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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif"><b>EDITORIAL</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif"><b>Marcos Aur&eacute;lio Fernandes</b></font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif"> (Universidade de Bras&iacute;lia)</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">A ess&ecirc;ncia da fenomenologia, pensada originariamente, est&aacute; situada no cerne da filosofia ocidental. Esta ess&ecirc;ncia se resume no mote "&agrave;s coisas mesmas!". Cada vez que o pensamento se faz radical e se direciona &agrave; coisa mesma que o provoca a pensar, correspondendo a esta provoca&ccedil;&atilde;o, emerge o seu tra&ccedil;o fenomenol&oacute;gico. O pensamento filos&oacute;fico &eacute; fenomenol&oacute;gico &agrave; medida que desvela, deixando vir &agrave; fala, o "<i>l&oacute;gos</i>" mesmo dos fen&ocirc;menos (sua linguagem, isto &eacute;, sua articula&ccedil;&atilde;o de sentido). Este tra&ccedil;o fenomenol&oacute;gico do pensamento filos&oacute;fico foi captado por Arist&oacute;teles como j&aacute; presente na investiga&ccedil;&atilde;o dos primeiros pensadores. O Estagirita diz a respeito dessa investiga&ccedil;&atilde;o que a coisa mesma abriu-lhes caminho e lhes obrigou a investigar<a name="1b"></a><a href="#1a"><sup>1</sup></a>. De Parm&ecirc;nides ele diz que este foi obrigado a seguir os fen&ocirc;menos<a name="2b"></a><a href="#2a"><sup>2</sup></a>. Afinal, os antigos investigavam pressionados pela <i>verdade</i><a name="3b"></a><a href="#3a"><sup>3</sup></a>. Pensar &eacute; exerc&iacute;cio de liberdade. Mas liberdade s&oacute; acontece concretamente na din&acirc;mica da liberta&ccedil;&atilde;o para a verdade. Pelo pensamento n&atilde;o somente somos libertos negativamente, isto &eacute;, de nossos pareceres e conjecturas, mas somos tamb&eacute;m libertos positivamente, para a necessidade dos fen&ocirc;menos. Deixando-nos pressionar e constringir por esta necessidade &eacute; que n&oacute;s, paradoxalmente, experimentamos o abrir-se da liberdade.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">A hodierna fenomenologia, encaminhada a partir das investiga&ccedil;&otilde;es de Husserl, constitui uma possibilidade de redescobrir a fenomenologia vigente em todos os tempos na tradi&ccedil;&atilde;o filos&oacute;fica, qual uma aut&ecirc;ntica filosofia perene. O que a filosofia tem de perene n&atilde;o &eacute;, pois, uma doutrina, um sistema, conte&uacute;do. O que a filosofia tem de perene &eacute; o movimento de investigar deixando-se aviar nas vias que as coisas mesmas abrem. No pref&aacute;cio do primeiro volume do <i>Anu&aacute;rio para Filosofia e Pesquisa Fenomenol&oacute;gica</i>, num texto program&aacute;tico, declaravase o princ&iacute;pio do relacionamento dos pesquisadores do movimento fenomenol&oacute;gico com a tradi&ccedil;&atilde;o: que a &uacute;nica maneira de explorar os tesouros legados pela tradi&ccedil;&atilde;o filos&oacute;fica &eacute; o de aprofundar-se at&eacute; &agrave;s ra&iacute;zes primordiais da intui&ccedil;&atilde;o e nelas haurir as evid&ecirc;ncias de ordem essencial. Abria-se, assim, o caminho da fenomenologia hodierna para o encontro com a fenomenologia de ontem - certamente, em vista da fenomenologia de amanh&atilde;.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Os artigos que aqui o leitor encontrar&aacute; mostram que esta abertura de caminho acontece desde diversas posi&ccedil;&otilde;es do movimento fenomenol&oacute;gico do s&eacute;culo XX e contempor&acirc;neo. Desde Brentano, Husserl, Scheler, Edith Stein, Heidegger, Rombach, partem diversos itiner&aacute;rios de di&aacute;logo com a tradi&ccedil;&atilde;o. Tal di&aacute;logo caminha na dire&ccedil;&atilde;o das linhas e das entrelinhas, do dito e do n&atilde;o-dito, do pensado e impensado desta tradi&ccedil;&atilde;o. Os autores fazem um recorte neste di&aacute;logo: evidenciam a vig&ecirc;ncia latente ou a presen&ccedil;a patente do pensamento medieval nos fenomen&oacute;logos hodiernos.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Brentano &eacute; um pensador que uniu a tradi&ccedil;&atilde;o aristot&eacute;lica-escol&aacute;stica com a filosofia moderna, fundada em Descartes. Uniu ontologia (ci&ecirc;ncia do ser) e psicologia (ci&ecirc;ncia da alma, da consci&ecirc;ncia, da subjetividade). A partir daqui partem as investiga&ccedil;&otilde;es de Husserl - a fenomenologia transcendental da consci&ecirc;ncia; e as investiga&ccedil;&otilde;es de Heidegger - a fenomenologia fundada na quest&atilde;o do ser. O artigo de Cesalli e Taieb (Genebra) mostra o v&iacute;nculo com a ontologia medieval no pensamento deste "mestre" de Husserl e de Heidegger.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Um tema fundamental da fenomenologia hodierna, retomado a partir de Brentano, &eacute; a intencionalidade. Com efeito, a hodierna fenomenologia atrav&eacute;s das investiga&ccedil;&otilde;es de Husserl irrompeu como a descri&ccedil;&atilde;o anal&iacute;tica da intencionalidade no seu <i>a priori</i>. O artigo de Vargas Bejarano (Calli, Col&ocirc;mbia) procura analisar as converg&ecirc;ncias e diverg&ecirc;ncias entre a concep&ccedil;&atilde;o de intencionalidade em Duns Scotus e em Edmund Husserl. Metaf&iacute;sica como "<i>scientia transcendens</i>" e como "fenomenologia da verdade" e fenomenologia transcendental, centrada na subjetividade, se encontram, assim, em torno do tema da intencionalidade, articulando identidade e diferen&ccedil;as.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">No ep&iacute;logo das Medita&ccedil;&otilde;es Cartesianas, Husserl declara que a fenomenologia transcendental plenamente desenvolvida &eacute; uma aut&ecirc;ntica ontologia universal e concreta (n&atilde;o formal). Nela, a metaf&iacute;sica em geral n&atilde;o &eacute; exclu&iacute;da, apenas a metaf&iacute;sica ing&ecirc;nua &eacute; superada. As quest&otilde;es de sentido - &agrave;s quais est&atilde;o ligados os problemas &eacute;ticos e religiosos - emergem de modo novo. Esta filosofia universal se realiza como uma tomada de consci&ecirc;ncia universal de si mesmo, na esfera mon&aacute;dica e intermon&aacute;dica. Neste sentido a tradi&ccedil;&atilde;o d&eacute;lfica do "conhece-te a ti mesmo" toma uma dimens&atilde;o ontol&oacute;gica. Se a ci&ecirc;ncia positiva &eacute; a ci&ecirc;ncia do ser, a qual se perdeu no mundo, a fenomenologia &eacute; uma tomada de consci&ecirc;ncia universal de si mesmo, que realiza plenamente e com novo vigor a indica&ccedil;&atilde;o investigativa de Santo Agostinho: <i>noli foras ire, in te redi, in interiore homine habitat veritas</i> (n&atilde;o v&aacute;s para fora, entra em ti, no homem interior habita a verdade). O artigo de S&aacute;vio Peres se dedica a tematizar o conceito de aten&ccedil;&atilde;o na descri&ccedil;&atilde;o fenomenol&oacute;gica da vida interior realizada por Agostinho, em que a <i>intentio voluntatis </i>desempenha uma fun&ccedil;&atilde;o prec&iacute;pua. Al&eacute;m disso, a mente conhece-se a si mesma, antes mesmo de pensar a si mesma. Conhecimento e amor s&atilde;o duas for&ccedil;as fundamentais da alma humana. O artigo de Daniel Rodrigues Ramos tematiza o tema do amor e da finitude atrav&eacute;s do di&aacute;logo de pensamento entre Max Scheler e Agostinho. Evidencia a import&acirc;ncia fundamental do amor (<i>caritas</i>) e de sua ordena&ccedil;&atilde;o (<i>ordo amoris</i>) para a estrutura&ccedil;&atilde;o da exist&ecirc;ncia humana.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Nas investiga&ccedil;&otilde;es de Edith Stein o v&iacute;nculo com a tradi&ccedil;&atilde;o filos&oacute;fica da antiguidade tardia e da Idade M&eacute;dia se apresenta ainda mais forte. O artigo de Juvenal Savian Filho mostra que este v&iacute;nculo &eacute; essencial no pensamento da carmelitana em sua fase madura. Ele possibilita abrir uma possibilidade de continuar o projeto husserliano no sentido da abertura de um caminho que leve &agrave; investiga&ccedil;&atilde;o das caracter&iacute;sticas essenciais dos objetos. O artigo de Rafael Carneiro Rocha mostra a import&acirc;ncia que o ser no sentido da ess&ecirc;ncia toma na investiga&ccedil;&atilde;o fenomenol&oacute;gica de Edith Stein. Aponta tamb&eacute;m para uma aproxima&ccedil;&atilde;o desta com a concep&ccedil;&atilde;o do ser no sentido da "<i>ultima realitas entis</i>" de Duns Scotus.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Heidegger procurou fazer uma cr&iacute;tica imanente da investiga&ccedil;&atilde;o fenomenol&oacute;gica que se desenvolve no elemento da consci&ecirc;ncia pura. O questionamento do ser do intencional, e, mais ampla e profundamente, do ser do humano e do ser do ente no todo e, por fim, do ser como tal e nele mesmo, abriu novos caminhos para essa investiga&ccedil;&atilde;o fenomenol&oacute;gica. Tenta-se assim uma supera&ccedil;&atilde;o do esquecimento do ser proporcionado pela decad&ecirc;ncia da exist&ecirc;ncia - esquecimento que vigora na metaf&iacute;sica dos antigos e dos modernos. Surge, assim, o projeto de uma fenomenologia fundada no questionamento e na recorda&ccedil;&atilde;o do ser. Na repeti&ccedil;&atilde;o da quest&atilde;o do ser d&aacute;-se uma retomada verdadeira e pr&oacute;pria da tradi&ccedil;&atilde;o, no sentido n&atilde;o s&oacute; do seu dito, mas tamb&eacute;m do seu n&atilde;o dito; n&atilde;o s&oacute; do seu pensado, mas tamb&eacute;m do seu impensado. O artigo deste que agora escreve salienta que o jovem Heidegger, em sua Tese de Habilita&ccedil;&atilde;o, sobre Duns Scotus e sobre a Gram&aacute;tica Especulativa, ao tratar da doutrina das categorias, j&aacute; colocava em ressalto a import&acirc;ncia da vis&atilde;o simples do ser:  a doa&ccedil;&atilde;o pr&eacute;via da ordem universal do ser (o todo do pens&aacute;vel) - impl&iacute;cita na doutrina do ente como primeiro objeto do intelecto - mostra-se um ponto de partida importante para a investiga&ccedil;&atilde;o fenomenol&oacute;gica. Fenomenologia &eacute; a vis&atilde;o simples do Simples: intui&ccedil;&atilde;o do Ser.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Na investiga&ccedil;&atilde;o de Heidegger, fenomenologia &eacute; o m&eacute;todo da ontologia. O Ser &eacute; a coisa mesma do pensar. Em sua forma juvenil, esta investiga&ccedil;&atilde;o se estrutura como hermen&ecirc;utica da faticidade da vida humana. &Eacute; junto &agrave;s estruturas da exist&ecirc;ncia (vida humana f&aacute;tica) que se pode haurir o sentido do ser de um modo privilegiado. Um campo fenomenal importante, que p&otilde;e em relevo esta faticidade da exist&ecirc;ncia &eacute; a vida religiosa. Heidegger procurou realizar o exerc&iacute;cio da an&aacute;lise fenomenol&oacute;gica da faticidade da exist&ecirc;ncia a partir da hermen&ecirc;utica de textos fundamentais da vida do esp&iacute;rito na religiosidade crist&atilde;. Assim, a m&iacute;stica mostrou-se terreno fecundo de investiga&ccedil;&atilde;o fenomenol&oacute;gico-ontol&oacute;gico-existencial. O artigo de Renato Kirchner e Jealison Machado Laroca, que intenta uma interpreta&ccedil;&atilde;o do poema "Noite Escura" de S&atilde;o Jo&atilde;o da Cruz trilha por este caminho aberto por Heidegger. A experi&ecirc;ncia do mist&eacute;rio - raiz da m&iacute;stica - mostra-se como singular, intransfer&iacute;vel, incomunic&aacute;vel; como algo que acontece no mais rec&ocirc;ndito da alma humana, no sil&ecirc;ncio de seu fundo. A escurid&atilde;o do mist&eacute;rio &eacute; supraluminosa; &eacute; a mais intensa ilumina&ccedil;&atilde;o. No n&atilde;o-saber do mist&eacute;rio da experi&ecirc;ncia e da experi&ecirc;ncia do mist&eacute;rio o pensamento da m&iacute;stica chega a seu &aacute;pice.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Do fundo da alma e da centelha divina que nela se esconde, bem como da douta ignor&acirc;ncia (o saber do n&atilde;o-saber) da experi&ecirc;ncia m&iacute;stica falava muitas vezes em seus Serm&otilde;es e Tratados e Conversa&ccedil;&otilde;es o Mestre Eckhart. No seu pensamento, a m&iacute;stica especulativa da escol&aacute;stica chega a alturas ousadas. Do nada do mist&eacute;rio &eacute; que prov&eacute;m toda acria&ccedil;&atilde;o. O artigo de &Ecirc;nio Paulo Giachini aponta para a import&acirc;ncia da concriatividade na vida humana.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Este conceito, central na fenomenologia estrutural de Heinrich Rombach, &eacute; trabalhado neste artigo &agrave; luz de uma das Conversa&ccedil;&otilde;es de Mestre Eckhart com seus orientandos. &Eacute; posto em evid&ecirc;ncia que a criatividade n&atilde;o consiste na mera inova&ccedil;&atilde;o. Criatividade &eacute;, em sua ess&ecirc;ncia, n&atilde;o a produ&ccedil;&atilde;o de coisas novas, mas a abertura de novas dimens&otilde;es para que as coisas apare&ccedil;am - dimens&otilde;es que s&oacute; fazem enriquecer a riqueza da vida humana.</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Para terminar, acrescentamos uma tradu&ccedil;&atilde;o de um texto do s&eacute;culo XII, a respeito da Unidade. Trata-se de um op&uacute;sculo atribu&iacute;do a <i>Dominicus Gundisalvi</i>. Desde os prim&oacute;rdios, o ser e o uno s&atilde;o temas centrais da metaf&iacute;sica da tradi&ccedil;&atilde;o. O texto traduzido mostra a riqueza que este tema traz para a compreens&atilde;o fenomenol&oacute;gico-ontol&oacute;gica do Uno Todo da realidade do real. O tema do <i>Um</i> abre a perspectiva para uma "<i>mathesis universalis</i>" toda pr&oacute;pria?</font></p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Desejamos a todos que a leitura destes textos lhes ajude a meditar sobre tantos e t&atilde;o belos caminhos que muitos abriram no di&aacute;logo entre a fenomenologia hodierna e a fenomenologia vigente no ontem, no vigor recolhido do passado, da tradi&ccedil;&atilde;o. E que esta medita&ccedil;&atilde;o ajude-nos a preparar a fenomenologia do amanh&atilde;.</font></p>     <p align="right"><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Bras&iacute;lia, 21 de agosto de 2018</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">(Este n&uacute;mero foi finalizado em 26 de agosto de 2018)    <br> <a name="1a"></a><a href="#1b">1</a> <i>Aut&ograve; t&ograve; pr&aacute;gma h&otilde;dopo&iacute;&otilde;sen autois ka&igrave; syn&ecirc;n&aacute;nkase z&ecirc;te&iacute;n</i>:   Metaf&iacute;sica I, 3, 984a 18s.    <br> <a name="2a"></a><a href="#2b">2</a> <i>anankaz&oacute;menos d'akolouthe&iacute;n to&iacute;s phainom&eacute;nois</i>: Metaf&iacute;sica, I,  986b 31.    <br> <a name="3a"></a><a href="#3b">3</a> <i>hyp'aut&ecirc;s tes alethe&iacute;as... anankaz&oacute;menoi</i>: Metaf&iacute;sica, I, 984b 10.</font></p>      ]]></body>

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