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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Do mel ao fel: metamorfoses da estratégia de gozo em Roman Polanski]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[As much as other works in Roman Polanski's curriculum, "Bitter Moon", from 1992, exhibited in Brazil as "Lua de Fel", is a striking movie. At different moments in the footage, the characters Oscar and Mimi trade themselves in the position of torturer and tortured of each other in classical scenes of the recipe BDSM (Bondage/Discipline, Dominance/Submission, Sadism/Masochism). A desperate search to re-encounter the desire through an erotic sadomasochist woman? Or is it all about something more crucial, of that type of thing that would invite analysts to reflect about the clinical structure of the subjects? This becomes clearer from the part do the movie in which the plot includes the couple Fiona and Nigel. The fact of the author of the romance, Pascal Bruckner, on which the film is based being known for philosophizing and coming up with theories about love, just makes interpretation even more controversial. Although film characters are not to be confused with "clinical cases", art works have always become a source of potential search for psychoanalysts to go deeper in their stories. The objective of this work is to interrogate the characters from "Bitter moon" and its plot, aiming at a reflection about the distinctive structural aspects between neurosis and perversion. The topological stratified ordering of the Other, perforated by the object a and the functioning of this empty place as a polarizer and core of jouissance attraction - from what Lacan defined the function more-of jouissance - allows them to advance and go deeper into a larger comprehension of the clinical structures of neurosis and perversion.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>ENSAIOS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="4"><b>Do mel ao fel: metamorfoses da estrat&eacute;gia de gozo em Roman Polanski<sup><a name="1"></a><a href="#1a">1</a></sup></b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>From honey to gall: metamorphoses of the jouissance strategy in Roman Polanski</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Raul Albino Pacheco Filho<sup><a name="2"></a><a href="#2a">*</a></sup></b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Faculdade de Ci&ecirc;ncias Humanas e da Sa&uacute;de da Pontif&iacute;cia Universidade Cat&oacute;lica de S&atilde;o Paulo (PUC-SP)    <br> Escola de Psican&aacute;lise dos F&oacute;runs do Campo Lacaniano (EPFCL &ndash; Brasil)    ]]></body>
<body><![CDATA[<br> Internacional dos F&oacute;runs do Campo Lacaniano (F&oacute;rum de S&atilde;o Paulo)    <br> F&oacute;rum do Campo Lacaniano de S&atilde;o Paulo</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b><a name="end"></a><a href="#end2">Endere&ccedil;o para correspond&ecirc;ncia</a></b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr noshade size="1">     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>RESUMO</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Assim como outras realiza&ccedil;&otilde;es de Roman Polanski, "<i>Lua de Fel</i>", de 1992, &eacute; um filme impactante. Em diferentes momentos do filme, os personagens Oscar e Mimi revezam-se na posi&ccedil;&atilde;o de torturador e torturado, em cenas cl&aacute;ssicas do receitu&aacute;rio BDSM (<i>Bondage&#47;Discipline, Dominance&#47;Submission, Sadism&#47;Masochism</i>). Busca desesperada de reencontrar o desejo por meio de uma er&oacute;tica sadomasoquista? Ou tratar-se-ia de algo mais fundamental, da ordem da estrutura cl&iacute;nica dos sujeitos? O enigma se acentua com a entrada do casal Fiona e Nigel, na trama do filme. O fato de o autor do romance ser Pascal Bruckner, conhecido por filosofar e tecer teorias sobre o amor, apenas deixa a interpreta&ccedil;&atilde;o ainda mais controversa. Embora personagens de filmes n&atilde;o sejam "casos cl&iacute;nicos", as obras de arte sempre foram fonte promissora para a reflex&atilde;o dos psicanalistas. Esta apresenta&ccedil;&atilde;o interroga os personagens de "<i>Lua de Fel</i>" e sua trama, visando a uma reflex&atilde;o sobre os aspectos distintivos estruturais entre neurose e pervers&atilde;o. O ordenamento topol&oacute;gico estratificado do Outro (esburacado pelo objeto <i>a</i>), o funcionamento desse lugar vazio como n&uacute;cleo de atra&ccedil;&atilde;o de gozo e a fun&ccedil;&atilde;o mais-de gozar &ndash; apresentados por Lacan no <i>Semin&aacute;rio 16</i> &ndash; permitem avan&ccedil;ar o entendimento das estruturas cl&iacute;nicas da neurose e da pervers&atilde;o.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Palavras-chave</b>: Neurose, Pervers&atilde;o, Estrutura cl&iacute;nica, Gozo, Objeto a, Topologia, <i>Semin&aacute;rio 16</i>.</font></p> <hr noshade size="1">     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>ABSTRACT</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">As much as other works in Roman Polanski's curriculum, "<i>Bitter Moon</i>", from 1992, exhibited in Brazil as "<i>Lua de Fel</i>", is a striking movie. At different moments in the footage, the characters Oscar and Mimi trade themselves in the position of torturer and tortured of each other in classical scenes of the recipe BDSM (<i>Bondage&#47;Discipline, Dominance&#47;Submission, Sadism&#47;Masochism</i>). A desperate search to re-encounter the desire through an erotic sadomasochist woman? Or is it all about something more crucial, of that type of thing that would invite analysts to reflect about the clinical structure of the subjects? This becomes clearer from the part do the movie in which the plot includes the couple Fiona and Nigel. The fact of the author of the romance, Pascal Bruckner, on which the film is based being known for philosophizing and coming up with theories about love, just makes interpretation even more controversial. Although film characters are not to be confused with "clinical cases", art works have always become a source of potential search for psychoanalysts to go deeper in their stories. The objective of this work is to interrogate the characters from "Bitter moon" and its plot, aiming at a reflection about the distinctive structural aspects between neurosis and perversion. The topological stratified ordering of the Other, perforated by the object <i>a</i> and the functioning of this empty place as a polarizer and core of jouissance attraction &ndash; from what Lacan defined the function more-of jouissance &ndash; allows them to advance and go deeper into a larger comprehension of the clinical structures of neurosis and perversion.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Keywords</b>: Neurosis, Perversion, Clinical structure, Jouissance, Object a, Topology, <i>Seminar 16</i>.</font></p> <hr noshade size="1">     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Trauma, paradoxo e enigma incluem-se tanto na vida quanto na obra do cineasta polon&ecirc;s Roman Polanski, &agrave;s quais n&atilde;o faltam o envio dos pais aos campos de concentra&ccedil;&atilde;o nazistas, os maus-tratos e espancamentos na inf&acirc;ncia, como mendigo nas ruas do gueto judaico de Crac&oacute;via, o assassinato da esposa (atriz Sharon Tate) por uma seita de m&iacute;sticos fan&aacute;ticos e a fuga dos EUA &agrave; Europa, para livrar-se da pris&atilde;o por acusa&ccedil;&atilde;o de abuso sexual de uma menor com 13 anos de idade. Cineasta famoso e premiado, suas produ&ccedil;&otilde;es v&atilde;o do lirismo rom&acirc;ntico e dram&aacute;tico de Tess, ao horror de parir um filho do diabo, em <i>O beb&ecirc; de Rosemary</i>. <i>Bitter Moon</i><sup><a name="3"></a><a href="#3a">2</a></sup> ("Lua de Fel"), de 1992, n&atilde;o &eacute; menos impactante. Em diferentes momentos do filme, os personagens Oscar (Peter Coyote) e Mimi (Emmanuelle Seigner) revezam-se na posi&ccedil;&atilde;o de torturador e torturado, um do outro, em cenas cl&aacute;ssicas do receitu&aacute;rio BDSM (<i>Bondage&#47;Discipline, Dominance&#47;Submission, Sadism&#47;Masochism</i>). E deixam o espectador hesitante quanto a como conceber o que rege as rela&ccedil;&otilde;es entre eles: busca desesperada de reencontrar o desejo por meio de uma er&oacute;tica sadomasoquista? Ou tratar-se-ia de algo mais fundamental, da ordem daquilo que convocaria os psicanalistas a uma reflex&atilde;o sobre a estrutura cl&iacute;nica dos sujeitos? Isso fica ainda mais acentuado a partir do trecho em que a trama do filme passa a incluir o casal Fiona (Kristin Scott Thomas) e Nigel (Hugh Grant), com este &uacute;ltimo sendo atra&iacute;do inicialmente como testemunha curiosa, mas, progressivamente, seduzido a se envolver como participante cada vez mais expl&iacute;cito da er&oacute;tica do primeiro casal.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O fato de o autor da hist&oacute;ria do filme, Pascal Bruckner, ser conhecido por filosofar e tecer teorias controvertidas a respeito do amor em seus livros<sup><a name="4"></a><a href="#4a">3</a></sup> apenas deixa a interpreta&ccedil;&atilde;o ainda mais controversa: "O amor agora &eacute; submetido ao regime da performance, ao imperativo do absoluto (&#8230;) a felicidade vira n&atilde;o mais um direito, mas um dever"; "submetemos nosso amor ao imperativo do absoluto&#8230; isso &eacute; desumano"; "pode-se desejar menos o outro sem querer deixar de ficar junto, porque a ternura leva a melhor sobre a exig&ecirc;ncia passional"; "sou partid&aacute;rio dos 'arranjos &agrave; francesa'&#8230; grande liberdade do homem e da mulher em suas aventuras amorosas sem desmantelar a fam&iacute;lia".<sup><a name="5"></a><a href="#5a">4</a></sup></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Embora personagens de filmes n&atilde;o possam ser confundidos com "casos cl&iacute;nicos", as obras de arte sempre constitu&iacute;ram leito de garimpo promissor para os psicanalistas mergulharem suas bateias. O objetivo desta apresenta&ccedil;&atilde;o &eacute; interrogar os personagens do filme, e sua trama, para uma reflex&atilde;o sobre os aspectos estruturais da neurose e da pervers&atilde;o, apresentados por Lacan no <i>Semin&aacute;rio 16</i>.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O filme acompanha os passageiros de um transatl&acirc;ntico deslocando-se em f&eacute;rias pelo Mediterr&acirc;neo, focalizando como personagens principais os casais Oscar-Mimi e Nigel-Fiona, que n&atilde;o se conheciam anteriormente &agrave; viagem. Nigel v&ecirc;-se atra&iacute;do por Mimi, que se insinua sensualmente para ele. Na sequ&ecirc;ncia, Oscar aborda-o de modo provocativo: "Ela &eacute; uma armadilha para homens. Veja o que me fez (mostrando a paralisia das pernas). Voc&ecirc; quer trepar com ela, n&atilde;o? &Eacute; exatamente o ouvinte que eu procurava. Espero que ache minha hist&oacute;ria interessante". A partir da&iacute;, interpola-se na trama um relato de Oscar, em primeira pessoa, sobre sua vida amorosa com Mimi. Dada a inviabilidade de um relato exaustivo do enredo, tomo este personagem como foco de considera&ccedil;&atilde;o, j&aacute; que ele &eacute; o narrador da maior parte da trama e &eacute; de sua posi&ccedil;&atilde;o que a maior parte dos acontecimentos nos &eacute; apresentada. Al&eacute;m disso, ele me parece ser um <i>alter ego</i> de Pascal Bruckner, no que se refere &agrave;s suas posi&ccedil;&otilde;es sobre felicidade, amor, casamento, desejo e paix&atilde;o.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">"A eternidade, para mim, come&ccedil;ou em Paris, um dia. (&#8230;) Eu vislumbrava o para&iacute;so. (&#8230;) Nada jamais superou o &ecirc;xtase daquele primeiro despertar. Eu podia ser Ad&atilde;o com o gosto da ma&ccedil;&atilde; ainda fresco na boca. Uma forma feminina incorporava toda a beleza do mundo. Eu soube, com cega certeza, que era isso mesmo." O relato de Oscar sobre o in&iacute;cio da rela&ccedil;&atilde;o com Mimi &eacute; interpolado com imagens do id&iacute;lio rom&acirc;ntico e sexual do casal, como a cena dos dois dan&ccedil;ando a s&oacute;s, apaixonados, no apartamento. Ou outra em que ela bebe iogurte direto da garrafa e, em seguida, o derrama sobre os seios, para que ele os lamba e beije, excitado e enternecido. Ele prossegue sua narrativa, evoluindo para os epis&oacute;dios sexuais mais expl&iacute;citos: "Sua vagina era uma pequena fenda discreta e pura. Mas quando minhas car&iacute;cias excitavam o animal dentro dela, ela afastava a cortina de seda que cobria sua toca e virava uma flor carn&iacute;vora. Uma boca de beb&ecirc; sugando meu dedo avidamente. Adorava excitar seu clit&oacute;ris com a ponta da minha l&iacute;ngua", conta rindo do embara&ccedil;o de Nigel. "Ora, Nigel, n&atilde;o fique t&atilde;o chocado. S&oacute; dou detalhes para mostrar como estava escravizado de corpo e alma por essa criatura cujos encantos o impressionaram."</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ao para&iacute;so da paix&atilde;o dos primeiros tempos, seguiu-se o receio do esvanecimento do desejo: "As esta&ccedil;&otilde;es iam e vinham e o rosto de Mimi ainda tinha mil mist&eacute;rios para mim. Seu corpo, mil doces promessas. Mas, no fundo da minha mente, havia o medo de que j&aacute; hav&iacute;amos chegado ao topo do nosso relacionamento e de que agora ele come&ccedil;aria a desmoronar". Segue-se um per&iacute;odo de tentativa desesperada de sustenta&ccedil;&atilde;o da rela&ccedil;&atilde;o e do desejo por meio de uma sexualidade que simula a aus&ecirc;ncia de limites, &agrave; qual n&atilde;o faltam todas as cenas cl&aacute;ssicas do receitu&aacute;rio <i>BDSM</i>. "Rastejei como um lun&aacute;tico (a imagem mostra Mimi urinando sobre a TV), me coloquei entre suas pernas e me virei. Na hora, fui envolvido por uma cascata dourada e quente que me inundou a face, encheu minhas narinas, atingiu meus olhos. E ent&atilde;o algo fez meu c&eacute;rebro vibrar intensamente. (&#8230;) Nigel, meu Deus, cara. (&#8230;) Era meu Nilo, meu Ganges, minha fonte da juventude. Meu segundo batismo. Nigel, estou expandindo seus horizontes sexuais."</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">"Nada pode ser obsceno em um amor assim." Sucedem-se as cenas de sadomasoquismo sexual do casal: Mimi representando a <i>dominatrix</i>, de botas e roupa de borracha negra brilhante, chicoteando Oscar, sufocando-o ou cortando-lhe as roupas &iacute;ntimas com uma navalha. "N&oacute;s nos fechamos com nossos brinquedos semanas a fio, jamais saindo, vendo somente um ao outro."</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">"Era querer demais de qualquer casal. Eu tamb&eacute;m a amava, mas est&aacute;vamos caminhando para uma fal&ecirc;ncia sexual." Prosseguem as cenas, mas agora com o t&eacute;dio inserindo-se nos jogos sexuais: Oscar de meias, calcinhas femininas e m&aacute;scara de porquinho e Mimi chicoteando-o. "Estragou tudo. Porco n&atilde;o fala", diz Mimi interrompendo a brincadeira. "Sabe de uma coisa, tamb&eacute;m n&atilde;o acredito", diz Oscar desolado. "Pronto, finalmente o encanto estava desfeito."</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A <i>d&eacute;b&acirc;cle</i> do desejo e a agressividade inserem-se, ent&atilde;o, no cotidiano das rela&ccedil;&otilde;es, at&eacute; o auge da viol&ecirc;ncia f&iacute;sica. "Dev&iacute;amos ter terminado a&iacute;. Os casais deviam se separar no auge da paix&atilde;o. E n&atilde;o esperar at&eacute; o inevit&aacute;vel decl&iacute;nio. Meu desejo por ela havia come&ccedil;ado a diminuir&#33; A&iacute; estava ela deitada, nua, maravilhosa, voluptuosa e nada significava para mim. Ressentia-me o fato de ela n&atilde;o me excitar mais como antes", diz Oscar, enquanto a imagem do filme mostra-o olhando, entediado, Mimi dormindo nua na cama. "Antigamente gostava da minha bunda", diz Mimi, ante a indiferen&ccedil;a de Oscar em rela&ccedil;&atilde;o ao seu vestido provocante. "N&atilde;o me ama mais."</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Oscar continua sua narrativa para Nigel, enquanto as cenas mostram as imagens. "Beije-me. Assim n&atilde;o. Abrace-me", diz Mimi. Oscar: "Apertava meus l&aacute;bios sobre os dela como se amassasse um cigarro em um cinzeiro. Era o prel&uacute;dio do ato menos original conhecido pelo homem. O processo chamado de c&oacute;pula. Sentia-me como um rato em uma armadilha. As pessoas se divertiam l&aacute; fora, dan&ccedil;avam, faziam amor. Eu queria variedade. Tinha fome de barulho e excita&ccedil;&atilde;o" (diz enquanto a imagem o mostra olhando pela janela, pessoas encontrando-se e divertindo-se na rua).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Repete-se a cena em que Mimi bebe iogurte direto da garrafa, mas agora Oscar irrita-se: "Precisa beber assim? Por que n&atilde;o usa um copo?" Mimi responde: "D&aacute; na mesma". Oscar retruca: "A apar&ecirc;ncia, n&atilde;o". Seguem-se cenas de um per&iacute;odo em que Oscar maltrata e humilha Mimi moral e fisicamente, ao mesmo tempo em que se culpa e sente remorsos por maltrat&aacute;-la, sem coragem de se separar. "Que noite linda&#33; Gostaria que durasse para sempre" (Mimi). "Para sempre &eacute; muito tempo" (Oscar). "Quando algo &eacute; bom n&atilde;o quer que dure para sempre?" (Mimi). "Claro, mas as coisas boas nunca duram. Esperava que voc&ecirc; tomasse a iniciativa, mas parece feliz em deixar que as coisas se arrastem assim. (&#8230;) Estamos aviltando um ao outro. Preservemos uma bela recorda&ccedil;&atilde;o. Vamos nos separar" (Oscar). "Mas eu amo voc&ecirc;. S&oacute; quero voc&ecirc;. Quero me casar com voc&ecirc;. Quero lhe dar filhos. Quero lhe dar o resto da minha vida. (&#8230;) O que eu fiz de errado? At&eacute; a um criminoso se diz qual &eacute; o seu crime" (Mimi). "Voc&ecirc; n&atilde;o fez nada. Voc&ecirc; existe, s&oacute; isso" (Oscar).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">"(&#8230;) N&atilde;o consigo viver sem voc&ecirc;" (Mimi). "Ter&aacute; de viver" (Oscar). "N&atilde;o vou" (Mimi). "J&aacute; discutimos isso, procure amigos, divirta-se, em alguns dias estar&aacute; grata pela minha iniciativa" (Oscar). (&#8230;) "Suporto tudo para ficar &agrave;s vezes com voc&ecirc; (ajoelhada em frente a ele). Pode gritar comigo, bater em mim. Pode ter outras mulheres, mas, por favor, mesmo se n&atilde;o me ama mais, fique comigo por piedade (beijando seus joelhos) suplico."</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&#91;Interpola&ccedil;&atilde;o de pensamento de Oscar&#93; "Todos t&ecirc;m tra&ccedil;os de sadismo. Se ela queria viver num inferno, eu o tornaria t&atilde;o quente at&eacute; que ela sa&iacute;sse."</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Prosseguem as cenas da deteriora&ccedil;&atilde;o da rela&ccedil;&atilde;o entre Oscar e Mimi. Ele a maltrata, troca seu nome ao transarem, ca&ccedil;oa dela e a humilha na frente de outras mulheres. Ela se submete passivamente e, progressivamente, vai descuidando-se da apar&ecirc;ncia, desleixando-se, enfeando-se e limitando-se a cuidar da casa. "Pare de bancar a m&aacute;rtir. Tire isso da cabe&ccedil;a (pano amarrado sobre os cabelos); fica ainda mais feia. Tenho vergonha de ser visto com voc&ecirc;" (Oscar). Depois de for&ccedil;ar Mimi &agrave; interrup&ccedil;&atilde;o de uma gravidez desejada apenas por ela, abandona-a finalmente em uma decis&atilde;o unilateral, sem ao menos comunicar-lhe antecipadamente.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Segue-se um tempo de vida bo&ecirc;mia de Oscar, com diversas mulheres &#91;"chafurdava em carne feminina como um porco num chiqueiro. De cama em cama. V&aacute;rias mulheres"&#93;, at&eacute; que fratura o f&ecirc;mur em um acidente de autom&oacute;vel. "Tive mais sorte do que merecia", exprime, a Nigel, sua culpa. Mimi visita Oscar, ferido no hospital, e, em uma discuss&atilde;o, derruba-o da cama e deixa-o com uma les&atilde;o irrevers&iacute;vel: "Tenho boas e m&aacute;s not&iacute;cias&#8230; Voc&ecirc; est&aacute; paralisado da cintura para baixo&#8230; essa &eacute; a boa &#8230; a m&aacute; not&iacute;cia &eacute; que vou cuidar de voc&ecirc; de hoje em diante".</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Tornam a morar juntos, com Oscar limitado a locomover-se em uma cadeira de rodas e dependente da ajuda de Mimi &#91;"Veio morar comigo com uma estranha devo&ccedil;&atilde;o. Era minha cozinheira, minha governanta, carcereira e enfermeira"&#93;. Nesse novo per&iacute;odo da rela&ccedil;&atilde;o, agora &eacute; Mimi que reveza Oscar na posi&ccedil;&atilde;o de torturadora, vingando-se dos acontecimentos do per&iacute;odo anterior. "Sei que mere&ccedil;o isso tudo. Tratei voc&ecirc; como um monstro. Prometo nunca mais machuc&aacute;-la" (Oscar). "Voc&ecirc; me machucar? Muito engra&ccedil;ado" (diz Mimi, rindo). (&#8230;) "Sou um verme, me desprezo" (Oscar). Mimi o humilha de variadas formas, o trai com homens diversos e ca&ccedil;oa dele. "Eu me acostumara a ser apenas meio homem, mas naquela noite cheguei ao fundo do po&ccedil;o" (diz Oscar, enquanto a imagem do filme mostra a cena dela levando outro homem para casa, acariciando-o sexualmente na frente dele e, finalmente, transando com a porta do quarto aberta, enquanto um Oscar, devastado, escuta os gemidos de prazer sentado na sala em sua cadeira de rodas.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">As imagens do filme mostram a sequ&ecirc;ncia em que Oscar casa-se com Mimi. "Parec&iacute;amos os sobreviventes de uma cat&aacute;strofe t&atilde;o terr&iacute;vel, que criou um elo entre n&oacute;s (diz Oscar a Nigel, mostrando-lhe a alian&ccedil;a de casamento). (&#8230;) A poeira assentou, mas receio perder o que restou do cora&ccedil;&atilde;o dela para um felizardo. Demos uma volta completa. &Eacute; estranho confessar isso a quem espera ser esse felizardo. N&atilde;o negue&#8230; nesta cabine s&oacute; h&aacute; lugar para um hip&oacute;crita. Pode ir (com ela). N&atilde;o h&aacute; nada a dizer."</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O filme continua em uma sequ&ecirc;ncia de acontecimentos surpreendentes e inesperados das rela&ccedil;&otilde;es entre os dois casais (Oscar-Mimi e Nigel-Fiona), at&eacute; o final, em que Oscar mata Mimi &ndash; "Fomos gananciosos demais, anjo. S&oacute; isso" &ndash; e se suicida.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Oscar concentra elementos fenomenol&oacute;gicos que, pelo senso comum, poderiam sugerir uma pervers&atilde;o. E que, pelo DSM 5 (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2013), conduziriam ao diagn&oacute;stico de m&uacute;ltiplos transtornos (comorbidade), entre os quais alguns da categoria de parafilia: fetichismo, sadismo sexual, masoquismo sexual, travestismo fetichista etc. Mas a formaliza&ccedil;&atilde;o do ordenamento topol&oacute;gico estratificado do Outro, a partir do furo do objeto <i>a</i>, e o funcionamento desse lugar vazio como polarizador e n&uacute;cleo de atra&ccedil;&atilde;o de gozo &ndash; a partir do que Lacan definiu a fun&ccedil;&atilde;o mais-de gozar &ndash;, me levam a preferir seguir a pista de uma neurose. N&atilde;o pretendo fazer uma "psican&aacute;lise aplicada" rastaquera e simplista, lembrando que, em psican&aacute;lise, mesmo em se tratando de um caso cl&iacute;nico real, um diagn&oacute;stico &eacute; sempre uma "hip&oacute;tese de trabalho" orientadora na dire&ccedil;&atilde;o do tratamento. Consequentemente, posso admitir sem grandes resist&ecirc;ncias que outra hip&oacute;tese possa ser explorada, para se abordar o personagem Oscar. Mas, como disse acima, meu objetivo &eacute; apenas usar o filme e a an&aacute;lise do personagem como instrumento para refletir sobre aspectos distintivos das estruturas da neurose e da pervers&atilde;o; e, sendo assim, sigo o que me parece mais plaus&iacute;vel.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Desde a origem da psican&aacute;lise, a diferen&ccedil;a entre pervers&atilde;o e neurose afirmou-se como tema importante. Freud o inaugurou com a conhecida f&oacute;rmula da neurose como o negativo da pervers&atilde;o, mas n&atilde;o sem esclarecer que h&aacute; algo de perverso na vida sexual de todo neur&oacute;tico e, mais amplamente, de todo ser humano.</font></p>     <blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Todos os psiconeur&oacute;ticos s&atilde;o pessoas de inclina&ccedil;&otilde;es perversas fortemente acentuadas, mas recalcadas e tornadas inconscientes no curso de seu desenvolvimento. Por isso suas fantasias inconscientes exibem um conte&uacute;do id&ecirc;ntico ao das a&ccedil;&otilde;es documentadas nos perversos, mesmo que eles n&atilde;o tenham lido a Psychopathia Sexualis de Krafft-Ebing &#91;&#8230;&#93;. As psiconeuroses s&atilde;o, por assim dizer, o negativo das pervers&otilde;es (FREUD, 1905 &#91;1901&#93;&#47;1987, p. 45).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ao demonstrar as mo&ccedil;&otilde;es perversas enquanto formadoras de sintomas nas psiconeuroses, aumentamos extraordinariamente o n&uacute;mero de seres humanos que poderiam ser considerados perversos. N&atilde;o &eacute; s&oacute; que os pr&oacute;prios neur&oacute;ticos constituam uma classe muito numerosa, h&aacute; tamb&eacute;m que levar em conta que s&eacute;ries descendentes e ininterruptas ligam a neurose, em todas as suas configura&ccedil;&otilde;es, &agrave; sa&uacute;de; por isso Moebius p&ocirc;de dizer, com boas justificativas, que todos somos um pouco hist&eacute;ricos. Assim, a extraordin&aacute;ria difus&atilde;o das pervers&otilde;es for&ccedil;a-nos a supor que tampouco a predisposi&ccedil;&atilde;o &agrave;s pervers&otilde;es &eacute; uma particularidade rara, mas deve, antes, fazer parte da constitui&ccedil;&atilde;o que passa por normal (<i>Ibid</i>., p. 174).</font></p> </blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Mais adiante vislumbrou o simplismo manique&iacute;sta dessa f&oacute;rmula, e na sua concep&ccedil;&atilde;o sobre a constru&ccedil;&atilde;o do fetiche (FREUD, 1927&#47;1987) apresentou um processo cuja complexidade n&atilde;o ficava nada a dever ao da constru&ccedil;&atilde;o da fantasia dos neur&oacute;ticos. Ambos, perversos e neur&oacute;ticos, visam ao manejo da castra&ccedil;&atilde;o, ainda que por vias distintas.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">No <i>Semin&aacute;rio 7</i>, Lacan (1959-60&#47;2008) segue a pista freudiana e mostra que a diferen&ccedil;a entre ambas n&atilde;o se resolve por uma oposi&ccedil;&atilde;o simples entre presen&ccedil;a e aus&ecirc;ncia da fantasia, como lastro imagin&aacute;rio para sustenta&ccedil;&atilde;o da articula&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica. Al&eacute;m do mais, algo de perverso existe tanto na fantasia dos estruturalmente perversos, quanto dos neur&oacute;ticos. Para avan&ccedil;ar na diferen&ccedil;a entre ambos, recorre &agrave; conhecida formula&ccedil;&atilde;o do giro de 90&ordm; no esquema da fantasia, como aparece tamb&eacute;m em "Kant com Sade" (LACAN, 1963&#47;1998).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/stylus/n32/32a16f1.jpg"></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/stylus/n32/32a16f2.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">N&atilde;o por acaso, &eacute; tamb&eacute;m no <i>Semin&aacute;rio 7</i> que ele se v&ecirc; convocado a aprofundar a reflex&atilde;o sobre algo mais opaco e que oferece uma dificuldade mais radical, no trabalho de an&aacute;lise, &agrave; elabora&ccedil;&atilde;o de um saber sobre o inconsciente. Da&iacute; a retomada da distin&ccedil;&atilde;o entre <i>Dingvorstellung</i> e <i>Sachevorstellung</i>, no Projeto de 1895 de Freud (1950 &#91;1895&#93;&#47;1987), e o recurso &agrave; met&aacute;fora heideggeriana do vaso, para pensar a Coisa freudiana: esse "objeto feito para representar a exist&ecirc;ncia do vazio no centro do real que se chama a Coisa, esse vazio, tal como ele se apresenta na representa&ccedil;&atilde;o" (LACAN, 1959-60&#47;2008, p. 148).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Sabemos dos novos avan&ccedil;os a esse respeito nos <i>Semin&aacute;rio 10</i> (1962-63&#47;2005) e <i>11</i> (1964&#47;1988): a constru&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica do objeto (<i>a</i>), como "resto" n&atilde;o simboliz&aacute;vel da entrada na linguagem, e a proposi&ccedil;&atilde;o das opera&ccedil;&otilde;es de aliena&ccedil;&atilde;o e separa&ccedil;&atilde;o. Mas a exig&ecirc;ncia de novos desenvolvimentos te&oacute;rico-cl&iacute;nicos n&atilde;o se extingue, e Lacan dedica-se, na sequ&ecirc;ncia, a buscar uma solu&ccedil;&atilde;o para o real do gozo mais apropriada do que os empr&eacute;stimos &agrave; termodin&acirc;mica, com que Freud tentou dar conta do "al&eacute;m do princ&iacute;pio do prazer". E sabemos como &eacute;, por homologia com a mais-valia de Marx, que no <i>Semin&aacute;rio 16</i> (1968-69a&#47;2008) ele se inspira para teorizar a fun&ccedil;&atilde;o mais-de-gozar do objeto (<i>a</i>).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O <i>Semin&aacute;rio 16</i> permite avan&ccedil;ar e aprofundar, ainda mais, o entendimento das estruturas e dos tipos cl&iacute;nicos. O essencial na pervers&atilde;o "&eacute; a fun&ccedil;&atilde;o de um <i>suplemento</i>, de algo que, no n&iacute;vel do Outro, interroga o que falta no Outro" (<i>Ibid</i>., p. 246) e o oferece. &Eacute; pelo gozo do Outro que o perverso zela: ele &eacute; aquele que se consagra a tapar o buraco no Outro, ele est&aacute; do lado do fato de que o Outro existe. &Eacute; um defensor da f&eacute;. "A pervers&atilde;o &eacute; a restaura&ccedil;&atilde;o, como que primordial, a restitui&ccedil;&atilde;o do objeto <i>a</i> ao campo do A. (&#8230;) &Eacute; a estrutura do sujeito para quem a refer&ecirc;ncia da castra&ccedil;&atilde;o, isto &eacute;, o fato de a mulher se distinguir por n&atilde;o ter o falo, &eacute; tamponada, mascarada, preenchida pela opera&ccedil;&atilde;o misteriosa do objeto <i>a</i>" (<i>Ibid</i>., p. 283).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Quanto ao neur&oacute;tico, o significado do A como barrado, marcado por sua falha l&oacute;gica, vem expressar-se plenamente: ele n&atilde;o mascara o que acontece com a articula&ccedil;&atilde;o conflituosa no n&iacute;vel da pr&oacute;pria l&oacute;gica. Para ele, como &eacute; o caso de Oscar (assim proponho), deve existir, em algum lugar, "uma rela&ccedil;&atilde;o n&atilde;o de <i>suplemento</i>, mas de <i>complemento</i> no Um" (<i>Ibid</i>., p. 252). Teria existido, anteriormente, uma rela&ccedil;&atilde;o primitiva de pseudocompletude com a m&atilde;e (suposto&#47;imagin&aacute;rio <i>complemento</i> no Um) &ndash; o para&iacute;so perdido da "ilus&atilde;o retroativa de um narcisismo prim&aacute;rio" (<i>Ibid</i>., p. 253) &ndash;, que, de fato, nunca existiu, mas pelo qual o neur&oacute;tico luta, buscando reencontrar. Ele quer ser o <i>Um</i> no campo do Outro. E isso Oscar n&atilde;o pode encontrar na rela&ccedil;&atilde;o com Mimi, uma vez ultrapassado o fasc&iacute;nio do per&iacute;odo de apaixonamento.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Como afirma Martinho em sua profunda e abrangente tese de doutorado "Pervers&atilde;o: um fazer gozar", "a diferen&ccedil;a entre a neurose e a pervers&atilde;o se explicita na estrat&eacute;gia de gozo que o sujeito utiliza na rela&ccedil;&atilde;o com o seu parceiro" (MARTINHO, 2011, p. 6). Oscar &eacute; um homem dilacerado pela incapacidade de sustentar o desejo pela mulher que, um dia e por um certo per&iacute;odo de tempo, o fez conhecer a plenitude da paix&atilde;o e da satisfa&ccedil;&atilde;o sexual e a integra&ccedil;&atilde;o do amor com o sexo.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Em "Sobre a mais generalizada degrada&ccedil;&atilde;o da vida amorosa",<sup><a name="6"></a><a href="#6a">5</a></sup> Freud prop&ocirc;s que "se o psicanalista cl&iacute;nico indagar a si mesmo qual perturba&ccedil;&atilde;o leva as pessoas com maior frequ&ecirc;ncia a procurarem-no em busca de aux&iacute;lio, ele ser&aacute; compelido a responder &ndash; deixando de lado as diversas formas de ang&uacute;stia<sup><a name="7"></a><a href="#7a">6</a></sup> &ndash; que consiste na <i>impot&ecirc;ncia ps&iacute;quica</i>" (1912b&#47;1987, p. 106). N&atilde;o se trata de uma incapacidade de ere&ccedil;&atilde;o do p&ecirc;nis ou de realiza&ccedil;&atilde;o do ato sexual, j&aacute; que esta estranha perturba&ccedil;&atilde;o atinge homens de natureza intensamente libidinosa e com "forte propens&atilde;o ps&iacute;quica" a realizar o ato sexual. A primeira chave de entendimento do problema se obt&eacute;m quando o pr&oacute;prio paciente se d&aacute; conta de que sua inibi&ccedil;&atilde;o s&oacute; surge com determinada (ou determinadas) pessoas. Trata-se de alguma propriedade do objeto sexual, aquilo que produz, no interior do indiv&iacute;duo, um impedimento e uma vontade contr&aacute;ria, os quais conseguem perturbar seu prop&oacute;sito consciente. A explica&ccedil;&atilde;o proposta por Freud aponta na dire&ccedil;&atilde;o de complexos ps&iacute;quicos subtra&iacute;dos &agrave; consci&ecirc;ncia do indiv&iacute;duo, respons&aacute;veis pela dificuldade de viabilizar a conflu&ecirc;ncia das duas correntes &ndash; a "afetiva" e a "sensual"<sup><a name="8"></a><a href="#8a">7</a></sup> &ndash;, necess&aacute;ria para assegurar uma vida amorosa plena. (<i>Ibid</i>., p. 107). Defrontamo-nos aqui, portanto, com as articula&ccedil;&otilde;es enigm&aacute;ticas e conflituosas entre o <i>objeto do desejo sexual</i> e o <i>objeto do amor</i> dos seres humanos. Se a cl&iacute;nica de Freud incluiu preponderantemente homens com essa queixa, isso deve ser posto na conta dos preconceitos e discrimina&ccedil;&otilde;es de g&ecirc;nero da &Aacute;ustria vitoriana e n&atilde;o a uma exclusividade masculina, no que diz respeito &agrave;s dificuldades para lidar com o amor, o sexo e o obscuro e insond&aacute;vel "objeto do desejo". Afirmar que a "frigidez feminina" tinha mais dificuldade para se apresentar como queixa (sintoma) principal de in&iacute;cio de tratamento, do que a "impot&ecirc;ncia ps&iacute;quica masculina", na cl&iacute;nica psicanal&iacute;tica da &eacute;poca vitoriana, seria outra maneira de dizer a mesma coisa.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O que constitui um n&oacute; para o neur&oacute;tico &eacute; que seu desejo s&oacute; consegue se sustentar pela demanda. Oscar &eacute; um personagem atormentado pela impossibilidade de obter o controle sobre seu desejo. Como diz Lacan em "Subvers&atilde;o do sujeito e dial&eacute;tica do desejo no inconsciente freudiano" (1960&#47;1998), o neur&oacute;tico &eacute; aquele que n&atilde;o d&aacute; conta de responder quem ele &eacute;, esgotado seu <i>cogito</i> (<i>Ibid</i>., p. 834). &Agrave; aus&ecirc;ncia de resposta para a quest&atilde;o "Quem sou?", e &agrave; insci&ecirc;ncia do seu desejo &ndash; que "&eacute; menos insci&ecirc;ncia daquilo que ele demanda (&#8230;) do que insci&ecirc;ncia a partir da qual ele deseja" &ndash;, o neur&oacute;tico reage recorrendo ao Outro com o "<i>Che vuoi</i>?" (Que quer ele de mim?) (<i>Ibid</i>., p. 829) e brandindo a fantasia como escudo contra o real. "Assim se explica que seja entre o campo do eu, tal como ele se ordena especularmente, e o do desejo, no que ele se articula em rela&ccedil;&atilde;o ao campo dominado pelo objeto <i>a</i>, que se joga o destino da neurose" (LACAN, 1968-69a&#47;2008, p. 284).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">"O gozo sexual, em rela&ccedil;&atilde;o a todos os outros, tem o privil&eacute;gio de que alguma coisa no princ&iacute;pio do prazer, o qual sabemos constituir a barreira ao gozo, mesmo assim deixa um acesso a ele. (&#8230;) Mas o gozo sexual n&atilde;o est&aacute; no sistema do sujeito. N&atilde;o h&aacute; sujeito do gozo sexual" (<i>Ibid</i>., p. 311). O falo &eacute; o significante fora do sistema, que designa aquilo que &eacute; radicalmente foraclu&iacute;do do gozo sexual. Por isso o gozo reaparece no real: "o gozo &eacute; absolutamente real, porque, no sistema do sujeito, ele n&atilde;o &eacute; simbolizado nem simboliz&aacute;vel em parte alguma" (<i>Ibid</i>.). Vem da&iacute; a ubiquidade do mito de &Eacute;dipo e o fato de que "todo mundo continua a acreditar que o complexo de &Eacute;dipo &eacute; um mito aceit&aacute;vel" (<i>Ibid</i>.). Mas ele s&oacute; o &eacute; porque aponta para um lugar em que se situaria o enigma de um gozo absoluto: o Pai Primevo.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O fato de o neur&oacute;tico buscar um mito como tentativa de resposta a esse enigma j&aacute; indica que ele n&atilde;o sabe de que gozo se trata: &eacute; o do Pai, ou o de todas as mulheres, as quais ele confunde em seu gozo? &Eacute; isto que Lacan assinala, ao lembrar que "foi o gozo feminino que sempre permaneceu, na teoria, (&#8230;) em estado de enigma anal&iacute;tico" (<i>Ibid</i>.). Quanto &agrave; fun&ccedil;&atilde;o f&aacute;lica, embora n&atilde;o represente o sujeito, "parece marcar, como campo limitado da rela&ccedil;&atilde;o do gozo com o que se estrutura como o Outro, um ponto de sua determina&ccedil;&atilde;o" (<i>Ibid</i>.).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A <i>eclos&atilde;o</i> de uma neurose &#91;<i>l'&eacute;closion de la n&eacute;vrose</i>&#93;<sup><a name="9"></a><a href="#9a">8</a></sup> ocorre no momento exato da intromiss&atilde;o positiva de um gozo autoer&oacute;tico na crian&ccedil;a, no qual, correlativamente, produz-se a positiva&ccedil;&atilde;o do sujeito como depend&ecirc;ncia do desejo do Outro (o anaclitismo). Esse &eacute; o ponto de entrada pelo qual a estrutura do sujeito constitui um drama. Gra&ccedil;as &agrave; rela&ccedil;&atilde;o positiva do sujeito com o chamado gozo sexual, mas sem que por isso se assegure de modo algum a conjun&ccedil;&atilde;o sexuada ("N&atilde;o h&aacute; a rela&ccedil;&atilde;o sexual"), aparece o desejo de saber. &Eacute; na medida em que "isso &eacute; outra coisa", que vemos o que acontece quando o jovem sujeito precisa responder aos efeitos que se produzem pela intromiss&atilde;o da fun&ccedil;&atilde;o sexual em seu campo subjetivo (<i>Ibid</i>., p. 312). Falamos aqui da irrup&ccedil;&atilde;o de um gozo dentro da posi&ccedil;&atilde;o anacl&iacute;tica, reavivando-a. No ponto de <i>impossibilidade</i> introduzido pela proximidade da conjun&ccedil;&atilde;o sexual &ndash; no momento em que, ent&atilde;o, "<i>eclode</i>" a sua neurose -, o neur&oacute;tico &eacute; aquele que "<i>escolhe</i>" &#91;<i>le choix de la n&eacute;vrose</i>&#93; projetar esta <i>impossibilidade</i> em termos de <i>insufici&ecirc;ncia</i>.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Essa <i>impossibilidade</i>, a <i>insufici&ecirc;ncia</i> a mascara e a desvia de ter que se exercer, considerando que o sujeito n&atilde;o est&aacute; for&ccedil;osamente &agrave; altura dela, como ser vivo e reduzido a suas pr&oacute;prias for&ccedil;as (<i>Ibid</i>., p. 322). A <i>insufici&ecirc;ncia</i> &eacute; o &aacute;libi do sujeito para se esquivar da <i>impossibilidade</i>. Da&iacute; a culpa e o remorso de Oscar: "Sou um verme, me desprezo". Terminado o encantamento da paix&atilde;o, e incapaz de sustentar o imagin&aacute;rio do <i>complemento</i> no Um (fazer <i>Um</i> com o Outro, ser o <i>Um</i> no campo do Outro), ele permanece estacionado na posi&ccedil;&atilde;o de <i>insufici&ecirc;ncia</i> e seu horizonte restringe-se e limita-se aos sintomas do <i>desencadeamento</i> &#91;<i>d&eacute;clenchement</i>&#93;<sup><a name="10"></a><a href="#10a">9</a></sup> de sua neurose. Vemos isso em sua paralisa&ccedil;&atilde;o e passividade, como na resposta &agrave; interpela&ccedil;&atilde;o de Nigel "Voc&ecirc; &eacute; cafet&atilde;o?": "N&atilde;o a censuro por procurar o que j&aacute; n&atilde;o posso lhe oferecer", responde Oscar. Ele n&atilde;o consegue sair do lugar, nem mudar sua posi&ccedil;&atilde;o de gozo: seja para transformar sua rela&ccedil;&atilde;o com Mimi, seja para dela se separar. Sua depress&atilde;o deve ser entendida no sentido da "covardia moral", tal como &eacute; apresentada por Lacan em "Televis&atilde;o" (1974&#47;2003), inspirando-se em Dante e Espinosa. "Covardia moral", que n&atilde;o implica um julgamento moralista sobre o seu car&aacute;ter e sim um parecer sobre sua recusa &eacute;tica de um saber que o referencie na estrutura simb&oacute;lica, na realidade fantasm&aacute;tica por ela estruturada (em que ele se aliena), e em seu gozo, no inconsciente. Nas palavras do pr&oacute;prio Lacan:</font></p>     <blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A tristeza, por exemplo, &eacute; qualificada de depress&atilde;o, ao se lhe dar por suporte a alma &#91;&#8230;&#93;. Mas esse n&atilde;o &eacute; um estado de esp&iacute;rito &#91;<i>&eacute;tat d'&acirc;me</i>&#93;, &eacute; simplesmente uma falha &#91;<i>faute</i>&#93; moral, como se exprimiam Dante ou at&eacute; Espinosa: um pecado, o que significa uma covardia moral, que s&oacute; &eacute; situado, em &uacute;ltima inst&acirc;ncia, a partir do pensamento, isto &eacute;, do dever de bem dizer, ou de se referenciar no inconsciente, na estrutura (LACAN, 1974&#47;2003 p. 524).</font></p> </blockquote>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A possibilidade de resolu&ccedil;&atilde;o do problema de Oscar, com a sa&iacute;da da autorrecrimina&ccedil;&atilde;o e autocomisera&ccedil;&atilde;o paralisantes, n&atilde;o "se limita ao esgotamento das identifica&ccedil;&otilde;es do sujeito, isto &eacute;, daquilo pelo qual ele se reduziu ao Outro" (LACAN, 1968-69&#47;2008a, p. 269). A pr&aacute;tica anal&iacute;tica nos ensina que ali, onde lidamos com o sintoma, &eacute; mister desvelar e desmascarar a rela&ccedil;&atilde;o com o gozo, "que &eacute; nosso real uma vez que est&aacute; exclu&iacute;do". Esses s&atilde;o os tr&ecirc;s termos (os tr&ecirc;s suportes) em que se requer situar a experi&ecirc;ncia psicanal&iacute;tica. Trata-se de vertentes id&ecirc;nticas &agrave;s redes em que se encontra preso o sujeito que vem em busca de um analista: "o gozo como exclu&iacute;do, o Outro como lugar em que <i>isso se sabe</i>, e o objeto <i>a</i>, que &eacute; o piv&ocirc; da hist&oacute;ria" (<i>Ibid</i>., pp. 315-316). &Eacute; da l&oacute;gica entre os tr&ecirc;s que Lacan extrai sua abordagem das estruturas cl&iacute;nicas no <i>Semin&aacute;rio 16</i>. Por isso, ele pode afirmar que "&eacute; com ele &#91;objeto <i>a</i>&#93; que &eacute; preciso acabar &#91;a an&aacute;lise&#93;, no n&iacute;vel da neurose &ndash; &#91;o que n&atilde;o exclui o atravessamento da fantasia&#93; &ndash;, para que se revele a estrutura do que se trata de resolver; ou seja, o significante de A barrado, a estrutura pura e simples" (<i>Ibid</i>., p. 285).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Este &eacute; o enigma para resolver (ou dissolver) em uma an&aacute;lise, instigante como a frase do cartaz com o corpo de uma mulher, deitada, provocantemente seminua, cuja imagem se esconde ou se insinua em locais e momentos diversos, no filme: "<i>Honni soit qui mal y pense</i>".</font></p>     <p align="center"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>"Desprezado seja aquele que pense mal disso"</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Refer&ecirc;ncias</b></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. <i>Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, Fifth Edition</i>. Arlington: VA, American Psychiatric Association, 2013.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4857363&pid=S1676-157X201600010001600001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">DICTIONNAIRES LE ROBERT. (1988). <i>Micro-Robert Poche</i>. Paris: Robert, 1988.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4857365&pid=S1676-157X201600010001600002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">FREUD, S. (1905). "Tr&ecirc;s ensaios sobre a teoria da sexualidade". In: <i>Edi&ccedil;&atilde;o Standard Brasileira das Obras Psicol&oacute;gicas Completas de Sigmund Freud</i>. Rio de Janeiro: Imago, 2. ed., 1987, vol. VII.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4857367&pid=S1676-157X201600010001600003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">__________. (1912a). "Sobre a tend&ecirc;ncia universal &agrave; deprecia&ccedil;&atilde;o na esfera do amor". In: <i>Edi&ccedil;&atilde;o Standard Brasileira das Obras Psicol&oacute;gicas Completas de Sigmund Freud</i>. Rio de Janeiro: Imago, 2. ed., 1987, vol. XI. Dispon&iacute;vel em: &lt;<a href="http://conexoesclinicas.com.br/wp-content/uploads/2015/01/FREUD-Sigmund.-Obras-Completas-Imago-Vol.-11-1910.pdf" target="_blank">http:&#47;&#47;conexoesclinicas.com.br&#47;wp-content&#47;uploads&#47;2015&#47;01&#47;FREUD-Sigmund.-Obras-Completas-Imago-Vol.-11-1910.pdf</a>&gt; &#91;9 fev. 2016&#93;    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4857369&pid=S1676-157X201600010001600004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref -->.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">__________. (1912b). "Sobre la m&aacute;s generalizada degradaci&oacute;n de la vida amorosa". In: <i>Obras completas de Sigmund Freud</i>. Buenos Aires: Amorrortu, 2. ed., 1986, vol. XI. Dispon&iacute;vel em: &lt;http:&#47;&#47;www.bibliopsi.org&#47;docs&#47;freud&#47;11&#37;20-&#37;20 Tomo&#37;20XI.pdf&gt; &#91;9 fev. 2016&#93;    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4857371&pid=S1676-157X201600010001600005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref -->.</font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">__________. (1927). "Fetichismo". In: <i>Edi&ccedil;&atilde;o Standard Brasileira das Obras Psicol&oacute;gicas Completas de Sigmund Freud</i>. Rio de Janeiro: Imago, 2. ed., 1987, vol. XXI.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4857373&pid=S1676-157X201600010001600006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">__________. (1950 &#91;1895). "Projeto para uma psicologia cient&iacute;fica". In: <i>Edi&ccedil;&atilde;o Standard Brasileira das Obras Psicol&oacute;gicas Completas de Sigmund Freud</i>. Rio de Janeiro: Imago, 2. ed., 1987, vol. I.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4857375&pid=S1676-157X201600010001600007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">GIANESI, A. P. L. (2011). <i>Causalidade e desencadeamento na cl&iacute;nica psicanal&iacute;tica</i>. S&atilde;o Paulo: Annablume, 2011.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4857377&pid=S1676-157X201600010001600008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">LACAN, J. (1959-60). <i>O semin&aacute;rio, livro 7: A &eacute;tica da psican&aacute;lise</i>. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4857379&pid=S1676-157X201600010001600009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">__________. (1963). "Kant com Sade". In: <i>Escritos</i>. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 1998, pp. 776-803.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4857381&pid=S1676-157X201600010001600010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">__________. (1963). "Subvers&atilde;o do sujeito e dial&eacute;tica do desejo no inconsciente freudiano". In: <i>Escritos</i>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998, pp. 807-842.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4857383&pid=S1676-157X201600010001600011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">__________. (1962-63). <i>O semin&aacute;rio, livro 10: A ang&uacute;stia</i>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4857385&pid=S1676-157X201600010001600012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">__________. (1964). <i>O semin&aacute;rio, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psican&aacute;lise</i>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1988.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4857387&pid=S1676-157X201600010001600013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">__________. (1966). <i>Escritos</i>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4857389&pid=S1676-157X201600010001600014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">__________. (1968-69a). <i>O semin&aacute;rio, livro 16: De um Outro ao outro</i>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4857391&pid=S1676-157X201600010001600015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">__________. (1968-69b). <i>Le s&eacute;minaire, livre 16: D'un Autre &agrave; l'autre</i>. Dispon&iacute;vel em: &lt;<a href="http://staferla.free.fr/S16/S16.htm" target="_blank">http:&#47;&#47;staferla.free.fr&#47;S16&#47;S16.htm</a>&gt; &#91;9 fev. 2016&#93;    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4857393&pid=S1676-157X201600010001600016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref -->.</font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">__________. (1974). "Televis&atilde;o". <i>Outros escritos</i>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4857395&pid=S1676-157X201600010001600017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">MARTINHO, M. H. C. (2011). <i>Pervers&atilde;o: um fazer gozar</i>. Tese (Doutorado em Psican&aacute;lise) &ndash; Instituto de Psicologia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2011.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b><a name="end2"></a><a href="#end"><img src="/img/revistas/stylus/n32/seta.gif" border="0">Endere&ccedil;o   para correspond&ecirc;ncia</a></b>    ]]></body>
<body><![CDATA[<br> <b>E-mail:</b> <a href="mailto:raulpachecofilho@uol.com.br">raulpachecofilho@uol.com.br</a></font></p>      <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Recebido: 09&#47;02&#47;2016    <br> Aprovado: 22&#47;03&#47;2016</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><sup><a name="2a"></a><a href="#2">*</a></sup> Professor Titular da Faculdade de Ci&ecirc;ncias Humanas e da Sa&uacute;de da Pontif&iacute;cia Universidade Cat&oacute;lica de S&atilde;o Paulo (PUC-SP), atuando no Curso de Psicologia e no Programa de Estudos P&oacute;s-Graduados em Psicologia Social, onde coordena o N&uacute;cleo de Pesquisa Psican&aacute;lise e Sociedade (inscrito no Diret&oacute;rio dos Grupos de Pesquisa no Brasil &ndash; CNPq). Psic&oacute;logo com gradua&ccedil;&atilde;o pela PUC-SP e Mestrado e Doutorado pelo Instituto de Psicologia da USP. Psicanalista AME da Escola de Psican&aacute;lise dos F&oacute;runs do Campo Lacaniano (EPFCL &ndash; Brasil) e da Internacional dos F&oacute;runs do Campo Lacaniano (F&oacute;rum de S&atilde;o Paulo). Coordena a Rede de Pesquisa Psican&aacute;lise e Sa&uacute;de P&uacute;blica do F&oacute;rum do Campo Lacaniano de S&atilde;o Paulo.    <br> <sup><a name="1a"></a><a href="#1">1</a></sup> Uma vers&atilde;o condensada deste trabalho foi apresentada no XVI Encontro Nacional da Escola de Psican&aacute;lise dos F&oacute;runs do Campo Lacaniano &ndash; Brasil (EPFCL-Brasil) "Neurose, psicose, pervers&atilde;o: enlaces e desenlaces", realizado em out.&#47;nov. de 2015, em Curitiba (PR).    <br> <sup><a name="3a"></a><a href="#3">2</a></sup> <i>Bitter Moon</i> (filme). Dire&ccedil;&atilde;o de Roman Polanski. Roteiro de Roman Polanski, G&eacute;rard Brach, John Brownjohn e Jeff Gross. Elenco: Hugh Grant, Kristin Scott Thomas, Emmanuelle Seigner e Peter Coyote. Est&uacute;dio: Columbia Pictures Corporation (USA). Lan&ccedil;amento em 1992.    <br> <sup><a name="4a"></a><a href="#4">3</a></sup> <i>Lua de fel</i>. Lisboa, dom Quixote, 1993 (publicado na Fran&ccedil;a em 1981); <i>A euforia perp&eacute;tua: ensaio sobre o dever da felicidade</i>. Rio de Janeiro: Difel, 2002 (publicado na Fran&ccedil;a em 2000); <i>O paradoxo amoroso</i>. Rio de Janeiro: Difel, 2011 (publicado na Fran&ccedil;a em 2009); <i>Fracassou o casamento por amor?</i> Rio de Janeiro: Difel, 2013 (publicado na Fran&ccedil;a em 2010).    <br> <sup><a name="5a"></a><a href="#5">4</a></sup> Entrevista concedida para o jornal <i>Folha de S&atilde;o Paulo</i>, em 12&#47;10&#47;14.    ]]></body>
<body><![CDATA[<br> <sup><a name="6a"></a><a href="#6">5</a></sup> Usei o t&iacute;tulo da edi&ccedil;&atilde;o Amorrortu das <i>Obras completas de Sigmund Freud</i> (FREUD, 1912&#47;1986, p. VIII).    <br> <sup><a name="7a"></a><a href="#7">6</a></sup> Substitu&iacute; o termo "ansiedade", empregado na <i>Edi&ccedil;&atilde;o standard brasileira</i>, pelo termo "ang&uacute;stia", empregado na edi&ccedil;&atilde;o da Amorrortu (FREUD, 1912&#47;1986, <i>op. cit</i>., p. 173).    <br> <sup><a name="8a"></a><a href="#8">7</a></sup> Na edi&ccedil;&atilde;o da Amorrortu, os termos empregados s&atilde;o "<i>corrientes tierna y sensual</i>" (FREUD, 1912&#47;1986, <i>op. cit</i>., p. 174).    <br> <sup><a name="9a"></a><a href="#9">8</a></sup> Atente-se, a seguir, para a distin&ccedil;&atilde;o feita por Lacan entre <i>eclos&atilde;o</i>, <i>escolha</i> e <i>desencadeamento</i> da neurose, no <i>Semin&aacute;rio 16</i>. Quem tiver interesse em aprofundar a maneira pela qual Freud e Lacan abordam a quest&atilde;o do <i>desencadeamento</i> e da <i>causa</i> em suas obras pode recorrer &agrave; ampla e consistente investiga&ccedil;&atilde;o apresentada por Gianesi em "Causalidade e desencadeamento na cl&iacute;nica psicanal&iacute;tica" (GIANESI, 2011).    <br> <sup><a name="10a"></a><a href="#10">9</a></sup> A tradutora da vers&atilde;o brasileira dos <i>Escritos</i> (LACAN, 1966&#47;1998) assinala: "Reservamos o termo 'desencadeamento' para <i>d&eacute;clenchement</i>, essencial ao tratar-se de psicose" (p. 590). Eu entendo que n&atilde;o se trate de uma prerrogativa da psicose, pois a no&ccedil;&atilde;o de "desencadeamento" tamb&eacute;m &eacute; fundamental para a abordagem da neurose (assim como as no&ccedil;&otilde;es de "eclos&atilde;o" e "escolha". Ali&aacute;s, as diversas formas verbais do verbo "desencadear" s&atilde;o empregadas, nos <i>Escritos</i> e tamb&eacute;m na vers&atilde;o brasileira oficial de diversos <i>Semin&aacute;rios</i>, para traduzir o verbo <i>d&eacute;clencher</i>, seja quando se refere &agrave; psicose, &agrave; neurose, ao sintoma, a figuras cl&iacute;nicas (fobia) e sintomas espec&iacute;ficos (p. ex., del&iacute;rio). H&aacute;, por&eacute;m, ocasi&otilde;es em que o verbo "desencadear" tamb&eacute;m &eacute; empregado para traduzir as formas verbais de <i>d&eacute;cha&icirc;ner</i>: ao que parece, quando Lacan o emprega no mesmo sentido anteriormente assinalado para <i>d&eacute;clencher</i>. Veja-se, p. ex., a p&aacute;gina 296 da vers&atilde;o brasileira do <i>Semin&aacute;rio 16</i> (LACAN, 1968-69a&#47;2008), em que se traduziu "<i>d&eacute;cha&icirc;nement du sympt&ocirc;me</i>" (LACAN, 1968-69b, edi&ccedil;&atilde;o francesa Staferla, p. 159) por "desencadeamento do sintoma". Considerem-se os sentidos apresentados em "<i>Dictionnaires Le Robert</i>" para os dois verbos: <i>A) <b>d&eacute;clencher:</b> 1. D&eacute;terminer la production de (un ph&eacute;nom&egrave;ne) par un m&eacute;canisme, 2. D&eacute;terminer brusquement (une action, un ph&eacute;nomene) &#8594; <b>provoquer, commencer.</b></i> (LE ROBERT, 1988, p. 323). <i>B) <b>d&eacute;cha&icirc;ner:</b> 1. Donner libre cours &agrave; (une force). &#8594; <b>provoquer, soulever, ameuter</b>. (Ibid</i>., p. 321).</font></p>      ]]></body>
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<collab>AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION</collab>
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