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<journal-title><![CDATA[Gerais : Revista Interinstitucional de Psicologia]]></journal-title>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Tecnologias de um dispositivo jurídico e seus efeitos na construção de uma biografia desviante]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[In this paper we present the theoretical and methodological paths used in a study that aimed to discern the modes of subjectivity present in the complex relations of knowledge-power of a legal device, capable of producing a specific category of individual: the infractor. The research uses fragments of Evaluative Reports that made up the dossier of a young boy who was undergoing Socio-educational Internment Measures. From the analysis of this document, we discuss a set of disciplinary techniques, regulations and practices of same, and some of the knowledge that underlies these techniques because they are considered legitimate. The government of individualization enlisted in the legal instrument in which the young boy is caught, is looking to discipline him and normalize him in the direction of what would be a subject citizen. To do so, necessarily binds the youth with the identify of an offender, blaming him almost exclusively for his actions, regardless of a critical and historical perspective of his non-citizenship.]]></p></abstract>
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<kwd lng="pt"><![CDATA[Dispositivo Jurídico]]></kwd>
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</front><body><![CDATA[ <p><a name="add"></a><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Tecnologias de um dispositivo jur&iacute;dico e seus efeitos na constru&ccedil;&atilde;o de uma biografia desviante<a href="#not1"><sup>1</sup></a></b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Technologies of a legal device and their effects on the construction of a deviant biography</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Alyne Alvarez Silva<sup>I,</sup><a href="#not2"><sup>2</sup></a>; Ricardo Pimentel M&eacute;llo<sup>II</sup></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><sup>I</sup>Universidade da Amaz&ocirc;nia, Bel&eacute;m, Brasil. Pontif&iacute;cia Universidade Cat&oacute;lica de S&atilde;o Paulo, S&atilde;o Paulo, Brasil    <br> <sup>II</sup>Universidade Federal do Cear&aacute;, Fortaleza, Brasil </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr size="1" noshade>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>RESUMO</b> </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Apresentamos neste artigo os caminhos te&oacute;ricos e metodol&oacute;gicos utilizados em uma pesquisa que teve como objetivo vislumbrar os modos de subjetiva&ccedil;&atilde;o, presentes nas complexas rela&ccedil;&otilde;es de saber-poder de um dispositivo jur&iacute;dico, capazes de fabricar uma categoria espec&iacute;fica de indiv&iacute;duo: o sujeito infrator. O trabalho utiliza fragmentos dos Relat&oacute;rios Avaliativos que compunham o dossi&ecirc; de um jovem que se encontrava em cumprimento de Medida Socioeducativa de Interna&ccedil;&atilde;o. A partir da an&aacute;lise deste documento, problematizamos um conjunto de t&eacute;cnicas disciplinares, regulamentares e pr&aacute;ticas de si, e alguns dos saberes que as fundamentam por serem considerados leg&iacute;timos. O governo da individualiza&ccedil;&atilde;o arregimentado no dispositivo jur&iacute;dico no qual o jovem &eacute; enredado procura disciplinariz&aacute;-lo e normaliz&aacute;-lo na dire&ccedil;&atilde;o do que seria um sujeito cidad&atilde;o. Para tanto, obrigatoriamente atrela ao jovem uma identidade infratora, responsabilizando-o quase que exclusivamente por seus atos, independentemente de uma perspectiva cr&iacute;tica e hist&oacute;rica do seu processo de n&atilde;o cidadania. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Palavras-chave:</b> Dispositivo Jur&iacute;dico; Subjetiva&ccedil;&atilde;o; Medida Socioeducativa; Sujeito Infrator. </font></p> <hr size="1" noshade>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ABSTRACT</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">In this paper we present the theoretical and methodological paths used in a study that aimed to discern the modes of subjectivity present in the complex relations of knowledge-power of a legal device, capable of producing a specific category of individual: the infractor. The research uses fragments of Evaluative Reports that made up the dossier of a young boy who was undergoing Socio-educational Internment Measures. From the analysis of this document, we discuss a set of disciplinary techniques, regulations and practices of same, and some of the knowledge that underlies these techniques because they are considered legitimate. The government of individualization enlisted in the legal instrument in which the young boy is caught, is looking to discipline him and normalize him in the direction of what would be a subject citizen. To do so, necessarily binds the youth with the identify of an offender, blaming him almost exclusively for his actions, regardless of a critical and historical perspective of his non-citizenship. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Keywords:</b> Legal Device; Subjectivity; Socio-Educational Measure; Infringer Subject </font></p> <hr size="1" noshade>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para discorrer sobre os modos de subjetiva&ccedil;&atilde;o presentes em um dispositivo jur&iacute;dico, usamos como ponto de partida o conceito de "dispositivo" proposto por Foucault (1979). O autor entende dispositivo "como um tipo de forma&ccedil;&atilde;o que, em determinado momento hist&oacute;rico, teve como fun&ccedil;&atilde;o principal responder a uma urg&ecirc;ncia" (Foucault, 1979, p. 244). Grosso modo, "dispositivo" pode ser definido como um conjunto h&iacute;brido de humanos e n&atilde;o humanos - leis, pr&aacute;ticas profissionais, arquiteturas, discursos, regulamentos, medidas administrativas, proposi&ccedil;&otilde;es filos&oacute;ficas, h&aacute;bitos etc. - que inevitavelmente atravessam os seres humanos e estabelecem determinados modos de ser. O dispositivo tem, portanto, uma fun&ccedil;&atilde;o estrat&eacute;gica dominante na medida em que sua emerg&ecirc;ncia, constitui&ccedil;&atilde;o e constante reconfigura&ccedil;&atilde;o t&ecirc;m como condi&ccedil;&atilde;o de possibilidade a problematiza&ccedil;&atilde;o de alguma experi&ecirc;ncia humana, uma experi&ecirc;ncia que se torna duvidosa em um determinado momento hist&oacute;rico e para a qual &eacute; preciso criar racionalidades estrat&eacute;gicas que objetivam transformar indiv&iacute;duos em sujeitos de determinado tipo. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O dispositivo jur&iacute;dico ao qual nos referimos diz respeito a todo um aparato da justi&ccedil;a penal criado e constantemente rearranjado para dar conta de quest&otilde;es referentes a adolescentes envolvidos com atos infracionais. Vislumbrando os modos de subjetiva&ccedil;&atilde;o presentes nas complexas  tramas de saber-poder de um dispositivo jur&iacute;dico, podemos pensar n&atilde;o em como o "sujeito infrator" emerge historicamente como quest&atilde;o problem&aacute;tica, mas, sim, como continua sendo constitu&iacute;do no interior deste dispositivo. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Entendendo, ent&atilde;o, o dispositivo como um conjunto heterog&ecirc;neo de pr&aacute;ticas de saber, de poder e de subjetiva&ccedil;&atilde;o, partimos do "processo judicial" de um adolescente<a name="not3a"></a><a href="#not3"><sup>3</sup></a>  para problematizar, a partir de um estudo geneal&oacute;gico, a din&acirc;mica das rela&ccedil;&otilde;es de for&ccedil;as que comp&otilde;em o dispositivo jur&iacute;dico e que, racionalizadas em pr&aacute;ticas, funcionam como estrat&eacute;gias de governamentalidade que constituem o "adolescente infrator". Considerando as pr&aacute;ticas a que os adolescentes s&atilde;o submetidos no decorrer do cumprimento da medida como o foco de interesse deste trabalho, as racionalidades das quais tratamos referem-se ao governo dos outros: t&eacute;cnicas de poder que visam o disciplinamento, a normaliza&ccedil;&atilde;o e a sujei&ccedil;&atilde;o dos adolescentes internados. </font></p>      <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O processo judicial &eacute;, na realidade, um dossi&ecirc; que, n&atilde;o sendo somente composto por documentos referentes ao tr&acirc;mite jur&iacute;dico, diz respeito a uma "cole&ccedil;&atilde;o de documentos referente a certo processo, assunto ou indiv&iacute;duo" (Ferreira, 2000, p. 245). Este conjunto de documentos foi tratado como um arquivo que, constitu&iacute;do no "cruzamento entre mecanismos de poder e efeitos de discurso" (Foucault, 2006a, p. 211), tamb&eacute;m constitui a "biografia" do jovem a que se refere; uma biografia escrita &agrave;s avessas que diz respeito a um corpo que nunca entraria na hist&oacute;ria n&atilde;o fosse pela porta dos fundos, quer dizer, pelos desvios e transgress&otilde;es (Foucault, 2006a). Arquivo que tem fun&ccedil;&atilde;o de historicizar as inf&acirc;mias visando fazer circular saberes com efeitos de captura sobre aqueles que desobedecem, que rompem com o institu&iacute;do. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Entramos no arquivo constitu&iacute;do para o adolescente e voltamos a an&aacute;lise para a parte<a name="not4a"></a><a href="#not4"><sup>4</sup></a> que discorre acerca do que seria a sua curta vida, dando-lhe contornos biogr&aacute;ficos a partir de olhares atentos a sua suposta "peculiaridade" infratora. Parte esta composta por hist&oacute;rias acumuladas sob a perspectiva de quem passou a existir como desviante e somente assim se entremeou nas redes do poder. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>O exame e outras tecnologias do poder disciplinar</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Numa perspectiva foucaultiana, o indiv&iacute;duo pode ser compreendido como o resultado de m&uacute;ltiplos desenvolvimentos estrat&eacute;gicos e complexos no campo do poder e das ci&ecirc;ncias humanas (Dreyfus & Rabinow, 1995). N&atilde;o obstante, ao mesmo tempo em que mapeamos algumas das t&eacute;cnicas que constituem os adolescentes internados como sujeitos de determinado tipo, identificamos os elementos que lhes criam uma "identidade infratora" para a qual se dirigem estrat&eacute;gias espec&iacute;ficas de governo da conduta pautadas no que Foucault (1995) chamou de "governo de individualiza&ccedil;&atilde;o". </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Analisamos parte do dossi&ecirc; em quest&atilde;o, a princ&iacute;pio, a partir da combina&ccedil;&atilde;o de instrumentos espec&iacute;ficos do poder disciplinar que resultam no exame: t&eacute;cnica que compromete os indiv&iacute;duos "em toda uma quantidade de documentos que os captam e os fixam" (Foucault, 1987, p. 168). Segundo Dreyfus e Rabinow (1995), o poder no regime disciplinar n&atilde;o somente individualiza a partir das observa&ccedil;&otilde;es constantes que dirige a cada um que busca gerir, como fixa a individualidade no campo da escrita. Para os autores: </font></p> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">    <blockquote>   um vasto e meticuloso aparelho documental torna-se componente essencial para o crescimento do poder. Os dossi&ecirc;s capacitam as autoridades a fixar uma rede objetiva de codifica&ccedil;&atilde;o. &#91;...&#93; O indiv&iacute;duo moderno - objetivado, analisado e fixado - &eacute; uma realiza&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica. O poder n&atilde;o aplica seu saber, suas investiga&ccedil;&otilde;es, suas t&eacute;cnicas ao universal, mas ao indiv&iacute;duo como objeto e efeito de um entrecruzamento do poder e do saber (Dreyfus & Rabinow, 1995, p. 176).  </blockquote></font>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para a composi&ccedil;&atilde;o dos documentos do dossi&ecirc;, o jovem &eacute; tomado como objeto sobre o qual se deve dizer verdades. O dispositivo jur&iacute;dico e seus experts devem funcionar como uma m&aacute;quina de fazer ver e fazer falar, compondo um conhecimento acerca desse objeto a partir de suas linhas de visibilidade e de enuncia&ccedil;&atilde;o (Deleuze, 1996). Elege-se aquilo que se pode fazer ver - dos seus atos, gestos e comportamentos - e aquilo sobre o qual se deve falar - dentro do disperso conjunto de enunciados acerca de quem ele &eacute; ou quem foi ou, ainda, quem foi para o que se &eacute; - para que, combinados, delineiem discursivamente o "sujeito infrator" como objeto a ser conhecido, descrito e analisado. &Eacute; deste modo que "a disciplina fabrica indiv&iacute;duos, ela &eacute; a t&eacute;cnica espec&iacute;fica de um poder que toma os indiv&iacute;duos ao mesmo tempo como objetos e como instrumentos de seu exerc&iacute;cio" (Foucault, 1987, p. 153). </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No interior de uma Unidade de Interna&ccedil;&atilde;o, o disciplinamento dos corpos desviantes se d&aacute; principalmente devido &agrave; vigil&acirc;ncia constante a que s&atilde;o submetidos. H&aacute; nesses espa&ccedil;os um jogo de olhar que deve induzir efeitos de poder, na medida em que o menor dos detalhes da vida dos jovens se torna penaliz&aacute;vel. Os jovens internos devem se sentir vigiados a todo instante e recear serem flagrados num ato de descumprimento das normas da institui&ccedil;&atilde;o, tendo em vista a puni&ccedil;&atilde;o correspondente que lhes caberia. Como nos diz Foucault (1987, p. 167), "&eacute; o fato de ser visto sem cessar, de sempre poder ser visto, que mant&eacute;m sujeito o indiv&iacute;duo disciplinar". </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Assim, para a constitui&ccedil;&atilde;o de sujeitos normalizados, instauram-se "micropenalidades" em rela&ccedil;&atilde;o ao tempo, &agrave;s atividades, ao modo de ser, ao corpo, em que pequenos desvios devem ser punidos. Esse sistema funciona como um pequeno mecanismo penal que sanciona ou gratifica as a&ccedil;&otilde;es dos sujeitos com a finalidade de normalizar. Separam-se a partir dele os "bons" dos "maus", categorizando como "anormais" aqueles que n&atilde;o se assujeitam e s&atilde;o sancionados, j&aacute; que resistem &agrave; norma, mesmo privados de liberdade. Sua fun&ccedil;&atilde;o primordial &eacute; a corre&ccedil;&atilde;o a partir de um m&eacute;todo punitivo ou, antes, a redu&ccedil;&atilde;o dos desvios, dos erros pela amea&ccedil;a da puni&ccedil;&atilde;o. Este mecanismo implica </font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">a qualifica&ccedil;&atilde;o dos comportamentos e dos desempenhos a partir de dois valores opostos do bem e do mal; em vez da simples separa&ccedil;&atilde;o do proibido, como &eacute; feito pela justi&ccedil;a penal, temos uma distribui&ccedil;&atilde;o entre polo positivo e polo negativo. &#91;...&#93; Uma contabilidade penal, constantemente posta em dia, permite obter o balan&ccedil;o positivo de cada um (Foucault, 1987, p. 161). </font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A "san&ccedil;&atilde;o normalizadora" busca, dessa forma, assujeitar os indiv&iacute;duos na medida em que estes se veem quase que obrigados a se enquadrar em regimes de pessoalidade<a name="not5a"></a><a href="#not5"><sup>5</sup></a>  ditados pelo aparelho disciplinar. Para o adolescente receber um Relat&oacute;rio Avaliativo<a name="not6a"></a><a href="#not6"><sup>6</sup></a> favor&aacute;vel &agrave; progress&atilde;o da medida socioeducativa, isto &eacute;, para que possa sair da interna&ccedil;&atilde;o para a semiliberdade ou presta&ccedil;&atilde;o de servi&ccedil;o &agrave; comunidade, por exemplo, o adolescente necessariamente tem que seguir as normas, ser obediente, se comportar como o esperado, n&atilde;o contestar o institu&iacute;do, enfim, se apresentar como um indiv&iacute;duo normalizado. E, para permanecer internado, uma pequena falta serve de justificativa. Toda atitude de resist&ecirc;ncia do adolescente &eacute; avaliada como negativa e, portanto, justifica algum tipo de puni&ccedil;&atilde;o. As idas e vindas pelas v&aacute;rias Unidades de Interna&ccedil;&atilde;o do adolescente a que o dossi&ecirc; se refere, e que passou dois anos e oito meses internado, se pautavam basicamente nesse mecanismo de puni&ccedil;&atilde;o e recompensa. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Como resultado da combina&ccedil;&atilde;o das constantes observa&ccedil;&otilde;es e do sistema de micropenalidades constitui-se o "exame" que extrai e constr&oacute;i um saber objetivo sobre os indiv&iacute;duos aos quais se dirige e tem como consequ&ecirc;ncia a constru&ccedil;&atilde;o do sujeito que "precisa" ser disciplinado: o "sujeito infrator". "Os procedimentos de exame s&atilde;o acompanhados imediatamente de um sistema de registro intenso e de uma acumula&ccedil;&atilde;o document&aacute;ria. Um poder de escrita &eacute; constitu&iacute;do como uma pe&ccedil;a essencial nas engrenagens da disciplina" (Foucault, 1987, p. 168). Nesse sentido, justificam-se as mais de 400 p&aacute;ginas, referentes ao dossi&ecirc; analisado, redigidas ao longo do per&iacute;odo em que Jo&atilde;o esteve internado. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Somando o exame &agrave; confiss&atilde;o para a constru&ccedil;&atilde;o da biografia de Jo&atilde;o</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Aproximando-nos das pr&aacute;ticas descritas no dossi&ecirc; do adolescente, vemos claramente como o processo de normaliza&ccedil;&atilde;o disciplinar se d&aacute; estrategicamente em etapas, sempre como um processo concomitante ao de produ&ccedil;&atilde;o do "infrator". Em primeiro lugar, as disciplinas decomp&otilde;em os indiv&iacute;duos, os seus gestos, atos, h&aacute;bitos para determinar aqueles que precisam ser modificados por serem considerados inadequados a um modo de ser "normal". No caso de Jo&atilde;o, alguns desses elementos apontados nos Relat&oacute;rios Avaliativos s&atilde;o: "n&atilde;o tem limites", "n&atilde;o sente culpa com rela&ccedil;&atilde;o ao ato cometido" e "n&atilde;o se relaciona bem com sua fam&iacute;lia". Em seguida, a disciplina classifica os elementos identificados em fun&ccedil;&atilde;o de determinados objetivos: Jo&atilde;o precisa aprender a ter limites, deve se arrepender e passar a se relacionar bem com sua fam&iacute;lia. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Identificados os problemas a serem corrigidos, colocam-se em pr&aacute;tica as t&aacute;ticas de interven&ccedil;&atilde;o capazes de san&aacute;-los. Assim, articula-se um plano sobre o que pode ser feito com o jovem para que esses objetivos sejam alcan&ccedil;ados. Para Jo&atilde;o a estrat&eacute;gia foi: a) usar esquemas bin&aacute;rios da san&ccedil;&atilde;o normalizadora para que, punindo erros e gratificando acertos, ele passasse a obedecer a "determinados limites"; b) fazer com que ele "refletisse" sobre suas atitudes, com o intuito de classific&aacute;-las como inadequadas e como oriundas de "seu car&aacute;ter", para que, ent&atilde;o, aprendesse a "respeitar as pessoas"; c) "exame de consci&ecirc;ncia" para que se percebesse errado com rela&ccedil;&atilde;o aos atos cometidos e, finalmente, se arrependesse; e d) atendimento psicol&oacute;gico para ele e para a fam&iacute;lia para que pudessem "se entender" da melhor maneira e, de certa forma, corrigir a "raiz" do problema, uma vez que &eacute; comum culpabilizar toda a fam&iacute;lia. Nesse sentido, </font></p> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">    <blockquote> a disciplina estabelece os procedimentos de adestramento progressivo e de controle permanente e, enfim, a partir da&iacute;, estabelece a demarca&ccedil;&atilde;o entre os que ser&atilde;o considerados inaptos, incapazes e os outros. Ou seja, &eacute; a partir da&iacute; que se faz a demarca&ccedil;&atilde;o entre o normal e o anormal (Foucault, 2008, p. 75). </blockquote></font>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Foucault (2008) esclarece que a disciplina estabelece um modelo que &eacute; constru&iacute;do em fun&ccedil;&atilde;o de determinados resultados e quem consegue ser enquadrado ou se enquadrar nesse modelo &eacute; considerado "normal", "cidad&atilde;o", "gente do bem" etc. Faz-se, assim, a separa&ccedil;&atilde;o daqueles que n&atilde;o conseguem tal feito e que, portanto, s&atilde;o considerados "anormais", "incompetentes", "antissociais", "n&atilde;o humanos", "do mal". A constitui&ccedil;&atilde;o do "sujeito infrator" se d&aacute;, portanto, concomitantemente &agrave; produ&ccedil;&atilde;o do "sujeito disciplinar". Jo&atilde;o &eacute; constitu&iacute;do nas Unidades como infrator n&atilde;o somente em virtude do ato infracional cometido, mas especialmente pela conduta resistente ao processo de assujeitamento imposto pelo rol de normas que deve seguir para ser considerado "normal". </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Por&eacute;m, a vida de Jo&atilde;o, descrita no decorrer do cumprimento da medida de interna&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o se constitui apenas nos exames e instrumentos disciplinares: somadas &agrave;s constantes observa&ccedil;&otilde;es e registros acerca do cotidiano do jovem interno, as suas confid&ecirc;ncias aos t&eacute;cnicos especializados "em ouvir" complementar&atilde;o o arsenal de informa&ccedil;&otilde;es sobre seu passado e seu presente e servir&atilde;o de fundamento &agrave;s a&ccedil;&otilde;es t&eacute;cnicas que ir&atilde;o intervir em sua vida para lhe delinear um futuro. </font></p> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">    <blockquote> No embate com as rela&ccedil;&otilde;es de poder opera-se a produ&ccedil;&atilde;o de uma rede fina de visibilidades destes corpos desviantes e seus atos de contrapoder por meio dos registros de especialistas da norma, que se tornaram os ouvintes de sussurros ainda que r&aacute;pidos e fugazes de vidas errantes que interrogavam com seus atos as pr&aacute;ticas de controle social (Lemos, Nascimento & Scheinvar, 2008, p. 07). </blockquote></font>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Dessa maneira, sua biografia resulta tamb&eacute;m dos momentos em que o adolescente deve falar de si &agrave;queles que ocupam um lugar privilegiado do saber atrav&eacute;s do poder a eles atribu&iacute;do de interpretar e desvelar "verdades" acerca da vida do "infrator". &Agrave; medida que se deseja ir al&eacute;m dos saberes oriundos dos exames, saberes que se acumulam a partir de um mecanismo &oacute;tico que deve registrar tudo o que se v&ecirc; e se sup&otilde;e, os exames passam a requerer a confiss&atilde;o do examinado. Uma vez que certas informa&ccedil;&otilde;es s&atilde;o inating&iacute;veis aos olhos dos t&eacute;cnicos examinadores, os exames passam a requerer "uma troca de discursos, atrav&eacute;s de quest&otilde;es que s&atilde;o extorquidas das confiss&otilde;es e confid&ecirc;ncias que v&atilde;o al&eacute;m das interroga&ccedil;&otilde;es" (Dreyfus & Rabinow, 1995, p. 191). </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">De forma geral, as t&eacute;cnicas que organizam vidas infames em formato de arquivos tomam-nas objetos a serem conhecidos em cada detalhe de suas exist&ecirc;ncias, escrutinando, como o "pastor", suas particularidades, segredos, interesses, dificuldades, desejos, sonhos, virtudes, "defeitos" e classificando tudo aquilo que pode ser "tra&ccedil;o" de uma pessoa "anormal". </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Apesar de a confiss&atilde;o ser uma pr&aacute;tica que remonta aos hebreus do in&iacute;cio do primeiro mil&ecirc;nio crist&atilde;o (Foucault, 2006b), &eacute; no s&eacute;culo XIX que o indiv&iacute;duo &eacute; persuadido a pensar que deve se conhecer, por meio da confiss&atilde;o, com o objetivo de obter controle sobre si pr&oacute;prio (Foucault, 1995). Dessa maneira, aquele sobre o qual se extra&iacute;a conhecimentos sem nem sequer dar uma palavra, deve falar e falar verdades sobre si mesmo, numa rela&ccedil;&atilde;o de obedi&ecirc;ncia e responsabilidade, com os que ocupam o lugar de "pastor" e que dever&atilde;o "salv&aacute;-lo". A confiss&atilde;o exige um "voltar-se para si", exige o estabelecimento de uma rela&ccedil;&atilde;o do jovem consigo mesmo que, ao mesmo tempo em que o faz criar verdades sobre si, o constitui nessas verdades, tornando-o sujeito nos dois sentidos atribu&iacute;dos por Foucault (1995) a este termo: a) sujeito ao controle e ao poder daqueles que passam a reconhecer sua experi&ecirc;ncia de si, que tamb&eacute;m se constitui nas confid&ecirc;ncias; e b) preso a uma identidade em fun&ccedil;&atilde;o de um autoconhecimento. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Essa rela&ccedil;&atilde;o a que Foucault (1995; 2006b) chama de pastoral, &eacute; estabelecida entre uma figura de autoridade e um indiv&iacute;duo que "precisa" ser orientado e aconselhado. No caso de Jo&atilde;o a rela&ccedil;&atilde;o pastoral acontece na intera&ccedil;&atilde;o com os t&eacute;cnicos da Unidade de Interna&ccedil;&atilde;o: psic&oacute;logos, pedagogos e assistentes sociais, principalmente. Tal rela&ccedil;&atilde;o instalaria no indiv&iacute;duo v&aacute;rios procedimentos de "autoinspe&ccedil;&atilde;o, autossuspei&ccedil;&atilde;o, exposi&ccedil;&atilde;o do eu, autodeciframento e autoforma&ccedil;&atilde;o" (Rose, 2001, p. 38) a partir de t&eacute;cnicas como a pr&oacute;pria confiss&atilde;o, que funcionam como "t&eacute;cnicas de si", isto &eacute;: </font></p> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">    <blockquote> os procedimentos, que sem d&uacute;vida, existem em toda civiliza&ccedil;&atilde;o, pressupostos ou prescritos aos indiv&iacute;duos para fixar sua identidade, mant&ecirc;-la ou transform&aacute;-la em fun&ccedil;&atilde;o de determinados fins, e isso gra&ccedil;as a rela&ccedil;&otilde;es de dom&iacute;nio de si sobre si ou de conhecimento de si por si (Foucault, 1997, p. 109).  </blockquote></font>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&Eacute; preciso ressaltar que no decorrer do tempo em que o adolescente esteve internado, o ato infracional se diluiu, desaparecendo completamente dos autos do processo. Apenas nas duas primeiras audi&ecirc;ncias o adolescente teve o ato infracional julgado.  No seu lugar, in&uacute;meros outros objetos surgiram e passaram a ser alvo de julgamentos correspondentes &agrave;s micropenalidades mencionadas anteriormente. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os objetos que aparecem no seu lugar s&atilde;o todos os seus comportamentos, gestos, inten&ccedil;&otilde;es, sentimentos, pensamentos, ou seja, tudo aquilo que deve ser domado, que deve ser minuciosamente observado, escutado e controlado para que deixe de ser uma amea&ccedil;a &agrave; ordem social e possibilite a "transforma&ccedil;&atilde;o" do ser humano em um sujeito d&oacute;cil e &uacute;til: consciente de si, respons&aacute;vel por seus atos, obediente &agrave;s normas e regras, respeitador, menos questionador e mais subserviente. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Apesar de o ato infracional cometido pelo jovem desaparecer no decorrer do Processo, fazendo aparecer esses outros objetos a serem julgados nas avalia&ccedil;&otilde;es de Jo&atilde;o, &eacute; exatamente a infra&ccedil;&atilde;o que serve como ponto de partida para o encadeamento dos discursos acerca da sua "hist&oacute;ria de vida passada". &Eacute; a partir da edi&ccedil;&atilde;o enviesada de sua hist&oacute;ria que se concebe a forma como ele deve ser apresentado atualmente. Os discursos utilizados para descrever sua hist&oacute;ria, e quem ele se tornou em consequ&ecirc;ncia dela, delineiam toda sua exist&ecirc;ncia em fun&ccedil;&atilde;o do cometimento do ato infracional, de modo a nos levar a presumir que n&atilde;o haveria outro destino a Jo&atilde;o sen&atilde;o a delinqu&ecirc;ncia. Os trechos abaixo nos mostram parte da hist&oacute;ria de Jo&atilde;o editada nessa dire&ccedil;&atilde;o: </font></p> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">    <blockquote>       <p>Jo&atilde;o &#91;se encontrava&#93; bastante envolvido com situa&ccedil;&otilde;es de risco pessoal e social (uso de drogas l&iacute;citas e il&iacute;citas, pr&aacute;ticas infracionais, referindo pr&aacute;tica de uns nove assaltos, perman&ecirc;ncia em festas, ruas, acompanhado de pessoas inid&ocirc;neas, descumprindo com as normas inerentes ao conv&iacute;vio familiar) (2° Relat&oacute;rio Avaliativo, escrito em 07/11/2005). </p>       <p>Se encontra &#91;sic&#93; em defasagem escolar &#91;...&#93;. Este intervalo de tempo em que ficou afastado do ambiente escolar coincide com o in&iacute;cio do uso de subst&acirc;ncias entorpecentes e com seu envolvimento em atos infracionais (2° Relat&oacute;rio Avaliativo, escrito em 07/11/2005). </p>       <p>N&atilde;o tinha, quando em liberdade, uma forma muita sadia de se divertir, haja vista que afirma que sempre sa&iacute;a &agrave; noite e ficava pelas esquinas com os amigos at&eacute; &agrave;s 2h da madrugada (4° Relat&oacute;rio Avaliativo, escrito em 11/06/2006). </p> </blockquote></font>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Passetti (1995) afirma que &eacute; por meio do levantamento biogr&aacute;fico da vida do "infrator" que ele ser&aacute; caracterizado como delinquente. Nesse sentido, vemos nos Relat&oacute;rios a busca incessante por raz&otilde;es para explicar os porqu&ecirc;s dos seus "desvios", deixando recair principalmente sobre a fam&iacute;lia a responsabilidade pelo triste destino de Jo&atilde;o, j&aacute; que esta &eacute; caracterizada como "desestruturada" e, em virtude de sua "desorganiza&ccedil;&atilde;o", &eacute; tida como incapaz de educ&aacute;-lo moralmente, inapta a evitar situa&ccedil;&otilde;es de risco para o "desenvolvimento" de Jo&atilde;o, respons&aacute;vel por sua evas&atilde;o escolar, dentre outras coisas. Assim, os acontecimentos da vida do jovem Jo&atilde;o s&atilde;o encadeados estrat&eacute;gica e coerentemente, fazendo aparecer o amargo presente, privado de liberdade como efeito de uma inf&acirc;ncia e uma adolesc&ecirc;ncia "descuidadas", como podemos ver nos trechos a seguir: </font></p> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">    <blockquote>       <p>A din&acirc;mica familiar &eacute; marcada pelo abandono materno em tenra idade e o pai, apesar de morar com o adolescente, foi ausente em sua orienta&ccedil;&atilde;o e usava de disciplina inadequada pelo emprego de puni&ccedil;&otilde;es f&iacute;sicas em detrimento do di&aacute;logo, &#91;...&#93; A av&oacute; paterna &eacute; sua refer&ecirc;ncia afetiva, mas n&atilde;o tem qualquer inger&ecirc;ncia de autoridade para control&aacute;-lo. (Documento anexo ao 1° Relat&oacute;rio Avaliativo, escrito em 06/04/2005). </p>       <p>&Eacute; not&oacute;rio que a disciplina familiar complacente, onde os respons&aacute;veis controlavam de forma inadequada com toler&acirc;ncia aos erros cometidos pelo adolescente, talvez pela av&oacute; paterna que tomou para si a responsabilidade de cri&aacute;-lo, aliado &agrave; indiferen&ccedil;a ou hostilidade por parte dos pais e ainda o hist&oacute;rico de desintegra&ccedil;&atilde;o por separa&ccedil;&atilde;o dos genitores &#91;...&#93; tenham contribu&iacute;do para o quadro de delinqu&ecirc;ncia juvenil ora apresentado pelo adolescente. (5° Relat&oacute;rio Avaliativo, escrito em 25/01/2007). </p>       <p>Adv&eacute;m de um n&uacute;cleo familiar fragilizado, onde &#91;sic&#93; ap&oacute;s a separa&ccedil;&atilde;o dos pais, os mesmos n&atilde;o forneceram condi&ccedil;&otilde;es necess&aacute;rias para um crescimento e desenvolvimento saud&aacute;vel e seguro (6° Relat&oacute;rio Avaliativo, escrito em 20/08/2007). </p> </blockquote></font>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Sabemos que as teorias desenvolvimentistas legitimadas como cient&iacute;ficas, a exemplo da Teoria Psicogen&eacute;tica, de Jean Piaget e a Teoria Psicossocial do Desenvolvimento, de Erik Erikson, categorizaram cada etapa da vida, estabelecendo comportamentos e sentimentos considerados adequados a cada uma delas. Essas teorias criam campos de atua&ccedil;&atilde;o profissional que, munidos de tecnologias disciplinares e aparatos de regula&ccedil;&atilde;o, passam a se ocupar do "desenvolvimento humano", garantindo o curso esperado. Assim, as crian&ccedil;as e adolescentes submetidos aos discursos "verdadeiros", aos discursos cient&iacute;ficos, s&atilde;o tomados como objetos sobre os quais se imprime saberes que os consideram como iguais, como se somente houvesse uma Inf&acirc;ncia e uma Adolesc&ecirc;ncia, um modo de ser crian&ccedil;a e adolescente. Para aqueles que se desviam dos padr&otilde;es considerados normais, os "anormais", h&aacute; toda uma rede institucional treinada para intervir sobre eles, recolocando-os "na linha", normalizando-os. Tais posicionamentos s&atilde;o diametralmente opostos, por exemplo, ao que paradigmas te&oacute;ricos, como a sociologia interacionista e abordagens construcionistas, afinadas aos estudos da Sociologia da Inf&acirc;ncia e Sociologia da Juventude, entendem acerca destas no&ccedil;&otilde;es, j&aacute; que inf&acirc;ncia e juventude deixam de ser objetos que se constituem passivamente e naturalmente na sua rela&ccedil;&atilde;o com o mundo e passam a ser vistos como constru&ccedil;&otilde;es sociais e hist&oacute;ricas, que dependem do contexto onde est&atilde;o inseridos e que, portanto, jamais caberiam em categorias universais. Com o estabelecimento do que s&atilde;o a inf&acirc;ncia e a adolesc&ecirc;ncia normais, criou-se aquilo que n&atilde;o pode ser considerado inf&acirc;ncia e adolesc&ecirc;ncia, criou-se a diferen&ccedil;a, que n&atilde;o admitida, determina constantemente a cria&ccedil;&atilde;o dos meios para trat&aacute;-la. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A educa&ccedil;&atilde;o seria um dos instrumentos de regula&ccedil;&atilde;o das fam&iacute;lias, respons&aacute;vel por instru&iacute;-las para que formem "lares constitu&iacute;dos, est&aacute;veis e harmoniosos, onde as crian&ccedil;as cres&ccedil;am num ambiente de amor e seguran&ccedil;a" (Altenfelder conforme citado por Passetti, 1995, p. 153); deve tamb&eacute;m atuar sobre crian&ccedil;as abandonadas que, recolhidas &agrave;s casas de corre&ccedil;&atilde;o, passam a ter seu "car&aacute;ter" formado distante das ruas. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Da&iacute; pr&aacute;ticas educacionais, psicol&oacute;gicas, profissionalizantes, religiosas, voltadas &agrave; sa&uacute;de, ao lazer e &agrave; fam&iacute;lia serem colocadas como centrais na chamada "Medida Socioeducativa de Interna&ccedil;&atilde;o", justificando a manuten&ccedil;&atilde;o do internamento de jovens. A fam&iacute;lia, considerada a &uacute;nica respons&aacute;vel pelo "desenvolvimento normal" dos seus filhos, &eacute; julgada como incapaz de promover a&ccedil;&otilde;es sobre suas crian&ccedil;as para garantir-lhes tal condi&ccedil;&atilde;o e incompetente para evitar seus desvios em tenra idade. Acaba, assim, tendo por vezes que assistir a seus jovens filhos "com m&aacute; forma&ccedil;&atilde;o moral" sendo tomados pelos aparatos estatais como a &uacute;nica possibilidade de "revers&atilde;o" do quadro, embora praticamente n&atilde;o entre em discuss&atilde;o a condi&ccedil;&atilde;o de desassist&ecirc;ncia em que tamb&eacute;m se encontra. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Dessa maneira, t&ecirc;m-se as medidas socioeducativas consideradas como medidas de car&aacute;ter preventivo (com rela&ccedil;&atilde;o a pr&aacute;ticas de delitos futuros) e n&atilde;o retributivo (aplicado como resposta ao mal que provocou) a partir das quais os "socioeducandos" passariam principalmente por processos de "forma&ccedil;&atilde;o de car&aacute;ter" e n&atilde;o por puni&ccedil;&otilde;es pelo ato cometido. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Todavia, na pr&aacute;tica, temos juntamente com as t&eacute;cnicas de disciplinamento e t&aacute;ticas de corre&ccedil;&atilde;o, pr&aacute;ticas punitivas e rela&ccedil;&otilde;es de poder bastante arbitr&aacute;rias. Passetti (1995) coloca as institui&ccedil;&otilde;es de internamento de adolescentes como constituidoras de sujeitos criminosos ou formadoras de "carreiras criminosas" na medida em que </font></p> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">    <blockquote>   os pr&oacute;prios dispositivos disciplinares s&atilde;o, neste caso, por excel&ecirc;ncia, meios para a crian&ccedil;a ou adolescente cometerem infra&ccedil;&otilde;es internas na institui&ccedil;&atilde;o que ser&atilde;o acrescentadas nos seus prontu&aacute;rios, mostrando-nos a&iacute; o quanto de infratores se cria numa institui&ccedil;&atilde;o e quantos delinquentes acaba liberando (Passetti, 1995, p. 171). </blockquote></font>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Assim, os argumentos enumerados como determinantes para a constitui&ccedil;&atilde;o dos modos de ser infrator delineiam a biografia de Jo&atilde;o que, desde o princ&iacute;pio de sua vida, &eacute; descrita para justificar seu inevit&aacute;vel caminho delinquente. Como n&atilde;o se pode evidenciar os dispositivos disciplinares como promotores de rebelamentos, indisciplina e constituidores do "anormal", a forma como se conta a hist&oacute;ria de vida de Jo&atilde;o torna coerente ao que se anota nos prontu&aacute;rios e permite descrev&ecirc;-lo como vemos nos trechos abaixo: </font></p> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">    <blockquote>       <p>Apresenta-se destemido e com valores completamente deturpados (1° Relat&oacute;rio Avaliativo, escrito em 06/04/2005). </p>       <p>O adolescente apresenta-se revoltado, intolerante, destemido e buscando na delinqu&ecirc;ncia afrontar e humilhar o pai, ou seja, atingi-lo de alguma forma (1° Relat&oacute;rio Avaliativo, escrito em 06/04/2005). </p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Apresenta desde o in&iacute;cio comportamento inadequado &agrave;s normas da unidade, sendo intolerante, prepotente, agressivo, com dificuldade de acatar as normas preestabelecidas e algumas vezes desrespeitando funcion&aacute;rios. Envolveu-se em conflito com um educador por n&atilde;o aceitar determina&ccedil;&otilde;es de hor&aacute;rio. Influenciava os demais internos para o tumulto (3° Relat&oacute;rio Avaliativo, escrito em 11/01/2006). </p> </blockquote></font>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os atendimentos individuais e entrevistas, que tamb&eacute;m funcionam como um exame e s&atilde;o realizados pelos profissionais das Unidades de Interna&ccedil;&atilde;o, constituem a biografia de Jo&atilde;o com o cuidado de mostrar como o adolescente j&aacute; se parecia com seu ato infracional antes de t&ecirc;-lo cometido. Com o aux&iacute;lio dessas t&eacute;cnicas, tem-se o cuidado de estabelecer "os antecedentes infraliminares da penalidade" (Foucault, 2001, p. 23). Desde tenra idade, ele vai sendo descrito como revoltado ou incontrol&aacute;vel e no seu entorno s&atilde;o elencados os elementos que, reunidos, reafirmam seu comportamento tido como inadequado. Assim, v&atilde;o sendo reconstitu&iacute;das uma s&eacute;rie de "faltas" que existem mesmo sem infra&ccedil;&atilde;o. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">As caracteriza&ccedil;&otilde;es de Jo&atilde;o descritas nos Relat&oacute;rios Avaliativos que o posicionam como infrator &eacute; exatamente o que Foucault (2001) aponta acontecer como efeito do exame psiqui&aacute;trico. O delito desdobrado nessa s&eacute;rie de outros focos de puni&ccedil;&atilde;o estabelece um sujeito que n&atilde;o &eacute; mais jur&iacute;dico, mas sim um sujeito que deve ser objeto de certas tecnologias de repara&ccedil;&atilde;o, de corre&ccedil;&atilde;o ou readapta&ccedil;&atilde;o. A partir dessas descri&ccedil;&otilde;es que apontam automaticamente causas para o ato cometido, dobra-se "o autor, respons&aacute;vel ou n&atilde;o, do crime, como um sujeito delinquente que ser&aacute; objeto de uma tecnologia espec&iacute;fica" (Foucault, 2001, p. 27), o que expande a a&ccedil;&atilde;o do aparato jur&iacute;dico para al&eacute;m dos saberes do direito. Segundo Foucault (2001, p. 23): </font></p> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">    <blockquote> Por meio de uma atribui&ccedil;&atilde;o causal &#91;...&#93;, passou-se do que poder&iacute;amos chamar de<font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">e alvo da puni&ccedil;&atilde;o - o ponto de aplica&ccedil;&atilde;o de um mecanismo de poder, que &eacute; o castigo legal - a um dom&iacute;nio de objetos que pertence a um conh</font>cimento, a uma t&eacute;cnica de transforma&ccedil;&atilde;o, a todo um conjunto racional e concertado de coer&ccedil;&otilde;es. &#91;...&#93; O essencial &eacute; que ele permite situar a a&ccedil;&atilde;o punitiva do poder judici&aacute;rio num corpus geral de t&eacute;cnicas bem pensadas de transforma&ccedil;&atilde;o de indiv&iacute;duos (Foucault, 2001, p. 22-23). </blockquote> </font>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">De qualquer maneira, os discursos que posicionam o adolescente como "infrator" servem como condi&ccedil;&atilde;o de possibilidade para os processos de constru&ccedil;&atilde;o e aplica&ccedil;&atilde;o de conhecimentos, t&eacute;cnicas e modos de interven&ccedil;&atilde;o espec&iacute;ficos no interior das Unidades de Interna&ccedil;&atilde;o. Encadear "fatos" da sua vida ou apresent&aacute;-los de uma forma que praticamente n&atilde;o nos permite interagir com Jo&atilde;o sem lhe atrelar uma "identidade infratora" possibilita estruturar um campo de a&ccedil;&otilde;es poss&iacute;veis para atuar sobre ele, legitimando pr&aacute;ticas que n&atilde;o seriam tidas como plaus&iacute;veis n&atilde;o fosse tal identifica&ccedil;&atilde;o. Nesse sentido, os discursos devem ser entendidos em seu car&aacute;ter perform&aacute;tico (Austin, 1998), isto &eacute;, seu car&aacute;ter atributivo e constitutivo de coisas ou estados de coisas que t&ecirc;m o poder de romper ou legitimar determinadas pr&aacute;ticas. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Vimos ao longo do texto que posicionar o adolescente como "destemido", "com valores deturpados", "agressivo", "com dificuldade de acatar normas", "dificuldade de se relacionar com a fam&iacute;lia", "em defasagem escolar" e como "ex-usu&aacute;rio de droga", coloca-o necessariamente como alvo de pr&aacute;ticas espec&iacute;ficas de corre&ccedil;&atilde;o correspondentes a cada uma das caracteriza&ccedil;&otilde;es feitas. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">As pr&aacute;ticas espec&iacute;ficas de corre&ccedil;&atilde;o e/ou transforma&ccedil;&atilde;o t&ecirc;m como via de implementa&ccedil;&atilde;o os itens do Curr&iacute;culo M&iacute;nimo Obrigat&oacute;rio - Sa&uacute;de; Documenta&ccedil;&atilde;o; Escolariza&ccedil;&atilde;o; Profissionaliza&ccedil;&atilde;o; Esporte, Cultura e Lazer; Religiosidade e Acompanhamento &agrave; Fam&iacute;lia. Tal curr&iacute;culo &eacute; previsto pelo Estatuto da Crian&ccedil;a e do Adolescente (ECA) para a garantia de direitos dessa popula&ccedil;&atilde;o, j&aacute; que &eacute; considerado "instrumento para o exerc&iacute;cio da cidadania". Por meio de sua implementa&ccedil;&atilde;o, o adolescente que &eacute; apreendido como "infrator" deve tornar-se um jovem "cidad&atilde;o" na medida em que recebe atendimento m&eacute;dico, leia-se "engole" al&eacute;m de ordena&ccedil;&otilde;es morais, subst&acirc;ncias qu&iacute;micas, que o controlem; obt&eacute;m seus documentos, ou seja, cadastra-se formalmente nos bancos de informa&ccedil;&otilde;es do Estado, como cidad&atilde;o e n&atilde;o mais como delinquente; volta precariamente a estudar, considerando todas as limita&ccedil;&otilde;es das Unidades de Interna&ccedil;&atilde;o; recebe cursos de profissionaliza&ccedil;&atilde;o, o que lhe permitiria sair da interna&ccedil;&atilde;o "preparado" para trabalhar e, ao mesmo tempo, mostrar que seu corpo est&aacute; sendo docilizado a contento; reflete sobre sua vida e seus conflitos cotidianos com pessoas formadas para lhe orientar "espiritualmente", ou seja, exerce a confiss&atilde;o; e tem sua fam&iacute;lia supostamente "reestruturada" para lhe dar o suporte que preze pelo seu "desenvolvimento" para que, ent&atilde;o, tenha uma vida "adequada" segundo  os padr&otilde;es de normalidade (Cf. Silva, 2009). </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Vale ressaltar que, quase um semestre antes de Jo&atilde;o conseguir progress&atilde;o de medida socioeducativa<a name="not7a"></a><a href="#not7"><sup>7</sup></a>, foi realizada uma per&iacute;cia  pelos t&eacute;cnicos do Juizado da Inf&acirc;ncia e Juventude, os quais constataram em suas investiga&ccedil;&otilde;es que, em dois anos e meio de interna&ccedil;&atilde;o, tais "direitos fundamentais" n&atilde;o haviam sido garantidos ao jovem, j&aacute; que, ao contr&aacute;rio do que nos dizem os relat&oacute;rios avaliativos, essas atividades n&atilde;o estavam sendo realizadas satisfatoriamente. </font></p>      <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O que vemos &eacute; que, sendo realizadas ou n&atilde;o, as atividades do Curr&iacute;culo M&iacute;nimo Obrigat&oacute;rio funcionariam como uma estrat&eacute;gia biopol&iacute;tica para a ger&ecirc;ncia dos corpos desviantes, uma vez que dirigidas a todos os adolescentes internos teriam a finalidade de que, submetidos a elas, sofressem modifica&ccedil;&otilde;es no seu modo de ser para exercer sua "cidadania", quando em liberdade. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>&Agrave; guisa de conclus&atilde;o</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O "governo da individualiza&ccedil;&atilde;o", a que Foucault (1995) sugere que se volte contra &eacute;, no caso de adolescentes que infringem leis, este que os individualiza e os torna "sujeitos" que devem ser "transformados", nos espa&ccedil;os de interna&ccedil;&atilde;o, a partir de pr&aacute;ticas ditas "socioeducativas", que legitimam sua priva&ccedil;&atilde;o de liberdade. Sendo a "Medida Socioeducativa de Interna&ccedil;&atilde;o" imbu&iacute;da do dever de "tir&aacute;-los" da condi&ccedil;&atilde;o de "desviantes", parte-se do princ&iacute;pio de que s&atilde;o indiv&iacute;duos dotados de uma "identidade infratora" e que, portanto, s&atilde;o os &uacute;nicos respons&aacute;veis por seus atos, ainda que tamb&eacute;m se associe essa condi&ccedil;&atilde;o de infrator &agrave; "desorganiza&ccedil;&atilde;o da estrutura familiar". Em outras palavras, este governo seria uma estrat&eacute;gia que toma a pr&aacute;tica do encarceramento, apresentada em tom assistencial-corretivo, como a &uacute;nica maneira de governar a conduta dos "ingovern&aacute;veis". </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Vimos que n&atilde;o &eacute; o "mal provocado pelo 'infrator'" que dever&aacute; mant&ecirc;-lo privado de sua liberdade. A partir do momento em que o jovem foi enredado nas tramas do dispositivo jur&iacute;dico, o "sujeito jur&iacute;dico" do direito penal desapareceu. A justificativa para manter Jo&atilde;o internado ap&oacute;s a senten&ccedil;a nunca mais se referiu &agrave; infra&ccedil;&atilde;o cometida por ele: no lugar do ato infracional, surgiram outros elementos para serem julgados. Somando os saberes e pr&aacute;ticas que est&atilde;o para al&eacute;m do saber judici&aacute;rio, o "sujeito infrator" que surge &eacute; de outra ordem: &eacute; aquele que n&atilde;o pode ser classificado como legalmente criminoso nem patologicamente doente, pois &eacute; uma s&eacute;rie de condutas consideradas como "defeitos sem ilegalidade" e "faltas sem infra&ccedil;&atilde;o" que dever&atilde;o ser elencadas e encadeadas de forma coerente com o seu futuro "delinquente", para continuar condenando-o. O que permanece condenando-o &agrave; interna&ccedil;&atilde;o &eacute; ser caracterizado em suas avalia&ccedil;&otilde;es feitas pelos t&eacute;cnicos como "impulsivo", "agressivo", "desrespeitador", "desobediente", "que n&atilde;o acata normas". </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Este sujeito para quem se dirigem saberes e pr&aacute;ticas m&eacute;dicas, psicol&oacute;gicas, pedag&oacute;gicas, sociais, al&eacute;m de jur&iacute;dicas, que comp&otilde;em as medidas socioeducativas e que acabam por constitu&iacute;-lo como "delinquente", &eacute; o sujeito "perigoso". </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A partir do discurso da "recupera&ccedil;&atilde;o" ou "ressocializa&ccedil;&atilde;o", a Medida de Interna&ccedil;&atilde;o, que tem como prerrogativa ser "Socioeducativa", teria a fun&ccedil;&atilde;o de tornar "cidad&atilde;o" aquele que nunca o foi, aquele que j&aacute; nasceu sem direitos, a quem se nega processos que deveriam dar conta da sua vida para lhe aumentar a exist&ecirc;ncia. As pr&aacute;ticas desenvolvidas pelo dispositivo jur&iacute;dico s&atilde;o, assim, pr&aacute;ticas que o incluem nas malhas do poder e o fazem existir. Por&eacute;m, o fazem existir como um n&atilde;o cidad&atilde;o, engendrando-o como o seu outro: o "infrator". </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">As divis&otilde;es bin&aacute;rias produzidas pela tecnologia disciplinar t&ecirc;m como corol&aacute;rio a fabrica&ccedil;&atilde;o dos sujeitos "anormais", aqueles que precisam entrar na norma, ser normalizados. Isto &eacute;, partindo do que seria o "normal", constitui-se aquele que precisa ser transformado e junto com ele todo um aparato de t&eacute;cnicas e saberes de "transforma&ccedil;&atilde;o". Ent&atilde;o, ao mesmo tempo em que vemos surgir um dispositivo para dar conta de algo que come&ccedil;a a ser considerado problem&aacute;tico, temos esse mesmo dispositivo constituindo o problema no mesmo instante em que se utilizam de t&eacute;cnicas disciplinares e saberes que nomeiam, classificam, criam categorias, separam por tipos e comp&otilde;em teorias acerca do que seria a "anormalidade". </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Aparentemente, s&atilde;o dois processos de subjetiva&ccedil;&atilde;o e assujeitamento imanentes. Um que pretende subjetivar o indiv&iacute;duo como "cidad&atilde;o" a partir de t&eacute;cnicas empregadas com o objetivo de transforma&ccedil;&atilde;o e de instrumentos que levariam Jo&atilde;o a "exercer sua cidadania" quando em liberdade; e o outro, concomitante a este, que o identifica biograficamente como um personagem oposto ao cidad&atilde;o: neste caso, com o estigma de infrator. Assim, ter&iacute;amos como resultado do cruzamento de saberes e poderes que visam normaliz&aacute;-lo, duas possibilidades de experi&ecirc;ncia de si do jovem internado, que ao final devem compor apenas um modo de ser, posto que se unem em uma racionalidade coerente em que a "subjetividade infratora" seria condi&ccedil;&atilde;o para a necessidade de instala&ccedil;&atilde;o de uma "subjetividade cidad&atilde;". </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Na posi&ccedil;&atilde;o de "infrator", como efeito das pr&aacute;ticas de normaliza&ccedil;&atilde;o, o jovem deve ser capaz de se identificar, se julgar, se narrar como um infrator: algu&eacute;m que agiu errado e que precisa se redimir, se sentir culpado, e que &eacute; frequentemente avaliado e mal julgado em fun&ccedil;&atilde;o de todos os outros "erros" que constitui seu modo de ser "infrator"; e, na posi&ccedil;&atilde;o de "cidad&atilde;o", ap&oacute;s a aplica&ccedil;&atilde;o de tecnologias de transforma&ccedil;&atilde;o, readapta&ccedil;&atilde;o ou recupera&ccedil;&atilde;o, ele deve se mostrar arrependido, narrando-se como capaz de se conduzir de acordo com o que se espera de um "sujeito cidad&atilde;o". Este &eacute; o regime de pessoalidade que foi apresentado a Jo&atilde;o como possibilidade para ser liberto. Ambas as posi&ccedil;&otilde;es ou maneiras de ser descritas preveem estrat&eacute;gias de manejo e controle dos corpos estabelecidas no interior de dispositivos bem arregimentados em fun&ccedil;&atilde;o da exist&ecirc;ncia dos chamados delinquentes. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Vemos, assim, como a pol&iacute;tica atua no campo da subjetiva&ccedil;&atilde;o mantendo e alimentando todo um sistema de justi&ccedil;a, para o qual muito recurso &eacute; destinado, que funciona compondo-se da constru&ccedil;&atilde;o de um modo de exist&ecirc;ncia que lhes serve de base para atuar sob o emblema da justi&ccedil;a, embora tamb&eacute;m a&iacute; sejam constitu&iacute;das realidades de viol&ecirc;ncia e viola&ccedil;&atilde;o de direitos. </font></p> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">    <blockquote> O que sabemos sobre a popula&ccedil;&atilde;o juvenil que comete infra&ccedil;&otilde;es penais n&atilde;o &eacute; novo, mas &eacute; bom lembrar. O perfil do jovem infrator brasileiro remonta, com frequ&ecirc;ncia, uma trajet&oacute;ria vivida na pobreza, ou seja, falta de oportunidades e de acesso a recursos que garantam o desenvolvimento de seus potenciais. (Rizinni, 2005, p. 10) </blockquote></font>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Isto &eacute;, a fabrica&ccedil;&atilde;o do jovem infrator come&ccedil;a muito antes de sua captura pelas tramas de um dispositivo jur&iacute;dico, mas podemos dizer que &eacute; enredado nelas que ele encontra um "ethos criminal" (Campos, 2005, p. 117) capaz de constitu&iacute;-lo como tal a partir das t&eacute;cnicas disciplinares, de regulamenta&ccedil;&atilde;o e t&eacute;cnicas de si que se encontram ali arranjadas. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Refer&ecirc;ncias</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Austin, J. (1998). <i>Como hacer cosas con palabras</i>. Barcelona: Paid&oacute;s.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4748009&pid=S1983-8220201200020000300001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Brasil. Lei Federal n° 8.069, de 13 de Julho de 1990. Estatuto da Crian&ccedil;a e do Adolescente. Retrieved October, 22, 2012, from <a href="http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L8069.htm" target="_blank"> http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L8069.htm </a> </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4748011&pid=S1983-8220201200020000300002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Comiss&atilde;o Nacional de Direitos Humanos do Conselho Federal de Psicologia e do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil. (2006, march) <i>Um Retrato das Unidades de Interna&ccedil;&atilde;o de Adolescentes em Conflito com a Lei.</i> (2a ed.). Retrieved November, 9, 2006, from <a href="http://www.crpsp.org.br/relatorio_oab.pdf" target="_blank"> http://www.crpsp.org.br/relatorio_oab.pdf</a> </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4748012&pid=S1983-8220201200020000300003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Campos, F. S. (2005). Adolescentes infratores acautelados: uma caricatura do sistema prisional. In: M. H. Zamora (org.), <i>Para al&eacute;m das grades: elementos para a transforma&ccedil;&atilde;o do sistema s&oacute;cio-educativo (</i>pp.113-124). Rio de Janeiro: EDPUC-Rio, S&atilde;o Paulo: Loyola.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4748013&pid=S1983-8220201200020000300004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Deleuze, G. (1996). O que &eacute; um dispositivo? In: G. Deleuze, <i>O mist&eacute;rio de Ariana</i> (pp. 83-96). Lisboa: Veja.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4748015&pid=S1983-8220201200020000300005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Dreyfus, H. & Rabinow, P. (1995). <i>Michel Foucault, uma trajet&oacute;ria filos&oacute;fica: para al&eacute;m do estruturalismo e da hermen&ecirc;utica.</i> (V. P. Carrero, Trad.). Rio de Janeiro: Forense Universit&aacute;ria.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4748017&pid=S1983-8220201200020000300006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ferreira, A. B. H. (2000). <i>Mini-Aur&eacute;lio S&eacute;culo XXI: O minidicion&aacute;rio da l&iacute;ngua portuguesa</i>. (4a ed.). Rio de Janeiro: Nova Fronteira.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4748019&pid=S1983-8220201200020000300007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Foucault, M. (1979). <i>Microf&iacute;sica doPoder.</i> (24a ed.). Rio de Janeiro: Graal.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4748021&pid=S1983-8220201200020000300008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Foucault, M. (1987). <i>Vigiar e Punir: Hist&oacute;ria da Viol&ecirc;ncia nas Pris&otilde;es.</i>(9a. ed). Petr&oacute;polis: Vozes.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4748023&pid=S1983-8220201200020000300009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Foucault, M. (1995). O Sujeito e o Poder. In: H. Dreyfus & P. Rabinow, <i>Michel Foucault, uma trajet&oacute;ria filos&oacute;fica: para al&eacute;m do estruturalismo e da hermen&ecirc;utica </i>(pp. 231-249). (V. P. Carrero, Trad.). Rio de Janeiro: Forense Universit&aacute;ria.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4748025&pid=S1983-8220201200020000300010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Foucault, M. (1997). <i>Resumos dos Cursos do Coll&egrave;ge de France</i>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4748027&pid=S1983-8220201200020000300011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Foucault, M. (2001). <i>Os anormais.</i> Curso no Coll&egrave;ge de France. S&atilde;o Paulo: Martins Fontes.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4748029&pid=S1983-8220201200020000300012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Foucault, M. (2006a). A vida dos homens infames. In: M. B. Motta (org.), <i>Estrat&eacute;gia, poder-saber </i>(pp. 203-222). (Cole&ccedil;&atilde;o Ditos & Escritos, Volume IV). (2a ed.). Rio de Janeiro: Forense Universit&aacute;ria.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4748031&pid=S1983-8220201200020000300013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Foucault, M. (2006b). "<i>Omnes et singulatim</i>: uma Cr&iacute;tica da Raz&atilde;o Pol&iacute;tica". In: M. B. Motta  (org.), <i>Estrat&eacute;gia poder-saber</i> (pp. 355-385). (Cole&ccedil;&atilde;o Ditos & Escritos, Volume IV). (2a ed.). Rio de Janeiro: Forense Universit&aacute;ria.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4748033&pid=S1983-8220201200020000300014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Foucault, M. (2008). <i>Seguran&ccedil;a, Territ&oacute;rio, Popula&ccedil;&atilde;o. </i>Curso no Coll&egrave;ge de France. S&atilde;o Paulo: Martins Fontes.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4748035&pid=S1983-8220201200020000300015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Lemos, F. C. S., Nascimento, M. L. & Scheinvar, E. (2008). Arquivos da dissid&ecirc;ncia: corpos fugidios de crian&ccedil;as e jovens. <i>Psicologia da Educa&ccedil;&atilde;o</i>. Retrieved August, 04, 2010, from <a href="http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-69752008000100009&lng=pt&nrm=iso" target="_blank"> http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-69752008000100009&lng=pt&nrm=iso</a> </font>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4748037&pid=S1983-8220201200020000300016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Passetti, E. (1995). O Menor no Brasil Republicano. In: M. Priore, <i>Hist&oacute;ria da Crian&ccedil;a no Brasil</i> (pp.146-175). (3a ed.). S&atilde;o Paulo: Contexto.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4748038&pid=S1983-8220201200020000300017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Rizzini, I. (2005). Pref&aacute;cio. In: M. H. Zamora (org.), <i>Para al&eacute;m das grades: elementos para a transforma&ccedil;&atilde;o do sistema s&oacute;cio-educativo</i> (pp.09-12). Rio de Janeiro: EDPUC-Rio, S&atilde;o Paulo: Loyola.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4748040&pid=S1983-8220201200020000300018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Rose, N. (2001). Como se deve fazer a hist&oacute;ria do eu?<i>Educa&ccedil;&atilde;o e Realidade</i>, 26 (1) 33-57.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4748042&pid=S1983-8220201200020000300019&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Recebido em: 05/07/2011    <br>Aceito em: 03/09/2012</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="not1"></a><a href="#add">1</a> Este artigo &eacute; fruto da pesquisa de mestrado da autora em Psicologia pela Universidade Federal do Par&aacute; (UFPA) e foi escrito em coautoria com seu orientador. A disserta&ccedil;&atilde;o intitula-se: "Modos de Subjetiva&ccedil;&atilde;o e Estrat&eacute;gias de Governamentalidade: a constitui&ccedil;&atilde;o de um 'sujeito infrator' nas tramas de um dispositivo jur&iacute;dico".    <br>     <a name="not2"></a><a href="#add">2</a> Contato: <a href="mailto:alvarezalyne@hotmail.com"> alvarezalyne@hotmail.com</a>    <br>     <a name="not3"></a><a href="#not3a">3</a> O adolescente estava, na &eacute;poca, cumprindo Medida Socioeducativa de Interna&ccedil;&atilde;o em uma Unidade localizada no munic&iacute;pio de Ananindeua, hoje j&aacute; desativada. A unidade foi considerada o pior espa&ccedil;o de interna&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s na &uacute;ltima inspe&ccedil;&atilde;o da Comiss&atilde;o de Direitos Humanos do Conselho Federal de Psicologia e da Ordem dos Advogados do Brasil (2006).    <br>     <a name="not4"></a><a href="#not4a">4</a> Referimo-nos aqui aos "Relat&oacute;rios Avaliativos de Medida Socioeducativa de Interna&ccedil;&atilde;o", documentos redigidos pela equipe t&eacute;cnica da Unidade de Interna&ccedil;&atilde;o (geralmente composta por profissionais da psicologia, da pedagogia e do servi&ccedil;o social) acerca dos efeitos das atividades realizadas em determinado per&iacute;odo com os jovens internados. De acordo com o Estatuto da Crian&ccedil;a e do Adolescente, os Relat&oacute;rios devem ser redigidos a cada seis meses para dar subs&iacute;dio &agrave; decis&atilde;o do juiz quanto &agrave; manuten&ccedil;&atilde;o ou progress&atilde;o da medida socioeducativa.    <br>     <a name="not5"></a><a href="#not5a">5</a> Os "regimes de pessoalidade", segundo Rose (2001), s&atilde;o esquemas mais ou menos racionalizados bem inventados para ocupar o ser humano da busca incessante de seu lugar no mundo, sendo este lugar enquadrado em conceitos pr&eacute;-formatados acerca de si, como por exemplo, os conceitos de cidad&atilde;o, masculinidade, feminilidade, m&atilde;e, pai, honra, generosidade etc.    <br>     <a name="not6"></a><a href="#not6a">6</a> Chamarei o adolescente ficticiamente de Jo&atilde;o, substituindo seu verdadeiro nome como forma de garantir que n&atilde;o seja identificado.    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>     <a name="not7"></a><a href="#not7a">7</a> Tr&ecirc;s meses antes de expirar o prazo m&aacute;ximo de perman&ecirc;ncia em um centro de interna&ccedil;&atilde;o - tr&ecirc;s anos, como descrito no ECA -, Jo&atilde;o recebeu progress&atilde;o de medida: da interna&ccedil;&atilde;o passou a cumprir presta&ccedil;&atilde;o de servi&ccedil;o &agrave; comunidade em semiliberdade. </font></p>      ]]></body>
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