<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>2178-700X</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Revista EPOS]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Rev. Epos]]></abbrev-journal-title>
<issn>2178-700X</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Instituto de Medicina Social]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S2178-700X2013000200007</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Resgate policial de reféns: uma de espetacularização da vida]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Cirilo]]></surname>
<given-names><![CDATA[Bianca Sant'Anna de Sousa]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A01"/>
<xref ref-type="aff" rid="A02"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A01">
<institution><![CDATA[,Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<aff id="A02">
<institution><![CDATA[,UFF  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>12</month>
<year>2013</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>12</month>
<year>2013</year>
</pub-date>
<volume>4</volume>
<numero>2</numero>
<fpage>00</fpage>
<lpage>00</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S2178-700X2013000200007&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S2178-700X2013000200007&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S2178-700X2013000200007&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><abstract abstract-type="short" xml:lang="pt"><p><![CDATA[Este artigo tem como objetivo discutir a questão da espetacularização da vida, a partir do manejo jurídico-legal das chamadas ocorrências policiais com tomada de reféns no contexto do Rio de Janeiro, oriundas de conflitos sociais, tais como: assaltos frustrados, incidentes domésticos, dentre outros que venham a resultar em ameaça contra a vida humana. Comumente, quando gerados, tais eventos são conduzidos pela força policial estadual, mais especificamente pelo Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE). Discutiremos tais fatos tomando por base, principalmente, as contribuições teóricas de Michel Foucault, Guy Debord e Hanna Arendt. Por fim, o conteúdo exposto neste trabalho baseia-se na minha experiência anterior como psicóloga do BOPE, tendo acompanhado, por cinco anos consecutivos, a execução de várias dessas situações em tempo real.]]></p></abstract>
<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[This article aims to discuss the question of the spectacle of life, from the operation of police calls occurrences with hostage taking, derived from social conflicts, such as frustrated assaults, domestic incidents, among others that may result in a threat to lives of others. When generated, commonly, such events are conducted by the state police force, specifically the Special Police Operations Battalion (BOPE). Discuss taking such facts based mainly on the theoretical contributions of Michel Foucault, Guy Debord and Hanna Arendt. Finally, the content shown in this paper is based on experience as a psychologist active in the area of technical assistance in hostage rescue, having followed in real time, the execution of such works.]]></p></abstract>
<kwd-group>
<kwd lng="pt"><![CDATA[Resgate de reféns]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[espetacularização da vida]]></kwd>
<kwd lng="pt"><![CDATA[ocorrências com reféns]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[Rescue hostages]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[spectacle of life]]></kwd>
<kwd lng="en"><![CDATA[occurrences with hostage]]></kwd>
</kwd-group>
</article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="verdana" size="2"><b>ARTIGOS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="4"><b>Resgate policial de ref&eacute;ns: uma de espetaculariza&ccedil;&atilde;o da vida </b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="2"><b>Bianca Sant'Anna de Sousa   Cirilo</b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2"> Psic&oacute;loga da Pol&iacute;cia Militar do Estado do Rio de Janeiro. Doutoranda em Psicologia da UFF</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr size="1" noshade>     <p><font face="verdana" size="2"><b>RESUMO</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">Este artigo tem como   objetivo discutir a quest&atilde;o da espetaculariza&ccedil;&atilde;o da vida, a partir do manejo   jur&iacute;dico-legal das chamadas ocorr&ecirc;ncias policiais com tomada de ref&eacute;ns no   contexto do Rio de Janeiro, oriundas de conflitos sociais, tais como: assaltos   frustrados, incidentes dom&eacute;sticos, dentre outros que venham a resultar em   amea&ccedil;a contra a vida humana. Comumente, quando gerados, tais eventos s&atilde;o conduzidos   pela for&ccedil;a policial estadual, mais especificamente pelo Batalh&atilde;o de Opera&ccedil;&otilde;es   Policiais Especiais (BOPE). Discutiremos tais fatos tomando por base,   principalmente, as contribui&ccedil;&otilde;es te&oacute;ricas de Michel Foucault, Guy Debord e   Hanna Arendt. Por fim, o conte&uacute;do exposto neste trabalho baseia-se na minha   experi&ecirc;ncia anterior como psic&oacute;loga do BOPE, tendo acompanhado, por cinco anos   consecutivos, a execu&ccedil;&atilde;o de v&aacute;rias dessas situa&ccedil;&otilde;es em tempo real.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2"><b>Palavras-chave:</b> Resgate de ref&eacute;ns;   espetaculariza&ccedil;&atilde;o da vida; ocorr&ecirc;ncias com ref&eacute;ns.</font></p> <hr size="1" noshade>     <p><font face="verdana" size="2"><b>ABSTRACT</b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2">This   article aims to discuss the question of the spectacle of life, from the   operation of police calls occurrences with hostage taking, derived from social   conflicts, such as frustrated assaults, domestic incidents, among others that   may result in a threat to lives of others. When generated, commonly, such   events are conducted by the state police force, specifically the Special Police   Operations Battalion (BOPE). Discuss taking such facts based mainly on the   theoretical contributions of Michel Foucault, Guy Debord and Hanna Arendt.   Finally, the content shown in this paper is based on experience as a   psychologist active in the area of technical assistance in hostage rescue,   having followed in real time, the execution of such works. </font></p>     <p><font face="verdana" size="2"><b>Keywords</b><b>:</b> Rescue hostages; spectacle   of life; occurrences with hostage.</font></p> <hr size="1" noshade>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="3"><b>CONSIDERA&Ccedil;&Otilde;ES PRELIMINARES</b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Particularmente, este artigo nasce das   observa&ccedil;&otilde;es m&uacute;ltiplas que s&atilde;o poss&iacute;veis uma vez acompanhando o processo de   Gerenciamento de Crises; &aacute;rea pr&oacute;pria da atua&ccedil;&atilde;o policial em cen&aacute;rios onde haja   a amea&ccedil;a de atentar contra a vida de uma pessoa, normalmente, mediante o uso de   arma de fogo ou outro objeto que ofere&ccedil;a risco de matar ou ferir.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">No ano de 2008, fui   convidada a integrar o quadro de profissionais de sa&uacute;de do BOPE e dentre as   atribui&ccedil;&otilde;es cab&iacute;veis uma delas se destacou, qual seja a participa&ccedil;&atilde;o do   psic&oacute;logo em ocorr&ecirc;ncias com tomada de ref&eacute;ns, tarefa que ainda tem se   constitu&iacute;do como desafio constante e questionamentos variados, apesar de n&atilde;o   mais exerc&ecirc;-la no momento, e por esta raz&atilde;o tornou-se tema de pesquisa atual de   doutorado em andamento. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">O campo de atua&ccedil;&atilde;o da pol&iacute;cia, nestes casos,   refere-se &agrave;queles que ficam a encargo do BOPE atrav&eacute;s de uma determinada equipe   de trabalho conhecida como Unidade de Interven&ccedil;&atilde;o T&aacute;tica (UIT). Ela &eacute; composta   de profissionais negociadores que s&atilde;o policiais treinados a dialogar com o   agente agressor ou tomador de ref&eacute;ns; atiradores de precis&atilde;o; e o grupo de   resgate e retomada que atua, geralmente, ao final da ocorr&ecirc;ncia realizando uma   checagem do local, resgatando os ref&eacute;ns e prendendo o agente agressor ou   realizando a remo&ccedil;&atilde;o de seu corpo nos casos em que este venha a ser morto. </font></p>     <p><font face="verdana" size="2">O objetivo principal da operacionaliza&ccedil;&atilde;o   destes resgates prescrita pela pol&iacute;cia fluminense &eacute; a "preserva&ccedil;&atilde;o das vidas"   ali em destaque, incluindo a do agente da crise, contudo, em caso de sacrif&iacute;cio   de uma delas a do ref&eacute;m ganha ascend&ecirc;ncia, sendo a do tomador retirada se assim   for julgado necess&aacute;rio como forma de conserva&ccedil;&atilde;o da vida do ref&eacute;m.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Vale ressaltar que o processo de condu&ccedil;&atilde;o   destas ocorr&ecirc;ncias sofre influ&ecirc;ncia dos preceitos da doutrina norte-americana   de Gerenciamento de Crises e Negocia&ccedil;&atilde;o policial, organizada e constru&iacute;da pelo Federal   Bureau of Investigation (FBI). </font></p>     <p><font face="verdana" size="2">O FBI corresponde &agrave; pol&iacute;cia federal   norte-americana, sendo uma ag&ecirc;ncia governamental respons&aacute;vel pelas   investiga&ccedil;&otilde;es de casos onde haja viola&ccedil;&otilde;es da lei federal. Atua no trato com   situa&ccedil;&otilde;es relacionadas ao terrorismo, corrup&ccedil;&atilde;o, crimes pela internet, grandes roubos   e homic&iacute;dios, sequestros, dentre outros. Ele n&atilde;o faz parte da Pol&iacute;cia Nacional,   mas sim possui jurisdi&ccedil;&atilde;o espec&iacute;fica administrada pelo Procurador Geral da   Justi&ccedil;a dos EUA. Foi criado em 1908 e &eacute; considerada a maior ag&ecirc;ncia policial do   mundo, contando com cerca de trinta mil funcion&aacute;rios atuando em sessenta   pa&iacute;ses, incluindo psic&oacute;logos e psiquiatras - chamados por eles de "<i>consultores     mentais</i>". Atua em escolas estadunidenses atrav&eacute;s de programas preventivos   de seguran&ccedil;a cujos agentes s&atilde;o volunt&aacute;rios. Responde pelo gerenciamento de   treinamentos de interven&ccedil;&atilde;o em caso de resgate de ref&eacute;ns, mediante estudos de   casos ligados &agrave; psicopatologia do crime e conduta criminosa, utiliza&ccedil;&atilde;o de alta   tecnologia, dentre outros recursos.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Existe ainda a Special   Weapons And Tactics (SWAT), que tamb&eacute;m atua em   ocorr&ecirc;ncias com tomada de ref&eacute;ns, por&eacute;m trata-se da pol&iacute;cia local, logo, de   jurisdi&ccedil;&atilde;o estadual. Geralmente &eacute; quem lida diretamente com a opera&ccedil;&atilde;o de   resgate. Tem como principais fun&ccedil;&otilde;es: prever incidentes violentos de larga   escala e preparar sua equipe especializada para o &ecirc;xito no resgate de ref&eacute;ns.   Conta com apoio do governo norte-americano, credibilidade, respaldo legal nas   a&ccedil;&otilde;es e sofisticada tecnologia, assim como pessoal altamente treinado.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="3"><b>O ACIONAMENTO E A PREPARA&Ccedil;&Atilde;O PARA O RESGATE</b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Repentinamente, ouve-se um forte barulho no   interior do quartel representando o acionamento da equipe do BOPE e o   consequente aviso de que est&aacute; em curso uma ocorr&ecirc;ncia com ref&eacute;ns na cidade   fluminense, podendo ser tanto no interior do Estado quanto na periferia. De   Campos ao centro da cidade, Baixada ou Zona Sul, Regi&atilde;o dos Lagos ou Zona   Norte, em qualquer lugar pode estar se dando o fato sempre urgente e tenso; o   que imp&otilde;e uma necessidade do uso de um menor tempo poss&iacute;vel para que toda a   equipe se organize e saia.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">A gravidade, mensurada e definida pelo risco   de morte oferecido pelo evento cr&iacute;tico, exige prontid&atilde;o das respostas   policiais, mas sem que haja correria ou atropelos. Neste momento, toda a equipe   envolvida com o resgate se prepara ordeiramente, por&eacute;m com agilidade. O n&iacute;vel   de exig&ecirc;ncia para a "resolu&ccedil;&atilde;o pac&iacute;fica" do acontecimento em curso &eacute; alto; o   que nem sempre &eacute; conseguido quando ocorre perda de vidas; aspecto frequentemente   gerador de solu&ccedil;&atilde;o de continuidade, trazendo cobran&ccedil;as governamentais e sociais   decorrentes da forma como o processo se desenrola at&eacute; o desfecho da ocorr&ecirc;ncia.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Em parceria com o grupo de resgate do BOPE,   incluindo equipe de sa&uacute;de: psic&oacute;logo, m&eacute;dico e enfermeiro, al&eacute;m de param&eacute;dicos,   outras unidades operacionais da Pol&iacute;cia Militar do Rio de Janeiro (PMERJ) s&atilde;o   acionadas, dentre elas: o Batalh&atilde;o de C&atilde;es (BAC); o Grupamento A&eacute;reo Mar&iacute;timo   (GAM) e o pr&oacute;prio efetivo do batalh&atilde;o respons&aacute;vel pela seguran&ccedil;a da localidade   onde a situa&ccedil;&atilde;o est&aacute; se passando. Al&eacute;m destas, tamb&eacute;m participam da opera&ccedil;&atilde;o de   resgate integrantes do Corpo de Bombeiros do Estado do Rio de Janeiro (CBMERJ).   Desse modo, cerca de 40 a 50 profissionais de diferentes &aacute;reas de atua&ccedil;&atilde;o, em   m&eacute;dia, s&atilde;o mobilizados para conduzir uma ocorr&ecirc;ncia deste porte.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">Em termos de normas de condu&ccedil;&atilde;o destes   eventos foram editados no Rio de Janeiro, em 2008, dois manuais procedimentais,   a saber: o <i>Manual de Gerenciamento de Crises </i>e o<i> Manual de Negocia&ccedil;&atilde;o     de Conflitos</i>, ambos os documentos foram confeccionados mediante conv&ecirc;nio   estabelecido entre o Instituto de Seguran&ccedil;a P&uacute;blica do Rio de Janeiro (ISP) e o   Programa de Apoio Institucional &agrave;s Ouvidorias de Pol&iacute;cia e Policiamento   Comunit&aacute;rio da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, financiado pela Uni&atilde;o   Europeia.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">&nbsp;&nbsp; </font></p>     <p><font face="verdana" size="3"><b>A CENA DO RESGATE</b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Ao chegar ao local da ocorr&ecirc;ncia j&aacute; existe   uma configura&ccedil;&atilde;o formada, normalmente, composta pelo efetivo do batalh&atilde;o de   pol&iacute;cia da &aacute;rea e pelo Corpo de Bombeiros. A equipe de resgate do BOPE se   insere &agrave; cena cr&iacute;tica e come&ccedil;a a atuar conforme o que for poss&iacute;vel e de acordo   com o que &eacute; previsto em treinamentos nestes casos.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Al&eacute;m de tais grupos, frequentemente,   constata-se a presen&ccedil;a da m&iacute;dia no local com seus aparatos peculiares &agrave; necessidade   de dar visibilidade aos fatos, produzindo notici&aacute;rio rent&aacute;vel. Dependendo da   situa&ccedil;&atilde;o, o evento ganha proje&ccedil;&atilde;o nacional e internacional, como foi o caso do   &ocirc;nibus 174, em 2000; o caso da jovem Elo&aacute;, em S&atilde;o Paulo no ABC paulista, em   outubro de 2008, e tantos outros em &acirc;mbitos nacionais e estrangeiros.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Neste exato momento em que a participa&ccedil;&atilde;o da   m&iacute;dia se faz presente agencia-se toda uma ferramenta log&iacute;stica de veicula&ccedil;&atilde;o da   comunica&ccedil;&atilde;o como forma de produzir lugares, conduzir informa&ccedil;&otilde;es e incitar a   circula&ccedil;&atilde;o de afetos dos mais variados, desde medo, revolta, tristeza,   indigna&ccedil;&atilde;o, confian&ccedil;a, raiva, desconfian&ccedil;a, e assim por diante. Um turbilh&atilde;o de   sentimentos &eacute; produzido conforme a maneira como as informa&ccedil;&otilde;es chegam a cada um   que se acerque do fato e com ele estabele&ccedil;a um tipo de rela&ccedil;&atilde;o, estejam os   indiv&iacute;duos no pr&oacute;prio local ou acompanhem atrav&eacute;s das imagens televisivas.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">As situa&ccedil;&otilde;es com tomada de ref&eacute;ns podem ser   das mais variadas, desde assaltos frustrados a bancos, a resid&ecirc;ncias ou a   transportes coletivos. Podem ser geradas por incidentes dom&eacute;sticos resultantes   de conflitos entre c&ocirc;njuges, entre outros familiares, entre vizinhos. Podem ser   fruto de dissid&ecirc;ncias pol&iacute;ticas, religiosas e podem tamb&eacute;m expressar tentativas   de suic&iacute;dio que s&atilde;o compreendidas como ocorr&ecirc;ncias cujo indiv&iacute;duo torna-se   ref&eacute;m de si mesmo, sendo tratadas conforme sua peculiaridade. N&atilde;o abordaremos   aqui, propriamente, estes &uacute;ltimos casos, relativos &agrave; quest&atilde;o do suic&iacute;dio, nossa   an&aacute;lise tomar&aacute; como base a experi&ecirc;ncia extra&iacute;da das outras configura&ccedil;&otilde;es, em   que necessariamente um indiv&iacute;duo amea&ccedil;a atentar contra a vida de um ou mais   outros.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Desse modo, ao chegarmos ao local da   ocorr&ecirc;ncia, a cena varia de acordo com a visibilidade dos envolvidos, isto   significa que h&aacute; ocasi&otilde;es em que o processo se passa num espa&ccedil;o confinado sem   acesso favor&aacute;vel ao que se passa l&aacute; dentro. Noutros casos, o cen&aacute;rio se   desenrola no interior de um &ocirc;nibus ou no quintal de uma resid&ecirc;ncia, oferecendo mais   visibilidade p&uacute;blica. Em suma, o primeiro aspecto com o qual a equipe de   resgate precisa se deparar &eacute; exatamente a quest&atilde;o do acesso &agrave; observa&ccedil;&atilde;o   vis&iacute;vel dos fatos em sequ&ecirc;ncia, pois &eacute; a maior ou menor possibilidade de   visualizar a situa&ccedil;&atilde;o que define como as a&ccedil;&otilde;es ser&atilde;o conduzidas.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">O teor da dificuldade de testemunhar com os   olhos gera rea&ccedil;&otilde;es diferentes em toda a equipe. A experi&ecirc;ncia tem nos mostrado   que o n&iacute;vel de confinamento, isolando os envolvidos no evento cr&iacute;tico, tende a   aumentar a tens&atilde;o e dificultar a escolha das melhores maneiras de interven&ccedil;&atilde;o,   j&aacute; que aumenta o risco do ref&eacute;m estar sendo submetido a maus-tratos e amplia a   margem do cometimento de erros operacionais (leia-se matar ou ferir de forma   n&atilde;o cab&iacute;vel legalmente) por parte da pol&iacute;cia.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">A visibilidade, portanto, constitui um fator   preliminar para definir quais ser&atilde;o as ferramentas utilizadas de resolu&ccedil;&atilde;o   policial e avalia&ccedil;&atilde;o dos riscos de perda de vidas. Ela estabelece uma maior ou menor   chance de acertos t&aacute;ticos assim como planejamento estrat&eacute;gico com vistas &agrave;   liberta&ccedil;&atilde;o dos ref&eacute;ns e imobiliza&ccedil;&atilde;o da a&ccedil;&atilde;o destrutiva do tomador. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">Da mesma forma, os transeuntes, as pessoas   curiosas ou ainda os telespectadores, caso a situa&ccedil;&atilde;o esteja sendo motivo de   not&iacute;cia, acabam sendo fisgados pela vontade de acompanhar, de ver de perto, de   saber sobre o que ali est&aacute; se passando. Mais uma vez, a exposi&ccedil;&atilde;o daquele   conflito parece ser um fator de suma import&acirc;ncia para produ&ccedil;&atilde;o de v&aacute;rios   agenciamentos subjetivos, fazendo circular uma s&eacute;rie de impress&otilde;es, cren&ccedil;as,   defini&ccedil;&atilde;o de pap&eacute;is e lugares a serem constru&iacute;dos continuamente. </font></p>     <p><font face="verdana" size="2">A ideia de agenciamento est&aacute; sendo retirada   das contribui&ccedil;&otilde;es de Deleuze e Guattari (1995), que prop&otilde;em uma forma de   conceber a subjetividade atrav&eacute;s de linhas e superf&iacute;cies onde n&atilde;o haveria uma   forma &uacute;nica que definisse a realidade, as institui&ccedil;&otilde;es, os indiv&iacute;duos, e assim   por diante. Logo, os agenciamentos seriam as m&uacute;ltiplas liga&ccedil;&otilde;es e conex&otilde;es que   se territorializam e se desterritorializam, construindo sempre v&aacute;rias rela&ccedil;&otilde;es   num infinito campo de possibilidades e efeitos.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Nesta trajet&oacute;ria epistemol&oacute;gica, a an&aacute;lise de   Guattari (2010) tamb&eacute;m nos favorece uma reflex&atilde;o acerca da no&ccedil;&atilde;o de "subjetividade   capital&iacute;stica", na qual s&atilde;o fabricados tomadores, especialistas, policiais e   ref&eacute;ns num grande jogo mercadol&oacute;gico que define lugares e fun&ccedil;&otilde;es, construindo   a cena espetacular onde se processa o crime e sua "salva&ccedil;&atilde;o". </font></p>     <blockquote>       <p><font face="verdana" size="2">O Estado cumpre um     papel fundamental na produ&ccedil;&atilde;o de subjetividade capital&iacute;stica. &Eacute; um     Estado-Mediador; um Estado-Provid&ecirc;ncia, pelo qual tudo deve passar, numa     rela&ccedil;&atilde;o de depend&ecirc;ncia, na qual se produz subjetividade infantilizada (GUATTARI,     2010, p. 172).</font></p> </blockquote>     <p><font face="verdana" size="2">A cena produzida com a tomada de ref&eacute;ns   sugere uma caracter&iacute;stica apelativa da prote&ccedil;&atilde;o, de fato, algu&eacute;m ali est&aacute; com   grande chance de perder a vida. O problema n&atilde;o estaria em necessitar disso,   acreditamos que ele reside na constru&ccedil;&atilde;o de uma cren&ccedil;a de que somente a pol&iacute;cia   pode resolver a situa&ccedil;&atilde;o, a&iacute;, a nosso ver, estaria um exemplo deste processo de   infantiliza&ccedil;&atilde;o e depend&ecirc;ncia acima citado, justamente por fabricar pelo menos a   figura heroica do policial; o que, em nossa opini&atilde;o, n&atilde;o conv&eacute;m nem para a   sociedade nem para a pessoa dele. N&atilde;o queremos com isso desprezar a   potencialidade da equipe de interven&ccedil;&atilde;o, s&oacute; estamos afirmando que n&atilde;o h&aacute;   garantias de que "tudo d&ecirc; certo no final" e todos "saiam felizes". Decerto, a   experi&ecirc;ncia ser&aacute; sempre um fator que nos auxiliar&aacute; nestes casos, entretanto,   n&atilde;o se pode descartar a imprevisibilidade do comportamento humano como fator   inevit&aacute;vel numa situa&ccedil;&atilde;o como esta.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Toda opera&ccedil;&atilde;o de resgate de ref&eacute;ns &eacute; tida   como algo que espelha uma falta cometida por algu&eacute;m com inten&ccedil;&atilde;o de matar ou   ferir, logo, algu&eacute;m que, com este ato, adentra no rol dos criminosos. Sua   atitude ganha publicidade e, desta forma, se espetaculariza, no m&iacute;nimo, por   anunciar sua passagem de "cidad&atilde;o de bem" para indiv&iacute;duo transgressor da lei e   tamb&eacute;m definir uma v&iacute;tima de sua agress&atilde;o - o ref&eacute;m. Neste chamado "teatro de   opera&ccedil;&otilde;es", termo utilizado pela pol&iacute;cia para referir-se ao processo da   ocorr&ecirc;ncia em andamento, comp&otilde;e-se uma cena dotada de diferentes afetos,   circula&ccedil;&atilde;o de ideias, valores, opini&otilde;es e agenciamentos m&uacute;ltiplos. </font></p>     <p><font face="verdana" size="2">O sentido de espet&aacute;culo refere-se &agrave; ideia que   define "a terra como mercado mundial" (DEBORD, 2003, p. 30)<i>.</i> Este sentido   relacionado a mercantilizar a vida, comum aos processos de funcionamento   capitalista das sociedades em geral, transforma o mundo num m&uacute;ltiplo mercado   agenciador de produtos, afetos, lugares, conceitos, o que tamb&eacute;m se espelha na   cena do resgate de ref&eacute;ns. Isto ser&aacute; demonstrado no percurso deste trabalho.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Esta no&ccedil;&atilde;o de espetaculariza&ccedil;&atilde;o da vida   tornada p&uacute;blica, julgada neste espa&ccedil;o de desnudamento e conduzida pelos   mecanismos peculiares ao aparato policial, ser&aacute; detalhada a partir dos estudos   trazidos por Foucault, Debord e Hanna Arendt, buscando tecer algumas   aproxima&ccedil;&otilde;es.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="3"><b>DO ESPET&Aacute;CULO DO SUPL&Iacute;CIO NO S&Eacute;CULO XVIII &Agrave; DISCIPLINA DA PUNI&Ccedil;&Atilde;O</b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Devemos a Foucault (2006) as reflex&otilde;es   fecundas acerca da hist&oacute;ria das pris&otilde;es no cen&aacute;rio europeu e um tipo de   compreens&atilde;o sobre o nascimento e transforma&ccedil;&atilde;o do que se tem, atualmente, como   figura do criminoso. Antes da institucionaliza&ccedil;&atilde;o dos espa&ccedil;os carcer&aacute;rios e a   implanta&ccedil;&atilde;o de uma l&oacute;gica disciplinar de poder de vigil&acirc;ncia e "dociliza&ccedil;&atilde;o dos   corpos", como ele diz, havia o que o autor nos demonstra como "supl&iacute;cio dos   sentenciados<i>"</i>, no contexto do s&eacute;culo XVIII. </font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Parric&iacute;dios, homic&iacute;dios, roubos e demais   faltas, do ponto de vista da lei penal da &eacute;poca, eram pagos com o pre&ccedil;o da   mortifica&ccedil;&atilde;o corporal mediante torturas muito dolorosas, queimaduras e   rompimento de membros despeda&ccedil;ados por cavalos sob a condu&ccedil;&atilde;o da Igreja como   institui&ccedil;&atilde;o julgadora e aplicativa da pena, sugerindo a senten&ccedil;a ao supliciado.   Constitu&iacute;a-se assim a figura do delinquente, que, devendo pedir perd&atilde;o   publicamente &agrave; porta da Igreja, era aquele que cometeu algum tipo de falta e   que por isso "merecia" um tipo de pena ou san&ccedil;&atilde;o corretiva, graduada conforme a   classifica&ccedil;&atilde;o do erro em mais ou menos grave, segundo os crit&eacute;rios   eclesi&aacute;sticos. </font></p>     <p><font face="verdana" size="2">O processo de forma&ccedil;&atilde;o da cena de condena&ccedil;&atilde;o   do supliciado era, portanto, composto de uma confiss&atilde;o p&uacute;blica, avalia&ccedil;&atilde;o da gravidade   do ato e a&ccedil;&atilde;o de proferir uma senten&ccedil;a, iniciando assim uma <i>via crucie</i> de   exposi&ccedil;&atilde;o de seu mart&iacute;rio numa clara ger&ecirc;ncia de administra&ccedil;&atilde;o do tempo   sequenciado pelas penas cab&iacute;veis.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">A pena do sentenciado, ainda neste cen&aacute;rio   hist&oacute;rico, era o assassinato, que, segundo Foucault (2006), n&atilde;o era tomado como   crime, pelo contr&aacute;rio, ele era considerado uma esp&eacute;cie de corre&ccedil;&atilde;o, salvando   talvez a alma do pecador pela aplica&ccedil;&atilde;o "justa e na medida certa" do que ele   precisava. Como efeito, sucedia-se a banaliza&ccedil;&atilde;o da viol&ecirc;ncia naturalizando a   captura do corpo do outro, antes indene, e agora tornado objeto vilipendiado e,   ao mesmo tempo, tomado como "purificador de seu pecado", como r&eacute;u confesso   publicamente mediante sofisticado processo de mortifica&ccedil;&atilde;o corretora.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">A grande quest&atilde;o que Foucault (2006) nos   permite ampliar remete-nos &agrave; publicidade da corrigenda que visualmente compunha   a cena de um espet&aacute;culo de horror, seguida, muitas vezes, pelo despeda&ccedil;amento   dos &oacute;rg&atilde;os do indiv&iacute;duo condenado &agrave; tortura e &agrave; morte. Processos dolorosos de   esquartejamento faziam parte das medidas adotadas pela legisla&ccedil;&atilde;o penal   vigente, partilhada por costumes tradicionais de na&ccedil;&otilde;es como Pr&uacute;ssia, R&uacute;ssia,   Pensilv&acirc;nia, &Aacute;ustria, dentre outras. </font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Foucault (2006) nos auxilia a refletir que   estes esc&acirc;ndalos p&uacute;blicos transformados num verdadeiro circo de horrores para   quem era condenado, no entanto, tamb&eacute;m terrificante para quem assistia,   transmitiam um recado, j&aacute; que se propunham a controlar o cometimento de outros   atos delinquentes por quem quer que fosse assim como construir e marcar   lugares. Expressavam uma mensagem: "Olha o que acontece com quem erra; com quem   transgride a lei!" A publicidade dos supl&iacute;cios, mesmo n&atilde;o sendo t&atilde;o frequentes   como diz o autor em destaque, funcionava como produtora de uma forma de   controle do povo e constru&ccedil;&atilde;o de lugares sobre quem era virtuoso ou n&atilde;o, quem   podia aplicar a lei, quem era justo, quem punia, e assim por diante.&nbsp; </font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Esta engrenagem dos horrores era um exemplo   de administra&ccedil;&atilde;o do tempo com um roteiro c&iacute;clico de atitudes esperadas que   partisse do condenado, indo dos gritos a agonias mais atrozes. A pr&aacute;tica   sistematizada da tortura ou "supl&iacute;cio judici&aacute;rio" (FOUCAULT, 2006, p. 41)   possu&iacute;a uma finalidade pol&iacute;tica na qual todo este cerimonial funcionava como   forma de controle social, segundo a vis&atilde;o foucaultiana. </font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Foucault (2006) expressa, pois, o quanto toda   uma tecnologia do corpo se sofistica, a partir das pr&aacute;ticas de tortura dos   supliciados, contudo, no in&iacute;cio do s&eacute;culo XIX, processos mais complexos de   poder sobre ele v&atilde;o sendo definidos. Como efeito do panorama acima, o   espet&aacute;culo e a exposi&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica da puni&ccedil;&atilde;o corporal come&ccedil;am a ser criticados,   agora vistos como inconvenientes a este aparato judici&aacute;rio. Desse modo, a   aplica&ccedil;&atilde;o das penas, n&atilde;o mais executadas publicamente, ganharia outro formato.   Isto porque antes era preciso que o pr&oacute;prio corpo do supliciado enunciasse uma   verdade - a do crime, definindo assim sua caracteriza&ccedil;&atilde;o. Em contrapartida, se   por um lado inicia-se uma supress&atilde;o cont&iacute;nua da publicidade das penas f&iacute;sicas,   por outro, ocorre uma gradativa sofistica&ccedil;&atilde;o do processo punitivo.</font></p>     <blockquote>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">A puni&ccedil;&atilde;o vai-se tornando, pois, a     parte mais velada do processo penal, provocando v&aacute;rias consequ&ecirc;ncias: deixa o     campo da percep&ccedil;&atilde;o quase di&aacute;ria e entra no da consci&ecirc;ncia abstrata; sua     efic&aacute;cia &eacute; atribu&iacute;da &agrave; sua fatalidade n&atilde;o &agrave; sua intensidade vis&iacute;vel: a certeza     de ser punido &eacute; que deve desviar o homem do crime e n&atilde;o mais o abomin&aacute;vel     teatro; a mec&acirc;nica exemplar das puni&ccedil;&otilde;es muda as engrenagens (FOUCAULT, 2006,     p. 13).</font></p> </blockquote>     <p><font face="verdana" size="2">Mesmo a puni&ccedil;&atilde;o deixando paulatinamente de   ser uma cena, como nos diz Foucault (2006), ela permaneceu atrav&eacute;s da "certeza   de ser punido!" Uma prerrogativa da efic&aacute;cia do sistema penal que estaria sendo   explorada mediante o estabelecimento de procedimentos cada vez mais refinados   de captura da subjetividade do indiv&iacute;duo, "atrav&eacute;s do enterramento burocr&aacute;tico   da pena em substitui&ccedil;&atilde;o ao castigo-espet&aacute;culo" (FOUCAULT, 2006, p. 13).</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Compreendemos esta no&ccedil;&atilde;o de subjetividade de   acordo com as considera&ccedil;&otilde;es de Guattari (2012), j&aacute; que ele prop&otilde;e um rompimento   com uma vis&atilde;o universalista de homem, da exist&ecirc;ncia ou qualquer outro fen&ocirc;meno   que queiramos analisar. Ele cinde a vis&atilde;o psicanal&iacute;tica edipiana como sendo   &uacute;nica e estabelece outras possibilidades de conex&otilde;es, de vetores relacionais   que atravessam a experi&ecirc;ncia subjetiva, dando-lhe a riqueza da multiplicidade.&nbsp; </font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Sabemos com base na an&aacute;lise foucaultiana, que   a experi&ecirc;ncia espetacular da pena n&atilde;o cessa necessariamente, mudando apenas de   lugar, de express&atilde;o, por&eacute;m n&atilde;o de teor. O horror da puni&ccedil;&atilde;o permanece, tendo   sido trabalhada desde a fase supliciar das penas at&eacute; a instaura&ccedil;&atilde;o no indiv&iacute;duo   de um processo de autopuni&ccedil;&atilde;o, afinal &eacute; isto que marcava sua passagem de   delinquente a verdadeiro criminoso, do ponto de vista legal. Aumentava-se a   complexidade das manobras atrav&eacute;s de um tipo de processo de internaliza&ccedil;&atilde;o do   castigo; isto se dava em concomit&acirc;ncia com novas reformula&ccedil;&otilde;es da legisla&ccedil;&atilde;o   penal da &eacute;poca.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">O   emprego da disciplina permitindo a generaliza&ccedil;&atilde;o do poder de punir foi sendo   estudada por Foucault (2006) at&eacute; o nascimento da pris&atilde;o, atrav&eacute;s da observa&ccedil;&atilde;o   do uso de pr&aacute;ticas cada vez mais elaboradas e complexas de transformar o corpo   em instrumento positivo (&uacute;til), produtivo e rent&aacute;vel. A espetaculariza&ccedil;&atilde;o do   corpo, na pr&aacute;tica de torturas comuns aos supl&iacute;cios do s&eacute;culo XVIII, serviu de   ferramenta para que fosse sendo, paulatinamente, constru&iacute;da uma   institucionaliza&ccedil;&atilde;o judici&aacute;ria das penas contra o criminoso, ao mesmo tempo,   mais sigilosa e mais perigosa, pois se tornando menos identific&aacute;vel n&atilde;o estaria   t&atilde;o sujeita a ser repudiada como barbaridade.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="3"><b>O ESPET&Aacute;CULO DA VIDA COMO MERCADORIA</b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Pensar a vida como mercadoria demandaria   pensar num tipo de rela&ccedil;&atilde;o da mesma com o universo capitalista. Como efeito,   seria reconhecer que com isso a vida cessaria, na medida em que se torna   vis&iacute;vel. Devemos estas considera&ccedil;&otilde;es ao trabalho de Debord (2003), que prop&otilde;e   questionamentos acerca dos movimentos de proletariza&ccedil;&atilde;o do mundo e   artificialidade da vida na l&oacute;gica do mercado mundial como reflexos de um processo   de espetaculariza&ccedil;&atilde;o, logo, se apresentando como mais uma t&eacute;cnica de governo.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Como instrumento de governo, o espet&aacute;culo   funciona como ferramenta de moderniza&ccedil;&atilde;o e unifica&ccedil;&atilde;o do mundo, criando   determinadas ilus&otilde;es num tipo de "liberdade ditatorial do mercado" (DEBORD,   2003, p. 9). As prefer&ecirc;ncias passam a ser reguladas pela imagem e pela   representa&ccedil;&atilde;o, onde se processa, continuamente, um ac&uacute;mulo de variadas formas   de espetaculariza&ccedil;&atilde;o, fragmentando a vida, especializando as formas, por&eacute;m   forjando um cen&aacute;rio onde tudo parece funcionar de maneira integrada.</font></p>     <blockquote>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">O espet&aacute;culo,     compreendido na sua totalidade, &eacute; simultaneamente o resultado e o projeto do     modo de produ&ccedil;&atilde;o existente. Ele n&atilde;o &eacute; um complemento ao mundo real, um adere&ccedil;o     decorativo. &Eacute; o cora&ccedil;&atilde;o da irrealidade da sociedade real. Sob todas as suas     formas particulares de informa&ccedil;&atilde;o ou propaganda, publicidade ou consumo direto     do entretenimento, o espet&aacute;culo constitui o modelo presente da vida socialmente     dominante (DEBORD, 2003, p. 15).</font></p> </blockquote>     <p><font face="verdana" size="2"> Ele   agencia uma esp&eacute;cie de verdade sobre as imagens pautando-se num processo chamado   de "monop&oacute;lio da apar&ecirc;ncia" (DEBORD, 2003, p. 17). Com isso, a vida como   mercadoria passa a constituir-se de um tipo de visibilidade rent&aacute;vel,   fabricante de pap&eacute;is que se comercializam, garantindo o poder dos especialistas   que podem falar sobre ela. Ela passa a ser fragmentada em saberes, retornando   de forma separada para os indiv&iacute;duos, mas vendida como algo que se integra   (DEBORD, 2003).</font></p>     <blockquote>       <p><font face="verdana" size="2">&Eacute; todo trabalho     vendido de uma sociedade, que se torna globalmente mercadoria total, cujo ciclo     deve prosseguir. &#91;...&#93; Assim, portanto, a ci&ecirc;ncia especializada da domina&ccedil;&atilde;o se     especializa: fragmentando tudo, em sociologia, psicot&eacute;cnica, cibern&eacute;tica,     semiologia etc., velando pela autorregula&ccedil;&atilde;o de todos os n&iacute;veis do processo     (DEBORD, 2003, p. 33).</font></p> </blockquote>     <p><font face="verdana" size="2">Tal   fragmenta&ccedil;&atilde;o que setoriza a vida em fra&ccedil;&otilde;es de conhecimento sobre ela aproxima-se   de nosso foco de pesquisa na medida em que a situa&ccedil;&atilde;o com ref&eacute;ns conta com a   avalia&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica sustentada em diversos discursos cient&iacute;ficos. Esta din&acirc;mica   de esquadrinhar a realidade permite certo monop&oacute;lio sobre os eventos e instaura   uma alega&ccedil;&atilde;o de legitimidade sobre o mesmo, uma vez que apenas os especialistas   s&atilde;o considerados habilitados para lidar com o resgate. A viv&ecirc;ncia nos mostra   que a complexidade de eventos como estes tende a impor um n&iacute;vel de cobran&ccedil;a   sobre toda a equipe oriunda das autoridades governamentais e que acaba se   expressando em cobran&ccedil;a de si por parte dos policiais. Para lidar com isso, observamos   que os profissionais buscam a const&acirc;ncia dos treinamentos e costumam partilhar   desta esp&eacute;cie de verdade, verbalizando-a inclusive entre eles, j&aacute; que s&atilde;o   levados a incorporar que n&atilde;o devem errar nas diversas opera&ccedil;&otilde;es. O erro, neste   contexto, seria a perda por morte ou ferimento de policiais da pr&oacute;pria unidade;   morte ou ferimento de ref&eacute;ns, policiais ou pessoas civis em situa&ccedil;&otilde;es de   resgate. Quanto mais se treina, mais se acerta, este &eacute; o lema institu&iacute;do,   inclusive escrito em uma das paredes do batalh&atilde;o com as seguintes palavras:   "Treinamento duro, combate f&aacute;cil"; "Nada &eacute; imposs&iacute;vel para o soldado do BOPE"!</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Debord (2003) tamb&eacute;m nos chama a aten&ccedil;&atilde;o para a categoria do   quantitativo como sendo uma esp&eacute;cie de valor principal, neste contexto da   sociedade espetacular, que estaria funcionando como finalidade &uacute;nica nesta   produ&ccedil;&atilde;o de mercadorias em s&eacute;rie em detrimento de uma busca de qualidade. A   perda desta qualidade relaciona-se com um distanciamento da pr&oacute;pria autonomia   produtiva uma vez que todo o trabalho &eacute; vendido. </font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Neste cen&aacute;rio, outra express&atilde;o da perda de   qualidade surge com rela&ccedil;&atilde;o &agrave; figura do oper&aacute;rio. Ele &eacute;, na verdade,   desprezado, por&eacute;m reinserido no jogo das rela&ccedil;&otilde;es comerciais como consumidor.   Em suma, ele &eacute; levado a gerar lucro, disfar&ccedil;adamente tratado como pessoa   importante na medida em que permite o cont&iacute;nuo funcionamento da economia.   Cria-se assim o que &eacute; chamado de aparente "humanismo da mercadoria" (DEBORD,   2003, p. 33), termo trazido pelo autor para se referir, por exemplo, &agrave;s formas variadas   de controle do lazer e de nega&ccedil;&atilde;o da exist&ecirc;ncia humana. </font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Em situa&ccedil;&otilde;es de crises, quanto valem as   vidas? Esta seria uma pergunta fundamental: quem s&atilde;o as pessoas envolvidas? S&atilde;o   conhecidas publicamente? S&atilde;o trabalhadores an&ocirc;nimos? S&atilde;o crian&ccedil;as, idosos,   mendigos? S&atilde;o presos de uma penitenci&aacute;ria de seguran&ccedil;a m&aacute;xima? Ser&aacute; que todos   s&atilde;o vistos como iguais? Suas vidas s&atilde;o igualmente importantes? Somos levados a   perceber com as contribui&ccedil;&otilde;es de Debord (2003) que a vida &eacute; quantificada e n&atilde;o   qualificada, vale comercialmente e politicamente. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="3"><b>O JULGAMENTO COMO UM ESPET&Aacute;CULO</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">A concep&ccedil;&atilde;o de condi&ccedil;&atilde;o humana se amplia com   a chegada das contribui&ccedil;&otilde;es arendtianas se pensarmos na originalidade de seu   pensamento e a sensibilidade para alertar os riscos inerentes &agrave; complexidade   dos regimes totalit&aacute;rios. Arendt (2010) direciona-se a uma reflex&atilde;o sobre <i>vida     activa</i> como sendo diferente da concep&ccedil;&atilde;o aristot&eacute;lica do termo, que associa   &agrave;quela uma ideia de vida contemplativa, dando-lhe um sentido est&eacute;tico. Neste   contexto da tradi&ccedil;&atilde;o grega, os assuntos humanos expressos na ideia de um <i>bios     politikos</i> referiam-se &agrave;s a&ccedil;&otilde;es, excluindo-se o trabalho e a obra como   inerentes ao <i>bios</i>. Al&eacute;m disso, esta no&ccedil;&atilde;o implicava o estabelecimento de   certa inquietude diante da busca da verdade sugerida pela contempla&ccedil;&atilde;o como   condi&ccedil;&atilde;o para o sentimento de paz.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Arendt (2010), ao introduzir uma ideia de <i>vida   activa</i>, distancia-se dos gregos, retirando-lhe esta no&ccedil;&atilde;o metaf&iacute;sica da   contempla&ccedil;&atilde;o e incluindo tanto o trabalho como a obra como fazendo parte da   condi&ccedil;&atilde;o humana, rompendo inclusive com um sentido negativista que a no&ccedil;&atilde;o   grega trazia, j&aacute; que esta sensa&ccedil;&atilde;o de incompletude, proposta por eles, produzia   este estado.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">&nbsp;A condi&ccedil;&atilde;o humana, portanto, comp&otilde;e a&ccedil;&atilde;o,   trabalho e obra numa an&aacute;lise arendtiana e a primeira marca a distin&ccedil;&atilde;o do homem   em si mesmo, n&atilde;o apenas entre os outros. Isto significa dizer que a&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute;   simplesmente uma pr&aacute;tica relacionada &agrave; "mera exist&ecirc;ncia corp&oacute;rea" (ARENDT,   2010, p. 220), ela tem uma dimens&atilde;o pol&iacute;tica e relaciona-se &agrave; perspectiva da   liberdade e do discurso.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Pol&iacute;tica, para Arendt (2002), relaciona-se ao   conv&iacute;vio entre diferentes e n&atilde;o entre iguais, logo, ela n&atilde;o nivela, ao   contr&aacute;rio, marca a possibilidade do ato de compartilhar na diferen&ccedil;a. Ela   vincula sentido pol&iacute;tico &agrave; ideia de espontaneidade e liberdade humanas que s&atilde;o   capturadas e suspensas na l&oacute;gica dos regimes totalit&aacute;rios de governo dos   homens. Esta dimens&atilde;o pol&iacute;tica prescinde da esfera do humano e responde pela   imortalidade das a&ccedil;&otilde;es humanas assim como d&aacute; sentido &agrave; condi&ccedil;&atilde;o de todo   indiv&iacute;duo.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Sendo a&ccedil;&atilde;o e o discurso movimentos livres e   politicamente implicados, como eles podem se expressar num contexto de resgate   de ref&eacute;ns, se estamos num cen&aacute;rio de captura da liberdade de a&ccedil;&atilde;o? Digo   expressar, pois ela n&atilde;o est&aacute; ausente, na verdade, encontra-se impossibilitada   de manifesta&ccedil;&atilde;o. Isto porque o discurso circulante em tal configura&ccedil;&atilde;o parece   "ferido" na sua dimens&atilde;o pol&iacute;tica, na medida em que o que se diz &eacute; direcionado   a um fim planejado pela expectativa do cen&aacute;rio espetacular. Algu&eacute;m precisa   dizer para "salvar" como policial e algu&eacute;m precisa responder para "ser salvo"   da morte e entregar-se, obedientemente, aos tr&acirc;mites legais da pris&atilde;o. Toda   fala est&aacute; programada para esta finalidade, mesmo que se crie ou se recrie o   discurso, ele est&aacute; capturado pelo que se espera como desfecho.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Na l&oacute;gica da cena de resgate existe ent&atilde;o uma   esp&eacute;cie de julgamento, os discursos n&atilde;o s&atilde;o livres, s&atilde;o recheados de   direcionamentos que capturam, estabelecem, condenam, absolvem. Ali existe a   lei, o r&eacute;u, a v&iacute;tima e o p&uacute;blico que assiste, al&eacute;m de toda uma produ&ccedil;&atilde;o de   afetos variados. Neste cen&aacute;rio, toda diferen&ccedil;a n&atilde;o &eacute; compartilhada,   politicamente, j&aacute; que ela funciona como meio de separar e n&atilde;o de unir. Os   lugares se intercambiam para confirmar suas fronteiras; os destinos j&aacute; est&atilde;o   certos: pris&atilde;o, cadeia, salvamento ou morte; n&atilde;o h&aacute; outras possibilidades. At&eacute;   mesmo a vida do ref&eacute;m liberto &eacute; capturada pelos tr&acirc;mites legais, depoimentos,   testemunhos, avalia&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica. Toda a logica de um dispositivo nos moldes   foucaultianos.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Dir&iacute;amos que o cen&aacute;rio acima seria uma forma   de "julgamento-espet&aacute;culo<i>"</i> (ARENDT, 2013, p. 19), termo utilizado pela   autora para se referir ao julgamento de Eichmann. Trata-se de um julgamento   diferente do comum, segundo ela, onde se espera que haja o cumprimento rigoroso   de um roteiro da exposi&ccedil;&atilde;o do que foi feito e como foi realizado. A reuni&atilde;o de   pessoas que ali se d&aacute; assim acontece para evidenciar a necessidade de punir o   r&eacute;u pelo que fez e n&atilde;o pelo que os outros sofreram. Isto revela que a evid&ecirc;ncia   na a&ccedil;&atilde;o do criminoso o assemelha &agrave; figura do her&oacute;i numa pe&ccedil;a teatral comum,   segundo a autora. Contudo, todo este "hero&iacute;smo" decai com o desenrolar dos   depoimentos relativos &agrave;s atrocidades praticadas no contexto concentracion&aacute;rio,   tornados pe&ccedil;as fundamentais de um espet&aacute;culo sangrento. Arendt (2013) rompe com   uma concep&ccedil;&atilde;o ontol&oacute;gica do mal e introduz uma no&ccedil;&atilde;o de banalidade do mal como   um tipo de produ&ccedil;&atilde;o compartilhada pelo cego cumprimento do dever, exemplificado   pela postura de Eichmann. Este &uacute;ltimo, sendo acusado como mandante executor da   operacionaliza&ccedil;&atilde;o das c&acirc;maras de g&aacute;s contra os judeus, portava-se de tal forma   a demonstrar uma clara banaliza&ccedil;&atilde;o de suas a&ccedil;&otilde;es que, a seu ver, nada mais eram   do que fruto de uma obriga&ccedil;&atilde;o para com o que era confiado a ele e esperado que   fizesse.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">O uso do termo "plateia" como compondo o   cen&aacute;rio da sala de audi&ecirc;ncia &eacute; curioso quando a autora em destaque o associa ao   espa&ccedil;o onde tudo se realiza, havendo, pois, algo teatral processando-se ali,   uma esp&eacute;cie de espet&aacute;culo, segundo ela.</font></p>     <blockquote>       <p><font face="verdana" size="2">Um     julgamento-espet&aacute;culo, mais ainda do que um julgamento comum, precisa de um     roteiro limitado e bem-definido daquilo que foi feito e de como foi feito. No     centro de um julgamento s&oacute; pode estar aquele que fez algo - nesse sentido &eacute; que     ele &eacute; compar&aacute;vel ao her&oacute;i de uma pe&ccedil;a de teatro -, e se ele sofre, deve sofrer     pelo que fez, n&atilde;o pelo que os outros sofreram (ARENDT, 2013, p. 19).</font></p> </blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">Trabalhando a cena espetacular por Arendt (2013)   alguns fatores se destacam a partir do que ela chama de "li&ccedil;&otilde;es" para o mundo   inteiro, para todos os povos. Uma delas seria esclarecer a todos como milh&otilde;es   de pessoas s&atilde;o condenadas &agrave; morte por certo grupo, no caso os nazistas, n&atilde;o   importando idade, apenas por serem judias; uma segunda li&ccedil;&atilde;o seria querer que o   mundo todo soubesse para que com isso se produzisse a vergonha como um tipo de   sentimento universal a ser partilhado, uma vez que o julgamento de Eichmann   daria mais publicidade ao ato nefasto da chamada solu&ccedil;&atilde;o final; e uma terceira   seria alertar o povo israelense para as diferen&ccedil;as entre morrer de forma   passiva e ser derrotado enfrentando o inimigo corajosamente. </font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Em contrapartida, segundo Arendt (2013), tais   li&ccedil;&otilde;es, por sua vez, n&atilde;o foram por si s&oacute; suficientes para justificar a acusa&ccedil;&atilde;o   de Eichmann e sua consequente condena&ccedil;&atilde;o, pois se assim o fosse seu julgamento   seria incipiente. Era preciso ser mais estrat&eacute;gico. Para isso, ent&atilde;o, houve a   estimula&ccedil;&atilde;o do estreitamento dos la&ccedil;os entre comunidades judias, incluindo as   alem&atilde;s, e a burocracia nazista; o que foi feito a partir da eclos&atilde;o da guerra,   nos primeiros momentos de implanta&ccedil;&atilde;o do regime de Hitler.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Consequentemente, com o desenvolvimento do   regime, isto passou a gerar conflitos na comunidade judaica, que se viu diante   de um dilema: auxiliar seu povo a escapar ou os nazistas a deport&aacute;-los? Havia   um risco em ajudar aquele que parecia amigo e inimigo, ao mesmo tempo. Tal   confus&atilde;o era estrat&eacute;gica, j&aacute; que o povo judeu se fortalecia intensamente na   chamada "consci&ecirc;ncia judaica<i>"</i> (ARENDT, 2013, p. 21) e esta realidade   facilitaria um processo de instala&ccedil;&atilde;o de um tipo de passividade ordeira; em   prol deste tipo de identidade nacional. Os nazistas sabiam que implantar esta   forma de obedi&ecirc;ncia cega constitu&iacute;a uma das primeiras estrat&eacute;gias para se   derrotar um inimigo.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Sobre o exposto acima, destacamos as coloca&ccedil;&otilde;es   de Rousset (apud ARENDT, 2013), ex-prisioneiro de Buchenwald:</font></p>     <blockquote>       <p><font face="verdana" size="2">O triunfo da SS exige     que a v&iacute;tima torturada permita ser levada &agrave; ratoeira sem protestar, que ela     renuncie e se abandone a ponto de deixar de afirmar sua identidade. E n&atilde;o &eacute; por     nada. N&atilde;o &eacute; gratuitamente, nem por mero sadismo, que os homens da SS desejam     sua derrota. Eles sabem que o sistema que consegue destruir suas v&iacute;timas antes     que elas subam ao cadafalso &eacute; incomparavelmente melhor para manter todo um povo     em escravid&atilde;o (p. 22).</font></p> </blockquote>     <p><font face="verdana" size="2">Articulando tudo isso com nosso foco de   estudo, poder&iacute;amos dizer que a cena com ref&eacute;ns se processa diante de uma   plateia? Creio que sim e ainda parece agenciar uma s&eacute;rie de elementos similares   a de um "julgamento-espet&aacute;culo", no entanto, com uma diferen&ccedil;a inicial: o   captor ou tomador pratica um crime, amea&ccedil;a algu&eacute;m, o fato n&atilde;o &eacute; presum&iacute;vel.   Isto muda tudo na &oacute;tica policial - n&atilde;o h&aacute; o que questionar quanto a sua   puni&ccedil;&atilde;o. Outro fator: a cena do resgate produziria certas li&ccedil;&otilde;es? Tamb&eacute;m creio   que sim, j&aacute; que pelos meios de comunica&ccedil;&atilde;o e pelas a&ccedil;&otilde;es policiais, ela veicula   informa&ccedil;&otilde;es, mensagens diversas que s&atilde;o capturadas e capturadoras, ao mesmo   tempo, deixando rastros, produzindo afetos variados, controlando as massas.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="3"><b>O RESGATE DE REF&Eacute;NS COMO UM ESPET&Aacute;CULO COMPLEXO</b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Relacionando as contribui&ccedil;&otilde;es te&oacute;ricas at&eacute;   aqui expostas com nosso tema, podemos propor algumas reflex&otilde;es preliminares   acerca de certos aspectos observados pela experi&ecirc;ncia no acompanhamento de   ocorr&ecirc;ncias com ref&eacute;ns. A principal delas se refere &agrave; exposi&ccedil;&atilde;o de um r&eacute;u, no   caso o tomador, que durante a ocorr&ecirc;ncia comete um ato que o condena, segundo a   legisla&ccedil;&atilde;o penal de nossa sociedade atual. O crime cometido, explicitado pela inten&ccedil;&atilde;o   clara em matar ou ferir coagindo o ref&eacute;m, j&aacute; faz com que ele atravesse o muro   de inocente a culpado. Na cena supliciar, do s&eacute;culo XVIII, conforme an&aacute;lise   foucaultiana, tamb&eacute;m se destaca a figura de um condenado que &eacute; identificado   como transgressor da lei.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">Outro fator diz respeito &agrave; publicidade do   crime cometido, todos podem ver, acabam tomando conhecimento midi&aacute;tico e   global. A pr&aacute;tica do crime &eacute; em tempo real, ningu&eacute;m duvida quem seja o autor e   isso confirma a veracidade t&atilde;o buscada sobre quem cometeu; ali n&atilde;o &eacute; preciso   cassar o criminoso, ele est&aacute; "espontaneamente" se anunciando. No caso do   supliciado, ele precisava confessar a falta, assumir perante Deus e os homens;   o tomador confessa pelos atos e assume para a pol&iacute;cia, a sociedade, o Estado e   o pr&oacute;prio mundo.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Quanto a internalizar a puni&ccedil;&atilde;o como certeza,   o tomador parece, muitas vezes, fazer algu&eacute;m de ref&eacute;m porque sabe que vai ser   punido ou morto, de uma forma ou de outra. Esta postura sugere controv&eacute;rsias,   por&eacute;m parece coerente com o fato de quem acabou de ser pego em flagrante de   assalto, por exemplo. Dito de outra maneira, o indiv&iacute;duo deve pensar: "j&aacute; que   me pegaram roubando, para me defender da morte ou da pris&atilde;o, fa&ccedil;o o outro de   ref&eacute;m." Curioso notar que a pr&aacute;tica do crime amea&ccedil;ador contra a vida de outrem   &eacute;, ao mesmo tempo, ve&iacute;culo de acusa&ccedil;&atilde;o e de expectativa de prote&ccedil;&atilde;o da vida   daquele que o comete.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">H&aacute; ocorr&ecirc;ncias com ref&eacute;ns em que o tomador &eacute;   executado publicamente, como foi o caso do assalto a uma farm&aacute;cia na Tijuca, em   setembro de 2009. Via-se ent&atilde;o o tomador portando uma granada na m&atilde;o, fazendo   uma mulher de ref&eacute;m por cerca de 40 minutos aproximadamente. Um atirador de   elite cursado pelo BOPE, integrante do batalh&atilde;o da &aacute;rea (6&ordm; BPM), agindo   conforme comando, efetuou um disparo que atingiu a cabe&ccedil;a do assaltante; este veio   a falecer no caminho do hospital. As not&iacute;cias foram veiculadas pela m&iacute;dia, em   cadeia nacional, e recebeu opini&otilde;es de apoio por parte de alguns da opini&atilde;o   p&uacute;blica. N&atilde;o houve aqui um processo meticuloso de infligir dor paulatina ao   tomador e tamb&eacute;m n&atilde;o podemos negar que havia um movimento na dire&ccedil;&atilde;o de   preservar sua vida, contudo, as modula&ccedil;&otilde;es ao longo da ocorr&ecirc;ncia v&atilde;o variando,   e em outro espa&ccedil;o, pretendemos estud&aacute;-las. Analisando as manifesta&ccedil;&otilde;es de   aprova&ccedil;&atilde;o &agrave; a&ccedil;&atilde;o policial bem como as alega&ccedil;&otilde;es da pr&oacute;pria pol&iacute;cia sobre os   motivos do desfecho, percebemos que o que h&aacute; de comum entre elas refere-se &agrave;   naturaliza&ccedil;&atilde;o do espet&aacute;culo - a aceita&ccedil;&atilde;o cabal da execu&ccedil;&atilde;o da vida humana.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Em Foucault (2006), ainda vimos como um saber   sobre o outro nasce e classifica quem est&aacute; fora ou dentro da legisla&ccedil;&atilde;o   jur&iacute;dica num dado contexto. Classifica para se firmar como verdade, e a conduta   do indiv&iacute;duo delinquente confirma uma necessidade de a&ccedil;&atilde;o sobre ele para que   sejam produzidos coisas e lugares - do que transgride, daquele que corrige, de   quem aplica a lei e de quem a ela se submete. Esta forma de processar verdades,   nos diferentes &acirc;mbitos do saber, pode ser destacada neste trecho do texto   foucaultiano. </font></p>     <blockquote>       <p><font face="verdana" size="2">A forma&ccedil;&atilde;o regular do     discurso pode integrar sob certas condi&ccedil;&otilde;es e at&eacute; certo ponto, os procedimentos     do controle (&eacute; o que se passa, por exemplo, quando uma disciplina toma forma e     estatuto de discurso cient&iacute;fico); e inversamente, as figuras do controle podem     tomar corpo no interior de uma forma&ccedil;&atilde;o discursiva (FOUCAULT, 2001, p. 66).</font></p> </blockquote>     <p><font face="verdana" size="2">Outro aspecto diz respeito aos sentimentos.   Os afetos de medo e a esperan&ccedil;a j&aacute; foram muito bem analisados por Spinoza   (2009) como meios de estrat&eacute;gia de governo, em seus escritos sobre a &eacute;tica e a   pol&iacute;tica. O fil&oacute;sofo holand&ecirc;s amplia nossa concep&ccedil;&atilde;o acerca destas duas   maneiras de governar na medida em que as articula com a din&acirc;mica dos afetos e   seus derivados.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Spinoza (2009), em seus estudos sobre a <i>&Eacute;tica</i>,   destaca o medo como ve&iacute;culo de entorpecimento da capacidade de discernir, j&aacute;   que captura o indiv&iacute;duo num tipo de modo de sentir e pensar que tende a   afast&aacute;-lo de seu agir (ato pol&iacute;tico). Agir se associa a uma ideia de autonomia   e liberdade, aspectos subjetivos que auxiliam os homens a n&atilde;o serem   subestimados pelas supersti&ccedil;&otilde;es. Para ele, os afetos tristes tais como o medo   s&atilde;o produtores e condutores de distor&ccedil;&otilde;es na forma de se relacionar com as   coisas e os outros homens. Logo, em seu <i>Tratado Pol&iacute;tico</i>, Spinoza (2009)   amplia esta discuss&atilde;o dizendo que o medo tende a favorecer o afastamento da capacidade   pol&iacute;tica do homem de agir "sob a jurisdi&ccedil;&atilde;o de si pr&oacute;prio" (SPINOZA, 2009, p. 17).</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Batista (2003) aprofunda o assunto sobre a produ&ccedil;&atilde;o   do medo na nossa cidade a partir de um recorte hist&oacute;rico espec&iacute;fico do s&eacute;culo   XIX. A fabrica&ccedil;&atilde;o do sentimento de inseguran&ccedil;a social aliado &agrave; forma judicial   de tratamento dos delitos relaciona-se diretamente com a aboli&ccedil;&atilde;o da popula&ccedil;&atilde;o   escrava, que passou a ser considerada uma classe potencialmente perigosa. Isto,   por sua vez, tornou-se um meio de justificar um tipo de policiamento   desrespeitoso aos direitos fundamentais do ser humano. Toda esta l&oacute;gica,   segundo a autora, teve como base a expans&atilde;o das ideias positivistas, o chamado   patrimonialismo e racismo, &agrave; &eacute;poca.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Numa opera&ccedil;&atilde;o policial como a que estamos   tratando aqui, o medo &eacute; um dos sentimentos mais frequentes, tomando a   experi&ecirc;ncia como base, uma vez que a configura&ccedil;&atilde;o de situa&ccedil;&otilde;es com tomada de   ref&eacute;ns revela o qu&atilde;o perto se torna o pavor da imin&ecirc;ncia do morrer nestes   eventos. Trata-se da exibi&ccedil;&atilde;o de uma cena que paralisa muitos, conforme alguns   depoimentos. Parece congelar os &acirc;nimos de alguns e acender os de outros num   claro dinamismo afetivo, em que muitos sentimentos podem surgir.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">A visibilidade da cena parece reeditar aquele   sensor interno que nos diz: "Aten&ccedil;&atilde;o! A viol&ecirc;ncia est&aacute; aumentando", como uma   mensagem repetitiva que surge no c&eacute;rebro. Coimbra (2001), em seu trabalho sobre   viol&ecirc;ncia e criminaliza&ccedil;&atilde;o da pobreza, desenvolve uma an&aacute;lise bastante   pertinente acerca da atua&ccedil;&atilde;o policial neste contexto. Ela nos fala do valor da   produ&ccedil;&atilde;o midi&aacute;tica nas opera&ccedil;&otilde;es, garantindo a visibilidade dos discursos, das   pr&aacute;ticas, definindo falas oficiais, em suma, produzindo verdades sobre os fatos   e sobre quem estaria autorizado a falar sobre eles.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Este sensor pode ser tamb&eacute;m compreendido   atrav&eacute;s de um processo de "gest&atilde;o policial da vida" (BATISTA, 2012, p. 82).   Trata-se, pois, de um movimento cont&iacute;nuo de refor&ccedil;ar as for&ccedil;as policiais como   "salvadoras", um tipo de fabrica&ccedil;&atilde;o de "aura m&aacute;gica em torno da pol&iacute;cia" (BATISTA,   2012, p. 89). Esta an&aacute;lise nos sugere um tipo de vida fortemente esquadrinhada   pelas resolu&ccedil;&otilde;es policiais.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Nesta reflex&atilde;o alguns efeitos s&atilde;o produzidos,   merecendo destaque. Um deles &eacute; trazido por Birman (2009) a respeito do medo e   da inseguran&ccedil;a como formas de controle social transformados no nosso real <i>pathos</i>,   ou seja, a produ&ccedil;&atilde;o incessante de um estado de terror<i>. </i>Al&eacute;m disso,   gera-se um consequente descr&eacute;dito nas autoridades policiais.<i> </i>Uma   situa&ccedil;&atilde;o com ref&eacute;ns &eacute; um tipo de evento cuja cobran&ccedil;a sobre a pol&iacute;cia se potencializa   ao extremo, j&aacute; que exp&otilde;e publicamente sua capacidade de "salvar", de "resolver",   de "proteger"; algo que, no m&iacute;nimo, amea&ccedil;a sua estrutura de a&ccedil;&atilde;o quando o resultado   final n&atilde;o &eacute; socialmente satisfat&oacute;rio.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Encontramos recursos para pensar que nada mais   conveniente na din&acirc;mica do resgate de ref&eacute;ns e na fabrica&ccedil;&atilde;o desta sensa&ccedil;&atilde;o de   inseguran&ccedil;a social do que o homem "espectador" (DEBORD, 2003, p. 27). Nesta   ocorr&ecirc;ncia a visibilidade como necessidade parece ferver, paralisa pela m&iacute;dia.   No caso Elo&aacute;, por exemplo, o mundo parou por 100 horas, aproximadamente. A vida   parou para se tornar apenas o transcorrer deste caso num tipo de ang&uacute;stia   coletiva, compartilhada em quase 24 horas no ar, na internet, na televis&atilde;o,   onde fosse. O homem "espectador" precisa ser "alimentado".</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Outro aspecto refere-se &agrave; proposta vista na   rela&ccedil;&atilde;o entre espet&aacute;culo e mercadoria. Esta dimens&atilde;o parece bastante   interlocut&oacute;ria na medida em que vivemos, na cena do resgate, uma fabrica&ccedil;&atilde;o clara   de quem vence e quem perde, onde s&atilde;o agenciados lugares definidos e,   simultaneamente, intercambi&aacute;veis. O que isto significa? Definindo-se quem &eacute; a   lei e quem est&aacute; fora, determina-se ali o menos favorecido e o mais favorecido,   a v&iacute;tima e o algoz, as dicotomias pr&oacute;prias de um pensar social bin&aacute;rio, nos   moldes proposto por Deleuze (1998). Dicotomias estas que se op&otilde;em a um pensar   din&acirc;mico e nem um pouco aprior&iacute;stico da subjetividade. Na cena do resgate,   neste &acirc;mbito da mercadoria que se espetaculariza, &eacute; produzido um tipo unificado   de mercado da subjetividade, o bandido &eacute; um s&oacute;, o her&oacute;i tamb&eacute;m, o especialista,   o p&uacute;blico, por a&iacute; vai.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Arendt (2010), em sua obra <i>Sobre a   viol&ecirc;ncia</i>, nos permite reconhecer que a suspens&atilde;o hist&oacute;rica do nazismo e   dos regimes correlatos como o fascismo n&atilde;o suprimiu a l&oacute;gica de exterm&iacute;nio   presente nestes regimes. Tal l&oacute;gica, infelizmente, ainda permeia as sociedades   capitalistas, atravessando as diferentes institui&ccedil;&otilde;es, principalmente, as   policiais. Se no contexto de resgate de ref&eacute;ns ainda se preceitua a utiliza&ccedil;&atilde;o   do sacrif&iacute;cio da vida para salv&aacute;-la, mais que um contrassenso isto espelha a   engrenagem perigosa de toda uma insistente pol&iacute;tica de banaliza&ccedil;&atilde;o da vida e   elimina&ccedil;&atilde;o do direito de viver.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Os depoimentos de Eichmann, colhidos em seu   julgamento, e as justificativas dadas por ele mesmo para suas a&ccedil;&otilde;es, trazidos   por Arendt (2013), corroboram a tese proposta pela autora acerca desta   suspens&atilde;o da compreens&atilde;o da esfera pol&iacute;tica como inerente ao humano, j&aacute; que o   povo judeu passa a ser classificado como um tipo de grupo cuja obviedade do   pol&iacute;tico como inerente ao humano &eacute; retirada arbitrariamente. </font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Como exemplo, temos a pr&oacute;pria din&acirc;mica dos   campos de concentra&ccedil;&atilde;o que exp&otilde;e esta realidade tornando-a espetacular e, de   forma arbitr&aacute;ria, uma indignidade da vida, como se fosse poss&iacute;vel retirar do   homem aquilo que faz dele humano - sua dimens&atilde;o pol&iacute;tica. Os relatos de Levi   (2004) nos mostram os processos de rebaixamento deste humano, desde a maneira   de transportar os prisioneiros judeus at&eacute; as humilha&ccedil;&otilde;es da nudez, a tatuagem   num&eacute;rica, afrontando os valores culturais, religiosos e arbitrando um poder   invasor sobre o corpo do outro. A banaliza&ccedil;&atilde;o da morte e os rituais de   espet&aacute;culo das "cerim&ocirc;nias" de chamada p&uacute;blica para verifica&ccedil;&atilde;o e contagem; o   com&eacute;rcio de talheres, pelos soldados nazistas, que pertenciam aos pr&oacute;prios   indiv&iacute;duos antes da captura pela Gestapo. Por fim, toda uma engrenagem de   transforma&ccedil;&atilde;o dos homens em animais, como diz o escritor. </font></p>     <p><font face="verdana" size="2">At&eacute; que ponto n&atilde;o &eacute; feito o mesmo quando &eacute;   decidido que a &uacute;nica forma de salvar o ref&eacute;m &eacute; matando o tomador? Parece   desproporcional, mas estamos no terreno das reflex&otilde;es sobre que vida vale.   Matar devagar atrav&eacute;s dos processos dolorosos vistos em Auschwitz ou matar   bruscamente continua sendo tirar a vida. N&atilde;o queremos, com isso, condenar   meramente a a&ccedil;&atilde;o policial neste tipo de resgate, at&eacute; porque sabemos, pela   experi&ecirc;ncia, que n&atilde;o se trata de uma opera&ccedil;&atilde;o simples, desejamos sim ampliar as   reflex&otilde;es para desenvolver caminhos alternativos.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">O resgate de ref&eacute;ns como espet&aacute;culo torna-se   complexo por v&aacute;rias raz&otilde;es, a primeira delas seria uma forma de atualiza&ccedil;&atilde;o em   potencial do poder de matar similar &agrave; &eacute;poca dos supl&iacute;cios, n&atilde;o mais t&atilde;o   evidente, por&eacute;m uma vez que a possibilidade de execu&ccedil;&atilde;o do tomador existe como   alternativa, n&atilde;o se pode descartar ou suspender, por completo, a pr&aacute;tica   pautada nesta l&oacute;gica.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">Pensando melhor, neste cen&aacute;rio produtor da   visibilidade reafirma-se atrav&eacute;s da cena do resgate mais do que lugares, mas,   infelizmente, uma esp&eacute;cie de identidades que se tornam fatais. Ali existe a   v&iacute;tima real e o criminoso confesso pela conduta il&iacute;cita. </font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Podemos   aproximar o exposto acima dos estudos trazidos por Rauter (2003) acerca da uma   insist&ecirc;ncia em se justificar uma suposta negatividade origin&aacute;ria no indiv&iacute;duo,   associada a um aumento constante de processos de encarceramento, como se a   pris&atilde;o fosse solu&ccedil;&atilde;o indiscut&iacute;vel. A autora percorre as contribui&ccedil;&otilde;es   freudianas e reichianas nos esclarecendo algumas posi&ccedil;&otilde;es ontol&oacute;gicas diferenciadas   de conceber o humano. Com as primeiras, por exemplo, encontramos uma ideia de   tend&ecirc;ncia b&aacute;sica destrutiva; e nas outras, uma proposta de suspender tal   posi&ccedil;&atilde;o epistemol&oacute;gica.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Outro fator que a cena de resgate nos   propicia, ainda neste racioc&iacute;nio, seria a perda da condi&ccedil;&atilde;o humana quando   existe de alguma maneira a morte como "solu&ccedil;&atilde;o" quase final, se n&atilde;o fosse a   devida proporcionalidade entre os diferentes tipos de regime totalit&aacute;rio e suas   espec&iacute;ficas nuances. No cen&aacute;rio do resgate n&atilde;o se trata de um campo de concentra&ccedil;&atilde;o   tal qual sabemos sobre ele, no entanto, o exterm&iacute;nio, mesmo que por uma "boa   causa", n&atilde;o foi exclu&iacute;do como recurso. Os depoimentos nazistas sobre o   holocausto tamb&eacute;m afirmavam que era por uma causa justa, um bem &agrave; humanidade.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">O aspecto de "julgamento-espet&aacute;culo"<i> </i>presente   nas ocorr&ecirc;ncias com ref&eacute;ns parece tamb&eacute;m evidenciar os mecanismos necess&aacute;rios &agrave;   transmiss&atilde;o de li&ccedil;&otilde;es: quais foram &agrave;quelas relativas ao caso do &ocirc;nibus 174? E   as outras televisionadas, em tempo real, ao vivo e em cores para todo o mundo?   Que verdades foram fabricadas a partir delas? </font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Por fim, surgem alguns impasses: como deixar   a vida que ali se apresenta, naquela circunst&acirc;ncia, morrer? Como n&atilde;o salv&aacute;-la?   Podemos dispensar a pol&iacute;cia e colocar o qu&ecirc;? Ser&aacute; que devemos reformular as   pr&aacute;ticas de resgate policial em novas maneiras de interven&ccedil;&atilde;o? Por outro lado,   como continuar agenciando dispositivos de controle sobre a vida atrav&eacute;s da   cria&ccedil;&atilde;o de especialistas e peritos no assunto que funcionam como pe&ccedil;as-chave do   espet&aacute;culo do salvamento, se viriam justamente a respaldar cientificamente o   trabalho policial e, por &uacute;ltimo, legitimar a l&oacute;gica da decis&atilde;o sobre matar ou   n&atilde;o? Haveria outras maneiras de inseri-los? Como os especialistas poderiam   atuar sem compactuar com a din&acirc;mica desta sociedade que espetaculariza a morte?   Estas e tantas outras comp&otilde;em o leque de quest&otilde;es a serem observadas e   revisitadas, continuamente.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="3"><b>CONSIDERA&Ccedil;&Otilde;ES FINAIS</b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Naturalizando-se a utiliza&ccedil;&atilde;o da morte como   instrumento poss&iacute;vel, nas ocorr&ecirc;ncias com ref&eacute;ns, como poder&iacute;amos resolver o   problema da sua preserva&ccedil;&atilde;o? N&atilde;o podemos negar que existe na cena do resgate uma   vida a ser mantida, contudo, a vida capturada n&atilde;o &eacute; apenas aquela fisicamente   exposta, na verdade, o que questionamos s&atilde;o os instrumentos de controle desta   vida, expressos na din&acirc;mica do espet&aacute;culo, inclusive na pr&aacute;tica de resgate de   ref&eacute;ns. </font></p>     <p><font face="verdana" size="2">A vida passa a ser agenciada como bem p&uacute;blico   a ser controlado pelo Estado, economicamente classificada. A pergunta que n&atilde;o   quer calar: quem vale mais: o ref&eacute;m ou o tomador? Podemos arbitrar um status &agrave;   vida humana? Alguns diriam, mas &eacute; um bandido, precisa ser morto! Outros diriam,   mas &eacute; um ser humano desequilibrado, precisa ser salvo! </font></p>     <p><font face="verdana" size="2">O fato ineg&aacute;vel &eacute; que diante de n&oacute;s, numa ocorr&ecirc;ncia   com ref&eacute;ns, h&aacute; vidas que est&atilde;o em risco, algum tipo de risco naquele momento.   Como lidar ent&atilde;o com isso? A resolu&ccedil;&atilde;o da preserva&ccedil;&atilde;o da integridade f&iacute;sica   como finalidade prec&iacute;pua n&atilde;o resolve o problema da qualifica&ccedil;&atilde;o da vida como   mais ou menos digna, afinal, a vida se resume ao aspecto biol&oacute;gico? Somente   esta vida que deve ser mantida? </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">O problema ainda est&aacute; no fato de que "salvar"   a todos os que ali est&atilde;o envolvidos n&atilde;o implica retirar da cena p&uacute;blica o velho   jogo de quem deve ou n&atilde;o viver, que tipo de vida se considera v&aacute;lido, e o que &eacute;   pior, querendo deixar sempre claro quem determina isso.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="3"><b>REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">ARENDT,   Hanna. A condi&ccedil;&atilde;o humana. In: <i>A Condi&ccedil;&atilde;o Humana</i>. Rio de Janeiro: Forense   universit&aacute;ria, 2010, p. 8-25.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5190466&pid=S2178-700X201300020000700001&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">_____. <i>Eichmann   em Jerusal&eacute;m</i>. S&atilde;o Paulo: Companhia das Letras, 2013.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5190468&pid=S2178-700X201300020000700002&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">_____. <i>O   que &eacute; pol&iacute;tica? </i>Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5190470&pid=S2178-700X201300020000700003&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">_____. <i>Sobre   a viol&ecirc;ncia</i>. Rio de Janeiro: Civiliza&ccedil;&atilde;o Brasileira, 2010.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5190472&pid=S2178-700X201300020000700004&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">BATISTA,   Vera. O Alem&atilde;o &eacute; muito mais complexo. In: <i>Paz Armada</i>. Rio de Janeiro:   Revan, 2012, p. 55-102.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5190474&pid=S2178-700X201300020000700005&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">____. <i>O   medo na cidade do Rio de Janeiro.</i> Rio de Janeiro: Revan, 2003.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5190476&pid=S2178-700X201300020000700006&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">BIRMAN,   Joel. Introdu&ccedil;&atilde;o. In: <i>Cadernos sobre o mal</i>: agressividade, viol&ecirc;ncia,   crueldade. Rio de Janeiro: Civiliza&ccedil;&atilde;o Brasileira, 2009, p. 10-11.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5190478&pid=S2178-700X201300020000700007&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">COIMBRA,   Cec&iacute;lia. A m&iacute;dia produzindo subjetividades. In: <i>Opera&ccedil;&atilde;o Rio: o mito das     classes perigosas: </i>um estudo sobre a viol&ecirc;ncia urbana, a m&iacute;dia impressa e   os discursos de seguran&ccedil;a p&uacute;blica<i>. </i>Niter&oacute;i: Oficina do autor, 2001, p.   29-75.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5190480&pid=S2178-700X201300020000700008&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">DEBORD,   Guy. <i>Sociedade do Espet&aacute;culo</i>. Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.geocities.com/projetoperiferia. 2003" target="_blank">www.geocities.com/projetoperiferia.     2003</a>. Acesso em: 15 jan. 2014.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5190482&pid=S2178-700X201300020000700009&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">DELEUZE,   Gilles; GUATTARI, Felix. <i>Mil Plat&ocirc;s</i>. <i>Capitalismo e Esquizofrenia.</i> Rio de Janeiro: Editora 34, 1995, v. 1.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5190484&pid=S2178-700X201300020000700010&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">DELEUZE,   Gilles. <i>Di&aacute;logos</i>. S&atilde;o Paulo: Escuta, 1998.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5190486&pid=S2178-700X201300020000700011&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">FOUCAULT,   Michel. Supl&iacute;cio. In: <i>Vigiar e Punir</i>. <i>Hist&oacute;ria da viol&ecirc;ncia nas     pris&otilde;es,</i> 1&ordf; parte. Petr&oacute;polis, Rio de Janeiro: Vozes, 2006, p. 9-56.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5190488&pid=S2178-700X201300020000700012&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">_____. <i>A Ordem do Discurso</i>. S&atilde;o Paulo: Edi&ccedil;&otilde;es Loyola, 2001.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5190490&pid=S2178-700X201300020000700013&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">GUATTARI, Felix. <i>Micropol&iacute;ticas: </i>C<i>artografias   do Desejo</i>. Petr&oacute;polis: Vozes, 2010. 172 p.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5190492&pid=S2178-700X201300020000700014&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">_____. <i>Caosmose</i>. Rio de Janeiro: Editora 34, 2012.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5190494&pid=S2178-700X201300020000700015&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">LEVI,   Primo. <i>Os afogados e os sobreviventes</i>. S&atilde;o Paulo: Paz e Terra, 2004.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5190496&pid=S2178-700X201300020000700016&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">RAUTER, Cristina. A produ&ccedil;&atilde;o   social do negativo. <i>Psicologia Cl&iacute;nica</i>. Rio de Janeiro, Pontif&iacute;cia   Universidade Cat&oacute;lica do Rio de Janeiro. Centro de Teologia e Ci&ecirc;ncias Humanas,   Departamento de Psicologia, v. 15, n. 1, p. 107-120, 2003.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5190498&pid=S2178-700X201300020000700017&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">SPINOZA.   A servid&atilde;o humana ou a for&ccedil;a dos afetos. In: <i>&Eacute;tica</i>. Belo Horizonte: Aut&ecirc;ntica,   2009, p. 153-210.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5190500&pid=S2178-700X201300020000700018&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">_____. <i>Tratado   Pol&iacute;tico</i>. S&atilde;o Paulo: Martins Fontes, 2009, p. 16-17.    &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;[&#160;<a href="javascript:void(0);" onclick="javascript: window.open('/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5190502&pid=S2178-700X201300020000700019&lng=','','width=640,height=500,resizable=yes,scrollbars=1,menubar=yes,');">Links</a>&#160;]<!-- end-ref --> </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="2">Recebido   em: 20/10/2013    <br> </font><font face="verdana" size="2">Aceito para publica&ccedil;&atilde;o em: 10/12/2013</font></p>      ]]></body>
<back>
<ref-list>
<ref id="B1">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[ARENDT]]></surname>
<given-names><![CDATA[Hanna]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A condição humana]]></article-title>
<source><![CDATA[A Condição Humana]]></source>
<year>2010</year>
<page-range>8-25</page-range><publisher-loc><![CDATA[Rio de Janeiro ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Forense universitária]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B2">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[ARENDT]]></surname>
<given-names><![CDATA[Hanna]]></given-names>
</name>
</person-group>
<person-group person-group-type="editor">
<name>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Eichmann em Jerusalém]]></source>
<year>2013</year>
<publisher-loc><![CDATA[São Paulo ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Companhia das Letras]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B3">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[ARENDT]]></surname>
<given-names><![CDATA[Hanna]]></given-names>
</name>
</person-group>
<person-group person-group-type="editor">
<name>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[O que é política?]]></source>
<year>2002</year>
<publisher-loc><![CDATA[Rio de Janeiro ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Bertrand Brasil]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B4">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[ARENDT]]></surname>
<given-names><![CDATA[Hanna]]></given-names>
</name>
</person-group>
<person-group person-group-type="editor">
<name>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Sobre a violência]]></source>
<year>2010</year>
<publisher-loc><![CDATA[Rio de Janeiro ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Civilização Brasileira]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B5">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[BATISTA]]></surname>
<given-names><![CDATA[Vera]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[O Alemão é muito mais complexo]]></article-title>
<source><![CDATA[Paz Armada]]></source>
<year>2012</year>
<page-range>55-102</page-range><publisher-loc><![CDATA[Rio de Janeiro ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Revan]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B6">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[BATISTA]]></surname>
<given-names><![CDATA[Vera]]></given-names>
</name>
</person-group>
<person-group person-group-type="editor">
<name>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[O medo na cidade do Rio de Janeiro]]></source>
<year>2003</year>
<publisher-loc><![CDATA[Rio de Janeiro ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Revan]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B7">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[BIRMAN]]></surname>
<given-names><![CDATA[Joel]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Introdução]]></article-title>
<source><![CDATA[Cadernos sobre o mal: agressividade, violência, crueldade]]></source>
<year>2009</year>
<page-range>10-11</page-range><publisher-loc><![CDATA[Rio de Janeiro ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Civilização Brasileira]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B8">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[COIMBRA]]></surname>
<given-names><![CDATA[Cecília]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A mídia produzindo subjetividades]]></article-title>
<source><![CDATA[Operação Rio: o mito das classes perigosas: um estudo sobre a violência urbana, a mídia impressa e os discursos de segurança pública]]></source>
<year>2001</year>
<page-range>29-75</page-range><publisher-loc><![CDATA[Niterói ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Oficina do autor]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B9">
<nlm-citation citation-type="">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[DEBORD]]></surname>
<given-names><![CDATA[Guy]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Sociedade do Espetáculo]]></source>
<year></year>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B10">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[DELEUZE]]></surname>
<given-names><![CDATA[Gilles]]></given-names>
</name>
<name>
<surname><![CDATA[GUATTARI]]></surname>
<given-names><![CDATA[Felix]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Mil Platôs. Capitalismo e Esquizofrenia]]></source>
<year>1995</year>
<volume>1</volume>
<publisher-loc><![CDATA[Rio de Janeiro ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Editora 34]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B11">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[DELEUZE]]></surname>
<given-names><![CDATA[Gilles]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Diálogos]]></source>
<year>1998</year>
<publisher-loc><![CDATA[São Paulo ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Escuta]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B12">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[FOUCAULT]]></surname>
<given-names><![CDATA[Michel]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Suplício]]></article-title>
<source><![CDATA[Vigiar e Punir: História da violência nas prisões, 1ª parte]]></source>
<year>2006</year>
<page-range>9-56</page-range><publisher-loc><![CDATA[PetrópolisRio de Janeiro ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Vozes]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B13">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[FOUCAULT]]></surname>
<given-names><![CDATA[Michel]]></given-names>
</name>
</person-group>
<person-group person-group-type="editor">
<name>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[A Ordem do Discurso]]></source>
<year>2001</year>
<publisher-loc><![CDATA[São Paulo ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Edições Loyola]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B14">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[GUATTARI]]></surname>
<given-names><![CDATA[Felix]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Micropolíticas: Cartografias do Desejo]]></source>
<year>2010</year>
<publisher-loc><![CDATA[Petrópolis ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Vozes]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B15">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[GUATTARI]]></surname>
<given-names><![CDATA[Felix]]></given-names>
</name>
</person-group>
<person-group person-group-type="editor">
<name>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Caosmose]]></source>
<year>2012</year>
<publisher-loc><![CDATA[Rio de Janeiro ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Editora 34]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B16">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[LEVI]]></surname>
<given-names><![CDATA[Primo]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Os afogados e os sobreviventes]]></source>
<year>2004</year>
<publisher-loc><![CDATA[São Paulo ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Paz e Terra]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B17">
<nlm-citation citation-type="journal">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[RAUTER]]></surname>
<given-names><![CDATA[Cristina]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A produção social do negativo]]></article-title>
<source><![CDATA[Psicologia Clínica]]></source>
<year>2003</year>
<volume>15</volume>
<numero>1</numero>
<issue>1</issue>
<page-range>107-120</page-range><publisher-loc><![CDATA[Rio de Janeiro ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Centro de Teologia e Ciências Humanas, Departamento de Psicologia]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B18">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[SPINOZA]]></surname>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A servidão humana ou a força dos afetos]]></article-title>
<source><![CDATA[Ética]]></source>
<year>2009</year>
<page-range>153-210</page-range><publisher-loc><![CDATA[Belo Horizonte ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Autêntica]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B19">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[SPINOZA]]></surname>
</name>
</person-group>
<person-group person-group-type="editor">
<name>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Tratado Político]]></source>
<year>2009</year>
<page-range>16-17</page-range><publisher-loc><![CDATA[São Paulo ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Martins Fontes]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
</ref-list>
</back>
</article>
