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<publisher-name><![CDATA[Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Instituto de Medicina Social]]></publisher-name>
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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Higiene matrimonial, sexualidade e modos de subjetivação no brasil do século XIX (1847-1870)]]></article-title>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This paper examines the diffusion of the hygienist logic of weddings by nineteenth-century medical thought and its resonances in the transition from patriarchal family to the nuclear family in Brazil. This is a historical study, inspired by Foucault, whose corpus were theses, books and Brazilian medical journals of the 19th century (1847-1870). Through a comprehensive set of hygienic requirements, marriage was lauded as essential to the progress of the nation, at the expense of the virulent condemnation both of renunciation of sexual life in ecclesiastical celibacy, and sexual experiences that occurred in the vicinity of the marriage institution, considered excessive, such as licentiousness and nymphomania. Thus, we profiled the traits of a regulatory ideal capable of modeling husbands and wives to the task of making marriage the basis of a project of cleaning and thereafter eugenization of society.]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="verdana" size="2"><b>ARTIGOS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="4"><b>Higiene matrimonial, sexualidade e modos de subjetiva&ccedil;&atilde;o no brasil do s&eacute;culo XIX </b></font> <font face="verdana" size="4"><b>(1847-1870)</b><a href="#_ftn0" name="_ftnref1" title="">*</sup></a></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="2"><b>Cristiane Oliveira</b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Psic&oacute;loga. Professora Adjunta do   Instituto de Psicologia da UFBA. Doutora em Sa&uacute;de Coletiva (IMS-UERJ) com est&aacute;gio doutoral na Universit&eacute; Paris VII</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr size="1" noshade>     <p><font face="verdana" size="2"><b>RESUMO</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">O   presente artigo analisa a difus&atilde;o da l&oacute;gica higienista dos casamentos pelo   pensamento m&eacute;dico novecentista e suas resson&acirc;ncias na transi&ccedil;&atilde;o da fam&iacute;lia   patriarcal para a fam&iacute;lia nuclear no Brasil. Trata-se de um estudo hist&oacute;rico, de inspira&ccedil;&atilde;o   foucaultiana, que teve como corpus documental teses, livros e peri&oacute;dicos   m&eacute;dicos brasileiros do s&eacute;culo XIX (1847-1870). Atrav&eacute;s de um conjunto detalhado   de prescri&ccedil;&otilde;es higi&ecirc;nicas, o casamento foi enaltecido como elemento essencial   ao progresso da p&aacute;tria, &agrave; custa da condena&ccedil;&atilde;o virulenta tanto &agrave; ren&uacute;ncia &agrave; vida   sexual presente no celibato eclesi&aacute;stico, como &agrave;s viv&ecirc;ncias sexuais que   ocorriam na periferia da institui&ccedil;&atilde;o matrimonial e codificadas como excessivas,   como a libertinagem e a ninfomania. Desta maneira, foram perfilados os tra&ccedil;os   de um ideal normativo capaz de modelar maridos e esposas &agrave; tarefa de fazer do   casamento a base de sustenta&ccedil;&atilde;o para um projeto de higieniza&ccedil;&atilde;o e,   posteriormente, de eugeniza&ccedil;&atilde;o da sociedade.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2"><b>Palavras-chave</b>: Sexualidade;   higiene matrimonial; subjetividade.</font></p> <hr size="1" noshade>     <p><font face="verdana" size="2"><b>ABSTRACT</b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2">This paper examines the   diffusion of the hygienist logic of weddings by nineteenth-century medical thought   and its resonances in the transition from patriarchal family to the nuclear   family in Brazil. This is a historical study, inspired by Foucault, whose   corpus were theses, books and Brazilian medical journals of the 19th century   (1847-1870). Through a comprehensive set of hygienic requirements, marriage was   lauded as essential to the progress of the nation, at the expense of the   virulent condemnation both of renunciation of sexual life in ecclesiastical   celibacy, and sexual experiences that occurred in the vicinity of the marriage   institution, considered excessive, such as licentiousness and nymphomania.   Thus, we profiled the traits of a regulatory ideal capable of modeling husbands   and wives to the task of making marriage the basis of a project of cleaning and   thereafter eugenization of society.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2"><b>Keywords</b>: Sexuality; matrimonial   hygiene; subjectivity.</font></p> <hr size="1" noshade>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="3"><b>1. INTRODU&Ccedil;&Atilde;O</b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2">A partir da segunda   metade do s&eacute;culo XIX, as institui&ccedil;&otilde;es de forma&ccedil;&atilde;o m&eacute;dica no pa&iacute;s s&atilde;o parte de   um movimento mais amplo de constitui&ccedil;&atilde;o de uma elite intelectual que pudesse   construir um projeto de na&ccedil;&atilde;o para o Brasil. Nessa perspectiva, museus de   ci&ecirc;ncia natural, escolas de medicina e de direito deveriam criar uma <i>intelligentsia</i> robusta capaz de gerar os subs&iacute;dios discursivos que fizessem coadunar os   interesses do liberalismo com a necessidade de justificar a profunda   estratifica&ccedil;&atilde;o social, centralizados no debate sobre a condi&ccedil;&atilde;o miscigenada da   popula&ccedil;&atilde;o brasileira (SKIDMORE, 1989; SCHWARCZ, 1993).</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Apesar das reivindica&ccedil;&otilde;es de maior   reconhecimento que a corpora&ccedil;&atilde;o m&eacute;dica dirigia ao Estado, a institucionaliza&ccedil;&atilde;o   do saber m&eacute;dico no Brasil n&atilde;o se deu apenas por antagonismo aos interesses   estatais. Houve tamb&eacute;m um progressivo alinhamento de seus interesses, o que   pode ser localizado na necessidade de normaliza&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o citadino e da   popula&ccedil;&atilde;o, empreendida pela difus&atilde;o da medicina social (MACHADO, LOUREIRO, LUZ   &amp; MURICY, 1978; COSTA, 1999). No entanto, para que esse projeto pudesse ser   levado a cabo, seria necess&aacute;ria uma maior intromiss&atilde;o estatal na regula&ccedil;&atilde;o dos   indiv&iacute;duos, bem como uma reestrutura&ccedil;&atilde;o dos pr&oacute;prios mecanismos de controle da   ordem social. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">&Eacute; nesse cen&aacute;rio que a medicina vai   desempenhar uma importante media&ccedil;&atilde;o na regula&ccedil;&atilde;o individual e social por parte   do Estado, o que aconteceu por sua paulatina inger&ecirc;ncia na fam&iacute;lia. O presente   trabalho analisa a difus&atilde;o da l&oacute;gica higienista dos casamentos pelo pensamento   m&eacute;dico novecentista e suas resson&acirc;ncias na transi&ccedil;&atilde;o da fam&iacute;lia patriarcal para   a fam&iacute;lia nuclear no Brasil. Para tanto, identifica alguns aspectos da   institucionaliza&ccedil;&atilde;o da medicina no Brasil, que se deu nas primeiras d&eacute;cadas do   s&eacute;culo XIX, a fim de situar as condi&ccedil;&otilde;es de possibilidade que demarcaram   tens&otilde;es e solidariedades que organizaram sua rela&ccedil;&atilde;o com o Estado e com a   fam&iacute;lia patriarcal. Em seguida, analisa as prescri&ccedil;&otilde;es m&eacute;dicas voltadas ao   casamento, explicitando as t&aacute;ticas discursivas de uma verdadeira campanha em   defesa de sua superioridade higi&ecirc;nica. Finalmente, mapeia as figuras sexuais   que, seja pelo excesso, seja pela conten&ccedil;&atilde;o, representavam uma amea&ccedil;a aos   remanejamentos das figuras de esposa e marido na nova configura&ccedil;&atilde;o medicalizada   de fam&iacute;lia que come&ccedil;ava a se esbo&ccedil;ar no Brasil. </font></p>     <p><font face="verdana" size="2">O percurso de investiga&ccedil;&atilde;o envolveu   pesquisa documental na Biblioteca Nacional, na Academia Nacional de Medicina e   na Biblioteca de Manguinhos - FIOCRUZ (Rio de Janeiro) e na Faculdade de   Medicina da Bahia (Salvador). Trata-se de um estudo geneal&oacute;gico, de inspira&ccedil;&atilde;o   foucaultiana, que, para o escopo do presente artigo, baseou-se em teses e peri&oacute;dicos   m&eacute;dicos publicados no Brasil entre 1847-1870.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="3"><b>2. A INSTITUCIONALIZA&Ccedil;&Atilde;O DA MEDICINA NO BRASIL</b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2">A hist&oacute;ria da   constitui&ccedil;&atilde;o do saber m&eacute;dico no Brasil remonta &agrave; segunda metade do s&eacute;culo   XVIII, quando uma transi&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica importante a&iacute; se fez notar, explicitando   um conjunto heterog&ecirc;neo de transforma&ccedil;&otilde;es sociais que come&ccedil;aram a delinear   certas prioridades hist&oacute;ricas. No plano econ&ocirc;mico, o decl&iacute;nio da monocultura   a&ccedil;ucareira e a expans&atilde;o da explora&ccedil;&atilde;o do ouro reconfiguraram a geopol&iacute;tica   brasileira, fazendo com que o centro de produ&ccedil;&atilde;o de riquezas migrasse do   Nordeste para o Sudeste brasileiro. Neste particular, o Rio de Janeiro era uma   cidade que foi merecendo cada vez mais aten&ccedil;&atilde;o do poder colonial, j&aacute; que servia   de ponto de escoamento do ouro e come&ccedil;ava a aglutinar de maneira cada vez mais   ca&oacute;tica uma popula&ccedil;&atilde;o crescente. Disso decorria que a normaliza&ccedil;&atilde;o<a href="#_edn1" name="_ednref1" title=""><sup>1</sup></a> do espa&ccedil;o social, atrav&eacute;s da regula&ccedil;&atilde;o de seus perigos e da distribui&ccedil;&atilde;o   ordenada dos indiv&iacute;duos, tornava-se um imperativo. A sede do governo foi ent&atilde;o   deslocada de Salvador para o Rio de Janeiro em 1761, estabelecendo, no plano   pol&iacute;tico, uma nova rela&ccedil;&atilde;o entre col&ocirc;nia e metr&oacute;pole. &Eacute; nesse cen&aacute;rio que   veremos surgir, na nova capital do Imp&eacute;rio, o caso exemplar de interven&ccedil;&atilde;o   paulatinamente articulada entre Estado e medicina para higienizar o espa&ccedil;o   social, constituindo uma expectativa de institucionaliza&ccedil;&atilde;o do saber m&eacute;dico no   pa&iacute;s (MACHADO et al., 1978).</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">J&aacute; havia uma demanda   da popula&ccedil;&atilde;o por m&eacute;dicos no Brasil Col&ocirc;nia, mas o bin&ocirc;mio m&eacute;dico-doen&ccedil;a era preterido   por formas alternativas de cura, de modo que nesse per&iacute;odo a medicina n&atilde;o se   impunha como a forma privilegiada de abordar a sa&uacute;de. A escassez de m&eacute;dicos   tinha como motivos principais o desinteresse desses profissionais em se   instalar no Brasil e a proibi&ccedil;&atilde;o do ensino superior nas col&ocirc;nias. At&eacute; a chegada da   fam&iacute;lia real, em 1808, a atua&ccedil;&atilde;o m&eacute;dica era controlada por Portugal.   Inicialmente, atrav&eacute;s dos cirurgi&otilde;es-mores (cargo criado em 1260), reproduzindo   o modelo institucional da monarquia portuguesa, que fazia do m&eacute;dico um prolongamento do   poder soberano, cujo papel era eminentemente fiscalizador. Ao longo dos s&eacute;culos   XVI e XVII, esse mecanismo sofreu algumas altera&ccedil;&otilde;es, basicamente orientadas   por uma especifica&ccedil;&atilde;o das diferentes pr&aacute;ticas sob a responsabilidade da   medicina (MACHADO et al., 1978).</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">&Eacute; nesse sentido que   cirurgi&atilde;o-mor, f&iacute;sico-mor (categoria que nasce no s&eacute;culo XVI) e botic&aacute;rio   deveriam ter fun&ccedil;&otilde;es diferentes, de modo a tornar imposs&iacute;vel a superposi&ccedil;&atilde;o de   responsabilidades, pass&iacute;vel de puni&ccedil;&atilde;o jur&iacute;dica. A an&aacute;lise do exame realizado   junto &agrave; Fisicatura ilustra o itiner&aacute;rio pelo qual um praticante da medicina   deve percorrer para obter legitimidade jur&iacute;dica de sua pr&aacute;tica: s&atilde;o-lhe   exigidos prova documental e testemunho de sua pr&aacute;tica por dois anos, al&eacute;m de   realiza&ccedil;&atilde;o de exame m&eacute;dico junto aos doentes para receber licen&ccedil;a para exercer   a medicina. Esse modelo foi transplantado para o Brasil, de modo a garantir   que, atrav&eacute;s da medicina, a metr&oacute;pole pudesse ter controle sobre a col&ocirc;nia,   raz&atilde;o pela qual n&atilde;o se permitia at&eacute; ent&atilde;o forma&ccedil;&atilde;o superior no pa&iacute;s (MACHADO et   al., 1978).</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">O regimento da   Fisicatura, no entanto, n&atilde;o parecia ter sido devidamente cumprido na col&ocirc;nia,   j&aacute; que botic&aacute;rios prescreviam medicamentos livremente, os cirurgi&otilde;es   continuavam a exercer a medicina e muitos pr&aacute;ticos exerciam a medicina sem   licen&ccedil;a. Ap&oacute;s algumas tentativas n&atilde;o exitosas de intensifica&ccedil;&atilde;o da   fiscaliza&ccedil;&atilde;o, foi criada, em 1782, a I Junta do Proto-Medicato, que   centralizava os poderes do f&iacute;sico e cirurgi&atilde;o-mores de fiscaliza&ccedil;&atilde;o do   exerc&iacute;cio da profiss&atilde;o, concedendo licen&ccedil;as e diplomas, substituindo, sem   mudan&ccedil;as substanciais, a Fisicatura. Efetivamente, toda a regula&ccedil;&atilde;o do   exerc&iacute;cio da medicina se restringia &agrave; fiscaliza&ccedil;&atilde;o da profiss&atilde;o e, com ela, da   vida pol&iacute;tica e econ&ocirc;mica da col&ocirc;nia (MACHADO et al., 1978).</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">O reconhecimento da   necessidade de forma&ccedil;&atilde;o m&eacute;dica no Brasil pelo poder real, em 1808, deixa   entrever a necessidade de uma nova forma de regular politicamente a vida no   pa&iacute;s. Quando D. Jo&atilde;o VI, referendando-se na proposta feita pelo cirugi&atilde;o-mor   Jos&eacute; Correira Pican&ccedil;o, decide pela funda&ccedil;&atilde;o de institui&ccedil;&otilde;es de ensino m&eacute;dico no   Brasil, a forma&ccedil;&atilde;o de m&eacute;dicos, atrav&eacute;s da cria&ccedil;&atilde;o de duas escolas   m&eacute;dico-cir&uacute;rgicas (Bahia e Rio de Janeiro) passou, em 1808, a ser   nacionalizada. No caso da Bahia, o curso contava, &agrave; &eacute;poca de sua funda&ccedil;&atilde;o, com   o ensino de cirurgia, anatomia e obstetr&iacute;cia, por professores formados em   Portugal e que exerciam a medicina no hospital militar (PEREIRA, 1908). Sob a   alega&ccedil;&atilde;o de demonstrar preocupa&ccedil;&atilde;o com a sa&uacute;de de seu povo, estava o interesse   em modificar a arquitetura pol&iacute;tica da cidade, ordenar a circula&ccedil;&atilde;o de pessoas   e bens e constituir uma popula&ccedil;&atilde;o saud&aacute;vel, solucionando os problemas   sanit&aacute;rios que se acumulavam nas cidades brasileiras (e que se agravaram com a   chegada da corte portuguesa), a fim de governar e expandir o potencial   econ&ocirc;mico da col&ocirc;nia num espa&ccedil;o citadino normalizado (MACHADO et al., 1978).</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Mas o esfor&ccedil;o de   institucionaliza&ccedil;&atilde;o ainda se estenderia pelas primeiras quatro d&eacute;cadas de   forma&ccedil;&atilde;o m&eacute;dica brasileira, em detrimento da qualifica&ccedil;&atilde;o de seu projeto   cient&iacute;fico (SCHWARCZ, 1993). As escolas cir&uacute;rgicas fundadas em 1808 ofereciam   um ensino muito prec&aacute;rio, o que mantinha o exerc&iacute;cio da profiss&atilde;o muito   limitado e pouco confi&aacute;vel. Essa constata&ccedil;&atilde;o desencadeou o processo de   constru&ccedil;&atilde;o da primeira reforma do ensino m&eacute;dico, levada a cabo com a convers&atilde;o   das primeiras escolas cir&uacute;rgicas em academias m&eacute;dico-cir&uacute;rgicas, em 1813 e   1816, respectivamente, no Rio de Janeiro e em Salvador, implicando revis&atilde;o   curricular com aumento do n&uacute;mero das cadeiras obrigat&oacute;rias, amplia&ccedil;&atilde;o da   dura&ccedil;&atilde;o dos cursos de quatro para cinco anos e realoca&ccedil;&atilde;o dos espa&ccedil;os de   forma&ccedil;&atilde;o pr&aacute;tica. Em Salvador, por exemplo, essas aulas migraram do Hospital   Militar da Bahia para o hospital da Santa Casa de Miseric&oacute;rdia, com o prop&oacute;sito   de possibilitar o atendimento a uma heterogeneidade maior de casos (PEREIRA,   1908).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">A reforma empreendida   nos primeiros anos de institucionaliza&ccedil;&atilde;o da forma&ccedil;&atilde;o m&eacute;dica brasileira   configurava, portanto, um conjunto de t&aacute;ticas que afirmava o interesse   portugu&ecirc;s de que ela pudesse efetivamente atender &agrave;s demandas   pol&iacute;tico-sanit&aacute;rias que se impunham, ainda que seu controle sobre esse processo   continuasse a existir. Os cargos de cirurgi&atilde;o e f&iacute;sico-mores foram reabilitados   em 1808 e o Proto-Medicato extinto no ano seguinte, mantendo a centraliza&ccedil;&atilde;o da   fiscaliza&ccedil;&atilde;o e da concess&atilde;o de t&iacute;tulos para o exerc&iacute;cio profissional, o que   ocasionava resist&ecirc;ncia da categoria m&eacute;dica (silenciada na mem&oacute;ria produzida por   Pac&iacute;fico Pereira, de 1908, e substitu&iacute;da por uma apologia &agrave;s a&ccedil;&otilde;es joaninas),   que desejava ficar livre da inger&ecirc;ncia portuguesa. Atrav&eacute;s de alguns projetos   de lei que visavam &agrave; conquista de autonomia, preconizava-se, por exemplo, a   transforma&ccedil;&atilde;o das escolas m&eacute;dico-cir&uacute;rgicas em escolas de medicina, o que   propiciaria a oferta de forma&ccedil;&atilde;o em farm&aacute;cia, cirurgia e medicina (MACHADO et   al., 1978).</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">A Fisicatura foi   extinta, em 1828, fal&ecirc;ncia decretada por sua inoper&acirc;ncia quanto &agrave; possibilidade   de constituir efetivamente uma medicina social no pa&iacute;s, demanda clara &agrave;quela   altura. A progressiva consolida&ccedil;&atilde;o do saber m&eacute;dico brasileiro vai se dar no   rastro dessa conting&ecirc;ncia e os m&eacute;dicos come&ccedil;am a participar das inst&acirc;ncias que   deliberavam acerca das medidas que assumiam pol&iacute;tica e programaticamente a   miss&atilde;o de modificar o quadro sanit&aacute;rio nacional. Merecem destaque as a&ccedil;&otilde;es de   colabora&ccedil;&atilde;o m&eacute;dica ao governo relativas &agrave; sa&uacute;de p&uacute;blica, veiculadas a partir de   decreto imperial que legitimou, em 1830, a parceria das C&acirc;maras Municipais com   a Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro (fundada um ano antes), institui&ccedil;&atilde;o   important&iacute;ssima para o fortalecimento institucional da medicina no pa&iacute;s   (MACHADO et al., 1978).</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">A atua&ccedil;&atilde;o da SMRJ   foi, inclusive, decisiva na reforma do ensino m&eacute;dico de 1832. Coube a ela a   elabora&ccedil;&atilde;o do projeto que remodelaria a pol&iacute;tica de forma&ccedil;&atilde;o profissional no   &acirc;mbito da interven&ccedil;&atilde;o em sa&uacute;de, conferindo-lhe uma nacionaliza&ccedil;&atilde;o de seu   controle. Converteu-se, com isso, o estatuto das institui&ccedil;&otilde;es formadoras de   escolas m&eacute;dico-cir&uacute;rgicas para faculdades de medicina, tendo sido criadas   naquele ano as Faculdades de Medicina da Bahia e a Faculdade de Medicina do Rio   de Janeiro. O curso m&eacute;dico passou a ter seis anos de dura&ccedil;&atilde;o, cujo ensino   passaria a contar com 14 cadeiras subdivididas em <i>sciencias acessorias</i>, <i>sciencias     medicas</i> e <i>sciencias cirurgicas</i>, conferindo-lhes maior autonomia   pol&iacute;tica, administrativa e acad&ecirc;mica, mas pouco exequ&iacute;veis no cotidiano das   faculdades (PEREIRA, 1908).</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">A inscri&ccedil;&atilde;o do saber m&eacute;dico na   forma&ccedil;&atilde;o discursiva do progresso nacional implicou mudan&ccedil;as em diferentes   registros. Em primeiro lugar, como fizeram notar Machado et al. (1978), houve   uma transforma&ccedil;&atilde;o do saber m&eacute;dico, a partir da primeira metade do s&eacute;culo XIX,   que passava a se ocupar n&atilde;o apenas da sa&uacute;de individual, mas sobretudo da sa&uacute;de   das popula&ccedil;&otilde;es. Al&eacute;m disso, houve uma sofistica&ccedil;&atilde;o nas t&aacute;ticas de inser&ccedil;&atilde;o em   nichos pol&iacute;ticos de interesse da corpora&ccedil;&atilde;o m&eacute;dica: mudando o objeto, a   medicina assumiu-se como colaboradora do Estado e da fam&iacute;lia, desestabilizando   seus poderes e oferecendo-se como mediadora dos conflitos. Desta forma,   inflacionava-se paulatinamente o prest&iacute;gio social e pol&iacute;tico do m&eacute;dico no   Brasil. Mas isso n&atilde;o se fez sen&atilde;o por um conjunto complexo de correla&ccedil;&otilde;es de   for&ccedil;a e por mecanismos intricados de exerc&iacute;cio de poder, que se exerciam   entremeados por tens&otilde;es internas e externas.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Na segunda metade do s&eacute;culo XIX, a   corpora&ccedil;&atilde;o m&eacute;dica endere&ccedil;ava in&uacute;meras queixas ao Estado, que iam desde a   intromiss&atilde;o considerada indevida do Estado nos assuntos da corpora&ccedil;&atilde;o - como   foi o caso das matr&iacute;culas realizadas na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro   e na Bahia -, passando por sua neglig&ecirc;ncia no aporte de recursos para a   forma&ccedil;&atilde;o m&eacute;dica e para a divulga&ccedil;&atilde;o da medicina nacional nos centros de <i>intelligentsia</i> m&eacute;dica internacional. Entre os anos de 1860-1870, v&aacute;rios artigos na <i>Gazeta     M&eacute;dica</i> deram visibilidade &agrave;s tens&otilde;es entre o saber da corpora&ccedil;&atilde;o m&eacute;dica e a   m&aacute;quina estatal. Em   1866, numa campanha da GMB no ano que antecedeu ao Congresso M&eacute;dico   Internacional de Paris, insistia-se na necessidade de representa&ccedil;&atilde;o brasileira   que, apesar da exist&ecirc;ncia de faculdades e agremia&ccedil;&otilde;es m&eacute;dicas, ainda n&atilde;o havia   conquistado espa&ccedil;o na medicina internacional. Reivindicava-se que o Estado   pudesse se responsabilizar mais pela forma&ccedil;&atilde;o e especializa&ccedil;&atilde;o dos m&eacute;dicos   brasileiros. Era uma medicina que clamava por reconhecimento social e pol&iacute;tico   e por expans&atilde;o de seu dom&iacute;nio de a&ccedil;&atilde;o (O   CONGRESSO m&eacute;dico internacional de Paris &#91;1866&#93;). Em outro artigo, de 1868, tamb&eacute;m da   GMB, sob o pretexto de condenar o ritual da leitura das mem&oacute;rias hist&oacute;ricas   anuais na abertura dos anos letivos, que culminava com sugest&otilde;es de   aprimoramento da forma&ccedil;&atilde;o e da regula&ccedil;&atilde;o da profiss&atilde;o m&eacute;dica, de pouco alcance   no interior da pr&oacute;pria corpora&ccedil;&atilde;o e na resolutividade do governo imperial,   faz-se uma en&eacute;rgica condena&ccedil;&atilde;o &agrave; interven&ccedil;&atilde;o estatal nas pol&iacute;ticas de   funcionamento das faculdades de medicina, marcada, por exemplo, pelo   favoritismo que impunha no ingresso ao ensino m&eacute;dico (sem atendimento &agrave;s   prerrogativas legais), amea&ccedil;ando o controle m&eacute;dico sobre a forma&ccedil;&atilde;o   profissional (A PROP&Oacute;SITO   das mem&oacute;rias hist&oacute;ricas das faculdades de medicina do Imp&eacute;rio em 1866 &#91;1868&#93;). </font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Nesse breve quadro,   sobressai-se a luta pela preserva&ccedil;&atilde;o de identidade profissional que se queria   construir e fortalecer num pa&iacute;s onde at&eacute; o s&eacute;culo XVIII o m&eacute;dico n&atilde;o desfrutava   de legitimidade social, sendo preterido em rela&ccedil;&atilde;o aos curandeiros (COSTA,   1999). No entanto, a   atitude queixosa dos m&eacute;dicos frente ao Estado descortinava o que come&ccedil;ava a se   configurar como direito de classe, investido de interesses pela defesa da   sociedade, organizados institucionalmente pelas faculdades de medicina, mas   impulsionados pela cria&ccedil;&atilde;o da SMRJ, algumas d&eacute;cadas antes, quando os m&eacute;dicos   v&atilde;o pouco a pouco se imiscuir nas decis&otilde;es relativas &agrave; constitui&ccedil;&atilde;o de uma   medicina social no pa&iacute;s. </font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Por outro lado, no interior da   profiss&atilde;o, ainda fr&aacute;gil na sua organiza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica, uma s&eacute;rie de manobras   desejava produzir o esp&iacute;rito de corpora&ccedil;&atilde;o.<a href="#_edn2" name="_ednref2" title=""><sup>2 </sup></a>Constru&iacute;ram-se nesse per&iacute;odo agremia&ccedil;&otilde;es - como a Sociedade de Sciencias   M&eacute;dicas (1866) - com as quais se pretendia fortalecer os la&ccedil;os de solidariedade   pessoal e profissional, atrav&eacute;s da difus&atilde;o de c&oacute;digos de &eacute;tica e da cria&ccedil;&atilde;o de   sociedades de benefic&ecirc;ncia m&uacute;tua. Afirmava-se   que a medicina deveria ser marcada pela solidariedade<a href="#_edn3" name="_ednref3" title=""><sup>3</sup></a> (m&eacute;dicos, por exemplo, n&atilde;o deveriam cobrar honor&aacute;rios quando seus pacientes   fossem seus colegas e/ou familiares destes). Estabelecia ainda as quest&otilde;es   relativas &agrave; regula&ccedil;&atilde;o financeira da profiss&atilde;o, tanto na rela&ccedil;&atilde;o entre m&eacute;dico e   sua clientela, quanto da rela&ccedil;&atilde;o entre os m&eacute;dicos. Em suma, a rela&ccedil;&atilde;o da   medicina com os indiv&iacute;duos, com a sociedade e com os pares come&ccedil;ava a fazer   parte da agenda pol&iacute;tica dos m&eacute;dicos, a fim de impulsionar sua capacidade de   interven&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica na sociedade.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Externamente,   desenvolveu-se uma verdadeira cruzada contra o charlatanismo, de modo a   produzir a conquista do prest&iacute;gio profissional da medicina que se constitu&iacute;a   dentro da l&oacute;gica cient&iacute;fica novecentista: percorrendo a especificidade da   doen&ccedil;a para garantir-lhes os meios adequados de combate avantajava-se, por   conseguinte, o reconhecimento social ainda t&iacute;mido acerca do saber m&eacute;dico. <i>O     medical act</i>, dispositivo jur&iacute;dico institu&iacute;do a partir de 1858 na   Inglaterra, destinado a regular a educa&ccedil;&atilde;o m&eacute;dica, bem como o exerc&iacute;cio da   profiss&atilde;o, havia acrescido tamb&eacute;m a publica&ccedil;&atilde;o compuls&oacute;ria e ampla dos   "facultativos diplomados", o que visava &agrave; exposi&ccedil;&atilde;o dos que praticavam a   medicina sem o aval da corpora&ccedil;&atilde;o (LIBERDADE   PROFISSIONAL,1866).</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Ainda como t&aacute;tica   dessa campanha anticharlatanismo, a GMB publicou, em 1867, o C&oacute;digo de &Eacute;tica   M&eacute;dica aprovado pela Associa&ccedil;&atilde;o M&eacute;dica Americana, que convocava os m&eacute;dicos para   o compromisso com o fortalecimento da categoria, preconizando o respeito &agrave;   autoridade e &agrave; tradi&ccedil;&atilde;o m&eacute;dica, bem como ao corporativismo. Al&eacute;m disso, o   documento explicitava os riscos das pr&aacute;ticas codificadas como charlat&atilde;s -   sobretudo a prescri&ccedil;&atilde;o de f&aacute;rmacos secretos e a aus&ecirc;ncia de habilita&ccedil;&atilde;o formal   para o exerc&iacute;cio da medicina - para a sa&uacute;de da popula&ccedil;&atilde;o (NECESSIDADE DE cria&ccedil;&atilde;o de uma   associa&ccedil;&atilde;o m&eacute;dica em nossa prov&iacute;ncia: sua utilidade e seus fins &#91;1867&#93;). </font></p>     <p><font face="verdana" size="2">A partir da segunda   metade do s&eacute;culo XIX, as institui&ccedil;&otilde;es de forma&ccedil;&atilde;o m&eacute;dica no pa&iacute;s s&atilde;o parte de   um movimento mais amplo de constitui&ccedil;&atilde;o de uma elite intelectual que pudesse   construir esse projeto de na&ccedil;&atilde;o. As institui&ccedil;&otilde;es que v&atilde;o se constituir no   Brasil do s&eacute;culo XIX - os museus de ci&ecirc;ncia natural, as escolas de medicina e   de direito - deveriam criar uma <i>intelligentsia</i> robusta e comprometida   com os interesses sociais. Mais ainda, deveriam criar os subs&iacute;dios discursivos   que fizessem coadunar os interesses do liberalismo com a necessidade de   justificar a profunda estratifica&ccedil;&atilde;o social, centralizados no debate sobre a   condi&ccedil;&atilde;o miscigenada da popula&ccedil;&atilde;o brasileira (SCHWARCZ, 1993).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="3"><b>3. ESTADO, MEDICINA E FAM&Iacute;LIA PATRIARCAL</b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Apesar das reivindica&ccedil;&otilde;es de maior   reconhecimento que a corpora&ccedil;&atilde;o m&eacute;dica dirigia ao Estado, a institucionaliza&ccedil;&atilde;o   do saber m&eacute;dico no Brasil n&atilde;o se deu apenas por uma rela&ccedil;&atilde;o de antagonismo em   face aos interesses estatais. Houve tamb&eacute;m um progressivo alinhamento de seus   interesses, o que, conforme j&aacute; assinalamos, pode ser localizado na necessidade   de normaliza&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o citadino e da popula&ccedil;&atilde;o, empreendida pela difus&atilde;o da medicina   social (MACHADO et al., 1978). No entanto, para que esse projeto pudesse ser   levado a cabo, seria necess&aacute;ria uma maior intromiss&atilde;o estatal na regula&ccedil;&atilde;o dos   indiv&iacute;duos, bem como uma reestrutura&ccedil;&atilde;o dos pr&oacute;prios mecanismos de controle da   ordem social.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Esta empreitada n&atilde;o seria f&aacute;cil, j&aacute;   que a pol&iacute;tica colonial lhe havia criado alguns obst&aacute;culos. As cidades foram   negligenciadas pelo poder de Portugal at&eacute; o s&eacute;culo XVIII, a quem interessava   fundamentalmente a transfer&ecirc;ncia de riquezas da col&ocirc;nia para seu territ&oacute;rio, o   que fomentou uma crescente insatisfa&ccedil;&atilde;o diante do caos social e da usurpa&ccedil;&atilde;o   econ&ocirc;mica da metr&oacute;pole, ampliando a ocorr&ecirc;ncia de tens&otilde;es econ&ocirc;micas e   pol&iacute;ticas. A vinda da fam&iacute;lia real acabou por transformar a paisagem urbana,   sobretudo a do Rio de Janeiro, j&aacute; que o aumento expressivo do contingente   populacional acabou intensificando os j&aacute; graves problemas sociais e higi&ecirc;nicos   ali existentes (MACHADO et al., 1978).</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Tornou-se urgente a cria&ccedil;&atilde;o de outros   mecanismos que pudessem apaziguar os &acirc;nimos pol&iacute;ticos, para que um processo de   medicaliza&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o p&uacute;blico pudesse ser alcan&ccedil;ado. &Eacute; nesse cen&aacute;rio que a   medicina vai desempenhar uma importante media&ccedil;&atilde;o na regula&ccedil;&atilde;o individual e   social por parte do Estado, o que aconteceu por sua paulatina inger&ecirc;ncia na   fam&iacute;lia. A fim de destacar alguns elementos importantes dessa transforma&ccedil;&atilde;o,   serviremo-nos diretamente da discuss&atilde;o que Costa (1999) promoveu acerca do   importante papel que a medicina desempenhou na media&ccedil;&atilde;o entre os interesses do   Estado e a pulveriza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica da l&oacute;gica familiar patriarcal, na qual   reverbera muito da an&aacute;lise empreendida por Gilberto Freyre, em 1933, acerca da   forma&ccedil;&atilde;o social brasileira.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">No processo de reordenamento social   das pol&iacute;ticas empreendidas pelo Estado brasileiro, a fam&iacute;lia patriarcal   representava um foco importante de resist&ecirc;ncia, o que era de se esperar.   Durante os tr&ecirc;s s&eacute;culos de coloniza&ccedil;&atilde;o, apesar de submetida aos interesses da   metr&oacute;pole, a fam&iacute;lia latifundi&aacute;ria acabou por configurar a ordem social e   econ&ocirc;mica de acordo com suas conveni&ecirc;ncias. Essa primazia pol&iacute;tica da   institui&ccedil;&atilde;o familiar latifundi&aacute;ria sobre o meio pode ser entendida a partir da   pol&iacute;tica portuguesa de coloniza&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s, que deixou a cargo da iniciativa   individual dos colonos a tarefa de povoamento. Desta forma, essa tarefa os   converteu em propriet&aacute;rios, n&atilde;o apenas de seus lotes, mas do espa&ccedil;o social. Na   l&oacute;gica da fam&iacute;lia colonial patriarcal, o privado era soberano, o que se   explicitava inclusive na ocupa&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o p&uacute;blico: era a casa que definia a   rua. Al&eacute;m disso, o patriarca latifundi&aacute;rio exercia forte controle pol&iacute;tico   sobre o meio social, constru&iacute;do a partir do fortalecimento de sua rede de   apoio, que consistia n&atilde;o s&oacute; nos membros consangu&iacute;neos, mas tamb&eacute;m de afilhados,   compadres e agregados que se voltavam para defender a fam&iacute;lia de seu protetor   atrav&eacute;s da defesa do latif&uacute;ndio.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">A manuten&ccedil;&atilde;o da hegemonia pol&iacute;tica do   latifundi&aacute;rio dependia, ent&atilde;o, da coes&atilde;o de sua fam&iacute;lia. Ainda de acordo com os   argumentos de Costa (1999), encontramos a especifica&ccedil;&atilde;o de alguns mecanismos   que serviam a essa finalidade. O primeiro deles era o que o autor denominou de   "autorrefer&ecirc;ncia" e se manifestava na tend&ecirc;ncia em orientar a conduta dos   membros da fam&iacute;lia exclusivamente em fun&ccedil;&atilde;o dos interesses desta, o que representaria   uma dificuldade para o Estado, na medida em que o sentimento familiar estava   acima de todos os outros. O segundo mecanismo era a centralidade da figura do   pai no governo da fam&iacute;lia, de quem os demais membros eram inteiramente   dependentes, o que representaria outra dificuldade no caminho do poder estatal   na assun&ccedil;&atilde;o dessa tutela.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Como o poder, at&eacute; o come&ccedil;o do s&eacute;culo   XIX, estava repartido na cartografia do pa&iacute;s entre litoral e zona rural, sendo   o primeiro o territ&oacute;rio pol&iacute;tico da administra&ccedil;&atilde;o, e o segundo, o dom&iacute;nio das   fam&iacute;lias oligarcas, as tens&otilde;es eram relativamente acomodadas ou se resolviam a   partir do controle jur&iacute;dico-punitivo da metr&oacute;pole. No entanto, a partir do   adensamento das cidades, as tens&otilde;es ficaram mais evidentes. Diante desse cen&aacute;rio,   era de se esperar que o projeto de higieniza&ccedil;&atilde;o das cidades sofresse   obst&aacute;culos, muito por uma resist&ecirc;ncia deliberada do poder patriarcal, mas   tamb&eacute;m pela dificuldade de modificar comportamentos arraigados numa tradi&ccedil;&atilde;o   muito distinta da que estava sendo proposta.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Tornava-se necess&aacute;rio, ent&atilde;o, que   novas formas de regula&ccedil;&atilde;o pudessem dispersar o poder familiar, criando novas   linhas de for&ccedil;a na qual uma nova forma de controle dos indiv&iacute;duos e da produ&ccedil;&atilde;o   de riquezas pudesse se fazer. A fam&iacute;lia deveria ser posta a servi&ccedil;o de um   projeto de na&ccedil;&atilde;o, mas esse objetivo s&oacute; poderia se realizar a partir de um   agenciamento pol&iacute;tico de seus membros, de modo a produzir uma sedu&ccedil;&atilde;o para os   ganhos da ades&atilde;o ao interesse nacional. &Eacute; nesse cen&aacute;rio que tem lugar a divis&atilde;o   do poder no interior daquela institui&ccedil;&atilde;o, forjada num lento e inst&aacute;vel jogo de   antagonismos, por um programa de higiene familiar, de linhas inst&aacute;veis,   remanej&aacute;veis e que serviu para conjurar a domin&acirc;ncia que a institui&ccedil;&atilde;o familiar   exercia no espa&ccedil;o social. Rompendo, ent&atilde;o, com uma l&oacute;gica jur&iacute;dico-punitiva, a   medicina vai privilegiar nas suas interven&ccedil;&otilde;es uma abordagem da fam&iacute;lia de modo   a seduzi-la para o projeto da higieniza&ccedil;&atilde;o tanto do &acirc;mbito privado quanto   p&uacute;blico.&nbsp; </font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Alguns estudos sobre a fam&iacute;lia, a   partir da d&eacute;cada de 1980, comentaram a an&aacute;lise empreendida por Costa (1999),   ora para admitir suas contribui&ccedil;&otilde;es para pensar a constru&ccedil;&atilde;o da fam&iacute;lia   burguesa no Brasil pela media&ccedil;&atilde;o da ordem m&eacute;dica, ora para critic&aacute;-lo por sua   inscri&ccedil;&atilde;o na tradi&ccedil;&atilde;o de pensamento que tomou a fam&iacute;lia patriarcal como modelo   de fam&iacute;lia colonial (ALMEIDA, 2002; TEYURA, 2000). Interessa-nos comentar   especialmente essa cr&iacute;tica, pois, apesar de n&atilde;o se constituir como uma hist&oacute;ria   da fam&iacute;lia brasileira, a presente tese adotou para algumas an&aacute;lises do discurso   m&eacute;dico sobre o casamento o pressuposto, extra&iacute;do de Costa (1999), de que para   que se pudesse levar adiante o processo de higieniza&ccedil;&atilde;o das fam&iacute;lias era   necess&aacute;rio desestabilizar a l&oacute;gica familiar colonial, na qual n&atilde;o se pode   desprezar a difus&atilde;o dos valores patriarcais, herdados da configura&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica   das monoculturas escravagistas latifundi&aacute;rias.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">Vainfas (1989) organiza as cr&iacute;ticas<a href="#_edn4" name="_ednref4" title=""><sup>4</sup></a> &agrave; tese do modelo patriarcal como estruturante da fam&iacute;lia brasileira em dois   eixos. No primeiro, est&atilde;o as cr&iacute;ticas destinadas n&atilde;o a contestar a exist&ecirc;ncia   da fam&iacute;lia patriarcal, mas ao seu teor generalizante, subsidiadas por estudos   demogr&aacute;ficos que encontraram em algumas regi&otilde;es do pa&iacute;s uma preval&ecirc;ncia   minorit&aacute;ria dessa configura&ccedil;&atilde;o familiar, como em S&atilde;o Paulo, por exemplo; al&eacute;m   disso, o nascimento da fam&iacute;lia nuclear teria se dado, sobretudo na Regi&atilde;o   Sudeste, bem antes das transforma&ccedil;&otilde;es nas classes burguesas do s&eacute;culo XIX. O   outro eixo das cr&iacute;ticas se refere &agrave; sujei&ccedil;&atilde;o da mulher ao poder masculino na   fam&iacute;lia patriarcal, pois apesar de ser ineg&aacute;vel, a opress&atilde;o da mulher no Brasil   colonial deveria ser matizada pela exist&ecirc;ncia de subvers&otilde;es a essas rela&ccedil;&otilde;es   assim&eacute;tricas, bem como &agrave; presen&ccedil;a de mulheres como chefes de fam&iacute;lia nas   classes populares.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">A essas cr&iacute;ticas, Vainfas (1989) reage   afirmando que o pensamento social brasileiro n&atilde;o justap&ocirc;s fam&iacute;lia patriarcal e   fam&iacute;lia extensa, o que teria permitido entrever outras constela&ccedil;&otilde;es familiares,   mas teria definido como interesse dos c&acirc;nones as rela&ccedil;&otilde;es de poder e n&atilde;o as   configura&ccedil;&otilde;es de coabita&ccedil;&atilde;o familiares. Coerente com esse ponto de vista,   localizamos em Freyre, por exemplo, n&atilde;o uma nega&ccedil;&atilde;o de que existiam outras   configura&ccedil;&otilde;es familiares, mas que a fam&iacute;lia patriarcal era aquela em torno da   qual estava organizada a base de produ&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica da col&ocirc;nia - quer dizer, o   latif&uacute;ndio escravagista da monocultura, &ecirc;nfase justificada pelo interesse de   p&ocirc;r em evid&ecirc;ncia os mecanismos de constitui&ccedil;&atilde;o das verticalidades das rela&ccedil;&otilde;es   sociais estabelecidas entre senhores de engenho e seus subordinados. Vainfas   (1989) assinala ainda que n&atilde;o se pode subjugar o poder de penetra&ccedil;&atilde;o dos   valores patriarcais nas fam&iacute;lias que apresentavam conforma&ccedil;&otilde;es alternativas.   Estendendo seu argumento para a realidade europeia, o autor nos lembra que o   modelo mon&aacute;rquico da fam&iacute;lia est&aacute; na genealogia da modernidade, na qual aos   poderes religiosos e reais interessavam refor&ccedil;ar a fam&iacute;lia conjugal, mas desde   que estivesse centralizado na figura do patriarca.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Feita essa ressalva, vale destacar que   o conjunto de argumentos de Costa (1999), brevemente elencados nesta se&ccedil;&atilde;o,   permite justificar, pelo menos parcialmente, o interesse em analisar como a   medicina, desde as primeiras d&eacute;cadas de sua institucionaliza&ccedil;&atilde;o no pa&iacute;s, na   primeira metade do s&eacute;culo XIX, investiu em alguns temas da esfera familiar,   dentre eles o casamento e o cuidado com a inf&acirc;ncia, sempre abordados por uma   perspectiva higienista. Em particular, a conduta sexual foi, desde esse   per&iacute;odo, um importante alvo da higieniza&ccedil;&atilde;o das fam&iacute;lias e de paulatina   regula&ccedil;&atilde;o dos indiv&iacute;duos e da sociedade.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">A normaliza&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o urbano, a   reordena&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o dom&eacute;stico e escolar, a preocupa&ccedil;&atilde;o com a no&ccedil;&atilde;o de   "popula&ccedil;&atilde;o", a emerg&ecirc;ncia de novas formas de pedagogia que produzissem corpos   adestrados e robustos, homens polidos, civilizados e autoculpabilizados e a   regula&ccedil;&atilde;o higi&ecirc;nica da rela&ccedil;&atilde;o conjugal e da rela&ccedil;&atilde;o com os filhos foram alguns   dos componentes desse quadro que nos tece Costa (1999) sobre a medicaliza&ccedil;&atilde;o da   fam&iacute;lia. Com efeito, tais componentes fizeram do sexo, no Brasil do s&eacute;culo XIX,   uma verdadeira engrenagem pol&iacute;tica, que funcionava como "arma de prest&iacute;gio,   vingan&ccedil;a e puni&ccedil;&atilde;o", tornando a fam&iacute;lia burguesa uma "filial da &lsquo;pol&iacute;cia   m&eacute;dica&rsquo;" (COSTA, 1999, p. 15).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="3"><b>4. A DEFESA DOS CASAMENTOS PELO PENSAMENTO HIGI&Ecirc;NICO NOVECENTISTA</b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Na primeira metade do s&eacute;culo XIX, a   medicina enfatizava o casamento como um rem&eacute;dio para diversos males individuais   e sociais. A campanha m&eacute;dica dirigida a esse alvo est&aacute; muito bem retratada na   tese de Luiz Vianna D&rsquo;Almeida Valle, de 1847. A puberdade aparece como uma fase   que indicaria o rumo "natural" que a mulher deveria tomar, qual seja, o de   unir-se ao homem para perpetuar a esp&eacute;cie, sendo o casamento a forma mais   leg&iacute;tima de coroamento desse des&iacute;gnio. Nesse sentido, o celibato, a contin&ecirc;ncia   e a esterilidade seriam situa&ccedil;&otilde;es conden&aacute;veis, prejudiciais que seriam &agrave; sa&uacute;de   e &agrave; longevidade. Mas a medicina n&atilde;o vai defender o mero acasalamento como   pr&aacute;tica reprodutiva. &Eacute; necess&aacute;rio inseri-la na ordem jur&iacute;dica do casamento, a   fim de preservar a fam&iacute;lia no cumprimento de sua fun&ccedil;&atilde;o de fazer crescer, com   sa&uacute;de e com educa&ccedil;&atilde;o, a popula&ccedil;&atilde;o. Era preciso civilizar o Brasil, a partir da   l&oacute;gica m&eacute;dica emergente. </font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Uma invers&atilde;o importante em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;   moral crist&atilde; aparece na tese de Valle em rela&ccedil;&atilde;o ao casamento: agora,   tratava-se de afirmar sua superioridade em rela&ccedil;&atilde;o ao celibato, opini&atilde;o que   havia levado muitos &agrave;s malhas da Inquisi&ccedil;&atilde;o, por contrariar a ideia de que o   celibato eclesi&aacute;stico era o estado eticamente superior ao casamento. O argumento   m&eacute;dico estava apoiado pelo ideal de longevidade, n&atilde;o de ascese espiritual. </font></p>     <p><font face="verdana" size="2">O casamento monog&acirc;mico apresentaria   algumas vantagens que o tornariam superior ao estado celibat&aacute;rio ou mesmo &agrave;   poligenia: possibilidade de la&ccedil;os de solidariedade e de cuidado m&uacute;tuos; a   satisfa&ccedil;&atilde;o de desejos sexuais, garantindo o usufruto de prazer comodamente   assegurado pela posse, sem danos associados a cont&aacute;gio ven&eacute;reo; como garantia   de educa&ccedil;&atilde;o dos filhos; como condi&ccedil;&atilde;o segura de crescimento populacional.   Dedicando-se um ao outro e &agrave; educa&ccedil;&atilde;o dos filhos, o casal monog&acirc;mico estaria a   salvo dos preju&iacute;zos da poligenia relativos ao crescimento da popula&ccedil;&atilde;o: um   homem com v&aacute;rias mulheres n&atilde;o seria capaz de dominar o ato da gera&ccedil;&atilde;o, no que   dizia respeito ao poder de propaga&ccedil;&atilde;o do seu sexo, enfraquecida que era a   propor&ccedil;&atilde;o de sua contribui&ccedil;&atilde;o na fecunda&ccedil;&atilde;o. O efeito disso seria, com a   gera&ccedil;&atilde;o de mais mulheres do que homens, a perpetua&ccedil;&atilde;o da poligenia. Esse   curioso racioc&iacute;nio, baseado nos conhecimentos sobre hereditariedade e embriologia   da &eacute;poca, leva &agrave; afirma&ccedil;&atilde;o de que a monogamia era um destino natural da   esp&eacute;cie. Estava esbo&ccedil;ado o programa que a medicina levaria a cabo em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;   fam&iacute;lia ao longo das d&eacute;cadas seguintes. </font></p>     <p><font face="verdana" size="2">As prescri&ccedil;&otilde;es higi&ecirc;nicas quanto ao   casamento come&ccedil;am a ser lan&ccedil;adas desde esse momento. Valle (1847) recomendava   que se observasse a idade ideal para o casamento, tradicionalmente fixada para   os   homens entre 15 e 16 anos, e para as mulheres, entre 12 e 13 anos. Ele afirmava   que mesmo sendo a   puberdade um importante marcador, j&aacute; que ela indicaria a prontid&atilde;o do organismo   para a atividade procriativa, seria necess&aacute;rio aguardar algum tempo para   favorecer o amadurecimento f&iacute;sico e moral e, com isso, evitar n&atilde;o s&oacute; danos   constitucionais da prole, como tamb&eacute;m permitir que os jovens, em especial as   jovens, tivessem tempo para se preparar para o exerc&iacute;cio da maternidade. A   recomenda&ccedil;&atilde;o et&aacute;ria da medicina para o casamento fixava-se em 20 anos para as   mulheres e 25 anos para os homens. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">Com isso alfinetava-se o costume de   ent&atilde;o, de produzir casamentos das p&uacute;beres por causa do dote a ser recebido ou   por outros interesses do patriarca. Uma cr&iacute;tica contundente &eacute; dirigida ao   sacrif&iacute;cio das mulheres submetidas a casamentos vivenciados com repugn&acirc;ncia   para salvaguardar os interesses familiares. N&atilde;o seria poss&iacute;vel gerar popula&ccedil;&atilde;o   saud&aacute;vel num contexto como esse, destitu&iacute;do das condi&ccedil;&otilde;es que a higiene,   insuflada pela atmosfera do amor rom&acirc;ntico (COSTA, 1998) na qual o   individualismo e sensorialismo se faziam marcantes, julgava importantes para a   consolida&ccedil;&atilde;o da fam&iacute;lia medicalizada. Somente um casamento no qual o amor   f&iacute;sico, as afinidades morais e a presen&ccedil;a do sentimento amoroso estivessem   presentes poderia ser capaz de criar o ambiente prop&iacute;cio &agrave; crian&ccedil;a higienizada   e bem-educada. </font></p>     <p><font face="verdana" size="2">O saber m&eacute;dico, ao defender as jovens,   portanto, acaba por produzir fissuras no discurso do patriarca, que deveria ser   o &uacute;nico a ditar as regras, efeito oportuno quando se tratava de instituir uma   nova organiza&ccedil;&atilde;o familiar, mais afeita &agrave; regula&ccedil;&atilde;o higi&ecirc;nica. A prescri&ccedil;&atilde;o da   idade prop&iacute;cia ao casamento tem, nesse momento, um alvo certo: a figura   carrancuda do patriarca, senhor de seus filhos e de suas mulheres. Aparecera a&iacute;   uma cr&iacute;tica contundente aos casamentos realizados segundo a l&oacute;gica da alian&ccedil;a,   submetida ao crivo das conveni&ecirc;ncias familiares. &Eacute; na desmontagem desse regime   que a medicina vai precisar apostar para conseguir capturar a mulher para seus   prop&oacute;sitos pol&iacute;ticos de normaliza&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o familiar.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Outra condi&ccedil;&atilde;o que contrariava a   prescri&ccedil;&atilde;o m&eacute;dica ao casamento eram as deformidades f&iacute;sicas que, seja pelas   dificuldades impostas ao parto, seja pela transmiss&atilde;o heredit&aacute;ria - uma   preocupa&ccedil;&atilde;o presente, portanto, desde os primeiros momentos institucionais da   medicina brasileira -, deveriam ser evitadas. Um conjunto de doen&ccedil;as foi   estabelecido como raz&atilde;o suficiente para a contraindica&ccedil;&atilde;o a determinados   casamentos. Era o caso, por exemplo, de les&otilde;es dos &oacute;rg&atilde;os de reprodu&ccedil;&atilde;o;   problemas card&iacute;acos, t&iacute;sica pulmonar, inflama&ccedil;&otilde;es viscerais. Interessante que a   epilepsia nas mulheres - contrariamente ao homem epil&eacute;ptico que, ainda que de   posse de oportunidades sexuais, se mantinha normalmente refrat&aacute;rio &agrave; cura - n&atilde;o   era entendida como necessariamente um obst&aacute;culo ao casamento, pois ela podia   ser curada em muitos casos, j&aacute; que era entendida como efeito da contin&ecirc;ncia,   intensificada numa constitui&ccedil;&atilde;o fr&aacute;gil do sistema nervoso, que seria a da   mulher. Uma vez suspensa a priva&ccedil;&atilde;o sexual, atribui&ccedil;&atilde;o causal importante dessa   doen&ccedil;a, a cura poderia advir. Os males nervosos e/ou mentais tamb&eacute;m figuram   entre essas causas: mania, sonambulismo e melancolia, como males   contraindicados ao casamento. </font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Nessas prescri&ccedil;&otilde;es, aparece um apelo   expl&iacute;cito aos legisladores para que avalizassem as opini&otilde;es e contraindica&ccedil;&otilde;es   m&eacute;dicas discutidas h&aacute; pouco. Ou seja, a medicina j&aacute; clamava, na primeira metade   do s&eacute;culo XIX, para que houvesse uma regula&ccedil;&atilde;o jur&iacute;dica do casamento, amparada   pelos preceitos higi&ecirc;nicos. Foram tamb&eacute;m indicadas as condi&ccedil;&otilde;es que a medicina   legal poderia arbitrar em favor da anula&ccedil;&atilde;o dos casamentos. A aliena&ccedil;&atilde;o mental,   o erro de pessoa (identidade civil e/ou sexual) e a impot&ecirc;ncia f&iacute;sica eram os   principais motivos que habilitaria um m&eacute;dico a subsidiar a anula&ccedil;&atilde;o de um   casamento. Apesar de j&aacute; estar esbo&ccedil;ada a ideia de que o amor f&iacute;sico era uma   prerrogativa importante para um casamento feliz e uma prole saud&aacute;vel, n&atilde;o havia   como instituir sua aus&ecirc;ncia como uma causa de nulidade jur&iacute;dica. O autor chega   a afirmar, por exemplo, que a mulher poderia se manter num casamento, mesmo sem   prazer ou mesmo com repugn&acirc;ncia sexual, pois, do ponto de vista da gera&ccedil;&atilde;o,   esses sentimentos n&atilde;o criavam obst&aacute;culo f&iacute;sico &agrave; fun&ccedil;&atilde;o procriativa, raz&atilde;o pela   qual estas n&atilde;o seriam queixas leg&iacute;timas para a anula&ccedil;&atilde;o de uma uni&atilde;o conjugal.   Seriam necess&aacute;rios novos recursos para que o tema da satisfa&ccedil;&atilde;o sexual pudesse   entrar nas t&aacute;ticas de fabrica&ccedil;&atilde;o de um novo modelo de fam&iacute;lia, regulado pelo   intenso investimento afetivo (ARI&Egrave;S, 1973) nas rela&ccedil;&otilde;es entre pais e filhos e   entre c&ocirc;njuges, paulatinamente conquistados por um movimento crescente de   intimiza&ccedil;&atilde;o do conv&iacute;vio familiar, o que vai acontecer no Brasil a partir do   s&eacute;culo XIX, demanda hist&oacute;rica que teve o saber m&eacute;dico como importante mediador. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="3"><b>5. CELIBAT&Aacute;RIOS E LIBERTINOS: AMEA&Ccedil;A &Agrave; FAM&Iacute;LIA, &Agrave; P&Aacute;TRIA E &Agrave; SOCIEDADE</b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Entre 1869 e 1870, o   celibato no homem &eacute; localizado como tema de teses m&eacute;dicas (BARROS, 1869;   ARA&Uacute;JO, 1870; e MARQUES, 1870) .   Era considerado um estado perigoso &agrave; sa&uacute;de individual e da na&ccedil;&atilde;o, uma vez que   desafiava a inexorabilidade do "instinto" de reprodu&ccedil;&atilde;o, que se enuncia a&iacute; como   uma for&ccedil;a natural irrefre&aacute;vel que cabe ao homem dominar, submetendo-o aos   interesses sociais que, n&atilde;o raro, aparecem vinculados &agrave;s leis divinas. Nem o   trabalho excessivo, nem uma conten&ccedil;&atilde;o espiritual vigorosa seriam, no entanto,   capazes de aniquilar a for&ccedil;a instintual, que, travestindo-se de amor, deveria   chegar aos fins prescritos pela ordem natural, que seria a reprodu&ccedil;&atilde;o. A   satisfa&ccedil;&atilde;o leg&iacute;tima do instinto s&oacute; poderia ser alcan&ccedil;ada na uni&atilde;o de um homem e   uma mulher, perante a institui&ccedil;&atilde;o do casamento, pois apenas ela poderia   viabilizar uma compatibilidade entre a ordem instintual e a ordem moral. Por   sua vez, o celibato seria a causa de tormentos e desgra&ccedil;as individuais e   sociais. </font></p>     <p><font face="verdana" size="2">No caso dos homens, o   celibato enfatizado pelos m&eacute;dicos n&atilde;o equivalia necessariamente &agrave; abstin&ecirc;ncia   sexual. Quando era este o caso, argumentava-se que o desuso da fun&ccedil;&atilde;o tornaria   o corpo fr&aacute;gil, j&aacute; que diminuiria os benef&iacute;cios que uma circula&ccedil;&atilde;o sangu&iacute;nea   equilibrada traria ao organismo. Al&eacute;m das perturba&ccedil;&otilde;es som&aacute;ticas, o   celibat&aacute;rio, nesses casos, &eacute; descrito como um indiv&iacute;duo marcado pela melancolia   dos amores contrariados, obsedado por ideias suicidas e pelo v&iacute;cio alcoolista. </font></p>     <p><font face="verdana" size="2">A vida sexual do   celibat&aacute;rio era vinculada &agrave; sodomia e &agrave; masturba&ccedil;&atilde;o, considerados v&iacute;cios   capazes de produzir muitos estragos, mas tamb&eacute;m aos contatos com as   prostitutas, fortemente associadas, como veremos mais adiante, &agrave; s&iacute;filis e aos   efeitos degenerativos que levariam &agrave;s fam&iacute;lias &agrave; destrui&ccedil;&atilde;o. Estava, portanto, fortalecido   o nexo entre celibato masculino e libertinagem, cuja   delimita&ccedil;&atilde;o, na primeira metade do s&eacute;culo XIX, n&atilde;o se fazia t&atilde;o claramente.   Entendida como pr&aacute;tica que desvirtua o homem de seu destino de procria&ccedil;&atilde;o, a   libertinagem se convertia numa aberra&ccedil;&atilde;o gerada pela for&ccedil;a dos instintos,   depreciando o lugar (sublime) do homem na Cria&ccedil;&atilde;o. Neste momento, o discurso   m&eacute;dico se entrela&ccedil;a, sem maiores pudores, ao discurso cat&oacute;lico. </font></p>     <p><font face="verdana" size="2">&Eacute; por essa via que a   figura do celibat&aacute;rio aparece como uma dupla amea&ccedil;a: &agrave; ordem natural e &agrave; ordem   social. Numa tese de 1853, intitulada <i>A     libertinagem e seos perigos relativamente ao physico e moral do homem</i>,   Marinonio de Freitas Britto faz taticamente um elogio &agrave; esp&eacute;cie humana, no qual   sobrev&eacute;m a ideia de que os perigos da libertinagem lhes s&atilde;o ainda mais graves,   uma vez que ela desperdi&ccedil;aria o patrim&ocirc;nio biol&oacute;gico e espiritual que lhe foi   concedido. O celibato era sobretudo "um estado contr&aacute;rio &aacute; virtude, &aacute;   sabedoria, &aacute; gloria, ao patriotismo, trazendo consequ&ecirc;ncias sempre fataes ao   que n&rsquo;elle incorre, &aacute;s famillias e a sociedade"<i> </i>(BRITTO, 1853, p. 4).<i> </i></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">Origem de "todas as   devassid&otilde;es" (BRITTO, 1853, p. 4), o celibat&aacute;rio, com sua conduta sexual   errante, al&eacute;m de atentar contra a lei divina do "crescei e multiplicai", tamb&eacute;m   amea&ccedil;ava a ordem familiar, dissipando a doen&ccedil;a e o adult&eacute;rio nas fam&iacute;lias.   Sobre ele reca&iacute;a a pecha de ser o ve&iacute;culo que levava as impurezas f&iacute;sicas e   morais vindas da prostitui&ccedil;&atilde;o e da boemia para o interior das fam&iacute;lias,   abalando, com isso, a coes&atilde;o familiar e contribuindo para gerar uma   descend&ecirc;ncia fisicamente doente ou moralmente corrompida. O libertino &eacute; ainda   retratado como aquele que, sendo avesso ao sentimento patri&oacute;tico, ao interesse   por uma vida familiar, seria tamb&eacute;m incapaz de sentir-se culpado por seus "crimes contra a natureza,   contra a moral social, e contra a Religi&atilde;o" (BRITTO, 1853, p. 27); em suma, o   libertino seria um perverso, o que o facilmente levaria &agrave; criminalidade A conduta   social diante deles, por sua vez, deveria ser ent&atilde;o pautada pela perspectiva de   que, uma vez representando tantos perigos, o libertino deveria ser apartado do   conv&iacute;vio social: </font></p>     <blockquote>       <p><font face="verdana" size="2">Ningu&eacute;m     desconhece os terr&iacute;veis effeitos da libertinagem, todos os dias os estamos     vendo bem ao vivo: porem n&atilde;o contentes com isso, &eacute; de nossa obriga&ccedil;&atilde;o fazer     aqui uma pintura mais, ou menos, perfeita, conforme a nossa mesquinha     intelligencia, dos abusos a que somos levados por ella e dos males que d&rsquo;destes     nascem para a economia humana. Ao libertino, qualquer que seja sua idade, sexo,     profiss&atilde;o, temperamento, clima, qualquer que seja a esta&ccedil;&atilde;o, nada se apresenta     que seja capaz de commetter as maiores inf&acirc;mias no altar da devassid&atilde;o, n&atilde;o     est&aacute; tamb&eacute;m muito longe dos maiores crimes: o rubor j&aacute; n&atilde;o enrubesce suas faces     l&iacute;vidas pelos effeitos de uma prostitui&ccedil;&atilde;o illimitada a que se tenha entregado:     no delirio em que vive por amor de suas desenfreadas paix&otilde;es, de seos furores e     torpezas se arroja aos delitos mais hediondos, feixa seos encovados olhos &agrave;     prudentes conselhos; a deprava&ccedil;&atilde;o de sua moral, j&aacute; h&aacute; muito, corrompida o leva     ao homic&iacute;dio, quer este seja excitado em sua alma por ci&uacute;me mal entendido, que     n&atilde;o devia sentir, porque tamb&eacute;m n&atilde;o sente as lavras da paix&atilde;o g&ecirc;mea delle; ou     porque assenta para si que se deve vingar da mais insignificante ninharia     (BRITTO, 1853, p. 29).</font></p> </blockquote>     <p><font face="verdana" size="2">Com essa condena&ccedil;&atilde;o ao   celibato dos homens, que resvalava para uma cr&iacute;tica generalizada aos jogos de   prazeres desvinculados do casamento, os m&eacute;dicos acentuavam fortemente o que   deveria ser considerada a conduta ideal de "pai de fam&iacute;lia". Utilizando-se de   uma t&aacute;tica de apontar o antiexemplo e de seus destinos nada felizes,   intencionava-se promover o convencimento de que o casamento era o &uacute;nico lugar   seguro para o usufruto do prazer sexual, pois ali havia a seguran&ccedil;a afetiva,   social e higi&ecirc;nica para que o instinto sexual pudesse alcan&ccedil;ar sua finalidade   &uacute;ltima, que seria a reprodu&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="3"><b>6. CONTINENTES E NINFOMAN&Iacute;ACAS: TRANSBORDAMENTOS DA FIGURA DA ESPOSA</b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2">O celibato das mulheres era tido, no   s&eacute;culo XIX, como uma transgress&atilde;o &agrave;s leis da natureza, que previam a fun&ccedil;&atilde;o da   reprodu&ccedil;&atilde;o como a mais importante entre os seres vivos e estava frequentemente   associado &agrave; contin&ecirc;ncia, por sua ades&atilde;o a regras de reclus&atilde;o religiosa.   Ambiguidade significativa, uma vez que pressupunha que "uma mulher honesta",<a href="#_edn5" name="_ednref5" title=""><sup>5</sup></a> se fosse celibat&aacute;ria, deveria ser continente. De modo contrastante, no homem,   ser celibat&aacute;rio implicava uma rela&ccedil;&atilde;o mais estreita com a "libertinagem". </font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Abrindo fogo contra o celibato   eclesi&aacute;stico professado pelo catolicismo (pondo em d&uacute;vida mesmo sua execu&ccedil;&atilde;o entre   padres e bispos), o saber m&eacute;dico expressava uma tentativa clara de   desestabiliza&ccedil;&atilde;o do poder da Igreja na regula&ccedil;&atilde;o do sexo; o discurso m&eacute;dico se   utilizava do argumento de que fun&ccedil;&otilde;es biol&oacute;gicas n&atilde;o utilizadas geravam toda   sorte de malef&iacute;cios &agrave; sa&uacute;de. Acusava   o Estado de ser omisso diante desse estado de coisas, o que gerava uma perda   para o pa&iacute;s, j&aacute; que a mulher celibat&aacute;ria n&atilde;o poderia contribuir com o trabalho   de reprodu&ccedil;&atilde;o biol&oacute;gica e social. Desde muito cedo, ela vai se oferecer como   defensora das mulheres, pela import&acirc;ncia capital que essas tinham na   reprodu&ccedil;&atilde;o, mas tamb&eacute;m por sua fragilidade na posi&ccedil;&atilde;o social que ocupavam. A   figura da m&atilde;e ser&aacute; gerada a&iacute; como central para a defesa da sa&uacute;de da na&ccedil;&atilde;o. </font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Na tese de Jo&atilde;o Pinheiro de   Lemos (1851), a figura da   mulher celibat&aacute;ria n&atilde;o s&oacute; desafiava as leis da natureza, como as leis sociais,   uma vez que n&atilde;o contribu&iacute;a com a reprodu&ccedil;&atilde;o de capital humano para defender a   na&ccedil;&atilde;o. O desejo sexual aparece como o meio do qual se utilizaria a natureza   para gerar a vida. Sem negar o prazer sexual, mas sem enfatiz&aacute;-lo como condi&ccedil;&atilde;o   fundamental para a uni&atilde;o da mulher ao homem, a medicina o vinculou, habilmente,   como esp&eacute;cie de j&uacute;bilo ao trabalho da procria&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Dois artefatos utilizados para   justificar o parecer m&eacute;dico acerca dos efeitos mal&eacute;ficos do celibato na mulher   residiam na compreens&atilde;o acerca do sistema nervoso. O primeiro dizia respeito ao   destino procriativo da mulher, que estava, sob o dom&iacute;nio da natureza,   encarregada de perpetuar as gera&ccedil;&otilde;es. Na puberdade esse destino se   materializaria, atrav&eacute;s das mudan&ccedil;as corp&oacute;reas e as intensas preocupa&ccedil;&otilde;es   voltadas, como que naturalmente, para o tema do amor: "&eacute; a puberdade que d&aacute; &agrave; mulher o direito de   ter o doce nome de m&atilde;e" (LEMOS, 1851, p. 7). A mulher continente, apartada dos apelos de sua biologia,   que a destinavam &agrave; maternidade e ao casamento, tornar-se-ia fr&aacute;gil, melanc&oacute;lica   e at&eacute; mesmo louca. Dessa perspectiva n&atilde;o haveria salva&ccedil;&atilde;o para a mulher fora da   sua condi&ccedil;&atilde;o de m&atilde;e-esposa. Na tese do referido autor, encontramos:</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>       <p><font face="verdana" size="2">O celibato &eacute; um estado de viol&ecirc;ncia contra os     impulsos e leis da natureza. &Eacute; desfavor&aacute;vel &aacute; conserva&ccedil;&atilde;o da sa&uacute;de; &eacute; a fonte     donde devir&atilde;o-se graves enfermidades, pungentes flagelos, agras dores, cujo     termo s&oacute; p&oacute;de a mulher encontrar n&rsquo;essa uni&atilde;o de vida, n&rsquo;esse estado, em que     duas almas s&atilde;o confundidas, todos os interesses id&ecirc;nticos; em fim n&rsquo;esse pacto     solemne, em que os dois sexos podem satisfazer as suas necessidades naturaes,     de mais se auxiliar&atilde;o reciprocamente &agrave; supportar o pesado jugo do destino por uma     doce permuta&ccedil;&atilde;o de cuidados e socorros - o casamento (LEMOS, 1851, p. 1).</font></p> </blockquote>     <p><font face="verdana" size="2">Al&eacute;m do argumento do   destino reprodutivo, o   celibato produziria na mulher um estado de desorganiza&ccedil;&atilde;o do sistema nervoso e   de toda a economia corporal, de longe muito mais significativa do que no homem.   Condizente com a ambiguidade discutida anteriormente, Lemos (1851) defendia a   tese segundo a qual n&atilde;o era a contin&ecirc;ncia em si, mas o celibato o que mais   influenciava na produ&ccedil;&atilde;o da loucura. Desta forma, mesmo mulheres que n&atilde;o eram   continentes, como as prostitutas, n&atilde;o estariam isentas desse efeito. Sem entrar   no m&eacute;rito cient&iacute;fico dessa tese, &eacute; importante destacar que ela servia de   justificativa para a import&acirc;ncia do ingresso e manuten&ccedil;&atilde;o da mulher na   institui&ccedil;&atilde;o matrimonial, valorizada como espa&ccedil;o de comunh&atilde;o e respeito m&uacute;tuo,   somente no interior do qual a satisfa&ccedil;&atilde;o de "necessidades" naturais poderia ser   leg&iacute;timo. </font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Partindo do argumento de que a sa&uacute;de   seria resultante de um uso equilibrado de todas as fun&ccedil;&otilde;es vitais, o que, se   n&atilde;o cumprido, ocasionaria a atrofia dos &oacute;rg&atilde;os, o autor afirmava que a fun&ccedil;&atilde;o   sexual seria uma exce&ccedil;&atilde;o a essa regra. &Agrave; contin&ecirc;ncia prolongada, a economia do   corpo reagiria com estrondoso barulho, uma vez que a fun&ccedil;&atilde;o sexual se   encontrava em &iacute;ntima liga&ccedil;&atilde;o com o sistema nervoso, cuja constitui&ccedil;&atilde;o seria   mais fr&aacute;gil na mulher. Dessa forma, o &uacute;tero, que teria &iacute;ntima rela&ccedil;&atilde;o com os   demais &oacute;rg&atilde;os, proporcionaria a difus&atilde;o das sensa&ccedil;&otilde;es sexuais por todo o   organismo. Mais especificamente, do ov&aacute;rio irradiariam impulsos nervosos que   chegariam diretamente ao c&eacute;rebro. Como decorr&ecirc;ncia, um conjunto bastante difuso   de sintomas estaria associado &agrave; contin&ecirc;ncia. A fragilidade da apar&ecirc;ncia   virginal, passando pela intumesc&ecirc;ncia ovariana que geraria a ninfomania, at&eacute; a   corrup&ccedil;&atilde;o moral que a excita&ccedil;&atilde;o da sensibilidade produziria na mulher, histeria   e mesmo a loucura, eram efeitos indesej&aacute;veis que a priva&ccedil;&atilde;o do sexo (conjugal)   poderia produzir. Toda a economia comunicaria "os sofrimentos do &uacute;tero" das   virgens, dado por uma estimula&ccedil;&atilde;o sexual n&atilde;o satisfeita, produzindo um   agravamento progressivo: </font></p>     <blockquote>       <p><font face="verdana" size="2">Todos os &oacute;rg&atilde;os tomam parte n&rsquo;esses accessos,     e parece que se empenh&atilde;o em mais claramente exprimir os sofrimentos do &uacute;tero.     Para prova temos a loucura, a monomania que muitas vezes s&atilde;o a termina&ccedil;&atilde;o da     hysteria; temos as m&aacute;s digest&otilde;es; o appetite depravado ou malacia; a     circula&ccedil;&atilde;o, a respira&ccedil;&atilde;o, as secre&ccedil;&otilde;es, em fim toda a economia da mulher &eacute;     doente, quando o &uacute;tero d&aacute; um brado de dor (LEMOS, 1851, p. 15).</font></p> </blockquote>     <p><font face="verdana" size="2">A ninfomania (RIBEIRO,   1842) era entendida como uma afec&ccedil;&atilde;o do sistema nervoso que afetava e era   afetada pelos &oacute;rg&atilde;os genitais. N&atilde;o estava necessariamente vinculada &agrave;   contin&ecirc;ncia, mas poderia ser uma de suas decorr&ecirc;ncias. Mulheres jovens, de   temperamento sangu&iacute;neo, de constitui&ccedil;&atilde;o f&iacute;sica que portava &oacute;rg&atilde;os genitais   muito desenvolvidos e/ou em estado de priva&ccedil;&atilde;o sexual prolongada (mulheres   casadas com "homens fracos", vi&uacute;vas, por exemplo) seriam mais vulner&aacute;veis &agrave;   doen&ccedil;a. Mas a suscetibilidade aumentaria com a hiperexcita&ccedil;&atilde;o dos sentidos   atrav&eacute;s do acesso a leituras, espet&aacute;culos teatrais, acesso &agrave;s belas artes,   m&uacute;sica; com a ociosidade e m&aacute; educa&ccedil;&atilde;o - traduzida por educa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o voltada   para o aprendizado dos pap&eacute;is de m&atilde;e e de esposa -, contrariedades amorosas,   dieta rica em alimentos considerados excitantes (caf&eacute;, chocolate, canela etc.)   e estimula&ccedil;&atilde;o uterina excessiva (desregramentos menstruais; abuso de coito;   prurido genital, afec&ccedil;&otilde;es do &uacute;tero e ov&aacute;rio). </font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Interessante que a   periodiza&ccedil;&atilde;o da ninfomania codificava desde o mais inofensivo sinal de desejo   at&eacute; manifesta&ccedil;&otilde;es de franca mania sexual. A descri&ccedil;&atilde;o dos sintomas exibe um   espectro muito vasto, categorizado em tr&ecirc;s fases: na primeira, aparecem   sintomas como "desejos ins&oacute;litos, por uma linguagem mais animada, brilhantismo   e vivacidade nos olhos, coincidindo com calor no ventre e seios, prurido nos   &oacute;rg&atilde;os sexuaes, e hum corrimento pela vulva, de natureza e quantidades   vari&aacute;veis" (LEMOS, 1851, p. 10). O pudor &eacute; tamb&eacute;m identificado como uma   tentativa ben&eacute;fica de repelir a pregn&acirc;ncia das sensa&ccedil;&otilde;es er&oacute;ticas vivenciadas   pelas jovens. Interessante que a pr&aacute;tica masturbat&oacute;ria &eacute; um sintoma que fica   sugerido, sem, no entanto, chegar a ser enunciado como tal: </font></p>     <blockquote>       <p><font face="verdana" size="2">&#91;...&#93; outras enfim     conquanto entreguem-se a manobras indecentes comtudo envergonh&atilde;o-se outras vezes     e n&atilde;o usando encarar sua deplor&aacute;vel posi&ccedil;&atilde;o, nem implorar soccoro temendo     manifestar sua deshonra, fogem, embrenhao-se nos lugares mais rec&ocirc;ndidos; e     anhelando assim escapar ao seo inimigo, fasem-se ao contrario suas victimas,     deixando-se arrastar pouco a pouco pela perniciosa e louca inclina&ccedil;&atilde;o do seo     esp&iacute;rito (LEMOS, 1851, p. 12). </font></p> </blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">Na segunda fase, a   sensibilidade ficaria mais exaltada, com oscila&ccedil;&otilde;es de humor, grande   voluptuosidade, perturba&ccedil;&atilde;o geral da circula&ccedil;&atilde;o sangu&iacute;nea, interesse obstinado   pelo sexo masculino, secre&ccedil;&otilde;es genitais intensas. Na terceira e mais grave   fase, aus&ecirc;ncia de pudor, emagrecimento, olhos fundos, sintomas hidrof&oacute;bicos,   perda de apetite, oscila&ccedil;&otilde;es violentas de agita&ccedil;&atilde;o e marasmo, mania. O autor   constata: </font></p>     <blockquote>       <p><font face="verdana" size="2">Eis finalmente frustrados     os trabalhos de hum pai incans&aacute;vel! Eis terminada a sorte de huma donzella     virtuosa, costumada a regular sua conducta, seguindo os conselhos de huma m&atilde;i     sabia e prudente! Que he pois a recompensa da virtude, si o del&iacute;rio de hum     momento destroe os cuidados de huma educa&ccedil;&atilde;o longa e penivel? (LEMOS, 1851, p.     14).</font></p> </blockquote>     <p><font face="verdana" size="2">Os perigos da ninfomania e   da contin&ecirc;ncia n&atilde;o estavam apenas circunscritos ao sofrimento individual.   Estavam enunciadas em sua &oacute;rbita a honra familiar e mesmo a moralidade do pa&iacute;s.   A condi&ccedil;&atilde;o er&oacute;tica da mulher, escancarada na ninfomania, era vista como uma   express&atilde;o sexual exacerbada e fora do lugar, pois punha em quest&atilde;o o desejo que   deveria ser regulado a servi&ccedil;o exclusivamente do casamento (e da maternidade).   A mulher continente, por sua vez, era vista como uma afronta &agrave; natureza, posto   que se baseasse numa recusa &agrave; participa&ccedil;&atilde;o no trabalho de reprodu&ccedil;&atilde;o. Figuras   estranhas ao ideal normativo de mulher, raz&atilde;o pela qual era preciso lutar   contra ela. De um lado,   convinha remodelar sua imagem como eternamente casta, para lhe imprimir novos   tra&ccedil;os: a da boa esposa e m&atilde;e, de ancas e peitos fartos, de semblante   acolhedor, amparada pela seguran&ccedil;a oferecida pelo marido, feliz e bem adaptada   aos seus des&iacute;gnios, naturalizados no discurso m&eacute;dico. De outro, era necess&aacute;rio   oferecer &agrave; ninfoman&iacute;aca, essa "doente" do pr&oacute;prio desejo, formas de conten&ccedil;&atilde;o   do seu excesso, pois ela dava visibilidade a uma figura&ccedil;&atilde;o de mulher amea&ccedil;adora   &agrave; gest&atilde;o da vida que deveria organizar nosso projeto de sociedade.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="3"><b>7. CONSIDERA&Ccedil;&Otilde;ES FINAIS</b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Com &ecirc;nfases distintas, o que atravessa   todos esses temas - celibato, contin&ecirc;ncia, libertinagem, ninfomania - &eacute; uma   deprecia&ccedil;&atilde;o de express&otilde;es sexuais que estariam na periferia da institui&ccedil;&atilde;o   matrimonial. Defendendo o casamento e somente aos poucos livrando-se da moral   sexual crist&atilde;, a medicina vai se estabelecendo como aquela que l&aacute; no come&ccedil;o do   s&eacute;culo XX estar&aacute; autorizada a estabelecer as prescri&ccedil;&otilde;es normativas do que se   autointitular&aacute; uma "nova moral sexual", regulada por uma emergente ci&ecirc;ncia - a   "sciencia sexual" (ALBUQUERQUE, 1929).</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">A partir da &ecirc;nfase   higi&ecirc;nica no casamento e do escrut&iacute;nio cr&iacute;tico de condi&ccedil;&otilde;es de exerc&iacute;cio   sexual, estavam apresentados no discurso m&eacute;dico certos par&acirc;metros normativos   que deveriam modelar maridos e esposas capazes de assumir essa institui&ccedil;&atilde;o que   se conformava como a base de sustenta&ccedil;&atilde;o da sociedade. Em paralelo, outra   "campanha" estava sendo gestada: a fabrica&ccedil;&atilde;o da "m&atilde;e higi&ecirc;nica" (COSTA, 1999).   O desvelo com que os m&eacute;dicos se preocupavam da higiene na inf&acirc;ncia permite   vislumbrar a import&acirc;ncia que a educa&ccedil;&atilde;o das mulheres para o exerc&iacute;cio da   maternidade tinha para o projeto de regula&ccedil;&atilde;o higi&ecirc;nica da vida. Ao lado de um   marido que pudesse ser o lugar de coes&atilde;o familiar, a mulher deveria estar   devotada &agrave; gera&ccedil;&atilde;o, &agrave; nutri&ccedil;&atilde;o e &agrave; educa&ccedil;&atilde;o dos filhos. Era esse o seu lugar no   mundo. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="3"><b>REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">A   PROPOSITO das memorias historicas das faculdades de medicina do Imperio em   1866. <i>Gazeta M&eacute;dica da Bahia</i>, v. 2, n. 39, fev. 1868.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5190071&pid=S2178-700X201300020000500001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">A   REFORMA da Faculdade de Medicina. <i>Gazeta Medica da Bahia</i>, v. 21, n. 7,   jan. 1890.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5190073&pid=S2178-700X201300020000500002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">ALBUQUERQUE,   J. <i>Hygiene sexual</i>. Rio de Janeiro: L. Ribeiro, 1929.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5190075&pid=S2178-700X201300020000500003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">ALMEIDA, A. Fam&iacute;lia e hist&oacute;ria: considera&ccedil;&otilde;es metodol&oacute;gicas. In: <strong>SEMIN&Aacute;RIO   FAM&Iacute;LIA E SOCIEDADE NO BRASIL, 2002, S&atilde;o Paulo. <i>Anais</i>... S&atilde;o Paulo: USP/   NEMGE, 2002.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5190077&pid=S2178-700X201300020000500004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></strong></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">ARA&Uacute;JO, L. J. C. <i>Influencia do celibato   sobre a saude do homem</i>. 1870. Tese (Doutorado) - Faculdade de Medicina da   Bahia, Salvador.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5190079&pid=S2178-700X201300020000500005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">ARI&Egrave;S, P. <i>Hist&oacute;ria social da crian&ccedil;a e da   fam&iacute;lia</i>. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara, 1981.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5190081&pid=S2178-700X201300020000500006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">BARROS, F. B. <i>Influencia do celibato sobre   a saude do homem</i>. 1869. Tese (Doutorado) - Faculdade de Medicina da Bahia,   Salvador.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5190083&pid=S2178-700X201300020000500007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">BRASIL.   Decreto   n&ordm; 847 de 11 de outubro de 1890. Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.senado.gov.br" target="_blank">http://www.senado.gov.br</a>. Acesso em: 22 set. 2009.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5190085&pid=S2178-700X201300020000500008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">BRITTO, M. F. <i>A libertinagem e seos perigos relativamente ao   physico e moral do homem</i>. 1853. Tese (Doutorado) - Faculdade de Medicina da   Bahia, Salvador.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5190087&pid=S2178-700X201300020000500009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">_____. <em>Sem fraude nem</em> <em>favor: estudos   sobre o amor rom&acirc;ntico</em>. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5190089&pid=S2178-700X201300020000500010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">_____. <i>Ordem m&eacute;dica e norma familiar</i>. 4. ed.   Rio de Janeiro: Graal, 1999. Publicado originalmente em 1978.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5190091&pid=S2178-700X201300020000500011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">FOUCAULT,   M. <i>S&eacute;curit&eacute;, territoire, population</i>: cours au   Coll&egrave;ge de France. Paris: Seuil/Gallimard, 2004a. Curso do Coll&egrave;ge de   France do ano letivo 1977-1978.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5190093&pid=S2178-700X201300020000500012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">FREYRE,   G. <i>Introdu&ccedil;&atilde;o &agrave; hist&oacute;ria da sociedade     patriarcal no Brasil I</i>: Casa-grande &amp; senzala - forma&ccedil;&atilde;o da fam&iacute;lia   brasileira sob o regime da economia patriarcal. 50. ed. S&atilde;o Paulo: Global,   2005. 1. ed. publicada em 1933.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5190095&pid=S2178-700X201300020000500013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">LEMOS, J. P. <i>Breves considera&ccedil;&otilde;es acerca   do celibato professado pelas mulheres</i>. 1851. Tese (Doutorado) - Faculdade   de Medicina da Bahia, Salvador.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5190097&pid=S2178-700X201300020000500014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">LIBERDADE   profissional. <i>Gazeta     M&eacute;dica da Bahia</i>,   v. 1, n.   5, 10 set. 1866.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5190099&pid=S2178-700X201300020000500015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">MACHADO,   R.; LOUREIRO, A.; LUZ, R.; MURICY, K. <i>Dana&ccedil;&atilde;o da norma</i>: medicina social   e constitui&ccedil;&atilde;o da psiquiatria no Brasil. Rio de Janeiro: Graal, 1978.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5190101&pid=S2178-700X201300020000500016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">MARQUES, S. T. <i>Influencia do celibato   sobre a saude do homem</i>. 1870. Tese (Doutorado) - Faculdade de Medicina da   Bahia, Salvador.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5190103&pid=S2178-700X201300020000500017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">NECESSIDADE   de cria&ccedil;&atilde;o de uma associa&ccedil;&atilde;o medica em nossa prov&iacute;ncia: sua utilidade e seus   fins. <i>Gazeta M&eacute;dica da Bahia</i>, v. 1, n. 14, 24 jan. 1867.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5190105&pid=S2178-700X201300020000500018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">O   NOVO regimen e as reformas do ensino. <i>Gazeta M&eacute;dica da Bahia</i>, v. 21, n.   6, dez. 1889.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5190107&pid=S2178-700X201300020000500019&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">PEREIRA,   P. Discurso: o centenario do ensino medico no Brasil. <i>Gazeta Medica da Bahia</i>,   v. 40, n. 4/5, out./nov. 1908.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5190109&pid=S2178-700X201300020000500020&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">RIBEIRO, A. Araujo. <i>A   nymphomania</i>. 1842. Tese (Douturado) - Faculdade de Medicina do Rio de   Janeiro, Rio de Janeiro.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5190111&pid=S2178-700X201300020000500021&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">SAMARA,   E. <i>A fam&iacute;lia brasileira</i>. S&atilde;o Paulo: Brasiliense, 1983.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5190113&pid=S2178-700X201300020000500022&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">SCHWARCZ, L. M. <i>O espet&aacute;culo das ra&ccedil;as</i>.   S&atilde;o Paulo: Companhia das Letras, 1993.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5190115&pid=S2178-700X201300020000500023&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">SKIDMORE,   T. <i>Preto no branco</i>: ra&ccedil;a e nacionalidade no pensamento brasileiro. 2.   ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5190117&pid=S2178-700X201300020000500024&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">TERUYA, M. T. <i>A   fam&iacute;lia na historiografia brasileira</i>: bases e perspectivas te&oacute;ricas.   Dispon&iacute;vel em: &lt;<a href="http://www.abep.nepo.unicamp.br/docs/anais/pdf" target="_blank">http://www.abep.nepo.unicamp.br/docs/anais/pdf</a> /2000/Todos/A%20 Familia%20na%Historiografia%20Brasileira....pdf&gt;. Acesso   em: 04 fev. 2010.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5190119&pid=S2178-700X201300020000500025&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">VAINFAS,   R. <i>Tr&oacute;pico dos pecados</i>: moral, sexualidade e inquisi&ccedil;&atilde;o no Brasil. Rio   de Janeiro: Campus, 1989.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5190121&pid=S2178-700X201300020000500026&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <p><font face="verdana" size="2">VALLE,   L. V. D&rsquo;A. <i>Mulher e matrimonio</i>: medicamentos considerados. 1847. Tese   (Doutorado) - Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="2">Recebido em: 01/09/2013    <br> </font><font face="verdana" size="2">Aprovado para publica&ccedil;&atilde;o em: 05/10/2013</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="2"><b>NOTAS</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2"><a href="#_ftnref0" name="_ftn1" title="">*</sup></a> Trabalho financiado pela CAPES e pelo CNPq,   atrav&eacute;s de concess&atilde;o de bolsa de doutorado e de doutorado sandwich no exterior   (SWE), respectivamente. Registro ainda meu reconhecimento ao professor Joel   Birman, orientador da tese de doutorado que originou o presente artigo.    <br>   </font><font face="verdana" size="2"><a href="#_ednref1" name="_edn1" title=""></a><a href="#_ednref1">1</a> Tomada inicialmente     no pensamento foucaultiano como uma estrat&eacute;gia disciplinar por excel&ecirc;ncia, a     normaliza&ccedil;&atilde;o, no entanto, sofrer&aacute; uma importante redefini&ccedil;&atilde;o no semin&aacute;rio     "Seguran&ccedil;a, Territ&oacute;rio e Popula&ccedil;&atilde;o", de 1977-1978. A fim de distinguir os     mecanismos de poder que diferenciavam a lei, a disciplina e o "dispositivo de     seguran&ccedil;a", Foucault tentar&aacute; precisar a rela&ccedil;&atilde;o de cada um deles com a norma.     Admitindo que a fun&ccedil;&atilde;o da lei &eacute; codificar a norma, o que, portanto, significa     que o campo da norma &eacute; mais vasto que o campo da lei, estaria justificado seu     interesse em analisar os mecanismos de normaliza&ccedil;&atilde;o que estariam na periferia     ou mesmo na contram&atilde;o da lei. A disciplina - que prev&ecirc; um controle minucioso     dos gestos, do tempo, da espacialidade que se constitui entre o individual e a     massa - processa-se em rela&ccedil;&atilde;o a uma finalidade, o que permite dizer que a     disciplina busca normalizar, mas a partir da constru&ccedil;&atilde;o de um modelo que se     considera ideal para alcan&ccedil;ar a finalidade esbo&ccedil;ada. Com base nessas premissas     ele afirma, ent&atilde;o, que a disciplina estabelece as bases para distribuir os     indiv&iacute;duos em normais e anormais, mas sua tarefa fundamental seria a constru&ccedil;&atilde;o     do modelo, ou seja, da norma. Da&iacute; que ele vai admitir uma nova designa&ccedil;&atilde;o para     esse processo: na disciplina temos um processo de norma&ccedil;&atilde;o. &Eacute; apenas quando a     cidade passa a colocar problemas para a soberania, que ela passa a ser alvo de     produ&ccedil;&atilde;o de um saber que visava &agrave; interven&ccedil;&atilde;o propriamente normalizadora. O     desafio que se coloca, portanto, &eacute; o de garantir que a circula&ccedil;&atilde;o se processe e     que se tenham mecanismos de controlar os perigos dessa circula&ccedil;&atilde;o, a fim de     garantir a seguran&ccedil;a da popula&ccedil;&atilde;o. As rela&ccedil;&otilde;es de poder se multiplicam, ou     melhor, se capilarizam, de modo que a vigil&acirc;ncia, nesse novo dispositivo - o de     seguran&ccedil;a - incide n&atilde;o sobre um corpo individual, mas sobre os limites     definidos a partir da busca de ordem na aleatoriedade nos movimentos de uma     popula&ccedil;&atilde;o, nova defini&ccedil;&atilde;o de normaliza&ccedil;&atilde;o, que age em sinergia com a lei e a     disciplina.    <br>   </font><font face="verdana" size="2"><a href="#_ednref2" name="_edn2" title="">2</sup></a> A tentativa de     amplia&ccedil;&atilde;o do dom&iacute;nio de atua&ccedil;&atilde;o m&eacute;dica n&atilde;o se fez sem tens&otilde;es internas &agrave;     pr&oacute;pria corpora&ccedil;&atilde;o. No processo de reforma do ensino m&eacute;dico no &uacute;ltimo dec&ecirc;nio     do s&eacute;culo XIX, os embates pol&iacute;ticos entre os dois centros de forma&ccedil;&atilde;o m&eacute;dica do     pa&iacute;s - o da Bahia e o do Rio - se intensificaram, o que foi noticiado pelos     dois principais ve&iacute;culos da imprensa m&eacute;dica da &eacute;poca: a <i>Gazeta M&eacute;dica</i> e     o <i>Brazil M&eacute;dico</i>. A rea&ccedil;&atilde;o carioca &agrave; reforma do ensino em 1882 foi     divulgada pelo <i>Brazil M&eacute;dico</i>, num artigo que pretendia sustentar a tese     de que o tratamento dado aos dois centros de forma&ccedil;&atilde;o deveria ser diferente,     uma vez que o estado civilizat&oacute;rio, o n&uacute;mero de alunos, preparo do corpo     docente davam ao Rio de Janeiro condi&ccedil;&otilde;es de forma&ccedil;&atilde;o superiores, o que deveria     se reverter em distribui&ccedil;&atilde;o desigual de recursos entre os dois centros. A     supremacia m&eacute;dica brasileira deveria ser ent&atilde;o constru&iacute;da na capital do Imp&eacute;rio     e n&atilde;o na prov&iacute;ncia. A rea&ccedil;&atilde;o baiana veio na GMB de 1890 (O NOVO regimen e as     reformas do ensino), quando um artigo foi publicado criticando duramente a     ofensiva fluminense.    <br>   </font><font face="verdana" size="2"><a href="#_ednref3" name="_edn3" title="">3</sup></a> Numa conclama&ccedil;&atilde;o &agrave;     organiza&ccedil;&atilde;o da corpora&ccedil;&atilde;o m&eacute;dica, um artigo da GMB de 24 de janeiro de 1867     propunha a cria&ccedil;&atilde;o de uma associa&ccedil;&atilde;o m&eacute;dica beneficente, cujo objetivo era, por     meio do fortalecimento dos la&ccedil;os de solidariedade, coagular os interesses     m&eacute;dicos (ver: NECESSIDADE DE..., 1867).    <br>   </font><font face="verdana" size="2"><a href="#_ednref4" name="_edn4" title="">4</a> Ele se refere aos     seguintes trabalhos: SAMARA (1983); CORR&Ecirc;A (2002).    <br>   </font><font face="verdana" size="2"><a href="#_ednref5" name="_edn5" title="">5</a> Essa express&atilde;o comparece,     inclusive, no C&oacute;digo Penal de 1890, como uma condi&ccedil;&atilde;o para a tipifica&ccedil;&atilde;o de     crime e atribui&ccedil;&atilde;o de pena, no t&iacute;tulo VIII intitulado "Dos crimes contra a     seguran&ccedil;a da honra e honestidade das fam&iacute;lias e do ultraje publico ao pudor",     mais especificamente no cap&iacute;tulo I sobre a viol&ecirc;ncia carnal. Para mais detalhes,     ver: BRASIL (2009). Decreto     n&ordm; 847 de 11 de outubro de 1890. Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.senado.gov.br" target="_blank">http://www.senado.gov.br</a>. Acesso em: 22 set. 2009.</font></p>      ]]></body>
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