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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This paper brings a comprehension about what pass by the increasing search for psychotropic drugs, verified nowadays, in western societies. Psychoactive substances are used by humans since the beginning of mankind history. Utilized for different purposes, these substances had an increment in the fifties with the production of psychotropic drugs. Ever since, legalized medicaments, which are capable to modify our senses, earned popularity in occidental societies and it sounds like social medicalization phenomena. Our aim in this paper is to appreciate one of the psychoactive drugs roles over people's lives, in other words, the anesthetic effect on desire. Add to that, we search to report some alterations faced by science and western societies in the lasts centuries that seems to have a relationship with the phenomena. The psychoanalytic literature is reviewed and we analyze sociologists and psychoanalysts works. Albeit recent studies are being made, this subject is recent and deserves new research.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>AUTORES    DO BRASIL    <br>   ARTIGOS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="top1"></a><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="4"><b>Uma    p&iacute;lula para (n&atilde;o) viver<a href="#back1"><sup>1</sup></a></b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Rita de C&aacute;ssia    dos Santos Canabarro<sup>I</sup>; M&aacute;rcia Barcellos Alves<sup>II</sup></b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><sup>I</sup>Psic&oacute;loga,    Mestranda em Psicologia Social e Institucional na Universidade Federal do Rio    Grande do Sul. End.: R. Laurindo, 229, apto 203, Santana. Porto Alegre, RS.    CEP: 90040-140. E-mail: <a href="mailto:ritinha.sc@hotmail.com">ritinha.sc@hotmail.com</a>    <br>   <sup>II</sup>Psic&oacute;loga, Especialista em Atendimentos Cl&iacute;nico -    &Ecirc;nfase Psican&aacute;lise, pela CLINICAP/UFRGS; Mestranda em Psicologia    Social e Institucional na UFRGS. End.: R. Cel. Niederauer, 1033, apto 603, Centro.    Santa Maria, RS. CEP: 97015-121. E-mail: <a href="mailto:mbapsi@hotmail.com">mbapsi@hotmail.com</a></font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p> <hr size="1" noshade>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>RESUMO</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Este trabalho constitui-se    como uma tentativa de tecer um entendimento sobre o que perpassa a grande busca    pelo uso de medicamentos psicotr&oacute;picos, verificada hoje, nas sociedades    ocidentais. O uso de subst&acirc;ncias psicoativas acompanha o homem desde os    prim&oacute;rdios de sua hist&oacute;ria. Utilizadas com diferentes finalidades,    a gama dessas subst&acirc;ncias teve o acr&eacute;scimo dos medicamentos psicotr&oacute;picos,    na d&eacute;cada de 1950, quando os primeiros psicof&aacute;rmacos foram produzidos.    Desde ent&atilde;o, os medicamentos legalizados e capazes de alterar os sentidos,    v&ecirc;m ganhando popularidade nas sociedades ocidentais, onde d&atilde;o vaz&atilde;o    ao que hoje &eacute; visto como um fen&ocirc;meno de medicaliza&ccedil;&atilde;o    social. Desse modo, almejamos contemplar neste artigo um dos pap&eacute;is que    as subst&acirc;ncias psicoativas desempenham na vida cotidiana dos sujeitos,    a saber, o de anest&eacute;sico do desejo. Al&eacute;m disso, procuramos expor,    tamb&eacute;m, algumas das modifica&ccedil;&otilde;es enfrentadas pela ci&ecirc;ncia    e pelas sociedades ocidentais nos &uacute;ltimos s&eacute;culos e que demonstram    ter estreita rela&ccedil;&atilde;o com o fen&ocirc;meno estudado. Para tanto,    o trabalho foi estruturado a partir da realiza&ccedil;&atilde;o de uma pesquisa    bibliogr&aacute;fica em psican&aacute;lise, que se dedicou ao estudo e &agrave;    an&aacute;lise de obras de soci&oacute;logos e psicanalistas. Embora esteja    sendo foco de estudos recentes, por tratar-se de um tema ainda novo, esse assunto    merece a realiza&ccedil;&atilde;o de novas pesquisas.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Palavras-chave:    </b> medicamentos psicotr&oacute;picos; contemporaneidade; psican&aacute;lise;    sujeito; anestesiamento.</font></p> <hr size="1" noshade>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>ABSTRACT</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">This paper brings    a comprehension about what pass by the increasing search for psychotropic drugs,    verified nowadays, in western societies. Psychoactive substances are used by    humans since the beginning of mankind history. Utilized for different purposes,    these substances had an increment in the fifties with the production of psychotropic    drugs. Ever since, legalized medicaments, which are capable to modify our senses,    earned popularity in occidental societies and it sounds like social medicalization    phenomena. Our aim in this paper is to appreciate one of the psychoactive drugs    roles over people's lives, in other words, the anesthetic effect on desire.    Add to that, we search to report some alterations faced by science and western    societies in the lasts centuries that seems to have a relationship with the    phenomena. The psychoanalytic literature is reviewed and we analyze sociologists    and psychoanalysts works. Albeit recent studies are being made, this subject    is recent and deserves new research.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Keywords:</b>    psychotropic drugs; contemporaneity; psychoanalysis; subject; anesthetize.</font></p> <hr size="1" noshade>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Uma P&iacute;lula    para (n&atilde;o viver)</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>        <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">"Extrair a mente      do que o corpo sente acabou se tornando uma especialidade minha, um tipo de      s&iacute;ndrome que ataca a gente na inf&acirc;ncia e depois adquire musculatura      qu&iacute;mica". (Pess&ocirc;a, I. 2005, p. 81)</font></p> </blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&Eacute; com esse    pensamento que Thereza, personagem de <b>A noite</b>, em um conto de Isa Pess&ocirc;a,    nos introduz em seu mundo repleto de subst&acirc;ncias qu&iacute;micas psicoativas.    <b>A noite</b> comp&otilde;e a colet&acirc;nea de contos <b>Tarja Preta</b>    que, em sete contos, nos apresenta a uma s&eacute;rie de personagens, dependentes    qu&iacute;micos assumidos, que veem os rem&eacute;dios tarja preta como elementos    essenciais em suas vidas. Qualquer semelhan&ccedil;a com a realidade n&atilde;o    &eacute; mera coincid&ecirc;ncia, neste caso. Como afirma Patr&iacute;cia Rocha    (2005, p. 9), em uma reportagem publicada no jornal Zero Hora, a "fic&ccedil;&atilde;o    j&aacute; flagra o fen&ocirc;meno", referindo-se ao livro e &agrave; busca,    realizada por muitas pessoas, por um al&iacute;vio imediato para as frustra&ccedil;&otilde;es    do dia-a-dia.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Vivemos em uma    &eacute;poca em que o sentir ganha propor&ccedil;&otilde;es que beiram o insuport&aacute;vel.    Diante do sofrimento e das frustra&ccedil;&otilde;es oferecidas pela vida, a    sa&iacute;da mais plaus&iacute;vel parece ser recorrer ao uso de algum tipo    de psicof&aacute;rmaco. Qualquer coisa capaz de aplacar as paix&otilde;es, as    ansiedades e as tristezas da alma &eacute; bem vinda. E quanto menos tempo levar    para fazer efeito, melhor.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&Eacute; assim    que vemos configurar-se a sociedade atualmente: sem querer (ou seria poder?)    sentir, caracter&iacute;stica que, como veremos, n&atilde;o &eacute; exclusiva    da sociedade contempor&acirc;nea, embora o n&iacute;vel de busca - em termos    de representatividade social - por uma esp&eacute;cie de anestesiamento atingido    hoje &eacute;, com certeza, in&eacute;dito na hist&oacute;ria da civiliza&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Que fen&ocirc;meno    &eacute; esse que estamos observando ganhar propor&ccedil;&otilde;es cada vez    maiores em nosso contexto social? &Eacute; sobre ele que nos debru&ccedil;aremos    aqui, na tentativa de tra&ccedil;ar diretrizes no sentido de entender o que    perpassa a crescente procura pelo uso de medicamentos psicotr&oacute;picos,    verificada nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas nas sociedades ocidentais.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Os insensibilizadores    da exist&ecirc;ncia</b></font></p>     <blockquote>        <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">"Contra Rivotril      n&atilde;o h&aacute; vontade de morrer que aguente.</font></p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O mundo fica      quase bom.</font></p>       <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A vida fica quase      bela.</font></p>       <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Eu fico quase      feliz.</font></p>       <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Fico t&atilde;o      quase feliz que at&eacute; paro de chorar".</font></p>       <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">(Falc&atilde;o,      A. 2005, p. 48-49)</font></p> </blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ao longo da hist&oacute;ria    da civiliza&ccedil;&atilde;o, as subst&acirc;ncias psicoativas n&atilde;o foram    usadas somente no tratamento das afec&ccedil;&otilde;es mentais e como parte    essencial em muitos dos rituais xam&acirc;nicos. Oferecendo distintos significados    para as mais diversas situa&ccedil;&otilde;es, em diferentes momentos da hist&oacute;ria    humana, a procura por essas subst&acirc;ncias tamb&eacute;m parece acompanhar    de perto a busca do homem em tornar-se insens&iacute;vel aos infort&uacute;nios    que a vida oferece. Utilizar-se de recursos capazes de anestesiar os sentidos    n&atilde;o constitui uma atitude pr&oacute;pria e &uacute;nica do sujeito contempor&acirc;neo.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Freud (1930/1987),    em <b>O mal-estar na civiliza&ccedil;&atilde;o</b>, j&aacute; expunha que o    uso de subst&acirc;ncias intoxicantes era um dos recursos utilizados pelo homem    contra o sofrimento decorrente da vida.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ao retomar o desenvolvimento    do ego, o psicanalista mostra que, desde muito cedo n&oacute;s, humanos, entramos    em contato com o sofrimento que prov&eacute;m tanto do mundo externo quanto    do interior do nosso organismo. As sensa&ccedil;&otilde;es de sofrimento e desprazer    decorrentes de fontes externas e das quais procuramos fugir, de modo a seguir    o princ&iacute;pio do prazer, auxiliam no reconhecimento de um mundo exterior,    de um n&atilde;o-eu. Tendemos a afastar do ego tudo o que pode vir a ser fonte    de desprazer e a lan&ccedil;&aacute;-lo para fora a fim de criar "um puro ego    em busca de prazer, que sofre o confronto de um 'exterior' estranho e amea&ccedil;ador"    (Freud, S. 1930/1987, p. 76).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Segundo Freud (ibidem,    p. 76), "as fronteiras desse primitivo ego em busca de prazer n&atilde;o podem    fugir a uma retifica&ccedil;&atilde;o atrav&eacute;s da experi&ecirc;ncia".    Com o passar do tempo, vamos percebendo que a tentativa de esquivarmo-nos de    muitas sensa&ccedil;&otilde;es desprazerosas s&atilde;o realizadas em v&atilde;o,    uma vez que essas adv&ecirc;m de fontes internas. Aprendemos, ent&atilde;o,    a diferenciar o que &eacute; interno, que pertence ao ego, daquilo que &eacute;    externo, ou seja, que n&atilde;o faz parte do ego e incide do mundo externo<a name="top2"></a><a href="#back2"><sup>2</sup></a>.    &Eacute; essa diferencia&ccedil;&atilde;o que ir&aacute; capacitar-nos para    a defesa contra as sensa&ccedil;&otilde;es desprazerosas que sentimos ou pelas    quais somos amea&ccedil;ados e que constituem o primeiro passo na dire&ccedil;&atilde;o    do reconhecimento do princ&iacute;pio de realidade, que deve predominar no desenvolvimento    futuro. O princ&iacute;pio de realidade passa a se apresentar como o princ&iacute;pio    regulador da vida mental. A satisfa&ccedil;&atilde;o, exigida pelo princ&iacute;pio    do prazer, &eacute; muitas vezes adiada e/ou desviada em fun&ccedil;&atilde;o    das condi&ccedil;&otilde;es impostas pelo mundo exterior.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O mundo externo,    que inclui tamb&eacute;m os relacionamentos estabelecidos por n&oacute;s com    os outros indiv&iacute;duos, juntamente com as demais fontes externas e o nosso    pr&oacute;prio corpo constituem as fontes de sofrimento apresentadas por Freud    no texto de 1930. Segundo o m&eacute;dico vienense, o homem busca ser feliz    e assim permanecer. Para tanto, procura obter intensos sentimentos de prazer    e visa a uma aus&ecirc;ncia de sofrimento e de desprazer, prop&oacute;sito que    barra nas fontes de sofrimento e de desprazer decorrentes do ato de viver.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A vida como se    apresenta &eacute; &aacute;rdua demais e, a fim de suport&aacute;-la, precisamos    recorrer &agrave;quilo que Freud chamou de "medidas paliativas". Existiriam    "tr&ecirc;s medidas desse tipo: derivativos poderosos, que nos fazem extrair    luz de nossa desgra&ccedil;a &#91;como a ci&ecirc;ncia, por exemplo&#93;; satisfa&ccedil;&otilde;es    substitutivas, que a diminuem &#91;como a arte&#93;; e subst&acirc;ncias t&oacute;xicas,    que nos tornam <b>insens&iacute;veis</b><a name="top3"></a><a href="#back3"><sup>3</sup></a>    a ela" (Freud, S. 1930/1987, p. 83).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Contra o sofrimento    que prov&eacute;m dos relacionamentos com os outros indiv&iacute;duos, a solu&ccedil;&atilde;o    mais eficaz seria o "isolamento volunt&aacute;rio"; para protegermo-nos do sofrimento    oriundo do mundo externo poder&iacute;amos, ou afastarmo-nos dele, ou integrarmo-nos    &agrave; "comunidade humana" e, juntamente com a ajuda da ci&ecirc;ncia, sujeitar    a natureza &agrave; nossa vontade. Freud ressalta, no entanto, que os meios    mais interessantes de evitar o sofrimento s&atilde;o aqueles que procuram influenciar    o nosso pr&oacute;prio organismo.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O sofrimento, diz    Freud, nada mais &eacute; do que sensa&ccedil;&atilde;o. Como tal, o sofrimento    s&oacute; existe na medida em que o sentimos e o sentimos de acordo com o modo    como o nosso organismo est&aacute; regulado. Para o psicanalista, um dos m&eacute;todos    mais eficazes de influenciar o organismo &eacute; o qu&iacute;mico, a intoxica&ccedil;&atilde;o,    uma vez que esta nos torna incapazes de receber impulsos desagrad&aacute;veis,    al&eacute;m de provocar sensa&ccedil;&otilde;es prazerosas.</font></p>     <blockquote>        <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">"O servi&ccedil;o      prestado pelos ve&iacute;culos intoxicantes na luta pela felicidade e no afastamento      da desgra&ccedil;a &eacute; t&atilde;o altamente apreciado como beneficio,      que tanto indiv&iacute;duos quanto povos lhes concederam um lugar permanente      na economia de sua libido. Devemos a tais ve&iacute;culos n&atilde;o s&oacute;      a produ&ccedil;&atilde;o imediata de prazer, mas tamb&eacute;m um grau altamente      desejado de independ&ecirc;ncia do mundo externo, pois sabe-se que, com o      aux&iacute;lio desse 'amortecedor de preocupa&ccedil;&otilde;es', &eacute;      poss&iacute;vel, em qualquer ocasi&atilde;o, afastar-se da press&atilde;o      da realidade e encontrar ref&uacute;gio num mundo pr&oacute;prio, com melhores      condi&ccedil;&otilde;es de sensibilidade" (Freud, S. 1930/1987, p. 86).</font></p> </blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Recorrer ao uso    de subst&acirc;ncias entorpecentes tamb&eacute;m constitui um modo de evitar    o contato direto com a realidade do mundo exterior. Esta n&atilde;o deixa de    ser uma medida basicamente autodependente. O sujeito, apenas com o recurso a    uma subst&acirc;ncia intoxicante, afasta de si os infort&uacute;nios que prov&ecirc;m    tanto do pr&oacute;prio organismo, como do mundo externo, tornando-se, assim,    imune &agrave;quilo que pode causar-lhe sofrimento.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Entre as subst&acirc;ncias    intoxicantes das quais falou Freud, em 1930, n&atilde;o constavam os medicamentos    psicotr&oacute;picos. Sabemos que o primeiro psicotr&oacute;pico, a <b>Clorpromazina</b>,    foi sintetizado na d&eacute;cada de 1950, vinte anos ap&oacute;s Freud ter escrito    <b>O mal-estar na civiliza&ccedil;&atilde;o</b>. Contudo, parece n&atilde;o    haver d&uacute;vidas de que os psicof&aacute;rmacos atuam como os principais    <b>amortecedores de preocupa&ccedil;&atilde;o</b> de nossa &eacute;poca.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Nesse contexto,    um aspecto das diferen&ccedil;as existentes entre a sociedade moderna da primeira    metade do s&eacute;culo XX e a sociedade p&oacute;s-moderna do in&iacute;cio    do s&eacute;culo XXI n&atilde;o passa despercebido: em 1930, n&atilde;o se via    essa busca desenfreada, como a verificada atualmente, por recursos entorpecentes.    Poder-se-ia argumentar que o fato de os psicotr&oacute;picos serem drogas legalizadas    fez com que muitos sujeitos se autorizassem a fazer uso desse tipo de subst&acirc;ncia.    No entanto, a legaliza&ccedil;&atilde;o n&atilde;o parece justificar por completo    o que hoje se v&ecirc; como uma esp&eacute;cie de entorpecimento social. Muitos    adeptos dos antidepressivos e benzodiazep&iacute;nicos conseguem os medicamentos    atrav&eacute;s da <i>Internet</i>, ilegalmente. O que nos leva a pensar que,    no mundo p&oacute;s-moderno, algo mais se produziu.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Uma mudan&ccedil;a    de paradigma?</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>        <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">"(...) pensar      em uma coisa e escrever outra tamb&eacute;m deve ser contrapartida da bipolaridade,      essa doen&ccedil;a da moda que adquiri em festas e vernissages euf&oacute;ricas,      onde todos se confessam vol&aacute;teis, vol&uacute;veis, &agrave; espera      da depress&atilde;o do dia seguinte..." (Pess&ocirc;a, I. 2005, p. 96-97)</font></p> </blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Um observador mais    atento &eacute; capaz de perceber que a apatia e o des&acirc;nimo, caracter&iacute;stico    daquilo que se convencionou chamar "depress&atilde;o", transformaram-se em sintomas    t&iacute;picos da sociedade contempor&acirc;nea. As psicopatologias se constituem,    atualmente, por um vazio inomin&aacute;vel, pela marca da falta de sentido.    Como afirma Roudinesco (2000), vivemos hoje na era da "sociedade depressiva".</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Segundo a psicanalista    e historiadora, as sociedades democr&aacute;ticas, em nome da globaliza&ccedil;&atilde;o,    t&ecirc;m buscado abolir a ideia de conflito social, querendo banir de seus    horizontes a realidade do infort&uacute;nio, da morte e da viol&ecirc;ncia,    ao mesmo tempo em que procuram integrar, num sistema &uacute;nico, as diferen&ccedil;as    e as resist&ecirc;ncias. Em decorr&ecirc;ncia disso, pregam o culto &agrave;    paz e &agrave; evita&ccedil;&atilde;o do conflito.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Diante dessa realidade,    em que estrat&eacute;gias de normaliza&ccedil;&atilde;o prevalecem frente ao    conflito, presenciamos uma mudan&ccedil;a de paradigma: do paradigma da neurose    passamos ao paradigma da depress&atilde;o (Roudinesco, E. 2000; Ehrenberg, A.    2004). N&atilde;o que a neurose tenha deixado de existir, apenas passou a ser    vivenciada e tratada, na sociedade contempor&acirc;nea, como depress&atilde;o.    Depress&atilde;o essa que &eacute; entendida aqui, tal como define Roudinesco    (ibidem, p. 19), como "uma entidade nova, que remete a um 'estado' pensado em    termos de 'fadiga', 'd&eacute;ficit' ou 'enfraquecimento da personalidade'"    e que pode estar presente em qualquer estrutura cl&iacute;nica.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Do ponto de vista    sociol&oacute;gico, segundo Ehrenberg (ibidem), a expans&atilde;o do paradigma    da depress&atilde;o est&aacute; associada a uma transforma&ccedil;&atilde;o    de ampla magnitude da normatividade social, qual seja, a passagem de uma sociedade    que se refere &agrave; disciplina - interdi&ccedil;&atilde;o, obedi&ecirc;ncia,    autoridade etc. - para uma sociedade que se encontra sob o primado da autonomia,    esta entendida como decis&atilde;o e a&ccedil;&otilde;es pessoais.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O autor considera    que as palavras "disciplina", por um lado, e "autonomia", por outro, s&atilde;o    as palavras-chave desta evolu&ccedil;&atilde;o social. A disciplina, contudo,    n&atilde;o desapareceu, mas est&aacute; presente na autonomia que, hoje, prevalece,    em termos de valores, sobre ela. Ehrenberg (ibidem, p. 147) defende que na "passagem    da neurose para a depress&atilde;o, se passa de uma patologia do conflito -    que coloca em cena o desejo -, para uma patologia da insufici&ecirc;ncia - que    coloca em jogo a quest&atilde;o da a&ccedil;&atilde;o". Na sociedade contempor&acirc;nea,    vemos emergir, ent&atilde;o, um conflito narc&iacute;sico que vem substituir    um conflito de autoridade, de interdito, de disciplina<a name="top4"></a><a href="#back4"><sup>4</sup></a>.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A fim de entendermos    o que caracteriza essa mudan&ccedil;a de paradigma, &eacute; preciso considerar    a ideia de sujeito moderno, notadamente representado pela teoria freudiana,    e a ideia de sujeito contempor&acirc;neo, retratada por autores de nossa &eacute;poca.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Freud, ao propor    sua teoria sobre a neurose, em meados do s&eacute;culo XX, baseou-se na ideia    de um sujeito do inconsciente, um sujeito desejante, atormentado por suas puls&otilde;es    e que, sendo capaz de internalizar proibi&ccedil;&otilde;es, tem seu psiquismo    baseado no conflito ps&iacute;quico. &Eacute; esse sujeito, agente de seu conflito,    que vemos ofuscar-se atualmente. Isto n&atilde;o significa dizer que o homem    moderno n&atilde;o lan&ccedil;ava m&atilde;o de artimanhas para dar conta de    sua conflitiva constituinte. O que buscamos aqui &eacute; problematizar as vicissitudes    apresentadas por essa "nova" forma de (n&atilde;o) viver essa tens&atilde;o,    visualizada hoje. Na busca incessante por um estado primitivo de completude    e na fuga de seu desamparo, &eacute; comum que o homem contempor&acirc;neo recorra    ao uso de medicamentos psicotr&oacute;picos.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Nesse sentido,    os psicof&aacute;rmacos acabaram por assumir, na sociedade contempor&acirc;nea,    um papel de destaque. Atuam aplacando qualquer ind&iacute;cio de conflito, qualquer    coisa capaz de evidenciar o que &eacute; mais pr&oacute;prio do humano. Em um    contexto que apregoa a aus&ecirc;ncia de lit&iacute;gio, os psicotr&oacute;picos    apareceram como os curingas do jogo social.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Frequentemente,    o sujeito que ainda procura deparar-se com o seu vazio constituinte acaba por    barrar no endere&ccedil;amento que a psiquiatria lhe faz. Como afirma Jerusalinsky    (2001, p. 33), o sujeito "agarrado aos vest&iacute;gios de sua sensatez, tentando    se manter no &acirc;mbito da linguagem, escuta a psiquiatria lhe dizer que o    que determina as significa&ccedil;&otilde;es de sua vida &eacute; o que nele    n&atilde;o fala". O indiv&iacute;duo, hoje, &eacute; comumente visto pela psiquiatria    como algu&eacute;m que n&atilde;o sabe sobre o seu sofrimento. Todo o saber    est&aacute; depositado no entendimento biol&oacute;gico, al&eacute;m do sujeito,    que afirma que qualquer sofrimento pode ser explicado em fun&ccedil;&atilde;o    de um dist&uacute;rbio gen&eacute;tico e/ou fisiol&oacute;gico.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">N&atilde;o &eacute;    sem raz&atilde;o que a neurobiologia e a psicofarmacologia ganham um espa&ccedil;o    cada vez mais abrangente na sociedade atual. Atenuando aquilo que mais poderia    caracteriz&aacute;-lo enquanto ser &uacute;nico e singular - o sujeito de seu    inconsciente -, o homem p&oacute;s-moderno v&ecirc;-se em meio a um discurso    que procura homogeneiz&aacute;-lo e tratar de seus sintomas de forma universal,    sem que suas poss&iacute;veis significa&ccedil;&otilde;es sejam buscadas.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Leal (2005), ao    falar sobre essa quest&atilde;o, exp&otilde;e que a medica&ccedil;&atilde;o    atua em aspectos gerais dos sintomas, deixando em aberto seus aspectos mais    sutis e particulares. A elimina&ccedil;&atilde;o farmacol&oacute;gica das formas    de mal-estar, al&eacute;m de produzir o apagamento dos recursos de que dispomos    para dar sentido &agrave; vida (Kehl, M.R. 2003), n&atilde;o permite o acesso    &agrave;s origens dos sintomas, nem ao compromisso do sujeito implicado, que    deve e responde, ou seja, que &eacute; respons&aacute;vel por esses sintomas    (Hassan, S.E. 2005).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ao entender que    tudo aquilo que &eacute; capaz de gerar um m&iacute;nimo de desconforto e mal-estar    pode ser explicado atrav&eacute;s dos n&iacute;veis de determinados neurotransmissores    e pass&iacute;vel de ser medicado, o discurso psicofarmacol&oacute;gico coloca    a quest&atilde;o dos medicamentos em uma posi&ccedil;&atilde;o central e preocupante    em nossa sociedade. Como afirma Jerusalinsky (2001),</font></p>     <blockquote>        <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">"o problema,      certamente, n&atilde;o reside na medica&ccedil;&atilde;o - que costuma ser      eficaz, em propor&ccedil;&atilde;o significativa, na redu&ccedil;&atilde;o      dos transtornos do humor e na modera&ccedil;&atilde;o das precipita&ccedil;&otilde;es      afetivas -, mas na posi&ccedil;&atilde;o em que esta costuma ser colocada      - como operador fundamental - acima e oposta &agrave; condi&ccedil;&atilde;o      de sujeito do paciente. O problema &eacute; em que medida o vidro de comprimidos      &eacute; usado como apagador do valor etiopatog&ecirc;nico da palavra" (p.      34).</font></p> </blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Diante do discurso    de ordem mais biol&oacute;gica, que comp&otilde;e o esp&iacute;rito de nosso    tempo, o <b>sujeito</b> pode ser considerado como estando <b>assujeitado</b>,    no sentido de submisso a esse discurso particular que n&atilde;o permite a suposi&ccedil;&atilde;o    de nenhum saber que seja efetivo sobre o sintoma, por parte do sujeito. Todo    o conhecimento passa a ser visto como externo ao sujeito, a sua hist&oacute;ria,    aos seus projetos, as suas demandas e ambi&ccedil;&otilde;es. "&Eacute; de seus    neurotransmissores, receptores e sinapses que a ang&uacute;stia fala e &eacute;    para seus neurotransmissores, receptores e sinapses que a terap&ecirc;utica    dirige-se" (Nogueira Filho, D. M. (2005), p. 100).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Filho recorre &agrave;s    ideias de Dubos (1996, citado por Filho, D. 2005) para falar que raramente reconhecemos    que cada tipo de sociedade tem enfermidades particulares, que cada civiliza&ccedil;&atilde;o    cria suas enfermidades, assim como tamb&eacute;m sacramenta uma pr&aacute;tica    terap&ecirc;utica. Em uma &eacute;poca em que presenciamos uma esp&eacute;cie    de "epidemia" dos quadros ditos depressivos, que vem acompanhada pelo consumo    exorbitante de medicamentos psicotr&oacute;picos, o autor fala que a pr&aacute;tica    contempor&acirc;nea estendeu ao terreno an&iacute;mico a cren&ccedil;a de que    a doen&ccedil;a, o sofrer e a terap&ecirc;utica n&atilde;o requerem e n&atilde;o    se referem ao sujeito. Dessa maneira, diz ele, "medicar &eacute; o que h&aacute;    hoje" (p. 100).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A psicofarmacologia,    desse modo, acabou por encerrar o sujeito em uma nova aliena&ccedil;&atilde;o    ao pretender cur&aacute;-lo da pr&oacute;pria ess&ecirc;ncia da condi&ccedil;&atilde;o    humana. &Eacute; assim que vemos a era da individualidade substituir a da subjetividade,    "dando a si mesmo a ilus&atilde;o de uma liberdade irrestrita, de uma independ&ecirc;ncia    sem desejo e de uma historicidade sem hist&oacute;ria, o homem de hoje transformou-se    no contr&aacute;rio de um sujeito" (Roudinesco, E. 2000, p. 14). Ap&aacute;tico,    desanimado e incapaz de sentir, vivendo em um mundo onde "tudo &eacute; poss&iacute;vel"    e onde acredita ser livre, o homem contempor&acirc;neo vive anestesiado pelo    uso de psicotr&oacute;picos, mitigando cada vez mais o seu desejo.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Em meio &agrave;    sociedade depressiva, presenciamos uma "calmaria violenta" que, por vezes, pode    ser mais terr&iacute;vel que a travessia de tempestades (Roudinesco, E. ibidem).    Calmaria essa que, como bem assinala Hassan (2005, p. 49), "n&atilde;o &eacute;    tranquilidade alguma. &Eacute; apenas anestesia, mais precisamente, o adormecimento    do pensamento frente &agrave; ang&uacute;stia (&agrave; luz da psican&aacute;lise,    o desejo)". Ao evitar sofrer e angustiar-se o homem evita tamb&eacute;m a possibilidade    de conhecer o que h&aacute; de mais singular em si: o sujeito que nele habita.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>O anti-sujeito<a name="top5"></a><a href="#back5"><sup>5</sup></a></b></font></p>     <blockquote>        <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">"(...) e voc&ecirc;      lava a boca, o rosto e os cabelos, e se olha no espelho, e pode se considerar      um sujeito definitivamente alterado, para o resto dos seus dias, assim como      me considero, quimicamente alterada para sempre..." (Pess&ocirc;a, I. 2005,      p. 89-90).</font></p> </blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ao chamar o sujeito    contempor&acirc;neo de antissujeito &eacute; preciso que esclare&ccedil;amos    o que o diferencia daquele sujeito moderno, longamente retratado na obra freudiana    e que, at&eacute; a bem pouco tempo, predominava no entendimento da constitui&ccedil;&atilde;o    subjetiva. Al&eacute;m disso, &eacute; necess&aacute;rio explicitarmos os motivos    que nos levaram a considerarmo-lo o "contr&aacute;rio" de um sujeito.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O sujeito freudiano,    ou seja, o sujeito moderno, &eacute; um sujeito perturbado que est&aacute; em    constante conflito com a realidade exterior. Em <b>O mal-estar na civiliza&ccedil;&atilde;o</b>,    Freud (1930/1987) deixa claro que o que caracterizava o mal-estar, ou o desconforto    moderno, era o conflito existente entre o sujeito e a civiliza&ccedil;&atilde;o.    Esta &uacute;ltima impunha ao primeiro que renunciasse a sua satisfa&ccedil;&atilde;o    pulsional, o que implicava ao sujeito ter sua liberdade restrita pela ordem    social. Nas palavras de Freud (ibidem, p. 119), "o homem civilizado trocou uma    parcela de suas possibilidades de felicidade por uma parcela de seguran&ccedil;a".    Em nome da vida em comunidade, o sujeito moderno sujeitou-se &agrave;s restri&ccedil;&otilde;es    impostas a sua sexualidade e a sua agressividade, uma vez que "a civiliza&ccedil;&atilde;o    &eacute; constru&iacute;da sobre uma ren&uacute;ncia ao instinto" (ibidem, p.    104), pressupondo a n&atilde;o satisfa&ccedil;&atilde;o - atrav&eacute;s de    opress&atilde;o, repress&atilde;o, entre outros meios - de impulsos instintuais    poderosos.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Em uma &eacute;poca    em que a fam&iacute;lia era a "c&eacute;lula germinal da civiliza&ccedil;&atilde;o",    a "frustra&ccedil;&atilde;o cultural" dominava o campo dos relacionamentos sociais.    A agressividade, que originalmente era dirigida ao mundo externo frustrador,    acabava por ser introjetada, dirigida ao pr&oacute;prio ego, dando origem ao    superego que, em suas tens&otilde;es com o ego, levava ao sentimento de culpa    t&atilde;o caracter&iacute;stico do sujeito moderno. Em vista disso, segundo    Freud (ibidem, p. 172), "a civiliza&ccedil;&atilde;o, portanto, consegue dominar    o perigoso desejo de agress&atilde;o do indiv&iacute;duo, enfraquecendo-o e    estabelecendo no seu interior um agente para cuidar dele".</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&Eacute; justamente    esse conflito entre impulsos instintuais e imposi&ccedil;&otilde;es culturais    o gerador do mal-estar do sujeito moderno apresentado por Freud. De forma caracteriol&oacute;gica,    as exig&ecirc;ncias supereg&oacute;icas do indiv&iacute;duo moderno eram imperativas    e ofereciam pouca mobilidade &agrave; satisfa&ccedil;&atilde;o pulsional interditada.    Esta an&aacute;lise &eacute; poss&iacute;vel na medida em que, como diz Freud,    o superego de uma &eacute;poca de civiliza&ccedil;&atilde;o tem origem similar    a do superego de um indiv&iacute;duo.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Diante do que postula    o autor, podemos pensar sobre a forma como a constitui&ccedil;&atilde;o das    exig&ecirc;ncias supereg&oacute;icas est&atilde;o se dando na atualidade. Ser&aacute;    que o "superego contempor&acirc;neo" &eacute; t&atilde;o interditor quanto o    era o "superego moderno"?</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Riedel (2006),    um dos autores que se debru&ccedil;a sobre tais quest&otilde;es, afirma que    houve o estabelecimento de uma nova ordem social na cultura ocidental, a do    paradigma do gozo<a name="top6"></a><a href="#back6"><sup>6</sup></a>, que produziu    radicais mudan&ccedil;as na subjetividade contempor&acirc;nea. Segundo o autor,    hoje, contrariamente &agrave; &eacute;poca em que se buscavam solu&ccedil;&otilde;es    para os conflitos dos desejos - o campo das neuroses -, nos deparamos no meio    social e, consequentemente, na atividade cl&iacute;nica, com um n&uacute;mero    cada vez maior de sujeitos envolvidos em busca do gozo pleno, dispostos a manter,    a altos custos, o reinado das puls&otilde;es.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O que vemos hoje    demonstra contrapor, em certa medida, a concep&ccedil;&atilde;o de sujeito,    como sujeito barrado e desejante, que dominou o cen&aacute;rio do entendimento    da constitui&ccedil;&atilde;o subjetiva moderna. Riedel (ibidem) vai nessa dire&ccedil;&atilde;o    quando afirma que para o homem moderno - o freudiano, do in&iacute;cio do s&eacute;culo    XX - o gozo se constituiria como exce&ccedil;&atilde;o, estando fora da possibilidade    humana e sendo acess&iacute;vel aos sujeitos apenas atrav&eacute;s da via da    fantasia. Seria assim que o sujeito escolheria o sacrif&iacute;cio do gozo em    prol da vida e da civiliza&ccedil;&atilde;o e nesse exato ponto a fantasia surgiria    como alternativa poss&iacute;vel.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Freud fala sobre    o fantasiar em <b>Formula&ccedil;&otilde;es sobre os dois princ&iacute;pios    do acontecer ps&iacute;quico</b>, texto de 1911. Segundo ele, a instaura&ccedil;&atilde;o    do princ&iacute;pio de realidade imp&otilde;e ao aparelho ps&iacute;quico importantes    consequ&ecirc;ncias. Ao contr&aacute;rio do que ocorre quando h&aacute; apenas    a domin&acirc;ncia do princ&iacute;pio do prazer - quando a satisfa&ccedil;&atilde;o    se d&aacute; de forma alucinat&oacute;ria -, com o advento do princ&iacute;pio    de realidade o aparelho ps&iacute;quico, em vez de alucinar, tem que se decidir    por conceber as circunst&acirc;ncias presentes no mundo externo e passa a almejar    uma modifica&ccedil;&atilde;o real deste. Em decorr&ecirc;ncia disso, desenvolve    uma s&eacute;rie de fun&ccedil;&otilde;es como a consci&ecirc;ncia, a aten&ccedil;&atilde;o,    a mem&oacute;ria, o pensar, entre outras.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Entretanto, mesmo    com o estabelecimento do princ&iacute;pio de realidade, "um determinado tipo    de atividade do pensar foi apartado do teste de realidade, permaneceu livre    deste e ficou submetido apenas ao princ&iacute;pio do prazer. &Eacute; ele o    fantasiar" (Freud, S. 1911/2004, p. 67). A fantasia &eacute; real nos processos    mentais inconscientes, ou seja, equivale &agrave; realidade exterior, e o mero    desejar j&aacute; se equipara &agrave; realiza&ccedil;&atilde;o do desejo. Segundo    Freud, no reino da fantasia, o recalque permanece onipotente, sendo capaz de    inibir representa&ccedil;&otilde;es em <i>statu nascendi</i>, caso a carga nela    investida seja capaz de dar margem a libera&ccedil;&otilde;es de desprazer.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O fantasiar surge,    ent&atilde;o, como resposta &agrave; frustra&ccedil;&atilde;o imposta pelo princ&iacute;pio    de realidade &agrave; realiza&ccedil;&atilde;o do desejo inconsciente. Diante    da impossibilidade de seguir o princ&iacute;pio do prazer, em vista do que &eacute;    imposto pela realidade exterior e pelas necessidades internas do organismo,    o sujeito &eacute; capaz de fantasiar a realiza&ccedil;&atilde;o de seu desejo.    Como mesmo a fantasia apresenta-se de forma contradit&oacute;ria ao princ&iacute;pio    de realidade, uma vez que tem valor de verdade nos processos mentais inconscientes,    ela &eacute; capaz de gerar desprazer e, por isso, acaba por sofrer os efeitos    do recalque. Fica evidente, dessa forma, que o modelo da neurose, ou do paradigma    da neurose, &eacute; um modelo que tem no recalque o seu ponto fundamental.    Diferentemente do que vemos hoje, &eacute;poca em que</font></p>     <blockquote>        <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">"o recalque da      fantasia, como foi considerado no modelo cl&aacute;ssico da teoria psicanal&iacute;tica,      muda de figura, e a partir desse novo paradigma &#91;o do gozo&#93; vemos      que essa fantasia passa a dispensar o recalque e se colocar &agrave;s claras,      falada, preferencialmente exibida de forma espetacular, como pura express&atilde;o      de gozo, e sem o peso limitador da transgress&atilde;o. Lembremos de como      a frase '&eacute; proibido proibir' tornou-se t&atilde;o popular como express&atilde;o      de um novo posicionamento &eacute;tico em nossa sociedade" (Riedel, N. 2006).</font></p> </blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Cada vez mais os    sujeitos contempor&acirc;neos, por seus tra&ccedil;os constitutivos, n&atilde;o    pretendem sacrificar o gozo em prol de finalidades mais elevadas. Contrariamente    ao que estabeleceu Freud, em <b>O mal-estar na civiliza&ccedil;&atilde;o</b>,    h&aacute; hoje um predom&iacute;nio, na cultura, da puls&atilde;o sobre a civiliza&ccedil;&atilde;o.    O que est&aacute; em destaque e que constitui o paradigma do gozo &eacute; que    os sujeitos contempor&acirc;neos constituem-se, em n&uacute;mero crescente,    pelo imperativo do gozo, "n&atilde;o mais se tornando desejantes a partir de    uma falta como queria Freud, e mesmo Lacan em suas postula&ccedil;&otilde;es    anteriores ao Semin&aacute;rio 20. Estes sujeitos contempor&acirc;neos apenas    buscam gozar" (Riedel, N. 2006, O corpo &eacute; quem goza, para. 1).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Como sabemos, &eacute;    a frustra&ccedil;&atilde;o &agrave; satisfa&ccedil;&atilde;o pulsional que vai    fazer com que o aparelho ps&iacute;quico deixe de responder apenas ao princ&iacute;pio    do prazer - almejando gozar - e passe a considerar o princ&iacute;pio de realidade    - passando a desejar. Para que o sujeito deseje &eacute; necess&aacute;rio que    a satisfa&ccedil;&atilde;o irrestrita &agrave;s puls&otilde;es seja interditada;    &eacute; preciso que ele seja castrado. Nesse processo, o pai, ao representar    o Outro da linguagem, desempenha um papel fundamental. Riedel (2006) denuncia    que o que ocorre nos dias atuais &eacute; que "o Outro como sistema de valores    que alimentava o supereu freudiano fez com que o imperativo das interdi&ccedil;&otilde;es    se transformasse, no contempor&acirc;neo, em imperativo de gozo. Este novo supereu    ordena: goza!" (O corpo &eacute; quem goza, para. 6).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Em uma sociedade    que cultiva o discurso de que tudo &eacute; permitido, que defende a individualidade    e a liberdade, e n&atilde;o imp&otilde;e limites ao gozo, a dimens&atilde;o    da falta permanece esquecida. E o homem contempor&acirc;neo parece fazer de    tudo para mant&ecirc;-la assim, para permanecer distante da frustra&ccedil;&atilde;o    e de tudo que o remeta ao fato de ser castrado, de ser faltante. Deparar-se    com o seu vazio constituinte aparece como algo n&atilde;o mais toler&aacute;vel.    Nessa configura&ccedil;&atilde;o social, os medicamentos psicotr&oacute;picos,    que hoje fazem grande sucesso nas sociedades ocidentais, demonstram estar a    favor desse movimento de mitiga&ccedil;&atilde;o do sujeito do inconsciente.    Para n&atilde;o se haver com o seu pr&oacute;prio desejo vale tudo, inclusive    insensibilizar-se com o uso de um psicof&aacute;rmaco.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&Eacute; por essa    caracter&iacute;stica do sujeito contempor&acirc;neo - como aquele que foge,    que evita deparar-se com o seu desejo, e que, para tanto, frequentemente recorre    &agrave; utiliza&ccedil;&atilde;o de medicamentos psicotr&oacute;picos - que    convencionamos cham&aacute;-lo de <b>antissujeito</b>.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Nas sociedades    ocidentais p&oacute;s-modernas, a cren&ccedil;a de que &eacute; poss&iacute;vel    curar o sujeito de seu pr&oacute;prio desejo j&aacute; se reflete em um fen&ocirc;meno    social. Essa cren&ccedil;a est&aacute; vinculada &agrave; confian&ccedil;a do    sujeito contempor&acirc;neo de que tudo &eacute; pass&iacute;vel de ser alcan&ccedil;ado    e, juntamente com o crescimento do individualismo, com os excessos da tecnologia,    com o aumento da viol&ecirc;ncia, ao mesmo tempo em que h&aacute; a evita&ccedil;&atilde;o    da conflitualidade, caracteriza os dias atuais. Lebrun (2004) v&ecirc; essas    caracter&iacute;sticas contempor&acirc;neas como estando correlacionadas a um    fio comum: a evolu&ccedil;&atilde;o da fam&iacute;lia e suas consequ&ecirc;ncias    no destino da figura paterna.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>A fun&ccedil;&atilde;o    paterna no mundo p&oacute;s-moderno</b></font></p>     <blockquote>        <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">"Foi realmente      impressionante o que aconteceu. A partir do momento em que o estimulante come&ccedil;ou      a provocar seus efeitos ben&eacute;ficos e desmobilizantes, o nosso amigo      Pedro, mestre de ioga, atingiu o nirvana" (Mautner, J. 2005, p. 149).</font></p> </blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">No in&iacute;cio    de sua vida, o beb&ecirc; estabelece com aquele que o cuida - quem exerce a    "fun&ccedil;&atilde;o materna", a maternagem - uma rela&ccedil;&atilde;o simbi&oacute;tica,    fusional. Rela&ccedil;&atilde;o essa absolutamente necess&aacute;ria, uma vez    que sem os cuidados de um outro, o beb&ecirc;, em fun&ccedil;&atilde;o de seu    desamparo inicial decorrente de sua fragilidade constitutiva, &eacute; levado    &agrave; morte.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Nesse primeiro    momento, n&atilde;o h&aacute; uma diferencia&ccedil;&atilde;o entre o beb&ecirc;    e a m&atilde;e. Eles s&atilde;o um s&oacute;: m&atilde;e-beb&ecirc;, de maneira    indissociada. A magnitude dessa fun&ccedil;&atilde;o materna, que &eacute; imprescind&iacute;vel,    engloba toda a exist&ecirc;ncia do beb&ecirc; em seus primeiros meses de vida.    Em virtude disso, esse outro indispens&aacute;vel foi concebido por Lacan como    a primeira encarna&ccedil;&atilde;o imagin&aacute;ria do Outro, o grande Outro,    na vida subjetiva da crian&ccedil;a, uma vez que, neste momento, a m&atilde;e    (Outro) &eacute; tudo e sem ela n&atilde;o se &eacute; nada.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A crian&ccedil;a,    nessa rela&ccedil;&atilde;o de depend&ecirc;ncia com a m&atilde;e, ainda n&atilde;o    existe enquanto um sujeito. Para que isso ocorra, para que ela ascenda como    um ser singular, separado da m&atilde;e, &eacute; necess&aacute;rio que um corte    se interponha &agrave; rela&ccedil;&atilde;o simbi&oacute;tica existente entre    ambas. Esse corte, dif&iacute;cil de ser operado, &eacute; realizado por um    terceiro que p&otilde;e fim &agrave; fus&atilde;o inicial, interditando a m&atilde;e    da crian&ccedil;a. "&Eacute; a&iacute; que o pai se liga &agrave; lei primordial    da proibi&ccedil;&atilde;o do incesto" (Lacan, J. 1958/1999, p. 174).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O pai, entendido    como aquele que exerce a fun&ccedil;&atilde;o paterna, instaura a dimens&atilde;o    da alteridade, da exist&ecirc;ncia de um outro, que n&atilde;o a m&atilde;e,    para o infante. Para que o pai tenha lugar na rela&ccedil;&atilde;o m&atilde;e-beb&ecirc;,    &eacute; necess&aacute;rio que a m&atilde;e realize antes um movimento capaz    de permitir que isso ocorra. Lebrun (2004), entretanto, chama a nossa aten&ccedil;&atilde;o    para o fato de que esse movimento da m&atilde;e n&atilde;o &eacute; suficiente    para garantir que o pai ocupe seu lugar como pai simb&oacute;lico. Segundo ele,    &eacute; preciso que essa fun&ccedil;&atilde;o do pai seja ratificada pelo social,    sendo necess&aacute;rio um "lugar para o pai", isto &eacute;, &eacute; preciso    que o social homologue o que &eacute; sustentado no seio do recinto privado.    Uma s&eacute;rie de caracter&iacute;sticas contempor&acirc;neas - como o processo    de dessimboliza&ccedil;&atilde;o e o desaparecimento de ritos e pap&eacute;is    -, contudo, atestam um decl&iacute;nio da fun&ccedil;&atilde;o paterna n&atilde;o    s&oacute; no &acirc;mago da fam&iacute;lia como no &acirc;mbito social, o que    paralelamente abre o caminho para uma invas&atilde;o da figura materna<a name="top7"></a><a href="#back7"><sup>7</sup></a>.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Conforme afirma    Lebrun (ibidem), a fam&iacute;lia nunca foi somente privada, estando, sempre,    estreitamente articulada com o social. O papel do pai, a alguns s&eacute;culos,    era o de representar a autoridade, an&aacute;loga a que estava no topo da pir&acirc;mide    social, e encarnar a figura pela qual transmitia a legitimidade na continuidade    temporal. Entretanto, foi a partir dos s&eacute;culos XVIII e XIX, que a fam&iacute;lia    passou a apresentar-se de uma forma destacada da articula&ccedil;&atilde;o que,    at&eacute; ent&atilde;o, mantinha com o social. A fam&iacute;lia acabou por    fechar-se em si mesma, deixando de ser institucionalizada e passando a ser regida    por um pacto privado. O decl&iacute;nio do poder paterno teve por "efeito transformar    a fam&iacute;lia em uma fortaleza afetiva restrita a interesses privados" (Roudinesco,    E. 2003, p. 106). Em decorr&ecirc;ncia dessas modifica&ccedil;&otilde;es, o    que vemos atualmente &eacute; uma fam&iacute;lia que resolve seus conflitos    atrav&eacute;s de negocia&ccedil;&otilde;es internas e que abranda, cada vez    mais, a hierarquia existente entre seus membros.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Essas quest&otilde;es    levam-nos a indagar o que se processou nas sociedades ocidentais ao longo dos    &uacute;ltimos dois s&eacute;culos, ocasionando essas mudan&ccedil;as nas configura&ccedil;&otilde;es    familiares e fazendo com que o lugar ostentado pelo pai deca&iacute;sse consideravelmente.    A hip&oacute;tese de Lebrun (2004) &eacute; a de que todas essas altera&ccedil;&otilde;es,    tanto no &acirc;mbito familiar como no social, est&atilde;o estritamente relacionadas    ao discurso da ci&ecirc;ncia<a name="top8"></a><a href="#back8"><sup>8</sup></a>,    notadamente &agrave;quele que surge com o desenvolvimento da ci&ecirc;ncia moderna    (matem&aacute;tico-experimental) - quando a ci&ecirc;ncia passou a se constituir    n&atilde;o mais pelas percep&ccedil;&otilde;es, mas pelas pr&oacute;prias ideias.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O surgimento da    ci&ecirc;ncia moderna abalou o lugar da autoridade religiosa e produziu um novo    la&ccedil;o social, cujo motor n&atilde;o &eacute; mais a enuncia&ccedil;&atilde;o    do mestre, seu dizer, mas um saber de enunciados, um conjunto ac&eacute;falo    de ditos. Para Lebrun (ibidem, p. 60), "o procedimento que Descartes autoriza    por seu <i>cogito</i> &eacute; o de n&atilde;o se apoiar, a n&atilde;o ser em    seu pr&oacute;prio entendimento, para logo esquecer esse passo origin&aacute;rio".</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O homem da ci&ecirc;ncia    moderna procede enunciando o que afirma e logo esquece que houve enuncia&ccedil;&atilde;o    para reter apenas os enunciados que produziu, ou seja, apaga o dizer para s&oacute;    guardar os ditos que s&atilde;o suscet&iacute;veis de serem acumulados. "Nesse    movimento, deve ser 'esquecido' que o que produziu esse enunciado foi uma bricolagem,    uma confronta&ccedil;&atilde;o com um real, uma enuncia&ccedil;&atilde;o, um    sujeito" (idem, ibidem).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Segundo Lebrun    (2004), atrav&eacute;s dessa organiza&ccedil;&atilde;o o procedimento da ci&ecirc;ncia    moderna comporta ainda algo de impl&iacute;cito, a saber, a subvers&atilde;o    das rela&ccedil;&otilde;es entre os registros do Real e do Simb&oacute;lico.    &Eacute; o intrincamento insol&uacute;vel entre Real e Simb&oacute;lico que    a ci&ecirc;ncia moderna demonstra querer esquecer, desde que os cientistas passaram    a buscar suas garantias nas matem&aacute;ticas exatas e n&atilde;o mais na percep&ccedil;&atilde;o    dos fatos, o que acabou por instalar um Simb&oacute;lico que, sozinho, eludindo    a enuncia&ccedil;&atilde;o, pretende dar conta do real. "Ele esquece o real    de onde sai e reposiciona um real para al&eacute;m de seu jogo de escrita -    um real com o qual, a partir de ent&atilde;o, a ci&ecirc;ncia n&atilde;o p&aacute;ra    de querer coincidir, 'esquecendo' a intrinca&ccedil;&atilde;o da qual, no entanto,    procede" (ibidem, p. 61).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ao acreditar que    pode coincidir com o real, a ci&ecirc;ncia traz consigo a cren&ccedil;a de que    pode encontrar a causa e a raz&atilde;o de tudo. A respeito dessa convic&ccedil;&atilde;o    que permeia o imagin&aacute;rio dos dias atuais, Jerusalinsky (2005), numa cr&iacute;tica    a esse modo de pensar da ci&ecirc;ncia, afirma que o homem cr&ecirc; n&atilde;o    haver nenhuma fronteira que se oponha ao seu conhecimento, o que significa supor    que pode esgotar o Real, que em algum momento o Real ser&aacute; totalmente    capturado.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Desse modo, ao    crer que "nada &eacute; imposs&iacute;vel" a sociedade est&aacute; evitando    o confronto com a "impossibilidade estrutural" que perpassa essa cren&ccedil;a    e n&atilde;o quer mais dar testemunho do encontro com essa decep&ccedil;&atilde;o    fundamental. "Tudo se passa como se a nossa sociedade n&atilde;o veiculasse    mais a dimens&atilde;o dos interditos fundadores, os do incesto e do assassinato"    (Lebrun, J.-P. 2004, p. 120). Na medida em que vivemos em meio a um la&ccedil;o    social que n&atilde;o reconhece mais a fun&ccedil;&atilde;o do pai como aquele    que tem como atributo imputar os interditos ao sujeito, as no&ccedil;&otilde;es    dos limites permanecem obscuras.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Juntamente com    a ascens&atilde;o da ci&ecirc;ncia moderna, o surgimento dos regimes democr&aacute;ticos    nas sociedades ocidentais contribuiu, em grande medida, para o decl&iacute;nio    da figura paterna, que se mostrava fortemente presente nas sociedades mon&aacute;rquicas    e religiosas. Nesse processo, Lebrun (ibidem) e Roudinesco (2003) situam a Revolu&ccedil;&atilde;o    Francesa como um marco na passagem do lugar do poder de um lugar pleno, divino,    ocupado por delega&ccedil;&atilde;o real, para um lugar vazio que poder&aacute;    constituir autoridade simb&oacute;lica, assim como o poder que a encarna. No    sistema mon&aacute;rquico, quem ocupava o lugar do poder era o rei, soberano    escolhido por Deus, diferentemente do sistema democr&aacute;tico em que o povo,    o coletivo, &eacute; colocado nesse lugar originariamente vazio. A divis&atilde;o    que outrora existia entre aquele que ocupava o lugar do poder e os demais passou,    ent&atilde;o, a ser suprimida nas sociedades democr&aacute;ticas.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Correlacionadas    ao decl&iacute;nio da fun&ccedil;&atilde;o paterna, o desenvolvimento da ci&ecirc;ncia    moderna e o avan&ccedil;o da democracia nas sociedades ocidentais acarretaram    a elis&atilde;o da categoria do imposs&iacute;vel e a perda de uma rela&ccedil;&atilde;o    espont&acirc;nea com o mundo, uma vez que os indiv&iacute;duos tornaram-se dependentes    da tecnologia gerada pelos avan&ccedil;os tecnocient&iacute;ficos. Na configura&ccedil;&atilde;o    social atual, segundo Lebrun (2004), o objeto de consumo &eacute; apresentado    como tendo a virtude de poder apagar a irredut&iacute;vel indisponibilidade    humana e deixa crer numa poss&iacute;vel plena satisfa&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O grande consumo    de medicamentos psicotr&oacute;picos, verificado hoje, demonstra estar atrelado    a essa cren&ccedil;a, inicialmente veiculada pelo discurso da ci&ecirc;ncia,    de que a nossa indisponibilidade estrutural pode ser apagada, livrando-nos,    assim, de qualquer infort&uacute;nio que ela possa vir a causar-nos. Com base    nessa cren&ccedil;a, que j&aacute; comp&otilde;e o discurso social dos dias    atuais, vemos o sofrimento tornar-se cada vez mais intoler&aacute;vel para os    indiv&iacute;duos contempor&acirc;neos.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Para Jerusalinsky    (2005), essa "arrog&acirc;ncia cientificista" &eacute; contr&aacute;ria &agrave;    verdade e impele o homem a produzir dispositivos que o iludem quanto ao controle    absoluto do mundo, inclusive de si mesmo. "A medica&ccedil;&atilde;o &eacute;    usada como sistema de controle, n&atilde;o como resolu&ccedil;&atilde;o de um    sofrimento; como controle das circunst&acirc;ncias que, se controladas, supostamente    v&atilde;o parar o sofrimento" (idem, ibidem, p. 32).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Com a ci&ecirc;ncia    ocupando um lugar central em nossa sociedade, o decl&iacute;nio da fun&ccedil;&atilde;o    paterna deixa desenvolver um mundo em que a castra&ccedil;&atilde;o &eacute;    sempre levada para mais tarde. Hoje, acreditamos que podemos burlar o fato de    sermos seres castrados. Cremos que podemos satisfazermo-nos totalmente e que    &eacute; poss&iacute;vel, como nos afirma o discurso da ci&ecirc;ncia, evitar    o sofrimento e controlar o que nos angustia.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Por um lado, bem    sabemos que a propriedade do objeto pulsional, por uma raz&atilde;o estrutural,    &eacute; estar submetido &agrave; Lei da linguagem e n&atilde;o ser nunca totalmente    satisfat&oacute;rio. Por outro, ao acreditar que seu objeto de satisfa&ccedil;&atilde;o    &eacute; pass&iacute;vel de ser alcan&ccedil;ado, a sociedade, impregnada pela    ci&ecirc;ncia p&oacute;s-moderna, abre as portas para a efetividade da puls&atilde;o    de morte (Lebrun, J.-P. 2004).</font></p>     <blockquote>        <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">"&Eacute; nisso      que ela est&aacute; em estreita coniv&ecirc;ncia com o tecnocient&iacute;fico<a name="top9"></a><a href="#back9"><sup>9</sup></a>.      Ao deixar crer numa poss&iacute;vel realiza&ccedil;&atilde;o pulsional, a      tecnoci&ecirc;ncia se torna c&uacute;mplice da puls&atilde;o de morte e &eacute;      essa cumplicidade que o simb&oacute;lico n&atilde;o desarma mais, acarretando      a confus&atilde;o entre renunciar a seu desejo e renunciar a gozar do objeto      primordial do desejo. A ren&uacute;ncia ao gozo do objeto primordial do desejo      garante a salvaguarda da possibilidade do desejo, mas, quando a conjuntura      social deixa crer na realiza&ccedil;&atilde;o plenamente satisfat&oacute;ria      do desejo, torna-se muito dif&iacute;cil, para o sujeito, ter uma refer&ecirc;ncia      no que constitui os paradigmas do que pode lev&aacute;-lo no caminho de seu      desejo" (Lebrun, J.-P. 2004, p. 126).</font></p> </blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Em <b>O mal-estar    na civiliza&ccedil;&atilde;o</b>, Freud (1930/1987) afirma que o significado    da evolu&ccedil;&atilde;o da civiliza&ccedil;&atilde;o deve representar a luta    entre Eros e a Morte, entre o instinto de vida e o instinto de destrui&ccedil;&atilde;o,    tal como ela se elabora na esp&eacute;cie humana. Para ele, nessa luta consiste    toda a vida e, portanto, a evolu&ccedil;&atilde;o da civiliza&ccedil;&atilde;o    pode simplesmente ser descrita como a luta da esp&eacute;cie humana pela vida.    A sociedade contempor&acirc;nea parece demonstrar que nessa luta entre as puls&otilde;es    de vida e as puls&otilde;es de morte quem tem prevalecido s&atilde;o as &uacute;ltimas.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Atualmente, com    o decl&iacute;nio da fun&ccedil;&atilde;o paterna, uma vez que esta n&atilde;o    &eacute; mais ratificada pelo social, &eacute; a fun&ccedil;&atilde;o materna    que ganha cada vez mais espa&ccedil;o. Como resultado, o que vemos &eacute;    um social que, ao n&atilde;o mais carregar consigo os interditos fundamentais,    deixa de impor limites ao gozo do sujeito. Limites que ao serem postos garantem    a exist&ecirc;ncia de um sujeito desejante e dotado da capacidade de enuncia&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Para Lebrun (2004),    hoje em dia, n&atilde;o apenas a dimens&atilde;o da enuncia&ccedil;&atilde;o    - a propriedade mais espec&iacute;fica do que &eacute; um sujeito - foi apagada    pelo discurso da ci&ecirc;ncia, como o pr&oacute;prio apagamento desse apagamento    foi extinto. O cientista tem por objetivo conseguir excluir-se como sujeito    daquilo que produziu, ou seja, conseguir produzir um enunciado que pode dispensar    a enuncia&ccedil;&atilde;o. &Eacute; nesse sentido que o autor afirma que a    ci&ecirc;ncia carrega a amea&ccedil;a de um totalitarismo pragm&aacute;tico.    Por totalitarismo pragm&aacute;tico, diz ele, devemos entender a autonomia obtida    por um sistema organizado em torno de uma l&oacute;gica que pretende dar conta    racionalmente de tudo, a tal ponto que chegaria a n&atilde;o mais deixar lugar    para o sujeito.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ao falar sobre    o totalitarismo pragm&aacute;tico, Lebrun (ibidem) recorre &agrave;s ideias    de Hanna Arendt. Esta afirma que um dos tra&ccedil;os espec&iacute;ficos da    ideologia totalit&aacute;ria &eacute; a capacidade do homem, inserido nessa    ideologia, de n&atilde;o mais pensar e, consequentemente, n&atilde;o mais julgar.    Ao fazer isso, o sujeito se destitui de sua enuncia&ccedil;&atilde;o e se contenta    em ser congruente com os enunciados aos quais consentiu em se sujeitar.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Segundo Roviello    (1992 citado por Lebrun, J.-P. 2004), a impot&ecirc;ncia em pensar &eacute;,    para Hanna Arendt, correlativa a uma incapacidade de sofrer experi&ecirc;ncias.    No mundo do <i>non-sens</i>, que &eacute; o sistema totalit&aacute;rio, conforme    ele exp&otilde;e, a ideologia n&atilde;o se define tanto pelos conte&uacute;dos    do pensamento ou por uma vis&atilde;o, ainda que dogm&aacute;tica, do mundo,    mas por uma cegueira ativa e radical do pensamento do mundo.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">As caracter&iacute;sticas,    apontadas por Hanna Arendt, do homem inserido no sistema totalit&aacute;rio,    aproximam-se das caracter&iacute;sticas que muitos indiv&iacute;duos contempor&acirc;neos    apresentam, tais como: dificuldade de representa&ccedil;&atilde;o ps&iacute;quica,    enfraquecimento do funcionamento mental, recuo da simboliza&ccedil;&atilde;o    e estreitamento na capacidade de pensar. Caracter&iacute;sticas que s&atilde;o</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>        <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">"apresenta&ccedil;&otilde;es      contempor&acirc;neas do que desde sempre foi a coluna vertebral da patologia      ps&iacute;quica: evitar ter que assumir as consequ&ecirc;ncias do fato de      falar, o que os psicanalistas chamam de se 'defender da castra&ccedil;&atilde;o'.      Sua novidade n&atilde;o diz respeito a uma nova estrutura da psique, mas a      uma nova possibilidade de contravir as leis da linguagem. Se, at&eacute; hoje,      o sujeito podia aproveitar-se dos avatares da sua hist&oacute;ria familiar      para evitar ter que se submeter a essas leis, o que nos &eacute; preciso agora      tamb&eacute;m levar em conta &eacute; que o sujeito pode aproveitar-se do      que lhe &eacute; apresentado no social para n&atilde;o ter que tirar consequ&ecirc;ncias"      (Lebrun, J.-P. 2004, p. 170).</font></p> </blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Aproveitando-se    das transforma&ccedil;&otilde;es sociais, geradas pelo discurso da ci&ecirc;ncia,    os sujeitos contempor&acirc;neos, utilizam-se dos recursos tecnocient&iacute;ficos,    entre eles os psicotr&oacute;picos, para esquivar-se da sua condi&ccedil;&atilde;o    de seres humanos falantes e faltantes. Os medicamentos psicofarmacol&oacute;gicos,    produtos dos avan&ccedil;os da ci&ecirc;ncia, s&atilde;o hoje utilizados por    muitos indiv&iacute;duos que n&atilde;o querem ou n&atilde;o conseguem deparar-se    com o seu desejo. Em meio a um discurso tecnocient&iacute;fico, que apaga a    dimens&atilde;o da enuncia&ccedil;&atilde;o, o que verificamos nas sociedades    ocidentais s&atilde;o indiv&iacute;duos que se entregam, em uma frequ&ecirc;ncia    cada vez maior, a uma busca por um anestesiamento - anestesiamento de seus desejos,    anestesiamento de si como sujeitos.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ao falar sobre    a sociedade contempor&acirc;nea, Roudinesco (2003) afirma que presenciamos,    nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas, uma reviravolta profunda no campo social.    Vivemos hoje uma cultura do narcisismo e do individualismo, imersos na preocupa&ccedil;&atilde;o    demasiada com o instante, em uma aboli&ccedil;&atilde;o fantas&iacute;stica    do conflito e da hist&oacute;ria.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Como diz Roudinesco    (ibidem, p. 13), em um mundo "extrapolado pela vertigem de sua pr&oacute;pria    pot&ecirc;ncia (...) s&oacute; um sujeito falante est&aacute; em condi&ccedil;&otilde;es    de testemunhar sobre a trag&eacute;dia de sua exist&ecirc;ncia". Talvez seja    disso que sofra a contemporaneidade: da car&ecirc;ncia de sujeitos falantes,    autores e atores de suas trag&eacute;dias. Ao evitar deparar-se com sua indisponibilidade    estrutural, o sujeito contempor&acirc;neo n&atilde;o inaugura a possibilidade    de narrar-se como sujeito para, assim, construir uma hist&oacute;ria, a sua    hist&oacute;ria.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Para concluir:    palavra</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">J&aacute; h&aacute;    muito vimos com Freud (1965/1921) que a psicologia individual &eacute; ao mesmo    tempo psicologia social, uma vez que n&atilde;o existe constitui&ccedil;&atilde;o    solipsista do psiquismo. A subjetividade se constitui a partir da alteridade,    isto &eacute;, da exist&ecirc;ncia de um outro que &eacute; fundamental como    eixo constitutivo do ps&iacute;quico. Desse modo, as forma&ccedil;&otilde;es    psicopatol&oacute;gicas falam da cultura, retiram dela o material de base que    lhes d&aacute; forma (Fernandes, M.H. 2003). As transforma&ccedil;&otilde;es    socioculturais sempre tiveram um importante impacto sobre a forma como os sujeitos    se constituem subjetivamente. Cada momento hist&oacute;rico da civiliza&ccedil;&atilde;o    &eacute; marcado por um modo particular de os indiv&iacute;duos experenciarem    a vida, bem como pelas sintomatologias que apresentam e pelas pr&aacute;ticas    terap&ecirc;uticas que sacramentam.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">No mundo contempor&acirc;neo,    marcado pela individualidade, pela autonomia e pela busca por liberdade, cada    vez mais os indiv&iacute;duos buscam entregar-se ao gozo, numa tentativa alucinada    de fugir de sua condi&ccedil;&atilde;o como humano. Nesse percurso, encontram    como fiel aliado o discurso da ci&ecirc;ncia, notavelmente traduzido pelas disciplinas    neurofisiol&oacute;gicas e pela Psiquiatria Biol&oacute;gica, que traz o pressuposto    de que n&atilde;o h&aacute; limites ao conhecimento do homem e de que todo sofrimento    j&aacute; pode ser evitado pelo uso de um psicof&aacute;rmaco.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Atrav&eacute;s    da vincula&ccedil;&atilde;o da cren&ccedil;a de que podemos curar-nos dos males    da alma, por meio de um medicamento, a ci&ecirc;ncia deixa entrever a forma    como passou a atuar nos &uacute;ltimos s&eacute;culos. Ao pregar que tudo &eacute;    pass&iacute;vel de ser alcan&ccedil;ado e ao apagar a dimens&atilde;o da enuncia&ccedil;&atilde;o,    a ci&ecirc;ncia, atrav&eacute;s de seu discurso, traz implicitamente a senten&ccedil;a    de que "tudo &eacute; poss&iacute;vel". Posicionando-se dessa forma, o discurso    da ci&ecirc;ncia teve grande influ&ecirc;ncia sobre o decl&iacute;nio da figura    paterna que &eacute; visualizada, hoje, nas sociedades ocidentais.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Em um social que    n&atilde;o mais ratifica a fun&ccedil;&atilde;o paterna, as no&ccedil;&otilde;es    dos limites - dos interditos - tornam-se cada vez mais opacas. Em decorr&ecirc;ncia    disso, o desejo permanece amorda&ccedil;ado, comumente com o aux&iacute;lio    de uma subst&acirc;ncia qu&iacute;mica. Para que possa se lan&ccedil;ar ao desejo,    o sujeito precisa, antes, deparar-se com a sua falta constituinte, com o fato    de ser castrado. &Eacute; essa dimens&atilde;o da falta que, com o decl&iacute;nio    da fun&ccedil;&atilde;o paterna, se esvaece atualmente.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A p&oacute;s-modernidade    - ao menos parte dela - traduz-se atrav&eacute;s de uma busca, realizada por    um n&uacute;mero crescente de indiv&iacute;duos, por um anestesiamento - anestesiamento    de si, anestesiamento do desejo. Dizemos em parte porque as neuroses cl&aacute;ssicas,    como as retratadas por Freud, ainda podem ser verificadas nos consult&oacute;rios    <b>psi</b>. Contudo, esse querer anestesiar-se frente &agrave;s frustra&ccedil;&otilde;es    do dia-a-dia nunca foi t&atilde;o intenso como agora, de forma que revela matizes    do mal-estar contempor&acirc;neo.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Numa &eacute;poca    em que novas terap&ecirc;uticas - como a terap&ecirc;utica psicofarmacol&oacute;gica,    que &eacute; tida como hegem&ocirc;nica sobre os demais tratamentos psicol&oacute;gicos    - surgem, a psican&aacute;lise &eacute; posta em concorr&ecirc;ncia com essas    novas formas de tratar o mal-estar (Roudinesco, E. 2000) e convocada a se posicionar    diante dos modos de subjetiva&ccedil;&atilde;o contempor&acirc;neos, n&atilde;o    s&oacute; no que diz respeito &agrave; elabora&ccedil;&atilde;o de entendimentos    metapsicol&oacute;gicos das atuais sintomatologias, mas tamb&eacute;m &agrave;    forma de como abord&aacute;-las na cl&iacute;nica. Constantemente deparamo-nos    com essas quest&otilde;es no trabalho cl&iacute;nico e cabe a n&oacute;s debat&ecirc;-las    a fim de formularmos poss&iacute;veis vias de tratamento.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A depress&atilde;o,    j&aacute; vista como uma doen&ccedil;a contempor&acirc;nea e perpassada pelas    quest&otilde;es abordadas neste trabalho, questiona os limites do dispositivo    anal&iacute;tico. Como exp&otilde;e Lerude (2009), a principal dificuldade dos    pacientes depressivos &eacute; a dificuldade de enuncia&ccedil;&atilde;o. Imersos    em uma gama de enunciados, esses pacientes deparam-se, na an&aacute;lise, com    a impossibilidade de p&ocirc;r em palavras o que lhes acontece. Nesse sentido,    segundo a psicanalista, o trabalho anal&iacute;tico consiste em dar palavras    a esses pacientes a fim de que eles possam associar. Ao dar palavra ao sujeito,    a psican&aacute;lise possibilita outra forma de tratamento da depress&atilde;o    que n&atilde;o apenas a psicofarmacol&oacute;gica.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Na cl&iacute;nica    cotidiana, ou enquanto "pesquisa-dores", vemos todo dia isto acontecer: a impossibilidade    de p&ocirc;r palavra, de dar contorno, de fazer borda ao que teima em transbordar.    Estando-nos atravessados pela psican&aacute;lise, temos a certeza de que uma    cl&iacute;nica que n&atilde;o seja cl&iacute;nica de ang&uacute;stia necessita    ser questionada.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Hoje em dia, n&atilde;o    mais sabemos se o estado dos pacientes que nos procuram &eacute; causa ou efeito    da entorpec&ecirc;ncia qu&iacute;mica que muitos vivem. E o mais curioso &eacute;    que isto n&atilde;o &eacute; posto &agrave; prova: o outro que fala em nome    da ci&ecirc;ncia - o m&eacute;dico, as revistas, as pesquisas etc. - sempre    sabe mais sobre o sujeito do que ele pr&oacute;prio.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A busca, de forma    geral, parece ser por "receitas" que digam - e deixem escrito! - o que e como    fazer para anestesiar o sofrer. De todas as quest&otilde;es levantadas, destacamos    o problema de que ao anestesiar-se com um psicotr&oacute;pico, como efeito co-lateral,    anestesia-se tamb&eacute;m a capacidade de um sujeito de sustentar esta posi&ccedil;&atilde;o    que, ao contr&aacute;rio do que se poderia pensar, n&atilde;o &eacute; dada    de antem&atilde;o.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&Eacute; pena que    para se confrontar com o "quase" do conto de Falc&atilde;o (2005), parcialmente    reproduzido no in&iacute;cio deste trabalho, seja necess&aacute;rio um subterf&uacute;gio    analg&eacute;sico. O mundo &eacute; mesmo quase bom, a vida &eacute; mesmo quase    bela, a gente &eacute; mesmo quase sempre feliz. Pena, porque esta &eacute;    a nossa condi&ccedil;&atilde;o de seres humanos e &eacute; dif&iacute;cil pensar    que anestesiados possamos viver toda a pot&ecirc;ncia que este "quase" nos oferece.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Notas</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><a name="back1"></a><a href="#top1">1</a>.    Este artigo compreende uma reformula&ccedil;&atilde;o da monografia de conclus&atilde;o    de curso da autora, intitulada "O sujeito anestesiado: o uso dos psicof&aacute;rmacos    na contemporaneidade", apresentada, em 2007, ao Curso de Psicologia da Universidade    Federal de Santa Maria, sob orienta&ccedil;&atilde;o da co-autora.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><a name="back2"></a><a href="#top2">2</a>.    Ver a esse respeito Freud, S. (2004). Formula&ccedil;&otilde;es sobre os dois    princ&iacute;pios do acontecer ps&iacute;quico. (Escritos sobre a Psicologia    do Inconsciente). Rio de Janeiro: Imago. (Originalmente publicado em 1911).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><a name="back3"></a><a href="#top3">3</a>.    Grifo nosso.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><a name="back4"></a><a href="#top4">4</a>.    Foucault (2005) &eacute; um dos autores que mais destaque vai oferecer aos mecanismos    do que denomina "sociedade disciplinar". Atrav&eacute;s de uma an&aacute;lise    sociohist&oacute;rica, o autor mostra os entraves, os fios, que tecem um "pano    de fundo" que, embora n&atilde;o apare&ccedil;a como cen&aacute;rio principal,    de diversas formas os determina. Foucault acaba por elaborar toda uma ampla    via de entendimento destes mecanismos e, em fun&ccedil;&atilde;o disto, n&atilde;o    iremos avan&ccedil;ar neste vasto territ&oacute;rio. Entretanto, fazemos quest&atilde;o    da refer&ecirc;ncia a este autor: a obra a qual nos referimos - Foucault, M.    (2005). A Verdade e as Formas Jur&iacute;dicas. 3ª ed. Rio de Janeiro: NAU editora    - n&atilde;o &eacute; uma produ&ccedil;&atilde;o espec&iacute;fica sobre o tema    aqui apresentado, mas com certeza pode contribuir com tal entendimento.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><a name="back5"></a><a href="#top5">5</a>.    Express&atilde;o utilizada por Alain Ehrenberg ao afirmar que o drogado ocupa    hoje as fei&ccedil;&otilde;es de antissujeito, que antigamente eram assumidas    pelo louco (Ehrenberg, A. 1998, p. 17 citado por Roudinesco, E. 2000, p. 19    - 20).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><a name="back6"></a><a href="#top6">6</a>.    Embora n&atilde;o haja d&uacute;vidas de que a leitura de Riedel &eacute; ancorada    no conceito de gozo em Lacan, em alguns momentos parece-nos que o autor se distancia    deste entendimento. Por este motivo - e pela complexidade do conceito em Lacan    - nos contentaremos aqui com o recorte da contribui&ccedil;&atilde;o de Riedel    para com o tema em quest&atilde;o.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><a name="back7"></a><a href="#top7">7</a>.    Esse decl&iacute;nio da imago paterna j&aacute; foi anteriormente apontado por    Lacan (2002) e Roudinesco (2003).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><a name="back8"></a><a href="#top8">8</a>.    Lebrun (2004) v&ecirc; o discurso da ci&ecirc;ncia como o que organiza o la&ccedil;o    social e que foi inaugurado por esse tipo de conhecimento &#91;o cient&iacute;fico&#93;.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><a name="back9"></a><a href="#top9">9</a>.    Tecnoci&ecirc;ncia &eacute; um neologismo criado por Lebrun (2004) para designar    a submiss&atilde;o da ci&ecirc;ncia ao que constitui a ess&ecirc;ncia da t&eacute;cnica,    qual seja, o discurso t&eacute;cnico, baseado apenas em enunciados.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Refer&ecirc;ncias</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ehrenberg, A. (2004).    Depress&atilde;o, doen&ccedil;a da autonomia? &#91;Entrevista&#93;. <i>Revista    &Aacute;gora, 7</i> (1), 143-153. Recuperado em 12 setembro 2007, da <a href="http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S151614982004000100009&amp;lng=pt&amp;nrm=iso" target="_blank">http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S151614982004000100009&amp;lng=pt&amp;nrm=iso</a></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Falc&atilde;o,    A. (2005). Serial killer. In A. Falc&atilde;o et al. <i>Tarja preta</i> (pp.    39-63). Rio de Janeiro: Objetiva.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3285725&pid=S1518-6148200900030000500002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Fernandes, M. H.    (2003). <i>Corpo.</i> S&atilde;o Paulo: Casa do Psic&oacute;logo.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3285727&pid=S1518-6148200900030000500003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Freud, S. (1965).    <i>Psicologia de grupo e a an&aacute;lise do ego</i> (Edi&ccedil;&atilde;o Standard    Brasileira das Obras Psicol&oacute;gicas Completas de Sigmund Freud, Vol. 18).    Rio de Janeiro: Imago. (Originalmente publicado em 1921).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3285729&pid=S1518-6148200900030000500004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Freud, S. (1987).    <i>O mal-estar na civiliza&ccedil;&atilde;o</i> (Edi&ccedil;&atilde;o Standard    Brasileira das Obras Psicol&oacute;gicas Completas de Sigmund Freud, Vol. 21,    2ª ed.). Rio de Janeiro: Imago. (Originalmente publicado em 1930).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3285731&pid=S1518-6148200900030000500005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Freud, S. (2004).    <i>Formula&ccedil;&otilde;es sobre os dois princ&iacute;pios do acontecer ps&iacute;quico:    Escritos sobre a psicologia do inconsciente.</i> Rio de Janeiro: Imago. (Originalmente    publicado em 1911).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3285733&pid=S1518-6148200900030000500006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Hassan, S.E. (2005).    Psican&aacute;lise e psicof&aacute;rmacos nos discursos prevalentes. <i>Pulsional    Revista de Psican&aacute;lise,</i> (183), 41-54.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3285735&pid=S1518-6148200900030000500007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Jerusalinsky, A.    (2001). Com uma boa dose de carbol&iacute;tio e um bom ansiol&iacute;tico voc&ecirc;    n&atilde;o sentir&aacute; afli&ccedil;&atilde;o pela morte de seu pai.... <i>Correio    da APPOA,</i> (90), 33-36. Recuperado em 12 agosto 2007 da <a href="http://www.appoa.com.br/download/correio90.pdf" target="_blank">http://www.appoa.com.br/download/correio90.pdf</a></font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3285737&pid=S1518-6148200900030000500008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Jerusalinsky, A.    (2005). &#91;Entrevista&#93;. <i>Correio da APPOA,</i> (137), 23-35. Recuperado    em 12 agosto 2007, da <a href="http://www.appoa.com.br/download/correio137.pdf" target="_blank">http://www.appoa.com.br/download/correio137.pdf</a></font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3285738&pid=S1518-6148200900030000500009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Kehl, M.R. (2003).    <i>Uma vida sem sujeito.</i> Recuperado em 28 maio 2007 da <a href="http://www.mariaritakehl.psc.br/PDF/umavidasemsujeito.pdf" target="_blank">http://www.mariaritakehl.psc.br/PDF/umavidasemsujeito.pdf</a></font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3285739&pid=S1518-6148200900030000500010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Lacan, J. A Met&aacute;fora    paterna (1999). In <i>O Semin&aacute;rio: Livro 5: As forma&ccedil;&otilde;es    do inconsciente</i> (pp. 166-184). Rio de Janeiro: Zahar. (Originalmente publicado    em 1957-1958).    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3285740&pid=S1518-6148200900030000500011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Lacan, J. (2002).    O complexo de &Eacute;dipo. In <i>Os complexos familiares na forma&ccedil;&atilde;o    do indiv&iacute;duo: Ensaio de an&aacute;lise de uma fun&ccedil;&atilde;o em    psicologia</i> (pp. 41-61). Rio de Janeiro: Zahar.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3285742&pid=S1518-6148200900030000500012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Leal, E. G. (2005).    Os limites do sofrimento. <i>Pulsional Revista de Psican&aacute;lise,</i> (183),    55-71.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3285744&pid=S1518-6148200900030000500013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Lebrun, J.-P. (2004).    <i>Um mundo sem limite: Ensaio para uma cl&iacute;nica psicanal&iacute;tica    do social.</i> Rio de Janeiro: Companhia de Freud.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3285746&pid=S1518-6148200900030000500014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Lerude, M. (2009,    agosto). <i>A depress&atilde;o &eacute; uma quest&atilde;o &eacute;tica?</i>    Trabalho apresentado no Col&oacute;quio Internacional A &eacute;tica da psican&aacute;lise:    Lacan estaria justificado em dizer "n&atilde;o cedas de teu desejo"? Porto Alegre,    Brasil.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3285748&pid=S1518-6148200900030000500015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Mautner, J. (2005).    A qu&iacute;mica da ressurrei&ccedil;&atilde;o. In A. Falc&atilde;o, P. Bial,    L. Ruffato, J. Furtado, M. Denser, J. Mautner &amp; I. Pess&ocirc;a, <i>Tarja    preta</i> (pp. 141-171). Rio de Janeiro: Objetiva.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3285750&pid=S1518-6148200900030000500016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Nogueira Filho,    D. M. (2005). Psican&aacute;lise e medica&ccedil;&atilde;o. <i>Pulsional Revista    de Psican&aacute;lise,</i> (183), 95-104.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3285752&pid=S1518-6148200900030000500017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Pess&ocirc;a, I.    (2005). A noite. In A. Falc&atilde;o, P. Bial, L. Ruffato, J. Furtado, M. Denser,    J. Mautner &amp; I. Pess&ocirc;a, <i>Tarja preta</i> (pp. 79-102). Rio de Janeiro:    Objetiva.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3285754&pid=S1518-6148200900030000500018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Riedel, N. (2006).    O sintoma compulsivo na cultura contempor&acirc;nea. <i>Anais do II Congresso    Internacional de Psicopatologia Fundamental e VIII Congresso Brasileiro de Psicopatologia    Fundamental</i>, Bel&eacute;m. N&atilde;o paginado. 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Al&iacute;vio imediato. <i>Zero Hora,</i> p. 6-9.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3285757&pid=S1518-6148200900030000500020&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Roudinesco, E.    (2000). <i>Por que a psican&aacute;lise?</i> Rio de Janeiro: Zahar.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3285759&pid=S1518-6148200900030000500021&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Roudinesco, E.    (2003). <i>A fam&iacute;lia em desordem.</i> Rio de Janeiro: Zahar.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=3285761&pid=S1518-6148200900030000500022&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
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