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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>TRADUÇÃO</b></font></p>     <p align="right">&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="4"><b>O sonho e a exist&ecirc;ncia</b><SUP><a name="1"></a><a href="#1b">1</a></SUP></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Dreaming and existing</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Ludwig Binswanger</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">I</font></p>     <p align="right"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">"&Eacute; preciso ater-se, sobretudo, ao que significa ser um homem."    <br> Kierkegaard</font></p>      <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Quando, no meio de uma entrega ou expectativa apaixonada,    o esperado subitamente nos decepciona, e o mundo se torna t&atilde;o "outro",    a ponto de nos desenraizar totalmente roubando nosso ch&atilde;o, ent&atilde;o,    mais tarde, ap&oacute;s termos reencontrado um apoio firme, voltamos em    pensamento a esses instantes, dizendo: "Ca&iacute;mos dos c&eacute;us como que atingidos    por um raio". &Eacute; de fato atrav&eacute;s de tais palavras que expressamos a    experi&ecirc;ncia vivida de nossa decep&ccedil;&atilde;o e de nosso desconcerto, atrav&eacute;s de uma    met&aacute;fora po&eacute;tica, de modo algum produzida pela imagina&ccedil;&atilde;o de um poeta    qualquer, mas brotando da p&aacute;tria espiritual que pertence a todos n&oacute;s: a    linguagem. Pois a linguagem &eacute; aquilo que, para todos n&oacute;s, "poetiza e    pensa", bem antes do pr&oacute;prio indiv&iacute;duo come&ccedil;ar a poetizar e pensar.    Mas qual seria o prop&oacute;sito desta "compara&ccedil;&atilde;o po&eacute;tica"? Ter&iacute;amos aqui    simplesmente uma analogia, no sentido da l&oacute;gica, ou uma met&aacute;fora imag&eacute;tica, no sentido da teoria po&eacute;tica? Tal interpreta&ccedil;&atilde;o nos faria passar ao lado    da ess&ecirc;ncia mais &iacute;ntima da compara&ccedil;&atilde;o po&eacute;tica, pois esta se encontra    ainda <I>por tr&aacute;s</I> daquilo que a l&oacute;gica e a teoria da express&atilde;o po&eacute;tica podem    desvelar. Esse car&aacute;ter essencial repousa nas mais profundas estruturas de    nossa exist&ecirc;ncia, ali onde toda forma espiritual viva e conte&uacute;do espiritual    vivo, ainda unidos, aguardam o raio abrasador que ir&aacute; separ&aacute;-los. Quando    uma decep&ccedil;&atilde;o s&uacute;bita faz-nos "cair dos c&eacute;us", n&oacute;s realmente ca&iacute;mos, mas    isto n&atilde;o &eacute; uma queda puramente corp&oacute;rea, nem nada que seja (anal&oacute;gica    ou metaforicamente) sua imita&ccedil;&atilde;o ou deriva&ccedil;&atilde;o; podemos dizer, de modo    mais exato, que a ess&ecirc;ncia dessa decep&ccedil;&atilde;o s&uacute;bita e desse terror, n&atilde;o &eacute; sen&atilde;o    o fato de a harmonia com o mundo exterior e com o mundo do outro,    harmonia que at&eacute; ent&atilde;o fora nossa sustenta&ccedil;&atilde;o, ter recebido tal impacto    que a fez vacilar. Num tal instante, nossa exist&ecirc;ncia &eacute; realmente afetada,    arrancada de seu apoio sustentador no mundo e jogada de volta a ela    mesma. At&eacute; encontrarmos novamente um ponto de apoio firme no    mundo, toda nossa exist&ecirc;ncia ir&aacute; se situar na dire&ccedil;&atilde;o de sentido que &eacute; a do    trope&ccedil;o, do afundamento, da queda. Se chamamos de forma essa dire&ccedil;&atilde;o geral    de sentido, e de conte&uacute;do o s&uacute;bito terror, veremos que ainda aqui ambos    s&atilde;o apenas <I>um</I>.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Somente aquele que considera o homem por um &uacute;nico &acirc;ngulo  e n&atilde;o em sua totalidade, como faz o bi&oacute;logo - pois ser homem &eacute; mais  que viver -, ir&aacute; dizer que essa dire&ccedil;&atilde;o de alto para baixo, ou seja, a  queda, funda-se puramente na estrutura viva do organismo, pois no caso de  um medo s&uacute;bito, estaria se manifestando uma perda de t&ocirc;nus ou de tens&atilde;o  de nossa musculatura estriada, o que provocaria um estado de maior ou  menor fraqueza; assim, a linguagem emprestaria seus conte&uacute;dos desse  modelo puramente corp&oacute;reo. Se nos ativ&eacute;ssemos a essa concep&ccedil;&atilde;o, a  express&atilde;o "cair dos c&eacute;us" seria uma transposi&ccedil;&atilde;o puramente anal&oacute;gica ou  metaf&oacute;rica de um fato da esfera som&aacute;tica para a esfera da psique, onde  constituiria uma simples forma de express&atilde;o imag&eacute;tica, sem conte&uacute;do ou  subst&acirc;ncia, uma simples <I>fa&ccedil;on de  parler.</I><SUP><a name="2"></a><a href="#2b">2</a></SUP></font></p>      <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A teoria da express&atilde;o de Klages vai mais longe; embora  acentue a unidade da psique e do corpo vivo, ele defende a hip&oacute;tese de que  "o ps&iacute;quico", em conformidade com nossa organiza&ccedil;&atilde;o psicof&iacute;sica,  manifesta-se sempre sob uma forma determinada da esfera sens&iacute;vel-espacial:  uma psique fraca ir&aacute; se expressar na falta de firmeza da caligrafia, enquanto  o orgulho se revela num porte altivo. Visto que o ps&iacute;quico aparece  dessa maneira, a linguagem, para designar as qualidades e processos  ps&iacute;quicos, emprega toda uma s&eacute;rie de express&otilde;es retiradas da esfera  espacial-sens&iacute;vel. Essa concep&ccedil;&atilde;o n&atilde;o deixa de ser bastante sedutora, mas pressup&otilde;e  que adotemos a tese fundamental da teoria da express&atilde;o de Klages, que faz  do corpo vivo a manifesta&ccedil;&atilde;o da psique, e da psique o sentido do corpo  vivo. N&atilde;o compartilho tal concep&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica.</font></p>      <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Concordo com a teoria da significa&ccedil;&atilde;o de Husserl e  Heidegger, que L&ouml;with teve o grande m&eacute;rito de aplicar, pela primeira vez, a  nosso problema particular da linguagem. Se, empregando termos id&ecirc;nticos,  falamos de uma torre alta ou baixa, de um tom alto ou baixo, de uma  moral alta ou baixa, de um &acirc;nimo alto ou deprimido, n&atilde;o se trata  absolutamente de transposi&ccedil;&atilde;o verbal de uma esfera de ser a uma outra esfera, mas  sim de uma dire&ccedil;&atilde;o geral de sentido que se estende igualmente &agrave;s  diferentes esferas regionais, ou seja, que a&iacute; toma sentidos diferentes (espacial,  ac&uacute;stico, espiritual, ps&iacute;quico etc.). &Eacute; tamb&eacute;m dessa maneira que o  afundamento ou a queda representa uma dire&ccedil;&atilde;o geral de sentido do alto para  baixo: esta dire&ccedil;&atilde;o toma, "para" nosso Dasein, uma significa&ccedil;&atilde;o existencial  particular, segundo "o existencial ontol&oacute;gico", no caso, o  existencial desdistanciador e orientador da espacialidade, o do ser lan&ccedil;ado da  tonalidade afetiva<a name="3"></a><SUP><a href="#3b">3</a></SUP> e o da interpreta&ccedil;&atilde;o do compreender. No caso de uma  decep&ccedil;&atilde;o s&uacute;bita, se ca&iacute;mos como que do c&eacute;u ou das nuvens, isso n&atilde;o  ocorre porque, como disse Wundt, a decep&ccedil;&atilde;o ou o terror representariam  um "afeto ast&ecirc;nico", que se manifesta como uma amea&ccedil;a para a postura ereta  do corpo, como uma vacila&ccedil;&atilde;o, um trope&ccedil;o ou queda corp&oacute;reos que  serviriam, para a linguagem, de modelo corp&oacute;reo real, para a produ&ccedil;&atilde;o  de uma imagem po&eacute;tica na fantasia. Ao contr&aacute;rio, &eacute; a linguagem que  vai, espontaneamente, recolher, nessa pretensa compara&ccedil;&atilde;o, um tra&ccedil;o  essen-cial, espec&iacute;fico da estrutura ontol&oacute;gica do ser humano, ou seja, o  poder dirigir-se de alto para baixo, descrevendo-o, conseq&uuml;entemente, como  uma queda. Para isso n&atilde;o h&aacute; qualquer necessidade de se recorrer ao afeto  ast&ecirc;nico e sua express&atilde;o corporal. Seria melhor tentar explicar por que a  decep&ccedil;&atilde;o possui um car&aacute;ter ast&ecirc;nico: ou seja, aqui, de fato, nossa exist&ecirc;ncia  total n&atilde;o repousa mais em pernas "firmes", mas "fracas", e nem mesmo  consegue manter-se em p&eacute;; &eacute; pelo fato de sua harmonia com o mundo ter  sido rompida que o ch&atilde;o foge de seus p&eacute;s e ela come&ccedil;a a flutuar. Essa  flutua&ccedil;&atilde;o de nossa exist&ecirc;ncia n&atilde;o implica necessariamente numa dire&ccedil;&atilde;o para  baixo, podendo tamb&eacute;m significar uma libera&ccedil;&atilde;o ou uma possibilidade  de subida; mas, se a decep&ccedil;&atilde;o perdurar enquanto tal, n&atilde;o iremos continuar  a flutuar, mas come&ccedil;aremos a vacilar, a afundar e a cair. Essa  estrutura ontol&oacute;gica essencial &eacute; a fonte que abastece a linguagem, a  imagina&ccedil;&atilde;o po&eacute;tica e, sobretudo, o sonho.</font></p>      <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ainda pouco presente entre os psic&oacute;logos e os psiquiatras,  nosso modo de reflex&atilde;o tem, no entanto, assumido uma forma cada vez  mais distintamente reconhec&iacute;vel na tend&ecirc;ncia filos&oacute;fica j&aacute; nomeada; &eacute; com  ele que enfrentamos o mais dif&iacute;cil dentre os dif&iacute;ceis problemas de nossa  &eacute;poca, ou seja, a rela&ccedil;&atilde;o entre a psique e o corpo vivo. E isso sem ter, de  forma alguma, a inten&ccedil;&atilde;o de resolv&ecirc;-lo, mas para extra&iacute;-lo de suas antigas  molduras, metaf&iacute;sicas e religiosas, e de suas formula&ccedil;&otilde;es particulares, tais  como a&ccedil;&atilde;o rec&iacute;proca, paralelismo e identidade, fazendo ver que se trata de  uma quest&atilde;o mal formulada. Assim, teremos caminho livre para progredir  na solu&ccedil;&atilde;o de problemas espec&iacute;ficos da antropologia, objeto de nosso  presente estudo. E se, na decep&ccedil;&atilde;o, ca&iacute;mos das nuvens ou dos c&eacute;us, isso, por  sua vez, tem seu fundamento natural noutras rela&ccedil;&otilde;es, materiais e  essenciais, captadas pela linguagem; do mesmo modo, quando dizemos que  nossa vis&atilde;o se encontra "enevoada" pelas esperan&ccedil;as, desejos, expectativas  apaixonadas ou, ent&atilde;o, que na felicidade nos sentimos "como no c&eacute;u";    no entanto, a pr&oacute;pria queda e, naturalmente, seu contr&aacute;rio, a ascens&atilde;o,    n&atilde;o se prestam a outras dedu&ccedil;&otilde;es: aqui, ontologicamente falando, tocamos    o fundamento.</font></p>      <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Esse mesmo fundamento de queda e de ascens&atilde;o do nosso  Dasein tamb&eacute;m suporta todas as representa&ccedil;&otilde;es religiosas m&iacute;ticas e po&eacute;ticas,  de ascens&atilde;o do esp&iacute;rito at&eacute; o peso terrestre do corpo. Lembremos apenas  de Schiller e de sua maravilhosa imagem da transfigura&ccedil;&atilde;o de H&eacute;rcules:</font></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Feliz com esse novo e estranho flutuar    <br> Ele flui para cima    <br>  E, da vida terrestre, o pesado sonho    <br> Afunda, afunda, afunda.</font></p></blockquote>      <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A obriga&ccedil;&atilde;o de definir esse N&oacute;s que se eleva  na felicidade  de sua exist&ecirc;ncia, ou que cai na infelicidade, p&otilde;e-nos diante de um  cruel embara&ccedil;o e, caso fosse objetado que esse N&oacute;s representa precisamente  os homens, n&atilde;o colocando assim qualquer problema, ter&iacute;amos que  responder que &eacute; exatamente a&iacute; que toda quest&atilde;o cient&iacute;fica encontra seu ponto  de partida. Pois, nenhuma &eacute;poca, e ainda menos a nossa, conseguiu dar  resposta &agrave; quest&atilde;o: n&oacute;s, os homens, quem e o que somos? Hoje,  encontramo-nos, mais uma vez, no come&ccedil;o de uma nova pergunta sobre este  N&oacute;s. Aqui, tamb&eacute;m, a poesia, o mito e o sonho deram melhores respostas que  a ci&ecirc;ncia e a filosofia, pois sabiam, pelo menos,  <I>uma</I> coisa: que esse N&oacute;s, como sujeito do Dasein, n&atilde;o se mostra abertamente, mas, ao  contr&aacute;rio, gosta de se esconder "sob mil formas"; e uma  <I>outra</I> coisa: que esse sujeito n&atilde;o pode, em nenhum caso, ser identificado ao corpo individual e &agrave;  sua forma exterior. A fim de permanecerem nos limites de uma estrutura  parcial, ou seja, de que somos um Dasein que ascende e cai, os poetas  sempre souberam que era perfeitamente indiferente se express&aacute;ssemos esse  sujeito, o "Quem" desse Dasein, por nossa forma corporal, um membro dessa  forma, uma posse ou, ainda, por qualquer coisa mediante a qual estamos no mundo, sempre que tudo isso pudesse expressar, de alguma maneira,  o ascender ou o cair. N&atilde;o se pode responder &agrave; quest&atilde;o, referente ao  Quem de nosso Dasein, com o aux&iacute;lio de qualquer forma particular que  seja dada por nossos sentidos, pois esta permanece inessencial: a resposta  ser&aacute; dada, ao contr&aacute;rio, por um momento qualquer que possa servir de  sujeito ao momento estrutural particular - aqui, a ascens&atilde;o ou a queda -  mesmo que esse sujeito, em sua forma sens&iacute;vel, apare&ccedil;a como estranho,  exterior. Apesar disso, <I>eu </I>permane&ccedil;o sendo o sujeito primordial daquilo que  ascende e cai. Sobre esses vislumbres ontol&oacute;gicos corretos funda-se um valor  de verdade e uma grande parte da efic&aacute;cia da representa&ccedil;&atilde;o do sujeito  do Dasein no mito, na religi&atilde;o e na poesia. Abordarei, portanto, o meu  tema considerando simultaneamente a representa&ccedil;&atilde;o do sujeito da queda e  do desabamento ou afundamento. Quando o pintor  Nolten,<SUP><a name="4"></a><a href="#4b">4</a></SUP> num estado de desespero mortal, que fez sua f&uacute;ria voltar-se contra si mesmo, recebe  de boca venerada uma censura que o "humilha" e que, subitamente, o  congela na "mais cruel experi&ecirc;ncia", o poeta ir&aacute;, nesse momento,  abandonar a descri&ccedil;&atilde;o imediata do estado ps&iacute;quico de seu her&oacute;i, para dirigir-se  diretamente ao leitor que, com a respira&ccedil;&atilde;o suspensa, o escuta: "(nesse  estado), de repente, um sil&ecirc;ncio mortal ir&aacute; se produzir, e voc&ecirc; ver&aacute; seu  pr&oacute;prio sofrimento, como uma ave de rapina atingida por um raio no mais alto  de seu soberbo v&ocirc;o, e que cai lentamente dos ares, semimorta, deitar-se a  seus p&eacute;s". Aqui, n&atilde;o &eacute; mais a linguagem que cria enquanto tal, mas apenas  o poeta, embora ele tome de empr&eacute;stimo, da linguagem em geral, o  tra&ccedil;o essencial da queda, exatamente como esta o tomou da ess&ecirc;ncia do  ser humano. E &eacute; s&oacute; desse fundo que seria poss&iacute;vel explicar o fato dessa  compara&ccedil;&atilde;o "pegar" o leitor imediatamente, de agir sobre ele, e ele mal  notar que se trata de uma compara&ccedil;&atilde;o, mas, pelo contr&aacute;rio, escutar com a  convic&ccedil;&atilde;o: "&eacute; de mim que se trata; eu sou (ou poderia ser, o que aqui &eacute;  equivalente) esta ave de rapina mortalmente ferida".</font></p>      <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Aqui, j&aacute; nos encontramos no pr&oacute;prio umbral do sonho; mas,  da mesma forma, tudo o que dissemos at&eacute; aqui poderia ser relacionado,  palavra por palavra, ao sonho que, em suma, nada &eacute; sen&atilde;o um modo  particular do ser humano.</font></p>      <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Na compara&ccedil;&atilde;o mencionada, foi minha pr&oacute;pria dor, e,  portanto, algo vinculado a mim, que me &eacute; interior, uma "parte" de mim  mesmo, que se tornou a ave de rapina ferida. E, assim, come&ccedil;a a  personifica&ccedil;&atilde;o dram&aacute;tica que tamb&eacute;m conhecemos como o meio de representa&ccedil;&atilde;o  principal do sonho: isolado, solit&aacute;rio, "Eu" n&atilde;o caio mais das nuvens na  minha dor, mas &eacute; minha pr&oacute;pria dor, enquanto uma segunda pessoa  dram&aacute;tica, que cai a meus p&eacute;s. A express&atilde;o mais eloq&uuml;ente desse fato &eacute; que, em  certas circunst&acirc;ncias, eu possa muito bem cair do c&eacute;u e, no entanto,  permanecer de p&eacute; no ch&atilde;o, do ponto de vista meramente corporal, e, na  auto-observa&ccedil;&atilde;o, assistir &agrave; minha pr&oacute;pria queda. Se, na poesia moderna ou  cl&aacute;ssica, nos sonhos e mitos de todos os tempos e povos, encontramos sempre  a &aacute;guia e o falc&atilde;o, o milhafre ou o abutre como a personifica&ccedil;&atilde;o n&atilde;o  somente de nossa ascens&atilde;o e de nossa vontade nost&aacute;lgica de nos elevar,  mas tamb&eacute;m de nosso Dasein cadente, isso mostra apenas que a  determina&ccedil;&atilde;o, em termos de ascens&atilde;o ou queda, constitui um tra&ccedil;o essencial  da nossa exist&ecirc;ncia. Al&eacute;m disso, esse tra&ccedil;o fundamental n&atilde;o deve ser  confundido com a vontade consciente orientada para o fim de se elevar, ou com  o medo consciente da queda, que n&atilde;o s&atilde;o sen&atilde;o reflexos, na  consci&ecirc;ncia, desse tra&ccedil;o fundamental. N&atilde;o, a ascens&atilde;o e a meta concreta da  ascens&atilde;o, para nos atermos a esse ponto, s&atilde;o aqui essencialmente irrefletidas.  Do mesmo modo, a frase de Cromwell &eacute; objetivamente v&aacute;lida para o  pequeno n&uacute;mero daqueles por meio dos quais a humanidade se perpetua:  ningu&eacute;m, disse ele, sobe mais alto "do que aquele que n&atilde;o sabe aonde vai". </font></p>    <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&Eacute; exatamente esse momento irrefletido ou, como diz a  psican&aacute;lise, esse momento inconsciente, que tanto nos "toca" na presen&ccedil;a da ave  de rapina que se eleva e tra&ccedil;a, acima de n&oacute;s, seus calmos c&iacute;rculos nas  alturas do long&iacute;nquo azul:</font></p>      <blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">E toda via em cada um &eacute; inato    <br> Que acima e avante o leve o sentimento,    <br> Se sobre n&oacute;s no espa&ccedil;o azul perdida    <br> Entoa a cotovia o canto agudo,    <br> Se sobre os pinheirais de altivas rochas    <br> Paira a &aacute;guia estendida, e por lagoas    <br> Ou por plainos o grau regressa &agrave; p&aacute;tria.</font></p>      <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">(Goethe, J. W.,  <I>Fausto</I>,  verso 1120 e ss. Tradu&ccedil;&atilde;o de  Agostinho D'Ornellas)</font></p></blockquote>      <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Baseando-se nesse "inatismo", todas as compara&ccedil;&otilde;es com  &aacute;guias e p&aacute;ssaros, assim como todas as express&otilde;es aut&ecirc;nticas do Dasein, n&atilde;o  somente trazem um esclarecimento ou um complemento formal, mas  permitem, tamb&eacute;m, um aprofundamento substancial. Usando mais uma  vez um exemplo po&eacute;tico, lembremos como M&ouml;rike utiliza a compara&ccedil;&atilde;o  da &aacute;guia para marcar a felicidade irrefletida do amor que se eleva e teme  a queda:</font></p>      <blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A &aacute;guia tenta alcan&ccedil;ar o sem limite    <br> Seu olhar se embebece de dourado cintilante    <br> Ela n&atilde;o &eacute; louca a ponto de perguntar    <br> Se sua cabe&ccedil;a ir&aacute; chocar-se contra a ab&oacute;boda celeste    <br> E o amor, ser&aacute; que ele n&atilde;o deve ser comparado com a &aacute;guia?    <br> O amor tem medo, mas seu medo lhe &eacute; sagrado    <br>  O que &eacute; toda sua felicidade, sen&atilde;o a ousadia infinita?</font></p></blockquote>      <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Nos sonhos, o v&ocirc;o e a queda aparecem freq&uuml;entemente, como  &eacute; bem conhecido, como a flutua&ccedil;&atilde;o e o afundamento de nossa forma  corporal pr&oacute;pria. Esses sonhos de v&ocirc;o ou de queda s&atilde;o relacionados seja a  estados som&aacute;ticos, particularmente &agrave; respira&ccedil;&atilde;o - caso em que seriam  ligados aos sonhos supostamente associados a estimula&ccedil;&otilde;es som&aacute;ticas -, seja  a tonalidades afetivas er&oacute;ticas ou desejos puramente sexuais. As duas  coisas s&atilde;o poss&iacute;veis, e n&atilde;o podemos contestar nenhuma das duas hip&oacute;teses, pois,  na nossa concep&ccedil;&atilde;o, trata-se de descobrir uma estrutura  <I>a priori</I> que recebe seu preenchimento especial e secund&aacute;rio, tanto pela excita&ccedil;&atilde;o corp&oacute;rea  e pelo esquema corp&oacute;reo em geral, como pela tematiza&ccedil;&atilde;o er&oacute;tico-sexual.  &Eacute; somente com respeito a esses preenchimentos que devemos trazer a  prova de um motivo definitivo, extra&iacute;do da biografia exterior ou &iacute;ntima do  sonhador, para que possamos compreender por que, nesse momento  preciso, manifesta-se esse preenchimento determinado; buscando, por exemplo,  a raz&atilde;o por que o sonhador, nesse instante determinado, concentra toda  sua aten&ccedil;&atilde;o na respira&ccedil;&atilde;o, porque, precisamente agora, ele experimenta  desejos sexuais ou temores, etc. S&oacute;, ent&atilde;o, um tal sonho pode ser  compreendido psicologicamente. Se o desejo ou o temor dissimulam-se sob um  segundo ou terceiro personagem (ou um drama entre os animais), &eacute;  necess&aacute;rio, para a compreens&atilde;o psicol&oacute;gica, remeter traduzindo, minuciosamente,  cada uma das figuras, humana ou animal, &agrave;s diferentes aspira&ccedil;&otilde;es  ps&iacute;quicas. Analisamos biograficamente e em  detalhe<a name="5"></a><SUP><a href="#5b">5</a></SUP> um sonho desse tipo, no qual o conflito ps&iacute;quico &eacute; representado pelo ataque de uma &aacute;guia que se  precipita sobre uma marta, tranq&uuml;ilamente enrodilhada em seu canto, e  pelo rapto desta pela ave de rapina que se afasta voando. Vou citar aqui  o sonho de uma de minhas pacientes, mais simples, mas  absolutamente compar&aacute;vel, e que representa um pensamento de morte e de amor.  N&atilde;o irei, entretanto, analis&aacute;-lo, pois isso nos levaria a desdobramentos  n&atilde;o pertinentes:</font></p>      <blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Diante de meus olhos, uma ave de rapina lan&ccedil;a-se sobre uma  pomba branca, fere-a na cabe&ccedil;a e depois voa, carregando-a. Eu  come&ccedil;o a perseguir o animal gritando e batendo com as m&atilde;os, e depois  de uma longa ca&ccedil;ada, consigo faz&ecirc;-lo largar sua presa. Ao recolher  a pomba do ch&atilde;o constato, para minha grande tristeza, que ela  j&aacute; est&aacute; morta.</font></p></blockquote>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Enquanto no exemplo do pintor Nolten, o Dasein, que se  eleva e cai, encontrava seu preenchimento imag&eacute;tico na ave de rapina  atingida por um raio, aqui, assim como no sonho da &aacute;guia e da marta, aparece  o combate de duas criaturas, uma das quais apresenta a parte que se  eleva vitoriosa e a outra, que &eacute; derrotada e cadente. Como no exemplo de  Nolten, em que o homem, paralisado, congelado pela dor da decep&ccedil;&atilde;o, v&ecirc; a ave  de rapina que morre cair abatida a seus p&eacute;s, tamb&eacute;m nossa sonhadora v&ecirc;  no ch&atilde;o a pomba morta. Para a interpreta&ccedil;&atilde;o do sonho &eacute; indiferente que  o drama desenrolado no mortal sil&ecirc;ncio da alma se d&ecirc; atrav&eacute;s do papel  da pessoa do pr&oacute;prio sonhador, ou em um, dois ou v&aacute;rios pap&eacute;is  acess&oacute;rios al&eacute;m do da sua pessoa, ou ainda  <I>unicamente</I> em tais pap&eacute;is acess&oacute;rios  derivados. O tema que o Dasein se proporciona no sono e, portanto, o  "conte&uacute;do" do drama, representa o elemento importante e decisivo; quanto  &agrave; distribui&ccedil;&atilde;o dos pap&eacute;is, ela seria apenas, em compara&ccedil;&atilde;o, acidental e  acess&oacute;ria. Muitas vezes, a decep&ccedil;&atilde;o da vida em descens&atilde;o assume seu peso  na imagem de uma soberba ave de rapina, que, morta, transforma-se  num objeto sem valor, ou ainda, que &eacute; depenado e jogado fora. No  segundo volume de sua biografia de Gottfried Keller, Ermatinger reconstitui  dois sonhos do biografado a partir dos di&aacute;rios &iacute;ntimos do mesmo, os  quais ilustram o que acabamos de dizer.</font></p>      <p align="center"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><I>Primeiro sonho</I>    <br> 10 de janeiro de 1848</font></p>     <blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Na noite passada, eu estava em Glattfelden. O rio Glatt,  reluzente, corria diante da casa num feliz rumorejar; mas eu o  assistia correr numa dist&acirc;ncia quase inalcan&ccedil;&aacute;vel pela vista, mais  distante do que efetivamente era. Est&aacute;vamos em frente &agrave; janela, que  dava para a pradaria, quando uma poderosa &aacute;guia come&ccedil;a a voar  atrav&eacute;s do vale, afastando-se e depois retornando. Quando ela p&aacute;ra  em cima da colina e pousa num pinheiro corro&iacute;do pelo tempo,  meu cora&ccedil;&atilde;o come&ccedil;ou a bater de um modo estranho. Acho que  sentia essa comovente alegria por estar vendo pela primeira vez uma  &aacute;guia planar em liberdade total. Ela se aproximou voando bem perto  de nossa janela e ent&atilde;o percebemos que ela tinha uma coroa sobre  a cabe&ccedil;a e que suas asas e suas penas eram chanfradas de modo  bizarro e pontiagudo, como nos ornamentos dos bras&otilde;es. Meu tio e  eu nos precipitamos para agarrar os fuzis pendurados na parede e  nos postamos atr&aacute;s das portas. O p&aacute;ssaro gigante entrou realmente  pela janela e preencheu todo o c&ocirc;modo com sua envergadura;  atiramos, e, no ch&atilde;o, em vez da &aacute;guia, vemos um monte de peda&ccedil;os de  papel rasgados e enegrecidos, o que muito nos irritou.</font></p></blockquote>      <p align="center"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><I>Segundo sonho</I>    <br> 3 de dezembro</font></p>     <blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Nesta noite, sonhei com um milhafre. Eu estava numa casa,  de onde olhava pela janela; os vizinhos estavam no p&aacute;tio com  seus filhos. Ent&atilde;o, um milhafre muito grande, um animal  magn&iacute;fico, aproxima-se voando por cima dos telhados. Na realidade, ele  apenas planava, pois suas asas estavam dobradas e ele parecia  faminto e exausto, enquanto ca&iacute;a cada vez mais, tentando  penosamente reerguer seu v&ocirc;o, mas sem nunca conseguir atingir novamente  o ponto que deixara. Os vizinhos e seus filhos gritavam, fazendo  um grande estardalha&ccedil;o e, impacientemente, jogavam os bon&eacute;s para  o alto em sua dire&ccedil;&atilde;o para faz&ecirc;-lo cair completamente. Ele olha  para mim e, subindo e descendo, parece querer se aproximar. Eu  corro para a cozinha para achar algum alimento para ele; foi muito  dif&iacute;cil achar qualquer coisa e, quando volto apressadamente &agrave; janela,  ele jazia, j&aacute; morto, nas m&atilde;os de um molequinho que arrancava  as maravilhosas plumas de suas asas e as jogava por terra; por  fim, cansado da brincadeira, ele joga o p&aacute;ssaro num monte de  estrume. Os vizinhos, que tinham conseguido abater o milhafre com  uma pedrada, dispersaram-se, cada qual retornando a suas  ocupa&ccedil;&otilde;es. Esse sonho me entristeceu muito.</font></p></blockquote>      <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ao mergulharmos nesses sonhos - e seu encanto est&eacute;tico  convida-nos naturalmente a isso -, parece-nos ser poss&iacute;vel sentir por um  instante a pulsa&ccedil;&atilde;o do Dasein, sua s&iacute;stole e di&aacute;stole, sua expans&atilde;o e  depress&atilde;o, sua eleva&ccedil;&atilde;o e afundamento parecem vis&iacute;veis. E cada uma dessas  fases, visivelmente dupla, exterioriza-se ao mesmo tempo na imagem e na rea&ccedil;&atilde;o colorida afetivamente: na imagem da &aacute;guia planando em  liberdade e da alegria que extra&iacute;mos dessa contempla&ccedil;&atilde;o, na imagem dos  fragmentos carbonizados de papel e do dissabor que sua vis&atilde;o provoca,  na imagem do milhafre morto cujas penas foram arrancadas e da tristeza  que isso nos faz sentir. Entretanto, no fundo, a imagem feliz e a  felicidade vivida, e a imagem triste e a tristeza a ela ligada, s&atilde;o a mesma coisa:  elas s&atilde;o a express&atilde;o de uma &uacute;nica onda que cresce e decresce, pois  tamb&eacute;m desse ponto de vista, o tema que o Dasein se proporciona, em cada  uma dessas fases, continua sendo o elemento decisivo. O fato de esse tema  se expressar, mais fortemente, no teor afetivo das pr&oacute;prias imagens ou  na tonalidade afetiva puramente reativa, que a vis&atilde;o dessa imagem  parece desencadear no sonhador, &eacute;, como veremos a seguir,  tamb&eacute;m  significativo, mas tem uma significa&ccedil;&atilde;o secund&aacute;ria (cl&iacute;nico-diagn&oacute;stica, por  exemplo). &Eacute;, precisamente, o aprofundamento no conte&uacute;do on&iacute;rico manifesto  - que passou a um segundo plano, desde o postulado de Freud, que  marcou &eacute;poca, referente &agrave; reconstru&ccedil;&atilde;o dos pensamentos on&iacute;ricos latentes -  que nos ensina a avaliar corretamente o estreito parentesco original entre  o sentimento e a imagem, entre a tonalidade afetiva e o  preenchimento imag&eacute;tico. E o que vale para as curtas ondas cujos reflexos brincam  na imagem e no humor do sonho, tamb&eacute;m vale, naturalmente, para as  ondas mais longas e profundas da "altera&ccedil;&atilde;o da tonalidade afetiva", exaltada  ou depressiva, nos seres normais e patol&oacute;gicos. Vamos mostrar, ainda, com  a ajuda de dois exemplos, que a onda vital euf&oacute;rica ascendente pode  encontrar o preenchimento imag&eacute;tico n&atilde;o s&oacute; na imagem da subida, e que  a onda que afunda na infelicidade tamb&eacute;m n&atilde;o a encontra s&oacute; na queda. O segundo sonho de Gottfried Keller, que expusemos  acima, possui um prolongamento t&atilde;o gracioso quanto interessante; ap&oacute;s as  palavras "Esse sonho me entristeceu muito", o autor continua:</font></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ao contr&aacute;rio, senti um imenso prazer ao ver uma menina  dirigir-se a mim para vender um grande buqu&ecirc; de cravos. Fiquei muito  surpreso por ver esses cravos em pleno m&ecirc;s de dezembro e comecei  a negociar com a crian&ccedil;a. Ela me pedia tr&ecirc;s schillings por suas  flores, mas eu tinha apenas dois no bolso, e me sentia muito  embara&ccedil;ado: pedi-lhe que me separasse somente flores para dois schillings,  pois s&oacute; essa quantidade cabia na ta&ccedil;a de champanhe em que  normalmente colocava minhas flores. Ent&atilde;o, ela me disse: "Deixe  comigo, todas elas v&atilde;o caber". E tomando os cravos um a um,  arruma-os delicadamente na delgada ta&ccedil;a de cristal brilhante, e eu a  observava e sentia o agrado e o bem-estar que nos vem quando  vemos ser executado um trabalho f&aacute;cil no sil&ecirc;ncio, na calma e na  gra&ccedil;a. Quando ela colocou o &uacute;ltimo cravo, senti novamente uma  certa ang&uacute;stia. A menina lan&ccedil;a-me um olhar amistoso e malicioso e  diz: "Viu? No fundo, n&atilde;o havia tantos quanto eu pensara e seu pre&ccedil;o  &eacute; de apenas dois schillings". Enquanto isso, aqueles cravos  comuns haviam se transformado em flores de um laranja flamejante,  com um perfume extraordinariamente agrad&aacute;vel e t&iacute;pico dos cravos.</font></p></blockquote>      <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Depois do "espl&ecirc;ndido milhafre", depenado e morto, ter  sido abandonado desatenciosamente pelo molequinho e pela multid&atilde;o sobre  o monte de estrume, eleva-se uma nova onda, que n&atilde;o projeta mais  uma imagem de ascens&atilde;o, mas flores de cor intensa e de delicioso  perfume, uma forma amistosa de menina, graciosa e marota, uma delgada ta&ccedil;a  de champanhe. Todos esses temas constituem uma cena feliz que, apesar  da desagrad&aacute;vel amea&ccedil;a do embara&ccedil;o e da ang&uacute;stia, mant&eacute;m-se  vitoriosamente at&eacute; o fim. Aqui, a curva ascendente da onda manifesta-se  pelos primeiros acordes de uma excita&ccedil;&atilde;o vital fortemente sensual e er&oacute;tica,  e pelo acompanhamento que d&aacute; a tonalidade afetiva ao tema c&ecirc;nico. </font></p>    <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Outras vezes, a mudan&ccedil;a de uma corrente vital feliz e  vencedora, para uma desanimada e angustiada, mostra-se no enfraquecimento  de cores suntuosas que brilham ao sol e no encobrimento da luz e da  visibilidade, como revela de forma expressiva o sonho dos fais&otilde;es que  Goethe relata em <I>Viagem &agrave;  It&aacute;lia</I>:</font></p>      <blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Embora me sinta angustiado pela press&atilde;o de uma tal plenitude  do bom e do desej&aacute;vel, sinto-me obrigado a lembrar a meus  amigos um sonho que, justamente h&aacute; um ano, pareceu-me bastante  significativo. Ei-lo: num barco bem grande, aportei numa ilha  f&eacute;rtil com luxuriante vegeta&ccedil;&atilde;o onde eu sabia poder encontrar os  mais belos fais&otilde;es do mundo. Comecei ent&atilde;o a negociar, com os  habitantes da ilha, essas aves, das quais me traziam um grande  n&uacute;mero que haviam matado. De fato, eram fais&otilde;es, mas conforme as  habituais transforma&ccedil;&otilde;es nos sonhos, percebiam-se longas penas  coloridas e oceladas de pav&otilde;es ou aves-do-para&iacute;so, t&atilde;o raras.  Foram-me trazidas d&uacute;zias deles ao barco, onde eram colocados num  arranjo com as cabe&ccedil;as voltadas para dentro, de modo t&atilde;o gracioso que  as longas plumas multicoloridas desabrochavam para o exterior  e, brilhando ao sol, formavam a mais maravilhosa configura&ccedil;&atilde;o  que se possa sonhar. O conjunto era t&atilde;o impressionante que mal  sobrara lugar para os remadores e pilotos. Enquanto abr&iacute;amos  passagem pelas calmas ondas, eu j&aacute; escolhia em meu esp&iacute;rito os amigos  aos quais faria distribuir esses tesouros de mil cores. Acostando,  finalmente, num grande porto, perco-me em meio a mil navios,  de mastros gigantescos; escalei de conv&eacute;s em conv&eacute;s, at&eacute;  encontrar um lugar seguro em meu pequeno barco. Essas loucas imagens divertiram-nos muito, pois jorrando a partir delas pr&oacute;prias,  deviam efetivamente apresentar uma analogia com o restante  de nossa vida e destinos.</font></p></blockquote>      <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Esse sonho, ocorrido mais ou menos um ano antes do come&ccedil;o  da viagem &agrave; It&aacute;lia e de <I>seu relato  escrito</I>,pelo fato de perdurar de forma  t&atilde;o v&iacute;vida na lembran&ccedil;a do sonhador, e por sua reiterada men&ccedil;&atilde;o, d&atilde;o  ao psic&oacute;logo um vislumbre bastante claro da labilidade ou mesmo da  precariedade da exist&ecirc;ncia de Goethe nessa &eacute;poca, que ele superou  vitoriosamente com seguran&ccedil;a instintiva, atrav&eacute;s de  sua fuga para a It&aacute;lia, para  o Sul, as cores, o sol, para um novo conte&uacute;do de esp&iacute;rito e de amor.</font></p>      <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Mas voltemos aos sonhos em que se voa ou plana. Eu gostaria  de mostrar com a ajuda de um exemplo que, com muita freq&uuml;&ecirc;ncia, n&atilde;o  s&atilde;o os sonhos com conte&uacute;do imag&eacute;tico surpreendentemente forte que inspiram preocupa&ccedil;&atilde;o ao psiquiatra mas, ao contr&aacute;rio, aqueles nos quais  o conte&uacute;do imag&eacute;tico e, portanto, o desenrolar dram&aacute;tico do sonho,  retrocedem diante do puro teor afetivo. &Eacute; um sinal de sa&uacute;de mental quando  o homem objetiva no sonho seus desejos e temores sob a forma de  imagens predominantemente dram&aacute;ticas, das quais parece emanar, conforme  vimos, o teor afetivo. No sonho "c&oacute;smico" de um de nossos pacientes,  que vamos relatar, o teor afetivo &eacute; t&atilde;o preponderante que mesmo a mais  poderosa objetiva&ccedil;&atilde;o, a imagem do cosmo ou do universo, n&atilde;o &eacute;  suficiente para fornecer-lhe uma fixa&ccedil;&atilde;o imag&eacute;tica. Aqui, o doente n&atilde;o se  encontra nem ao lado de seu drama, que ele desliga da forma de seu pr&oacute;prio  corpo, nem tampouco se integra neste drama.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Eis o sonho:</font></p>      <blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Eu estava em um outro mundo maravilhoso, num mar  universal onde, desprovido de forma, eu flutuava. Via de muito longe a  terra e todas as estrelas e me sentia estranhamente fugaz e com  um transbordante sentimento de for&ccedil;a.</font></p></blockquote>      <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O pr&oacute;prio doente descreve este sonho como um sonho de  morte. Essa flutua&ccedil;&atilde;o sem qualquer forma, essa dissolu&ccedil;&atilde;o total da forma  corporal pr&oacute;pria, n&atilde;o &eacute; favor&aacute;vel do ponto de vista diagn&oacute;stico. Da  mesma maneira, a oposi&ccedil;&atilde;o entre o exagerado sentimento de poder e a  aus&ecirc;ncia de forma da pessoa indica uma perturba&ccedil;&atilde;o moment&acirc;nea mais  profunda na sua estrutura mental. Mas isso n&atilde;o pertence mais ao sonho, mas  &agrave; psicose enquanto tal, quando o doente define esse sonho como um  ponto crucial de sua vida, sentindo tal fascina&ccedil;&atilde;o por seu teor afetivo que  busca reviver incessantemente em seus devaneios, preferindo esse sentimento  a qualquer outro conte&uacute;do da vida e esfor&ccedil;ando-se, sempre de novo, por  sair efetivamente da vida. O que Jeremias Gotthelf dizia a respeito de um  de seus sonhos certamente n&atilde;o se aplica a nosso sonhador: "Eu sentia que  a noite salutar tinha passado sobre mim" ou ainda: "Os sonhos n&atilde;o  s&atilde;o tamb&eacute;m um presente de Deus e n&atilde;o devemos utiliz&aacute;-los para nosso crescimento espiritual?" Quanto, igualmente, o sonho de nosso doente  difere, com respeito a seu estilo e estrutura, tamb&eacute;m do sonho c&oacute;smico de v&ocirc;o  de Jean Paul:</font></p>     <blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Numa felicidade perfeita, numa prodigiosa eleva&ccedil;&atilde;o do corpo e  do esp&iacute;rito, por vezes eu subia verticalmente at&eacute; a ab&oacute;boda celeste,  de um azul profundo, e no meu al&ccedil;ar v&ocirc;o, eu cantava o edif&iacute;cio  do mundo.</font></p></blockquote>      <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ele tamb&eacute;m mostra-se muito diferente dos sonhos  maravilhosos, embora um pouco estilizados, de Gottfried Keller sobre o pa&iacute;s natal,  relatados no volume IV de <I>Henrique, o Verde</I>: aqui, uma abund&acirc;ncia de  formas e de maravilhas da natureza, um encantamento silvestre de inusitada  riqueza que, bem do alto, o sonhador tamb&eacute;m parece sobrevoar, de  maneira que tudo, abaixo dele, aparecia como um c&eacute;u estrelado  subterr&acirc;neo, "mas o c&eacute;u era verde e as estrelas fulguravam com todas as cores".  Em nosso paciente, no entanto, imagina&ccedil;&atilde;o c&oacute;smica abstrata que nos d&aacute;  calafrios! Enquanto Keller, cheio de ang&uacute;stia, via em seus sonhos o  pren&uacute;ncio de uma grave doen&ccedil;a, tentando dela escapar de todos os modos,  nosso doente, por seu lado, deixa-se cativar sempre mais pelo encanto  est&eacute;tico puramente subjetivo de seus sonhos. &Eacute; nessa dissolu&ccedil;&atilde;o no mais  objetivo do subjetivo, no puro teor afetivo, que se perde o sentido da vida  para nosso paciente, como ele mesmo reconhece:</font></p>      <blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Estamos no mundo para descobrir o sentido da vida, mas a  vida n&atilde;o tem sentido, e &eacute; por isso que quero me liberar da vida  para voltar &agrave; for&ccedil;a origin&aacute;ria. N&atilde;o acredito numa vida pessoal depois  da morte, acredito numa dissolu&ccedil;&atilde;o na for&ccedil;a origin&aacute;ria.</font></p></blockquote>      <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A desesperan&ccedil;a total em rela&ccedil;&atilde;o ao sentido da vida seria  ent&atilde;o sin&ocirc;nimo da dissolu&ccedil;&atilde;o do homem na pura subjetividade ou, mesmo,  poder&iacute;amos dizer, uma &eacute; o inverso da outra: pois o sentido da vida &eacute;  sempre acima do subjetivo, algo universal, "objetivo" e impessoal. Devemos, entretanto, constatar, se formos rigorosos, que n&atilde;o existe dissolu&ccedil;&atilde;o na  pura subjetividade enquanto o homem for homem. Tamb&eacute;m em nosso  doente, a nostalgia do retorno &agrave; for&ccedil;a origin&aacute;ria ainda mostra  uma aspira&ccedil;&atilde;o  na dire&ccedil;&atilde;o de um fundamento e de um apoio objetivo. E no entanto,  podemos dizer, servindo-nos da distin&ccedil;&atilde;o de Bertollet, que, aqui, essa  aspira&ccedil;&atilde;o se perfaz aparentemente de modo puramente din&acirc;mico, a saber,  c&oacute;smico-din&acirc;mico, e n&atilde;o te&iacute;sta-personalista. Mas, se penetrarmos  profundamente na biografia exterior e interior de nosso doente, veremos que  esse retorno &agrave; for&ccedil;a c&oacute;smica origin&aacute;ria corresponde a uma nostalgia da  m&atilde;e, com um forte colorido er&oacute;tico, ou seja, &agrave; necessidade claramente  manifesta e realizada pelo jovem doente de se apoiar numa mulher que fosse  uma amante maternal. Assim, sob as apar&ecirc;ncias de um dinamismo  puramente objetivo, transparece um personalismo fortemente subjetivo, que  coloca em quest&atilde;o o apoio no objetivo e impessoal.</font></p>      <p align="center"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">II</font></p>      <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A imagem da ave de rapina caindo impetuosamente sobre  a pomba ou qualquer outro animal, para dilacer&aacute;-lo ou aniquil&aacute;-lo, &eacute;  conhecida desde a Antig&uuml;idade. Mas, enquanto o homem de hoje v&ecirc;-se  obrigado a construir seu mundo em seu pr&oacute;prio cora&ccedil;&atilde;o, ap&oacute;s ter-se  proclamado Deus e senhor da vida e da morte, o mundo exterior, dominado  pelas for&ccedil;as n&atilde;o espirituais, econ&ocirc;micas e t&eacute;cnicas, n&atilde;o sendo mais capaz  de fornecer-lhe um apoio, o homem antigo, em suas vig&iacute;lias ou sonhos,  desconhece essa solid&atilde;o origin&aacute;ria no cosmo, solid&atilde;o que constatamos,  h&aacute; pouco, em nosso jovem sonhador. Ele n&atilde;o compreenderia a frase do  grande s&aacute;bio que foi Jeremias Gotthelf: "Pense o quanto o mundo  escurece quando o homem quer ser seu pr&oacute;prio sol". O homem antigo vive  num cosmo do qual fazem parte suas decis&otilde;es mais &iacute;ntimas, mais secretas,  na vig&iacute;lia ou no sonho, pois</font></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">para o iniciado, o que experimentamos enquanto motivos no  momento da decis&atilde;o s&atilde;o os deuses. &Eacute; neles, e n&atilde;o na mente  infinita, que se encontra a profundidade e a mais nobre raz&atilde;o para tudo  o que &eacute; importante e que se cumpre no  homem.<a name="6"></a><SUP><a href="#6b">6</a></SUP></font></p> </blockquote>      <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&Eacute; claro que n&atilde;o desejar&iacute;amos, ainda hoje, imitando o  classicismo, simplesmente tomar emprestadas as formas acabadas da Gr&eacute;cia  antiga. Isso significaria, principalmente para o psic&oacute;logo, um projeto  singularmente limitado e escolar. Mas podemos entender, com o humanismo  moderno, que a hist&oacute;ria espiritual dos gregos &eacute; a constru&ccedil;&atilde;o de um  mundo das formas "no qual as leis naturais do homem desdobram-se em todos  os sentidos", e que no aprofundamento neste mundo das formas  encontra-se exatamente "a autocompreens&atilde;o e a autoconstru&ccedil;&atilde;o do homem  espiritual na estrutura fundamental de sua  ess&ecirc;ncia."<SUP><a name="7"></a><a href="#7b">7</a></SUP> &Eacute; a partir desse ponto de  vista que continuaremos a expor nosso modesto problema particular.</font></p>      <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Na <I> Odiss&eacute;ia</I>, 19, 535-581, quando, no sonho de Pen&eacute;lope,  uma &aacute;guia lan&ccedil;a-se sobre os gansos massacrando-os totalmente, nem o poeta,  e tampouco o leitor, pensa em processos subjetivos na psique da  sonhadora. Ao contr&aacute;rio, o sonho indica aqui um acontecimento exterior, a saber,  o assassinato dos pretendentes por Ulisses. (Esta observa&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m &eacute;  v&aacute;lida para o sonho an&aacute;logo de H&eacute;cuba, na trag&eacute;dia de Eur&iacute;pides  [68-97] com o mesmo nome, quando o lobo se precipita sobre o veado.) Os  sonhos s&atilde;o certamente cria&ccedil;&otilde;es po&eacute;ticas, mas ap&oacute;s as experi&ecirc;ncias  psicanal&iacute;ticas, podemos invocar aqui um precedente famoso, ou seja, C&iacute;cero,  quando, em seu escrito <I>Sobre a  adivinha&ccedil;&atilde;o</I>, ele coloca em cena seu irm&atilde;o  Quintus, que n&atilde;o se cansa de citar sonhos encontrados nos poetas, fazendo-o  dizer: "<I>Haec, etiam si ficta sunt a poeta, non absunt tamen a consuetudine  somniorum</I>."</font></p>      <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ainda com mais freq&uuml;&ecirc;ncia que nos pr&oacute;prios sonhos,  encontramos a imagem da &aacute;guia e da pomba, da &aacute;guia e do ganso, do falc&atilde;o e  da &aacute;guia etc., enquanto resposta favor&aacute;vel ou desfavor&aacute;vel do or&aacute;culo ou do  vidente consultado sobre a premoni&ccedil;&atilde;o e o sentido prof&eacute;tico do  sonho. Tamb&eacute;m aqui essa imagem indica um acontecimento externo futuro,  segundo a convic&ccedil;&atilde;o fundamental dos gregos de que o acontecer do  mundo &eacute; ordenado em um todo, encontrando-se fixado de antem&atilde;o em toda  sua precis&atilde;o pela Moira e pelos deuses. (Da mesma forma, Her&aacute;clito  forjara essa f&oacute;rmula lapidar: "O sol n&atilde;o sair&aacute; de sua &oacute;rbita prescrita. Se ele  o fizesse, as Er&iacute;nias, servas de Dike, da necessidade e da lei br&ocirc;nzea,  saberiam certamente restabelec&ecirc;-la".) Encontramos tal or&aacute;culo ap&oacute;s o sonho, em  <I>Os persas</I>, de &Eacute;squilo. Depois da partida de Xerxes para a Gr&eacute;cia  com todos os seus ex&eacute;rcitos, sua m&atilde;e, Atossa, v&ecirc; em sonho duas mulheres,  uma com as vestes d&oacute;ricas e outra com roupas persas. Essas duas  mulheres brigam e Xerxes atrela-as a seu carro. Uma delas curva-se de bom  grado ao jugo, enquanto a outra resiste e quebra-o. Xerxes cai do carro e   rasga as vestes diante dos olhos de Dario, que lamenta sua sorte.  Profundamente transtornada com este sonho e com outros semelhantes, Atossa,  acompanhada dos sacerdotes, dirige-se para o altar de Apolo e oferece um  sacrif&iacute;cio &agrave;s divindades que afastam a maldi&ccedil;&atilde;o:</font></p>      <blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Vi em seguida uma &aacute;guia que fugia    <br> No rumo de um sacr&aacute;rio de Febo divino.    <br> Parei, muda de espanto, mas no mesmo instante    <br> Diante de meus pr&oacute;prios olhos um falc&atilde;o    ]]></body>
<body><![CDATA[<br> Apareceu no c&eacute;u em largos movimentos    <br> De suas asas r&aacute;pidas, e com as garras    <br> P&ocirc;s-se a dilacerar a cabe&ccedil;a da &aacute;guia,    <br> Que mal podia defender-se com o corpo.</font></p>      <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">(<I>Os persas</I>, V, 191-196, tradu&ccedil;&atilde;o de M&aacute;rio Gama Kury)</font></p></blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Considerando esta imagem enquanto tal, fica dif&iacute;cil saber se  ela prov&eacute;m de um sonho ou de um acontecimento do mundo exterior,  tamanha &eacute; a fus&atilde;o das fronteiras, para os gregos, entre o espa&ccedil;o interior  da experi&ecirc;ncia vivida, o espa&ccedil;o exterior do acontecimento e o espa&ccedil;o do  culto religioso. Pois, para eles, o sujeito da imagem on&iacute;rica, o sujeito do  acontecimento c&oacute;smico e o sujeito da express&atilde;o ritual s&atilde;o um &uacute;nico, a divindade,  Zeus ou seus mandat&aacute;rios, aos quais teria delegado seu poder de  modo passageiro ou permanente. Assim, vemos elaborar-se aqui uma  indissoci&aacute;vel unidade da imagem on&iacute;rica (a das duas mulheres que brigam atreladas  ao carro de Xerxes e a queda deste &uacute;ltimo), do acontecer externo (a &aacute;guia e  o falc&atilde;o) e da significa&ccedil;&atilde;o do culto. Onde, ent&atilde;o, tratar-se-ia de um  sujeito individual? E onde poderia estar at&eacute; mesmo a possibilidade de seu  fundamento e de sua queda ontol&oacute;gicos? E quem poder&aacute; decidir se a  verdade deve ser buscada na interioridade da subjetividade ou na exterioridade  da objetividade? Tudo o que &eacute; "interior" &eacute;, aqui, "exterior", assim como  tudo o que &eacute; exterior &eacute; interior. Portanto, pouco importa que tal or&aacute;culo  ocorra ap&oacute;s um sonho ou sem conex&atilde;o com ele; muitas vezes, o sonho  tamb&eacute;m anuncia a vontade da divindade sem intermedia&ccedil;&atilde;o do or&aacute;culo. Na  <I>Odiss&eacute;ia</I> (XV), encontramos dois press&aacute;gios na forma de nossa imagem  sem sonho premonit&oacute;rio:</font></p>      <blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Enquanto ele assim falava, uma ave passou voando a sua  direita; era uma &aacute;guia e carregava nas garras um grande ganso  branco, dom&eacute;stico, do quintal; homens e mulheres a seguiam gritando;  a &aacute;guia, aproximando-se do grupo, precipitou-se pela direita,  adiante dos cavalos.Vendo-a, alegraram-se e o cora&ccedil;&atilde;o o peito a  todos aqueceu. (pp. 177-178)</font></p></blockquote>      <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Com o aux&iacute;lio desses press&aacute;gios, Helena interpreta o futuro  para Tel&ecirc;maco: da mesma forma que a &aacute;guia se apoderara do ganso  cevado, Ulisses retornaria em breve ao lar para defender seus direitos (174-177).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">No mesmo canto encontramos uma imagem muito  semelhante &agrave; imagem on&iacute;rica de nossa sonhadora previamente mencionada:</font></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Mal acabara de falar, passou voando pela sua direita uma ave,  um falc&atilde;o, c&eacute;lere mensageiro de Apolo, carregando nas garras  uma pomba, que depenava, esparzindo as penas pelo ch&atilde;o entre o  barco e a pessoa de Tel&ecirc;maco. (p. 186)</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Homero 2002: Odiss&eacute;ia. Tradu&ccedil;&atilde;o de Jaime Bruna.    <br> S&atilde;o Paulo, Cultrix, 12. ed.</font></p></blockquote>      <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Esse p&aacute;ssaro que voa para a direita tamb&eacute;m &eacute; um enviado  dos deuses e, portanto, significa felicidade.</font></p>      <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Aqui n&atilde;o se trata ainda, de forma alguma, de uma vida  na ascens&atilde;o ou na queda, no sentido de uma corrente vital pertencente  ao indiv&iacute;duo isolado; trata-se antes daquilo que se eleva para a felicidade  ou cai na infelicidade, ou seja, as linhagens, as fam&iacute;lias entrela&ccedil;adas umas  &agrave;s outras pelo destino comum e predeterminado. O indiv&iacute;duo, a linhagem,  o destino e a divindade entrela&ccedil;am-se intimamente em um espa&ccedil;o  &uacute;nico; mas &eacute; ainda mais significativo e instrutivo o fato de que, nesse espa&ccedil;o  do Dasein, t&atilde;o diferente do nosso, se manifeste t&atilde;o claramente a  estrutura ontol&oacute;gica parcial da ascens&atilde;o e da queda.</font></p>      <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">No lugar daquilo que, para n&oacute;s, &eacute; interno e externo, no  lugar dessa oposi&ccedil;&atilde;o neoplat&ocirc;nica, crist&atilde; e rom&acirc;ntica, vemos, nos gregos  antigos, a oposi&ccedil;&atilde;o entre o dia e a noite, a escurid&atilde;o e a claridade, a terra e  o sol. Os sonhos pertencem ao reino da noite e da terra e s&atilde;o, eles  mesmos, dem&ocirc;nios que assombram seu  pr&oacute;prio dom&iacute;nio (Demos, em Homero)  e constituem sua pr&oacute;pria linhagem (Phylon, em Hes&iacute;odo). Sua m&atilde;e &eacute; a  noite (Hes&iacute;odo), m&atilde;e tamb&eacute;m da morte e do sono; da&iacute; o parentesco entre  os dem&ocirc;nios do sonho e as almas dos mortos que, suplicantes ou  acusadores, aparecem durante o sono. Esse &eacute; um motivo que, em Homero  (<I>Il&iacute;ada</I>, 22), &Eacute;squilo (<I>As  Eum&ecirc;nidas)</I> ou Eur&iacute;pedes  (<I>H&eacute;cuba</I>), desenvolvido artisticamente de modo grandioso, provoca um poderoso efeito est&eacute;tico e  psicol&oacute;gico. Ent&atilde;o, &eacute; profundamente significativo o fato de que, enquanto os  pr&oacute;prios sonhos pertencem inteiramente  ao lado noturno do Dasein grego, a  sua interpreta&ccedil;&atilde;o cultual, o or&aacute;culo, tenha sido progressivamente retirada  do poder de <I>Gaia</I>, velha divindade, parente da noite (veja-se, por exemplo,  a antiga adivinha&ccedil;&atilde;o d&eacute;lfica), e usurpada por um novo deus, Phoebos  Apolo. O sonho de Atossa e o or&aacute;culo do falc&atilde;o e da &aacute;guia n&atilde;o se cindem  em exterior e interior, em acontecimento objetivo e subjetivo, mas, ao  contr&aacute;rio, em reino noturno confinado em sua proximidade, obscuro e vago,  e no reino do mais desperto de todos os deuses, Apolo, radiante  divindade do sol, vigiando e desferindo de longe seus raios.</font></p>      <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Sabemos, entretanto, que para os gregos, ao lado dessa  grandiosa concep&ccedil;&atilde;o do mundo, fundada na unidade religiosa, tamb&eacute;m  havia lugar para uma observa&ccedil;&atilde;o s&oacute;bria e baseada na experi&ecirc;ncia, que  sustentava uma teoria cient&iacute;fica e, sobretudo, a interpreta&ccedil;&atilde;o  filos&oacute;fico-metaf&iacute;sica do mundo enquanto encadeamento do acontecer do mundo, desde o  mais universal at&eacute; o mais singular e aparentemente mais fortuito. Em sua  pol&ecirc;mica contra a adivinha&ccedil;&atilde;o baseada em sonhos, C&iacute;cero menciona tr&ecirc;s  concep&ccedil;&otilde;es que poderiam explicar as interpreta&ccedil;&otilde;es prof&eacute;ticas do sonho e,  na verdade, ele rejeita essas tr&ecirc;s possibilidades, e, com elas, qualquer  prof&eacute;tica do sonho, ao que aderimos completamente. Em  <I>De divinatione</I> (II, 60, 124), ele menciona a possibilidade de inspira&ccedil;&atilde;o por uma for&ccedil;a  divina (<I>divina vis quaedam</I>), pela "<I>convenientia et coniunctio naturae", "quam  vocant sympatheian</I>", e pela observa&ccedil;&atilde;o constante e dur&aacute;vel  (<I>quaedam observantio constans atque  diuturna</I>) de coincid&ecirc;ncias de acontecimentos on&iacute;ricos  com acontecimentos reais posteriores. O fator novo que descobrimos aqui  &eacute; essa teoria da simpatia que j&aacute; est&aacute; em Her&aacute;clito, nos est&oacute;icos e  particularmente em Poseidonius, e mais tardiamente, sob outra forma, em  Plotino, e depois novamente em Synesius, em sua obra sobre os sonhos, t&atilde;o  importante para n&oacute;s. &Eacute; a famosa teoria filos&oacute;fica do Todo-Um, que, onde  quer que seja encontrada, evoca o esp&iacute;rito dos gregos. Podemos, &eacute;  verdade, distinguir muitas variantes nessa teoria: em Her&aacute;clito (seguimos aqui  <I>Kosmos und Sympathie</I> de H. Reinhardt) trata-se de um Todo-Um, um  <I>hen kai pan</I> do ser e da sua ordem, da disson&acirc;ncia e da harmonia; mais tarde,  em Poseidonius, trata-se "da mat&eacute;ria e do esp&iacute;rito, da natureza e do deus,  do acaso e do destino". &Eacute; preciso distinguir de tudo isso o Todo-Um, no  sentido do <I>hen to pan</I> da uni&atilde;o m&aacute;gica de for&ccedil;as, da atra&ccedil;&atilde;o, do apelo  da evoca&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica e secreta, religiosa e filos&oacute;fica do "fluxo imperioso  que salta de uma apar&ecirc;ncia a outra". Ali&aacute;s, essa concep&ccedil;&atilde;o pode ser  encontrada ainda hoje na supersti&ccedil;&atilde;o, e exatamente naquela ligada aos  sonhos, sendo observ&aacute;vel em todas as classes sociais. Enquanto a antiga  mitologia e a filosofia gregas s&oacute; conhecem uma ordena&ccedil;&atilde;o harmoniosa do  <I>cosmo</I>, do mundo, j&aacute; vemos em Poseidonius uma concep&ccedil;&atilde;o do mundo puramente din&acirc;mica; "no lugar do conceito de ordem j&aacute; aparece o de uma for&ccedil;a  explic&aacute;vel, natural e, no entanto, secreta e cheia de mist&eacute;rio",  representa&ccedil;&atilde;o que domina ainda hoje as teorias cient&iacute;ficas e filos&oacute;ficas. Tudo isso  desempenhou um papel na concep&ccedil;&atilde;o dos sonhos desde os gregos e romanos,  at&eacute; o dia em que o mundo antigo desmoronou e em que, como sinal  infal&iacute;vel dessa queda, Petr&ocirc;nio, esp&iacute;rito refinado e libertino, o familiar de  Nero, declarava ironicamente que n&atilde;o eram, de forma alguma, os deuses  sagrados e poderosos que enviavam os sonhos do c&eacute;u para baixo, mas que  cada um os elaborava por si pr&oacute;prio: <I>Somnia, quae mentes ludunt volitantibus  umbris, non delubra, nec ab aethere numina mittunt sed sibi quisque facit (Anth.  latin.,</I> 651, R).</font></p>      <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Assim como Lucr&eacute;cio que, bem antes dele, em  <I>De natura rerum </I> (IV, 962-1029), fazia uma descri&ccedil;&atilde;o altamente realista da rela&ccedil;&atilde;o entre  as experi&ecirc;ncias on&iacute;ricas vividas e as ocupa&ccedil;&atilde;o di&aacute;rias, os temores, os  desejos, os apetites sexuais, tamb&eacute;m Petr&ocirc;nio imagina por antecipa&ccedil;&atilde;o a  parte mais importante da nova teoria dos sonhos:  "<I>sed sibi quisque facit</I>". Aqui,  os mundos antigo e moderno separam-se, n&atilde;o somente na hist&oacute;ria da  problem&aacute;tica do sonho, mas na hist&oacute;ria em geral: a  <I> hybris</I> da individua&ccedil;&atilde;o, da onipot&ecirc;ncia e da igualdade do indiv&iacute;duo humano com os deuses,  levanta, agora, a sua cabe&ccedil;a. E eis o momento em que n&oacute;s, em oposi&ccedil;&atilde;o  &agrave; subleva&ccedil;&atilde;o do homem contra o todo, contr&aacute;ria &agrave; natureza,  lan&ccedil;aremos um olhar a esse mundo das formas dos gregos "no qual as leis naturais  dos homens desdobram-se em todos os sentidos", apoiando-nos,  justamente, em nosso problema particular do sonho e da exist&ecirc;ncia.</font></p>      <p align="center"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">III</font></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Quem &eacute; ent&atilde;o esse  <I>quisque</I> de Petr&ocirc;nio? Podemos apreender,  aqui, realmente e de maneira tang&iacute;vel, o sujeito do sonho ou somente o  sujeito do sonhar? Os adeptos da pura teoria da subjetividade centrada no  <I>quisque</I> esquecem que eles s&oacute; det&ecirc;m uma semiverdade, negligenciando o fato  de que, na verdade, o homem faz rodar seu carro "onde bem entende, mas  que sob suas rodas gira, invis&iacute;vel, a esfera que ele percorre". Isso  tamb&eacute;m &eacute; t&atilde;o v&aacute;lido para a concep&ccedil;&atilde;o puramente cient&iacute;fico-gen&eacute;tica do  sonho quanto, sobretudo, para o seu julgamento &eacute;tico e para o problema  da responsabilidade moral do sonho. Na distin&ccedil;&atilde;o de Freud entre o ego e  o id, na de H&auml;berlin entre o eu e o universo, na de Jung entre o  inconsciente individual e inconsciente coletivo, na de Schleiermarcher entre a  consci&ecirc;ncia do indiv&iacute;duo e a consci&ecirc;ncia de esp&eacute;cie, na de Agostinho entre o  que acontece apenas <I>em</I> n&oacute;s e o que acontece  <I>a partir</I> de n&oacute;s, em todas essas distin&ccedil;&otilde;es mostra-se a diferen&ccedil;a entre o carro e a esfera sobre a qual ele  se desloca.</font></p>      <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Existe ainda uma outra distin&ccedil;&atilde;o do mesmo tipo, bastante  importante, e que desempenha um papel primordial na hist&oacute;ria da  filosofia, sem que seja lembrado que sua g&ecirc;nese est&aacute; ligada &agrave; distin&ccedil;&atilde;o entre  o sonho e a vig&iacute;lia: &eacute; a distin&ccedil;&atilde;o entre, de um lado, a imagem, o  sentimento, a opini&atilde;o subjetiva, a "forma d&oacute;xica" (Plat&atilde;o, Husserl), em geral, e  de outro, o esp&iacute;rito, a objetividade, a verdade. Essa distin&ccedil;&atilde;o, por sua vez,  &eacute; a mesma que aquela entre o <I>quisque</I>, o indiv&iacute;duo, o isolado, o  <I>hekastos</I> dos gregos e a comunidade homens-deuses mediatizada pelo logos, a  compreens&atilde;o m&uacute;tua. Mas, enquanto em Petr&ocirc;nio, assim como em qualquer  &eacute;poca "das luzes", o  <I>quisque</I>, como um <I>x </I>totalmente indeterminado,  dissimula-se por tr&aacute;s do sonho, sendo aquele que faz o sonho, o homem, aqui,  ele &eacute; completamente diferente de um simples  <I>quisque,</I> e isso somente na medida em que ele emerge no mundo do sonho, das imagens, do  sentimento. Aqui, o indiv&iacute;duo &eacute; conduzido, a partir de uma constru&ccedil;&atilde;o ing&ecirc;nua  do realismo metaf&iacute;sico, para um dos modos de ser homem, para uma  das maneiras e um dos procedimentos atrav&eacute;s dos quais &eacute; poss&iacute;vel ser  um homem, ou seja, a possibilidade n&atilde;o espiritual do ser humano.  Nomearemos apenas algumas das etapas dessa teoria, ligada aos nomes de  Her&aacute;clito, Plat&atilde;o, Hegel, Kierkegaard e Heidegger, limitando-nos a indicar  certos pontos &uacute;teis para nosso tema.</font></p>      <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Segundo Hegel, &eacute; a Her&aacute;clito que devemos o nascimento  da filosofia: de fato, &eacute; com ele que, pela primeira vez, encontramos a "id&eacute;ia  filos&oacute;fica em sua forma especulativa". Seu pensamento maior foi a  passagem do ser ao vir-a-ser, sua grande descoberta foi a de que o ser e o  n&atilde;o-ser s&atilde;o abstra&ccedil;&otilde;es desprovidas de verdade, e de que o verdadeiro origin&aacute;rio  &eacute; apenas o vir-a-ser; assim, em Her&aacute;clito, o momento da negatividade  - que &eacute; ao mesmo tempo o princ&iacute;pio de vida - &eacute; imanente. Por outro  lado, Hegel e Her&aacute;clito conjugam-se no desprezo e mesmo na recusa de tudo  o que &eacute; particular e isolado, negando-lhe qualquer interesse. Ambos  tamb&eacute;m pensam que, nesse sentido, n&atilde;o h&aacute; qualquer "significa&ccedil;&atilde;o  espiritual" em se "considerar a individualidade consciente como fen&ocirc;meno &uacute;nico  do ente"; pois &eacute; "pr&oacute;prio do contradit&oacute;rio que a sua ess&ecirc;ncia seja o  universal do Esp&iacute;rito" (Hegel, <I>Fenomenologia do  Esp&iacute;rito</I>).</font></p>      <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">J&aacute; na primeira parte de nosso estudo, ao examinarmos a  individualidade, o sonhador isolado do ponto de vista do universal, sem  d&uacute;vida o fizemos numa chave existencial muito fragment&aacute;ria, a partir da  imagem da vida individual feliz ou infeliz, da conc&oacute;rdia ou da  danosidade, segundo a imagem on&iacute;rica do p&aacute;ssaro que sobe para os ares ou cai,  e ainda, de seu combate com uma segunda forma de p&aacute;ssaro, ou da  ascens&atilde;o, do v&ocirc;o, da flutua&ccedil;&atilde;o, do afundamento, da queda. Essa  caracter&iacute;stica de universalidade que ent&atilde;o nos preocupava, o teor imag&eacute;tico  supra-individual, n&atilde;o &eacute; certamente elaborado pelo indiv&iacute;duo, mas este &uacute;ltimo  o possui durante o sono, apenas ele o v&ecirc; e j&aacute; se encontra mergulhado nele  no encantamento ou tormento. Suas imagens, seus sentimentos, seu  humor, pertencem somente a ele, que vive completamente em seu pr&oacute;prio  mundo. Falando psicologicamente, tudo isso chama-se sonhar, sendo indiferente  o fato de que estejamos fisiologicamente dormindo ou despertos.  Her&aacute;clito reconheceu nisso o elemento decisivo para caracterizar o sonho na  vida ps&iacute;quica e para distingui-lo da vig&iacute;lia. Ele diz que (fragmento 89) os  "despertos (plural) t&ecirc;m um &uacute;nico mundo que lhes &eacute; comum  (<I>hena kai koinon kosmon</I>), enquanto aqueles que dormem, cada um  (<I>hekastos</I>: singular) volta-se para um mundo totalmente seu  (<I>eis idion</I> <I>apostrefesthai</I>)".</font></p>      <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Por mais que j&aacute; se tenha escrito sobre a oposi&ccedil;&atilde;o, em  Her&aacute;clito, entre o elemento comum, o  <I>koinon</I> ou <I>xynon,</I> e o particular, o individual, o <I>idion </I>(ver principalmente  o<I> Parm&ecirc;nides</I>, de K. Reinhardt),  consideramos sumamente instrutivos os desenvolvimentos de Hegel, t&atilde;o pr&oacute;ximos  dele em muitos aspectos, em sua <I>Hist&oacute;ria da  filosofia.</I> Evidentemente, aqui s&oacute; podemos dar um vislumbre de seu pensamento fundamental. (Ver ainda  a tentativa de explica&ccedil;&atilde;o do fragmento 89 por meio da psicologia  moderna do pensamento, realizada no estudo em que tamb&eacute;m evidenciei o  duplo sentido desse fragmento 89, ou seja, que e por que, no sonho, temos  um mundo pr&oacute;prio e nos voltamos para ele.)</font></p>      <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A express&atilde;o mundo, cosmo, n&atilde;o deve significar o mundo  (objetivo), se nos referirmos ao vocabul&aacute;rio de Anax&aacute;goras que Her&aacute;clito  pressup&otilde;e aqui, mas o estado (subjetivo) da uni&atilde;o  (<I>koinos</I>) e da dispers&atilde;o  (<I>idios</I>). Contudo, em Her&aacute;clito, o elemento determinante dessa uni&atilde;o ou  dessa dispers&atilde;o &eacute; o logos<I>,</I> que certamente devemos traduzir (como fizeram  Jo&euml;l, G. Burckhardt e outros) seja por palavra ou discurso, seja por  pensamento, doutrina, necessidade de pensamento, rela&ccedil;&atilde;o sujeita &agrave; raz&atilde;o,  conex&atilde;o racional conforme as leis ("ordem do mundo tanto harmoniosa  quanto dissonante", como afirma Howald). O logos refere-se, diz Hegel,  tanto  ao ato de compreender quanto &agrave;  possibilidade de ser compreendido. O  que &eacute; comum a todos &eacute; o entendimento, o pensamento reflexivo  (<I>to fronein</I>)<SUP><a name="8"></a><a href="#8b">8</a></SUP>; embora devamos nos curvar a essa inst&acirc;ncia comum e embora,  portanto, haja algo em que todos poderiam se encontrar ou se compreender,  como num elemento comum, a saber, o logos, tamb&eacute;m &eacute; verdade que  muitos vivem como se tivessem seu pr&oacute;prio entendimento ou um  pensamento pr&oacute;prio privado, e como se tivessem o direito de t&ecirc;-lo (fr. 92). Ora,  esse &uacute;ltimo n&atilde;o passa de um devaneio, seja no estado fisiol&oacute;gico de sono,  seja na vig&iacute;lia. Aqueles que assim devaneiam ignoram o que fazem no  estado de vig&iacute;lia, como esquecem o que fizeram no sono (fr. 1). Para  Her&aacute;clito (negativamente), a vig&iacute;lia propriamente dita &eacute; o despertar do  pensamento individual (<I>doxa</I>) e da aprecia&ccedil;&atilde;o subjetiva; do ponto de vista positivo,  &eacute; a vida (n&atilde;o somente a vida do pensamento) segundo as regras do  universal, pouco importando se este universal se chama  <I>logos, cosmos, sophia </I>ou, ainda, seja uma conjun&ccedil;&atilde;o de tudo isso no sentido de uma vis&atilde;o racional, de  uma conex&atilde;o unit&aacute;ria de acordo com as leis, e no sentido da a&ccedil;&atilde;o de  acordo com essa vis&atilde;o. Hegel exp&otilde;e essa teoria de Her&aacute;clito dizendo que seria  a raz&atilde;o, o logos, a ju&iacute;za da verdade, n&atilde;o aquela de cada indiv&iacute;duo, mas  a ju&iacute;za divina, universal, "essa medida, esse ritmo cujas vibra&ccedil;&otilde;es  percorrem a ess&ecirc;ncia de tudo" (encontramos aqui como um eco da antiga  <I>sympatheia</I>). Estamos despertos somente quanto vivemos conscientes dessa  conex&atilde;o, quer a chamemos entendimento, compreens&atilde;o ou reflex&atilde;o. "Essa forma  de compreens&atilde;o &eacute; o que chamamos vig&iacute;lia." "Sonhamos apenas porque  n&atilde;o nos encontramos em conex&atilde;o com o todo." Assim separado, o  entendimento (segundo Her&aacute;clito) perde a for&ccedil;a da consci&ecirc;ncia que possu&iacute;a  anteriormente e (segundo Hegel) o esp&iacute;rito perde a objetividade quando  &eacute; somente uma singularidade individual: ele n&atilde;o &eacute; universal na  singularidade. Enquanto participamos do saber do entendimento divino,  encon-tramo-nos na verdade; quando pertencemos ao particular  (<I>idiasomen</I>), estamos no engano; estas s&atilde;o, diz Hegel, palavras grandes e  importantes:</font></p>      <blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">N&atilde;o se pode expressar a verdade de modo mais verdadeiro e  imparcial. Apenas a consci&ecirc;ncia do universal &eacute; consci&ecirc;ncia da  verdade, mas a consci&ecirc;ncia do singular e a a&ccedil;&atilde;o enquanto singular,  originalidade que se torna uma particularidade do conte&uacute;do ou da  forma, &eacute; o n&atilde;o verdadeiro e o mau. O erro consiste ent&atilde;o apenas  na particulariza&ccedil;&atilde;o do pensamento, o mal e o erro residindo na  separa&ccedil;&atilde;o do universal. Normalmente, os homens acham, quando  lhes &eacute; pedido que pensem algo - que esse algo deva ser particular; &eacute;  isso que &eacute; o engano.</font></p></blockquote>      <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">De outro lado, segundo Hegel, "o conhecimento de uma  coisa, que sou o &uacute;nico a ter", &eacute; precisamente o sonho, assim como a  imagina&ccedil;&atilde;o e o sentimento s&atilde;o um sonhar:</font></p>     <blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">a saber, a maneira segundo a qual algo existe apenas para  mim, algo cuja posse se encontra em mim enquanto sou este sujeito  aqui; por mais sublimes que os sentimentos possam se mostrar, eles  est&atilde;o em mim e n&atilde;o s&atilde;o livres com rela&ccedil;&atilde;o a mim.</font></p></blockquote>      <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Assim como o objeto n&atilde;o &eacute; apenas imaginado nem feito  por mim, se eu o reconhecer como algo livre, existindo em si, como algo  universal em si, assim tamb&eacute;m o sentimento s&oacute; est&aacute; "na verdade" se,  para falar como Spinoza, eu o reconhe&ccedil;o sob a forma da eternidade. Isto  soa certamente muito abstrato, mas se encontra muito pr&oacute;ximo da vida.  Pois, em qualquer tratamento psicol&oacute;gico s&eacute;rio, e sobretudo na psican&aacute;lise,  h&aacute; momentos em que o homem tem de decidir se quer preservar seu  pensamento individual, seu teatro privado, como dizia uma paciente, sua  arrog&acirc;ncia, seu orgulho e obstina&ccedil;&atilde;o, ou se, entre as m&atilde;os do m&eacute;dico,  mediador iniciado entre o mundo particular e o mundo em geral, entre a  ilus&atilde;o e a verdade, quer despertar de seu sonho e participar da vida universal,  do <I>koinos kosmos</I>. Pobres de nossos doentes se, para curar-se, fossem  obrigados a compreender Her&aacute;clito ou Hegel; no entanto, ningu&eacute;m poder&aacute;  curar, nem ser curado no mais profundo de seu ser, se o m&eacute;dico n&atilde;o  conseguir despertar nele a pequena centelha de espiritualidade, para que se  torne sens&iacute;vel &agrave; presen&ccedil;a do sopro. Goethe sabia disso e muito melhor que  a maioria de nossos psicoterapeutas contempor&acirc;neos; lembremos  somente as palavras que ele p&otilde;e na boca de Parm&ecirc;nides, em  <I>Os s&aacute;bios e as gentes</I>:</font></p>     <blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Adentre em si mesmo. Se n&atilde;o encontrares a&iacute;    <br> O Infinito no esp&iacute;rito e nos sentidos    <br> Nada no mundo poder&aacute; ajud&aacute;-lo.</font></p></blockquote>      <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ao se despertar o sentido do infinito como oposi&ccedil;&atilde;o &agrave;  limita&ccedil;&atilde;o do particular, n&atilde;o se retira do indiv&iacute;duo suas imagens e seus  sentimentos, seus desejos e esperan&ccedil;as; estes ser&atilde;o apenas despojados do  desassossego tantalizador, da inquietude e do desespero, da vida na queda, no  afundamento, na descida, e transformados n&atilde;o numa paz total - isso seria a morte -, mas na vida em ascens&atilde;o, na flutua&ccedil;&atilde;o sem esfor&ccedil;o ou na  embria-guez. Foi isso que uma de nossas pacientes viu ap&oacute;s o fim do  tratamento, numa vis&atilde;o on&iacute;rica que mostra claramente que a espiritualidade, uma  vez desperta, pode inflamar at&eacute; mesmo o sonho para fazer surgir dele ao  menos a imagem da vida universal:</font></p>      <blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Certa noite eu tinha adormecido muito cansada e atormentada  por um intenso desassossego e perturba&ccedil;&atilde;o interior. Em sonho,  vi-me percorrendo uma praia intermin&aacute;vel, e o eterno ru&iacute;do das  ondas, quebrando contra os rochedos, em sua infinita agita&ccedil;&atilde;o,  deixava-me inquieta at&eacute; o desespero. Com toda minha alma, eu  desejava impor imobilidade ao mar, apazigu&aacute;-lo pela for&ccedil;a. Vi ent&atilde;o  que um homem alto, com um chap&eacute;u de abas largas, aproximava-se  de mim vindo atrav&eacute;s das dunas. Usava um grande casaco e  segurava nas m&atilde;os um bast&atilde;o e uma rede enorme. Um de seus olhos  estava tapado por uma grande mecha de cabelos que ca&iacute;a em sua  testa. Quando chegou at&eacute; mim, o  homem jogou sua rede e nela  recolheu o mar, que estendeu &agrave; minha frente. Eu via horrorizada, por  entre as malhas da rede, o mar morrer lentamente diante de meus  olhos. Uma calma estranha se estendia a meu redor; as algas, os  animais e peixes aprisionados na rede lentamente tornavam-se castanhos  e mortos com ar fantasm&aacute;tico. Em l&aacute;grimas, joguei-me ao p&eacute;s  do homem, implorando que ele devolvesse a liberdade ao mar -  pois agora eu sei que o desassossego significa a vida, e a calma, a  morte. Ent&atilde;o, o homem rasgou a rede e liberou o mar. Quando ouvi  novamente o ru&iacute;do e o quebrar das ondas, senti em mim uma  alegria jubilosa... e despertei.</font></p></blockquote>      <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Em mais de um sentido esse sonho &eacute; extremamente  interessante. Ele se decomp&otilde;e em tr&ecirc;s passos: tese (vida on&iacute;rica, atormentada no  isolamento), ant&iacute;tese (morte por apagamento total da vida pr&oacute;pria em  conseq&uuml;&ecirc;ncia de uma entrega total ao princ&iacute;pio objetivo avassalador  da alteridade) e s&iacute;ntese (pela retomada da objetividade na  subjetividade). Em seu desenvolvimento em tr&ecirc;s passos, vemos esse sonho refletir,  numa representa&ccedil;&atilde;o imag&eacute;tica, o processo psicanal&iacute;tico, a sua progress&atilde;o  da arrogante obstina&ccedil;&atilde;o no isolamento at&eacute; a humilde submiss&atilde;o &agrave;  "autoridade" (impessoal) do m&eacute;dico ("fase da transfer&ecirc;ncia") e at&eacute; a "resolu&ccedil;&atilde;o  da transfer&ecirc;ncia". Muito j&aacute; foi escrito e, decerto, ainda se escrever&aacute; sobre  essa dissolu&ccedil;&atilde;o da transfer&ecirc;ncia, mas o fato de que ela possa acontecer  como uma espiritualiza&ccedil;&atilde;o genu&iacute;na, como uma vig&iacute;lia espiritual mais clara,  no sentido de Her&aacute;clito e Hegel - pois do contr&aacute;rio n&atilde;o passaria de  impostura e de auto-engano -, escapa de uma concep&ccedil;&atilde;o unilateralmente  biol&oacute;gica ou mesmo de uma concep&ccedil;&atilde;o que considere o esp&iacute;rito como  "inimigo da vida". Mas n&atilde;o devemos nos limitar a Hegel, pois,  enquanto psicoterapeutas, o que nos interessa n&atilde;o &eacute; a verdade objetiva, a  concord&acirc;ncia entre o pensamento e o ser, mas sim a "verdade subjetiva", da  qual fala Kierkegaard quando afirma que ela &eacute; a "paix&atilde;o da  interioridade", gra&ccedil;as &agrave; qual a subjetividade h&aacute; de trabalhar para abrir caminho  atrav&eacute;s da objetividade (comunica&ccedil;&atilde;o, compreens&atilde;o, submiss&atilde;o a uma  norma supra-subjetiva), e para sair novamente dela, como indica a terceira  fase de nosso sonho. Somente baseando-se nesse ponto de vista &eacute; que o  pr&oacute;prio piscoterapeuta deixar&aacute; de ser um esp&iacute;rito que sonha para tornar-se  um esp&iacute;rito acordado, de modo que seja poss&iacute;vel dizer dele o que  Kierkegaard diz de Lessing: "Por n&atilde;o admitir uma entrega servil, nem reconhecer  uma imita&ccedil;&atilde;o for&ccedil;ada, ele coloca, sendo ele pr&oacute;prio livre, quem quer que  se aproxime, numa rela&ccedil;&atilde;o livre com ele". Todos esses problemas  encontram-se adormecidos na teoria freudiana da transfer&ecirc;ncia sobre a pessoa  do m&eacute;dico e, mais particularmente, no que se refere &agrave; supera&ccedil;&atilde;o dessa  transfer&ecirc;ncia; mas n&atilde;o iremos despert&aacute;-los aqui, pois ainda ningu&eacute;m  conseguiu e ningu&eacute;m nunca conseguir&aacute; derivar o esp&iacute;rito dos instintos, j&aacute;  que se  trata de conceitos incomensur&aacute;veis por sua ess&ecirc;ncia. E, devemos  acrescentar, &eacute; justamente dessa incomensurabilidade que eles  retiram a  justifica&ccedil;&atilde;o para sua exist&ecirc;ncia. Aqui, Jung vai ainda mais fundo com sua  teoria da individua&ccedil;&atilde;o, enquanto princ&iacute;pio liberador do si-mesmo "fora  dos v&eacute;us falaciosos da <I>persona</I>, de um lado, e da for&ccedil;a sugestiva das  imagens inconscientes, de outro". Mas, por mais profundas que sejam as  id&eacute;ias extra&iacute;das por Jung da observa&ccedil;&atilde;o da individua&ccedil;&atilde;o, enquanto  processo psicol&oacute;gico de desenvolvimento, isso n&atilde;o impede que o problema  fundamental dessa individua&ccedil;&atilde;o ainda se encontre encoberto. Pois a  oposi&ccedil;&atilde;o entre o sonho e a vig&iacute;lia, a emerg&ecirc;ncia no mundo pr&oacute;prio e no  mundo comunit&aacute;rio, ainda n&atilde;o &eacute; concebida como uma oposi&ccedil;&atilde;o, por um  lado, entre a imagem e o sentimento (que sempre se co-pertencem), e, por  outro, o esp&iacute;rito. Como essa oposi&ccedil;&atilde;o existe, ela n&atilde;o pode escapar de um  pesquisador como Jung. Entretanto, a tentativa de retir&aacute;-la da "fun&ccedil;&atilde;o do  inconsciente" e de sua "rela&ccedil;&atilde;o compensat&oacute;ria com a consci&ecirc;ncia" n&atilde;o  &eacute; satisfat&oacute;ria, pois aqui essa oposi&ccedil;&atilde;o parece ter desaparecido da esfera  do problema fundamental, embora ainda permane&ccedil;a viva nos problemas  de detalhe e nos conceitos fundamentais. Isso vale, particularmente, para  o conceito de "inconsciente coletivo", que representa n&atilde;o somente um  tipo de "consci&ecirc;ncia da esp&eacute;cie" imag&eacute;tica, no sentido de Schleiermacher,  mas ainda deve implicar a rela&ccedil;&atilde;o &eacute;tica com um universal, com o "mundo"  ou o "objeto". &Eacute; claro que, nesse inconsciente coletivo, nossa oposi&ccedil;&atilde;o  est&aacute; longe de ser resolvida. O mesmo vale para o conceito de Jung referente  ao si-mesmo, no qual v&ecirc;-se o inconsciente e o consciente "se  complementarem" para formar um todo, uma totalidade. Os processos inconscientes  que compensam o eu consciente devem conter todos os elementos  indispens&aacute;veis &agrave; auto-regula&ccedil;&atilde;o da psique total: mas mesmo reconhecendo que  nessa compensa&ccedil;&atilde;o j&aacute; se dissimula o fator primordial &eacute;tico, a consci&ecirc;ncia  - que &eacute; a que p&otilde;e em movimento todo o dinamismo funcional -, e  que, inversamente, o mecanismo de compensa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o regula a psique  total, em nada avan&ccedil;amos na solu&ccedil;&atilde;o de um problema ao transferi-lo do  todo para os seus elementos. Na formula&ccedil;&atilde;o de suas teorias, Jung recorreu  com grande &ecirc;xito &agrave;s fontes orientais, da &Iacute;ndia e da China, e aproximou-se  de bom grado dos primitivos. N&oacute;s, ao contr&aacute;rio, embora apreciemos  suas fontes, n&atilde;o nos sentimos no direito de anular o passo dado pelos gregos  na sua interpreta&ccedil;&atilde;o da exist&ecirc;ncia - tanto no que concerne &agrave; psicologia,  &agrave; psican&aacute;lise e &agrave; psiquiatria.</font></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Voltemos ao nosso ponto de partida. Quando caio dos c&eacute;us  numa decep&ccedil;&atilde;o desconcertante, ap&oacute;s ter-me recomposto, formulo essa  impress&atilde;o dizendo: "N&atilde;o sabia como isso tinha me acontecido". Diremos aqui,  para falar com Heidegger, que o Dasein &eacute; trazido diante de seu ser. Ele &eacute;  trazido na medida em que algo lhe acontece e ele n&atilde;o sabe como e o que  lhe acontece. Esse &eacute; o tra&ccedil;o ontol&oacute;gico fundamental de todo sonho e de  seu parentesco com a ang&uacute;stia.<SUP><a name="9"></a><a href="#9b">9</a></SUP> Sonhar significa: "Eu n&atilde;o sei como isso  est&aacute; me acontecendo". Nesse "eu" e nesse "me" reaparece, na verdade, o  indiv&iacute;duo, o <I>quisque</I>, o  <I>hekastos</I>;mas, de forma alguma, como aquele que faz  o sonho, e sim como aquele a quem o sonho acontece "sem que ele  saiba como". E esse indiv&iacute;duo, aqui, n&atilde;o &eacute; sen&atilde;o "o mesmo", no sentido  da "identidade num&eacute;rica da pessoa" (Kant), uma indica&ccedil;&atilde;o puramente  formal, desprovida de subst&acirc;ncia, o joguete da vida na ascens&atilde;o ou na  queda, do ru&iacute;do do mar e do sil&ecirc;ncio da morte, do brilho das cores ao sol e  da noite na escurid&atilde;o, da forma grandiosa do p&aacute;ssaro voando no &eacute;ter e  de seus fragmentos de papel enegrecido jogados desordenadamente ao  ch&atilde;o; ele &eacute; o joguete da forma atraente da menina, do perfume dos cravos,  do cad&aacute;ver do p&aacute;ssaro que jaz no ch&atilde;o, da poderosa e cruel ave de rapina e  da fr&aacute;gil pomba. Um indiv&iacute;duo torna-se si-mesmo ou "o" indiv&iacute;duo apenas  a partir desse ser o mesmo; de sonhador torna-se o homem em vig&iacute;lia,  no momento insond&aacute;vel em que ele decide, n&atilde;o somente querer saber  como isso lhe acontece, mas tamb&eacute;m intervir "ele mesmo" no movimento  do acontecer; quando ele decide introduzir continuidade e conseq&uuml;&ecirc;ncia  na vida que se eleva e cai. Somente nesse momento ele  <I>faz</I> alguma coisa. Mas o que ele faz n&atilde;o &eacute; a vida - pois, esta, o indiv&iacute;duo n&atilde;o pode fazer - e  sim a hist&oacute;ria. Retomando uma distin&ccedil;&atilde;o por n&oacute;s j&aacute; estabelecida em  outro lugar, diremos que sonhando o homem "&eacute;" uma "fun&ccedil;&atilde;o vital", e que,  em vig&iacute;lia, ele "faz" a hist&oacute;ria da sua vida. E, na verdade, ele faz  exatamente a hist&oacute;ria de sua pr&oacute;pria vida, a biografia interior, a qual n&atilde;o deve  ser confundida com a hist&oacute;ria exterior ou a hist&oacute;ria do mundo, sendo  que entrar ou n&atilde;o nesta &uacute;ltima n&atilde;o depende, de modo algum, s&oacute; dele.  Colocar os dois membros da disjun&ccedil;&atilde;o da fun&ccedil;&atilde;o vital e da hist&oacute;ria interna da  vida sobre um denominador comum, como incansavelmente tentamos  fazer, n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel, pois a vida enquanto fun&ccedil;&atilde;o &eacute; uma outra vida que a  vida enquanto hist&oacute;ria e, entretanto, ambas t&ecirc;m o mesmo fundamento: a  exist&ecirc;ncia. Nossa tarefa foi mostrar o lugar do sonho no interior desse  fundamento. Fora dessa comunidade do fundamento e, no entanto, ligados  a esta, o sonho e a vig&iacute;lia t&ecirc;m ainda algo em comum. Sendo a  "transi&ccedil;&atilde;o" de um a outro paulatina (no que o car&aacute;ter repentino das decis&otilde;es  singulares tomadas ao longo da hist&oacute;ria da vida nada muda), o come&ccedil;o da  fun&ccedil;&atilde;o vital e, portanto, do sonhar, e o final da vig&iacute;lia, da hist&oacute;ria da vida  interna, est&atilde;o no infinito; pois, visto que ignoramos onde come&ccedil;am a vida e  o sonho, sempre nos ser&aacute; lembrado, no decorrer de nossa vida, que  est&aacute; acima das for&ccedil;as humanas "ser o `indiv&iacute;duo', na acep&ccedil;&atilde;o mais alta  desse termo".</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Recebido em 9 junho de 2002.    <br> Aprovado em 15 de dezembro de 2002.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Tradu&ccedil;&atilde;o de <I>Martha Gambini</I>     <br> Revis&atilde;o de <I>Zeljko Loparic</I></font></p>      <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><SUP><a name="1b"></a><a href="#1">1</a></SUP>      O t&iacute;tulo do original:  "<I>Traum und Existenz</I>", Binswanger, Ludwig 1992/94:  <I>Ausgew&auml;hlte Werke</I>, v. 3, pp.  95-119. Este texto continua a s&eacute;rie de tradu&ccedil;&otilde;es, iniciada pelos artigos  de Medard Boss e de Henri Maldiney, que <I>Natureza  humana</I> vem publicando com o objetivo de promover a recep&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica de teorias psicoter&aacute;picas elaboradas em di&aacute;logo  com Heidegger  (N. do E.).    ]]></body>
<body><![CDATA[<br> <SUP><a name="2b"></a><a href="#2">2</a></SUP> Em franc&ecirc;s no texto (N. da T.).    <br> <SUP><a name="3b"></a><a href="#3">3</a></SUP> Binswanger emprega a palavra  <I>Stimmung</I> para designar tanto a colora&ccedil;&atilde;o afetiva de  uma experi&ecirc;ncia vivida quanto o car&aacute;ter receptivo da exist&ecirc;ncia humana considerada no  n&iacute;vel do existencial ontol&oacute;gico (N. da T.).    <br> <SUP><a name="4b"></a><a href="#4">4</a></SUP> Romance de M&ouml;rike, <I>Maler Nolten</I> (N. da T.)    <br> <SUP><a name="5b"></a><a href="#5">5</a></SUP> Em <I>Wandlungen in der Auffassung und Deutung des Traumes von den Griechen bis  Gegenwart </I>(Modifica&ccedil;&otilde;es na concep&ccedil;&atilde;o e na interpreta&ccedil;&atilde;o dos sonhos dos gregos at&eacute; nossos  dias). Berlin, Springer, 1928.    <br> <SUP><a name="6b"></a><a href="#6">6</a></SUP> Walter F. Otto, <I> Die G&ouml;tter Griechenlands</I> (Os deuses gregos). Bonn, Ed. Cohen.    <br> <SUP><a name="7b"></a><a href="#7">7</a></SUP> Werner Jaeger,  <I>Die geistige gegenwart der Antike </I>(Presen&ccedil;a espiritual da  Antig&uuml;idade). Berlin, Ed. de Gruyter.    <br> <SUP><a name="8b"></a><a href="#8">8</a></SUP> No que se refere &agrave; significa&ccedil;&atilde;o central do  <I>fronein</I> e da <I>fr&oacute;nesis</I> na filosofia grega e  suas transforma&ccedil;&otilde;es em S&oacute;crates, Plat&atilde;o e Arist&oacute;teles, cf. Werner, Jaeger,  <I>Arist&oacute;teles </I>(ed. de Gruyter, Berlin).    <br> <SUP><a name="9b"></a><a href="#9">9</a></SUP> Consideramos os sonhos de ang&uacute;stia como o prot&oacute;tipo da ang&uacute;stia  existencial-&ocirc;ntica original,  colocada no Dasein enquanto tal (ver Heidegger,  <I>O que &eacute; a metaf&iacute;sica?</I>).</font></p>      ]]></body>

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