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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>EDITORIAL</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Retratos transnacionais e nacionais das cruzadas antig&ecirc;nero</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Transnational and national portraits of the anti-gender crusades</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Retratos transnacionales y nacionales de las cruzadas antig&eacute;nero</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Portraits transnationaux et nationaux des croisades anti-genre</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Marco Aur&eacute;lio Maximo Prado<sup>I</sup>; Sonia Correa<sup>II</sup></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><sup>I</sup>Dr. em Psicologia Social pela PUCSP com p&oacute;s-doutorado pela University of Massachusetts/Amherst na C&aacute;tedra de Estudos Brasileiros da Funda&ccedil;&atilde;o Fulbright/EUA. Professor Associado IV da Universidade Federal de Minas Gerais onde &eacute; o coordenador do N&uacute;cleo de Direitos Humanos e Cidadania LGBT (NUH/UFMG). Tem participado de atividades acad&ecirc;micas internacionais junto a UNSL/Argentina, ao CES/Coimbra e a Umass/Amherst. Bolsista CNPq    <br>   <sup>II</sup>Arquiteta e com p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o em Antropologia. Coordena com Richard Parker o Sexuality Policy Watch (SPW) sediado na Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira Interdisciplinar de AIDS (ABIA). Em 2006 integrou o grupo que elaborou os Princ&iacute;pios de Yogyakarta para Aplica&ccedil;&atilde;o das Normas Internacionais de Direitos Humanos em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; Orienta&ccedil;&atilde;o Sexual e Identidade de G&ecirc;nero. Tem participado de atividades acad&ecirc;micas no NEPO/UNICAMP, no CLAM/IMS/UERJ, no Col&eacute;gio do M&eacute;xico, no Center for Population and Development na Harvard University e, mais recentemente, no Gender Department da London School of Economics</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em 2013, milhares de pessoas, mobilizadas pela igreja cat&oacute;lica e as for&ccedil;as da direita, se manifestaram contra o matrim&ocirc;nio entre pessoas do mesmo sexo em Paris e em outras cidades francesas, colorindo as ruas com o rosa e o azul de suas bandeiras. No mesmo ano, o presidente do Equador, Rafael Correa, &iacute;cone da esquerda, em um de seus programas televisivos semanais, denunciou a "ideologia de g&ecirc;nero" como um instrumento destinado a destruir as fam&iacute;lias. Nesse mesmo ano ent&atilde;o, no Brasil, for&ccedil;as cat&oacute;licas e evang&eacute;licas conservadoras e o movimento Escola sem Partido juntaram esfor&ccedil;os para incidir, de forma coordenada, nos debates do Plano Nacional de Educa&ccedil;&atilde;o com o objetivo de excluir o termos g&ecirc;nero do documentos em debate.  Em 2016, o ataque ao g&ecirc;nero, como ideologia "diab&oacute;lica e  marxista" impactou, negativamente, no referendo sobre o acordo de Paz na Col&ocirc;mbia. Um ano mais tarde, a fil&oacute;sofa feminista Judith Butler, ao visitar o Brasil,  foi objeto de um virulento ataque antig&ecirc;nero. No come&ccedil;o de 2018, a mesma diatribe levou um candidato, representando a cruzada antig&ecirc;nero, ao segundo turno das elei&ccedil;&otilde;es presidenciais. Alguns meses depois, o tropo "g&ecirc;nero"  esteve no v&oacute;rtex central do furac&atilde;o eleitoral brasileiro e, no pa&iacute;s, o ano de 2019, se iniciou com o an&uacute;ncio feito no discurso presidencial ao congresso de que um dos objetivos do governo rec&eacute;m eleito &eacute; combater a "ideologia de g&ecirc;nero"</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">De onde vem e o que significa essa onda transnacional? Qual seu lugar e fun&ccedil;&atilde;o no arco mais amplo dos processos de desdemocratiza&ccedil;&atilde;o que caracterizam a segunda d&eacute;cada do s&eacute;culo 21? Seria adequado nomear o fen&ocirc;meno como um novo contra-movimento social? Ou seu car&aacute;ter marcadamente institucional, religioso e partid&aacute;rio, exige outra clave de leitura? Autores e autoras que t&ecirc;m estudado essas mobiliza&ccedil;&otilde;es na Europa e na Am&eacute;rica Latina as nomeiam como campanhas ou ofensivas antig&ecirc;nero, entre outras raz&otilde;es para evitar a normaliza&ccedil;&atilde;o sem&acirc;ntica da terminologia "ideologia de g&ecirc;nero". Essas an&aacute;lises reconhecem que essa nova ofensiva tem um lastro mais antigo que pode ser identificado nos ataques do conservadorismo religioso contra as altera&ccedil;&otilde;es das estruturas familiares e reformas legais no campo do direito ao aborto e dos direitos das pessoas LGBTI que est&atilde;o em curso desde os anos 1970, ou seja, a rea&ccedil;&atilde;o &agrave; democracia do g&ecirc;nero e da sexualidade. Contudo, tamb&eacute;m sublinham que essa nova onda difere do que veio antes em termos da sem&acirc;ntica e repert&oacute;rios de mobiliza&ccedil;&atilde;o utilizados e, sobretudo, nos que diz respeito a heterogeneidade de for&ccedil;as  sociais envolvidas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Originadas em ber&ccedil;o cat&oacute;lico, essas ofensivas s&atilde;o hoje decididamente ecum&ecirc;nicas, mesmo quando o perfil de sua composi&ccedil;&atilde;o possa variar entre pa&iacute;ses.  Embora em toda parte envolvam grupos religiosos crist&atilde;os, h&aacute; movimenta&ccedil;&otilde;es que se articulam com outros grupos e organiza&ccedil;&otilde;es reacion&aacute;rias e ultraconservadoras como partidos de extrema direita, col&eacute;gio de pediatras antidireitos LGBTI, grupos de psiquiatras e psic&oacute;logos/as que defendem as chamadas terapias de revers&atilde;o da homossexualidade e a manuten&ccedil;&atilde;o de categorias patologizantes para nomear a experi&ecirc;ncia de pessoas trans e intersexuais, ginecologistas que s&atilde;o contra o aborto, pedagogos que repudiam a educa&ccedil;&atilde;o sexual, juristas e operadores de justi&ccedil;a que preconizam concep&ccedil;&otilde;es ortodoxas do direito, mas tamb&eacute;m vozes de esquerda, psicanalistas e psic&oacute;logas, como tamb&eacute;m grupos feministas marcam a heterogeneidade das articula&ccedil;&otilde;es desta ofensiva.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No caso brasileiro, &eacute; flagrante, por um lado, o perfil cat&oacute;lico-evang&eacute;lico da ofensiva, mesmo quando a forte frequ&ecirc;ncia do Vaticano, como mentor intelectual dessa cadeia discursiva, seja obscurecida pela estrid&ecirc;ncia evang&eacute;lica. Por outro lado, tamb&eacute;m &eacute; fundamental, reconhecer a contribui&ccedil;&atilde;o da participa&ccedil;&atilde;o de outras vozes religiosas como kardecistas e judeus de direita e de setores seculares, como os ditos liberais do Movimento Brasil Livre (MBL), juristas, m&eacute;dicos/as, professoras/es e pol&iacute;ticos que n&atilde;o s&atilde;o necessariamente religiosos do qual um exemplo &eacute; o Escola sem Partido. Essas mobiliza&ccedil;&otilde;es, cada vez mais intensas desde 2016, n&atilde;o apenas compuseram o cen&aacute;rio eleitoral e p&oacute;s eleitoral como, desde antes, t&ecirc;m implicado ataques &agrave; liberdade de c&aacute;tedra de professores e professoras, den&uacute;ncias extrajudiciais contra escolas, proibi&ccedil;&atilde;o de materiais did&aacute;ticos sobre os temas em sexualidade e g&ecirc;nero e projetos de lei que visam restringir  n&atilde;o s&oacute; a educa&ccedil;&atilde;o em g&ecirc;nero e sexualidade, como os direitos reprodutivos e sexuais de mulheres e das pessoas LGBTI.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nesse sentido, a publica&ccedil;&atilde;o desse dossi&ecirc;, cuja elabora&ccedil;&atilde;o come&ccedil;ou a ser pensada ao final de 2017 &eacute;, ao nosso ver, urgente em raz&atilde;o dos efeitos delet&eacute;rios das ofensivas antig&ecirc;nero, n&atilde;o apenas em termos de grupos e pessoas mais diretamente afetados, mas tamb&eacute;m sobre dimens&otilde;es estruturais da vida pol&iacute;tica e social. Ousamos sugerir que, diante da escala e significados desses efeitos, de fato, o dossi&ecirc; chega ao p&uacute;blico com algum atraso. Embora a produ&ccedil;&atilde;o brasileira sobre essa ofensiva tenha se intensificado nos &uacute;ltimos dois anos ela &eacute; ainda relativamente limitada.  Nesse sentido, o dossi&ecirc; pode vir a se constituir em mais uma fonte de refer&ecirc;ncia para um amplo n&uacute;mero de analistas externos ao campo dos estudos de g&ecirc;nero e sexualidade que hoje procuram informa&ccedil;&otilde;es e an&aacute;lises qualificadas para melhor compreens&atilde;o da onda antig&ecirc;nero que assolou o pa&iacute;s em anos recentes.  O que caracteriza, esse novo esfor&ccedil;o, &eacute; que ele oferece um excelente resgate geneal&oacute;gico acerca de como a "ideologia de g&ecirc;nero" se gestou em seu ber&ccedil;o no Vaticano e tamb&eacute;m uma vis&atilde;o transnacional das pol&iacute;ticas antig&ecirc;nero na Europa, antes de examinar trajet&oacute;rias e efeitos dessas ofensivas no contexto brasileiro. Dito de outro modo, trata-se de uma mirada que &eacute;, ao mesmo tempo, microsc&oacute;pica e macrosc&oacute;pica que em v&aacute;rios aspectos contribui para compreender de maneira mais fina os significados e efeitos das cruzadas antig&ecirc;nero.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Este n&uacute;mero tem&aacute;tico, que intitulamos <i>Retratos transacionais e nacionais da cruzada antig&ecirc;nero</i>, foi originalmente inspirado pela leitura cr&iacute;tica do texto de Rog&eacute;rio Diniz Junqueira - <i>A inven&ccedil;&atilde;o da "ideologia de g&ecirc;nero": a emerg&ecirc;ncia de um cen&aacute;rio pol&iacute;tico-discursivo e a elabora&ccedil;&atilde;o de uma ret&oacute;rica reacion&aacute;ria antig&ecirc;nero</i> - que suscitou, mesmo antes do ataque a  te&oacute;rica feminista Judith Butler, a urg&ecirc;ncia de oferecer ao p&uacute;blico brasileiro um resgate geneal&oacute;gico das ofensivas antig&ecirc;nero e uma perspectiva global sobre essa onda de conservadorismo sexual. Nesse sentido, o escopo deste n&uacute;mero tem&aacute;tico foi,  em grande medida, determinado por essa an&aacute;lise geneal&oacute;gica seminal que, entre outras coisas, estabeleceu conex&otilde;es com trabalhos acad&ecirc;micos que j&aacute; estavam sendo produzidos em outros pa&iacute;ses, principalmente europeus, assegurando assim uma perspectiva transnacional.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Entre outras coisas, o artigo aponta algo ainda pouco observado por estudiosos europeus: a import&acirc;ncia da Am&eacute;rica Latina no processo de constru&ccedil;&atilde;o do discurso antig&ecirc;nero e de sua ret&oacute;rica. De fato, fica clara a intensa participa&ccedil;&atilde;o, desde o in&iacute;cio, de atores latinoamericanos ou de estrangeiros que aqui viveram. Mostra, ainda, que o Vaticano e outros movimentos eclesiais organizados em bases transnacionais se valeram de estruturas e espa&ccedil;os na regi&atilde;o para a produ&ccedil;&atilde;o preliminar de textos e documentos que, nos anos seguintes, desempenhariam um papel central no discurso e na ofensiva antig&ecirc;nero. Al&eacute;m disso, o autor ressalta que as posi&ccedil;&otilde;es doutrin&aacute;rias de papa Francisco sobre a mat&eacute;ria n&atilde;o se afastam substancialmente do ide&aacute;rio elaborado pelo cardeal Ratzinger, mesmo quando possam existir fortes diverg&ecirc;ncias entre eles em outros t&oacute;picos. Ali&aacute;s, em rela&ccedil;&atilde;o aos conflitos e &agrave;s disputas pol&iacute;ticas, o autor tamb&eacute;m mostra que, nos espa&ccedil;os vaticanos, o discurso antig&ecirc;nero tem sido acionado de maneira amb&iacute;gua por Francisco e tem servido como muni&ccedil;&atilde;o nas disputas internas tanto por parte dos "guardi&otilde;es da ortodoxia" quanto pelos assim ditos "reformadores".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Seguem nessa perspectiva tr&ecirc;s artigos sobre a trajet&oacute;ria das pol&iacute;ticas antig&ecirc;nero no contexto europeu. O primeiro artigo, de David Paternotte e Roman Kurar, "<i>Ideologia de g&ecirc;nero" em movimento</i>, oferece uma vis&atilde;o panor&acirc;mica da situa&ccedil;&atilde;o europeia. Teve como base a introdu&ccedil;&atilde;o e conclus&otilde;es do livro Antigender Campaigns in Europe: Mobilizing against Equality (Rowman and Littlefilec, 2017) que foram traduzidas e adaptadas, especialmente para esse n&uacute;mero. Segue-se o texto de autoria de Monica Cornejo-Valle e Jose Ign&aacute;cio Pichardo-Galan intitulado <i>Actores y estrategias en la movilizaci&oacute;n anti-g&eacute;nero en Espa&ntilde;a: el desplazamiento de una pol&iacute;tica de iglesia al activismo laico</i>, que analisa a emerg&ecirc;ncia dos ataques ao g&ecirc;nero no contexto espanhol. Esse bloco se encerra com o artigo A "teoria do gender" na It&aacute;lia: um posicionamento circunstanciado sobre um significante flutuante de autoria de Lorenzo Bernini, que foi escrito especialmente para este n&uacute;mero e traz o exame microsc&oacute;pico dos percursos, impactos e atores que comp&otilde;em os contornos das campanhas contra g&ecirc;nero na It&aacute;lia.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O artigo de Patternote e Kuhar tamb&eacute;m aborda aspectos geneal&oacute;gicos das forma&ccedil;&otilde;es antig&ecirc;nero e, sobretudo, enfatiza a necessidade de lentes anal&iacute;tico-emp&iacute;ricas transnacionais  para compreender seus contornos e repercuss&otilde;es. A an&aacute;lise de Cornejo e Pichardo &eacute;, por sua vez, muito significativa, pois recupera din&acirc;micas que se deram no contexto espanhol, nos meados dos anos 2000, que podem e devem ser lidos como laborat&oacute;rios ou experimentos das massivas erup&ccedil;&otilde;es antig&ecirc;nero que tomaram forma depois de 2013 na Europa e na Am&eacute;rica Latina. N&atilde;o menos importante, o artigo oferece informa&ccedil;&otilde;es estrat&eacute;gicas sobre a g&ecirc;nese e expans&atilde;o do grupo <i>Hazte Oir </i>que posteriormente se desdobraria na a&ccedil;&atilde;o global <i>CitizenGo</i> cujos efeitos nefastos na Am&eacute;rica Latina e no Brasil s&atilde;o inequ&iacute;vocos, como pode ser ilustrado pela campanha digital contra Judith Butler em 2017. Finalmente, o texto de Bernini, oferece uma elabora&ccedil;&atilde;o capsular inspiradora sobre o car&aacute;ter desestabilizador das teorias de g&ecirc;nero e queer e, mais especialmente, mapeia a ades&atilde;o de atores e atrizes de esquerda e feministas &agrave; pauta antig&ecirc;nero no contexto italiano, abrindo espa&ccedil;o para um aspecto ainda pouco elaborado no contexto brasileiro.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">J&aacute; o terceiro bloco faz uma cartografia dos caminhos e efeitos dessa ofensiva na realidade brasileira. Muito embora ela n&atilde;o se restrinja ao campo da educa&ccedil;&atilde;o, esse &eacute; o terreno que recebe maior aten&ccedil;&atilde;o, sendo objeto de quatro artigos, o artigo <i>A tentativa reacion&aacute;ria de censura nos curr&iacute;culos escolares: compreendendo a subvers&atilde;o mutua entre as l&oacute;gicas de socializa&ccedil;&atilde;o e subjetiva&ccedil;&atilde;o</i> de Fernando de Araujo Penna; o de autoria de Amana Matos intitulado <i>Discursos Ultraconservadores e o truque da "ideologia de g&ecirc;nero": g&ecirc;nero e sexualidades em disputa na educa&ccedil;&atilde;o</i>; o de Ana Paula Vencato, Rafaela Lacerda da Silva e Rodrigo Lessa Alvarenga intitulado <i>A educa&ccedil;&atilde;o e o presente inst&aacute;vel: repercuss&otilde;es da categoria "ideologia de g&ecirc;nero" na constru&ccedil;&atilde;o do respeito &agrave;s diferen&ccedil;as</i> e do texto <i>"Ideologia de g&ecirc;nero": estrat&eacute;gia argumentativa que forja cientificidade para o fundamentalismo religioso</i> de autoria de Tatiana Lion&ccedil;o, Ana Clara de Olveira Alves, Felipe Mattielo e Amanda Machado Freire. Essa &ecirc;nfase n&atilde;o &eacute; apenas circunstancial, mas reflete as condi&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas nacionais em que o campo dos debates sobre educa&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica constitu&iacute;ram o primeiro territ&oacute;rio de propaga&ccedil;&atilde;o sistem&aacute;tica dos ataques ao g&ecirc;nero. J&aacute; o artigo de Roger Raupp Rios e Alice Hertzog Resadori  intitulado <i>G&ecirc;nero e seus detratores: "ideologia de g&ecirc;nero" e viola&ccedil;&otilde;es de Direitos Humanos</i> explora as possibilidades de conten&ccedil;&atilde;o constitucional e em base a premissas de direitos das ofensivas antig&ecirc;nero e, n&atilde;o supreendentemente, tamb&eacute;m dedica bastante espa&ccedil;o a respostas poss&iacute;veis aos ataques hoje em curso no campo educacional.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">De maneira diversa e caleidosc&oacute;pica os artigos desse bloco apresentam uma s&iacute;ntese hist&oacute;rica da ofensiva antig&ecirc;nero no Brasil, com especial &ecirc;nfase para as articula&ccedil;&otilde;es com o movimento "Escola Sem Partido" e os efeitos negativos no campo dos direitos da educa&ccedil;&atilde;o e dos direitos humanos. Tamb&eacute;m &eacute; poss&iacute;vel, com uma leitura dedicada a este bloco, reconhecer os in&uacute;meros elementos que na realidade nacional entram em cena a partir do reconhecimento social e pol&iacute;tico das a&ccedil;&otilde;es desta ofensiva antig&ecirc;nero. Tanto o artigo encabe&ccedil;ado por Fernando de Araujo Penna como os textos de Amana Mattos e Anna Paula Vencato e colaboradores se dedicam especificamente a compreender, a partir de referencias te&oacute;ricas diversas, os efeitos da ofensiva nas v&aacute;rias dimens&otilde;es educacionais seja dos curr&iacute;culos escolares &agrave;s rela&ccedil;&otilde;es sociais no interior dos processos de socializa&ccedil;&atilde;o que revelam o qu&atilde;o antidemocr&aacute;tico o ensejo dessa ofensiva tem se consubstanciado no n&iacute;vel microsc&oacute;pico do sistema educacional do pa&iacute;s.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nesse mesmo bloco, Tatiana Lion&ccedil;o e colaboradores nos trazem uma leitura de tr&ecirc;s textos seminais propagados pela ofensiva antig&ecirc;nero no Brasil e que merecem releituras cr&iacute;ticas por parte dos leitores: o texto de Scala, de Vero e de Lobo.  Constituem, esses tr&ecirc;s livros, parte importante da produ&ccedil;&atilde;o discursiva em torno da "ideologia de g&ecirc;nero" tendo sido portanto seminais no processo de propaga&ccedil;&atilde;o e legitima&ccedil;&atilde;o do sintagma para a mobiliza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica. Mobiliza&ccedil;&atilde;o esta que tem provocado efeitos delet&eacute;rios no campo dos direitos humanos como bem analisam Roger Raupp Rios e colaboradora ao evidenciar a difama&ccedil;&atilde;o sistem&aacute;tica como parte da ofensiva. O artigo tanto analisa criticamente as a&ccedil;&otilde;es da ofensiva antigenero quanto elementos para uma pauta de resposta a esses ataques a partir da perspectiva dos direitos constitucionais e das normas internacionais de direitos humanos. A difama&ccedil;&atilde;o sistem&aacute;tica, como informam v&aacute;rios dos artigos, &eacute; uma das armas usadas pelas for&ccedil;as antig&ecirc;nero e, em geral de maneira perspicaz.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Cabe observar, contudo, que embora esse n&uacute;mero tem&aacute;tico abarque um razo&aacute;vel espectro da ofensiva antig&ecirc;nero, ele deixa muitas dimens&otilde;es de fora. Uma lacuna importante no caso brasileiro &eacute;, sem d&uacute;vida, o dr&aacute;stico efeito pol&iacute;tico eleitoral dessas mobiliza&ccedil;&otilde;es.  Outro aspecto que mereceria maior aten&ccedil;&atilde;o seria um dimensionamento emp&iacute;rico s&oacute;lido sobre os impactos negativos dos ataques a professores, curr&iacute;culos, material did&aacute;tico, num momento em que a l&oacute;gica antig&ecirc;nero deixou de ser uma estrat&eacute;gia de mobiliza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica dispersa no tecido s&oacute;cio-institucional para se converter em pol&iacute;tica p&uacute;blica expl&iacute;cita. Al&eacute;m disso, embora, em um primeiro momento, tenha se buscado de perspectivas latino-americanas sobre as pol&iacute;ticas antig&ecirc;nero no dossi&ecirc;, por raz&otilde;es diversas n&atilde;o foram bem sucedidas, e isso constitui, sem d&uacute;vida, uma lacuna. Nesse sentido nos parece fundamental sublinhar aqui que, mesmo com limites, existe hoje no pa&iacute;s uma produ&ccedil;&atilde;o sobre o fen&ocirc;meno que complementa o esfor&ccedil;o aqui realizado.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Pensamos tamb&eacute;m que &eacute; importante explicitar alguns os par&acirc;metros editoriais que balizaram nosso trabalho como editor e editora convidadas para a concretiza&ccedil;&atilde;o desse dossi&ecirc;. Por exemplo, adotamos como regra geral, independente de decis&atilde;o de autores e autoras, que o termo "ideologia de g&ecirc;nero" seria sempre grafado assim, entre aspas. Essa decis&atilde;o se fundamenta na nossa posi&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica de n&atilde;o reconhecer o termo como moldura te&oacute;rica ou express&atilde;o que deve ser naturalizada. Muito pelo contr&aacute;rio, pensamos que &eacute; vital evidenciar que "ideologia de g&ecirc;nero" n&atilde;o &eacute; nem teoria nem descri&ccedil;&atilde;o de um fen&ocirc;meno, mas sim um tropos, um campo de disputa pol&iacute;tica, uma categoria acusat&oacute;ria. Al&eacute;m disso, nosso trabalho editorial teve, de fato, "peso de pena". Todos os artigos passaram por avalia&ccedil;&atilde;o dupla cega de consultores e consultoras, a quem j&aacute; agradecemos com muita satisfa&ccedil;&atilde;o. No entanto, como editor e editora convidadas intervimos editorialmente em boa parte dos textos para assegurar clareza e homogeneidade terminol&oacute;gica. Tivemos muitos debates e interc&acirc;mbios no que diz respeito a tradu&ccedil;&otilde;es e fizemos propostas de revis&atilde;o fortes no sentido de refinamento anal&iacute;tico e emp&iacute;rico.  Com essa perspectiva, fomos menos organizador/ra do dossi&ecirc; e mais bem uma editoria comprometida a levar ao p&uacute;bico mais amplo um conjunto de textos acad&ecirc;micos qualificados que poder&atilde;o contribuir para inspirar respostas &agrave;s ofensivas antig&ecirc;nero que hoje impactam a pol&iacute;tica e a sociedade em in&uacute;meros pa&iacute;ses e, mais especialmente, o Brasil, dada sua penetra&ccedil;&atilde;o vertiginosa no aparato estatal.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Finalmente, agradecemos o reconhecimento dos di&aacute;logos e parceria frut&iacute;feras. Ao Frederico Viana Machado e &agrave; equipe editorial deste peri&oacute;dico, agradecemos a paci&ecirc;ncia e o permanente di&aacute;logo durante o processo. Ao colega Rog&eacute;rio Diniz Junqueira por ter, em primeira m&atilde;o,  disponibilizado seu texto que nos instigou iniciar a constru&ccedil;&atilde;o desse projeto e pelo esfor&ccedil;o de tradu&ccedil;&atilde;o conjunta cuidadosa dos textos europeus com Marco Aur&eacute;lio M&aacute;ximo Prado. A confian&ccedil;a de Rog&eacute;rio D. Junqueira &eacute;, de fato, inestim&aacute;vel. Agradecemos a autoras e autores que aceitaram nosso convite e responderam de maneira sempre positiva a nossas sugest&otilde;es de altera&ccedil;&atilde;o. E, sobretudo, queremos agradecer ao Juliano Bonfim, bolsista de doutorado, que nos auxiliou em toda tarefa de revis&atilde;o do material.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nossa esperan&ccedil;a, ainda viva, &eacute; que a leitura desse material possa mobilizar energias e inspirar lutas contra a restri&ccedil;&atilde;o crescente dos direitos &agrave; diversidade, &agrave; educa&ccedil;&atilde;o plural e ampla e pela preserva&ccedil;&atilde;o da democracia no Brasil.</font></p>      ]]></body>

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