt;&lt;Fico muito angustiado com os berros da Y.; n&atilde;o sei mesmo o que fazer. Falar n&atilde;o adianta, bater tamb&eacute;m n&atilde;o. A&iacute; n&atilde;o ag&uuml;ento e tenho que chamar a m&atilde;e dela. Ent&atilde;o me afasto&gt;&gt;</i>. Podemos imaginar o referencial f&aacute;lico nessa fam&iacute;lia, apontando para uma fragilidade, antes de afirmar precipitadamente a n&atilde;o exist&ecirc;ncia de um Nome-do-Pai.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>A Fun&ccedil;&atilde;o Materna</b></font></p>      <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ao retomarmos a primeira inf&acirc;ncia, nos relatos das primeiras rela&ccedil;&otilde;es entre Y. e sua m&atilde;e, verificamos que j&aacute; na pr&oacute;pria amamenta&ccedil;&atilde;o, o terror e a paralisia materna diante da crian&ccedil;a se fazem presentes. Laznik (1997) faz considera&ccedil;&otilde;es importantes sobre esse primeiro tempo da rela&ccedil;&atilde;o m&atilde;e-beb&ecirc;, apontando o olhar materno sobre a crian&ccedil;a como fator fundante de sua imagem corporal. A m&atilde;e, por seu olhar, oferece ao beb&ecirc; uma ilus&atilde;o antecipadora de sua imagem.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Podemos pensar que, no caso de Y., n&atilde;o se trata da aus&ecirc;ncia ou recusa do olhar materno, mas de um olhar aterrorizado, cuja fantasia, produzida a partir de sua conduta, parece ser &ldquo;ela tem frio, ela vomita, ela pode morrer&rdquo;. A partir da&iacute;, passa a lhe dirigir um <i>excesso de olhar e excesso de presen&ccedil;a</i> com a seguinte atua&ccedil;&atilde;o <i>&lt;&lt;tenho que aquec&ecirc;-la, tenho que socorr&ecirc;-la, n&atilde;o posso ficar longe dela&gt;&gt;</i>.</font></p>      <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ent&atilde;o, pensemos, por que em Y. sua unidade corporal &eacute; t&atilde;o fragilmente constitu&iacute;da e a viv&ecirc;ncia do despeda&ccedil;amento se faz t&atilde;o presente em seu corpo? Para responder a esta quest&atilde;o retomemos outra proposi&ccedil;&atilde;o de Laznik (1994), o circuito pulsional e os tr&ecirc;s tempos da puls&atilde;o. No caso em quest&atilde;o, o 3&ordm; tempo da puls&atilde;o merece destaque. Esse tempo se refere ao tempo passivo do beb&ecirc;, no sentido de que ele se faz objeto de um outro, por&eacute;m trata-se de uma passividade aparente, pois nesse assujeitamento ao Outro ele ativamente pretende se enganchar e ser enganchado no gozo do Outro.</font></p>      <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">No caso de Y., pensamos que &ldquo;o se fazer objeto&rdquo;, a oferta dos <i>objetos</i> a de seu corpo ao gozo materno, por condi&ccedil;&otilde;es ou restri&ccedil;&otilde;es de ordem tamb&eacute;m org&acirc;nica, foram ofertas bastante restritas; os v&ocirc;mitos e sua borda - a boca - circunscreveram um lugar particular de gozo, enla&ccedil;ando-se libidinalmente &agrave; m&atilde;e mesmo que de forma terror&iacute;fica. Assim, pode-se dizer que o tempo da <i>aliena&ccedil;&atilde;o</i> foi de algum modo alcan&ccedil;ado, mas este assujeitamento ao Outro teve sua particularidade, e as puls&otilde;es em jogo foram bastante parciais; arriscamos propor pensar em uma &ldquo;aliena&ccedil;&atilde;o parcial&rdquo;, falhada, bem como um modo muito particular e fixo de gozo.</font> </p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em trabalhos mais recentes Laznik (2000) muda o foco do olhar materno para a voz materna. Afirma que &eacute; uma invoca&ccedil;&atilde;o de uma voz portadora de uma pros&oacute;dia particular, um modo especial, melodioso da m&atilde;e falar a seu beb&ecirc; que capturar&aacute; a sua aten&ccedil;&atilde;o, antes mesmo do olhar. Confere &agrave; voz o lugar de primeiro objeto da puls&atilde;o oral, os picos pros&oacute;dicos como primeiros objetos dessa puls&atilde;o; algo do desejo da m&atilde;e sobre a crian&ccedil;a seria tamb&eacute;m traduzido pelos tra&ccedil;os ac&uacute;sticos e que t&ecirc;m seu eixo nos modos pros&oacute;dicos da fala dos pais. O rec&eacute;m-nascido olharia para sua m&atilde;e, grande Outro primordial de sua vida, a partir da experi&ecirc;ncia da pros&oacute;dia da voz materna, a qual lhe possibilitaria identificar sua presen&ccedil;a como objeto-causa de um gozo desse Outro primordial. Ele vai procurar ent&atilde;o o rosto que corresponde a essa voz particular, fazendo-se objeto desse olhar tamb&eacute;m gozozo. A voz e o olhar materno se articulariam para a forma&ccedil;&atilde;o de um circuito pulsional esc&oacute;pico. Antes mesmo da experi&ecirc;ncia da satisfa&ccedil;&atilde;o alimentar, o rec&eacute;m-nascido teria ma apet&ecirc;ncia extraordin&aacute;ria para o gozo que a vis&atilde;o de sua presen&ccedil;a desencadeia no Outro materno. Antes mesmo do leite, o beb&ecirc; demonstra apetite por palavras especiais, palavras alimentadoras.</font></p>          <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No caso de Y., lembrando seus primeiros meses de vida, verifica-se que algo do olhar materno foi tomado como tra&ccedil;o, algo da ordem do estarrecimento em seu rosto; por&eacute;m o que parece ter ficado ausente nesta rela&ccedil;&atilde;o foi justamente a pros&oacute;dia da voz materna: <i>&lt;&lt;eu ficava t&atilde;o assustada com os v&ocirc;mitos que n&atilde;o conseguia falar nada, s&oacute; a abra&ccedil;ava e a aquecia&gt;&gt;</i>. N&atilde;o nos parece &agrave; toa que Y., agora em tratamento, diante da convoca&ccedil;&atilde;o e da entona&ccedil;&atilde;o na voz do Outro freq&uuml;entemente v&aacute; para o espelho e, estarrecida diante de sua pr&oacute;pria imagem, abra a enorme boca-buraco e solte o que de mais real a voz pode portar: seus berros, urros, o puro grito. Pensemos ent&atilde;o, ser&aacute; que Y. poder&aacute; em algum momento transformar o grito em apelo?</font></p>      <p>&nbsp;</p>      <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Sobre determina&ccedil;&otilde;es</b></font></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Y. com sua boca-borda, lugar de gozo, no lugar dos v&ocirc;mitos da primeira inf&acirc;ncia, primeira oferta e ao mesmo tempo recusa &agrave; sua m&atilde;e, oferta-lhe hoje em sua adolesc&ecirc;ncia os berros, o xixi e seu sangue menstrual, objetos residuais. M., por sua vez, novamente responde &agrave; filha com seu terror e paralisia diante da sexualidade e do mort&iacute;fero que Y. encarna neste momento, lugar mesmo de objeto a S1&rsquo;s que se repetem e cujo nodamento &eacute; na aus&ecirc;ncia, no vazio de um S2, pois sua m&atilde;e novamente se cala diante deles. Diante do xixi que Y. passa a fazer nas cal&ccedil;as, durante o atendimento de grupo, na mesma &eacute;poca em que menstrua pela primeira vez, o profissional refer&ecirc;ncia pergunta &agrave; m&atilde;e se conversou com a filha sobre a menarca e como se refere ao &oacute;rg&atilde;o sexual feminino. M. responde que apenas mostrou como se trocava o absorvente, como deveria fazer para limpar-se, mas n&atilde;o conseguiu nomear o genital feminino, nem lhe explicar nada. Parece-nos que novamente M. n&atilde;o conseguiu dar contorno simb&oacute;lico ao que no real aparece como buraco: <i>&lt;&lt;ah, n&atilde;o tem nome, n&atilde;o falo para ela&gt;&gt;... &lt;&lt;s&oacute; me preocupo que agora, mocinha, a gente tenha que cuidar mais, n&atilde;o pode ficar muito com os moleques&gt;&gt;</i>. (Lembremos que, na hist&oacute;ria da m&atilde;e, h&aacute; uma significa&ccedil;&atilde;o especial entre a morte de seu pai e o estupro de uma adolescente). Sobre essa quest&atilde;o Alfredo Jerusalinsky observa em supervis&atilde;o institucional do caso (2003) que a m&atilde;e reencontra de modo sinistro, na adolesc&ecirc;ncia de sua filha, o que fabricou em seu fantasma, rela&ccedil;&atilde;o antit&eacute;tica do desejo em rela&ccedil;&atilde;o ao fantasma, gozando sempre na esperan&ccedil;a de n&atilde;o encontr&aacute;-lo, afirmando tratar-se mais de uma sobredetermina&ccedil;&atilde;o do que de uma reedi&ccedil;&atilde;o ed&iacute;pica na menina que entra na adolesc&ecirc;ncia. </font>      </p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Lacan (1955) faz uma releitura sobre o texto de Freud (<i>Mais al&eacute;m do princ&iacute;pio do prazer</i>) assinalando a quest&atilde;o da repeti&ccedil;&atilde;o, de uma insist&ecirc;ncia repetitiva significativa, na qual o instinto de morte opera como propulsor de todos os sintomas repetitivos, do desejo infinito, multiforme. O desejo assim, se satisfaz em outra parte e n&atilde;o em uma satisfa&ccedil;&atilde;o efetiva, &eacute; a pr&oacute;pria fonte, &eacute; a introdu&ccedil;&atilde;o fundamental do fantasma como tal. Trata-se de algo que est&aacute; al&eacute;m do drama, trata-se de uma identifica&ccedil;&atilde;o entre essa preteri&ccedil;&atilde;o velada e a morte, em seu aspecto mais horr&iacute;vel.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ainda sobre a quest&atilde;o da sobredetermina&ccedil;&atilde;o, Lerner (2004) apresenta em sua pesquisa mais formula&ccedil;&otilde;es de Jerusalinsky em supervis&atilde;o de seu trabalho. Algo que poderia n&atilde;o causar nada em um sujeito, ao tom&aacute;-lo pela incid&ecirc;ncia de outros processos, pode se transformar numa causa, j&aacute; que transforma sua significa&ccedil;&atilde;o e isso &eacute; o que chamou de sobredetermina&ccedil;&atilde;o. Uma determina&ccedil;&atilde;o inconsciente, que poderia n&atilde;o causar absolutamente nada em um sujeito qualquer, em outro, transforma-se em causa de uma perturba&ccedil;&atilde;o, justamente porque sua significa&ccedil;&atilde;o vai depender de um texto e de uma determinada posi&ccedil;&atilde;o neste texto. Por isso refere-se tamb&eacute;m a Lacan, tomando a quest&atilde;o da letra no inconsciente, numa posi&ccedil;&atilde;o contextual e textual que o sujeito j&aacute; encontra ao nascer. A cl&iacute;nica registra que o modo de incid&ecirc;ncia de elementos patol&oacute;gicos registrados na gen&eacute;tica e na neurologia &eacute; muito vari&aacute;vel no que diz respeito aos processos ps&iacute;quicos e que essa variabilidade depende justamente do modo como eles aparecem sobredeterminados; eles n&atilde;o atuam isoladamente. As rela&ccedil;&otilde;es entre a gen&eacute;tica e a matura&ccedil;&atilde;o neurol&oacute;gica com a matriz ps&iacute;quica e a matriz cultural mostram-se extremamente relevantes e inseridas nos princ&iacute;pios da sobredetermina&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&Agrave; luz do caso atendido, lembrando o refluxo do beb&ecirc; como evento significativo e fundante da rela&ccedil;&atilde;o que se estabeleceu entre Y. e sua m&atilde;e, do buraco-boca para o buraco-vagina sem contornos simb&oacute;licos, das determina&ccedil;&otilde;es org&acirc;nicas, ps&iacute;quicas, contextuais e das determina&ccedil;&otilde;es significantes no discurso familiar, podemos afirmar que acabaram por promover o encontro dessa m&atilde;e com o que de resto, de objeto a, a crian&ccedil;a p&ocirc;de portar de seu fantasma; isto nos leva a pensar que deve haver muitas determina&ccedil;&otilde;es para que um sujeito encontre o que para sempre deveria estar perdido em seu fantasma. Trata-se mesmo da sobredetermina&ccedil;&atilde;o.</font> </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>O grande Outro absoluto e a separa&ccedil;&atilde;o imposs&iacute;vel</b> </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O significante &ldquo;gera&ccedil;&atilde;o&rdquo; na fala da m&atilde;e traz &agrave; tona o que &eacute; da ordem da filia&ccedil;&atilde;o. M. desejava muito ter uma menina, pois j&aacute; tinha um primeiro menino e esperava uma filha para lhe fazer companhia. No que diz respeito &agrave;s gera&ccedil;&otilde;es anteriores, as semelhan&ccedil;as entre o casal de av&oacute;s paternos e maternos chamam a aten&ccedil;&atilde;o. Ambos os av&ocirc;s sofreram de alcoolismo, eram homens dependentes e impotentes. As av&oacute;s, por outro lado, mulheres autorit&aacute;rias e controladoras que rivalizavam entre si. Y. parece encarnar n&atilde;o s&oacute; a companheira insepar&aacute;vel da m&atilde;e, mas aquela que manda e desmanda com seus berros, al&eacute;m de representar a oferenda que veio calar as brigas de seus pais. Dolto (1972) j&aacute; dizia que eram necess&aacute;rias tr&ecirc;s gera&ccedil;&otilde;es para produzir uma psicose. N&atilde;o nos parece mesmo um<i> excesso de Outro?</i> Outro diante do qual Y. parece tornar-se prisioneira.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">M. por sua vez, oscila entre a posi&ccedil;&atilde;o &ldquo;nada sei sobre minha filha&rdquo; e &ldquo;s&oacute; eu sei como fazer quando ela tem crises&rdquo;. De um modo ou de outro, essa m&atilde;e representa um Outro absoluto, ou tudo ou nada, a falta significante e a flexibilidade discursiva na m&atilde;e ficam bastante comprometidas. Y. parece constituir para si um grande Outro n&atilde;o-barrado, invasivo e amea&ccedil;ador diante do qual recorre a tr&ecirc;s principais defesas. Ora fragmenta-se, respondendo esquizorenicamente com seu corpo aos peda&ccedil;os, ora anula-se numa fuga aut&iacute;stica. Em uma terceira tentativa, um pouco de Outro se torna poss&iacute;vel para ela, em constru&ccedil;&otilde;es e jogos mim&eacute;ticos e delirantes.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Colette Soler (1997) prop&otilde;e pensar a psicose no fora do discurso, numa instala&ccedil;&atilde;o no campo da aliena&ccedil;&atilde;o e na n&atilde;o opera&ccedil;&atilde;o da separa&ccedil;&atilde;o, condicionada pelo Nome-do-Pai. O Outro caracterizaria, portanto, um Outro n&atilde;o-barrado, de gozo absoluto, que sem a simboliza&ccedil;&atilde;o primordial da presen&ccedil;a/aus&ecirc;ncia, da instaura&ccedil;&atilde;o da falta, permanece para o sujeito como puramente real. Por sua vez, a crian&ccedil;a em quest&atilde;o permanece puro significado do Outro. A partir dessa formula&ccedil;&atilde;o &eacute; que chega &agrave; quest&atilde;o da separa&ccedil;&atilde;o: a crian&ccedil;a n&atilde;o pode se separar do Outro porque o Outro n&atilde;o &eacute; o objeto que compense imaginariamente sua falta, mas sim uma parte de sua libido. Se ela se separa, seu corpo cai, inerte.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em Y. podemos verificar a adesividade e o aprisionamento ao grande Outro primordial. Apesar do sofrimento, estando &agrave; merc&ecirc; do gozo absoluto e terror&iacute;fico de sua m&atilde;e, sem ele o que lhe restaria? Com freq&uuml;&ecirc;ncia nos deparamos com esse encontro sujeito-crian&ccedil;a e Outro-m&atilde;e em enlace libidinal de puro gozo, em que a entrada de um terceiro, de uma interven&ccedil;&atilde;o no tratamento torna-se extremamente dificultada e refratada. Talvez por isso possamos pensar agora que uma interven&ccedil;&atilde;o muito incisiva, abrupta, de corte visceral, nesses casos n&atilde;o seja poss&iacute;vel, estrategicamente para sustentar o tratamento, pois corremos o risco de acionar na m&atilde;e uma posi&ccedil;&atilde;o de grande resist&ecirc;ncia ou abandono e na crian&ccedil;a uma queda sem nenhum amparo.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>O tratamento &ndash; as interven&ccedil;&otilde;es &ndash; 1&ordm; momento: o jogo do espelho</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Passemos ent&atilde;o ao que Y. p&ocirc;de nos dizer no decorrer do tratamento. Nos primeiros encontros, nos deparamos com uma menina que apresentava um repert&oacute;rio de jogos e brincadeiras. Tratava-se no entanto de jogos bastante solit&aacute;rios: fantoches que falavam sonoplasticamente entre si, livros e fitas de v&iacute;deo que enfileirava sobre a janela, coreografias e m&iacute;micas representadas s&oacute; e insistentemente para o espelho. O outro, nesse momento, servia somente como uma m&atilde;o a mais para sustentar um fantoche, um personagem a mais para ser olhado atrav&eacute;s do espelho e um intruso, caso este tocasse em um livro da janela. O outro era tomado como mera extens&atilde;o de si e, quando este sustentava algum desejo, demandando-lhe algo, tornava-se extremamente invasivo, provocando rea&ccedil;&otilde;es em Y.: a cabe&ccedil;a sendo martelada no ch&atilde;o e a assustadora boca aberta aos berros, que silenciava qualquer outra fala e fazia cair por terra qualquer interven&ccedil;&atilde;o. Essa cena lida fenomenologicamente pode facilmente levar o profissional a diagnostic&aacute;-la prontamente como autista.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Lembremos Lacan (1949) em <i>O est&aacute;dio do espelho como formador da fun&ccedil;&atilde;o do eu</i> no qual esclarece que a constitui&ccedil;&atilde;o da imagem corporal do sujeito se d&aacute; por um drama cujo &ldquo;impulso interno precipita-se da insufici&ecirc;ncia para a antecipa&ccedil;&atilde;o e que fabrica para o sujeito, apanhado no engodo da identifica&ccedil;&atilde;o espacial, as fantasias que se sucedem desde uma imagem despeda&ccedil;ada do corpo at&eacute; uma forma de sua totalidade&rdquo; (1998, p.100). Com rela&ccedil;&atilde;o a Y., podemos supor que ela viva ainda constantemente esse drama, numa tentativa de juntar os estilha&ccedil;os de um espelho que sequer havia sido constitu&iacute;do inteiramente.</font></p>      <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Vejamos, ent&atilde;o, de que modo o jogo especular permite a constru&ccedil;&atilde;o, neste caso, de uma imagem corporal mais integrada.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>2&ordm; momento: a possibilidade de um Outro</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Num segundo momento, j&aacute; decorrido cerca de um ano de tratamento, nota-se que Y. passa a necessitar menos do espelho para incluir o outro em suas performances. V&iacute;nhamos sustentando no grupo que, para nos incluir, ela tamb&eacute;m poderia sair do espelho e nos chamar. Aos poucos, Y. passa a se dirigir n&atilde;o somente aos adultos do grupo, mas tamb&eacute;m &agrave;s outras crian&ccedil;as, puxando-nos, dando-nos as m&atilde;os, pedindo para abra&ccedil;&aacute;-la ao representar uma princesa desmaiando no atelier de Contar Hist&oacute;rias, dizendo &ldquo;Ai, socorro!&rdquo;. Esta &eacute; uma das ofertas que a montagem grupal institucional do Lugar de Vida proporciona &agrave;s crian&ccedil;as em tratamento, que lhes possibilita o encontro com os contos da cultura bem como o encontro com suas pr&oacute;prias hist&oacute;rias (Teperman, D. e Inafuku, C. K., 1996).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Lembremos Alfredo Jerusalinsky, em <i>A forma&ccedil;&atilde;o da imagem corporal</i>, de 1991, verificando que numa crian&ccedil;a pouco estruturada, o sentido muitas vezes falta &agrave; a&ccedil;&atilde;o. Um &ldquo;beb&ecirc; recolhe religiosamente, minuciosamente, cada tra&ccedil;o, cada marca, cada emiss&atilde;o de voz materna, cada letra e cada gesto e os solda ao redor de cada buraco que nele se manifesta com subst&acirc;ncia gozante&rdquo; (p. 127), numa tentativa de articular um dom&iacute;nio desse boneco esquartejado, que &eacute; o corpo inicialmente. Essas opera&ccedil;&otilde;es fixam um significante no real, em que &ldquo;o sujeito abre as vias de imaginariza&ccedil;&atilde;o de seu corpo que se oferece, assim, ao olhar do Outro. &Eacute; para o outro que a nossa imagem no espelho se organiza, e &eacute; de seu olhar que imaginamos o que somos enquanto corpo&rdquo; (p. 132). No atelier de Contar Hist&oacute;rias, imersos todos no imagin&aacute;rio mundo dos contos de fadas, sob um Outro da Cultura, menos demandante e menos invasivo, um pouco de princesa foi poss&iacute;vel ofertar a essa menina, que mais freq&uuml;entemente lembra a boca de um terr&iacute;vel drag&atilde;o.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Interven&ccedil;&otilde;es na fala</b></font></p>      <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A fala de Y. tamb&eacute;m sofreu altera&ccedil;&otilde;es importantes, que foram mais observ&aacute;veis no segundo ano de tratamento. A sonoplastia de um desenho animado incessante come&ccedil;a a ter escans&otilde;es e entona&ccedil;&otilde;es diferentes. Algumas palavras passam a ser destacadas mais claramente: o &ldquo;ou&rdquo; = n&atilde;o; &ldquo;dada&rdquo;; &ldquo;tau&rdquo; = tchau; socorro, mam&atilde;e; &ldquo;um-dois e ch&aacute;&rdquo;. N&atilde;o nos surpreende que ainda n&atilde;o tenha conseguido chegar no tr&ecirc;s. Apesar de poucas e mal articuladas palavras, &eacute; interessante notarmos como elas est&atilde;o sendo utilizadas por Y. numa linguagem bastante peculiar. Rosine e Robert Lefort (1991) consideram o autismo como estrutura n&atilde;o definida, a partir da qual &eacute; poss&iacute;vel desenvolver uma psicose paran&oacute;ica ou uma debilidade. Esses autores afirmam que, nessa organiza&ccedil;&atilde;o ps&iacute;quica, por mais mudo que o indiv&iacute;duo seja, ele est&aacute; na linguagem, sem ter entrado no discurso. Ele n&atilde;o se dirige ao Outro, n&atilde;o acede ao s&iacute;mbolo; permanece petrificado no n&iacute;vel do S1 sem S2, em um real dificilmente simboliz&aacute;vel, objeto diante de um Outro absoluto. No caso de Y., podemos pensar que h&aacute; palavras que adquirem certo valor significante (preservando o que se considera literalmente como significante), com uma extens&atilde;o e flexibilidade que est&atilde;o longe de configurar uma cadeia ou rede. Operam como signos, mas apesar de sua fixidez, cumprem uma fun&ccedil;&atilde;o de enlace com o Outro e uma pequena ponte para o <i>discurso do Outro</i>. Talvez caiba aos interventores pensar se, diante de uma linguagem &atilde;o pouco flex&iacute;vel, a flexibilidade deva ent&atilde;o existir justamente no discurso do Outro.</font></p>      <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&Eacute; interessante observar como Y. incorporou a palavra &ldquo;n&atilde;o&rdquo;. Num primeiro momento, era diante do &ldquo;n&atilde;o&rdquo; do outro que Y. parecia se despeda&ccedil;ar. Atirava-se ao ch&atilde;o, debatia-se e a &uacute;nica parte do corpo que se fazia presente era sua boca enorme e megaf&ocirc;nica ecoando o &ldquo;dad&aacute;&rdquo; seguido das cabe&ccedil;adas. Num segundo momento, ela mesma passava a ecoar a fala &ldquo;n&atilde;o&rdquo; do outro, repetindo a mesma seq&uuml;&ecirc;ncia. E mais recentemente, diante de nosso &ldquo;n&atilde;o&rdquo;, imediatamente dirige seu olhar, o que raramente faz quando lhe demandamos algo mais diretamente, e responde em tom de indaga&ccedil;&atilde;o &ldquo;ou?&rdquo;, nem sempre seguida da seq&uuml;&ecirc;ncia citada. Parece conter-se apenas chorando e batendo os p&eacute;s no ch&atilde;o ou simplesmente parando com o que a impediram de fazer. Recentemente, outra seq&uuml;&ecirc;ncia se segue a esta. Em situa&ccedil;&otilde;es de restri&ccedil;&otilde;es e limites, Y. olha para o adulto e faz &ldquo;tsu-tsu&rdquo; balan&ccedil;ando a cabe&ccedil;a negativamente. Quando dizemos &ldquo;n&atilde;o&rdquo;, ela desencadeia os berros, cabe&ccedil;adas e ataques ao outro; por outro lado, quando n&atilde;o proferimos o &ldquo;n&atilde;o&rdquo;, encara-nos em uma espera suplicante pelo <i>dito-interdito</i> que a leva ao encontro sofr&iacute;vel com o gozo do Outro. Em uma dire&ccedil;&atilde;o mais recente do tratamento, no lugar do dito-interdito, temos oferecido a Y. outras possibilidades, diante das quais, apazigua-se e, aos poucos, consegue prosseguir brincando.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>O enlace com o outro e o tratamento do Outro</b></font></p>      <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O acompanhamento das seq&uuml;&ecirc;ncias produzidas por Y. serviu para pensar nossas interven&ccedil;&otilde;es. N&atilde;o se trata de n&atilde;o sustentarmos o interdito. Mas &eacute; preciso que n&oacute;s mesmos, representantes do grande Outro, tamb&eacute;m estejamos submetidos, barrados por esse Outro e que n&atilde;o encarnemos esse Outro t&atilde;o assustador, absoluto e inflex&iacute;vel para esse sujeito (como o faz sua m&atilde;e &ndash; grande Outro primordial). Talvez essa opera&ccedil;&atilde;o possibilite que Y. n&atilde;o goze desse Outro, ao verificar que o outro, que &eacute; ve&iacute;culo do interdito, tamb&eacute;m &eacute; faltante, n&atilde;o &eacute; absoluto, e talvez para ela, ent&atilde;o, mais tolerante e menos invasivo. &Eacute; certo que essas situa&ccedil;&otilde;es oscilam, mas parecem caracterizar novas constru&ccedil;&otilde;es em Y., as quais p&otilde;em tamb&eacute;m em constru&ccedil;&atilde;o as interven&ccedil;&otilde;es e a posi&ccedil;&atilde;o do profissional &ndash; analista &ndash; interventor.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Sobre a quest&atilde;o das interven&ccedil;&otilde;es e dos tratamentos anal&iacute;ticos institucionais, Alfredo Zenoni afirma: &ldquo;antes mesmo de visar tratar o sujeito, a institui&ccedil;&atilde;o existe para acolh&ecirc;-lo; antes de ter um objetivo terap&ecirc;utico, ela &eacute; uma necessidade social. &Eacute; a necessidade de uma resposta aos fen&ocirc;menos cl&iacute;nicos, a certos estados da psicose, certas passagens ao ato, certos estados de deterioriza&ccedil;&atilde;o ps&iacute;quicos que podem conduzir o sujeito &agrave; exclus&atilde;o social absoluta ou &agrave; morte que motiva a cria&ccedil;&atilde;o de uma institui&ccedil;&atilde;o&rdquo; (2002, p. 3). Afirma que &eacute; por causa de algo clinicamente <i>insuport&aacute;vel</i>, quando modalidades devastadoras do &ldquo;retorno no real&rdquo; da puls&atilde;o amea&ccedil;am a vida social da pessoa que sofre, que a pr&aacute;tica coletiva da institui&ccedil;&atilde;o se estabelece e n&atilde;o em nome de uma terap&ecirc;utica somente. Cabe lembrar que, para muitas crian&ccedil;as atendidas no Lugar de Vida, o lugar de tratamento e as institui&ccedil;&otilde;es s&atilde;o as &uacute;nicas possibilidades de circula&ccedil;&atilde;o social. Certas m&atilde;es dizem com freq&uuml;&ecirc;ncia: &ldquo;com meu filho, &eacute; de casa para o hospital e do hospital para casa, n&atilde;o d&aacute; para sair com ele para passear, os outros olham, d&aacute; vergonha, d&aacute; trabalho, &eacute; <i>insuport&aacute;vel</i>&rdquo;. No Lugar de Vida, os passeios a locais p&uacute;blicos configuram uma possibilidade divertida e prazerosa de inclus&atilde;o e circula&ccedil;&atilde;o social de nossas crian&ccedil;as atendidas bem como um dispositivo de tratamento institucional que incide sobre a crian&ccedil;a, seus pais, os interventores e a sociedade. Ser&aacute; que pensar em inclus&atilde;o social seja tamb&eacute;m transformar em suport&aacute;vel e poss&iacute;vel o que &eacute; diferente e o que incomoda e d&aacute; trabalho a todos?</font></p>      <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Com rela&ccedil;&atilde;o &agrave; posi&ccedil;&atilde;o dos profissionais envolvidos, Zenoni afirma que estes se deparam com o real de uma quest&atilde;o cl&iacute;nica que passa a ser compartilhada, mas cada um deve contribuir para presentificar uma figura do Outro que permita ao sujeito ter um lugar sem a ruptura da passagem ao ato, t&atilde;o freq&uuml;ente na cl&iacute;nica das psicoses. &ldquo;Dizer n&atilde;o ao gozo do Outro n&atilde;o implica encarnar a lei ou a fun&ccedil;&atilde;o paterna, nem suprimir toda regra ou todo interdito. Implica, sobretudo, presentificar um Outro que seja ele mesmo regulado, enunciar ou lembrar uma <i>regra</i> que regulamente o pr&oacute;prio Outro, seja ele o conjunto ou um membro da equipe, at&eacute; mesmo inventar a regra que permita considerar a exce&ccedil;&atilde;o&rdquo; (2002, p. 11).</font></p>      <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Em uma supervis&atilde;o institucional mais recente, Jerusalinsky, em 2004, afirmou: &ldquo;Na psiquiatria tradicional, as interven&ccedil;&otilde;es s&atilde;o tomadas como normas, regras, como atos mesmo de cura. Para a psican&aacute;lise, o que sustenta a cura na neurose &eacute; a livre err&acirc;ncia da transfer&ecirc;ncia. Mas quando se trata da psicose, estamos na ordem da carne dura, do corpo mesmo, &eacute; outra coisa. O princ&iacute;pio anal&iacute;tico que deveria orientar a cura para o analista que se prop&otilde;e tratar a psicose &eacute; o se <i>deixar fazer</i>, mesmo que para isso implique em alguns momentos em se deixar bater, se deixar ser cuspido, essa &eacute; a condi&ccedil;&atilde;o m&iacute;nima para que o ato de cura anal&iacute;tico na cl&iacute;nica das psicoses possa se dar. As regras s&atilde;o diferentes de princ&iacute;pios&rdquo;. Acrescentamos aqui que qualquer um pode determinar regras (o que vemos operar em tantas institui&ccedil;&otilde;es), mas s&oacute; um sujeito pode se fazer ordenar pelo que &eacute; da ordem da determina&ccedil;&atilde;o significante, do Simb&oacute;lico, talvez nesse campo &eacute; que estejam os <i>princ&iacute;pios</i> e em que uma &ldquo;exce&ccedil;&atilde;o &agrave; regra&rdquo; possa fazer todo o sentido.</font></p>      <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>A linguagem &ndash; o &ldquo;yoland&ecirc;s&rdquo;. O tra&ccedil;o, uma possibilidade de escrita?</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Diferentemente de palavras que &ldquo;escapam&rdquo;, que irrompem, as palavras que Y. tem vocalizado atualmente parecem estar come&ccedil;ando a ser incorporadas em um outro registro, mesmo que precariamente. E, al&eacute;m de estarem sendo usadas apropriadamente num contexto, est&atilde;o sendo apropriadas <i>por</i> ela. Evidentemente, ainda ocorrem muitas sonoplastias (assim nomeei sua fala caracter&iacute;stica), mas a apropria&ccedil;&atilde;o de Y. dessas palavras proferidas e sua utiliza&ccedil;&atilde;o na rara e fortuita comunica&ccedil;&atilde;o com o outro merecem aten&ccedil;&atilde;o. Ainda que fragilmente sustentadas, parecem ser da ordem de algum desejo, desejo muitas vezes imperativo, o que torna as situa&ccedil;&otilde;es tamb&eacute;m muitas vezes disrruptivas tanto para ela quanto para o outro, embora Y. busque de maneira falhada <i>enla&ccedil;&aacute;-lo</i>. Acreditamos que Y. est&aacute; na linguagem, mas n&atilde;o disp&otilde;e de significantes suficientes para sustentar uma cadeia maior. A extens&atilde;o &eacute; pequena e, na falta deles, o que lhe resta &eacute; o pr&oacute;prio corpo. Cabe pensarmos se mesmo diante de uma linguagem peculiarmente tecida poderia se sustentar uma rede maior, um discurso? Convidamos os leitores a pensarem conosco.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">H&aacute; outras observa&ccedil;&otilde;es recent&iacute;ssimas que s&atilde;o dignas de nota. Trata-se do in&iacute;cio de tra&ccedil;os de escrita que Y. tem se empenhado em fazer no registro da biblioteca, pedindo a ajuda da m&atilde;o do outro, registro que n&atilde;o consiste em um tra&ccedil;o qualquer, pois se trata de deixar num cart&atilde;o a marca de uma escolha e a marca, mesmo que fragilmente tra&ccedil;ada, apostamos dizer, de <i>seu nome</i>.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">As mudan&ccedil;as observadas em Y. e a maior flexibilidade na rela&ccedil;&atilde;o com o Outro, fizeram-nos apostar tamb&eacute;m em sua inclus&atilde;o escolar. Desde o in&iacute;cio de 2004, Y. freq&uuml;enta a 1&ordf; s&eacute;rie do ensino fundamental p&uacute;blico, n&atilde;o sem dificuldades certamente, mas agora recebe tamb&eacute;m o lugar de aluna, colocando a mochila sozinha nas costas e puxando a m&atilde;o da m&atilde;e para irem &agrave; escola. Podemos pensar que uma aposta simb&oacute;lica demova o que anteriormente havia sido atestado e registrado em um relat&oacute;rio m&eacute;dico &ldquo;crian&ccedil;a sem condi&ccedil;&otilde;es de freq&uuml;entar escola normal&rdquo;.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>A adolesc&ecirc;ncia e as irrup&ccedil;&otilde;es do real</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">No corpo de menina que se transforma em corpo de mo&ccedil;a, em seus dez anos rec&eacute;m completados, chega-lhe a menarca. Y. n&atilde;o passa alheia a essas mudan&ccedil;as e tem se utilizado do corpo de outras meninas do grupo para explorar e indagar de algum modo o seu: abra&ccedil;a, toca, aperta, agarra, alisa os cabelos, quer ver o corpo das meninas e, em seguida, vai para o espelho para ver seus pr&oacute;prios peitos, barriga e cabelos, movimento inverso do in&iacute;cio do tratamento, em que somente a partir do espelho conseguia ir em dire&ccedil;&atilde;o ao corpo do outro. Os mimetismos tamb&eacute;m t&ecirc;m sido comuns, chora quando C. chora; pula e ri quando W. pula, por&eacute;m n&atilde;o se trata de mimetismos t&atilde;o adesivos e autom&aacute;ticos, pois em v&aacute;rios momentos busca provocar algo diferente no outro e se p&otilde;e a esperar a rea&ccedil;&atilde;o desejada, seja de choro, de riso ou de surpresa. H&aacute; uma certa intencionalidade em seus atos e uma expectativa de resposta do outro. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Em entrevista com a m&atilde;e, verificou-se que esta investiga&ccedil;&atilde;o corporal de Y. tamb&eacute;m tem ocorrido no corpo da m&atilde;e, nos momentos em que tomam banho juntas. M. conta que Y. a tem observado muito e est&aacute; muito &ldquo;grudada&rdquo; nela ultimamente. Fica o tempo todo onde a m&atilde;e estiver e chora aos berros em sua aus&ecirc;ncia. O interesse de Y. em tocar e alisar os cabelos das meninas e profissionais do grupo e o interesse pelo universo feminino &eacute; reiterado pela m&atilde;e, quando conta que j&aacute; fez curso de cabeleireira e &eacute; ela quem corta e cuida dos cabelos da filha e de todos os familiares.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Podemos pensar que os processos de identifica&ccedil;&atilde;o prim&aacute;ria e secund&aacute;ria est&atilde;o operando em algum n&iacute;vel. Apesar da imagem de seu corpo ser ainda bastante inconsistente, &eacute; a partir desse corpo precariamente imaginado que Y. busca identifica&ccedil;&otilde;es no corpo do outro feminino. &Eacute; de se verificar que, com t&atilde;o poucas possibilidades simb&oacute;licas, essas identifica&ccedil;&otilde;es ocorram freq&uuml;entemente na colagem com o corpo do outro, seus colegas de grupo, assim como os adultos interventores s&atilde;o testemunhas disso. Sobre esses aspectos das identifica&ccedil;&otilde;es penso que h&aacute; tamb&eacute;m muitas quest&otilde;es a serem discutidas sobre o tratamento grupal nesta cl&iacute;nica das psicoses, pois nos deparamos ora com crian&ccedil;as se espelhando, respondendo e se organizando atrav&eacute;s do outro colega, ora com momentos de contamina&ccedil;&atilde;o desagregadora e fen&ocirc;menos massivos de grupo. De uma forma ou de outra, pensamos que, por meio do estudo do t&atilde;o citado &ldquo;caso a caso&rdquo;, da possibilidade de se fazer um diagn&oacute;stico diferencial, de estabelecer uma dire&ccedil;&atilde;o de tratamento e precisar as indica&ccedil;&otilde;es de interven&ccedil;&otilde;es, poder&atilde;o ser balizados os riscos/benef&iacute;cios da entrada e perman&ecirc;ncia de uma crian&ccedil;a psic&oacute;tica em tratamento grupal. Bem como pensarmos ainda se h&aacute; especificidades nas interven&ccedil;&otilde;es grupais, pela via do discurso do Outro, e nos atendimentos individuais, em que a transfer&ecirc;ncia com o pequeno outro poderia ser melhor manejada. N&atilde;o podemos tamb&eacute;m perder de vista que s&oacute; no depois, no <i>apr&eacute;ss-coup</i>, &eacute; que o sentido, a significa&ccedil;&atilde;o se d&aacute;, n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel pensar nos benef&iacute;cios e nos efeitos de uma oferta de tratamento sem antes ofertar, sem antes um pouco inventar e arriscar.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">As mudan&ccedil;as que a adolesc&ecirc;ncia obrigatoriamente imprime no corpo de Y. v&ecirc;m, por um lado, possibilitar uma sa&iacute;da imagin&aacute;ria, por meio das identifica&ccedil;&otilde;es com o corpo do outro, mas, por outro, trazem &agrave; tona com toda for&ccedil;a o que &eacute; da ordem do corpo-borda, lugar de gozo, para o qual Y. tem sofrivelmente tentado dar algum contorno e algum estofo. Quando a primeira tentativa fracassa, o que lhe resta s&atilde;o os objetos e o puro corpo; ent&atilde;o o ch&atilde;o e as paredes passam a lhe dizer o que &eacute; sua cabe&ccedil;a, os berros _ a sua boca, o xixi _ a sua vagina, o l&iacute;quido derramado em sua roupa _ o seu corpo. Em outros momentos, consegue at&eacute; mesmo prescindir dos pr&oacute;prios objetos e ensimesmada, desconectada, com o olhar distante, se p&otilde;e a movimentar as m&atilde;os estereotipadamente. Laznik (1997) cita sobre o circuito pulsional, &ldquo;o 2&ordm; tempo pode ser enganador, ele s&oacute; pode ser considerado auto-er&oacute;tico se soubermos do 3&ordm; tempo. Sem esse, o Outro n&atilde;o est&aacute; presente, sem o termo eros, o auto-erotismo passa a ser autismo&rdquo;.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Jerusalinsky, em 2004, na mesma supervis&atilde;o institucional citada anteriormente, faz considera&ccedil;&otilde;es acerca da psicose: &ldquo;A simboliza&ccedil;&atilde;o da qual um psic&oacute;tico &eacute; capaz tem uma extens&atilde;o muito curta, as representa&ccedil;&otilde;es do outro t&ecirc;m pouca variabilidade, ou s&atilde;o representa&ccedil;&otilde;es fragmentadas do outro, descont&iacute;nuas e limitadas. H&aacute; uma colagem entre o outro e o Outro e quanto mais parcial &eacute; a representa&ccedil;&atilde;o do Outro, mais colado ele fica ao pequeno outro. N&atilde;o disp&otilde;e de representa&ccedil;&otilde;es para o que fica al&eacute;m de uma redoma e, se cai no meio delas, est&aacute; perdido&rdquo;. No caso de Y., podemos pensar que ela al&ccedil;a ao 3&ordm; tempo da puls&atilde;o, h&aacute; representa&ccedil;&atilde;o de outro, mas, como as amarras simb&oacute;licas s&atilde;o t&atilde;o fr&aacute;geis, no encontro com o grande Outro ela cai o tempo todo.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Inconclus&otilde;es, por&eacute;m indaga&ccedil;&otilde;es</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Os movimentos de Y. parecem evidenciar uma constru&ccedil;&atilde;o &ldquo;capenga&rdquo;, insuficiente para uma arquitetura e alicerces dignos da constru&ccedil;&atilde;o Simb&oacute;lica, mas trata-se ainda de uma constru&ccedil;&atilde;o em andamento, que evidentemente deveria ter ocorrido mais precocemente como todo alicerce; mas ser&aacute; que, mesmo tardiamente, ainda possa constituir psiquicamente uma crian&ccedil;a numa posi&ccedil;&atilde;o discursiva? Ser&aacute; que um tempo j&aacute; se passou? Ou que tipo de constru&ccedil;&atilde;o ela ser&aacute; capaz de sustentar?</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A estrutura que a sustenta e a arquitetura ps&iacute;quica desenhada parece ser tipicamente a de uma psicose, mas que transita desde o registro do Real nas viv&ecirc;ncias de seu corpo e do corpo do outro em peda&ccedil;os (esquizofrenicamente sofr&iacute;vel), &agrave; sa&iacute;da aut&iacute;stica com a exclus&atilde;o do Outro, at&eacute; os momentos em que Y. parece ter acedido a uma organiza&ccedil;&atilde;o muito pr&oacute;xima a de uma identifica&ccedil;&atilde;o hist&eacute;rica,   muito mais prec&aacute;ria e imagin&aacute;ria que simb&oacute;lica, &eacute; certo. Mas ser&aacute;   que desta m&iacute;nima e inst&aacute;vel organiza&ccedil;&atilde;o ela possa &ldquo;escapar&rdquo; da constitui&ccedil;&atilde;o   ps&iacute;quica psic&oacute;tica propriamente dita? Ela ainda poder&aacute; &ldquo;escolher&rdquo;   um outro destino? No seu tempo cronol&oacute;gico e org&acirc;nico da adolesc&ecirc;ncia ou, no seu tempo l&oacute;gico, a escolha j&aacute; se deu?</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Para finalizar, pelo menos este texto, &eacute; evidente que as constru&ccedil;&otilde;es   verificadas no tratamento n&atilde;o se d&atilde;o de forma linear, pois   ainda h&aacute; a sonoplastia, palavras incompreens&iacute;veis, cabe&ccedil;adas e   berros ensurdecedores, restos que, apesar da menor freq&uuml;&ecirc;ncia,   ainda insistem em aparecer. Por&eacute;m, acreditamos que se trata de   uma postura &eacute;tica: ainda podermos apostar que desses restos possam   restar menos ainda e da boca enorme da qual antes s&oacute; sa&iacute;am   v&ocirc;mitos e berros possam tamb&eacute;m sair mais algumas palavras para   nunca deixar calar e ensurdecer, como seus pais, a fala dos que se   empenham em escut&aacute;-la e tratar dela. Talvez o caso &ldquo;Yolandamanda&rdquo;   possa, em algum momento, ser rebatizado de &ldquo;Yoladademanda&rdquo;,   considerando modos diferentes de demandar, assim   como modos diferentes de gozar; e de uma crian&ccedil;a estranha que   n&atilde;o fala como as demais, n&atilde;o se aquieta e n&atilde;o indaga o outro,   possa tamb&eacute;m advir <i>para um Outro</i> uma pequena bailarina ou uma fantasiosa princesa.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Seja da linguagem operante atrav&eacute;s da fala, da escrita, ou do   corpo, nos perguntamos se o Discurso Psicanal&iacute;tico que conhecemos   at&eacute; ent&atilde;o tem conseguido sustentar e abarcar os t&atilde;o diversos   e peculiares discursos humanos. E, voltando para nossa cl&iacute;nica...em   nossa institui&ccedil;&atilde;o Lugar de Vida, levando em considera&ccedil;&atilde;o os diferentes   momentos de constitui&ccedil;&atilde;o ps&iacute;quica das crian&ccedil;as, os dispositivos   institucionais que criamos e as interven&ccedil;&otilde;es das quais lan&ccedil;amos   m&atilde;o, sustentados por este discurso psicanal&iacute;tico, o que temos   podido alcan&ccedil;ar? At&eacute; onde podemos esperar e demandar de nossa pr&aacute;tica e de nossas crian&ccedil;as?</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Diante de tantos discursos, tantas palavras, signos, s&iacute;mbolos   e significantes, de tantas ret&oacute;ricas inclusive, n&atilde;o estar&iacute;amos tamb&eacute;m   diante de tantos loucos articuladamente falantes? Ser&aacute; que   de nossas crian&ccedil;as desprovidas de fala n&atilde;o poder&iacute;amos tamb&eacute;m   estar diante de <i>sujeitos</i> loucamente m&uacute;sicos, dan&ccedil;arinos, artistas, equilibristas?</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Refer&ecirc;ncias Bibliogr&aacute;ficas</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Dolto, F. (1972). <i>O caso Dominique</i>. Rio de Janeiro, RJ: Zahar Editores.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=697754&pid=S1415-7128200400020000400001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">   Jerusalinsky, A. (1990). &ldquo;A forma&ccedil;&atilde;o da imagem corporal&rdquo;. In: <i>Escritos da Crian&ccedil;a</i>.   Porto Alegre, RS: Centro Lydia Coriat, 3 (3).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">   Lacan, J. (1949). &ldquo;O est&aacute;dio do espelho como formador da fun&ccedil;&atilde;o do eu&rdquo;. In:   <i>Escritos</i>. Rio de Janeiro, RJ: Jorge Zahar, 1998.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">   ________ (1955). O semin&aacute;rio sobre &ldquo;A carta roubada&rdquo;. In: <i>Escritos</i>. Rio de   Janeiro, RJ: Jorge Zahar, 1998.</font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">   Lerner, R. (2004). <i>An&aacute;lise Institucional de uma crian&ccedil;a diagnosticada como Autista</i>.   Tese de Doutorado. IPUSP, S&atilde;o Paulo.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=697758&pid=S1415-7128200400020000400005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">   Laznik-Penot, M. C. (1994). &ldquo;Do fracasso da instaura&ccedil;&atilde;o da imagem do corpo ao   fracasso do circuito pulsional: Quando a aliena&ccedil;&atilde;o faz falta&rdquo;. In: <i>O que a cl&iacute;nica   do autismo pode ensinar aos psicanalistas</i>. Salvador, BA: &Aacute;galma.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">   _________ (1997). &ldquo;Poder&iacute;amos pensar numa preven&ccedil;&atilde;o da s&iacute;ndrome aut&iacute;stica?&rdquo;   In: <i>Palavras em torno do ber&ccedil;o</i>. Salvador, BA: &Aacute;galma.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">   _________ (2000). &ldquo;A voz como primeiro objeto da puls&atilde;o oral&rdquo;. In: <i>A voz da   sereia</i>: o autismo e os impasses na constitui&ccedil;&atilde;o do sujeito. Salvador, BA: &Aacute;galma,   2004.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">   Lefort, Robert (1991). &ldquo;Introdu&ccedil;&atilde;o &agrave; jornada de estudos do CEREDA&rdquo;. In: Miller,    J. (org). <i>A crian&ccedil;a no discurso anal&iacute;tico</i>. Rio de Janeiro, RJ: Jorge Zahar.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">   Lefort, Rosine (1991). &ldquo;Introdu&ccedil;&atilde;o &agrave; jornada de estudos do CEREDA&rdquo;. In: Miller, J. (org.) <i>O S1, o sujeito e a psicose</i>. Rio de Janeiro, RJ: Jorge Zahar.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">   Soler, C. (1997). Autismo e Paran&oacute;ia. Artigo redigido a partir das aulas do Semin&aacute;rio   da Se&ccedil;&atilde;o Cl&iacute;nica do Departamento de Psican&aacute;lise da Universidade de Paris   VIII. Trad. Elisabeth da Rocha Miranda.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=697764&pid=S1415-7128200400020000400011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">   Teperman, D. &amp; Inafuku C. K. (1996). &ldquo;Eva, Pandora e Curumim: a curiosidade   e as hist&oacute;rias&rdquo;. In: <i>Estilos da Cl&iacute;nica: Revista sobre a Inf&acirc;ncia com Problemas</i>, 1   (1), 78-93.</font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">   Zenoni, A. (2002). <i>Tratamento do Outro. Pr&eacute;liminaire</i>. Bruxelas, Antenne 110,   n.3, pg 101-112. Texto traduzidos por Marize L. Guglielmetti.</font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=697766&pid=S1415-7128200400020000400013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><a name="enda"></a><a href="#end"><img src="/img/revistas/estic/v9n17/seta.gif" >Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a>    <br>   Cristina Keiko Inafuku    <br>   R. Pe. Jos&eacute; Ant. Romano, 300 ap. 25A    <br>   05784 120 S&atilde;o Paulo, SP    <br>   tel.: 3091 4386    ]]></body>
<body><![CDATA[<br> <a href="mailto:crisinafuku@yahoo.com.br">crisinafuku@yahoo.com.br</a></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Recebido em julho/2004    <br> Aceito em setembro/2004    <br> </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>    <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><sup><a name="Ia"></a><a href="#I">I</a></sup>Psicanalista, membro da equipe da Pré-Escola Terapêutica Lugar de Vida - USP</font></p>   <b></b>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"> </font></p>      ]]></body>
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