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<journal-title><![CDATA[Revista Mal Estar e Subjetividade]]></journal-title>
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<publisher-name><![CDATA[Universidade de Fortaleza]]></publisher-name>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Comendo, comendo e não se satisfazendo: apenas uma questão cirúrgica? Obesidade mórbida e o culto ao corpo na sociedade contemporânea]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[The body awareness became a fashion, an academic theme, as well as a major source of anxiety for women. In a society, where in addition of being seen as merchandise, the body is more than ever, the privileged locus of identitary construction. Facing such unattainable goals and such impossible ideals, women are due to have a very anxious and persecutory relationship with their own bodies. The body culture, took care of the contemporary society, producing and negotiating subjectivities. Different corporal practices, more and more radicals, are being used to escape the great villain called "fat". Associated to ugliness, negligence and character weakness, different women bear testimonies along this work speaking of the social exclusion and discrimination experienced. In this article we aimed to understand the morbid obesity from a psychoanalytic view, presupposing a subject of language as much as a subject of joy. Obesity is viewed as a symptom, since symptom is a phenomenon structured as a language, but also as joy with which one did not know well what to make. Symptom is a condensed point of joy that captures the subject, leaving him in suspension. We intend to view obesity in this article, stressing the medical speech -, a pathology that demands correction, the bariatric surgery or "surgery of the obesity". Taking obesity or mere fatness as the paradigm of ugliness, the authors points out how intolerant society became of those who deviate from what the body culture has established as normal. It is from these points of view that we can stress the role of the culture in the growing medicalization of the body and understand the phenomenon of the obesity/surgery as anchored in a culture that is increasing its controls and regulations of the human body.]]></p></abstract>
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<kwd lng="pt"><![CDATA[culto ao corpo]]></kwd>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>AUTORES DO BRASIL    <br>   ARTIGOS</b> </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="4"><b>Comendo, comendo e n&atilde;o se satisfazendo:    apenas uma quest&atilde;o cir&uacute;rgica? Obesidade m&oacute;rbida e o culto    ao corpo na sociedade contempor&acirc;nea</b> </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Eating and never being satisfied: just a surgical matter? Morbid obesity and body culture</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Junia de Vilhena<sup>I</sup>; Joana de Vilhena    Novaes<sup>II</sup>; Livia Rocha<sup>III</sup></b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><sup>I</sup>Psicanalista. Professora do Programa    de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Psicologia Cl&iacute;nica da Pontif&iacute;cia    Universidade Cat&oacute;lica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Coordenadora do Laborat&oacute;rio    Interdisciplinar de Pesquisa e Interven&ccedil;&atilde;o Social - LIPIS da PUC-Rio.    Pesquisadora da Associa&ccedil;&atilde;o Universit&aacute;ria de Pesquisa em    Psicopatologia Fundamental. Pesquisadora correspondente do Centre de Recherches    Psychanalyse et M&eacute;decine - Universit&eacute; Denis-Diderot Paris 7 CRPM-Pandora.    End.: R. Tenente Marcio Pinto, 183. Rio de Janeiro, RJ. CEP: 22451-290. E-mail:    <a href="mailto:vilhena@puc-rio.br">vilhena@puc-rio.br</a>    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   <sup>II</sup>Doutora em Psicologia Cl&iacute;nica. Coordenadora do N&uacute;cleo    de Doen&ccedil;as da Beleza do LIPIS da PUC-Rio. P&oacute;s-Doutoranda da Universidade    Estadual do Rio de Janeiro. Bolsista da FAPERJ. Pesquisadora correspondente    do Centre de Recherches Psychanalyse et M&eacute;decine - Universit&eacute;    Denis-Diderot Paris 7 CRPM-Pandora. Autora do livro "O intoler&aacute;vel peso    da fei&uacute;ra: Sobre as mulheres e seus corpos" (PUC/Garamond, 2006). End.:    Av. Ataulfo de Paiva, 135, sala 613, Leblon. Rio de Janeiro, RJ. CEP: 22440-901.    Site: <a href="http://www.joanadevilhenanovaes.com.br" target="_blank">www.joanadevilhenanovaes.com.br</a>.    E-mail: <a href="mailto:joananovaes@terra.com.br">joananovaes@terra.com.br</a>    <br>   <sup>III</sup>Doutoranda do Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em    Psicologia Cl&iacute;nica da PUC-Rio.Pesquisadora do Laborat&oacute;rio Interdisciplinar    de Pesquisa e Interven&ccedil;&atilde;o Social - LIPIS da PUC-Rio. E-mail: <a href="mailto:liviajrocha@gmail.com">liviajrocha@gmail.com</a>    </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr size="1" noshade>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>RESUMO</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O culto ao corpo perfeito passou a ser tema da    moda, objeto de preocupa&ccedil;&atilde;o dos estudiosos e fonte de ang&uacute;stia    para as mulheres. Em uma sociedade onde o corpo, al&eacute;m de objeto de consumo,    passa a ser l&oacute;cus privilegiado da constru&ccedil;&atilde;o identit&aacute;ria    feminina, a rela&ccedil;&atilde;o com o pr&oacute;prio corpo acaba por tornar-se    desprazerosa e persecut&oacute;ria. A cultura do corpo tomou conta da cena contempor&acirc;nea    produzindo e agenciando subjetividades. Distintas pr&aacute;ticas corporais,    cada vez mais radicais, est&atilde;o sendo utilizadas para escapar do grande    vil&atilde;o chamado "gordura". Associada &agrave; fei&uacute;ra, desleixo e    fraqueza de car&aacute;ter, diferentes mulheres prestam depoimentos ao longo    deste trabalho falando da exclus&atilde;o social e discrimina&ccedil;&atilde;o    vividas. Neste artigo buscamos compreender a obesidade m&oacute;rbida a partir    da psican&aacute;lise, pressupondo um sujeito de linguagem tanto como um sujeito    de gozo. Visto desta forma, a obesidade &eacute; um sintoma, posto que sintoma    &eacute; um fen&ocirc;meno estruturado como uma linguagem, mas tamb&eacute;m    um gozo com o qual n&atilde;o se soube bem o que fazer. Sintoma como ponto condensado    de gozo que captura o sujeito, deixando-o em suspenso. Assim, buscamos fazer    um recorte tendo em vista o novo contexto em que se tem pensado a obesidade,    definida, a partir do discurso m&eacute;dico, enquanto uma patologia que exige    corre&ccedil;&atilde;o, nesse caso a "cirurgia da obesidade". &Eacute; por este    vi&eacute;s, da medicaliza&ccedil;&atilde;o crescente do corpo que buscamos    entender o fen&ocirc;meno da obesidade/cirurgia como ancorados em uma cultura    que, cada vez mais, controla e moraliza o corpo. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Palavras-chave:</b> culto ao corpo, obesidade    m&oacute;rbida, cirurgia bari&aacute;trica, compuls&atilde;o, gozo.</font></p> <hr size="1" noshade>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><B>ABSTRACT</B> </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">The body awareness became a fashion, an academic    theme, as well as a major source of anxiety for women. In a society, where in    addition of being seen as merchandise, the body is more than ever, the privileged    locus of identitary construction. Facing such unattainable goals and such impossible    ideals, women are due to have a very anxious and persecutory relationship with    their own bodies. The body culture, took care of the contemporary society, producing    and negotiating subjectivities. Different corporal practices, more and more    radicals, are being used to escape the great villain called "fat". Associated    to ugliness, negligence and character weakness, different women bear testimonies    along this work speaking of the social exclusion and discrimination experienced.    In this article we aimed to understand the morbid obesity from a psychoanalytic    view, presupposing a subject of language as much as a subject of joy. Obesity    is viewed as a symptom, since symptom is a phenomenon structured as a language,    but also as joy with which one did not know well what to make. Symptom is a    condensed point of joy that captures the subject, leaving him in suspension.    We intend to view obesity in this article, stressing the medical speech -, a    pathology that demands correction, the bariatric surgery or "surgery of the    obesity". Taking obesity or mere fatness as the paradigm of ugliness, the authors    points out how intolerant society became of those who deviate from what the    body culture has established as normal. It is from these points of view that    we can stress the role of the culture in the growing medicalization of the body    and understand the phenomenon of the obesity/surgery as anchored in a culture    that is increasing its controls and regulations of the human body. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Keywords:</b> body culture, morbid obesity,    bariatric surgery, compulsion, joy.</font></p> <hr size="1" noshade>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><B>Introdu&ccedil;&atilde;o</B> </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Gostar&iacute;amos de come&ccedil;ar este artigo    com duas falas: </font></p>     <blockquote>        <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Este mundo &eacute; feito para os magros, jovens,      brancos, caucasianos e sem nenhum tipo de defici&ecirc;ncia f&iacute;sica.      Quem n&atilde;o pertencer a um desses grupos, com certeza ficar&aacute; &agrave;      margem sofrendo in&uacute;meros preconceitos<a href="#nt01"><SUP>1</SUP></a><a name="tx01"></a>      (Novaes, 2006, p. 252). </font></p> </blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Conforme j&aacute; disse, quando venho malhar    e mantenho o meu peso ideal t&aacute; tudo azul, saio, me divirto, levo uma    vida normal, quando n&atilde;o - &eacute; depress&atilde;o na certa, n&atilde;o    me relaciono nem com os meus filhos. Namorado ent&atilde;o, nessas &eacute;pocas,    nem pensar (Novaes, 2006, p. 225). </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">As falas citadas ilustram o sofrimento que significa    a busca pelo corpo perfeito na sociedade contempor&acirc;nea. Mais ainda, nos    falam de todo o preconceito que sofrem por n&atilde;o se adequarem aos padr&otilde;es    de beleza vigentes, dos sacrif&iacute;cios impostos e do que significa ser gorda    na sociedade atual. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Neste trabalho, resumidamente, busca-se apresentar    algumas reflex&otilde;es sobre o estatuto do corpo na sociedade contempor&acirc;nea,    como os mecanismos de regula&ccedil;&atilde;o social produzem pr&aacute;ticas    corporais distintas e agenciam diferentes tipos de subjetividades. Paralelamente,    pretende-se apontar o preconceito sofrido pelas mulheres apontadas como feias    que, no trabalho em quest&atilde;o, est&aacute; associado com a gordura. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Como paradigma desta necessidade de transforma&ccedil;&atilde;o    radical, vamos nos deter com mulheres que se submeteram ou estavam em vias de    se submeter a cirurgias bari&aacute;tricas, ou seja, a cirurgia de redu&ccedil;&atilde;o    de est&ocirc;mago, buscando uma compreens&atilde;o do chamado obeso m&oacute;rbido    e das implica&ccedil;&otilde;es advindas de tais interven&ccedil;&otilde;es    cir&uacute;rgicas. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Incont&aacute;veis vezes aqueles a quem estamos    chamando "obeso m&oacute;rbido" ouviram: "emagre&ccedil;a!", "pare de comer!".    Mas parece que n&atilde;o mudam de opini&atilde;o. Como faz&ecirc;-los modificar    este tipo de comportamento? Fosse algo f&aacute;cil, racional ou pedag&oacute;gico,    como explicar o aumento exponencial das cirurgias bari&aacute;tricas? </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Pensando naqueles que se submetem &agrave; "cirurgia    da obesidade", que garantia temos de que ir&atilde;o lidar bem com as mudan&ccedil;as,    f&iacute;sicas e ps&iacute;quicas, que adv&eacute;m da cirurgia? N&atilde;o    h&aacute; garantias de que ser&atilde;o bem sucedidos. Mas, afinal, o que &eacute;    obesidade m&oacute;rbida? Fazer a cirurgia &eacute; a solu&ccedil;&atilde;o    para tamanho sofrimento e risco? Que outros aspectos podem estar envolvidos?    </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&Eacute; nesse contexto, quando definida enquanto    doen&ccedil;a, que a medicina &eacute; convocada a curar a obesidade. &Eacute;    quando tamb&eacute;m, assim cremos, a "doen&ccedil;a obesidade" parece j&aacute;    n&atilde;o ter mais nenhuma causalidade ps&iacute;quica oriunda do inconsciente.    </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Um bom exemplo disso &eacute; o preconceito observado    na classe m&eacute;dica em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; obesidade quando o    assunto s&atilde;o os <B>transtornos alimentares</B>. No tocante ao paciente    que apresenta um Transtorno de Comer Compulsivo, ele &eacute; visto como respons&aacute;vel    pela sua patologia. Contudo, quando tratam dos casos de anorexia os m&eacute;dicos,    assim como a sociedade em geral, parece demonstrar uma disposi&ccedil;&atilde;o    bem mais emp&aacute;tica e piedosa diante da abstin&ecirc;ncia ou suspens&atilde;o    da alimenta&ccedil;&atilde;o - numa atitude que parece, simultaneamente, culpabilizar    os primeiros e vitimizar os segundos. Dessa forma, a anorexia &eacute; entendida    como uma compuls&atilde;o, sendo a obesidade deslocada para uma deforma&ccedil;&atilde;o    de car&aacute;ter na qual parece existir espa&ccedil;o para um ato volitivo    do sujeito. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A conduta m&eacute;dica faz sentido quando pensada    espelhando uma cultura que moraliza a beleza e convoca incessantemente o sujeito    a engajar-se no projeto da modela&ccedil;&atilde;o corporal. As pessoas obesas    ocupam socialmente o lugar de transgressores, uma vez que n&atilde;o reproduzem    de maneira eficaz e disciplinar as pr&aacute;ticas corporais que as levariam    a perder peso. O resultado para tal desobedi&ecirc;ncia &eacute; o peso da exclus&atilde;o    socialmente validada e o sentimento de insufici&ecirc;ncia e incapacidade pessoal    pela falta de ades&atilde;o ao programa de <I>fitness</i> e <I>body building</I><a href="#nt02"><sup>2</sup></a><a name="tx02"></a>.    </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Mas falaremos sobre isto mais adiante. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><B>Corpo e contemporaneidade</B> </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O que &eacute; ser bela? </font></p>     <blockquote>        ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Acho que a sociedade nos cobra e nos sufoca      demais com isso./ Gostaria de dar menos valor &agrave; apar&ecirc;ncia, mas      n&atilde;o consigo, pois vivo num mundo onde os valores est&atilde;o em segundo      plano e/ o f&iacute;sico/ em primeiro. Se eu quiser conquistar algo aqui neste      mundo, sem d&uacute;vida nenhuma, a minha apar&ecirc;ncia influenciar&aacute;      90%. &Eacute;/ triste, mas &eacute; a mais pura verdade, pois comprovei isso      na pele - precisei me livrar de todo o meu recheio (Novaes, 2006, p. 206).      </font></p> </blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O discurso do corpo fala das rela&ccedil;&otilde;es    internas &agrave; sociedade e tamb&eacute;m nele vai se expressar a busca da    felicidade plena. Palco privilegiado dos paradoxos e dos conflitos, o corpo    que busca a sua singularidade &eacute; o mesmo que tenta negar a diferen&ccedil;a    e a alteridade. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Fragmentado e serializado, mostra o que se oculta    numa tentativa de eliminar o que o separa. Tudo deve ser visto, dito e compartilhado.    Simultaneamente, imprime nele as marcas que o distinguem tanto cultural quanto    socialmente, atrav&eacute;s de seus adornos e s&iacute;mbolos. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A eterna busca da imortalidade transforma-o em    um corpo de encena&ccedil;&atilde;o da obra de arte. Os discursos da sa&uacute;de,    da medicina, do erotismo, tamponam o real que apavora: o mal-estar e a finitude.    O corpo como obra de arte &eacute; o corpo teatralizado, palco onde as palavras    s&atilde;o encenadas. Tal qual nas cidades povoadas pelos murais e <I>outdoors</I>,    uma nova forma de escritura se estabelece. </font></p>     <blockquote>        <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Hoje em dia vale muito mais um bra&ccedil;o      sarado, seco e definido do que um bando de roupas no arm&aacute;rio... O corpo      ideal &eacute; aquele que &eacute; visto como um objeto de consumo, objeto      de prazer (Novaes, 2006, p.132). </font></p> </blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Assim, algumas vezes, exibe-se o b&iacute;ceps,    a panturrilha ou a r&iacute;gida musculatura do abd&ocirc;men, como &iacute;cones    da perfei&ccedil;&atilde;o pretensamente atingida. A escultura perfeita, a obra    de arte a ser admirada. E a arte, como nos relembra Andr&eacute; Malraux (apud    Medeiros, 2005), &eacute; a &uacute;nica coisa que resiste &agrave; morte. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Corpo &eacute; tamb&eacute;m capital. Tem valor    de troca ou como bem, adquire um <I>status</I>. Este <I>status</i> &eacute;    adquirido a partir das ins&iacute;gnias que o belo corpo carrega consigo. Esses    signos, condensados na figura do belo corpo, traduzem os valores desse tipo    de cultura da sociedade de consumo como apontam Bourdieu (1980), Featherstone    (1995), dentre v&aacute;rios outros. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">E quais seriam as demandas contempor&acirc;neas?    Que imagem de corpo &eacute; exaltada na cultura vigente? O <I>status</i> do    corpo &eacute; adquirido atrav&eacute;s de sua jovialidade (eterniza&ccedil;&atilde;o    da juventude), de sua beleza (cria-se uma nova categoria de exclus&atilde;o    - a fei&uacute;ra), da apar&ecirc;ncia de felicidade (estando a&iacute; inclu&iacute;da    a imagem de sucesso - aqueles que deram certo s&atilde;o os que portam todos    os tra&ccedil;os at&eacute; ent&atilde;o citados), de seu poder de atra&ccedil;&atilde;o    sexual (s&oacute; &agrave; juventude atribui-se este poder - sendo a m&iacute;dia    o principal agente disseminador desse discurso) e finalmente, do qu&atilde;o    longevo parece ser: a tentativa desenfreada em retardar os efeitos do envelhecimento    - medicina/tecnologia aliadas no combate &agrave; morte. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Recente pesquisa feita pelo <B>New York Times    </b> ("<I>In the land</I>," 2007) aponta para uma enorme diferen&ccedil;a salarial    (quando s&atilde;o contratadas!) entre mulheres bonitas e feias. O Caderno "Boa    Chance" do Jornal <B>O Globo</b> de 15/08/2006 denunciou concursos p&uacute;blicos    onde era exigido o IMC (&iacute;ndice de massa corporal) dos candidatos </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A imagem do belo corpo traduz o anseio atual.    Quer seja esculpido nas academias de gin&aacute;stica ou remodelados e formatados    em cl&iacute;nicas particulares e hospitais, atrav&eacute;s do <I>bodybuilding    </i> ou do <I>bodymodification</I>, transformar o corpo est&aacute; na ordem    do dia. &Eacute; curioso notar que o <I>bodybuilding</i> se inicia na mesma    d&eacute;cada, 1890, em que a cirurgia pl&aacute;stica se aproxima da sua forma    moderna (Davis, 1995). Portanto, quer seja atrav&eacute;s de roupas, adere&ccedil;os    e cosm&eacute;ticos ou por meio de uma cirurgia pl&aacute;stica - de forma ef&ecirc;mera    ou permanente, o corpo &eacute; sempre transformado em um signo cultural - o    corpo como capital do qual nos fala Bourdieu. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><B>O corpo como investimento</B> </font></p>     <blockquote>        <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&Eacute; claro que os peitos s&atilde;o meus      - eu comprei... por que ningu&eacute;m me pergunta se sou dona do meu carro      ou do meu apartamento! (Novaes, 2006, p. 145). </font></p> </blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">"Todos os homens que conheci se apaixonaram por    Gilda... e acordaram comigo" disse Rita Hayworth, em uma de suas mais c&eacute;lebres    frases. Se a pr&oacute;pria propaganda do filme nos antecipava com aguda clareza:    "Nunca houve uma mulher como Gilda...", qual o lugar designado &agrave; mulher    e &agrave;s suas imagens? O quanto ambas se imbricam e se confundem? </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Conforme apontamos em trabalhos anteriores (Novaes,    2001, 2003a, 2003b, 2005, 2006a, 2006b, 2007, 2008), a Beleza &eacute; via para    a possibilidade de ascens&atilde;o social dos contos de fada (O pr&iacute;ncipe    e a gata borralheira) &agrave;s produ&ccedil;&otilde;es cinematogr&aacute;ficas    (Uma linda mulher) e mesmo no mercado de trabalho como apontamos acima; beleza    &eacute; valor e moeda de troca - beleza &eacute; capital. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">N&atilde;o causa, assim, espanto perceber como    os exerc&iacute;cios dirigidos, o disp&ecirc;ndio de tempo, energia e dinheiro    s&atilde;o t&iacute;picos de uma burguesia j&aacute; acostumada com projetos    rigorosos de m&eacute;dio e longo prazo. O corpo, visto como um capital, tal    qual as revistas nos informam, precisa ser investido e trabalhado para ser valorizado    e possuir condi&ccedil;&otilde;es de competitividade. A consci&ecirc;ncia corporal    &eacute; de tal ordem que lhes parece impens&aacute;vel n&atilde;o investir    tempo e dinheiro em tal projeto. O corpo n&atilde;o mais &eacute; visto como    algo que nos &eacute; dado - "Para estas mulheres a anatomia n&atilde;o &eacute;    mais o destino, mas um capital, logo, um projeto a longo prazo" (Malysse, 1997,    p.165). </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Como aponta Costa, "o corpo tornou-se um dos    mais 'belos objetos' de consumo, no capitalismo atual" (1985 p.154). O que significa    que hoje o sujeito serve ao corpo ao inv&eacute;s de servir-se dele. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">V&ecirc;-se assim a dimens&atilde;o de regula&ccedil;&atilde;o    e controle das pr&aacute;ticas corporais, ao sublinhar o lugar que a beleza    assume como valor social. Nossas regula&ccedil;&otilde;es permanentes, nossos    referenciais identit&aacute;rios, est&atilde;o bastante enraizados nas expectativas    relativas ao corpo e qualquer contraven&ccedil;&atilde;o est&eacute;tica maior,    provoca um mal-estar, retira-nos do &acirc;mbito da ordem, sem nos darmos conta,    claramente, do que desencadeia isso e dos elementos implicados nesse processo.    </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A beleza tamb&eacute;m sofre mudan&ccedil;as,    sempre atreladas ao que ocorre na cena social e pol&iacute;tica. Assim, no s&eacute;culo    XVI, ainda marcado pela moral religiosa medieval, a mulher devia ter uma beleza    casta. Havia uma hierarquia do corpo, as partes mais pr&oacute;ximas dos astros    eram as "nobres": rosto, busto, bra&ccedil;os. As saias faziam um pedestal im&oacute;vel,    reflexo de uma sociedade cuja r&iacute;gida estrutura de classes come&ccedil;ava    a ser amea&ccedil;ada. Apesar de tudo, de vez em quando, quem diria, as pernas    emergiam dos vestidos em todo seu valor clandestino, pondo o homem a desarrumar    as conveni&ecirc;ncias. Os cosm&eacute;ticos, mesmo ainda sofrendo a san&ccedil;&atilde;o    religiosa, eram usados, revelando uma cultura libertina &agrave; margem, uma    confiss&atilde;o de liberdade. Os espartilhos, t&atilde;o apertados, podiam    levar &agrave; morte. Desde j&aacute;, observa Vigarello (2006), &eacute; imposs&iacute;vel    ignorar a vontade de uma certa silhueta; dicas e regimes alimentares para emagrecimento    eram abundantes. Contudo, em 1890, se tratava mais de um "para n&atilde;o engordar"    do que para emagrecimento sistem&aacute;tico. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O corpo, num primeiro momento ainda bem curvil&iacute;neo,    com coxas acentuadas, em seguida come&ccedil;a a despontar como um corpo mais    liberto, afastado de qualquer alus&atilde;o &agrave;s curvaturas for&ccedil;adas    dos espartilhos. A mulher adquire uma silhueta mais delgada, emagrece o alto    das coxas, aumenta o comprimento das pernas, flexibiliza o tronco. Todavia,    no alvorecer do s&eacute;culo seguinte o modelo erotizado em "S" dos caf&eacute;s    ainda convive com o delgado "I", que ter&aacute; preval&ecirc;ncia. Al&eacute;m    de tudo, o abandono do espartilho, no in&iacute;cio do s&eacute;culo XX, e um    corpo mais flex&iacute;vel eram necess&aacute;rios &agrave; mulher, que rapidamente    entrava nos escrit&oacute;rios como secret&aacute;ria: em 1860 eram 95 mil e    em 1914 j&aacute; contavam 843 mil (Vigarello, 2006, p. 129). </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Com a linha do corpo feminino redesenhado, um    m&oacute;vel j&aacute; &eacute; comum nos lares burgueses, o arm&aacute;rio    com espelhos. O corpo nu observa-se, detalha-se de alto a baixo, mas nada ainda    que se assemelhe aos dias atuais. As refer&ecirc;ncias &agrave;s medidas num&eacute;ricas    do corpo s&atilde;o poucas, nada em cent&iacute;metros, pouca evoca&ccedil;&atilde;o    aos quilos, a balan&ccedil;a ainda est&aacute; ausente do mobili&aacute;rio    dos quartos ou banheiros. No fim do s&eacute;culo, a &aacute;gua canalizada    transforma os cuidados &iacute;ntimos e o banheiro burgu&ecirc;s ganha destaque    com uma toalete cada vez mais complexa. Mais do que isso, o banheiro "&eacute;    conquista de um espa&ccedil;o 'para si': lugar que permite 'n&atilde;o ser visto'    para melhor se consagrar ao 'culto da beleza'... A exig&ecirc;ncia &eacute;    nova: dedicar tempo para se 'fazer bela'" (Vigarello, 2006, p. 135). Rocha (2007)    pontua que temos a&iacute; n&atilde;o s&oacute; uma mudan&ccedil;a de comportamento,    mas o advento da intimidade, a toalete n&atilde;o &eacute; mais feita com criados,    apenas com um espelho. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A arte de se embelezar se expande no s&eacute;culo    XX usufruindo de toda uma tecnologia que avan&ccedil;ava a largos passos; surgem    aparelhos e modeladores para as pernas, costas, seios, massagens e interven&ccedil;&otilde;es    corretivas s&atilde;o precisas, "uma promessa servida pela t&eacute;cnica e    pela instrumenta&ccedil;&atilde;o: uma a&ccedil;&atilde;o sobre si" (Vigarello,    2006, p. 134). Com a expans&atilde;o das ind&uacute;strias e redes urbanas,    surgem as lojas de departamentos, variados produtos para variados fins todos    ali, lugares onde o anseio feminino por beleza &eacute; desenvolvido e alimentado.    Com a mulher fora de casa, trabalhando, todo um aparato surge para mant&ecirc;-la    bela ao longo do dia: pequenos espelhos, caixinhas de p&oacute;-de-arroz, batom    para l&aacute;bios, perfumes mais din&acirc;micos que servem para qualquer hora    do dia, carteiras femininas, entre outros. Aparecem os institutos de beleza.    Isso n&atilde;o &eacute; somente coqueteria pura e simples, mas j&aacute; remete    ao valor social do indiv&iacute;duo e da luta pela vida. Se a nova mulher dos    primeiros anos do s&eacute;culo parece mais livre e ativa, com movimentos libertos    e praticando esporte, trata-se de in&iacute;cio de uma liberdade, ao menos do    espartilho, "grandes passadas, ombros soltos, porte que n&atilde;o &eacute;    mais apertado. A linha convence, mesmo se a realidade da liberta&ccedil;&atilde;o    &eacute; evidentemente mais complexa na banalidade dos dias" (Vigarello, 2006,    p. 145). </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">At&eacute; por volta dos anos 30, em especial    no entreguerras, as mulheres parecem crescer com uma verticalidade imposta e    ajudada por penteados para o alto, a maquiagem &eacute; forte, e os cabelos    curtos, tal como Coco Chanel, viram moda. A mulher est&aacute; fora de casa,    trabalhando e ocupando a cena p&uacute;blica, da&iacute; o bronzeamento passa    a ser sinal de beleza, bem como a depila&ccedil;&atilde;o. A praia vira espa&ccedil;o    de lazer e encontros, a exibi&ccedil;&atilde;o ostensiva do corpo come&ccedil;a    sua escalada, por um lado livre do espartilho, por outro submetida a um verdadeiro    escrut&iacute;nio que refere-se mesmo ao modo de controle da sociedade burguesa    (Foucault, 2005). Vigarello (op.cit) nos traz a compara&ccedil;&atilde;o das    cartas da revista <I>Votre Beaut&eacute;</I>: em 1900 as leitoras pedem dicas    para o rosto e maquiagem, ao passo que trinta anos depois a carta de uma dessas    leitoras &eacute; emblem&aacute;tica: </font></p>     <blockquote>        <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Tenho os ombros e os quadris muito grandes.      Quando me olho de costas num espelho tenho a sensa&ccedil;&atilde;o de ser      muito gorda por causa de meus quadris e dos ombros, e no entanto sou magra.      Imposs&iacute;vel, ali&aacute;s, engordar: consultei um m&eacute;dico que      simplesmente me ordenou repouso e um fortificante. Nada resolve. No fundo,      sinceramente, n&atilde;o desejo engordar, porque, se j&aacute; sou feia nua,      gorda seria mais feia ainda vestida. Tenho uma desculpa formid&aacute;vel:      &eacute; irremedi&aacute;vel. Os movimentos que o senhor recomendou em janeiro      para as pernas arqueadas s&atilde;o realmente eficazes? Pernas cavadas podem      realmente se tornar belas, em quanto tempo? Apesar de minha falta de gordura,      tenho assim mesmo barriga. Creio que isso poderia derivar de uma forte curvatura      dos rins. O senhor acredita que a cinta el&aacute;stica &eacute; prefer&iacute;vel      ao espartilho? Tenho os ossos dos quadris muito exuberantes. E ainda, uma      pergunta que lhe fazem seguidamente, mas que eu preciso absolutamente saber:      um peito pequeno ca&iacute;do, de dois ou tr&ecirc;s cent&iacute;metros, pode      ser melhorado? Tenho o peito rapidamente estragado e o nascimento de um beb&ecirc;      n&atilde;o o embelezou, pelo contr&aacute;rio. Quando estendo os bra&ccedil;os      e aperto o peito meus seios ficam em bom lugar. N&atilde;o pe&ccedil;o o imposs&iacute;vel,      mas uma melhoria sens&iacute;vel &eacute; poss&iacute;vel? (Vigarello, 2006,      p. 235). </font></p> </blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Vigarello (op.cit) observa que por tr&aacute;s    da valoriza&ccedil;&atilde;o do bronzeamento h&aacute; toda uma revis&atilde;o    pedag&oacute;gica: o embelezar vem associado ao prazer, &agrave; permiss&atilde;o    para uma pausa, deitar-se sob os raios do sol, curtir uma praia ou uma boa caminhada.    E, n&atilde;o por acaso, essa revis&atilde;o acompanhou uma novidade, as f&eacute;rias    pagas. Por outro lado, as atrizes se tornam o ideal de beleza; como sublinha    Rocha (2007), trata-se de uma beleza mais ao alcance de todos com a t&eacute;cnica    que avan&ccedil;a, mas tamb&eacute;m &eacute; o emblema de autocontrole da ideologia    da classe m&eacute;dia burguesa, de determina&ccedil;&atilde;o, vontade e individua&ccedil;&atilde;o.    Assim, o corpo passava por um escrut&iacute;nio, com celulite e rugas, mas com    t&eacute;cnicas e cirurgias para cada obst&aacute;culo. Ser bela era, gradativamente,    o reflexo de um sucesso ou fracasso pessoal. Com o aux&iacute;lio do cinema    e de todo o aparato da telecomunica&ccedil;&atilde;o toda uma pedagogia de massa    &eacute; veiculada: uma soberania sobre si, o indiv&iacute;duo pode como nunca    controlar seu corpo e provar sua vontade &iacute;ntima, sua determina&ccedil;&atilde;o,    seu valor. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Com a entrada do s&eacute;culo XX a arte de se    embelezar se expande, se torna uma a&ccedil;&atilde;o sobre si, com aparelhos    e modeladores para pernas, costas, seios, massagens e interven&ccedil;&otilde;es    corretivas. Mais do que nunca o indiv&iacute;duo tem obriga&ccedil;&atilde;o    de ser belo. O tema gordo <I>versus</I> magro arraiga-se definitivamente na    quest&atilde;o de beleza. Desde a d&eacute;cada de 30 o peso &eacute; crit&eacute;rio    fundamental na beleza e tamb&eacute;m na sa&uacute;de. A obesidade, por muito    tempo fora da patologia, se transforma em doen&ccedil;a grave e declarada. O    corpo &eacute; manipulado largamente, entramos na era da cirurgia pl&aacute;stica.    Mas como tra&ccedil;ar no bisturi um eu singular? Como o homem contempor&acirc;neo    est&aacute; construindo seu pr&oacute;prio corpo a partir das refer&ecirc;ncias    sociais que experiencia, a partir de um mundo de certezas cient&iacute;ficas    e t&eacute;cnicas mirabolantes e inimagin&aacute;veis? </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Para ilustrar recorreremos a Perrot (1984) e    seu conceito de ortopedia mental. Interrogando-se a respeito do ideal feminino    de emancipa&ccedil;&atilde;o, analisa, historicamente, as conquistas femininas    e sugere, de forma ir&ocirc;nica, mas categ&oacute;rica, que estamos vivendo    uma ditadura bem mais severa do que todas at&eacute; ent&atilde;o vivenciadas    pelas mulheres. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O autor considera os diversos procedimentos de    produ&ccedil;&atilde;o e manuten&ccedil;&atilde;o do bom aspecto do corpo feminino,    entraves bem maiores na vida das mulheres do que os fardos que deflagraram a    queima de soutiens em pra&ccedil;a p&uacute;blica ou mesmo o discurso m&eacute;dico    atestando o mal que os espartilhos causavam. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Segundo Perrot, (op.cit) com a maior exposi&ccedil;&atilde;o    do corpo as aten&ccedil;&otilde;es sobre a pele intensificam-se, assim como    a rotina de cuidados com a apar&ecirc;ncia f&iacute;sica. Para designar essa    tentativa fren&eacute;tica de reformata&ccedil;&atilde;o e adequa&ccedil;&atilde;o    das formas, Perrot cunhou o termo ortopedia mental. O termo descreve, com uma    precis&atilde;o jocosa, uma ordem ainda mais tir&acirc;nica que as j&aacute;    conhecidas formas que levaram &agrave; subservi&ecirc;ncia feminina. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Nada mais cruel do que lutar com um inimigo implac&aacute;vel    e inexor&aacute;vel. Contra a a&ccedil;&atilde;o do tempo as mulheres lutam,    tentando manter-se sempre jovens e belas. Fren&eacute;ticas e enlouquecidas,    consumindo compulsivamente toda sorte de produtos que prometam retardar o seu    envelhecimento e manter sua beleza, essas mulheres lutam contra si, perdendo-se    no espelho &agrave; procura delas mesmas. Se antes as roupas as aprisionava,    agora se aprisionam no corpo - na justeza das pr&oacute;prias medidas. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Assim o corpo, e sua imagem em especial, ocupam    um lugar central na vida do homem contempor&acirc;neo, na rela&ccedil;&atilde;o    com o mundo e com seus pares. A subjetividade contempor&acirc;nea, como formulou    Medeiros, sendo "descompromissada, desresponsabilizada, alienada, esvaziada    de seus afetos e valores, s&oacute; lhe teria restado sua apar&ecirc;ncia. J&aacute;    n&atilde;o mais seria a for&ccedil;a-de-trabalho do sujeito e sim sua est&eacute;tica    que se prestaria &agrave; cria&ccedil;&atilde;o de mais-valia" (2005, p. 21).    </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><B>Quem manda n&atilde;o se cuidar? S&oacute;    &eacute; feia quem quer</B> </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Sem d&uacute;vida a moda do corpo magro, esbelto,    sarado e cuidado chegou para ficar. </font></p>     <blockquote>        <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O primeiro dia de um obeso numa academia de      gin&aacute;stica &eacute; sempre um evento. O meu, por exemplo, foi assim:      meu marido precisou ficar meia hora dentro do carro, em frente &agrave; academia,      me convencendo a entrar. Eu pensei, s&oacute; tem gostosona l&aacute; dentro,      o que &eacute; que eu vou fazer neste lugar? (Novaes, 2006, p. 203). </font></p> </blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Mais ainda, ai de quem destes par&acirc;metros    se afastar!!! Em recentes pesquisas que vimos realizando e cujas falas reproduzimos    ao longo deste trabalho, pudemos observar, n&atilde;o apenas o car&aacute;ter    impositivo de uma est&eacute;tica que nada tem a ver com o biotipo brasileiro,    como o profundo preconceito que as mulheres feias (leia-se gordas) sofrem: sem    car&aacute;ter, sem for&ccedil;a de vontade e vistas como desleixadas. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A anatomia feminina deixou de ser um destino    para ser uma quest&atilde;o de disciplina: se n&atilde;o conseguimos agenciar    nossos corpos, como seremos capazes de agenciar nossas vidas ou nossos empregos?    </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A partir do discurso higienista do s&eacute;culo    XIX, os fabricantes da beleza retomam o mote da possibilidade de beleza, transformando-o,    n&atilde;o apenas numa obriga&ccedil;&atilde;o, mas, sobretudo, numa "facilidade"    - apenas uma quest&atilde;o de escolha e de vontade: com Lanc&ocirc;me, "ser    bela tornou-se f&aacute;cil". </font></p>     <blockquote>        <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">N&atilde;o existe mais mulher feia... a mulher      inteligente quer, de verdade, poder tornar-se, pelo menos, bonita... At&eacute;      aonde ela ir&aacute; depende apenas dela... Nos tempos atuais, &eacute; imperdo&aacute;vel      que a gravidez fa&ccedil;a com que a mulher perca a sua silhueta... A mulher      deve ter um belo corpo para mostrar ap&oacute;s os filhos estarem criados.      (Helena Rubinstein, apud Rouet, 1978, p.22). </font></p>       <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Uma intensifica&ccedil;&atilde;o do dispositivo      repressivo, do qual as mulheres, atrav&eacute;s de seus corpos, s&atilde;o      objeto, gera um mal estar constante. O modelo de beleza proposto e a consci&ecirc;ncia      corporal (identidade corporal no sentido estrito) que as mulheres t&ecirc;m      de si, justificam a crescente insatisfa&ccedil;&atilde;o que as mesmas t&ecirc;m      com seus corpos (Cash & Henry, 1995). </font></p> </blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Se, historicamente, as mulheres preocupavam-se    com a sua beleza, hoje elas s&atilde;o respons&aacute;veis por ela. De dever    social (se conseguir, melhor), a beleza tornou-se um dever moral (se realmente    quiser eu consigo). O fracasso, n&atilde;o se deve mais a uma impossibilidade    mais ampla, mas a uma <b>incapacidade individual</B>. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Uma "tarde para cuidar de si" &eacute; apresentada    como uma forma de libera&ccedil;&atilde;o. Trata-se, na verdade, de colocar    a mulher aprisionada e sempre a servi&ccedil;o de seu pr&oacute;prio corpo,    seja para aperfei&ccedil;o&aacute;-lo, ultrapass&aacute;-lo, modific&aacute;-lo    e, muitas vezes, mutil&aacute;-lo, pois n&atilde;o importa o pre&ccedil;o a    pagar. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A <B>moraliza&ccedil;&atilde;o do corpo feminino</B>,    como aponta Baudrillard (1981) em seu livro <B>A Sociedade de Consumo</B>, nos    leva a encarar a ditadura da beleza, da magreza e da sa&uacute;de como se fosse    algo da ordem de uma escolha pessoal. Deixam-se de lado todos os mecanismos    de regula&ccedil;&atilde;o social presentes em nossa sociedade, que transformam    o corpo, cada vez mais, em uma pris&atilde;o ou em um inimigo a ser constantemente    domado. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">N&atilde;o &eacute; &agrave; toa que tratam de    seu corpo com profunda tirania, privando-o de alimentos, mortificando-o nas    in&uacute;meras cirurgias ou submetendo-o a exerc&iacute;cios f&iacute;sicos    torturantes. Significativamente o verbo mais empregado &eacute; "malhar". Malhado,    como se malha o ferro, n&atilde;o &eacute; sem raz&atilde;o que tal express&atilde;o    &eacute; utilizada nas academias de gin&aacute;stica, na tentativa de adquirir    a est&eacute;tica desejada. Tais t&eacute;cnicas, apreendidas, inicialmente,    como uma disciplina, com o passar do tempo s&atilde;o incorporadas ao cotidiano    do sujeito e sem que o mesmo perceba, acaba por reproduzi-las sem que haja uma    dimens&atilde;o cr&iacute;tica ou reflexiva sobre essas atividades/comportamentos:    a <B>Pastoral do Suor</B> de que nos fala Courtine. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Mais ainda - dor e frustra&ccedil;&atilde;o passam    a ser indicadores, n&atilde;o de limites inerentes &agrave; experi&ecirc;ncia    humana, mas da insufici&ecirc;ncia daquele sujeito singular. Ou seja, veicula-se    a id&eacute;ia de que essa imagem ideal de pleno prazer est&aacute; dispon&iacute;vel    para todos, a um m&iacute;nimo esfor&ccedil;o, e que a n&atilde;o concretiza&ccedil;&atilde;o    desse modelo decorrer&aacute;, exclusivamente, da incapacidade individual do    sujeito. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A combina&ccedil;&atilde;o de um foco na iniciativa    pessoal, de uma libera&ccedil;&atilde;o in&eacute;dita dos costumes, bem como    de uma libera&ccedil;&atilde;o ps&iacute;quica, e de uma multiplica&ccedil;&atilde;o    de refer&ecirc;ncias levou &agrave; produ&ccedil;&atilde;o de uma individualidade    que age por si e se modifica apoiada apenas em seus recursos internos. Todavia,    diante da indetermina&ccedil;&atilde;o e m&uacute;ltiplas refer&ecirc;ncias,    o que encontramos &eacute; um indiv&iacute;duo perdido, al&eacute;m de deprimido    e compulsivo, emancipado, por&eacute;m marcado pela insufici&ecirc;ncia. Ele    padece, seja pela suspens&atilde;o na depress&atilde;o ou pela passagem ao ato    na compuls&atilde;o, sob o peso da ilus&atilde;o que tudo &eacute; poss&iacute;vel,    em uma sociedade onde o eixo &eacute; a capacidade de agir por si, a a&ccedil;&atilde;o    de entrar em pane &eacute; seu dist&uacute;rbio por excel&ecirc;ncia. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A l&oacute;gica das pr&aacute;ticas corporais,    que associa o prazer &agrave; sa&uacute;de, vitalidade e beleza, promete eliminar    a inquietude que o olhar do outro provoca, atrav&eacute;s do esfor&ccedil;o,    determina&ccedil;&atilde;o e disciplina, apontando todo tempo para a responsabilidade    do sujeito. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Disto tamb&eacute;m nos falam nossas entrevistadas:    Estender ao m&aacute;ximo a sensa&ccedil;&atilde;o de juventude demanda resist&ecirc;ncia,    disposi&ccedil;&atilde;o e for&ccedil;a que as fazem capazes de levar uma vida    de <B>jovens hero&iacute;nas,</b> cujos corpos, paradoxalmente, carregam a profundidade    de uma <B>Barbie -</b> esticada, lisa e loura. Numa vers&atilde;o mais carioca    da imagem da boneca: uma <B>Barbie</b> marombada e plastificada. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A busca desenfreada por satisfa&ccedil;&atilde;o    parece ser a marca da cultura narc&iacute;sica contempor&acirc;nea - o imperativo    &eacute; de que sejamos felizes ou pelo menos que apresentemos uma imagem superficial    e aparente de felicidade. Ter uma apar&ecirc;ncia feliz significa um super investimento    no corpo, j&aacute; que parece existir um consenso entre os te&oacute;ricos    da &aacute;rea sobre a queda e extin&ccedil;&atilde;o de antigos ideais. Desta    forma, o resultado e o mote deste superinvestimento &eacute; tornar-se uma imagem    a ser apresentada para o outro. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Assim, atrav&eacute;s de um jogo de espelhamento    infinito, o outro passa a ser a medida constante de compara&ccedil;&atilde;o,    uma vez que o reflexo devolve, al&eacute;m da pr&oacute;pria imagem do sujeito,    in&uacute;meras outras imagens. O reconhecimento da pr&oacute;pria imagem atrav&eacute;s    da proje&ccedil;&atilde;o do outro passa a ter um papel vital na vida do sujeito,    sua imagem agora se imiscui com a do(s) outro(s) numa intricada cadeia que define    e explica a preocupa&ccedil;&atilde;o dos sujeitos. </font></p>     <blockquote>        <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Meu marido vive me dizendo que quem vive de      imagem &eacute; atriz, mas eu achava que se ficasse com os seios que queria,      ele n&atilde;o iria olhar para mais ningu&eacute;m - isso ia salvar a minha      auto-estima e o meu casamento tamb&eacute;m. N&atilde;o salvou nada, pelo      contr&aacute;rio, hoje ele tem muito menos tes&atilde;o em mim e ainda me      chama de clone do P&atilde;o de A&ccedil;&uacute;car, ele diz bem assim: "t&atilde;o      a&iacute; duros, rijos, mas n&atilde;o d&atilde;o vontade de apertar, s&oacute;      admirar" (Novaes, 2006, p. 156). </font></p> </blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Contudo, n&atilde;o h&aacute; como pensar o sujeito    como mero efeito da cultura, sem uma an&aacute;lise mais aprofundada do interjogo    corpo simb&oacute;lico/corpo pulsional </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><B>A dimens&atilde;o corporal da experi&ecirc;ncia    ps&iacute;quica</B> </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Com a hist&oacute;ria da psican&aacute;lise e    suas hist&eacute;ricas, aprendemos que o inconsciente recha&ccedil;ado ressurge    no corpo, opondo forte resist&ecirc;ncia &agrave;s disciplinas e &agrave;s pr&aacute;ticas    que visam exclu&iacute;-lo. Diferentemente do saber m&eacute;dico, para a psican&aacute;lise    a obesidade estaria mais pr&oacute;xima de ser um sintoma, remetendo menos a    um estado doentio do que a um processo chamado inconsciente. Com a descoberta    deste, Freud descentra o homem racional e consciente de ent&atilde;o, o homem    &eacute; dotado de raz&atilde;o, mas uma raz&atilde;o que vacila no interior    de si mesma: "o eu n&atilde;o &eacute; senhor nem mesmo em sua pr&oacute;pria    casa" (1996, p. 292). </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">De fato, uma coisa &eacute; a representa&ccedil;&atilde;o    de corpo, outra &eacute; o corpo pulsional, corpo real, situado para al&eacute;m    do representacional. Entretanto, se a puls&atilde;o n&atilde;o &eacute; uma    for&ccedil;a natural, nem por isso deixa de ser pot&ecirc;ncia corporal. Freud    &eacute; bastante claro quando afirma que as puls&otilde;es s&atilde;o for&ccedil;as    que sup&otilde;em existentes por tr&aacute;s do Isso, representando exig&ecirc;ncias    que o corpo faz &agrave; mente: as puls&otilde;es s&atilde;o a causa &uacute;ltima    de toda a atividade ps&iacute;quica. Encontram-se, permanentemente, buscando    uma inscri&ccedil;&atilde;o no registro do ps&iacute;quico. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Neste trabalho buscamos compreender a obesidade    m&oacute;rbida a partir da psican&aacute;lise, pressupondo um sujeito de linguagem    tanto como um sujeito de gozo. Visto desta forma, a obesidade &eacute; um sintoma,    posto que sintoma &eacute; um fen&ocirc;meno estruturado como uma linguagem,    mas tamb&eacute;m um gozo com o qual n&atilde;o se soube bem o que fazer, sintoma    como ponto condensado de gozo que captura o sujeito, deixando-o em suspenso.    Assim, buscamos fazer um recorte tendo em vista o novo contexto em que se tem    pensado a obesidade, definida, a partir do discurso m&eacute;dico, enquanto    uma patologia que exige corre&ccedil;&atilde;o, nesse caso a "cirurgia da obesidade".    </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Em se tratando do recurso cir&uacute;rgico, ele    &eacute;, em geral, entendido como uma solu&ccedil;&atilde;o m&aacute;gica,    a luz no fim do t&uacute;nel, a realiza&ccedil;&atilde;o dos sonhos. E, se diante    do discurso m&eacute;dico j&aacute; &eacute; dif&iacute;cil o sujeito se implicar    - uma vez que tal discurso aponta para uma causalidade externa - dir&iacute;amos    que agora, diante dessa promessa de cura, o sujeito n&atilde;o tem mais por    que se p&ocirc;r numa busca dos sentidos do seu sintoma. Alguns servi&ccedil;os    com mais tempo de experi&ecirc;ncia relatam que n&atilde;o raro os pacientes,    depois de um tempo de cirurgia, apresentam outros sintomas: depend&ecirc;ncia    alco&oacute;lica, drogadi&ccedil;&atilde;o, comportamentos compulsivos como    comprar coisas, entre outros. Tamb&eacute;m temos as dificuldades em vir &agrave;s    consultas ap&oacute;s a cirurgia no primeiro ano, manter a dieta, atividade    f&iacute;sica, entre outras, definidas em conjunto pela equipe como "problemas    de adapta&ccedil;&atilde;o". </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Observa-se que essa nova identidade corporal    n&atilde;o &eacute; desprovida da percep&ccedil;&atilde;o de que outras transforma&ccedil;&otilde;es    se fazem necess&aacute;rias. </font></p>     <blockquote>        <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&Eacute; dif&iacute;cil, pois grampearam o      meu est&ocirc;mago, mas n&atilde;o operaram a minha cabe&ccedil;a, continuo      com a mente obesa, &agrave;s vezes tenho a impress&atilde;o que nunca conseguirei      me enxergar como uma pessoa magra (Novaes, 2006, p.189). </font></p>       <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">N&oacute;s gordos n&atilde;o nos damos conta      do que &eacute; ter a alma gorda, dizem que nos escondemos atr&aacute;s da      gordura para n&atilde;o vivermos uma por&ccedil;&atilde;o de coisas, mas n&atilde;o      sei se compro essa hist&oacute;ria toda, ser&aacute; que &eacute; s&oacute;      isso? Eu, por exemplo, quando era gorda chamava a aten&ccedil;&atilde;o em      qualquer lugar que chegasse, pois n&atilde;o h&aacute; como tanta gordura      n&atilde;o marcar presen&ccedil;a. Agora tenho que rebolar, usar roupas extravagantes,      maquiagem, tudo para poder chamar bastante aten&ccedil;&atilde;o. Desenvolvi,      inclusive uma especial predile&ccedil;&atilde;o por bolsas e sapatos - eu      diria que uma compuls&atilde;o por compr&aacute;-los. N&atilde;o que tudo      isso n&atilde;o seja &oacute;timo, afinal estou podendo, finalmente, ser mulher      e exercer a minha feminilidade, mas antes marcava presen&ccedil;a sem estar      no p&aacute;reo e hoje, para me destacar com tanta concorr&ecirc;ncia, tenho      que matar um le&atilde;o por dia para me fazer notar (Novaes, 2006, p.189).      </font></p> </blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Algo a&iacute; resiste, insiste, retorna. Mas    o que significa isso que se quer extirpar? O que est&aacute; al&eacute;m dessa    promessa de solu&ccedil;&atilde;o? Trata-se de um v&iacute;cio, como na drogadi&ccedil;&atilde;o?    Posso falar em diferentes obesidades m&oacute;rbidas? Psiquicamente, qual a    diferen&ccedil;a entre aquele que foi obeso desde pequeno e o que aumentou quarenta    quilos com a gravidez e n&atilde;o parou mais? Como esses sujeitos se estruturam    privados, da noite para o dia, do seu sintoma? </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A tecnologia permite fazer muitas manipula&ccedil;&otilde;es,    recuando nossos limites, mas esse poder n&atilde;o liberta nada, sublinha Ehrenberg    (1998), nossa sociedade de performances encoraja essas pr&aacute;ticas de modifica&ccedil;&atilde;o    criando um problema no cerne da estrutura&ccedil;&atilde;o do sujeito, da subjetiva&ccedil;&atilde;o    mesmo. Assim, como pontua Rocha (2007), se a contemporaneidade &eacute; marcada    pelo excesso, um gozo hoje e agora, a obesidade se encaixa muito bem nessa s&eacute;rie:    comer com prazer agora e m&aacute;ximo, sem limites. Por outro lado &eacute;    paradigm&aacute;tica, tamb&eacute;m, numa cultura da performance e da a&ccedil;&atilde;o,    obcecada por fabricar autonomia. Mas tecnologia usada largamente, em diferentes    contextos: </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>        <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Comigo &eacute; assim: acho que a gente n&atilde;o      tem que conviver com aquilo que n&atilde;o gosta e est&aacute; incomodando.      Eu, por exemplo, n&atilde;o gostava do meu quadril, lipoaspirei culote, achava      meus seios pequenos demais - taquei silicone e virei barbie, n&atilde;o estava      com paci&ecirc;ncia de esperar os meus cabelos crescerem, coloquei um <I>megahair</i>      (Novaes, 2006, p. 167). </font></p> </blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Enquanto compuls&atilde;o, a obesidade evidencia    uma dist&acirc;ncia de si para si m&aacute;xima, ele n&atilde;o tem controle    sobre si ao comer. O obeso traz tamb&eacute;m o oposto do culto ao corpo, da    valoriza&ccedil;&atilde;o est&eacute;tica, da agilidade. O obeso empaca aos    poucos, at&eacute; a imobilidade quase total. Mas n&atilde;o se trata, numa    leitura rom&acirc;ntica, de entend&ecirc;-la como movimento de resist&ecirc;ncia    &agrave;s exig&ecirc;ncias contempor&acirc;neas. Est&aacute; mais pr&oacute;xima    de uma forma de escravid&atilde;o, quando a liberdade vacila no seio do sujeito.    A obesidade est&aacute; inserida nesse contexto, e causa extremo sofrimento    ao sujeito, ao qual n&atilde;o resta outros modos de protestar, que n&atilde;o    adoecendo. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Como observa Rocha (2007), o corpo gordo a ser    operado pelo m&eacute;dico &eacute; s&oacute; a ponta do <I>iceberg</I>. O que    impele, o que "com-pulsiona" o obeso aos epis&oacute;dios de devora&ccedil;&atilde;o?    A comer um "a mais" que o devora, o mata aos poucos? Eles relatam que n&atilde;o    raro pouco importa o que est&atilde;o comendo, pouco importa o que seja desde    que comam at&eacute; sentir-se completamente cheios. Que buraco &eacute; esse    de que falam? Comendo cada vez mais, cada vez mais cheios, embora nunca cheios    o suficiente, comem mais, buscam ficar sem espa&ccedil;os a serem preenchidos,    sem faltas; talvez horror &agrave;s hi&acirc;ncias que apontam ao que estamos    condenados por sermos seres de fala. Para o desejo do sujeito n&atilde;o existe    objeto, &eacute; um vazio constitutivo, irredut&iacute;vel. O sujeito constitui-se    numa alteridade, mas quando busca constituir-se e definir-se n&atilde;o encontra    nada que o definiria terminantemente, s&oacute; o que acha &eacute; essa falta.    Falta radical e fundamental que doravante o constitui. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&Eacute; da&iacute; que partimos para pensar    que real se configura na obesidade. N&atilde;o parece tratar-se de um real que    abre essa rela&ccedil;&atilde;o. Parece mais se dar um curto-circuito direto    corpo/linguagem: de um lado um corpo partido entre o sentido invari&aacute;vel,    a imagem que sofre distor&ccedil;&atilde;o gradativa, e um n&atilde;o-sentido,    um real imposs&iacute;vel e violento; de outro lado uma linguagem que n&atilde;o    alcan&ccedil;a esse corpo, linguagem impotente, sempre correndo atr&aacute;s    de domar um gozo violento. Falta o real que faz acordo, um saber-fazer com esse    corpo que &eacute; subst&acirc;ncia gozante, um modo de gozar dele e com ele    sem ser gozado e devorado por ele. N&atilde;o parece, enfim, que &eacute; o    obeso devorado por seu gozo, dominado, subjugado por ele? O corpo gordo a ser    operado, cuja imagem refletida denuncia uma muta&ccedil;&atilde;o gradativa    e incessante, s&oacute; toma a cena num segundo tempo, o que est&aacute; l&aacute;    primariamente &eacute; um certo modo de se relacionar com a comida, com o comer,    um certo modo de gozo do sujeito. Pensemos nos momentos de crises de devora&ccedil;&atilde;o,    quando o obeso compulsivamente come sem parar, momento, inclusive, onde n&atilde;o    h&aacute; um corpo, seja gordo ou magro, n&atilde;o h&aacute; um obeso, n&atilde;o    h&aacute; um sujeito, n&atilde;o h&aacute; nada sen&atilde;o aquele devorar,    aquele estranho prazer de devorar sei l&aacute; o qu&ecirc;. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><B>Em busca da comida perfeita...</B> </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A escuta desses pacientes, por vezes, nos aponta    para algo semelhante &agrave; drogadi&ccedil;&atilde;o. Uma associa&ccedil;&atilde;o    que parece j&aacute; ter sido percebida pelo saber popular, pois os obesos m&oacute;rbidos    est&atilde;o sendo apelidados de <I>heavy users</I>, algo como "consumidores    pesados", express&atilde;o tradicionalmente usada para usu&aacute;rios de drogas.    No "ato de devora&ccedil;&atilde;o", o obeso come compulsivamente num curto-circuito,    numa passagem ao ato. Uma cirurgia tem, sozinha, um efeito que interrompa esse    curto-circuito? Que desarticule esse funcionamento? Mesmo com a restri&ccedil;&atilde;o    mec&acirc;nica, ap&oacute;s a cirurgia de gastroplastia, os obesos descobrem    mecanismos para burlar tais limites, ou ent&atilde;o desenvolvem outros comportamentos    como compuls&atilde;o por jogos, bebida etc. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Fatso, personagem do filme hom&ocirc;nimo de    Anne Bancroft (Bancroft, Cornfeld & Sanger, 1980), vive &agrave;s voltas    com sua gula e sua obesidade quando a morte de um primo obeso atravessa sua    vida. A fam&iacute;lia exige que emagre&ccedil;a para n&atilde;o ter o mesmo    destino. Um dia ao voltar do trabalho, como de h&aacute;bito vai abocanhar um    hot dog quando percebe que uma mulher o est&aacute; olhando, olhar de sedu&ccedil;&atilde;o,    de desejo. Ent&atilde;o ele hesita com o sandu&iacute;che suspenso no ar, um    tempo de n&atilde;o comer, de ao menos abrir a possibilidade: o desejo ou o    gozo? (Amorim & Sant'ana, 1999). No caso de Fatso, ele consegue um acordo,    nem s&oacute; o desejo nem s&oacute; o gozo, casa-se e continua a comer fartamente.    </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Na obesidade m&oacute;rbida, al&eacute;m do sofrimento    ineg&aacute;vel encontramos uma dimens&atilde;o de gozo. Diferente do prazer,    o gozo refere-se a um "mais-al&eacute;m" do princ&iacute;pio do prazer. O gozo    absoluto &eacute; a morte, aqu&eacute;m deste h&aacute; gozos parciais e poss&iacute;veis.    O sujeito passa a vida funcionando de acordo com os pontos de condensa&ccedil;&atilde;o    de seu gozo, o que lhe d&aacute;, digamos, algo como uma identidade, da&iacute;    a dificuldade dele abrir m&atilde;o disso, desse modo de gozar. Dificuldade    que o obeso mostra claramente. E esses pontos enigm&aacute;ticos de condensa&ccedil;&atilde;o    retornam continuamente na compuls&atilde;o que os caracteriza. Mas os pacientes    se fiam na medicina para resolver, ou mesmo decifrar, sua obesidade, buscando    solu&ccedil;&otilde;es fora deles. Pode haver a&iacute; uma cilada, Em geral    os pacientes relatam que a vida mudou depois da cirurgia. O corte da cirurgia    parece apontar para uma verdadeira passagem: a vida "antes" e a vida "depois".    Os m&eacute;dicos s&atilde;o postos no lugar de mestre, mas s&oacute; podem    atuar naquilo que aparece. N&atilde;o possibilitam, necessariamente, acesso    ao que h&aacute; de subjetivo, de desejo e de gozo no la&ccedil;o com a comida,    enfim, ao que h&aacute; do sujeito na constru&ccedil;&atilde;o da obesidade    m&oacute;rbida bem como no seu movimento rumo &agrave; cirurgia bari&aacute;trica.    N&atilde;o s&oacute; a obesidade tem sido assunto cada vez mais corrente nos    meios de comunica&ccedil;&atilde;o, sempre como uma patologia, como a cada dia    aumenta a procura pelo tratamento cir&uacute;rgico. Mas &eacute; necess&aacute;rio    que nos detenhamos a entender melhor a constitui&ccedil;&atilde;o desses sujeitos    nesse contexto. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Que fantasia se trata na obesidade? Se queremos    que uma separa&ccedil;&atilde;o da comida se d&ecirc;, &eacute; preciso que    algo surja a&iacute;. &Eacute; esse o efeito que se quer da cirurgia bari&aacute;trica?    Que fa&ccedil;a um corte nessa rela&ccedil;&atilde;o sufocante e mesmo mort&iacute;fera,    entre o sujeito e a comida, tal como o pai na rela&ccedil;&atilde;o da m&atilde;e    com seu objeto de gozo, seu pequeno beb&ecirc;? Algumas vezes parece ser mesmo    esse o efeito que se d&aacute; nos obesos que operam e lidam bem com todas as    implica&ccedil;&otilde;es e restri&ccedil;&otilde;es que a "nova vida" envolve.    O obeso n&atilde;o deixa restos, come at&eacute; a &uacute;ltima migalha, mas    continua insatisfeito, voraz, saco sem fundo. Mas quem come quem? N&atilde;o    parece ser o obeso aniquilado e devorado pela comida? Como se ocorresse uma    confus&atilde;o, um amontoamento entre objeto e sujeito. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Gostar&iacute;amos que nosso corpo fosse uma    superf&iacute;cie consistente, um para&iacute;so sem turbul&ecirc;ncias, entretanto,    embora tamb&eacute;m n&atilde;o possa ser o tempo todo turbul&ecirc;ncia, certamente    n&atilde;o &eacute; dessa superf&iacute;cie que n&atilde;o inquieta, que une    e que n&atilde;o precisa ser pensada, que se trata no corpo, j&aacute; que &eacute;    um corpo que levanta acampamento, que pulsa e goza, que tem buracos, orelhas    que nunca se fecham captando significantes, boca que emite tanto quanto suga    o sentido. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Certamente a mat&eacute;ria do corpo n&atilde;o    evapora, e por isso acreditamos que temos um corpo para cuidar e adorar, mas    trata-se de um corpo que levanta acampamento a todo instante. A imagem que veste    nosso corpo pulsional e fragmentado, n&atilde;o encaixa perfeitamente em nenhum    sujeito, n&atilde;o deixamos de ter certo estranhamento com esse corpo. Se h&aacute;    uma instaura&ccedil;&atilde;o dessa imagem nos primeiros tempos, &eacute; tamb&eacute;m    um processo que acompanhar&aacute; toda a vida do sujeito, "acompanhar&aacute;    as vicissitudes do real do corpo que, em perp&eacute;tua transforma&ccedil;&atilde;o    &agrave; revelia do pr&oacute;prio sujeito, estar&aacute; &agrave; procura constante    de uma imagem que confirme sua forma. A imagem de si tem a instabilidade como    uma caracter&iacute;stica" (Mieli, 2002, p. 12). </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">De que superf&iacute;cie se trata no corpo obeso?    Eles relatam que se reconhecem cada vez menos no espelho &agrave; medida que    v&atilde;o engordando e mudando, aos poucos n&atilde;o mais sentem os limites    de seu corpo. Se a adora&ccedil;&atilde;o &eacute; a &uacute;nica rela&ccedil;&atilde;o    que se tem com o corpo, fica a pergunta, que adora&ccedil;&atilde;o &eacute;    poss&iacute;vel na obesidade? Lacan (1970) nos fala do "saco do corpo" onde    se encontra figurado o eu, saco esburacado por onde se deixa entrar o mundo,    para o obeso, um s&oacute; buraco, uma grande boca devoradora? </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A imagem na obesidade traz conseq&uuml;&ecirc;ncias    e sofrimento, afeta toda a rela&ccedil;&atilde;o do sujeito com seu corpo, mas    n&atilde;o fiquemos cegos s&oacute; pelo aparente, &eacute; o corpo pulsional,    corpo de gozo, que ocupa, primariamente, toda a cena. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Quando est&atilde;o em um epis&oacute;dio de    comilan&ccedil;a, comendo compulsivamente, todo aquele enorme corpo a engordar,    a cuidar, fica em suspenso, como se n&atilde;o existisse. Eles comem sem parar    e s&oacute; se d&atilde;o conta do quanto comeram depois. Ao que parece, o obeso,    antes de tudo, n&atilde;o &eacute; um corpo obeso, &eacute; um devorar insatisfeito    e voraz, como se a obesidade m&oacute;rbida se ancorasse num ponto espec&iacute;fico    de condensa&ccedil;&atilde;o de gozo que captura o sujeito, deixando-o em suspenso.    </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ent&atilde;o, como conciliar a exig&ecirc;ncia    social contempor&acirc;nea de beleza (leia-se: magreza), ou mesmo a vontade    pr&oacute;pria de serem mais magras, com o particular de seu gozo? Assim, o    corpo gordo a ser operado, cuja imagem refletida denuncia um descontrole, s&oacute;    toma a cena num segundo tempo, o que est&aacute; l&aacute; primariamente &eacute;    um certo modo de relacionar-se com a comida, um certo modo de gozo. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&Eacute; preciso que esse sujeito lide de outro    modo com sua falta fundamental, e por outro lado, que se desfa&ccedil;a esse    n&oacute; de gozo, esse modo de gozar inflex&iacute;vel, exigente, voraz. O    comer compulsivo est&aacute; do lado da puls&atilde;o de morte, refere-se, por    um lado, ao horror de um prazer por ele mesmo ignorado tanto quanto &agrave;    atividade do erotismo oral, gozo oral. Por outro lado, a dieta apontaria para    uma tentativa de quantifica&ccedil;&atilde;o, pois se est&aacute; sempre contando    e somando as calorias, pesando as gramas da dieta, os quilos a mais ou a menos.    Isso permitiria um ciframento do gozo, portanto algum controle dele. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Mas os pacientes fiam-se na medicina para resolver,    ou mesmo decifrar, sua obesidade, buscando apenas solu&ccedil;&otilde;es fora    deles. Pode haver a&iacute; uma cilada. Na cirurgia bari&aacute;trica se diminui    o est&ocirc;mago, como se tirasse um peda&ccedil;o fora; mas o que significa    essa busca por tirar um peda&ccedil;o do corpo? Fabricar ali, no bisturi, uma    falta? A cirurgia pode ter uma indica&ccedil;&atilde;o necess&aacute;ria, mas    os m&eacute;dicos, postos no lugar de mestres, s&oacute; podem atuar naquilo    que aparece. N&atilde;o possibilitam acesso ao que h&aacute; de subjetivo, de    desejo e de gozo no la&ccedil;o com a comida, enfim, ao que h&aacute; do sujeito    na constru&ccedil;&atilde;o da obesidade m&oacute;rbida bem como no seu movimento    rumo &agrave; cirurgia bari&aacute;trica. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Nas palavras de um cirurgi&atilde;o bari&aacute;trico:    </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>        <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&Eacute; uma cirurgia de restaura&ccedil;&atilde;o      da qualidade de vida e da possibilidade de voltar a ter prazer em outros &acirc;mbitos      que n&atilde;o seja s&oacute; atrav&eacute;s da comida. No que os pacientes      j&aacute; operados refor&ccedil;avam em coro un&iacute;ssono: &eacute; um      renascimento, o Dr. X &eacute; maravilhoso, com ele voltamos a ter prazer!      (Novaes, 2006, p. 187). </font></p>       <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Costumo dizer que n&atilde;o sei como sou.      N&atilde;o conhe&ccedil;o o formato real do meu corpo, s&oacute; conhe&ccedil;o      a deforma&ccedil;&atilde;o da obesidade. Espero logo poder saber sobre meus      contornos e curvas e que eles sejam interessantes (Novaes, 2006, p. 189).      </font></p>       <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&Eacute; minha filha... Emagrecer &eacute;      perder uma pessoa, por mais estranho que pare&ccedil;a, &eacute; dif&iacute;cil      reconhecer esta perda e assumir outra identidade (Novaes, 2006, p. 189). </font></p>       <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A quest&atilde;o do limite. Caramba, minorias      sofrem! Falando em culpa! Minha rela&ccedil;&atilde;o com a comida sempre      foi o prazer e a falta de limites (n&atilde;o s&oacute; na comida). Sentir      a opera&ccedil;&atilde;o funcionar &eacute; quase um gozo pra mim! E n&atilde;o      &eacute; s&oacute; a perda de peso, &eacute; o limite mesmo! Por exemplo,      se eu como muito gnochi, eu fico preocupada. Eu sempre no dia seguinte como      feij&atilde;o ou carne ou algo que n&atilde;o tolere muito bem pra ter certeza      que a cirurgia continua l&aacute; (Novaes, 2006, p.201). </font></p>       <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Diminu&iacute;ram o nosso est&ocirc;mago, mas      continuamos com o o olho grande. Temos sempre a impress&atilde;o de que nossa      voracidade nos levar&aacute; a comer mais do que o novo est&ocirc;mago permite      (Novaes, 2006, p. 201). </font></p> </blockquote>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><B>Conclus&atilde;o</B> </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Partimos da id&eacute;ia de que h&aacute; algo    em comum que atravessa a experi&ecirc;ncia dessas pessoas, e que pode lan&ccedil;ar    luz na organiza&ccedil;&atilde;o ps&iacute;quica da obesidade m&oacute;rbida,    bem como na organiza&ccedil;&atilde;o deles ap&oacute;s essa s&eacute;ria interven&ccedil;&atilde;o    cir&uacute;rgica. &Eacute; quando a obesidade &eacute; considerada doen&ccedil;a,    que a medicina &eacute; convocada a cur&aacute;-la, e isso tem pouco tempo,    &eacute; quando tamb&eacute;m a "doen&ccedil;a obesidade" parece j&aacute; n&atilde;o    ter quase causalidade ps&iacute;quica oriunda do pr&oacute;prio sujeito. Um    sujeito que n&atilde;o se implica no seu adoecer e nem &eacute; convocado a    isso, mais preocupado que est&aacute; em retirar de si a ess&ecirc;ncia de todo    conflito. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Essa medicina convocada a curar, herdeira da    medicina positivista, parece esquecer gradativamente que sempre foi pela linguagem    que o doente comunicou seus males. Isso faz com que, enquanto subjetividade,    o doente seja gradativamente exclu&iacute;do do processo de adoecimento. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&Eacute; principalmente a partir do s&eacute;culo    XIX que ir&aacute; se condicionar, modelar, controlar o corpo em dire&ccedil;&atilde;o    a um aperfei&ccedil;oamento gra&ccedil;as ao avan&ccedil;o cient&iacute;fico.    Na modernidade o corpo torna-se lugar privilegiado para o controle social, uma    vez que o controle sobre o indiv&iacute;duo torna-se mais sutil. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A mentalidade moderna, que pressup&otilde;e o    consumo ilimitado e uma filosofia hedonista, atinge diretamente a rela&ccedil;&atilde;o    do homem com os alimentos. Comida &eacute; uma forma de comunica&ccedil;&atilde;o,    no cozinhar o indiv&iacute;duo explicita inclusive sua vis&atilde;o de mundo,    &eacute; como uma linguagem que traduz a estrutura de uma sociedade bem como    a do pr&oacute;prio sujeito. Assim, o comer &eacute; um ato social, ecol&oacute;gico,    tecnol&oacute;gico, psicol&oacute;gico, pol&iacute;tico, entre outros, incluindo    tamb&eacute;m o nutrir-se, atividade biol&oacute;gica. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Vivemos numa &eacute;poca dominada pelo medo    do colesterol e pelo culto &agrave;s vitaminas, com uma dissolu&ccedil;&atilde;o    crescente dos rituais que acompanham o ato alimentar. O almo&ccedil;o &eacute;    um peda&ccedil;o de pizza, em p&eacute;, num balc&atilde;o qualquer. Assim,    &eacute; importante pensar tais mudan&ccedil;as contempor&acirc;neas no comer    enquanto um ato social e psicol&oacute;gico, entre outros. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Por isso, afirmamos que n&atilde;o se trata de    reduzir o sujeito a um registro ps&iacute;quico ou social - ambos empobreceriam    nossa compreens&atilde;o. Acreditamos em buscar um "saber" que determinado grupo    possui, utiliza e que norteia a rela&ccedil;&atilde;o que este tem com o seu    corpo. Uma de nossas entrevistadas nos disse: "consumo &eacute; igual gula...voc&ecirc;    incorpora sem necessidade". Neste sentido, talvez os discursos sobre o corpo    aqui trazidos, possam ser entendidos como a melhor met&aacute;fora da nossa    sociedade. Uma sociedade obesa que, consumindo em excesso, est&aacute; permanentemente    insatisfeita. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><B>Refer&ecirc;ncias</B> </font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Amorim, L., & Sant'Ana, M. M. (1999). A compuls&atilde;o    de comer. <I>&Aacute;gora: Estudos em Teoria Psicanal&iacute;tica, 1</I> (2),    21-29. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3274832&pid=S1518-6148200800020000600001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Bancroft, A. (Diretor), Cornfeld, S., & Sanger,    J. (Produtores). (1980). <I>Fatso</i> &#91;filme&#93;. California, US: Brooksfilms.    </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3274833&pid=S1518-6148200800020000600002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Baudrillard, J. (1981). <I>A sociedade de consumo</I>.    S&atilde;o Paulo: Edi&ccedil;&otilde;es 70. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3274834&pid=S1518-6148200800020000600003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Bourdieu, P. (1980) A cren&ccedil;a e o corpo.    In <I>Le sens pratique</i> (Cap. 4, pp. 38-51). Paris: Minuit. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3274835&pid=S1518-6148200800020000600004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Bourdieu, P. (1992). A L&oacute;gica dos campos.    In <I>R&eacute;ponses: Pour une anthropologie r&eacute;flexive</i> (Cap. 2,    pp. 57-89). Paris: Seuil. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3274836&pid=S1518-6148200800020000600005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Cash, T. F., & Henry, P. E. (1995). Women's    body images: The results of a national survey in USA. <I>Sex Roles, 33</I>,    33-52. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3274837&pid=S1518-6148200800020000600006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Costa, J. F. (1985). <I>Viol&ecirc;ncia e psican&aacute;lise</I>.    Rio de Janeiro: Graal. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3274838&pid=S1518-6148200800020000600007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Courtine, J. J. (1995). Os stakanovistas do narcisismo.    In D. B. Sant'Anna (Org.), <I>Pol&iacute;ticas do corpo: Elementos para uma    hist&oacute;ria das pr&aacute;ticas corporais</i> (pp. 81-114). S&atilde;o Paulo:    Esta&ccedil;&atilde;o Liberdade. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3274839&pid=S1518-6148200800020000600008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Davis, K. (1995). <I>Reshaping the female body:    The dilemma of cosmetic surgery</I>. Nova York: Routlege. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3274840&pid=S1518-6148200800020000600009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ehrenberg, A. (1998). <I>La fatigue d'&ecirc;tre    soi: D&eacute;pression et soci&eacute;t&eacute;</I>. Paris: Odile Jacob. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3274841&pid=S1518-6148200800020000600010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Featherstone, M. (1995). <I>Cultura de consumo    e p&oacute;s-modernismo</I>. S&atilde;o Paulo: Studio Nobel. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3274842&pid=S1518-6148200800020000600011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Foucault, M. (2005). <I>Hist&oacute;ria da sexualidade    I: A vontade de saber</i> (16a ed.). S&atilde;o Paulo: Graal. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3274843&pid=S1518-6148200800020000600012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Freud, S. (1996). <I>Al&eacute;m do princ&iacute;pio    de prazer</i> (Edi&ccedil;&atilde;o Standard Brasileira das Obras Psicol&oacute;gicas    Completas de Sigmund Freud, Vol. 18). Rio de Janeiro: Imago. (Originalmente    publicado em 1920). </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3274844&pid=S1518-6148200800020000600013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">In the land of bold beauty, a trusted mirror    cracks. (2007, January 14). <I>New York Times</I>. 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Rio de Janeiro: Zahar. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3274846&pid=S1518-6148200800020000600015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Lacan, J. (1992). <I>O semin&aacute;rio: Livro    17: O avesso da psican&aacute;lise</I>. Rio de Janeiro: Zahar. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3274847&pid=S1518-6148200800020000600016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Malysse, S. (1997). A la recherche du corps ideal:    Culte f&eacute;minin du corps dans la zone baln&eacute;aire de Rio de Janeiro.    <I>Cahiers du Br&eacute;sil Contemporain</I>, (31), 157-174. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3274848&pid=S1518-6148200800020000600017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Novaes, J. V. (2001). Mulher e beleza: Em busca    do corpo perfeito: Pr&aacute;ticas corporais e regula&ccedil;&atilde;o social.    <I>Cadernos do Tempo Psicanal&iacute;tico, 33</I>, 37-54. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3274849&pid=S1518-6148200800020000600018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Mieli, P. (2002). <I>Sobre as manipula&ccedil;&otilde;es    irrevers&iacute;veis do corpo</I>. Rio de Janeiro: Contra Capa. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3274850&pid=S1518-6148200800020000600019&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Novaes, J. V. (2005). Quando a praia n&atilde;o    &eacute; para todos: Corpo, sociabilidade e exclus&atilde;o. In J. Vilhena,    R. Vieiralves, & M. H. Zamora (Orgs.), <I>As cidades e as formas de viver    </i> (pp. 83-110) Rio de Janeiro. Museu da Rep&uacute;blica. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3274851&pid=S1518-6148200800020000600020&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Novaes, J. V. (2006a). <I>O intoler&aacute;vel    peso da fei&uacute;ra: Sobre as mulheres e seus corpos</I>. Rio de Janeiro:    Garamond/Ed. PUC. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3274852&pid=S1518-6148200800020000600021&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Novaes, J. V. (2006b). O sofrimento de ser feia:    Mulher, beleza e regula&ccedil;&atilde;o social. <I>Espa&ccedil;o S: Revista    de Investiga&ccedil;&atilde;o e Interven&ccedil;&atilde;o Social</I>, 81-95.    </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3274853&pid=S1518-6148200800020000600022&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Novaes, J. V. (2006c). Sobre a tirania da beleza.    <I>Revista Pol&ecirc;mica, 18</I>. Recuperado em 3 fevereiro 2008 da <a href="http://www.polemica.uerj.br/pol18/oficinas/lipis_4.htm" target="_blank">http://www.polemica.uerj.br/pol18/oficinas/lipis_4.htm</a>    </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3274854&pid=S1518-6148200800020000600023&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Novaes, J. V. (2007) Auto retrato falado: Constru&ccedil;&otilde;es    e desconstru&ccedil;&otilde;es de si. <I>Latin American Journal of Fundamental    Psychopatology On Line, 7</i> (2). 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Rio de Janeiro: SENAC. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3274856&pid=S1518-6148200800020000600025&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Novaes, J. V., & Vilhena, J. (2003a) De Cinderela    &agrave; Moura Torta: Reflex&otilde;es sobre mulher, beleza e fei&uacute;ra.    <I>Revista Intera&ccedil;&otilde;es, 8</i> (15), 9-36. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3274857&pid=S1518-6148200800020000600026&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Novaes, J. V., & Vilhena, J. (2003b). Las    enfermedades de la belleza: Acerca de lo intolerable de la fealdad. <I>Psicoan&aacute;lisis    y Hospital, 12</i> (24), 38-43. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3274858&pid=S1518-6148200800020000600027&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Perrot, P. (1984). <I>Le corps feminin: Le travail    des apparences: XVIII-XIX si&egrave;cle</I>. Paris. Editions du Seuil. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3274859&pid=S1518-6148200800020000600028&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Perrot, P. (1990). La verit&eacute; des apparences    ou le drame du corps bourgeois, (XVIII e - XIXe). <I>Cahiers Internationaux    de Sociologie, 76</I>, 185-193. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3274860&pid=S1518-6148200800020000600029&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Remaury, B. (2000). <I>Le beau sexe faible: Les    images du corps f&eacute;minin entre cosmetique et sant&eacute;</I>. Paris:    Grasset & Fasquelle. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3274861&pid=S1518-6148200800020000600030&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Rocha, L. J. L. (2007). De gr&atilde;o em gr&atilde;o    a galinha nunca enche o papo: Algumas reflex&otilde;es acerca da obesidade m&oacute;rbida.    <I>Revista Pol&ecirc;mica, 22</I>. Recuperado em 4 fevereiro 2008 da <a href="http://www.polemica.uerj.br/pol22/oficinas/lipis_4.htm" target="_blank">http://www.polemica.uerj.br/pol22/oficinas/lipis_4.htm</a>    </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3274862&pid=S1518-6148200800020000600031&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Rouet, M. (1998). <I>L'esth&eacute;tique corporel</I>.    Paris: Editions Dangles. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3274863&pid=S1518-6148200800020000600032&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Vigarello, G. (2006). <I>Hist&oacute;ria da beleza:    O corpo e a arte de se embelezar, do renascimento aos dias de hoje</I> (L. Schlafman,    Trad.). Rio de Janeiro: Ediouro. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3274864&pid=S1518-6148200800020000600033&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Vilhena, J., Medeiros, S., & Novaes, J. V.    (2006a). A viol&ecirc;ncia da imagem: Est&eacute;tica, o feminino e a contemporaneidade.    <I>Revista Mal-estar e Subjetividade, 5</I> (1), 111-146. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3274865&pid=S1518-6148200800020000600034&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Vilhena, J., Medeiros, S., & Novaes, J. V    (2006b). M&eacute;dios de comunicaci&oacute;n, est&eacute;tica y valor economico.    <I>Psychoanalysis y el Hospital</I>, (29), 67-73. </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3274866&pid=S1518-6148200800020000600035&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Recebido em 11    de fevereiro de 2008    <br>   Aceito em 2 de junho de 2008    <br>   Revisado em 20 de junho de 2008</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Notas</b> </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><a name="nt01"></a><a href="#tx01">1</a>.    As falas que ilustram este artigo fazem parte da pesquisa de doutorado de uma    das autoras, transformada em livro - "O intoler&aacute;vel peso da fei&uacute;ra:    Sobre as mulheres e seus corpos". O sigilo foi mantido e a poss&iacute;vel identifica&ccedil;&atilde;o    resguardada.    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   <a name="nt02"></a><a href="#tx02">2</a>.    Convencionou-se chamar de <i>fitness</i>, evid&ecirc;ncia de mais um anglicismo    caracter&iacute;stico da sociedade de consumo e do culto ao corpo, as pr&aacute;ticas    corporais ligadas aos exerc&iacute;cios aer&oacute;bicos praticados nas academias    de gin&aacute;stica. Atualmente, mais comumente chamadas de "centros de <i>wellness</i>",    espa&ccedil;os que agregam est&eacute;tica, sa&uacute;de e bem-estar. No caso    do termo <i>body building</i>, trata-se da pr&aacute;tica do fisiculturismo,    ou seja, corresponde &agrave; hip&eacute;rbole muscular observada como modelo    est&eacute;tico vigente. Vale ressaltar que, o termo est&aacute; em perfeita    conson&acirc;ncia com o atual fen&ocirc;meno social de moraliza&ccedil;&atilde;o    da beleza, no qual o sujeito &eacute; respons&aacute;vel pela constru&ccedil;&atilde;o    e manuten&ccedil;&atilde;o da sua imagem/apar&ecirc;ncia f&iacute;sica.</font></p>      ]]></body>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A compulsão de comer]]></article-title>
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