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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[O lugar do pai na teoria freudiana]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>FUN&Ccedil;&Atilde;O    PATERNA</b></font></p>       <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>O lugar do pai    na teoria freudiana<a href="#B"><sup>*</sup></a><a name="A"></a></b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Jos&eacute;    Euclimar Xavier de Menezes</b><a href="#D"><sup>**</sup></a><a name="C"></a></font></b></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Faculdade Ruy Barbosa    <br> Universidade Católica</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Que lugar ocupa a representa&ccedil;&atilde;o do pai na Teoria freudiana? Seu    espa&ccedil;o &eacute; central, determinante, articulador de toda a reflex&atilde;o    que a psican&aacute;lise freudiana articula. Sen&atilde;o vejamos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Comecemos do marco    zero desta Teoria, da famosa pr&eacute;-hist&oacute;ria da psican&aacute;lise,    datada nos fins do s&eacute;culo XIX. Nesse momento, Freud desenvolve uma s&eacute;rie    de reflex&otilde;es que nomeia de Teoria da Sedu&ccedil;&atilde;o. O que isso    quer dizer?</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Sabemos bem que    o fen&ocirc;meno patol&oacute;gico que ocupa de forma privilegiada a mente de    Freud nesse per&iacute;odo &eacute; a histeria. E sua grande inquieta&ccedil;&atilde;o    &eacute; a seguinte : &eacute; l&oacute;gico compreender a repress&atilde;o    ps&iacute;quica da dor. Qualquer organismo vivo foge da dor como o diabo da    cruz. Por&eacute;m, como compreender a repress&atilde;o do prazer? Afinal, &eacute;    com esse mecanismo que a histeria se instaura.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Emmy von N . Lucy    R., Katarina, Elizabeth von R., Emma: todos esses casos cl&iacute;nicos constitutivos    dos esfor&ccedil;os te&oacute;rico-cl&iacute;nicos de Freud p&otilde;em, num    primeiro plano, a representa&ccedil;&atilde;o ps&iacute;quica de um tio que    se transmuta em pai gradativamente, como figura real desencadeadora de uma experi&ecirc;ncia    sexual que ira traumatizar a crian&ccedil;a. Vale a pena seguir a constata&ccedil;&atilde;o    constrangedora que Freud &eacute; for&ccedil;ado a fazer a prop&oacute;sito    do n&uacute;cleo da histeria: seriam todos os pais sedutores dos seus filhos?    A experi&ecirc;ncia er&oacute;tica de prazer que as hist&eacute;ricas escamoteiam    com as suas lembran&ccedil;as encobridoras, foi de fato inauguradas por seus    pais?</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Sabemos hoje o    quanto foi sofr&iacute;vel para o pr&oacute;prio Freud realizar esse percurso.    As cartas dirigidas a Fliess se constituem num bloco de documentos que nos oferece    o invent&aacute;rio de sua solid&atilde;o e do seu constrangimento frente &agrave;s    sucessivas aproxima&ccedil;&otilde;es da verdade que a histeria ia lhe apresentando.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Na angustia daqueles    dias, parecia absurdo que o trauma ps&iacute;quico que determina a histeria    tivesse um estofo sexual e que isto, do ponto de vista da realidade, fosse engendrado    pelos pais. No final das contas, nos idos de 1896, Freud postula :</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>&#8220;At&eacute;      conjeturo que as t&atilde;o freq&uuml;entes inven&ccedil;&otilde;es de atentados      a que costumam se entregar as hist&eacute;ricas s&atilde;o inventos compulsivos      que partem da marca mn&ecirc;mica do trauma infantil.&#8221;</i><a href="#2"><sup>1</sup>      </a><a name="1"></a><a href="$2"></a></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> No esfor&ccedil;o    para solucionar o problema te&oacute;rico da histeria que diz respeito &agrave;    repress&atilde;o ao prazer<a href="#4"><sup>2</sup></a><a name="3"></a> , Freud esbo&ccedil;a    na carta de 6 de Dezembro de 1896 a id&eacute;ia de <i>complexidade ps&iacute;quica</i>.    &Eacute; o nuan&ccedil;amento desta id&eacute;ia que vai encaminhar a solu&ccedil;&atilde;o    para o problema do valor atribu&iacute;do ao discurso hist&eacute;rico. Acompanhemos    os movimentos da carta que, por si, d&atilde;o conta dos novos caminhos que    est&atilde;o se abrindo para o objeto psicanal&iacute;tico, o psiquismo, dando-lhe    cidadania enquanto fator causador das doen&ccedil;as nervosas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No texto, a complexidade    ps&iacute;quica &eacute; apresentada por meio de uma met&aacute;fora extra&iacute;da    da arqueologia, a saber, a estratifica&ccedil;&atilde;o:</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>&#8220;...      estou trabalhando na hip&oacute;tese de que o nosso mecanismo ps&iacute;quico      tenha se formado por um processo de estratifica&ccedil;&atilde;o: o material      presente sob a forma de tra&ccedil;os mn&ecirc;micos fica sujeito, de tempos      em tempos, a um rearranjo, de acordo com as novas circunst&acirc;ncias &#8211;      a uma nova retranscri&ccedil;&atilde;o.&#8221;</i><a href="#6"><sup>3</sup></a><a name="5"></a></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O que revela esse    trecho? Recordemos que na Teoria da Sedu&ccedil;&atilde;o, o trauma ps&iacute;quico    era um comp&oacute;sito que se desdobrava no m&iacute;nimo em duas cenas (naquele    contexto aludia-se que a multidetermina&ccedil;&atilde;o do sintoma estaria    colada a uma sucess&atilde;o de ocorr&ecirc;ncias justapostas no interior do    psiquismo).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nestes novos ventos    te&oacute;ricos, esta possibilidade torna-se uma exig&ecirc;ncia e pode ser    tripartida do seguinte modo: 1. A mem&oacute;ria n&atilde;o se faz de um s&oacute;    golpe, mas de uma sucess&atilde;o de registros; 2. Tais registros s&atilde;o    pass&iacute;veis de sofrer uma reordena&ccedil;&atilde;o temporal (ou seja,    come&ccedil;a a ganhar corpo a id&eacute;ia de fases ps&iacute;quicas pelas    quais o sujeito humano passa); 3. Esses arranjos temporais s&atilde;o realizados    a partir de circunst&acirc;ncias, ou seja, a partir das aquisi&ccedil;&otilde;es    realizadas por cada fase ps&iacute;quica.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Essa guinada na    perspectiva da atribui&ccedil;&atilde;o de valor ao discurso hist&eacute;rico    e, em &uacute;ltima inst&acirc;ncia, da legitimidade do psiquismo como uma realidade    competente na instaura&ccedil;&atilde;o de estados ps&iacute;quicos inova na    medida em que centra a sua aten&ccedil;&atilde;o n&atilde;o mais exclusivamente    na facticidade ou historicidade das experi&ecirc;ncias narradas no espa&ccedil;o    da cl&iacute;nica. Muito simplesmente: n&atilde;o &eacute; a fidelidade factual    da cena que mais interessa agora<a href="#8"><sup>4</sup></a><a name="7"></a> . </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em contrapartida    se acentua o valor atribu&iacute;do &agrave;s elabora&ccedil;&otilde;es que    resultam dos arranjos constantes dos extratos ps&iacute;quicos, mesmo que nestes    arranjos a transpar&ecirc;ncia<a href="#10"><sup>5</sup></a><a name="9"></a> dos fatos    n&atilde;o seja a resultante e, portanto, se afigure como distor&ccedil;&atilde;o    de ocorr&ecirc;ncias, mesmo assim elas encerram uma verdade. E mais que tudo:    na nova hip&oacute;tese metapsicol&oacute;gica essa produ&ccedil;&atilde;o intestina    n&atilde;o &eacute; um corpo estranho internalizado (como o era na teoria da    sedu&ccedil;&atilde;o), mas uma deriva&ccedil;&atilde;o do desejo, parte integrante    da pr&oacute;pria estrutura ps&iacute;quica humana.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Como se afigura    o psiquismo, nesta nova concep&ccedil;&atilde;o, mediante a qual a complexidade    dos processos ps&iacute;quicos pode ser concebida em sua plenitude? Na trilha    do fio condutor que persegu&iacute;amos, como justificar que as neuroses resultem    da repress&atilde;o ao prazer?</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A sa&iacute;da    freudiana &eacute; supor uma estrutura complexa do psiquismo. De acordo com    ela, y teria ao menos tr&ecirc;s registros diferentes:</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">1. Um primeiro    que se ordena de elementos derivados da percep&ccedil;&atilde;o, caracterizado    pelo predom&iacute;nio da lei da simultaneidade. Vale dizer, &eacute; a inst&acirc;ncia    ps&iacute;quica que recebe os impactos como aparecem: mesmo d&iacute;spares,    alheios, diferentes, ao se apresentarem para esta inst&acirc;ncia ao mesmo tempo,    a&iacute; se inscrevem como parceiros. Outra caracter&iacute;stica &eacute;    a absoluta inacessibilidade da consci&ecirc;ncia a este &#8220;caldeir&atilde;o&#8221;    das deriva&ccedil;&otilde;es ps&iacute;quicas;</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">2. Freud nomeia    Unbewusstsein a segunda inst&acirc;ncia ps&iacute;quica. Ela se ordena mediante    rela&ccedil;&otilde;es causais, o que significa estabelecer no interior de y    um topos no qual a inten&ccedil;&atilde;o, a despeito das apar&ecirc;ncias do    sintoma, por exemplo, &eacute; o elemento privilegiado para engendrar os processos    ps&iacute;quicos<a href="#12"><sup>6</sup></a><a name="11"></a>. Nessa medida eles s&atilde;o    o efeito ao qual corresponde uma causa. N&atilde;o s&atilde;o ocorr&ecirc;ncias    aleat&oacute;rias, mas obedecem a uma delibera&ccedil;&atilde;o causal. Esse    sistema tamb&eacute;m &eacute; inconsciente.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">3. O terceiro registro    &eacute; o Vorbewusstsein. Ele se caracteriza por estar vinculado &agrave; representa&ccedil;&atilde;o    de palavra. A esta inst&acirc;ncia corresponde o &#8220;eu&#8221;. Suas produ&ccedil;&otilde;es    n&atilde;o s&atilde;o conscientes a priori, mas s&atilde;o pass&iacute;veis    de consci&ecirc;ncia se certas regras s&atilde;o obedecidas. Neste ponto, Freud    indica o que a n&oacute;s cabe p&ocirc;r em relevo:</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>&#8220;...      e essa consci&ecirc;ncia secund&aacute;ria do pensamento &eacute; posterior      no tempo e, provavelmente, est&aacute; ligada &agrave; ativa&ccedil;&atilde;o      alucinat&oacute;ria da representa&ccedil;&atilde;o de palavra, de modo que      os neur&ocirc;nios da consci&ecirc;ncia sejam tamb&eacute;m neur&ocirc;nios      perceptivos e desprovidos de mem&oacute;ria em si mesmos &#8221;</i><a href="#14"><sup>7</sup></a><a name="13"></a>      </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O trecho segreda    alguns elementos que vale a pena evidenciar j&aacute; que se referem a uma justificativa    te&oacute;rica das produ&ccedil;&otilde;es ps&iacute;quicas: em primeiro lugar    que a consci&ecirc;ncia &eacute; uma produ&ccedil;&atilde;o derivada de for&ccedil;as    inconscientes e que, do ponto de vista cronol&oacute;gico, &eacute; uma aquisi&ccedil;&atilde;o    posterior a todo processo. Se quisermos, o eu pouco determina no engendramento    dos processos ps&iacute;quicos, melhor seria dizer, o trabalho do eu aparece    na reta final de todo o trabalho ps&iacute;quico como resultante deste pr&oacute;prio    processo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Mas n&atilde;o    &eacute; s&oacute;: esta ordem da consci&ecirc;ncia liga-se &agrave; anima&ccedil;&atilde;o    alucinat&oacute;ria da representa&ccedil;&atilde;o de palavra<a href="#16"><sup>8</sup></a><a name="15"></a>    que surge na finaliza&ccedil;&atilde;o do processo ps&iacute;quico, quando da    exig&ecirc;ncia da comunica&ccedil;&atilde;o. Mas em sua totalidade esse processo    se faz mediante uma complexa estrutura ps&iacute;quica inconsciente, que ao    engendrar as suas produ&ccedil;&otilde;es dispensa uma ordem consciente. Ali&aacute;s,    a for&ccedil;a da consci&ecirc;ncia secund&aacute;ria &eacute; extra&iacute;da    do processo ps&iacute;quico inconsciente. Nos termos freudianos: os processos    prim&aacute;rios engendram os secund&aacute;rios.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Frente a esta nova    estrutura do aparato an&iacute;mico indaga-se: o que determina os processos    patol&oacute;gicos? No rastro da complexidade ps&iacute;quica Freud sup&otilde;e    um maior nuan&ccedil;amento dos processos que ali se efetivam: em cada fase    da vida se realiza uma configura&ccedil;&atilde;o, um registro que compor&aacute;    o acervo mnem&ocirc;nico do indiv&iacute;duo. As fases se sucedem e tal fato    exige um rearranjo das configura&ccedil;&otilde;es anteriores: os registros    daquelas fases deveriam estar presentes nas fases posteriores (qual caleidosc&oacute;pio    que sob um dado movimento realiza uma nova ordena&ccedil;&atilde;o) reconfiguradas    nos arranjos pr&oacute;prios da nova fase.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Entretanto, no    caso das patologias, essa conforma&ccedil;&atilde;o nova do registro (a qual    Freud nomeia de retranscri&ccedil;&atilde;o) n&atilde;o se efetiva, o que implica    que a excita&ccedil;&atilde;o seja:</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> <i>&#8220;...      tratada de acordo com as leis psicol&oacute;gicas vigentes noper&iacute;odo      ps&iacute;quico precedente e seguindo as vias abertas naquela &eacute;poca.      Assim, persiste um anacronismo...&#8221;</i><a href="#18"><sup>9</sup></a><a name="17"></a></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Aqui temos explicitada    a estrutura do recalque. Seu mote est&aacute; radicado na libera&ccedil;&atilde;o    do desprazer ocasionado pela transcri&ccedil;&atilde;o de elementos de um registro    anterior no atual. Isso se verifica acentuadamente no caso da vida sexual: houve    uma excita&ccedil;&atilde;o, mas seu registro n&atilde;o compreende nenhum sentido    na inf&acirc;ncia<a href="#20"><sup>10</sup></a><a name="19"></a> . Na reativa&ccedil;&atilde;o    desta lembran&ccedil;a, um desprazer &eacute; produzido em intensidade n&atilde;o    control&aacute;vel, n&atilde;o inib&iacute;vel.</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>&#8220;Portanto,      um evento sexual de uma fase, atua na fase seguinte como se fosse um evento      atual e, por conseguinte, n&atilde;o &eacute; pass&iacute;vel de inibi&ccedil;&atilde;o.      O que determina a defesa patol&oacute;gica (o recalcamento), portanto, &eacute;      a natureza sexual do evento e sua ocorr&ecirc;ncia numa fase posterior.&#8221;</i><a href="#22"><sup>11</sup>      </a><a name="21"></a><a href="#22"></a></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Essa mesma f&oacute;rmula    se aplica sobre as ocorr&ecirc;ncias prazerosas. Ao serem reproduzidas provocam    uma descarga ligada ao prazer: deste modo temos uma compuls&atilde;o. Mesmo    que esta ocorr&ecirc;ncia seja re-evocada em uma fase que a torna impertinente    e anacr&ocirc;nica, ela se efetiva porque as metas ps&iacute;quicas est&atilde;o    a&iacute; contempladas em seu car&aacute;ter absoluto. No dizer de Freud:</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>&#8220;...      quando uma experi&ecirc;ncia sexual &eacute; recordada numa fase diferente,      a descarga de prazer &eacute; acompanhada por uma compuls&atilde;o, e a descarga      de desprazer, pelo recalcamento.&#8221;</i><a href="#24"><sup>12</sup></a><a name="23"></a></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O que se verifica    &eacute; que tanto no caso do desprazer, como no do prazer, o psiquismo se recusa    a atualizar os elementos de mem&oacute;ria. Em assim procedendo, as refer&ecirc;ncias    coladas sobre as aquisi&ccedil;&otilde;es das novas fases ficam alijadas dos    processos ps&iacute;quicos. Em &uacute;ltima inst&acirc;ncia, em quaisquer dos    mecanismos se evita o desprazer que ocorreria caso uma tradu&ccedil;&atilde;o    fosse efetivada. Manter vivas em contextos diversos as constela&ccedil;&otilde;es    de mem&oacute;ria constitu&iacute;das numa fase pret&eacute;rita cumpre o duplo    papel de oferecer ao psiquismo a repeti&ccedil;&atilde;o do prazer e a evita&ccedil;&atilde;o    de um desprazer.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nesse novo contexto    te&oacute;rico das elabora&ccedil;&otilde;es freudianas, as id&eacute;ias que    se seguem apontam para a complexidade com que s&atilde;o contemplados os sistemas    e os processos ps&iacute;quicos: 1. M&uacute;ltiplos sistemas que cumprem um    papel determinante na morfologia pat&oacute;gena; 2. Inscri&ccedil;&otilde;es    m&uacute;ltiplas condicionadas pelas fases do desenvolvimento humano; 3. Com&eacute;rcio    dessas inscri&ccedil;&otilde;es entre os sistemas nomeados por Freud de transcri&ccedil;&otilde;es;    4. Anacronismo decorrente de uma transcri&ccedil;&atilde;o n&atilde;o efetivada    num novo contexto; 5. Coabita&ccedil;&atilde;o de um duplo registro: o recalcado    e o seu substituto (aquele que &eacute; mais ou menos fidedigno &agrave; cena    de sedu&ccedil;&atilde;o e aquele derivado deste, que alucina a sedu&ccedil;&atilde;o    e produz uma constela&ccedil;&atilde;o ps&iacute;quica, uma realidade para al&eacute;m    do factual, a fantasiosa) numa dada fase ps&iacute;quica. Essa complexidade    exibe uma opera&ccedil;&atilde;o pr&oacute;pria do aparato an&iacute;mico, que    apoiado nos elementos registrados da realidade (externa) reordena e reinventa    novas formas de registro, o que implica conceber como atuante e de forma privilegiada    uma realidade ps&iacute;quica (interna) que altera o registro mais primitivo.</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>&#8220;Fico      muito satisfeito, por&eacute;m, com a recep&ccedil;&atilde;o dada &agrave;s      minhas fantasias. Sei que voc&ecirc; as coloca no lugar certo, investiga estes      pontos de vista um pouco mais e n&atilde;o me encara nem como um devaneador,      pelo fato de eu comunicar essas coisas incompletas, nem como tolo, que, por      essa raz&atilde;o, acredita estar acima da investiga&ccedil;&atilde;o minuciosa      e da corre&ccedil;&atilde;o. Trata-se de s&iacute;nteses e &#8220;working      hypothesis&#8221;, que podemos trocar um com o outro sem preocupa&ccedil;&atilde;o.&#8221;</i><a href="#26"><sup>13</sup></a><a name="25"></a>      </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&Eacute; deste    modo que Freud se dirige a Fliess em 17 de Dezembro de 1896 qualificando seu    trabalho com o material ps&iacute;quico como sendo da ordem da fantasia. Mas    esta id&eacute;ia da fantasia aplicada ao pr&oacute;prio trabalho (e n&atilde;o    somente ao material inventariado pela cl&iacute;nica e elaborado metapsicologicamente),    tem duas refer&ecirc;ncias negativas: 1. N&atilde;o se refere ao devaneio delineado    no embate com os casos cl&iacute;nicos, isto &eacute;, seu esfor&ccedil;o intelectual    n&atilde;o se inscreve na ordem das produ&ccedil;&otilde;es ps&iacute;quicas    desprovidas de controle, mas, longe disso, &eacute; algo que as evid&ecirc;ncias    da cl&iacute;nica incitam a pensar com uma certa l&oacute;gica que as ordena    e justifica<a href="#28"><sup>14</sup></a><a name="27" id="27"></a> ; 2. Que n&atilde;o se trata    de um trabalho improf&iacute;cuo e tolo como pretenderam Kraft Ebing<a href="#30"><sup>15</sup></a><a name="29"></a>    , Meynert<a href="#32"><sup>16</sup></a><a name="31"></a> e agora Breuer<a href="#34"><sup>17</sup></a><a name="33" id="33"></a>    , mas de um esfor&ccedil;o absolutamente necess&aacute;rio e pertinente frente    ao esgotamento da neurologia<a href="#36"><sup>18</sup></a><a name="35"></a>. Esse trabalho    flagra realidades imposs&iacute;veis de serem registradas pelas lentes laboratoriais.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Por outro lado,    esse esfor&ccedil;o tem uma refer&ecirc;ncia positiva: ele se inscreve no seio    de uma <i>&#8220;investiga&ccedil;&atilde;o minuciosa e de corre&ccedil;&atilde;o&#8221;</i>.    Em outros termos: &eacute; um esfor&ccedil;o cient&iacute;fico extra c&acirc;non    ortodoxo. Entretanto, rigor e validade do resultado observado tornam pertinentes    as constru&ccedil;&otilde;es te&oacute;ricas agora oferecidas a esse universo    das psicopatologias.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Todo esse percurso    te&oacute;rico aqui rastreado mostra que Freud supera sua desconfian&ccedil;a    relativamente ao grau de verdade que habita o discurso hist&eacute;rico. Trata-se    de uma verdade o atentado dos pais &agrave; inoc&ecirc;ncia de suas filhas?    Descentrando o foco deste ponto Freud faz emergir o problema da natureza da    verdade deste mesmo discurso: o que diz a hist&eacute;rica, ou o que esse dizer    porta?</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>&#8220;...      adquiri uma no&ccedil;&atilde;o segura da histeria. Tudo remonta a reprodu&ccedil;&atilde;o      de cenas do passado. A algumas se pode chegar diretamente, e a outras por      meio de fantasias que se erguem &agrave; frente delas. As fantasias prov&ecirc;m      de coisas que foram ouvidas, mas s&oacute; posteriormente entendidas, e todo      o material delas, &eacute; claro, &eacute; verdadeiro. S&atilde;o estruturas      protetoras, sublima&ccedil;&otilde;es dos fatos, embelezamento deles e, ao      mesmo tempo, servem para o al&iacute;vio pessoal.&#8221;</i><a href="#38"><sup>19</sup></a><a name="37"></a></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">E mais adiante,    nesta carta de dois de Maio de 1897 acrescenta:</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>&#8220;Apercebo-me      agora de que todas as tr&ecirc;s neuroses (histeria, neurose obsessiva e paran&oacute;ia)      exibem os mesmo elementos (ao lado da mesma etiologia), quais sejam, fragmentos      de mem&oacute;ria, impulsos (derivados das lembran&ccedil;as) e fic&ccedil;&otilde;es      protetoras; mas a irrup&ccedil;&atilde;o na consci&ecirc;ncia, a forma&ccedil;&atilde;o      de solu&ccedil;&atilde;o de compromissos (isto &eacute;, sintomas), ocorre      nelas em pontos diferentes. Na histeria s&atilde;o as reminisc&ecirc;ncias,      na neurose obsessiva os impulsos perversos, na paran&oacute;ia as fic&ccedil;&otilde;es      protetoras (fantasias) que penetram na vida normal, em meio a distor&ccedil;&otilde;es      devidas a solu&ccedil;&atilde;o de compromisso.&#8221;</i><a href="#40"><sup>20</sup></a><a name="39"></a>      </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A morfologia das    psiconeuroses exibe deste modo a operatividade ps&iacute;quica: ela sempre se    d&aacute; mediante desvios, deslocamentos, distor&ccedil;&otilde;es, fantasias    (e no caso patol&oacute;gico, que &eacute; o que aqui nos interessa, nunca direta    e transparentemente). Nessa medida, a fantasia enquanto estrat&eacute;gia ps&iacute;quica    &eacute; concebida negativamente: ela distorce os res&iacute;duos que o psiquismo    registra e gra&ccedil;as a uma tal distor&ccedil;&atilde;o n&atilde;o se pode    a eles acessar fidedignamente. Em outros termos: a concep&ccedil;&atilde;o de    fantasia ainda n&atilde;o recebeu o estatuto de categoria psicanal&iacute;tica;    contudo, j&aacute; se concebe o modo imperativo de funcionamento do psiquismo:    ele se processa dando saltos qualitativos na composi&ccedil;&atilde;o ou configura&ccedil;&atilde;o    ps&iacute;quica, exibindo uma ordem do real entran&ccedil;ada pelos vest&iacute;gios    de mem&oacute;ria e pelas cria&ccedil;&otilde;es ficcionais que da&iacute; despontam    efusivamente.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Mas &eacute;, sobretudo    com a carta de 21 de Setembro de 1897 que assistiremos Freud sedimentar a id&eacute;ia    de que a sua investiga&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; do tipo Sherlockholmiana<a href="#42"><sup>21</sup></a><a name="41"></a>    , isto &eacute;, pautada na persegui&ccedil;&atilde;o exclusiva dos ind&iacute;cios    da factualidade. Afinal, trata-se de uma verdade constatada a invas&atilde;o    da sexualidade do adulto no mundo infantil? A pr&oacute;pria natureza do seu    objeto investigativo lhe exige uma outra operatividade para que possam ser compreendidos    os processos efetivados no aparato an&iacute;mico.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O elenco das decep&ccedil;&otilde;es    com a teoria da sedu&ccedil;&atilde;o j&aacute; foi inventariado &agrave; exaust&atilde;o    pelos historiadores da psican&aacute;lise<a href="#44"><sup>22</sup></a><a name="43"></a>    . &Agrave; guisa de contextualiza&ccedil;&atilde;o, apontemos as ordens dessas    decep&ccedil;&otilde;es para nos centrarmos naquela que nos interessa: 1. A    primeira decep&ccedil;&atilde;o diz respeito ao m&eacute;todo. A an&aacute;lise    ps&iacute;quica em nenhum dos casos cl&iacute;nicos permitiu aportar no factual.    O que implica reconhecer que os discursos das psiconeuroses nunca permitiram    compor um quadro que legitime a identidade entre viv&ecirc;ncia e recorda&ccedil;&atilde;o.    2. A outra diz respeito &agrave; hip&oacute;tese estat&iacute;stica: atentados    de adultos sobre crian&ccedil;as ocorrem, mas para que se constituam em causa    das patologias &eacute; necess&aacute;rio que sejam universais. Em outras palavras,    todos os pais precisariam seduzir os seus filhos. Ora, isso contraria o bom    senso. 3. &Eacute; a decep&ccedil;&atilde;o de ordem metapsicol&oacute;gica    que permite elaborar conceitos de outro modo impens&aacute;veis:</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> <i>&#8220;...n&atilde;o      h&aacute; indica&ccedil;&otilde;es de realidade no inconsciente, de modo que      n&atilde;o se pode distinguir entre a verdade e a fic&ccedil;&atilde;o que      foram catexizados pelo afeto (por conseguinte, restaria a solu&ccedil;&atilde;o      de que a fantasia sexual se prende invariavelmente ao tema dos pais).&#8221;</i><a href="#46"><sup>23</sup></a><a name="45"></a></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> 4. E ainda: na    psicose se constata que o registro inconsciente &eacute; inacess&iacute;vel    pela consci&ecirc;ncia.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A quest&atilde;o    que problematiza a origem do desejo recebe com o item tr&ecirc;s um acr&eacute;scimo    que clarifica os processos ps&iacute;quicos: no registro inconsciente n&atilde;o    se inscrevem signos de realidade. Disso Freud j&aacute; desconfiava e, em certa    medida, j&aacute; o afirmava na carta 112.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O que ali se inscreve ent&atilde;o? &Eacute; o discurso psiconeur&oacute;tico    que vai responder ao questionamento: aquilo que o inconsciente forja de seu    pela incita&ccedil;&atilde;o do afeto. Por exemplo, no seu discurso a hist&eacute;rica    encobre uma er&oacute;tica entredita, porque interditada. Ao se expressar, seu    discurso exp&otilde;e uma sedu&ccedil;&atilde;o que em seu escamoteamento deve    ser traduzido por um desejo de ser seduzida. No fundo a &#8220;expressividade    pat&oacute;gena&#8221; isola o que est&aacute; disperso na vida normal. O pr&oacute;prio    Freud pode ser paradigma dessa constata&ccedil;&atilde;o:<a href="#48"><sup>24</sup></a><a name="47"></a>    </font></p>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> <i>&#8220;Descobri,      tamb&eacute;m em meu pr&oacute;prio caso, o fen&ocirc;meno de me apaixonar      por mam&atilde;e e ter ci&uacute;me de papai, e agora considero um acontecimento      universal do in&iacute;cio da inf&acirc;ncia, mesmo que n&atilde;o ocorra      t&atilde;o cedo quanto nas crian&ccedil;as que se tornam hist&eacute;ricas.&#8221;</i><a href="#50"><sup>25</sup>      </a><a name="49"></a><a href="#50"></a></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A despeito do impasse    da universaliza&ccedil;&atilde;o (que aponta para a imerg&ecirc;ncia do desejo    somente nas crian&ccedil;as que se tornam hist&eacute;ricas) Freud j&aacute;    d&aacute; passos significativos no reconhecimento de sua origem. Experimentamos    na tenra inf&acirc;ncia transitar o tri&acirc;ngulo amoroso constitu&iacute;do    pelo trip&eacute; pai-m&atilde;e-filho. E os dois primeiros suportes desta tr&iacute;ade    se constituem no ponto de apoio e de partida para o trabalho da fantasia que,    originariamente, &eacute; edipiana:</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>&#8220;...    a lenda grega capta uma compuls&atilde;o que todos reconhecem, pois cada um    pressente sua exist&ecirc;ncia em si mesmo. Cada pessoa da plat&eacute;ia foi,    um dia, um &Eacute;dipo em potencial na fantasia, e cada um recua, horrorizado,    diante da realiza&ccedil;&atilde;o de sonho ali transplantada para a realidade,    com toda a carga de recalcamento que separa seu estado infantil do estado atual.&#8221;</i><a href="#52"><sup>26</sup>    </a><a name="51"></a><a href="#52"></a></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A trag&eacute;dia    grega faz uma suspens&atilde;o da vida ordin&aacute;ria, e no espa&ccedil;o    extraordin&aacute;rio teatral, mobiliza os espectadores ao reconhecimento (ainda    que exteriorizado nos personagens) da realiza&ccedil;&atilde;o do desejo que    cada um porta.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Esse desejo, reiteremos,    se ancora na mem&oacute;ria da experi&ecirc;ncia de prazer que um dia tivemos.    Essa experi&ecirc;ncia de prazer passa, necessariamente, pela corporeidade,    isto &eacute;, pelas zonas er&oacute;genas. N&atilde;o nos compete desenvolver    o v&iacute;nculo entre mem&oacute;ria e zonas er&oacute;genas, mas mantenhamos    viva a lembran&ccedil;a de que a no&ccedil;&atilde;o de <i>complexidade ps&iacute;quica</i>    envolve tamb&eacute;m a concep&ccedil;&atilde;o de fases da vida nas quais,    do ponto de vista biol&oacute;gico, se privilegia uma dada parte do corpo como    o l&oacute;cus onde as sensa&ccedil;&otilde;es ganham vulto e incitam as inscri&ccedil;&otilde;es    ps&iacute;quicas.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Levantar a quest&atilde;o    da origem do desejo &eacute;, em primeiro lugar, apontar para este lugar parceiro    do biol&oacute;gico, o ps&iacute;quico, mediante o qual se processa o desejo    humano. A natureza desta produ&ccedil;&atilde;o, j&aacute; o indicamos, &eacute;    ps&iacute;quica, o que significa dizer que: 1. A representa&ccedil;&atilde;o    tem primazia frente &agrave; sensa&ccedil;&atilde;o na perspectiva an&iacute;mica;    2. A representa&ccedil;&atilde;o &eacute; mais forte que a sensa&ccedil;&atilde;o,    dado que a re-evoca&ccedil;&atilde;o sup&otilde;e uma experi&ecirc;ncia antecedente    que, do ponto de vista qualitativo &eacute; in&oacute;cua, e s&oacute; se torna    operante posteriormente, quando da atribui&ccedil;&atilde;o do sentido a esta    viv&ecirc;ncia; 3. Mediante a representa&ccedil;&atilde;o a mem&oacute;ria se    constitui (e a mem&oacute;ria &eacute; inconsciente e assegura a vida); a representa&ccedil;&atilde;o    tem o estatuto de produ&ccedil;&atilde;o real ps&iacute;quica.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>&#8220;A libera&ccedil;&atilde;o    da sexualidade (como voc&ecirc; sabe, tenho em mente uma esp&eacute;cie de secre&ccedil;&atilde;o    que &eacute; justamente sentida como o estado interno da libido) &eacute; promovida,    portanto, n&atilde;o s&oacute; 1. Atrav&eacute;s da estimula&ccedil;&atilde;o    perif&eacute;rica dos &oacute;rg&atilde;os sexuais, ou 2. Atrav&eacute;s das    excita&ccedil;&otilde;es internas provenientes desses &oacute;rg&atilde;os,    mas tamb&eacute;m 3. Das id&eacute;ias, ou seja, dos tra&ccedil;os mn&ecirc;micos    &#8211; logo, tamb&eacute;m, por interm&eacute;dio da a&ccedil;&atilde;o retardada.&#8221;</i><a href="#54"><sup>27</sup></a><a name="53"></a>    </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O psiquismo d&aacute;    exist&ecirc;ncia a realidades que n&atilde;o t&ecirc;m propriamente materialidade.    Tais realidades s&atilde;o as fantasias. Se antes elas eram o negativo do real    material, agora elas se apresentam como forma espec&iacute;fica de express&atilde;o    da realidade ps&iacute;quica.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nessa perspectiva,    &Eacute;dipo resulta dessa atividade. A um s&oacute; tempo ele subsume um duplo    aspecto: o de ser produto de um processo (edipianamente falando, m&atilde;e    e pai n&atilde;o s&atilde;o correspondentes id&ecirc;nticos das figuras reais    hist&oacute;ricas) apoiado (e desencadeado a partir de) em fun&ccedil;&otilde;es    biol&oacute;gicas, das quais se torna independente; o de ser um elemento estruturante    dessa f&aacute;brica de fantasias que &eacute; o aparato an&iacute;mico, mediante    o qual o humano d&aacute; identidade e legitimidade aos seus produtos, que num    s&oacute; tempo se ap&oacute;ia na realidade, mas dele se destaca produzindo    realidades ps&iacute;quicas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nessa medida a    fantasia implica uma positividade, pois por seu interm&eacute;dio o universo    propriamente humano &eacute; institu&iacute;do.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Pode-se afirmar    que uma aproxima&ccedil;&atilde;o est&aacute; sendo realizada no interior do    itiner&aacute;rio freudiano entre o ps&iacute;quico e o real. Desta aproxima&ccedil;&atilde;o    emerge a concep&ccedil;&atilde;o de realidade ps&iacute;quica. Sobre ela n&atilde;o    se aplicam adequadamente as categorias que tentam extrair-lhe uma facticidade    e uma historicidade exclusivas. Esse n&atilde;o &eacute; o foco exclusivo mesmo    no contexto da teoria da sedu&ccedil;&atilde;o (N&atilde;o nos esque&ccedil;amos    do n&uacute;cleo das no&ccedil;&otilde;es de cena, trauma e posterioridade.    Num dado hiato, a alma opera e de sua operatividade surgem os seus produtos.    Se naquele contexto ainda n&atilde;o contemplamos uma certa relativiza&ccedil;&atilde;o    no que diz respeito &agrave; realidade factual, com o advento do <i>Complexo    de &Eacute;dipo</i> essa relativiza&ccedil;&atilde;o &eacute; encetada e o    privil&eacute;gio da perspectiva freudiana deslocado de lugar).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">As quest&otilde;es    mais pertinentes n&atilde;o se situam, portanto, na verifica&ccedil;&atilde;o    detetivesca, material, factual. A valora&ccedil;&atilde;o do discurso, a escuta    anal&iacute;tica v&atilde;o se justificando do ponto de vista metapsicol&oacute;gico    justamente porque formula as quest&otilde;es: O que as fantasias portam? O que    elas s&atilde;o em si pr&oacute;prias? Para qual realidade apontam?</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Tudo isso nos conduz,    enfim, na dire&ccedil;&atilde;o da constata&ccedil;&atilde;o do lugar ocupado    pela representa&ccedil;&atilde;o paterna na Teoria Freudiana que se exfor&ccedil;a    por explicar o funcionamento ps&iacute;quico. Na refer&ecirc;ncia a esta representa&ccedil;&atilde;o,    o aparato ps&iacute;quico processa, realiza, recalca desejo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Esse , podemos    afirmar, &eacute; o momento zero da Teoria Freudiana. Sabemos que a concep&ccedil;&atilde;o    edipiana do aparato ps&iacute;quico vem introduzir um sem numero de vividades    que exigiriam de nos uma outra reflex&atilde;o, postergada para um momento mais    oportuno. Assim como o esfor&ccedil;o freudiano em 1913 para dar conta da universaliza&ccedil;&atilde;o    dos processos ps&iacute;quicos, supondo uma horda destinada a ser cl&atilde;,    de cujo processo a figura paterna tamb&eacute;m &eacute; central. Mas esses    dois passos requerem uma reflex&atilde;o mais demorada e complementar desse    primeiro, dado modestamente aqui, neste espa&ccedil;o.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>      <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a href="#A"><sup>*</sup></a><a name="B"></a> Esta confer&ecirc;ncia foi    apresentada na XII Jornada do C&iacute;rculo Psicanal&iacute;tico da Bahia,    em novembro/2000    <br>   <a href="#C"><sup>**</sup></a><a name="D"></a> Psicanalista, Especialista e Mestre em Psican&aacute;lise    e Doutor em Filosofia pela Unicamp, pesquisador do CNPQ da PUC/SP (1995-1999),    atualmente Professor da Faculdade Ruy Barbosa e Universidade Cat&oacute;lica    <br>   <a href="#1"><sup>1</sup></a><a name="2" id="2"></a> FREUD, S. &#8220;Novas Pontua&ccedil;&otilde;es    sobre as Neuropsicoses de defesa&#8221;. SE Vol.III    <br>   <a href="#3"><sup>2</sup></a><a name="4" id="4"></a> &Eacute; o automatismo promovido pela    quantidade a explica&ccedil;&atilde;o fornecida por Freud para a repress&atilde;o    ao prazer. Tal repress&atilde;o n&atilde;o seria fruto de um conflito, dado    que o modelo ps&iacute;quico constru&iacute;do at&eacute; o &#8220;Projeto de    uma Psicologia&#8221; soluciona a fuga da dor e a busca do prazer. E ao falarmos    em automatismo pomos em relevo a incompatibilidade te&oacute;rica da intencionalidade,    j&aacute; reconhecida a n&iacute;vel cl&iacute;nico.    <br>   Tr&ecirc;s cartas podem ser mencionadas como preparat&oacute;rias da guinada    que Freud est&aacute; por dar: em 15/10/95 (&#8220;Correspond&ecirc;ncia deFfreud    &agrave; Fliess&#8221; Assoun, P.L. Imago Ed. 1985 p. 145) ele remata a defasagem    entre a prematuridade biol&oacute;gica e ps&iacute;quica: ocorr&ecirc;ncias    sexuais podem se dar antes da puberdade, e suas consequ&ecirc;ncias s&oacute;    se tornam efetivas a posteriori. Assim, a histeria decorreria de um trauma sexual    pr&eacute;-sexual e a neurose obsessiva de um prazer sexual pr&eacute;-sexual;    em 31/10/95 (&#8220;Correspond&ecirc;ncia...&#8221; pp. 148/9) se dilui a diferen&ccedil;a    entre quantidades interna/externa. Tudo o que afeta o psiquismo vem de dentro,    &eacute; interno; em 08/12/95 (&#8220;Correspond&ecirc;ncia...&#8221; pp. 155/6)    ganha for&ccedil;a a id&eacute;ia de oposi&ccedil;&otilde;es representacionais,    fator decisivo para que se firmem as id&eacute;ias de intencionalidade dos atos    ps&iacute;quicos, de defesa ps&iacute;quica, de repress&atilde;o ao prazer.    <br>   <a href="#5"><sup>3</sup></a><a name="6"></a> &laquo;Correspond&ecirc;ncia...&raquo; p.    208 {Carta de 6/12/1896}.     <br>   <a href="#7"><sup>4</sup></a><a name="8"></a> MASSON, J.F. &#8220;Atentado &agrave; Verdade&#8221;.    Ed. Jos&eacute; Olympio. (1984). [Vale a pena questionar se no texto indicado    o autor entendeu essa quest&atilde;o no seio do pensamento freudiano quando    tenta, for&ccedil;osamente, atribuir-lhe um sentido jornal&iacute;stico-criminal,    na sua terminologia nomeada de scherlockholmiana].    <br>   <a href="#9"><sup>5</sup></a><a name="10"></a> Chamamos transpar&ecirc;ncia o transporte    da viv&ecirc;ncia pela via da recorda&ccedil;&atilde;o: na express&atilde;o    desta &uacute;ltima, n&atilde;o importa mais questionar se tal ocorreu, como    ocorreu.     <br>   <a href="#11"><sup>6</sup></a><a name="12"></a> Embora n&atilde;o seja o nosso problema    mostrar como o inconsciente &eacute; o topos da intencionalidade e do estabelecimento    das rela&ccedil;&otilde;es causais no psiquismo, &eacute; relevante salientar    que as caracter&iacute;sticas que Freud est&aacute; atribuindo a este sistema    solidificam a concep&ccedil;&atilde;o de que ele &eacute; o determinante dos    atos ps&iacute;quicos. Quais s&atilde;o estas caracter&iacute;sticas? O material    presente no inconsciente representa legitimamente as puls&otilde;es; o processamento    desses conte&uacute;dos se efetiva obedecendo aos moldes prim&aacute;rios de    realiza&ccedil;&atilde;o de desejo; s&atilde;o eles (os conte&uacute;dos inconscientes)    que, privilegiadamente, recebem o trabalho da censura do Pr&eacute;-Consciente.    Deste modo, sintoma, sonho, ato falho e at&eacute; mesmo a religi&atilde;o n&atilde;o    s&atilde;o produ&ccedil;&otilde;es estranhas a essa esp&eacute;cie de usina    do desejo. Antes, ligam-se causal e intencionalmente a tal sistema.    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   <a href="#13"><sup>7</sup></a><a name="14"></a> &#8220;Correspond&ecirc;ncia...&#8221;    p. 209.    <br>   <a href="#15"><sup>8</sup></a><a name="16"></a> Desde o &#8220;Projeto...&#8221; a consci&ecirc;ncia    pode surgir no interior de um dado processo ps&iacute;quico por uma dupla via:    a via perceptual e a via da palavra. A consci&ecirc;ncia perceptual n&atilde;o    garante a substitui&ccedil;&atilde;o do processo prim&aacute;rio pelo secund&aacute;rio.    Isto seria tarefa da segunda consci&ecirc;ncia, fun&ccedil;&atilde;o atribu&iacute;da    &agrave; representa&ccedil;&atilde;o de palavra. Por exemplo, o grito quando    pensado como ato intencional, ao reproduzir sons apreendidos do objeto auxiliar    na experi&ecirc;ncia de satisfa&ccedil;&atilde;o (ou do objeto hostil na experi&ecirc;ncia    de dor), por se inscrever no circuito comunicativo, por estabelecer com o outro    uma rela&ccedil;&atilde;o de inten&ccedil;&otilde;es, se torna crit&eacute;rio    para a primazia do processo secund&aacute;rio. Mas tal crit&eacute;rio (lingu&iacute;stico)    n&atilde;o afasta de modo absoluto a alucina&ccedil;&atilde;o, veremos logo    mais em que caso.    <br>   <a href="#17"><sup>9</sup></a><a name="18"></a> &laquo;Correspond&ecirc;ncia...&raquo;    p. 209.    <br>   <a href="#19"><sup>10</sup></a><a name="20"></a> &Eacute; assim que se justifica o discurso    truncado da hist&eacute;rica. As raz&otilde;es que ela fornece ao seu comportamento    bizarro s&atilde;o igualmente bizarras, il&oacute;gicas, injustificadas.    <br>   <a href="#21"><sup>11</sup></a><a name="22"></a> &laquo;Correspond&ecirc;ncia ...&raquo;    p. 210.    <br>   <a href="#23"><sup>12</sup></a><a name="24"></a> Ibid.    <br>   <a href="#25"><sup>13</sup></a><a name="26"></a> Ibid    p. 216 {Carta de 17/12/96}.    <br>   <a href="#27"><sup>14</sup></a><a name="28"></a> Freud pretende estar fazendo ci&ecirc;ncia.    E o pensar cient&iacute;fico &eacute;, metapsicologicamente falando, o mais    acertado (l&oacute;gico) de todos segundo ele.    <br>   <a href="#29"><sup>15</sup></a><a name="30"></a> GAY, P. &laquo;Freud, uma Vida para o    nosso Tempo&raquo;. p. 100 Companhia das Letras Ed. (1989). [O autor qualifica    a importancia atribuida &agrave; sexualidade na etiologia das neuroses, descoberta    por Freud, por diversas personalidades da &eacute;poca].    <br>   <a href="#31"><sup>16</sup></a><a name="32"></a> JONES, E. &laquo;A Vida e a Obra de Sigmund    Freud&raquo; Vol. I. p.300 Imago ED. (1989); ROUDINESCO, E. Os Cem Anos da Psican&agrave;lise    na Fran&ccedil;a. p.48. [apontam para a semelhan&ccedil;a entre as posturas    de Meynert e de Kraft Ebing].    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   <a href="#33"><sup>17</sup></a><a name="34"></a> Resistente e descrente relativamente as    evid&ecirc;ncias das suas e das descobertas do parceiro de pesquisa. Vide &laquo;Correspond&ecirc;ncia...&raquo;    p. 218.    <br>   <a href="#35"><sup>18</sup></a><a name="36"></a> Freud afirma &#8211; desde &laquo;A interpreta&ccedil;&atilde;o    das Afasias: um estudo cr&iacute;tico&raquo;. Ed. 70 S&eacute;rie Persona. Portugal    (tradu&ccedil;&atilde;o portuguesa da tradu&ccedil;&atilde;o italiana de 1977)    &#8211; que o trabalho da neurologia est&aacute; completo (P.41 &#8211; Veja-se,    dentre tantas demonstra&ccedil;&otilde;es, o esfor&ccedil;o de diferenciar afasias    decorrentes de les&atilde;o e aquelas outras, que mais lhe interessam, de natureza    funcional). O confirma ROUDINESCO, E. Op. Cit. p.47.    <br>   <a href="#37"><sup>19</sup></a><a name="38"></a> &laquo;Correspond&ecirc;ncia...&raquo;    p. 240 {Carta de 02/05/1897}.    <br>   <a href="#39"><sup>20</sup></a><a name="40"></a> Ibid.    <br>   <a href="#41"><sup>21</sup></a><a name="42"></a> Muito embora MASSON o pretenda assim em    &#8220;Atentado... &#8220;, citado acima, nota 63].    <br>   <a href="#43"><sup>22</sup></a><a name="44"></a> MONZANI, L. R. Freud, o movimento de um    pensamento p.41 Ed. Unicamp 1989.    <br>   <a href="#45"><sup>23</sup></a><a name="46"></a> &laquo;Correspond&ecirc;ncia...&raquo;    p. 266 {Carta de 21/09/1897}.    <br>   <a href="#47"><sup>24</sup></a><a name="48"></a> RIEFF, P. &#8220;Freud, the mind of the    moralist&#8221; pp. 39/50 University of Chicago Press (1979), demonstra como    Freud, com seu pr&oacute;prio exemplo, cristaliza nuan&ccedil;as do drama humano,    da&iacute; poder ser tomado como representativo.    <br>   <a href="#49"><sup>25</sup></a><a name="50"></a> &laquo;Correspond&ecirc;ncia...&raquo;    p. 273 {Carta de 15/10/1897}.    <br>   <a href="#51"><sup>26</sup></a><a name="52"></a> Ibid.    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   <a href="#53"><sup>27</sup></a><a name="54"></a> Ibid (Carta de 14.11.1897) p. 280.</font></p>      ]]></body>

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