Caro leitor, será possível concluir nossa odisseia da psique rumo à gratidão? A vida terá uma chance? E o amor e a beleza? É possível ouvir a música da alma?
Gostaria de manifestar minha profunda gratidão pela oportunidade de uma “publica-ação” para alcançar você, que seguiu a nossa odisseia até aqui. Faço do sentimento de gratidão um tesouro que nos estimula a ir além, acreditar no potencial da psicanálise de cada um rumo à esperança, na abertura a conjunções em expansão (expressão criada por mim enquanto escrevo esta Carta), a vários Eurekas.
Nessa dialética, agradeço a cada autor que enriqueceu a Ide ao contribuir e trazer sua íntima odisseia e tornando-a generosamente de domínio público. Somos parteiros, mediadores de ideias, como dizia Freud, somos movidos por nossos sonhos, pela livre associação. Afinal quem cria quem? Os personagens, assim como os leitores, criam a nossa revista? Deixamos nossos analisandos entrarem em nossa mente?
Difícil a escolha de um tema e, é claro, impossível abranger tudo e agradar a todos, o inconsciente e a cultura são infinitos, e assim são os nossos anseios. Não escolhemos temas muito abordados por outras revistas para enfatizar a contraparte psíquica de assuntos tão atuais e ao mesmo tempo tão antigos. Afinal, como dizia Tomasi di Lampedusa no seu famoso romance, O leopardo: “Se queremos que tudo permaneça como é, é necessário que tudo mude”. A psicanálise vai na contramão do binarismo, das divisões fanáticas e do ódio à dor de ter que lidar com a natural diversidade do ser humano. A alteridade está dentro de nós mesmos e, por que não, entre os psicanalistas?
Com a finalidade de abordar de maneira ampla e para enfatizar a relação entre vida mental, arte e cultura, optamos por seguir Ulisses em sua odisseia em busca da origem, essência. Inspiramo-nos em poetas e sugerimos: “A viagem de Ulisses”, “O olhar de Ulisses”, “Ode ao divino em ti. A travessia do herói entre crença e fé”, “Uma odisseia antropofágica”, “Guerra e Paz” e “O encontro entre o feminino e o masculino”.
O general Slim, durante a Segunda Guerra Mundial, formulou uma estratégia para terminar uma guerra com o recurso da poesia. Teremos condições de lidar com nossa própria destrutividade que, em seu auge, reverte-se sobre nós mesmos? A guerra das crenças de quem tem posse do deus melhor, pela razão, do “eu, eu, eu” que não ouve o não-eu.
Freud encantou-se com o “sentimento oceânico” proposto por Romain Rolland e utiliza a expressão em seu texto “O futuro de uma ilusão”, publicado em 1927. O sentimento oceânico é a experiência de transcendência ou de ligação com algo maior do que o eu individual. Sentir-se como um grão de areia diante da infinitude cósmica do universo, do mistério do próprio psiquismo. É possível manter a fé, ou é preciso refugiar-se na crença? Freud apontou à ilusão religiosa no sentido de repúdio à dor da condição humana de desamparo que leva à idealização, ao endeusamento, a substituir a dúvida pela crença em “verdades” e “certezas”. Para o psicanalista, fé é, sem dúvida, um bem maior do que crença.
Einstein dizia que utilizava a imaginação para criar suas fábulas. A atividade do cientista não é a descoberta, mas sim a criação, uma maneira de expressar a realidade infinita.
Inspirada por Michael Eigen, que tantas vezes cita a Cabala Luriânica, faço uma conjectura imaginativa: no Monte Sinai, naquele momento que Moisés recebeu os Dez Mandamentos, estariam presentes todos os anjos, todas as almas. Cada um recebeu o divino, a luz e a inspiração através de seu próprio canal. Em contato com o núcleo incomunicável do Eu que brilha (Winnicott), na experiência com o indizível, cada um percebe e interpreta através de sua Gestalt, pré-concepção, capacidade, apenas um vértice, um vislumbre da Verdade.
Conjecturei que estariam presentes representantes de todos os povos, todas as raças, gêneros e religiões, Budha, Jesus, políticos de direita e de esquerda, Galileu Galilei, Copérnico, Newton, Einstein, Oppenheimer, cientistas, poetas, artistas, Sócrates, Aristóteles e Platão, todos os filósofos. E, quem sabe, os próprios psicólogos e os psicanalistas, Freud, Jung, Adler, Green, Lacan, Winnicott, Bion. Como no mito de Babel, cada psicanalista “ouvia” uma dimensão da personalidade, afinal, estavam lá contemporaneamente os somitos e o velho bebê, o casal que nunca se casou, a moça triste da praça dentro do homem idoso, cada um com sua pequena e brilhante verdade.
Embalada por esse sonho, lembrei-me da história que contava na infância de minhas filhas. Numa noite escura e fria na floresta, uma pequena estrela cai do céu, e os animais, atraídos pela luz, aproximam-se em busca de reparo. Logo deparam com a condição de desamparo, a própria e a do outro, e tentam em vão ajudar a estrelinha, até que um grupo de mosquitos consegue levá-la de volta, e, assim, nasceram os primeiros vagalumes, vaga-lume, vaga luz bruxuleia… Viva a vida!
Obs. As propostas deverão ser encaminhadas à secretaria da revista até o dia 28/6/2024 para fabiana.santos@SBPSP.org.br
As orientações encontram-se em “Orientação editorial e normas para publicação de artigos e resenhas na revista Ide” no final da revista ou no site da SBPSP.
Podcast:https://open.spotify.com/episode/3SEg8HBQGaRya4z5Wfg2s4?si=VmVFycxhSIaN0wOeEIO7jQ













