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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Trajetórias no tráfico: jovens e violência armada em favelas cariocas]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[The subjects of this article are the multiples and heterogeneous trajectories of young people involved in drug trafficking and armed groups in the favelas of Rio de Janeiro. Results of quantitative research conducted with young people of the city are discussed and qualitative research from the favelas are analyzed. The article discusses the recent changes in the city, with the crisis of the drug market and the creation of the Pacification Police Units. The author proposes that it is necessary to understand the pathways of young people in and out of drug trafficking in the light of contemporary theories of youth life trajectories.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><b>ARTIGOS TEM&Aacute;TICOS </b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><b>Trajet&oacute;rias no tr&aacute;fico: jovens e viol&ecirc;ncia armada em favelas cariocas</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Geneva, sans-serif"> <b>Trajectories in drug trafficking: youth and armed violence in Rio's favelas </b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><b>Silvia Ramos</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Cientista social, pesquisadora e coordenadora do Centro de Estudos de Seguran&ccedil;a e Cidadania da Universidade Candido Mendes. <a href="mailto:sramos@candidomendes.edu.br">sramos@candidomendes.edu.br</a></font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p> <hr size="1" noshade>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><b>RESUMO </b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">As trajet&oacute;rias m&uacute;ltiplas e heterog&ecirc;neas de jovens envolvidos no tr&aacute;fico de drogas e em grupos armados em favelas do Rio de Janeiro s&atilde;o objeto desse artigo. S&atilde;o apresentados resultados de pesquisas quantitativas realizadas com jovens da cidade e pesquisas qualitativas com jovens de favelas. O artigo discute as mudan&ccedil;as recentes ocorridas na cidade, com a crise do mercado de drogas e a implanta&ccedil;&atilde;o de Unidades de Pol&iacute;cia Pacificadora. A autora prop&otilde;e que &eacute; necess&aacute;rio compreender os percursos de jovens que entram e saem do tr&aacute;fico de drogas &agrave; luz das teorias contempor&acirc;neas sobre trajet&oacute;rias juvenis. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><b>Palavras-chave:</b> juventude, viol&ecirc;ncia, Rio de Janeiro, favelas, tr&aacute;fico de drogas </font></p> <hr size="1" noshade>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><b>ABSTRACT</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">The subjects of this article are the multiples and heterogeneous trajectories of young people involved in drug trafficking and armed groups in the favelas of Rio de Janeiro. Results of quantitative research conducted with young people of the city are discussed and qualitative research from the favelas are analyzed. The article discusses the recent changes in the city, with the crisis of the drug market and the creation of the Pacification Police Units. The author proposes that it is necessary to understand the pathways of young people in and out of drug trafficking in the light of contemporary theories of youth life trajectories.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"> <b>Keywords:</b> youth, violence, Rio de Janeiro, favelas, drug trafficking </font></p> <hr size="1" noshade>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>      <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">O texto a seguir apresenta resultados de pesquisas quantitativas e qualitativas com jovens da cidade do Rio de Janeiro e reflex&otilde;es sobre trajet&oacute;rias de jovens de favelas envolvidos no tr&aacute;fico de drogas frente a mudan&ccedil;as ocorridas no cen&aacute;rio das comunidades cariocas, em especial ap&oacute;s a implanta&ccedil;&atilde;o de Unidades de Pol&iacute;cia Pacificadora (UPPs), a partir de 2009. Parte do material de campo foi colhida entre maio e dezembro de 2008 com jovens moradores de favelas - estudantes universit&aacute;rios, ex-traficantes, traficantes e "jovens de projeto" -, al&eacute;m de m&atilde;es de adolescentes envolvidos com a criminalidade, lideran&ccedil;as comunit&aacute;rias e assistentes sociais. Outra parte da pesquisa foi realizada por meio de entrevistas e interlocu&ccedil;&otilde;es ocorridas ao longo de 2010, durante a implanta&ccedil;&atilde;o de UPPs Sociais em nove favelas do Rio. Em 2011, foram realizadas entrevistas com traficantes que deixaram o tr&aacute;fico em meses recentes <sup><a name="not1a"></a>(</sup><a href="#not1"><sup>1</sup></a><sup>)</sup>. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/trivium/v3n2/a06fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">O material emp&iacute;rico &eacute; instigante, mas n&atilde;o pode ser tomado como uma reflex&atilde;o sobre juventude e viol&ecirc;ncia na cidade, pois guarda os limites das observa&ccedil;&otilde;es realizadas junto a jovens de favelas. A aus&ecirc;ncia de observa&ccedil;&otilde;es sobre jovens de classe m&eacute;dia e de bairros n&atilde;o controlados por grupos ilegais armados pode contribuir para levar a conclus&otilde;es que reiterem estigmas j&aacute; bastante consolidados n&atilde;o s&oacute; na sociedade como, involuntariamente, no discurso de pesquisadores, ativistas e autoridades que lidam com o assunto. Nesse sentido, &eacute; importante o alerta de que o problema da viol&ecirc;ncia juvenil na cidade n&atilde;o se resume aos jovens moradores de favelas. Como vou procurar demonstrar, a viol&ecirc;ncia e em especial a viol&ecirc;ncia letal &eacute; um problema brasileiro com dimens&otilde;es hist&oacute;ricas e culturais profundas, sobre as quais ainda ser&aacute; necess&aacute;rio produzir estudos e reflex&otilde;es. As contribui&ccedil;&otilde;es aqui apresentadas s&atilde;o an&aacute;lises parciais sobre um segmento da juventude, e deveriam ser pensadas no contexto de discuss&otilde;es que s&atilde;o complexas e deveriam ser interdisciplinares. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><b>1. O fen&ocirc;meno da viol&ecirc;ncia letal de adolescentes e jovens e o cen&aacute;rio particular do Rio de Janeiro</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Analisar as mortes violentas intencionais num pa&iacute;s, numa cidade ou numa cultura, &eacute; importante porque os homic&iacute;dios representam a ponta de um<i> iceberg.</i> Onde h&aacute; mortes resultantes de conflitos, h&aacute; em escala ainda maior viol&ecirc;ncias n&atilde;o letais, amea&ccedil;as, viol&ecirc;ncias simb&oacute;licas e crimes contra o patrim&ocirc;nio. A forma como as mortes ocorrem e se distribuem nos pa&iacute;ses e nas culturas (em que propor&ccedil;&atilde;o predominam as mortes por causas naturais, ou as mortes por causas externas) expressa em grande medida a forma como as sociedades tratam os direitos humanos. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">No Brasil, a cada ano, s&atilde;o assassinadas aproximadamente 50 mil pessoas. Tem sido assim por v&aacute;rios anos. Pelos dados do sistema de sa&uacute;de relativos a 2010, com os 50.431 homic&iacute;dios registrados, a taxa brasileira de homic&iacute;dios &eacute; de 26,6 por 100 mil habitantes. O Brasil se situa entre os seis pa&iacute;ses do mundo com maiores taxas de homic&iacute;dio, sendo o quinto em homic&iacute;dio de jovens de 15 a 24 anos (WAISELFISZ, 2008). A taxa de homic&iacute;dios no estado do Rio de Janeiro chegou a ser o dobro da taxa do Brasil, atingindo 50,9 assassinatos por 100 mil habitantes no in&iacute;cio da d&eacute;cada passada (em 2000) e recuou para 27,6 homic&iacute;dios por 100 mil habitantes em 2010. A redu&ccedil;&atilde;o da viol&ecirc;ncia letal no Rio de Janeiro &eacute; resultado de diversos fatores, alguns dos quais ser&atilde;o mencionados no presente artigo. Contudo, n&atilde;o se pode perder de vista que a taxa de mortes violentas do estado ainda &eacute; alt&iacute;ssima e representa uma das mais altas do mundo em termos de padr&otilde;es pa&iacute;ses desenvolvidos <sup><a name="not2a"></a>(</sup><a href="#not2"><sup>2</sup></a><sup>)</sup>. Al&eacute;m disso, &eacute; preciso ter em mente que a taxa de homic&iacute;dios de jovens, isto &eacute;, de pessoas de 15 a 24 anos, &eacute; mais do que o dobro da taxa m&eacute;dia do estado. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Quando se consideram apenas os homens, que representam 93% das v&iacute;timas de homic&iacute;dio, obt&ecirc;m-se &iacute;ndices impressionantes no Rio de Janeiro, com mais de 100 homic&iacute;dios por 100 mil para jovens de 15 a 24 anos do sexo masculino. Quando examinamos a vari&aacute;vel cor ou ra&ccedil;a por faixas et&aacute;rias, verificamos uma extraordin&aacute;ria concentra&ccedil;&atilde;o de mortes violentas intencionais entre jovens pretos e pardos, chegando ao espantoso &iacute;ndice de 250 homic&iacute;dios em cada 100 mil jovens negros com 22 a 24 anos de idade. O mesmo ocorre quando analisamos as vari&aacute;veis territoriais. Para os bairros da Zona Sul carioca, como Ipanema, Leblon, Copacabana e Botafogo, as taxas de homic&iacute;dios s&atilde;o pr&oacute;ximas &agrave;s europ&eacute;ias e &agrave; norte-americana, com 2 a 10 homic&iacute;dios por 100 mil moradores. Quando olhamos as taxas de &aacute;reas onde est&atilde;o situadas, por exemplo, as favelas de Vig&aacute;rio Geral e Parada de Lucas, ou &aacute;reas como a do Complexo da Mar&eacute; ou de bairros pobres da Zona Oeste, as taxas ultrapassam 75 homic&iacute;dios para cada 100 mil moradores <sup><a name="not3a"></a>(</sup><a href="#not3"><sup>3</sup></a><sup>)</sup>. Esse tr&ecirc;s fatores associados &agrave; distribui&ccedil;&atilde;o da viol&ecirc;ncia letal - faixa et&aacute;ria, cor e &aacute;rea da cidade - t&ecirc;m sido definidos como idade da morte, cor da morte e geografia da morte (RAMOS, 2009). </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Considerando que a vari&aacute;vel cor ou ra&ccedil;a pode ser tomada como vari&aacute;vel<i> proxy </i>(aproximada) para classe social, escolaridade e local de moradia, teremos, ent&atilde;o, uma concentra&ccedil;&atilde;o extrema de viol&ecirc;ncia letal no Rio de Janeiro entre jovens pobres moradores dos bairros mais desfavorecidos. A id&eacute;ia de que a viol&ecirc;ncia intencional que leva &agrave; morte atinge principalmente os jovens do sexo masculino, moradores de favelas e dos bairros da periferia encontra respaldo nos n&uacute;meros de mortes e na sua distribui&ccedil;&atilde;o. Sabemos tamb&eacute;m que aproximadamente 80% dessas mortes s&atilde;o provocadas por armas de fogo (WAISELFISZ, 2011). Nesse sentido, parece razo&aacute;vel a equa&ccedil;&atilde;o que associa o problema da viol&ecirc;ncia letal no Rio de Janeiro principalmente ao "tr&aacute;fico de drogas envolvendo jovens de favelas", pelo menos como ponto de partida para uma investiga&ccedil;&atilde;o qualitativa sobre letalidade jovem. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Em pesquisa realizada pelo Centro de Estudos de Seguran&ccedil;a e Cidadania, intitulada Juventude, Viol&ecirc;ncia e Pol&iacute;cia (MUSUMECI &amp; RAMOS, 2011), foram entrevistados 1607 jovens com idades de 15 a 24 anos na cidade do Rio de Janeiro. O<i> survey</i> amostral, representativo para toda a cidade, foi realizado nos meses de julho a novembro de 2009. Na investiga&ccedil;&atilde;o, foram explorados os aspectos relacionados &agrave; exposi&ccedil;&atilde;o &agrave; viol&ecirc;ncia por jovens da cidade. Ou seja, n&atilde;o a vitimiza&ccedil;&atilde;o por viol&ecirc;ncia letal, mas a conviv&ecirc;ncia cotidiana com situa&ccedil;&otilde;es de viol&ecirc;ncia. Os resultados revelam a extrema concentra&ccedil;&atilde;o de exposi&ccedil;&atilde;o a situa&ccedil;&otilde;es de viol&ecirc;ncia dos jovens que vivem em favelas. O trabalho concluiu que </font></p> <font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">    <blockquote> "O resultado mais relevante diz respeito &agrave; import&acirc;ncia decisiva da vari&aacute;vel territorial associada &agrave; exposi&ccedil;&atilde;o &agrave; viol&ecirc;ncia e &agrave;s rela&ccedil;&otilde;es com o sistema de seguran&ccedil;a p&uacute;blica, entre jovens de 15 a 24 anos. Em particular, mais do que a distribui&ccedil;&atilde;o por regi&otilde;es mais abastadas e pelas de menor poder aquisitivo da cidade, o fato de se residir ou n&atilde;o em favela, independentemente da &aacute;rea geogr&aacute;fica em que esteja situada (zonas sul, norte ou oeste), parece ter for&ccedil;a explicativa mais evidente quando comparamos os resultados para experi&ecirc;ncias como ter visto muitos corpos de pessoas assassinadas, ter tido pessoas pr&oacute;ximas mortas intencionalmente, ter visto pessoas andando armadas no bairro onde mora, pessoas usando drogas ou pessoas se agredindo fisicamente na vizinhan&ccedil;a. Da mesma forma, &eacute; entre jovens que moram em favelas que experi&ecirc;ncias como ver de perto o ve&iacute;culo blindado da pol&iacute;cia ("Caveir&atilde;o"), presenciar ou ouvir de perto troca de tiros entre  policiais e bandidos, ter a casa revistada ou ter pessoas conhecidas assassinadas pela pol&iacute;cia se d&atilde;o em freq&uuml;&ecirc;ncia significativamente maior do que em outros segmentos de jovens. (MUSUMECI &amp; RAMOS, 2011:31)  </blockquote></font>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Portanto, h&aacute; evid&ecirc;ncias suficientes de que tanto a exposi&ccedil;&atilde;o permanente a situa&ccedil;&otilde;es de viol&ecirc;ncia se concentra entre os jovens que vivem nas favelas, como de que as v&iacute;timas majorit&aacute;rias da viol&ecirc;ncia letal s&atilde;o jovens pobres e negros do sexo masculino. A express&atilde;o "v&iacute;timas" tem sentido epidemiol&oacute;gico e n&atilde;o corresponde &agrave; no&ccedil;&atilde;o associada a "inocentes". Est&aacute; claro que os jovens s&atilde;o v&iacute;timas e agressores. N&atilde;o apresentamos dados sobre os "agressores", porque essas informa&ccedil;&otilde;es n&atilde;o existem. Os jovens que se encontram presos ou que tiveram passagem pelo sistema de justi&ccedil;a criminal n&atilde;o s&atilde;o uma amostra representativa do conjunto dos jovens envolvidos na criminalidade ou em redes de viol&ecirc;ncia. A taxa de esclarecimentos de crimes no Brasil, e no Rio de Janeiro em particular, &eacute; baix&iacute;ssima e mesmo o crime mais grave, o homic&iacute;dio, alcan&ccedil;a propor&ccedil;&atilde;o inferior a 10% de elucida&ccedil;&atilde;o. Ou seja, 90% dos homic&iacute;dios n&atilde;o s&atilde;o esclarecidos e seus autores n&atilde;o s&atilde;o punidos. Os que est&atilde;o nas pris&otilde;es - a maioria esmagadora foi presa em flagrante portando drogas - s&atilde;o uma amostra enviesada composta pelos jovens envolvidos com a criminalidade mais despreparados, mais visados ou que t&ecirc;m menores recursos e apoios, sejam familiares ou das redes criminais. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Mas o fato &eacute; que nenhum estudo detalhado indicou quais s&atilde;o exatamente as din&acirc;micas geradoras de viol&ecirc;ncia letal entre jovens pobres e negros moradores das favelas e dos bairros pobres da Regi&atilde;o Metropolitana do Rio de Janeiro. O uso altamente frequente das armas de fogo &eacute; forte indica&ccedil;&atilde;o de que as mortes se associam, direta ou indiretamente, aos grupos armados ilegais que dominam &aacute;reas da cidade e que se op&otilde;em a outros grupos armados ou se op&otilde;em &agrave; pol&iacute;cia. Mas n&atilde;o conhecemos a propor&ccedil;&atilde;o de mortes que atingem os participantes diretos desses grupos ("traficantes", "milicianos", "policiais"), ou os participantes indiretos (amigos, familiares, c&ocirc;njuges, usu&aacute;rios de drogas etc.) ou ainda os participantes contingentes (colegas, vizinhos, moradores de bairros pr&oacute;ximos, pessoas presentes em um assalto em &ocirc;nibus, passantes em uma via da cidade durante um tiroteio, envolvidos em uma briga de festa etc.) De fato, conhecemos pouco sobre as din&acirc;micas geradoras de letalidade at&eacute; mesmo entre os participantes diretos, ou seja, dentro do recorte "mortes no tr&aacute;fico". </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Evid&ecirc;ncias indicam que as mortes n&atilde;o ocorrem apenas em tiroteios de fac&ccedil;&otilde;es ou em confrontos com a pol&iacute;cia (confrontos que efetivamente s&atilde;o respons&aacute;veis por parte das milhares de mortes violentas que o Rio contabiliza a cada ano) <sup><a name="not4a"></a>(</sup><a href="#not4"><sup>4</sup></a><sup>)</sup>. Muitas a&ccedil;&otilde;es letais ocorrem dentro dos grupos armados por acertos de contas ou raz&otilde;es de trabalho, e tamb&eacute;m por disputas amorosas e familiares, por rixas e conflitos banais que encontram desfecho letal na onipresen&ccedil;a das armas e de uma cultura masculina agressiva e explosiva. Luiz Eduardo Soares (2005) refletiu sobre a "din&acirc;mica fratricida que eles n&atilde;o controlam" falando sobre os "meninos invis&iacute;veis" que seguram as armas de fogo nas periferias brasileiras. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Nas entrevistas realizadas para esta pesquisa, encontramos in&uacute;meros relatos de situa&ccedil;&otilde;es banais que, segundo nossos entrevistados, levaram ou poderiam ter levado &agrave; morte, fora das din&acirc;micas de confrontos entre fac&ccedil;&otilde;es e com a pol&iacute;cia. Como refletiu um ex-traficante que havia sido gerente de uma boca de fumo numa importante favela carioca,<i> "inveja &eacute; o que mais tem no tr&aacute;fico'".</i> Ele contou a seguinte hist&oacute;ria em que quase ocorreu uma morte por causa de uma disputa adolescente entre um chefe e um traficante que roubou uma moto e a levou para dentro da favela: </font></p> <font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">     <blockquote>   "O cara pegou uma moto, levou pra dentro da favela, uma<i> Twister.</i> Ai eu falei 'qual &eacute;, me d&aacute; a<i> Twister</i> a&iacute; pra eu dar um rol&eacute;'. Botei o armamento nas costas e fui andar. Ai o cara falou: 'd&aacute; a moto, que &eacute; minha'. E eu: 'tu ta pensando que tu ta falando com quem? Se eu n&atilde;o quiser que tu tenha moto, tu n&atilde;o vai ter moto.  Se eu achar que n&atilde;o tem que ter moto roubada dentro da comunidade, n&atilde;o vai ter. Fica na tua meu irm&atilde;o'. Falei pra ele 'a parada &eacute; o seguinte, isso &eacute; um objeto roubado, pra n&oacute;s n&atilde;o tem valor. Vai te levar a ter mais falsidade, vai chegar uma hora que isso vai te levar &agrave; morte, ningu&eacute;m vai precisar te matar'. O povo da boca de fumo via aquilo ali, sabia que &eacute; um gesto de falsidade. (...) No tr&aacute;fico, o cara pode armar pra voc&ecirc; a qualquer hora. Existem muitos casos de trai&ccedil;&atilde;o, algu&eacute;m armar pra tu, querer ficar com seu lugar". (Deco, ex-gerente do tr&aacute;fico de Vig&aacute;rio Geral).  </blockquote> </font>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Em outras palavras, &eacute; necess&aacute;rio chamar a aten&ccedil;&atilde;o para o fato de que a divis&atilde;o cl&aacute;ssica entre viol&ecirc;ncia interpessoal de um lado (entre pessoas que se conhecem, sem fins lucrativos) e viol&ecirc;ncia coletiva (ou crime organizado) de outro, n&atilde;o se sustenta. Na pr&aacute;tica, o que observamos &eacute; que parte importante da viol&ecirc;ncia letal ocorrida no contexto do chamado tr&aacute;fico de drogas &eacute; resultante de conflitos e disputas interpessoais. As fronteiras entre naturezas criminais, no contexto de alta letalidade de jovens de favelas, se encontram indefinidas. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Esses coment&aacute;rios preliminares sobre a incid&ecirc;ncia de mortes violentas e a exposi&ccedil;&atilde;o de jovens de favelas a situa&ccedil;&otilde;es de viol&ecirc;ncia reafirmam a gravidade do problema da viol&ecirc;ncia letal e n&atilde;o letal no Rio de Janeiro, apontam sua extrema concentra&ccedil;&atilde;o entre adolescentes e jovens negros moradores de favelas e reiteram a import&acirc;ncia pol&iacute;tica de compreender suas din&acirc;micas. Contudo, servem tamb&eacute;m para alertar sobre as grandes &aacute;reas de desconhecimento, os pontos cegos e os convites ao equ&iacute;voco, aquilo que leva a enxergar apenas o que j&aacute; se sabe e que se quer confirmar. Ou seja, n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel ter vis&otilde;es estereotipadas do tr&aacute;fico de drogas, onde apenas os tiroteios e os confrontos cinematogr&aacute;ficos entre fac&ccedil;&otilde;es ou com a pol&iacute;cia produzem as mortes e reproduzem a viol&ecirc;ncia. O "mundo do tr&aacute;fico" est&aacute; repleto de elementos contradit&oacute;rios, paradoxais, mutantes e heterog&ecirc;neos. &Eacute; o que surge quando acompanhamos "entradas" e "sa&iacute;das" no tr&aacute;fico, como este artigo pretende indicar. Antes, &eacute; necess&aacute;rio compreender o panorama que se estabeleceu nas favelas cariocas e as mudan&ccedil;as ocorridas nos &uacute;ltimos anos. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><b>2. O que aconteceu com as favelas cariocas a partir da d&eacute;cada de 1980 at&eacute; o final da d&eacute;cada passada: do controle de territ&oacute;rio pelos grupos armados &agrave;s UPPs</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">A principal caracter&iacute;stica da viol&ecirc;ncia no Rio de Janeiro foi at&eacute; pouco tempo o controle de territ&oacute;rios urbanos por grupos de criminosos armados. N&atilde;o se trata de fen&ocirc;meno em &aacute;reas rurais ou em locais distantes do centro urbano, ou de uma din&acirc;mica localizada, em um bairro ou outro. No Rio, na totalidade de suas aproximadamente 600 favelas, e em diversos bairros pobres, nos &uacute;ltimos 25 anos, desenvolveu-se e consolidou-se um cen&aacute;rio em que bandos armados passaram a dominar centenas de morros, bairros e seus moradores. A cidade se tornou um caso raro, com poucos paralelos no mundo, em que &aacute;reas desenvolvidas, abastadas e reguladas por normas democr&aacute;ticas, conviviam lado a lado com &aacute;reas sob controle de grupos armados, onde predominavam - e ainda predominam em muitos locais - ditaduras de traficantes ou milicianos, que imp&otilde;em normas na base das armas e onde liberdade de express&atilde;o, o direito de ir e vir, o direito de reuni&atilde;o e outros n&atilde;o est&atilde;o assegurados. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">As sucessivas pol&iacute;ticas de seguran&ccedil;a durante esse longo per&iacute;odo contribu&iacute;ram para aprofundar essa situa&ccedil;&atilde;o an&ocirc;mala e foram em parte respons&aacute;veis pelo quadro que se consolidou a partir dos anos 1980 e predominou at&eacute; 2009. As pol&iacute;ticas de seguran&ccedil;a foram, via de regra, baseadas em confrontos policiais com grupos criminosos e produziram milhares de mortes. A pol&iacute;cia do Rio de Janeiro se tornou n&atilde;o apenas uma das mais violentas do mundo, mas tamb&eacute;m profundamente afetada por desvios de conduta e corrup&ccedil;&atilde;o. As rela&ccedil;&otilde;es complexas entre pol&iacute;cia e criminalidade est&atilde;o descritas em obras das ci&ecirc;ncias sociais e da literatura (ver especialmente SOARES, 2000 e 2010). </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Depois de anos de experi&ecirc;ncias de seguran&ccedil;a p&uacute;blica mal sucedidas, incluindo projetos de policiamento de proximidade que n&atilde;o prosperaram ou se degradaram (por exemplo, o Mutir&atilde;o pela Paz em 1999 e o GPAE, o Grupamento de Policiamento Especializado em &Aacute;reas Especiais, em 2000), em dezembro de 2008, teve in&iacute;cio uma experi&ecirc;ncia de policiamento comunit&aacute;rio em uma das favelas do Rio, o Morro Santa Marta, em Botafogo. Essa experi&ecirc;ncia foi intitulada Unidade de Pol&iacute;cia Pacificadora. A partir desse piloto, outras favelas foram retomadas do controle territorial de grupos armados. Ap&oacute;s tr&ecirc;s anos, ou seja, no final de 2011, 20 &aacute;reas tinham sido ocupadas e 18 tinham recebido UPPs <sup><a name="not5a"></a>(</sup><a href="#not5"><sup>5</sup></a><sup>)</sup>. Elas envolviam nessa altura aproximadamente 350 mil moradores de 40 comunidades (v&aacute;rias UPPs compreendem mais de uma comunidade) e 3500 policiais. O governo afirma que h&aacute; a previs&atilde;o de implantar 40 UPPs at&eacute; 2016. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">O que caracteriza as UPPs e as distingue de experi&ecirc;ncias anteriores &eacute;: 1) A retomada do territ&oacute;rio &eacute; precedida pela ocupa&ccedil;&atilde;o por uma tropa especializada que minimiza os confrontos e assegura que as armas n&atilde;o circulam mais na comunidade. 2) Ap&oacute;s essa etapa, um contingente de policiais com express&atilde;o num&eacute;rica ingressa na comunidade e fica permanentemente em campo, sendo constitu&iacute;do majoritariamente por policiais jovens rec&eacute;m formados, sem hist&oacute;rico de corrup&ccedil;&atilde;o ou viol&ecirc;ncia e sem experi&ecirc;ncias de confrontos em favelas. 3) Esses policiais s&atilde;o melhor preparados e ganham mais do que os policiais comuns, por meio de um conv&ecirc;nio com o munic&iacute;pio, e t&ecirc;m escala e condi&ccedil;&otilde;es de trabalho melhores (invertendo a tend&ecirc;ncia hist&oacute;rica na PM, oferecendo o melhor da corpora&ccedil;&atilde;o para as favelas, e n&atilde;o o pior). 4) Presen&ccedil;a permanente em campo de um oficial, o comandante da Unidade, um capit&atilde;o ou capit&atilde;. Esse oficial supervisiona o efetivo diretamente, estabelece rela&ccedil;&otilde;es com a comunidade, recebe reclama&ccedil;&otilde;es dos moradores, participa de f&oacute;runs com lideran&ccedil;as comunit&aacute;rias e &eacute; respons&aacute;vel por estabelecer as bases do chamado "policiamento de proximidade". 5) Finalmente, a principal caracter&iacute;stica das UPPs &eacute; que elas correspondem a uma pol&iacute;tica do governo, que estabeleceu metas na &aacute;rea da seguran&ccedil;a p&uacute;blica baseadas na expans&atilde;o dessas Unidades ao longo dos pr&oacute;ximos anos, com planejamento e or&ccedil;amento definidos. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Os resultados da implanta&ccedil;&atilde;o das primeiras 18 UPPs, do ponto de vista dos indicadores de criminalidade, est&atilde;o sendo basicamente positivos. As taxas de homic&iacute;dio ca&iacute;ram dramaticamente em todas as favelas com UPPs, sendo que em v&aacute;rias delas a taxa zerou. Em geral, os crimes contra o patrim&ocirc;nio (especialmente roubos de ve&iacute;culos e a transeuntes) no entorno das favelas com UPPs tamb&eacute;m ca&iacute;ram. O efeito inesperado (queda geral da criminalidade dentro e no entorno das &aacute;reas pacificadas e no conjunto da cidade e do estado) deve ser atribu&iacute;do &agrave; perda do dom&iacute;nio territorial pelos grupos criminosos, que usavam as favelas dominadas como territ&oacute;rios onde tinham o poder de vida e morte sobre os moradores, ofereciam ou impunham servi&ccedil;os, como venda sinal furtado de televis&atilde;o por assinatura, g&aacute;s de cozinha com &aacute;gio, transporte com motos ou kombis, e onde poderiam esconder ve&iacute;culos, cargas e bens oriundos de diversos delitos. Do ponto de vista da satisfa&ccedil;&atilde;o dos moradores, at&eacute; aqui as sondagens mostram que predomina a satisfa&ccedil;&atilde;o pelas melhorias que a UPP est&aacute; trazendo para as favelas. A partir da normaliza&ccedil;&atilde;o da vida no territ&oacute;rio, servi&ccedil;os p&uacute;blicos e privados, passaram a ser oferecidos aos moradorescom frequencia e qualidade maiores. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/trivium/v3n2/a06fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">A constata&ccedil;&atilde;o de que mudan&ccedil;as fortes e decisivas est&atilde;o ocorrendo nas favelas cariocas em rela&ccedil;&atilde;o ao cen&aacute;rio anterior de domina&ccedil;&atilde;o de grupos armados, de exposi&ccedil;&atilde;o dos jovens &agrave; viol&ecirc;ncia e de envolvimento de parte da juventude nos grupos armados do tr&aacute;fico, n&atilde;o deveria, contudo, nos deixar esquecer os grandes desafios pelos quais a cidade ainda ter&aacute; que passar. Em primeiro lugar, ser&aacute; preciso universalizar a experi&ecirc;ncia das UPPs nas centenas de favelas cariocas ainda dominadas por grupos criminosos, sendo que um risco &eacute; afastar o som do tiroteio dos bairros mais abastados e tolerar que as popula&ccedil;&otilde;es com menor capital social, de favelas distantes da Zona Norte ou de bairros da Zona Oeste continuem vivendo sob a barb&aacute;rie e o mando de traficantes e principalmente sob a viol&ecirc;ncia de milicianos. Outro problema &eacute; o risco de degrada&ccedil;&atilde;o da experi&ecirc;ncia positiva das UPPs. Apesar de contar com o apoio da maioria das popula&ccedil;&otilde;es locais, ocorrem ainda tens&otilde;es entre moradores e policiais, muito especialmente os moradores mais jovens, que agora passam a ser abordados e revistados pela pol&iacute;cia quando chegam em sua comunidade. Se n&atilde;o forem criados mecanismos permanentes de di&aacute;logos entre pol&iacute;cia e popula&ccedil;&atilde;o, como f&oacute;runs comunit&aacute;rios, e sistemas de regula&ccedil;&atilde;o cidad&atilde; na rela&ccedil;&atilde;o com o poder p&uacute;blico, h&aacute; o risco de que se estabele&ccedil;am rela&ccedil;&otilde;es autorit&aacute;rias ou anti-democr&aacute;ticas, como havia no passado em rela&ccedil;&atilde;o ao tr&aacute;fico e &agrave; mil&iacute;cia. O que se deseja &eacute; que as favelas sejam reguladas pelo mesmo regime da cidade. E um terceiro desafio &eacute; a implanta&ccedil;&atilde;o e universaliza&ccedil;&atilde;o das UPPs Sociais, ou seja, de esferas de coordena&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas sociais de sa&uacute;de, educa&ccedil;&atilde;o, limpeza, saneamento, urbaniza&ccedil;&atilde;o e cultura, de forma que em alguns anos as favelas possam estar integradas &agrave; vida da cidade (para uma discuss&atilde;o sobre as UPPs Sociais, veja HENRIQUES e RAMOS, 2011). </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Efetivamente, as UPPs vieram quando o tr&aacute;fico j&aacute; sofria uma forte crise em rela&ccedil;&atilde;o aos lucros exorbitantes a que estava acostumado na d&eacute;cada de 1980 e 1990. A redu&ccedil;&atilde;o dos rendimentos obtidos pela venda das drogas foi um dos consensos verificados ao longo da pesquisa de campo desenvolvida em 2008. Os valores recebidos pelos que ocupavam diferentes fun&ccedil;&otilde;es na estrutura da boca de fumo se mostraram bastante inferiores aos chamados lucros estratosf&eacute;ricos, que fazia com que um garoto de 15 anos empregado no tr&aacute;fico ganhasse muitas vezes o sal&aacute;rio de seu pai. Tudo indica que esses valores decresceram dramaticamente na d&eacute;cada passada. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Na pesquisa<i> Nem soldados nem inocentes,</i> coordenada por Ot&aacute;vio Cruz Netto, em 2000, com adolescentes cumprindo medidas s&oacute;cio-educativas, 40% declararam receber valores superiores a 2 mil reais por m&ecirc;s. No estudo de Dowdney, realizado em 2002, os<i> vapores</i> <sup><a name="not6a"></a>(</sup><a href="#not6"><sup>6</sup></a><sup>)</sup> recebiam entre R$ 1.500,00 e R$ 3.000,00 mensais, dependendo da localidade. Os<i> soldados </i>recebiam R$1.500,00 a R$ 2.500,00. Os<i> fogueteiros</i> ou olheiros<i> (falc&otilde;es)</i> recebiam em m&eacute;dia R$ 50,00 por dia, o que representava cinco vezes o sal&aacute;rio m&iacute;nimo vigente. A pesquisa<i> Rotas de Fuga - Caminhada de crian&ccedil;as, adolescentes e jovens na rede do tr&aacute;fico de drogas no varejo do Rio de Janeiro</i> - identificou claramente o fen&ocirc;meno de queda nos rendimentos e observou que, em 2004, 75% dos 230 entrevistados recebiam entre um e tr&ecirc;s sal&aacute;rios m&iacute;nimos, e aproximadamente 20% ganhavam menos de um sal&aacute;rio m&iacute;nimo. Em 2008, na pesquisa de campo realizada pelo presente estudo, a situa&ccedil;&atilde;o havia se deteriorado consideravelmente em algumas &aacute;reas. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Alguns depoimentos s&atilde;o expressivos dessa situa&ccedil;&atilde;o: uma lideran&ccedil;a cultural de favelas disse: "tem<i> favela t&atilde;o pobre que nem a mil&iacute;cia quer?".</i> A m&atilde;e de um adolescente que cumpria medida s&oacute;cioeducativa revelou: "a<i> situa&ccedil;&atilde;o no tr&aacute;fico t&aacute; t&atilde;o ruim que os fogueteiros vivem pedindo comida. V&atilde;o l&aacute; em casa, mexem nas panelas: 'p&ocirc;, tia, n&atilde;o tem um rango, n&atilde;o? T&ocirc; cheio de fome""".</i> Bor&eacute;, um ex-traficante do Complexo do Alem&atilde;o, que levou um tiro, ficou parapl&eacute;gico, foi preso, cumpriu pena e atualmente vende bala nos sinais, disse: "com<i> certeza, eu trabalhando no sinal, ganho mais dinheiro do que vagabundo que trabalha no morro. N&atilde;o s&oacute; os novinhos n&atilde;o, t&ocirc; falando de gerente". </i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">De fato, o mercado do varejo das drogas tornou-se extremamente heterog&ecirc;neo, sendo dif&iacute;cil estabelecer valores m&eacute;dios recebidos pelos adolescentes e jovens trabalhando nas diversas fun&ccedil;&otilde;es. Ou seja, as remunera&ccedil;&otilde;es s&atilde;o vari&aacute;veis n&atilde;o apenas de favela para favela, mas tamb&eacute;m de uma semana para outra, de um m&ecirc;s para outro. Uma lideran&ccedil;a cultural nos revelou que alguns meninos do tr&aacute;fico dizem "tem<i> semana que a gente recebe R$50,00. Mas &agrave;s vezes, na sextafeira, o gerente fala pelo r&aacute;dio 'hoje n&atilde;o vai ter nada n&atilde;o' e reclama que o arrego (propina paga &agrave; pol&iacute;cia) naquela semana foi alto'". </i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Outra consequ&ecirc;ncia da crise &eacute; a instabilidade de comandos nos territ&oacute;rios controlados. Uma t&eacute;cnica experiente e com atua&ccedil;&atilde;o em duas favelas distintas disse:<i> "Uma das mudan&ccedil;as que eu vejo no tr&aacute;fico &eacute; que o chefe era uma coisa assim, ele estava h&aacute; muito mais tempo, as pessoas tinham uma refer&ecirc;ncia maior de quem era o chefe. E o que a gente v&ecirc; agora &eacute; que tem o chef&atilde;o do chef&atilde;o, mas os outros &eacute; muito variado. Como tem muita gente de fora, agora as pessoas n&atilde;o sabem mais ao certo quem &eacute; que est&aacute; mandando ali. O tr&aacute;fico n&atilde;o est&aacute; mais t&atilde;o organizado quanto era. Tem determinados chefes ou subchefes que n&atilde;o s&atilde;o bons pra comunidade. Na verdade eles est&atilde;o reprimindo tanto a comunidade quanto a pol&iacute;cia". </i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Entre as raz&otilde;es para a crise da venda de drogas no varejo estariam: o fato de que as vendas no varejo nas favelas atendem principalmente a um mercado interno, com menor poder aquisitivo, e n&atilde;o mais a compradores de fora ou de classe m&eacute;dia, que deixaram de ir &agrave;s favelas por causa da viol&ecirc;ncia dos pr&oacute;prios traficantes e da pol&iacute;cia; o ingresso no mercado de drogas sint&eacute;ticas, especialmente o ecstasy (muitas vezes chamadas "balinhas" nas entrevistas e grupos focais), atualmente preferidas pelos jovens de classe m&eacute;dia (e tamb&eacute;m por muitos jovens de favelas), que seriam importadas e chegariam aos consumidores sem passar pelas favelas. Nesse aspecto, a coca&iacute;na, droga altamente rent&aacute;vel que inundou o mercado carioca nos anos 1980 e passou a ser consumida por pessoas de classe m&eacute;dia, teria encerrado seu imp&eacute;rio, devido aos preju&iacute;zos provocados pela cont&iacute;nua e crescente interven&ccedil;&atilde;o da pol&iacute;cia, seja em opera&ccedil;&otilde;es de confronto, seja em extors&otilde;es. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">A chegada do crack &agrave;s favelas cariocas, especialmente a partir da segunda metade da d&eacute;cada de 2000, corresponderia, segundo essas hip&oacute;teses, &agrave; necessidade de oferecer mercadoria compat&iacute;vel com o pequeno poder aquisitivo de parte de seus consumidores, pois a pedra de crack &eacute; mais barata e tem poder entorpecente maior que o da coca&iacute;na, ainda que seus efeitos desapare&ccedil;am mais rapidamente. Tamb&eacute;m ouvimos durante a pesquisa a interpreta&ccedil;&atilde;o de que o crack teria entrado no Rio inicialmente como uma contrapartida imposta pelo PCC (Primeiro Comando da Capital, fac&ccedil;&atilde;o criminosa paulista), que passou a fornecer drogas e armas para algumas favelas do Comando Vermelho do Rio de Janeiro. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Com o surgimento das UPPs, a partir de 2009, a crise do tr&aacute;fico se acentuou. As duas maiores fac&otilde;es criminais da cidade sofreram fortes abalos. &Eacute; muito importante compreender as mudan&ccedil;as no cen&aacute;rio do tr&aacute;fico, porque os processos de "sa&iacute;da" de jovens da rede do tr&aacute;fico tendem a se intensificar em muitas partes da cidade. Seja porque j&aacute; n&atilde;o estava valendo a pena e o neg&oacute;cio das drogas havia se tornado pouco lucrativo e perigoso (entre outras raz&otilde;es pela desestrutura&ccedil;&atilde;o dento das pr&oacute;prias bocas de fumo), seja porque as favelas foram ocupadas por UPPs, e os adolescentes e jovens adultos que trabalhavam na periferia do tr&aacute;fico ficaram numa condi&ccedil;&atilde;o que muitos moradores, durante a implanta&ccedil;&atilde;o das UPPs Sociais, chamaram de "&oacute;rf&atilde;os do tr&aacute;fico". Uma capit&atilde;, comandante de uma UPP da Zona Sul disse em uma entrevista: "o<i> que mais me intriga s&atilde;o os meninos que ficam na escada: eu passo de manh&atilde; e eles est&atilde;o sentados na escada, passo de tarde, eles est&atilde;o na escada, eu vou embora &agrave; noite e eles continuam na escada. Eles est&atilde;o esperando o qu&ecirc;? J&aacute; est&aacute; na hora de eles entenderem que v&atilde;o ter que arranjar outra coisa pra fazer".</i> Um coordenador de uma organiza&ccedil;&atilde;o religiosa da favela do Borel, que fazia atendimento a dez adolescentes (de 11 a 18 anos) usu&aacute;rios de drogas, anteriormente ocupados com pequenos trabalho na boca de fumo, quando o tr&aacute;fico mandava na comunidade, disse:<i> "agora depois da UPP, esses meninos ficam vagando pela favela. Eles acordam e n&atilde;o t&ecirc;m para onde ir. N&atilde;o existe mais a boca, eles n&atilde;o t&ecirc;m como conseguir a droga ali mesmo e nem como fazer pequenos trabalhos para conseguir algum dinheiro. Eles n&atilde;o estudam, n&atilde;o trabalham e ningu&eacute;m gosta deles. Onde eles encostam, as pessoas dizem 'sai daqui, vasa!'E ainda s&atilde;o revistados pela pol&iacute;cia o tempo todo... eles ficam como zumbis pela favela ". </i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Como indicarei nas pr&oacute;ximas se&ccedil;&otilde;es, a crise das drogas e a chegada das UPPs provocaram tantas mudan&ccedil;as na estrutura e na l&oacute;gica do tr&aacute;fico, a ponto de a separa&ccedil;&atilde;o cl&aacute;ssica que distingue os grupos urbanos de jovens em "gangues", "galeras" ou "quadrilhas" (Zaluar, 1997) precisar de nova compreens&atilde;o. O agrupamento com fins lucrativos que caracterizava as bocas de fumo como quadrilhas criminais, em algumas favelas que receberam UPPs est&aacute; ressurgindo na forma de pequenas gangues de adolescentes usu&aacute;rios de drogas. Algumas vezes, inconformados com a presen&ccedil;a permanente da pol&iacute;cia, em gestos desesperados atiram pedras nas viaturas. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><b>3. Entradas e sa&iacute;das: raz&otilde;es para entrar no crime e trajet&oacute;rias que desmentem as "raz&otilde;es"</b></font></p>     <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">"Eu<i> acredito que eu entrei por safadeza. Nem sei explicar..., minha m&atilde;e criou sete filhos sozinha, mas nunca deixou faltar nada em casa".</i> (M&aacute;rio, ex-traficante do Complexo do Alem&atilde;o) </font></p>     <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><i>"Todos os adolescentes s&atilde;o candidatos (a entrar para o crime). Eu olho no baile funk a exibi&ccedil;&atilde;o dos fuzis e me vejo na minha adolesc&ecirc;ncia na Inglaterra. Eu era como um daqueles meninos, queria ser aceito, entrar para a turma, queria atrair as meninas".</i> (Damian Platt, pesquisador e escritor) </font></p>     <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><i>"Na favela, n&atilde;o existe a possibilidade de ser jovem e n&atilde;o ter contato com o tr&aacute;fico. Voc&ecirc; pode n&atilde;o ter diretamente, mas seu amigo tem, seu primo tem, seu irm&atilde;o tem. A boca de fumo &eacute; um espa&ccedil;o de socializa&ccedil;&atilde;o obrigat&oacute;ria. Precisa ver como vai se relacionar com isso, mas &eacute; imposs&iacute;vel n&atilde;o ter rela&ccedil;&atilde;o nenhuma</i> (Charles Siqueira, produtor cultural e diretor de ONGs de cultura no Morro dos Prazeres) </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Na pesquisa de campo em favelas, perguntamos em todos os grupos focais e entrevistas: por que alguns jovens entram para os grupos armados ilegais que dominam as favelas e outros n&atilde;o? Por que alguns saem e outros ficam, morrem, matam, v&atilde;o presos, se ferem? Que raz&otilde;es levam um adolescente <sup><a name="not7a"></a>(</sup><a href="#not7"><sup>7</sup></a><sup>)</sup> a escolher uma experi&ecirc;ncia arriscada, mal paga, estigmatizada - uma "vida errada", na express&atilde;o de v&aacute;rios entrevistados - e que leva a algum desenlace r&aacute;pido e sombrio ("um dos tr&ecirc;s c&ecirc;s: cadeia, cadeira de rodas ou cemit&eacute;rio", como ouvimos mais de uma vez). O interessante &eacute; que, invariavelmente ap&oacute;s considera&ccedil;&otilde;es gen&eacute;ricas sobre as raz&otilde;es que contribuem para adolescentes buscarem o caminho do crime, imediatamente se seguiam hist&oacute;rias que contradiziam as raz&otilde;es apontadas pelo pr&oacute;prio interlocutor. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Nossas p&aacute;ginas de material bruto reuniram um repert&oacute;rio consider&aacute;vel de registros em que o jovem <u>n&atilde;o</u> precisava de dinheiro ("ele tinha tudo"), <u>n&atilde;o</u> vinha de fam&iacute;lia desestruturada (tinha casa, m&atilde;e, irm&atilde;os, estava na escola), <u>n&atilde;o</u> estava deslocado de seu grupo de amigos (pelo contr&aacute;rio, era integrado, querido, enturmado), <u>n&atilde;o</u> estava "ocioso" (al&eacute;m da escola, ele fazia parte de "projetos" na favela). Em muitos casos adolescentes declaram que v&atilde;o para o tr&aacute;fico em busca de dinheiro, alternativa profissional, para fugir de fam&iacute;lias violentas, para escapar de pais ou m&atilde;es alcoolizados e violentos, ou por outros motivos socioecon&ocirc;micos "cl&aacute;ssicos". Mas &eacute; importante perceber que em tantos outros casos as trajet&oacute;rias de vida n&atilde;o correspondem &agrave;s raz&otilde;es tidas como mais &oacute;bvias, e que de alguma maneira esperamos que nossos interlocutores reiterem. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Procurando fazer uma lista de situa&ccedil;&otilde;es e condi&ccedil;&otilde;es que mais levam os jovens a entrarem para o crime, al&eacute;m da necessidade financeira e do desejo de visibilidade <sup><a name="not8a"></a>(</sup><a href="#not8"><sup>8</sup></a><sup>)</sup>, as raz&otilde;es mais frequentes surgidas nos grupos focais e entrevistas foram: ter vivido uma situa&ccedil;&atilde;o de injusti&ccedil;a (por parte da pol&iacute;cia, na escola, dos amigos ou de outros jovens); ter algu&eacute;m da fam&iacute;lia envolvido no tr&aacute;fico; fam&iacute;lia desestruturada, ausente; n&atilde;o ter perspectiva de futuro. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Contudo, cada uma dessas raz&otilde;es deveria ser vista com bastante cautela. Sobre a id&eacute;ia de que fam&iacute;lias desestruturadas produzem candidatos mais frequentes ao envolvimento com a viol&ecirc;ncia, uma assistente social falou: "eu<i> tenho uma certa implic&acirc;ncia com esse neg&oacute;cio de fam&iacute;lia desestruturada, porque quando a gente fala fam&iacute;lia estruturada e desestruturada, j&aacute; pressup&otilde;e que tem um modelo certo. Que tem uma estrutura que &eacute; a correta. E isso n&atilde;o existe. Pelo menos hoje, as forma&ccedil;&otilde;es de fam&iacute;lia que a gente v&ecirc;: &eacute; m&atilde;e que cuida dos filhos sozinha, &eacute; a av&oacute; que cuida, &eacute; o pai que cuida sozinho... Mas na verdade, n&atilde;o quer dizer que morando com pai e m&atilde;e certinhos, dentro de casa, que est&aacute; tudo certo, sendo cuidada. As vezes as crian&ccedil;as v&atilde;o vivendo, dorme, acorda, dorme, acorda e ningu&eacute;m olha por elas. Elas ficam ali circulando e ningu&eacute;m olha de verdade". </i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Ouvimos muitas hist&oacute;rias (inclusive de traficantes e ex-traficantes) em que a exist&ecirc;ncia de algu&eacute;m da fam&iacute;lia no tr&aacute;fico favoreceu o ingresso do jovem. Seriam "as m&aacute;s companhias". De fato, fam&iacute;lia parece ser um ponto-chave nas hist&oacute;rias de entrada, mas tamb&eacute;m e principalmente nas hist&oacute;rias de sa&iacute;da de jovens dos grupos armados ilegais. Por outro lado, ouvimos muitas hist&oacute;rias em que, exatamente por vir de uma fam&iacute;lia em que um pai ou um irm&atilde;o tinha ido para o tr&aacute;fico, tudo tinha sido feito para que aquele jovem<u> n&atilde;o</u> entrasse. Ou seja, o veneno era o ant&iacute;doto. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">No grupo focal com jovens universit&aacute;rios moradores de favelas, ouvimos relatos que mencionavam um membro da fam&iacute;lia envolvido com redes armadas, ou pais drogados, m&atilde;es violentas etc. precisamente como fatores motivadores da busca pelo caminho da universidade p&uacute;blica. Ou seja, a constru&ccedil;&atilde;o discursiva n&atilde;o era: "eu entrei para o tr&aacute;fico por causa da minha m&atilde;e alco&oacute;latra". A constru&ccedil;&atilde;o era: "por causa da minha m&atilde;e alco&oacute;latra, eu vi que teria que ter outra vida, e por isso estudei, fiz vestibular comunit&aacute;rio e estou na universidade". </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">As trajet&oacute;rias de sa&iacute;da s&atilde;o frequentemente narradas a partir de um pedido ou da insist&ecirc;ncia da m&atilde;e ou a partir algum motivo familiar <sup><a name="not9a"></a>(</sup><a href="#not9"><sup>9</sup></a><sup>)</sup>. Isto &eacute; interessante, porque "ganhar dinheiro para ajudar a fam&iacute;lia" &eacute; um motivo &agrave;s vezes lembrado como a raz&atilde;o para o ingresso no crime. Se jovens resolvem "entrar para a boca" quando sabem que a namorada ficou gr&aacute;vida e precisam ganhar dinheiro, nossos relatos s&atilde;o fartos de hist&oacute;rias de sa&iacute;da exatamente pela mesma raz&atilde;o. Uma assistente social disse:<i> "uma situa&ccedil;&atilde;o que tamb&eacute;m acontece &eacute; de rapazes que acabam de formar fam&iacute;lia. Da namorada engravidar, filhos, e a&iacute; ele acaba saindo. Tenho uma conhecida l&aacute;, a situa&ccedil;&atilde;o dela &eacute; dif&iacute;cil, ela mal consegue sustentar a fam&iacute;lia e de repente a namorada do filho foi morar na casa dela, ainda levou uma crian&ccedil;a que j&aacute; tinha. Eu falei 'mas nossa, a sua situa&ccedil;&atilde;o j&aacute; &eacute; um aperto e seu filho, em vez de te ajudar ainda foi arrumar mais um'. Ela falou pr&aacute; mim, 'n&atilde;o, eu estou dando gra&ccedil;as a Deus, porque meu filho j&aacute; estava, al&eacute;m de usando drogas, se envolvendo no movimento e depois que ele ficou com essa menina e ela engravidou, ele parou com isso'". </i></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><b>4. Sexualidade, armas e "poder": o imp&eacute;rio da adrenalina e da mistifica&ccedil;&atilde;o <sup><a name="not10a"></a>(</sup><a href="#not10"><sup>10</sup></a><sup>)</sup></b></font></p>     <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><i>"Muitas pessoas da classe alta, tipo assim Zona Sul, eles v&atilde;o pr&aacute; favela pr&aacute; curtir. As patricinhas descem do condom&iacute;nio luxuoso, v&atilde;o pr&aacute; favela e olha o vagabundo sem camisa, com a arma, todo suado, fedendo, a&iacute; diz '&eacute; o pr&iacute;ncipe dos meus sonhos '"</i> (Jovem de projeto) </font></p>     <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><i>"O menino n&atilde;o tem nada, onde cair morto, mas sabe quantas mulheres ele tem? Quantas ele quiser. Dependendo da arma, mais mulher tem.</i> (M&atilde;e de adolescente cumprindo medida) </font></p>     <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><i>"N&atilde;o tem mais essa remunera&ccedil;&atilde;o, eles conseguem assim comprar um t&ecirc;nis, mas n&atilde;o arrumam mais do que isso, o que eles conseguem hoje, e &eacute; demais, &eacute; a aten&ccedil;&atilde;o dessas meninas. Elas ficam loucas, arma e cord&atilde;o de ouro.</i> (T&eacute;cnico de projeto em favela). </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">O tema da sexualidade se imp&ocirc;s &agrave; nossa pesquisa. As rela&ccedil;&otilde;es entre, de um lado, "conseguir meninas", "ser assediado por garotas bonitas", "ser olhado, reconhecido, desejado" e, de outro, "usar armas", "ser do tr&aacute;fico", "virar bandido" foram mencionadas sem exce&ccedil;&atilde;o por jovens de projeto, rapazes ou mo&ccedil;as, traficantes e lideran&ccedil;as. Mesmo quando este ponto n&atilde;o estava em nosso roteiro pr&eacute;vio. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">A informa&ccedil;&atilde;o mais repetida, confirmada, explicada e reassegurada -e ainda assim surpreendente e obscura - &eacute; a supremacia das armas para "atrair" mulheres, meninas bonitas, da favela, de fora e at&eacute; de outra classe social. As chamadas "Maria Fuzil" - que seriam as atuais representantes das "Maria Gasolina", que no passado, dizia-se, s&oacute; se interessavam por rapazes com carros - estariam sempre presentes na vida da boca de fumo, especialmente durantes os bailes funk e muitas vezes foram definidas como a maior raz&atilde;o para explicar o fasc&iacute;nio que os grupos ilegais e as armas exercem sobre crian&ccedil;as, adolescentes e jovens. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">O baile funk &eacute; um momento privilegiado da vida comunit&aacute;ria, quando jovens comuns que moram na favela, que n&atilde;o t&ecirc;m envolvimento direto com os grupos do tr&aacute;fico, podem conviver de perto com os outros jovens que est&atilde;o no tr&aacute;fico. Compartilham um pouco da "cultura do tr&aacute;fico" <sup><a name="not11a"></a>(</sup><a href="#not11"><sup>11</sup></a><sup>)</sup>, cantam as mesmas m&uacute;sicas, os "proibid&otilde;es" <sup><a name="not12a"></a>(</sup><a href="#not12"><sup>12</sup></a><sup>)</sup> do funk, e assistem ao desfile das armas. </font></p>      <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">A ponto de v&aacute;rios relatos afirmarem que um garoto pode pedir para "dar uma volta de fuzil" durante o baile, se for amigo de algum traficante. &Eacute; no baile tamb&eacute;m que as meninas verificam como se comportam e como s&atilde;o tratadas as namoradas dos traficantes. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Num grupo focal com adolescentes de um projeto social, composto por vinte meninas e meninos na faixa dos 13 aos 17 anos, aprendemos diversos sin&ocirc;nimos para mulheres e namoradas dos traficantes: "fiel", "comidinha", "lanchinho", "passatempo". A fiel &eacute; "aquela que ele ama". H&aacute; controv&eacute;rsias, alguns acham que a fiel &eacute; a esposa, a m&atilde;e dos filhos. "A<i> fiel &eacute; a privilegiada, mas tamb&eacute;m tem mais obriga&ccedil;&otilde;es, por exemplo, visitar o cara na pris&atilde;o quando ele &eacute; preso, n&atilde;o poder trair sen&atilde;o vai pra vala".</i> Segundo eles, um traficante pode ter duas ou tr&ecirc;s fi&eacute;is. Perguntamos como se sabe quem &eacute; a mulher do traficante. As adolescentes do nosso grupo focal fazem performances explicando como isso &eacute; &oacute;bvio e como &eacute; imposs&iacute;vel ignorar quem s&atilde;o essas meninas:<i> "as donas do peda&ccedil;o, cruzam o sal&atilde;o de ponta a ponta, ningu&eacute;m pode esbarrar nelas".</i> Al&eacute;m disso, acrescentam, logo se v&ecirc; pelas roupas: cal&ccedil;as "Gang", blusinhas "Picha&ccedil;&atilde;o", sand&aacute;lias "Melissa". Contam hist&oacute;rias abundantes sobre as fi&eacute;is e as amantes em que as vers&otilde;es s&atilde;o mais importantes que os fatos. Explicam que as "fi&eacute;is" mandam tanto que &agrave;s vezes o traficante apanha em casa: "&eacute;<i> o maioral na rua, mas apanha em casa da fiel".</i> Esses jovens falam nas "novinhas" <sup><a name="not13a"></a>(</sup><a href="#not13"><sup>13</sup></a><sup>)</sup> (mais tarde "os novinhos" ser&atilde;o citados como os meninos que acabam de entrar para o tr&aacute;fico e est&atilde;o cheios de disposi&ccedil;&atilde;o para fazer coisas arriscadas e violentas). No grupo focal de m&atilde;es apareceu um adendo: "as<i> novinhas, de 12, 13, 14 anos, s&atilde;o as mais taradas". </i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Perguntamos por que as meninas querem ser amantes dos traficantes: "sensa&ccedil;&atilde;o de poder". Essa resposta &eacute; a mesma para explicar por que os jovens entram para o tr&aacute;fico: "sensa&ccedil;&atilde;o de poder". As explica&ccedil;&otilde;es, portanto, s&atilde;o tautol&oacute;gicas. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">No grupo dos adolescentes, afirmou-se que<i> "a grande maioria das meninas gosta dos garotos do tr&aacute;fico e que &eacute; dif&iacute;cil encontrar uma que nunca tenha namorado rapazes com envolvimento com o tr&aacute;fico".</i> Quando perguntamos se as adolescentes que estavam ali tamb&eacute;m preferiam os rapazes do tr&aacute;fico, a resposta foi um un&acirc;nime<i> "n&atilde;aaao!".</i> Um rapaz disse que a arma chama aten&ccedil;&atilde;o e que a mulherada gosta. Outro explicou que a quest&atilde;o &eacute; o que ela representa:<i> "a arma representa o poder do cara, diz que ele &eacute; algu&eacute;m e as meninas gostam disso".</i> Um dos jovens fez um coment&aacute;rio curioso, que diz muito sobre como os "meninos do tr&aacute;fico" mant&eacute;m rela&ccedil;&otilde;es com os "jovens de projeto" <sup><a name="not14a"></a>(</sup><a href="#not14"><sup>14</sup></a><sup>)</sup> e os demais adolescentes da comunidade:<i> "muitas vezes os traficantes aparecem com umas menininhas da comunidade que todo mundo achava muito sem gra&ccedil;a, magrinha, sem corpo, mas depois que come&ccedil;am a desfilar com os traficantes, as meninas parece que ganham corpo e o pessoal come&ccedil;a a pensar: 'p&ocirc;, olha o que eu perdi'</i> ". </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Numa entrevista com um traficante deu-se o seguinte di&aacute;logo: a entrevistadora perguntou  <i>"eu entrevistei um rapaz que contou que uma vez ele estava na boca e chegou um grupo de 30 mulheres. N&atilde;o sei se ele estava exagerando, isso &eacute; poss&iacute;vel?".</i> O traficante responde:<i> "ah &eacute;, nesse baile aqui chega umas 15 vans s&oacute; de mulher, s&oacute; mulher boa"". "Mulher daqui ou de fora?" "De fora, mulher de termas". "Voc&ecirc; acha que elas est&atilde;o correndo atr&aacute;s de qu&ecirc;?" "Dinheiro. Tamb&eacute;m ela tem um contato, ningu&eacute;m rouba ela na rua. Elas t&aacute; na rua foi roubada, vem aqui dentro. O cara ainda toma uns tapa".</i> Como se v&ecirc;, at&eacute; mesmo o traficante tem dificuldade de explicar o qu&ecirc;, exatamente, regularia essas rela&ccedil;&otilde;es de interesse m&aacute;ximo entre mulheres e traficantes. Finalmente, o entrevistado revela que ele n&atilde;o, ele prefere as mulheres dif&iacute;ceis, e que n&atilde;o gosta de "mulher que fica na boca atr&aacute;s de traficante". </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">"Os novinhos" e "empolga&ccedil;&atilde;o" foram outras duas categorias recorrentes nas entrevistas. "&Eacute;<i> empolga&ccedil;&atilde;o, hoje em dia a molecada j&aacute; t&aacute; empolgada. Na minha &eacute;poca era dif&iacute;cil, o cara na minha &eacute;poca n&atilde;o gostava de crian&ccedil;ada no tr&aacute;fico, era s&oacute; adulto". "O novinho topa tudo, quer subir, quer fazer nome, gostam de mexer com os outros, o que mandar fazer eles fazem mesmo, n&atilde;o quer saber n&atilde;o. N&oacute;s que j&aacute; &eacute; mais antigo, j&aacute; passou por tanta coisa, n&atilde;o maltrato ningu&eacute;m  (...). Os cara n&atilde;o, &eacute; igualpit bull, vai que vai, n&atilde;o quer nem saber, eles querem fazer o nome deles. A gente n&atilde;o, n&atilde;o vai querer errar, e ser esculachado". </i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Diversos interlocutores, ex-traficantes, assistentes sociais e m&atilde;es fizeram o coment&aacute;rio: "eles est&atilde;o entrando cada vez mais novos". &Eacute; dif&iacute;cil saber de fato se a idade m&eacute;dia de ingresso nos grupos armados vem diminuindo sistematicamente ao longo dos anos, na mesma medida em que os lucros se reduziram. Ou se essa &eacute; uma impress&atilde;o sempre reiterada por entrevistados sobre o tr&aacute;fico e a idade dos traficantes. Mas tudo indica que as categorias "novinho", "novinha" e "empolgado" correspondam a um cen&aacute;rio de crise da estrutura das drogas em que a idade diminui e a improvisa&ccedil;&atilde;o, o amadorismo, a irresponsabilidade e a viol&ecirc;ncia aumentam. Garotos muito novos, de 14, 15 anos, destemidos, despreparados, com armas poderosas nas m&atilde;os, nas ruas da cidade, em busca de celulares e carteiras, &eacute; uma receita para as trag&eacute;dias cotidianas que presenciamos. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><b>5. Biografias, trajet&oacute;rias, percursos e discursos: "como ondas no mar"</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">De fato, n&atilde;o &eacute; simples compreender trajet&oacute;rias e depreender causas que as expliquem. N&atilde;o seria menos dif&iacute;cil se quis&eacute;ssemos fazer um levantamento entre jovens m&eacute;dicos para entender porque alguns escolheram a medicina e outros n&atilde;o, quais foram as motiva&ccedil;&otilde;es e o que afastou os outros jovens dessa carreira. Ou entre casais que optaram por ter muitos filhos, ou n&atilde;o t&ecirc;-los, por homens que sa&iacute;ram de suas cidades natais, ou de seus pa&iacute;ses, e tantos percursos que de alguma forma afetam a vida futura. Em todos esses casos, provavelmente encontrar&iacute;amos, nos relatos biogr&aacute;ficos, a combina&ccedil;&atilde;o de diversas "causas" formando a hist&oacute;ria particular de cada um. Tamb&eacute;m n&atilde;o se deve esperar que as pessoas "expliquem" seus percursos, ou que "elucidem" suas biografias, sejam elas de garotos do tr&aacute;fico ou de jovens que trabalham na bolsa valores. O que se pode encontrar - e &eacute; preciso ter cautela quando encontramos exatamente isso - s&atilde;o constru&ccedil;&otilde;es discursivas, que muitas vezes procuram dar nexo a hist&oacute;rias de vida na forma de causas e efeitos. As l&oacute;gicas e explica&ccedil;&otilde;es muitas vezes s&atilde;o formatadas pela suposi&ccedil;&atilde;o do entrevistado sobre o qu&ecirc; o entrevistador desejaria ouvir. Quando esse mecanismo predomina, s&atilde;o comuns narrativas pontuadas por clich&ecirc;s. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Jos&eacute; Machado Pais, pesquisador da Universidade de Lisboa, tem dedicado anos de esfor&ccedil;os no sentido de compreender as caracter&iacute;sticas mais contempor&acirc;neas da juventude. Em v&aacute;rios trabalhos, e principalmente em<i> Culturas juvenis</i> (1993),<i> Ganchos, tachos e biscates </i>(2001) e<i> Tra&ccedil;os e riscos de vida</i> (1999), chama a aten&ccedil;&atilde;o para o que ele define como<i> trajet&oacute;rias ioi&ocirc;</i> (PAIS, 2001:55). S&atilde;o movimentos t&iacute;picos da juventude atual: os jovens param de estudar, arranjam um bico, &agrave;s vezes t&ecirc;m um filho, daqui a pouco voltam para a casa dos pais, mais tarde voltam a estudar, estabelecem novas rela&ccedil;&otilde;es afetivas e assim por diante, em processos &agrave;s vezes prolongados de experimenta&ccedil;&otilde;es. Estes seriam, segundo o autor, os movimentos t&iacute;picos dos jovens contempor&acirc;neos, a experimenta&ccedil;&atilde;o, a err&acirc;ncia, a descontinuidade. As palavras que melhor definem as trajet&oacute;rias juvenis s&atilde;o reversibilidade, oscila&ccedil;&atilde;o, imprevisibilidade, formando "trajet&oacute;rias alongadas, fraturadas, adiadas, frustradas..." (2001:11). Muito diferente dos modelos das d&eacute;cadas anteriores, que preconizavam a juventude como uma transi&ccedil;&atilde;o para a vida adulta, em linhas mais retas e diretas. O autor fala de estruturas labir&iacute;nticas, onde os caminhos podem ser abandonados e retomados, al&eacute;m de que v&aacute;rias op&ccedil;&otilde;es podem ser exploradas simultaneamente. Pais defende uma sociologia da p&oacute;s-linearidade, onde se procura menos as causalidades, em que causas determinam efeitos e se alinham no tempo com previsibilidade, onde o antes leva ao depois. Prop&otilde;e que se possa construir "uma<i> sociologia da juventude que d&ecirc; conta das novas realidades, exatamente a partir da cr&iacute;tica do conceito de transi&ccedil;&atilde;o linear, circunscrita a uma sucess&atilde;o progressiva de etapas identific&aacute;veis e previs&iacute;veis em dire&ccedil;&atilde;o reta &agrave; fase adulta"</i> (PAIS, 2001:14). </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Em nossas pesquisas emp&iacute;ricas, verificamos que muitas vezes, quando se vive num territ&oacute;rio onde as armas e os grupos criminais est&atilde;o muito pr&oacute;ximos, o ingresso no tr&aacute;fico &eacute; uma das passagens, uma das experi&ecirc;ncias, uma das possibilidades. Pois projetos sociais, sozinhos, n&atilde;o reduzem taxas de homic&iacute;dio. Melhoria das escolas, cria&ccedil;&atilde;o de empregos, amplia&ccedil;&atilde;o de alternativas profissionais, programas de bolsas, iniciativas culturais para fortalecer a imagem do jovem de favela, tudo isso &eacute; necess&aacute;rio, mas n&atilde;o basta para reduzir a letalidade provocada pelo envolvimento de adolescentes em grupos armados. &Eacute; imperioso reduzir a presen&ccedil;a dos grupos armados nas favelas, diminuir a presen&ccedil;a das armas, das muni&ccedil;&otilde;es, do mando de "donos" que fazem da viol&ecirc;ncia uma cultura, uma regra local, uma l&oacute;gica interpessoal. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Enquanto houver armas e muni&ccedil;&otilde;es em abund&acirc;ncia nas favelas, haver&aacute; meninos que por alguma raz&atilde;o, em algum momento de suas adolesc&ecirc;ncias ou juventudes, v&atilde;o experimentar "a vida errada". Mesmo que seja apenas uma loucura de ver&atilde;o, uma decis&atilde;o absurda, e n&atilde;o uma op&ccedil;&atilde;o segura pelo crime, esse instante muitas vezes resulta na morte de tantos adolescentes e jovens. Os jovens que ingressam no crime matam e morrem. A arma que confere tanto "poder" est&aacute; na porta da rua, na esquina de casa, muito perto. A muni&ccedil;&atilde;o &eacute; farta, o desfecho &eacute; r&aacute;pido, muitas vezes n&atilde;o h&aacute; tempo para pensar, se arrepender. Desenvolvi esses argumentos no texto <i>Meninos do Rio</i> (RAMOS, 2009). </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Ouvimos jovens que entraram e sa&iacute;ram do tr&aacute;fico para nos aproximar da compreens&atilde;o sobre por que alguns jovens tra&ccedil;am seus percursos de vida no mundo das armas, do crime, das drogas. Quando o tr&aacute;fico j&aacute; n&atilde;o d&aacute; tanto dinheiro, &eacute; incerto, arriscado, paga mal, &eacute; cansativo e imp&otilde;e jornadas e encargos de trabalho que se n&atilde;o forem cumpridos podem custar a vida e ainda &eacute; um mundo cheio de "vaidades" e "falsidades", &eacute; dif&iacute;cil construir discursos sobre as raz&otilde;es para entrar. Como veremos, o discurso sobre quem entrou e saiu &eacute; sempre uma constru&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica sobre o erro, a bobeira, a vacila&ccedil;&atilde;o. Mas n&atilde;o encontramos exatamente arrependimento. Talvez al&iacute;vio, por ter sa&iacute;do a tempo e vivo. Alguns entrevistados mencionaram que mesmo quando um jovem j&aacute; saiu do tr&aacute;fico, quando ele fala do passado,<i> "chega o olho brilha. Tem um prazer ali". </i>De fato, observamos claramente esse fen&ocirc;meno em v&aacute;rios momentos da pesquisa. Mesmo jovens mais maduros que se tornaram lideran&ccedil;as p&uacute;blicas, como as do AfroReggae, e que est&atilde;o acostumados a contar suas trajet&oacute;rias criminais, ocorridas &agrave;s vezes h&aacute; bastante tempo, vibram ao falar do passado. Os relatos podem demorar horas e atrair bastante plat&eacute;ia. Contam sobre como foram presos, lembram dos di&aacute;logos que travaram com policiais, como foram baleados, as fugas, os confrontos, as armas, o n&uacute;mero de tiros... como se fosse um filme. Esse fen&ocirc;meno talvez n&atilde;o seja muito diferente de outro observado pelos assistentes sociais e t&eacute;cnicos. Os jovens que est&atilde;o atualmente no tr&aacute;fico se referem ao futuro, tamb&eacute;m, como um filme: "quando eu for preso", "quando eu morrer"... </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Uma assistente social definiu com perplexidade o que se passa:<i> "&eacute; como o cara que entra no mar pr&aacute; pegar aquela onda que vem grandona, ele quer estar l&aacute; naquela onda. Uma por&ccedil;&atilde;o de gente est&aacute; aqui fora dizendo 'Deus me livre, entrar naquele mar'. Mas ele tem aquela coragem, aquele desejo e vai. Eu acho que &eacute; a mesma coisa irpro tr&aacute;fico". </i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Talvez seja por causa dessas ondas do mar, dessa capacidade de fascinar seus participantes diretos que alguns jovens entram para os grupos de viol&ecirc;ncia armada. Mas depois de algum tempo, que pode variar de poucos meses para alguns a anos para outros, muitos resolvem "sair". Na verdade, todo traficante que entrevistamos, fala em "sair". </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><b>Deco.</b> Deco &eacute; um ex-traficante de Vig&aacute;rio Geral. Diz que entrou para a boca de fumo guardando material b&eacute;lico pra um amigo. Nesse momento inicial n&atilde;o considerava que "estava no tr&aacute;fico". "Ele<i> me dava R$ 100 toda sexta-feira, s&oacute; pra mim guardar as armas, n&atilde;o tinha envolvimento com nada. Tava ali por causa dele. Ele ligava pra mim e dizia: "vem aqui, assim, assado", Eu ia l&aacute; e pegava. Tinha um esconderijo bom pra caramba, de dif&iacute;cil acesso pra qualquer outra pessoa. A&iacute; foi indo, foi indo, at&eacute; que aconteceu um lance de troca de tiros com a fac&ccedil;&atilde;o rival. A&iacute; quando ele chegou perto de mim, ele disse: "Fica tu mesmo." E eu fiquei. Ele disse, "Vou te dar um present&atilde;o, uma ger&ecirc;ncia". Ai peguei a ger&ecirc;ncia. Depois de um tempo eu estava na ger&ecirc;ncia de tr&ecirc;s favelas.</i> Deco foi preso, cumpriu pena, foi solto e voltou para o tr&aacute;fico. Eu pergunto como finalmente ele saiu do tr&aacute;fico, e ele conta a seguinte hist&oacute;ria:<i> "Eu era o frente da favela. Chegou o Junior (Jos&eacute; Junior, diretor do Grupo Cultural AfroReggae) pedindo pra gente dar uma entrevista para uns caras. E eu: 'o que &eacute; isso ai?' 'um I-pod, que m&uacute;sica que tu gosta?' 'P&ocirc;, musica que eu gosto n&atilde;o tem a&iacute; n&atilde;o', 'Pode falar irm&atilde;o, fala ai, o que tu gosta, o que voc&ecirc; quiser tem aqui'. Ai eu falei 'bota o Legi&atilde;o Urbana ai'. O cara botou. Eu: 'caralho'. 'Qual &eacute; irm&atilde;o, esse aqui &eacute; o meu, n&eacute;?' 'Onde eu compro um desse aqui?' 'Esse aqui voc&ecirc; s&oacute; vai comprar l&aacute;, l&aacute; fora'. 'L&aacute; fora onde? Ali fora da favela?' 'N&atilde;o, esse aqui voc&ecirc; s&oacute; vai comprar l&aacute; fora'. 'L&aacute; fora onde? No shopping de Caxias?' 'N&atilde;o isso aqui tu compra l&aacute; fora, em outro pa&iacute;s'. Eu 'caralho', ai eu pirei, p&ocirc; vou sair daqui e vou l&aacute; na Fran&ccedil;a, fazer o qu&ecirc;, amigo? Comprar um I-pod!' Ai eu fui e dei a entrevista. A&iacute; ele fez o convite: 'Deixa te fazer uma pergunta. Se uma empresa te fizer uma proposta, de voc&ecirc; ganhar uma quantia por m&ecirc;s, com certeira assinada, voc&ecirc; largaria o tr&aacute;fico?' 'P&ocirc; eu largaria, por qualquer dinheiro, at&eacute; por cem reais, s&oacute; pela oportunidade de trabalho'. Uma semana depois eu sai... agora to aqui, tirando outros meninos do tr&aacute;fico".</i> Esse mesmo jovem havia mencionado como se sentia "preso" na favela, sem poder sair por causa das persegui&ccedil;&otilde;es policiais. Diz que s&oacute; via pela televis&atilde;o as mudan&ccedil;as urban&iacute;sticas no entorno de sua favela.<i> "Eu via no RJTV as obras, a constru&ccedil;&atilde;o de pistas largas e pensava 'p&ocirc;, quando eu tiver que sair daqui n&atilde;o vou saber nem como andar l&aacute; fora'". </i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><b>M&aacute;rio.</b> M&aacute;rio &eacute; um ex-traficante que atualmente tem 36 anos e deixou o tr&aacute;fico h&aacute; pouco mais de um ano, dois meses antes da ocupa&ccedil;&atilde;o do Complexo do Alem&atilde;o pela pol&iacute;cia, em dezembro de 2010. Em uma grande boca de fumo no Complexo do Alem&atilde;o, exercia a fun&ccedil;&atilde;o de vapor (vendedor da droga). Conta que entrou para o tr&aacute;fico com 11 ou 12 anos. Portanto, foi traficante durante 24 anos. Mario diz que n&atilde;o sabe por que entrou.<i> "Deve ter sido por safadeza, porque a minha m&atilde;e sempre deu tudo, nunca me faltou nada".</i> Ele tamb&eacute;m fala das companhias. Diz que todos os seus amigos na inf&acirc;ncia eram envolvidos. Menciona o nome de v&aacute;rios e vai contabilizando um a um que todos est&atilde;o mortos. Ele vem de uma fam&iacute;lia com sete irm&atilde;os, e s&oacute; ele entrou<i> "nessa vida".</i> Come&ccedil;ou fazendo pequenos ganhos na feira, fazendo carreto e pequenos roubos. Depois de muita luta, foi aceito no tr&aacute;fico,<i> "porque nessa &eacute;poca crian&ccedil;a n&atilde;o entrava. E  o Miltinho, da Ilha, n&atilde;o queria que a gente roubasse." </i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Perguntado por que saiu, depois de mais de 20 anos, ele diz<i> "Eu sempre andei sozinho. Entrei sozinho e sai sozinho, sou meio &iacute;ndio"</i> (se referindo ao fato de n&atilde;o ter sa&iacute;do com a ajuda de Igrejas ou de grupos como o AfroReggae). "Pra<i> mim foi uma coisa de Deus, que eu sa&iacute; duas semanas antes da grava&ccedil;&atilde;o"</i> (refere-se a uma grava&ccedil;&atilde;o amplamente exibida pela pol&iacute;cia na televis&atilde;o em que os parceiros de seu grupo da boca de fumo foram filmados. Todos foram ca&ccedil;ados pela pol&iacute;cia e est&atilde;o mortos ou presos). Diz que<i> "muitos sa&iacute;ram ap&oacute;s a ocupa&ccedil;&atilde;o, mas eu sa&iacute; antes. Sai com a cara e a coragem".</i> Mario est&aacute; casado com uma jovem advogada que trabalha numa empresa estatal. Acha que o casamento com essa mulher teve import&acirc;ncia para tomar a decis&atilde;o de sair. Tamb&eacute;m se refere &agrave; m&atilde;e, a quem agora visita<i> "pelo menos uma vez por semana".</i> Diz que a torcida na fam&iacute;lia foi grande para ele largar o tr&aacute;fico. Com o pouco dinheiro que conseguiu guardar de todos os anos no tr&aacute;fico, comprou uma pequena casa num bairro do sub&uacute;rbio, fora da favela, onde vive com sua mulher. Atualmente recebe mensalmente a parcela pela venda de sua casa no Complexo do Alem&atilde;o, de onde saiu. Ap&oacute;s ter sa&iacute;do do tr&aacute;fico, trabalhou v&aacute;rios meses, legalmente e com carteira assinada, como entregador, usando sua moto numa empresa de delivery. Gostava do trabalho, era respeitado, mas "n&atilde;o<i> consigo me acostumar com muita roupa",</i> diz, referindo-se ao uniforme da empresa, composto de cal&ccedil;a, jaqueta de manga comprida e bota. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Pergunto como v&ecirc; esse per&iacute;odo de sua vida (a maior parte de sua vida) no tr&aacute;fico. Diz: <i>"nunca matei ningu&eacute;m. Sempre tive cora&ccedil;&atilde;o bom, sempre fui de Deus. N&atilde;o sei se matei pol&iacute;cia  em troca de tiro, mas acredito que n&atilde;o. Na comunidade, eu procurava n&atilde;o andar armado. Sempre de bermuda, chinelo e sem camisa, com minha moto. Eu salvei muita gente. Quando teve o golpe na Ilha, e depois v&aacute;rias vezes no Complexo, convenci as pessoas a n&atilde;o matarem. Os novinhos do tr&aacute;fico s&atilde;o que nem pitbull, eles v&ecirc;m em cima, n&atilde;o querem nem saber".</i> Pergunto se ele tem saudade da vida no tr&aacute;fico. Diz que s&oacute; sente falta do dinheiro,<i> "dinheiro que eu sei que n&atilde;o vou ganhar aqui fora".</i> Mas acrescenta que tamb&eacute;m sente falta da liberdade. Como assim? M&aacute;rio n&atilde;o sabe explicar. Diz que &eacute; falta da<i> "liberdade de andar dentro e fora"</i> ("dentro" e "fora" parecem dizer respeito a dentro e fora do tr&aacute;fico e tamb&eacute;m da favela). </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">Nos pr&oacute;ximos anos, a cidade vai acompanhar centenas, possivelmente milhares de casos de jovens de favelas que tiveram diferentes graus de envolvimento com grupos armados procurarem caminhos de sa&iacute;da. Muitos sair&atilde;o por meio de um trabalho com carteira assinada, pela retomada dos estudos, pela volta &agrave; casa das fam&iacute;lias ou pela busca de experi&ecirc;ncias em esferas que n&atilde;o sejam criminais, ainda que possam ser ilegais, il&iacute;citas ou informais, j&aacute; que essas dimens&otilde;es s&atilde;o complexamente relacionadas na cidade e em especial dentro das favelas. Nessas alturas, j&aacute; &eacute; poss&iacute;vel afirmar que se quisermos entender essas trajet&oacute;rias heterog&ecirc;neas, contradit&oacute;rias, hesitantes e muitas vezes inconsistentes, mas algumas vezes surpreendentes, ser&aacute; necess&aacute;rio inscrever as idas e vindas de jovens de favelas egressos de grupos armados na compreens&atilde;o que temos sobre as din&acirc;micas juvenis na d&eacute;cada atual. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><b>Notas:</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><a name="not1"></a><b><a href="#not1a">1</a>.</b> As diversas fases da investiga&ccedil;&atilde;o foram realizadas com a participa&ccedil;&atilde;o de v&aacute;rios pesquisadores. A coordena&ccedil;&atilde;o da maioria das atividades foi realizada por mim e por Leonarda Musumeci, no &acirc;mbito da linha de pesquisa intitulada Juventude, Viol&ecirc;ncia e Pol&iacute;cia, realizada no Centro de Estudos de Seguran&ccedil;a e Cidadania da Universidade Candido Mendes. Entre os pesquisadores de campo, devem ser destacados Ana Carolina Dreyfus, que participou intensamente das entrevistas e grupos focais em 2008 e Tiago Borba, que participou da implanta&ccedil;&atilde;o das UPPs Sociais em nove favelas cariocas em 2010. Uma parte do projeto foi apoiada pelo Unicef e outro m&oacute;dulo contou com o apoio da Finep. A Funda&ccedil;&atilde;o Ford e a Universidade Candido Mendes ap&oacute;iam institucionalmente o CESeC, o que permite o desenvolvimento de investiga&ccedil;&otilde;es de longo prazo. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><a name="not2"></a><b><a href="#not2a">2</a>.</b> Para se ter uma ideia, a taxa de homic&iacute;dios de pa&iacute;ses como Fran&ccedil;a, Alemanha. It&aacute;lia ou Reino Unido &eacute; de 1 a 3 homic&iacute;dios por 100 mil. A taxa dos Estados Unidos &eacute; de aproximadamente 5 a 7 homic&iacute;dios por 100 mil. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><a name="not3"></a><b><a href="#not3a">3</a>.</b> Esses e outros dados podem ser consultados em detalhes no site do Centro de Estudos de Seguran&ccedil;a em Cidadania, em <a href="http://www.ucamcesec.com.br" target="_blank">www.ucamcesec.com.br</a></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><a name="not4"></a><b><a href="#not4a">4</a>.</b> Para se ter uma no&ccedil;&atilde;o da letalidade da a&ccedil;&atilde;o policial, tomando os &uacute;ltimos 10 anos (2001 a 2010), apenas na cidade do Rio de Janeiro, das 23.441 pessoas assassinadas, 6568 foram mortas pela pol&iacute;cia. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><a name="not5"></a><b><a href="#not5a">5</a>.</b> As Unidades criadas, pela ordem de instala&ccedil;&atilde;o, foram: Santa Marta; Cidade de Deus; Jardim Batan; Babil&ocirc;nia e Chap&eacute;u Mangueira; Pav&atilde;o, Pav&atilde;ozinho e Cantagalo; Ladeira dos Tabajaras e Cabritos; Provid&ecirc;ncia; Borel; Formiga; Andara&iacute;; Salgueiro; Turano; Macacos; S&atilde;o Jo&atilde;o, Matriz e Quieto; Coroa, Fallet e Fogueteiro; Escondidinho e Prazeres; S&atilde;o Carlos; Mangueira. O Complexo do Alem&atilde;o (com 16 comunidades) e as favelas Rocinha, Vidigal e Ch&aacute;cara do C&eacute;u foram ocupadas e receber&atilde;o UPPs em 2012. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><a name="not6"></a><b><a href="#not6a">6</a>.</b> O<i> vapor</i> tem a fun&ccedil;&atilde;o de vender as drogas diretamente aos clientes e responde diretamente ao gerente. Em geral pega as "cargas" de drogas em consigna&ccedil;&atilde;o e ganha por comiss&atilde;o. Os<i> soldados</i> t&ecirc;m por responsabilidade defender a "boca" e recebem por semana ou por m&ecirc;s. Os olheiros ou fogueteiros vigiam as entradas e sa&iacute;das para avisar sobre a chegada de inimigos de outras fac&ccedil;&otilde;es ou da pol&iacute;cia. S&atilde;o escolhidos pelos gerentes e ganham por semana ou por m&ecirc;s. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><a name="not7"></a><b><a href="#not7a">7</a>.</b> Na pesquisa do projeto Rotas de Fuga, do Observat&oacute;rio de Favelas, o levantamento realizado junto a 230 adolescentes e jovens trabalhando no com&eacute;rcio varejista de drogas em favelas, em 2004, 57% declararam ter ingressado no tr&aacute;fico entre os 13 e 15 anos. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><a name="not8"></a><b><a href="#not8a">8</a>.</b> Luiz Eduardo Soares h&aacute; alguns anos alertou para a import&acirc;ncia dos aspectos simb&oacute;licos associados &agrave; op&ccedil;&atilde;o pelo crime e pelas armas por jovens urbanos. O fen&ocirc;meno foi descrito em v&aacute;rias de suas obras, entre elas "Cabe&ccedil;a de porco" (SOARES, 2005:15). Alba Zaluar, em textos seminais para a compreens&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es entre juventude e crime havia chamado a aten&ccedil;&atilde;o para as rela&ccedil;&otilde;es profundas entre armas de fogo, constru&ccedil;&atilde;o de identidade masculina e morte (ZALUAR, 1994). </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><a name="not9"></a><b><a href="#not9a">9</a>.</b> O lugar da m&atilde;e no mundo dos jovens de favela foi explorado por Numa Ciro, na tese de doutorado "Nas Quebradas da Voz: o lugar e a m&atilde;e na cr&ocirc;nica po&eacute;tica do rap" CIRO (2009). </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><a name="not10"></a><b><a href="#not10a">10</a>.</b> Os argumentos apresentados nesse item foram desenvolvidos em RAMOS (2009). </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><a name="not11"></a><b><a href="#not11a">11</a>.</b> Jos&eacute; J&uacute;nior, em seu<i> Da favela para o mundo</i> (Aeroplano, 2003), se refere a uma "narcocultura. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><a name="not12"></a><b><a href="#not12a">12</a>.</b> Proibid&otilde;es s&atilde;o m&uacute;sicas com letras relacionadas &agrave;s fac&ccedil;&otilde;es criminosas, em geral citando o nome das comunidades dominadas por essas fac&ccedil;&otilde;es e elogiando os atos de viol&ecirc;ncia. Fazem a "apologia do crime", como os jovens dizem. Tamb&eacute;m t&ecirc;m o nome de proibid&atilde;o as m&uacute;sicas de car&aacute;ter sexual, em geral com express&otilde;es pesadas e hist&oacute;rias pornogr&aacute;ficas. Os CDs de proibid&otilde;es n&atilde;o s&atilde;o vendidos nas lojas nem est&atilde;o editados por gravadoras profissionais, mas s&atilde;o abundantes na internet e especialmente no You Tube. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><a name="not13"></a><b><a href="#not13a">13</a>.</b> H&aacute; muitos funks proibid&otilde;es cujo tema &eacute; "a novinha", todos dispon&iacute;veis na internet, como um que come&ccedil;a assim: "as novinha de 14 t&ecirc;m um corpo de elite; a mulher de 37, bunda cheia de celulite". </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><a name="not14"></a><b><a href="#not14a">14</a>.</b> O conceito de "jovens de projeto" foi desenvolvido por Regina Novaes (veja, por exemplo, NOVAES, 2006). </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Geneva, sans-serif"><b>REFER&Ecirc;NCIAS</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">CIRO, N. "Nas Quebradas da Voz: o lugar e a m&atilde;e na cr&ocirc;nica po&eacute;tica do rap". Tese de doutorado apresentada ao programa de Ci&ecirc;ncia da Literatura da Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ. Rio de Janeiro, 2009.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4655518&pid=S2176-4891201100020000600001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">DOWDNEY, L. (2003).<i> Crian&ccedil;as do tr&aacute;fico: um estudo de caso de crian&ccedil;as em viol&ecirc;ncia armada organizada no Rio de Janeiro.</i> Rio de Janeiro: Editora 7 Letras.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4655520&pid=S2176-4891201100020000600002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">HENRIQUES, R. e RAMOS, S. (2011). UPPs Sociais: a&ccedil;&otilde;es sociais para consolidar a pacifica&ccedil;&atilde;o. In: URANI, A. e GIAMBIAGI, F. (Org.).<i> Rio: a hora da virada.</i> Rio de Janeiro: Elsevier, p. 242-254.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4655522&pid=S2176-4891201100020000600003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">JUNIOR, J. (2003).<i> Da favela para o mundo: a hist&oacute;ria do Grupo Cultural AfroReggae</i>. Rio de Janeiro: Aeroplano.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4655524&pid=S2176-4891201100020000600004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">MUSUMECI, L e RAMOS, S. (2012)<i> Juventude, Viol&ecirc;ncia e Pol&iacute;cia - Resultados da Pesquisa Quantitativa.</i> Rio de Janeiro, LAV/UERJ/FINEP. No prelo.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4655526&pid=S2176-4891201100020000600005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">NETTO, O. C. (org.) (2002).<i> Nem soldados nem inocentes: juventude e tr&aacute;fico de drogas no Rio de Janeiro.</i> Rio de Janeiro: Fiocruz.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4655528&pid=S2176-4891201100020000600006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">NOVAES, R. (2006). Os jovens de hoje: contextos, diferen&ccedil;as e trajet&oacute;rias. In<i> Culturas jovens: novos mapas do afeto.</i> Maria Isabel Mendes de Almeida e Fernanda Eug&ecirc;nio (orgs.). Jorge Zahar Editor.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4655530&pid=S2176-4891201100020000600007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">PAIS, J. M. (1993)<i> Culturas juvenis.</i> Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4655532&pid=S2176-4891201100020000600008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">PAIS, J. M. (2001).<i> Ganchos, tachos e biscates: jovens, trabalho e futuro.</i> Porto, Editora Ambar,    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4655534&pid=S2176-4891201100020000600009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">PAIS, J. M. (coord.). (1999).<i> Tra&ccedil;os e riscos de vida. Uma abordagem qualitativa a modos de vida juvenis.</i> Porto, Editora Ambar,    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4655536&pid=S2176-4891201100020000600010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">RAMOS, S. (2009). Meninos do Rio: viol&ecirc;ncia armada e pol&iacute;cia nas favelas cariocas.<i> Boletim do CESeC</i> no. 13, ano 08. Rio de Janeiro, CESeC.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4655538&pid=S2176-4891201100020000600011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">SOARES, L. E. (2000).<i> Meu casaco de general. 500 dias no front da seguran&ccedil;a p&uacute;blica.</i> S&atilde;o Paulo, Companhia das Letras.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4655540&pid=S2176-4891201100020000600012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">SOARES, L. E.; BATISTA, A.; FERRAZ, C. (2010).<i> Elite da tropa 2: o inimigo agora &eacute; outro. </i>Rio de Janeiro, Nova fronteira.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4655542&pid=S2176-4891201100020000600013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">SOARES, L. E.; BILL, MV; ATHAYDE, C. (2005).<i> Cabe&ccedil;a de porco.</i> Rio de Janeiro: Objetiva.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4655544&pid=S2176-4891201100020000600014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">SOUZA, J. (coord.). (2007).<i> Caminhada de crian&ccedil;as, adolescentes e jovens na rede do tr&aacute;fico de drogas no varejo do Rio de Janeiro,</i> 2004-2006. Rio de Janeiro: Observat&oacute;rio de Favelas.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4655546&pid=S2176-4891201100020000600015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">WAISELFISZ, J. J. (2008).<i> Mapa da viol&ecirc;ncia: os jovens da Am&eacute;rica Latina.</i> Ritla/ Instituto Sangari e Minist&eacute;rio da Justi&ccedil;a,    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4655548&pid=S2176-4891201100020000600016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">WAISELFISZ, J. J. (2011).<i> Mapa da Viol&ecirc;ncia 2012. Os Novos Padr&otilde;es da Viol&ecirc;ncia Homicida no Brasil.</i> S&atilde;o Paulo, Instituto Sangari.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4655550&pid=S2176-4891201100020000600017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">ZALUAR, A. (1994). Teleguiados e chefes: juventude e crime. In<i> Condom&iacute;nio do diabo.</i> Rio de Janeiro, Revan.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4655552&pid=S2176-4891201100020000600018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Geneva, sans-serif">ZALUAR, A. (1997). Gangues, galeras e quadrilhas: globaliza&ccedil;&atilde;o, juventude e viol&ecirc;ncia. In VIANNA, H. (org.),<i> Galeras cariocas: territ&oacute;rios de conflitos e encontros culturais.</i> Rio de Janeiro, Editora da UFRJ.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=4655554&pid=S2176-4891201100020000600019&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>      ]]></body>
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