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<publisher-name><![CDATA[Sociedade Brasileira de Fenomenologia e Sociedade Brasileira de Psicanálise Winnicottiana]]></publisher-name>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Martin Heidegger, 2014: Contribuições à Filosofia. (Do acontecimento apropriador). Tradução Marco Casanova. Rio de Janeiro: Via Vérita, 504p. ISBN: 9788564565272]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>RESENHAS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="4"><b>Martin Heidegger, 2014: <i>Contribui&ccedil;&otilde;es &agrave; Filosofia. (Do acontecimento apropriador)</i>.  Tradu&ccedil;&atilde;o Marco Casanova. Rio de Janeiro: Via V&eacute;rita, 504p.  ISBN: 9788564565272</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Zeljko Loparic</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Unicamp     <br>   PUCPR</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><a href="#and">Endere&ccedil;o    para correspond&ecirc;ncia</a><sup><a name="top"></a></sup></font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Acaba de ser lan&ccedil;ado    pela Editora Via V&eacute;rita, na tradu&ccedil;&atilde;o de Marco Casanova,    o   livro C<em>ontribui&ccedil;&otilde;es &agrave; filosofia. (Do acontecimento    apropriador)</em> de Martin Heidegger,   obra que assinala o ponto de partida dos caminhos da segunda fase do seu pensamento,   iniciados em 1936 e percorridos at&eacute; a sua morte em 1976. O percurso &eacute;    demarcado pelas   tentativas de Heidegger, retomadas repetida e insistentemente durante todos    esses anos,   de dizer, de maneira simples, a "verdade do ser".   </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Aqui, a verdade    n&atilde;o &eacute; entendida como corre&ccedil;&atilde;o de ju&iacute;zos que    versam sobre esses   ou aqueles objetos &#8211; excel&ecirc;ncia do discurso racional almejada pela    metaf&iacute;sica e pela   ci&ecirc;ncia &#8211;, nem como automanifesta&ccedil;&atilde;o das coisas na    sua luminosidade pr&oacute;pria &#8211; na sua   ess&ecirc;ncia, sua "entitude" &#8211;, que &eacute; o assunto central    da fenomenologia de Husserl, bem   como de Heidegger na sua primeira fase. Apoiado nas palavras de H&ouml;lderlin    e nos ecos   dos dizeres de certos pr&eacute;-socr&aacute;ticos selecionados, Heidegger se    prop&otilde;e a falar do   acontecer do "desocultamento" que se oculta, ao mesmo tempo que    se estabelece como o   a&iacute;, o aberto, a clareira, o espa&ccedil;o-tempo, onde todas as coisas    s&atilde;o abrigadas e se tornam   vis&iacute;veis antes mesmo de poderem ser formatadas em uma entitude, expostas    em ju&iacute;zos   corretos e transformadas em meros objetos.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"> O que move Heidegger    na busca desse acontecer e desse lugar pr&eacute;-judicativo, se   n&atilde;o inef&aacute;vel? A experi&ecirc;ncia de que o acontecer incandescente    do desocultamento que   "vibra", que vai e vem, no qual emergem todas as coisas, foi empalidecendo    cada vez   mais ao longo da hist&oacute;ria da metaf&iacute;sica, acabando por apagar-se    na &eacute;poca da t&eacute;cnica, fase   atual terminal dessa hist&oacute;ria que constitui o Ocidente, mas n&atilde;o    &eacute; compreendida pelo   homem ocidental. Embora mais pr&oacute;xima do homem do que tudo o mais, a origem    desse   incandescer foi completamente soterrada. Da&iacute; o prop&oacute;sito declarado    do segundo   Heidegger de renunciar a falar das propriedades das coisas e de suas rela&ccedil;&otilde;es,    como fazem   as ci&ecirc;ncias, ou da ess&ecirc;ncia das coisas, assunto da metaf&iacute;sica.    Livrando-se da condi&ccedil;&atilde;o de um sujeito confrontado com objetos,    ele busca o desocultamento na sua origem retra&iacute;da,   no seu auto-ocultamento, e se coloca de prontid&atilde;o para servir de guardi&atilde;o    e vigilante   desse acontecer, que n&atilde;o pode ser alcan&ccedil;ado nem dito, mas que,    n&atilde;o obstante &#8211; esse &eacute;   pressentimento que o anima &#8211;, &eacute; o fundamento de todo alcan&ccedil;ar    e de todo dizer cotidiano,   cient&iacute;fico, metaf&iacute;sico ou po&eacute;tico.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">   A edi&ccedil;&atilde;o alem&atilde; de <em>Contribui&ccedil;&otilde;es</em>    foi publicada em 1989, centen&aacute;rio do   nascimento de Heidegger, como volume 65 de suas obras <em>Obras completas</em>,    parte da se&ccedil;&atilde;o   III dessa cole&ccedil;&atilde;o monumental de 102 volumes, iniciada em 1976.    Os textos dessa se&ccedil;&atilde;o   s&atilde;o ensaios e esbo&ccedil;os in&eacute;ditos, s&oacute; compreens&iacute;veis,    diz Heidegger, por alguns poucos,   raros e solit&aacute;rios, que n&atilde;o s&atilde;o mais "animais racionais",    definidos, na sua entitude, pelas   propriedades biol&oacute;gicas (animalidade) e antropol&oacute;gicas (racionalidade),    mas seres sem   entitude, sem defini&ccedil;&atilde;o, deslocados das coisas e de si, despidos    de qualquer ess&ecirc;ncia por   um "golpe do ser"; homens que n&atilde;o contam mais com a "luz    natural" dos seus olhos, mas   que se abrem ao lume do ser.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"> Esses textos de    car&aacute;ter, portanto, claramente herm&eacute;tico, esot&eacute;rico, com    fortes   resson&acirc;ncias gn&oacute;sticas, s&oacute; deveriam ser trazidos a p&uacute;blico    (de acordo com o plano de   Heidegger) depois da edi&ccedil;&atilde;o completa do material das duas primeiras    se&ccedil;&otilde;es de <em>Obras   completas</em>, que cont&ecirc;m escritos destinados ao p&uacute;blico em geral,    aos "muitos". A se&ccedil;&atilde;o I   desses escritos <em>exot&eacute;ricos</em>, a primeira editada, consiste de    obras j&aacute; impressas durante a   vida do fil&oacute;sofo. A se&ccedil;&atilde;o II &eacute; dedicada &agrave;s    prele&ccedil;&otilde;es de v&aacute;rios per&iacute;odos do seu magist&eacute;rio   sobre a hist&oacute;ria da metaf&iacute;sica, que estuda e diz o que s&atilde;o    os entes, al&eacute;m de algumas sobre   a poesia de H&ouml;lderlin. A quarta e derradeira se&ccedil;&atilde;o das <em>Obras</em>,    cuja publica&ccedil;&atilde;o foi iniciada,   tamb&eacute;m por determina&ccedil;&atilde;o de Heidegger, por &uacute;ltimo    (e ainda est&aacute; em curso), &eacute; composta   de volumes que trazem "Indica&ccedil;&otilde;es e apontamentos"    in&eacute;ditos, de diferentes &eacute;pocas. A   partir de 2014, come&ccedil;aram a ser disponibilizados, como parte final dessa    se&ccedil;&atilde;o IV e de   <i>Obras completas</i>, os 34 "Cadernos pretos" &#8211; redigidos entre    1931 e 1948, e   posteriormente revistos &#8211;, assim denominados pelo pr&oacute;prio Heidegger,    que os envolvia   em capas pretas, talvez para indicar a si mesmo, e posteriormente aos outros,    que se   tratava de pensamentos obscuros de um Heidegger obscuro, tal como Her&aacute;clito,    o   Obscuro &#8211; algu&eacute;m que busca luz na escurid&atilde;o.   </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Esses pensamentos    foram zelosamente resguardados do p&uacute;blico durante a sua   vida, precisamente por s&oacute; serem compreens&iacute;veis por aqueles poucos    convocados a   guardar a "verdade do ser" na palavra po&eacute;tica e em obras    de arte. As reflex&otilde;es constantes   desses <em>Cadernos</em>, que suscitaram grande aten&ccedil;&atilde;o recentemente    no Brasil e no exterior, trazem, de fato, avisos preciosos para quem aceitar    o convite de Heidegger de segui-lo no   seu caminho percorrido nos trabalhos da se&ccedil;&atilde;o III, desde <em>Contribui&ccedil;&otilde;es</em>.   </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Como caracterizar    melhor essa virada no pensamento de Heidegger? E por que   um arauto consagrado da fenomenologia &#8211; ci&ecirc;ncia da ess&ecirc;ncia    das coisas manifestas por   si mesmas e em si mesmas &#8211; tornou-se pensador do oculto, do n&atilde;o    objetific&aacute;vel, mesmo   do n&atilde;o diz&iacute;vel, e que, paradoxalmente, erige obras ao oculto,    desocultando-o dessa   maneira? Como &eacute; que um professor de filosofia aclamado e disputado pelas    melhores   universidades alem&atilde;s da &eacute;poca, durante um tempo ativista pol&iacute;tico    notado (e desatrado),   tornou-se um recluso nas montanhas? Heidegger atribui a sua virada a um chamamento   contido na poesia de H&ouml;lderlin, um ditame tamb&eacute;m s&oacute; aud&iacute;vel    para aqueles raros   itinerantes que passaram pelo mesmo abalo e ficaram fora do alcance de toda   antropologia, psicologia e metaf&iacute;sica.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Antes de continuar,    preciso dizer que n&atilde;o me reconhe&ccedil;o no perfil heideggeriano   desses poucos e raros, e que apresentarei uma leitura decididamente mundana,    n&atilde;o   desterrada, da maneira como Heidegger formulou inicialmente o impulso fundamental    do   seu pensamento e o redirecionou em seguida.   </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">J&aacute; na primeira    fase, a de <em>Ser e tempo</em>, Heidegger deixou-se mover pela pergunta   pelo ser. Essa pergunta era desdobrada como indaga&ccedil;&atilde;o pelo "sentido"    do ser. A resposta   era buscada na rela&ccedil;&atilde;o do homem ao ser, rela&ccedil;&atilde;o    que consistiria na compreens&atilde;o do   sentido do ser, no envolvimento com o ser e no exerc&iacute;cio de ser. Qual    &eacute; o sentido do ser?   O de presen&ccedil;a manifesta no horizonte do tempo, mais precisamente, nos    horizontes   temporais nos quais o homem se encontra "lan&ccedil;ado". Compreender    o ser significa   "relan&ccedil;ar", "projetar", e assim explicitar, a    temporalidade do ser. O tempo origin&aacute;rio, do   qual seriam deriv&aacute;veis todos os outros, &eacute; o do existir humano;    n&atilde;o, como em Kant, o   tempo das coisas da experi&ecirc;ncia perceptiva. Este &uacute;ltimo, derivado,    &eacute; composto de uma   s&eacute;rie infinita, linear, dos momentos de agora, nos quais as coisas se    d&atilde;o, ou n&atilde;o se d&atilde;o,   segundo a ordem causal; o primeiro, um horizonte finito, circular, das dimens&otilde;es    do   passado, presente e futuro do a&iacute;, do tempo-espa&ccedil;o do existir humano.   </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O existir-a&iacute;    no tempo-espa&ccedil;o &eacute; sempre o meu pr&oacute;prio, assunto que me    envolve e   me imp&otilde;e o cuidado para com o sentido diferencial do meu existir e da    sua continuidade   no tempo origin&aacute;rio. Essa continuidade &eacute; constantemente posta    em quest&atilde;o pela minha   possibilidade estrutural de n&atilde;o mais ser. O ser do homem e no homem &eacute;    um ser-para-ofim, um ser-para-a-morte. Ele se p&otilde;e em suspenso e se transcende    a si mesmo. &Eacute; finito, sendo a sua finitude desocultada na ang&uacute;stia.   </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Finalmente, o ser    humano &eacute; a-ser, a ser exercido. O a-ser se desdobra como sera&iacute;-no-mundo    humano, que encontra as coisas e se relaciona com outros seres humanos   nesse a&iacute; do mundo. Mas o ser humano n&atilde;o &eacute; apenas um a-ser-a&iacute;-no-mundo;    &eacute;   propriamente um a-ser-o-a&iacute;, o a&iacute;, o tempo-espa&ccedil;o que se    concretiza como mundo das   rela&ccedil;&otilde;es humanas. O homem tem que sustentar aberto esse espa&ccedil;o    de tempo no qual se   encontra e no qual ele <em>deixa ser</em> o ente no seu todo. Assim, o homem    que chegou a si &eacute; o   a&iacute; de tudo o que h&aacute;, dessa ou daquela maneira, inclusive de objetos    da metaf&iacute;sica   tradicional, da ci&ecirc;ncia e, por implica&ccedil;&atilde;o, da tecnologia,    bem como da vida social.   </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A partir dos anos    1930, Heidegger come&ccedil;a a ter s&eacute;rias d&uacute;vidas sobre o poder    do   ser, no homem e do homem, de servir de abertura para a manifesta&ccedil;&atilde;o    de tudo o que h&aacute;,   e acaba abandonando essa abordagem, ao mesmo tempo fenomenol&oacute;gica e antropol&oacute;gica   (centrada no estudo do existir humano) da pergunta pelo ser. Suas d&uacute;vidas    foram   despertadas por v&aacute;rias considera&ccedil;&otilde;es, em particular pela    leitura, em 1930, do artigo   "Mobiliza&ccedil;&atilde;o total" e, em 1932, do livro <em>O trabalhador</em>,    ambos de Ernst J&uuml;nger. Este   autor sustenta que o mundo de hoje &eacute; tomado por um processo "vulc&acirc;nico"    de   objetifica&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica dos entes no seu todo, que devasta    todas as ess&ecirc;ncias; destino   metaf&iacute;sico que cai sobre o homem ocidental n&atilde;o sendo redut&iacute;vel    a um modo de ser dos   entes intramundanos, que fosse projetado, relan&ccedil;ado, "deixado ser"    no ser-o-a&iacute; humano   individual. Sendo assim, o ponto de partida antropol&oacute;gico do Heidegger    de <em>Ser e tempo</em>   ficou abalado.   </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ao inv&eacute;s    de aprofundar a sua antropologia, refazer a sua teoria da objetifica&ccedil;&atilde;o,   incluindo considera&ccedil;&otilde;es sobre a radicaliza&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica    da objetifica&ccedil;&atilde;o, e, nessa base,   repensar os perigos da t&eacute;cnica, Heidegger deu uma viravolta radical:    parou de olhar para   o ser em termos da compreens&atilde;o do homem do sentido do ser e entregou-se    &agrave;s tentativas   de pensar o homem a partir da rela&ccedil;&atilde;o do ser ao homem, mais precisamente,    da poss&iacute;vel   interpela&ccedil;&atilde;o do homem pela "verdade do ser", sendo    a verdade concebida a partir de   palavra grega "a-letheia", des-ocultamento. O objetivo da sua "aletologia"    era, como   vimos, achar palavras para dizer a verdade do ser como um acontecer aut&ocirc;nomo,   independente do homem, mas ao qual o homem necessita pertencer para se livrar    da   objetifica&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica e ser ele mesmo, acontecimento    para o qual o homem &eacute;   convocado, pelo qual &eacute; apropriado, desde o in&iacute;cio da hist&oacute;ria    ocidental na Gr&eacute;cia antiga,   quando o ente se fez nomear como "a-lethes", "desocultado",    mas do qual, no entanto, &eacute;   afastado pelo pr&oacute;prio ser, "des-apropriado" por ele, caindo    assim sob o poder da t&eacute;cnica e tornando-se um indigente.   </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Agora temos a chave    para entender a estrutura complexa de <em>Contribui&ccedil;&otilde;es</em>.    Ao   cap&iacute;tulo introdut&oacute;rio intitulado "Vis&atilde;o pr&eacute;via",    segue o cap&iacute;tulo 2, "A resson&acirc;ncia", no   qual se l&ecirc; que, na nossa &eacute;poca, as coisas n&atilde;o s&atilde;o    encontradas pelo homem como o que se   d&aacute;, como pontos candentes do desocultamento aut&ocirc;nomo do qual ele    precisa para ser si   mesmo, mas produzidas pelo fazer tecnol&oacute;gico guiado pelo c&aacute;lculo.    Meras instala&ccedil;&otilde;es,   fazeduras, "maquina&ccedil;&otilde;es". Na nossa &eacute;poca, o    homem n&atilde;o precisa mais de algo que venha   ao seu encontro, ele produz o que precisa. Nesse sentido, ele vive na aus&ecirc;ncia    de precis&atilde;o.   Nessa n&atilde;o precis&atilde;o esconde-se, contudo, o abandono das coisas    pelo ser, o   obscurecimento do mundo, a perda do si-mesmo.   </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Sendo assim, no    retraimento do ser ainda ressoa o ser, a sua "recusa hesitante"   dando origem a uma necessidade, &agrave; necessidade do desocultado, pressentida    por alguns   solit&aacute;rios, mas ignorada por homens greg&aacute;rios, esquecidos n&atilde;o    s&oacute; do ser, do que &eacute; dado   no desocultamento que se oculta, mas tamb&eacute;m de si mesmos, totalmente    entregues &agrave;s   rela&ccedil;&otilde;es objetais. O cap&iacute;tulo 3, "A conex&atilde;o    do jogo" (que poderia tamb&eacute;m ser traduzido   como "Passe" ou "Repasse"), diz que o homem pode ser    liberado do esquecimento do ser   e recuperar-se, retornando ao primeiro in&iacute;cio grego do pensamento do    ser, depositados e   guardado nos fragmentos de Anaximandro, Parm&ecirc;nides e Her&aacute;clito,    no qual o ser &eacute;   pensado precisamente em termos de "a-letheia", priva&ccedil;&atilde;o    do ocultamento, desocultamento, e o ente como algo delimitado nesse desocultamento    e usado, apropriado,   por esse acontecer que se delimita e se ilumina no ente.   </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Depois desse momento    inicial, estabeleceu-se, em Plat&atilde;o, a metaf&iacute;sica como   disciplina que pensa o ente desocultado como o vis&iacute;vel por excel&ecirc;ncia,    como "idea", o   luminoso em si. Na hist&oacute;ria da metaf&iacute;sica, reconstitu&iacute;da    por Heidegger nas suas prele&ccedil;&otilde;es   e retomada em <em>Contribui&ccedil;&otilde;es</em>, o ser foi progressivamente    se retirando do vis&iacute;vel na "idea",   o que fez com que o ente perdesse o car&aacute;ter de ponto iluminado do espa&ccedil;o-tempo    do   desocultamento e se tornasse mera representa&ccedil;&atilde;o objetificante,    a qual, por sua vez,   termina por se tornar um objeto calcul&aacute;vel, um c&aacute;lculo &#8211;    na linguagem dos   dias de hoje, a realidade virtual.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">   O retorno ao primeiro in&iacute;cio quebraria o esquecimento do ser, propiciaria    o recuo   que permitiria, decerto, apenas para alguns raros, ficar de prontid&atilde;o    para o outro in&iacute;cio,   no qual o ocultado n&atilde;o ser&aacute; mais esquecido e a lareira do desocultamento    como tal   preservada numa clareira. Desta, o homem, desfeito da sua animalidade e racionalidade,   ser&aacute; cuidador, guardi&atilde;o e vigilante desse acontecer. A exposi&ccedil;&atilde;o    do homem &agrave; verdade do ser precisa ser pensada como uma requisi&ccedil;&atilde;o    proveniente do pr&oacute;prio ser: um   "acontecimento apropriador". Esse termo &#8211; que n&atilde;o est&aacute;    no "t&iacute;tulo p&uacute;blico", isto &eacute;,   exot&eacute;rico, do texto de Heidegger, <em>Contribui&ccedil;&otilde;es &agrave;    filosofia</em>, mas no "cabe&ccedil;alho essencial"   posto entre par&ecirc;nteses (<em>Do acontecimento apropriador</em>), na sua    denomina&ccedil;&atilde;o esot&eacute;rica &#8211;   n&atilde;o promete que ser&aacute; dito algo sobre algo, mas assinala que "a    partir do acontecimento   apropriador acontece a apropria&ccedil;&atilde;o de uma perten&ccedil;a pensante    e   falante ao ser e &agrave; palavra 'do' ser".   </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A virada do pensamento,    a convers&atilde;o do homem, n&atilde;o pode se dar passo a passo.   Ela haver&aacute; de ser um salto, um modo de pensar que abandona a linguagem    objetificante   da metaf&iacute;sica e da ci&ecirc;ncia. O "salto" &#8211; esse    termo &eacute; precisamente o t&iacute;tulo do cap&iacute;tulo 4 &#8211;   passa por cima do abismo que separa o desocultado do oculto, mas nunca chega    &agrave; outra   margem dessa tremenda "fenda". Precisa ser sustentado no seu voo    pelo dizer po&eacute;tico e   pelas obras de arte, que "fundam", p&otilde;em em obra, a verdade    do ser e que s&atilde;o previamente   fundadas no a&iacute; do ser.   </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O pensamento do    ser apropriado pelo ser pode esperar o surgimento de um homem   novo, o mortal que perten&ccedil;a &agrave; clareira de maneira criativa, po&eacute;tica    (cap&iacute;tulo 6, "Os que   est&atilde;o por vir", isto &eacute;, os vindouros). Em virtude da sua    rela&ccedil;&atilde;o com a palavra n&atilde;o   objetificante, o homem novo poder&aacute; esperar ser visitado, no futuro, por    um deus, o &uacute;ltimo   entre todos os que passaram pela clareira, o mais long&iacute;nquo de todos    os anteriores, porque   fora de todo c&aacute;lculo e de todo relacionamento com o homem deca&iacute;do    na condi&ccedil;&atilde;o de   animal racional (cap&iacute;tulo 7, "O &uacute;ltimo deus").</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">   A saga heideggeriana da verdade do ser e do salvamento dos perigos da t&eacute;cnica   pela apropria&ccedil;&atilde;o do homem pelo ser imp&otilde;e exig&ecirc;ncias    que muitos, acredito eu, n&atilde;o   estariam prontos a atender: deixar de lado a linguagem te&oacute;rica, a l&oacute;gica    e a matem&aacute;tica,   o conhecimento cient&iacute;fico da natureza, o estudo cient&iacute;fico da    natureza humana com suas   dimens&otilde;es de animalidade, de integra&ccedil;&atilde;o e de socialidade    (a cargo da biologia,   antropologia, psicologia, incluindo a psican&aacute;lise, e sociologia, respectivamente),    a   filosofia (a sem&acirc;ntica, a epistemologia, a filosofia da linguagem), aspectos    abstratos da   cultura (a moral da lei, os direitos, a experi&ecirc;ncia cultural), a n&atilde;o    ser aquela relacionada   aos monumentos ao desocultamento, nomeadamente a poesia de H&ouml;lderlin. Pede-se,    para   falar a linguagem do primeiro Heidegger, virar as costas ao ser-no-mundo do    ser humano   em meio aos entes com os outros. Muito mais radical que o cinismo de Di&oacute;genes    de   S&iacute;nope, a contracultura heideggeriana s&oacute; encontra paralelos na    cultura mundial em   posi&ccedil;&otilde;es declaradamente m&iacute;sticas, com a dos gn&oacute;sticos    e dos taoistas (Tchuang Tzu).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Muitos poder&atilde;o    ver nesse "pressentimento" de Heidegger, sem qualquer   ancoradouro factual, apenas um recurso n&atilde;o justificado aos versos iniciais    do hino Patmos   de H&ouml;lderlin: "Pr&oacute;ximo est&aacute; / e dif&iacute;cil de alcan&ccedil;ar    o Deus. Onde, contudo, h&aacute; perigo /   tamb&eacute;m cresce o que salva". Outros talvez acrescentem que haveria    boas raz&otilde;es de pensar   que os perigos da t&eacute;cnica decorrem das dificuldades ambientais e objetivas    dos humanos   de chegarem ao mundo e de se manterem nele; dificuldades para as quais Heidegger    n&atilde;o   atentou em <em>Ser e tempo</em>, ainda que, a partir de 1930, ele tenha percebido    algumas delas e   tentado delas escapar pelo caminho adivinhado no ver&atilde;o de 1936. Os mais    cr&iacute;ticos   suspeitariam que a convoca&ccedil;&atilde;o de lidarmos com a t&eacute;cnica,    atendendo a um chamamento   do ser &#8211; que nos imporia o sacrif&iacute;cio de todas as rela&ccedil;&otilde;es    ambientais e objetais do   cotidiano, e o fim da pesquisa cient&iacute;fica e filos&oacute;fica &#8211;,    n&atilde;o seria fundada num ditame que   viria do al&eacute;m-ente, mas, antes, seria fruto de elabora&ccedil;&otilde;es    hesitantes, ao mesmo tempo   temerosas e exaltadas, sempre inconclusivas, de um pensador que se autodefine    como   "uma grande crian&ccedil;a, que faz grandes perguntas", isto &eacute;,    perguntas sem resposta poss&iacute;vel   (GA 94, p. 412).   </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Caberia, conforme    sugeri anteriormente, buscar uma interpreta&ccedil;&atilde;o para a mudan&ccedil;a   que separa o pensamento de Heidegger tardio do inicial com base numa antropologia    mais   elaborada, ao mesmo tempo cient&iacute;fica e filos&oacute;fica, em condi&ccedil;&otilde;es    de dar conta da natureza   humana de maneira menos desavisada que a da "hermen&ecirc;utica do Dasein    humano" do   primeiro Heidegger, e menos desterrada que o pensante p&ocirc;r-em-palavras    do ser do   segundo. Para tanto, n&atilde;o &eacute; preciso ceder &agrave; tenta&ccedil;&atilde;o    objetificante de reduzir a natureza   humana ao conjunto de relacionamentos intramundanos do cotidiano. Isso dito,    entendo   que aqueles que, por essas raz&otilde;es e pensando dessa maneira, n&atilde;o    tiverem condi&ccedil;&otilde;es de   seguir Heidegger pelos seus caminhos posteriores a 1936, poder&atilde;o, mesmo    assim,   aprender muito com ele sobre as dificuldades do homem de ser-no-mundo.   </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Nesta resenha utilizo    minhas tradu&ccedil;&otilde;es da linguagem de <em>Contribui&ccedil;&otilde;es</em>,    em v&aacute;rios   casos diferentes das de Casanova. Tais diferen&ccedil;as s&atilde;o inevit&aacute;veis    e precisam ser   reconhecidas e discutidas. Talvez seja o caso de juntar esfor&ccedil;os para    realizar uma proposta   j&aacute; feita por outros colegas anteriormente: publicar um <em>Dicion&aacute;rio    Heidegger</em> que   contemplaria as diversas tentativas de tradu&ccedil;&atilde;o para o portugu&ecirc;s    da obra desse autor no   seu todo.   </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">N&atilde;o posso    deixar de mencionar um not&aacute;vel achado de Casanova: a tradu&ccedil;&atilde;o    de   "Seyn" &#8211; grafia antiga do termo "Sein", encontrada    em H&ouml;lderlin &#8211; por "seer" &#8211; grafia   antiga do termo "ser". Pode ser instrutivo observar que "seer"    vem da palavra latina "sedere", estar sentado, ficar na posi&ccedil;&atilde;o    ereta, que &eacute; uma conquista de base som&aacute;tica   ("animal") do beb&ecirc; humano quando bem cuidado no colo da m&atilde;e,    sem rela&ccedil;&atilde;o com o   presenciar ext&aacute;tico do desocultamento, acontecer pensado a partir da    etimologia da   palavra grega "aletheia". Conclui-se que, se a "linguagem    fala", como diz Heidegger, ela   fala de tudo, inclusive do ser, em cada l&iacute;ngua natural com uma voz diferente,    n&atilde;o havendo   esperan&ccedil;a de uma composi&ccedil;&atilde;o harm&ocirc;nica dessas vozes.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">   A tentativa de Heidegger de ver na linguagem natural a "casa do ser"    &#8211; habita&ccedil;&atilde;o   humana que ele costumava pensar por analogia &agrave;s casas de fam&iacute;lia    camponesas assentadas   firmemente na Floresta Negra, nas quais se fala o dialeto alamano ancestral,    o mesmo das   poesias de J. P. Hebel, seu "amigo de casa"&#8211; n&atilde;o &eacute;,    portanto, problem&aacute;tica apenas por   privilegiar l&iacute;nguas naturais particulares: o grego e o alem&atilde;o.    A desconstru&ccedil;&atilde;o da raz&atilde;o   n&atilde;o apenas imp&otilde;e o abandono da tese de W. von Humbolt, uma das    fontes de inspira&ccedil;&atilde;o   de Heidegger, de que as linguagens naturais resultariam da atividade criadora    do esp&iacute;rito   executada de acordo com leis universais, mas tamb&eacute;m impede a substitui&ccedil;&atilde;o    do esp&iacute;rito   por outra fonte unificadora. O que torna adicionalmente question&aacute;vel    a ideia da linguagem   como casa do ser nos dias de hoje &eacute; a extin&ccedil;&atilde;o e, na melhor    das hip&oacute;teses, a corros&atilde;o das   linguagens naturais pelas artificiais, desde as da aritm&eacute;tica e geometria    gregas, com   l&eacute;xicos e gram&aacute;ticas n&atilde;o raramente incomensur&aacute;veis.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><strong>Refer&ecirc;ncia</strong></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Heidegger, M. (2014).    <em>&Uuml;berlegungen II-VI. (Schwarze Hefte 1931-1938)</em>. </font><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Gesamtausgabe (GA)    94. Frankfurt am Main: Klostermann.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1514481&pid=S1517-2430201500010000800001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><a name="and"></a><a href="#" target="_top"><img src="img/revistas/nh/v17n1/seta.gif" border="0"></a><b>    Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Zeljko Loparic        <br>   E-mail: <a href="mailto:loparicz@uol.com.br">loparicz@uol.com.br</a></font></p>      ]]></body>
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