O livro Mal-estar na civilização (Freud, 1930) alcançou grande repercussão e continua exercendo, ainda hoje, uma certa influência nas discussões sobre as dificuldades psicológicas inerentes à vida no ambiente cultural das sociedades contemporâneas.
Na época em que o livro foi escrito e publicado, a Teoria da Evolução ainda se encontrava em estágio rudimentar, e o complexo processo de seleção natural era representado de forma muito simplificada: ao longo das gerações biológicas, as condições ambientais determinariam as pressões seletivas, e estas, por sua vez, moldariam a estrutura genética dos animais e plantas. Assim, naqueles tempos, era corrente a ideia de que o meio ambiente físico moldou a estrutura genética dos seres humanos, e esta, por sua vez, foi utilizada na edificação da cultura.
No entanto, essa concepção sobre a evolução humana é cientificamente ultrapassada e insustentável à luz das evidências empíricas atualmente disponíveis. Hoje sabemos (Lumsden & Wilson, 1981/2005; Boyd & Richerson, 1985), por exemplo, que informações transmitidas por contato social já favoreciam reprodutivamente, há milhões de anos, alguns hominídeos em detrimento de outros e, portanto, influenciavam o processo de seleção natural dos nossos antepassados.
Desde o momento em que a primeira ferramenta de pedra foi inventada, há mais de 3 milhões de anos, os indivíduos mais inteligentes e destros, capazes de construí-la e usá-la, tiveram mais probabilidade de sobreviver e deixar descendentes do que os demais. A habilidade de fabricar e utilizar ferramentas de pedra não é genética: ela depende de técnicas construtivas complexas, que são aprendidas por contato social. Depois de sua invenção, passou a haver uma pressão seletiva que favorecia os grupos que conheciam técnicas mais eficientes de construção e utilização dessas ferramentas, bem como os indivíduos mais capazes de construí-las e utilizá-las. Assim, as pressões seletivas sobre os indivíduos não decorriam apenas de características do meio ambiente físico em que eles viviam, mas também do contexto cultural vigente em seu grupo.
Vemos então que, desde os primórdios da evolução humana, informações transmitidas por contato social já influenciavam a evolução genética dos nossos ancestrais, e reciprocamente: a evolução das capacidades inatas permitia inovações culturais antes impossíveis. Por exemplo, o controle do fogo exige considerável inteligência e destreza, muito além das capacidades dos primeiros hominídeos. O aumento gradual da capacidade cognitiva inata dos nossos ancestrais, porém, tornou possível essa inovação cultural, que ainda hoje é inacessível aos primatas não humanos.
Desse modo, ao longo de toda a nossa trajetória evolutiva, características genéticas e culturais interagiram entre si, com influências recíprocas permanentes: traços genéticos condicionavam a evolução cultural, e elementos culturais influenciavam a evolução genética. Nesse sentido, genética e cultura estão embaralhadas na nossa evolução há milhões de anos, influenciando-se mutuamente, e não é possível separar a evolução genética do homem da sua evolução cultural. Esse processo é denominado tecnicamente “coevolução gene-cultura” (Lumsden & Wilson, 1981/2005).
À luz da coevolução gene-cultura dos hominídeos, é equivocado considerar que toda a estrutura genética dos seres humanos é anterior ao advento da cultura, pois os traços genéticos exclusivamente humanos (que não compartilhamos com os outros primatas) foram assimilados ao mesmo tempo em que a cultura dos grupos sociais de hominídeos estava se desenvolvendo.
Mas o que dizer dos traços genéticos arcaicos, como o instinto sexual, que já estavam presentes na herança genética dos nossos ancestrais muito antes do ramo evolutivo dos seres humanos separar-se daqueles dos demais primatas?
Aqui, novamente, as versões iniciais da Teoria da Evolução por seleção natural não são capazes de descrever adequadamente o caso da evolução humana, pois ela ocorreu em um meio ambiente espacialmente heterogêneo, uma das situações não consideradas nas abordagens iniciais da Teoria.
Com efeito, o último ancestral comum entre os Homo sapiens e os chimpanzés (nosso parente evolutivo mais próximo) viveu há cerca de 6 milhões de anos, nas florestas equatoriais do continente africano. Nesse ambiente rico em recursos naturais, a melhor estratégia de sobrevivência é a organização em bandos territoriais e fortemente hierárquicos, comandados por um macho alfa. Essa forma de organização social ainda pode observada hoje entre os chimpanzés.
Por outro lado, os nossos ancestrais diretos (hoje cientificamente denominados “hominínios”) ocuparam também as savanas africanas, muito mais secas e pobres em recursos naturais do que as florestas da África central. Nas savanas, a única estratégia viável de sobrevivência para o bando é o nomadismo acompanhado de igualitarismo social, pois ela permite uma exploração econômica muito mais eficiente dos recursos esparsos e sazonais. Essa forma de organização social ainda pode ser observada em alguns grupos de caçadores-coletores modernos.
Devido a essa heterogeneidade espacial, a evolução biológica da espécie humana exigiu a adaptação tanto aos ambientes úmidos das florestas quanto à aridez das savanas, e assim nossos antepassados terminaram assimilando geneticamente, por seleção natural, predisposições inatas opostas aos instintos arcaicos, tornando ambivalente, em alto grau, a estrutura mental inata dos seres humanos modernos.
Em outras palavras, no longo processo evolutivo de ocupação das savanas africanas a partir das florestas equatoriais do continente, nossos antepassados assimilaram geneticamente, por seleção natural, predisposições comportamentais opostas aos instintos, e que hoje também fazem parte da estrutura mental inata da nossa espécie, ao lado dos instintos (Cortizo, 2023).
Uma espécie biológica tipicamente expande seu habitat para novas regiões geográficas por meio da assimilação genética, por seleção natural, das características necessárias à vida nessas novas regiões. No caso dos hominínios que ocuparam as savanas a partir das florestas, entretanto, não se trata de uma adaptação incremental a um ambiente ligeiramente diferente: a ocupação das savanas exigiu deles comportamentos sociais diametralmente opostos aos arcaicos.
Os primeiros hominínios viviam em florestas, em bandos organizados de forma instintiva, muito semelhante à dos atuais chimpanzés: competitivos, hierárquicos e belicosos. Esse tipo de organização social é uma estratégia evolutiva adequada para biomas ricos em recursos naturais, como é o caso das florestas africanas, em que é relativamente fácil encontrar água e comida ao longo de todo o ano. Nessas condições, um bando de chimpanzés é capaz de defender um território grande o bastante para garantir sua sobrevivência por meio da exploração exclusiva de seus recursos. No entanto, a defesa do território exige coesão do bando, que não pode se dispersar ao primeiro ataque de vizinhos hostis. Uma organização social hierárquica, encimada por um macho alfa, é capaz de manter essa coesão e assim garantir a sobrevivência do grupo. Essa estratégia territorial seguida pelos chimpanzés é viável desde que os recursos naturais não estejam muito dispersos espacialmente e não sejam muito sazonais, isto é, variáveis ao longo do ano.
O ambiente competitivo das florestas foi assimilado geneticamente como uma disposição inata para comportamentos individuais “egoístas”, de defesa de território e disputa por posições mais altas na hierarquia social, que favorecem a sobrevivência e a reprodução. Os indivíduos que abrem mão da disputa interna por poder tendem a deixar menos descendentes, e assim os comportamentos menos agressivos e menos competitivos são desfavorecidos pela seleção natural. Da mesma forma, bandos que não defendem seu território a todo custo tendem a perdê-lo para outros grupos mais agressivos e violentos, que terão acesso a mais recursos e, portanto, maiores chances de sobrevivência e reprodução.
Por outro lado, nas savanas africanas, os recursos naturais como água e comida estão dispersos por grandes regiões e tendem a ser mais sazonais. Dessa forma, um bando de hominínios não conseguiria defender permanentemente um território extenso o bastante para garantir sua sobrevivência no longo prazo. Por outro lado, um bando nômade de hominínios caçadores-coletores pode se deslocar em busca de água e alimento ao longo de todo o ano, de acordo com a disponibilidade sazonal destes recursos. Assim, a vida nas savanas exige o abandono do territorialismo e a adoção do nomadismo como forma básica de sobrevivência.
As relações entre bandos de caçadores-coletores nômades tendem a ser muito mais pacíficas, pois eles não precisam lutar para defender permanentemente um território fixo. Quando dois bandos se encontram, não há necessidade imediata de iniciarem uma guerra, e ambos os lados têm interesse em evitar os altos custos de um confronto violento. Mesmo que uma das partes assuma um comportamento hostil, a outra pode simplesmente fugir ou se dispersar. Ou seja, entre bandos nômades não existe a principal razão para as guerras: a defesa de território.
Consequentemente, a coesão do bando é menos relevante na vida nômade, pois não há necessidade de garantir uma população numerosa para manter a capacidade bélica do grupo. Desse modo, conflitos internos podem ser resolvidos pela divisão do bando ou pela simples transferência de alguns membros da sua população para outros grupos, e estas transferências são facilitadas pela ausência de hostilidade permanente entre bandos vizinhos. Nessas condições, nenhum macho pode se impor “tiranicamente” pela força, pois os membros do seu bando têm sempre a opção de simplesmente desertarem, sozinhos ou em grupo, sem se expor a situações de alto risco.
Em outras palavras, nas savanas sobrevivem apenas aqueles grupos mais eficientes na exploração dos recursos naturais, o que exige comportamentos sociais cooperativos, igualitários e pacíficos: compartilhamento de comida, troca de informações sobre a localização de recursos vitais, solidariedade.
Mas tais comportamentos “altruístas” não poderiam ser assimilados geneticamente no lugar dos instintos “egoístas” iniciais, pois isso desadaptaria os hominínios à vida nas florestas, onde também viviam grupos que compartilhavam a mesma estrutura genética. As duas predisposições comportamentais inatas opostas também não poderiam apenas se cancelar mutualmente, pois isso comprometeria a capacidade dos bandos de hominínios de sobreviverem tanto nas florestas quanto nas savanas.
Nesse cenário evolutivo complexo, em um meio ambiente altamente heterogêneo, a expansão do habitat florestal para as savanas terminou sendo viabilizada pelo advento da cultura: bandos com uma mesma carga genética podem adotar comportamentos sociais opostos, se eles forem transmitidos entre gerações por aprendizado social, e não pela via genética.
O surgimento da cultura, mesmo em um estado ainda rudimentar, foi decisivo na ocupação das savanas ao permitir que o nomadismo e o altruísmo começassem a ser assimilados geneticamente pelos hominínios, sem que eles substituíssem ou cancelassem as predisposições instintivas opostas (territorialismo e egoísmo), uma vez que a cultura assumiu a função de determinar, em cada grupo social, qual é a organização social mais adaptativa em cada meio ambiente específico.
Isso, porém, não significa que, nesse ponto da evolução humana, a cultura tenha substituído a genética na determinação dos comportamentos sociais: a cultura surgiu assumindo a função de influenciar qual das predisposições genéticas opostas deveria prevalecer em cada situação específica.
O papel evolutivo inicial da cultura não foi introduzir comportamentos sociais opostos aos instintivos; o que o sistema de herança cultural permitiu foi a assimilação genética de comportamentos opostos aos instintos originais dos hominínios. Assim, não se trata de um conflito entre instinto e cultura, mas sim da introjeção do conflito entre comportamentos sociais opostos (competição e cooperação) na nossa herança genética.
Comportamentos culturalmente definidos não seriam capazes de se opor abertamente a comportamentos instintivos se já não houvesse uma ambivalência inata, geneticamente codificada, entre os dois comportamentos opostos. Mesmo porque uma regra aprendida socialmente pode ser descumprida, sendo neste sentido mais fraca do que uma predisposição genética inequívoca, que tende a se manifestar como um comportamento automático.
O surgimento da cultura está associado ao início da ambivalência comportamental inata dos hominínios, e o desenvolvimento cultural posterior ocorreu concomitantemente ao aprofundamento dessa ambivalência genética (coevolução gene-cultura).
A concepção da mente inata dos seres humanos atuais como sendo essencialmente ambivalente em relação a comportamentos competitivos e cooperativos foi defendida pelo antropólogo e primatologista Christopher Boehm (1931-2021), com base em seus trabalhos de campo e na vasta literatura etnográfica (1989).
Segundo essa concepção, os seres humanos não seriam geneticamente egoístas nem altruístas, porém, as duas coisas ao mesmo tempo. Neste sentido, nós somos muito diferentes dos demais primatas ou de qualquer outro animal, que são congenitamente egoístas. Os cuidados parentais podem parecer altruístas, mas não o são no sentido estrito do termo: eles são simplesmente uma estratégia instintiva para garantir a reprodução dos seus próprios genes, resultado do processo evolutivo conhecido tecnicamente como “seleção de parentesco” (Hamilton, 1964; Smith, 1964).
Na época de Freud, não se sabia que a ambiguidade comportamental é um traço genético dos seres humanos. Quando se desconsidera que essa ambiguidade está codificada em nosso dna, é fácil incorrer no erro de acreditar que a cultura cria conflitos psicológicos nos indivíduos, impondo regras comportamentais opostas aos seus instintos. Essa concepção, porém, é equivocada, pois os conflitos comportamentais já foram assimilados geneticamente pelos nossos ancestrais há milhões de anos, fazendo hoje parte da nossa estrutura mental inata, por si só ambivalente e contraditória (Boehm, 1989).
Em geral, o ambiente cultural não cria os conflitos psicológicos: ao contrário, a cultura normalmente atua no sentido de facilitar a tomada de decisões, fornecendo diretrizes comportamentais baseadas em normas e valores sociais internalizados pelos indivíduos durante seu processo de socialização (Cortizo, 2023).
Com efeito, o ambiente cultural é essencial na manutenção do equilíbrio mental dos indivíduos, que em geral não têm consciência direta das forças psicológicas contraditórias que afetam seus comportamentos e seu bem-estar. Assim, a convivência social, mediada pelas normas e valores da sua sociedade, torna mais fácil para o indivíduo acomodar e equilibrar internamente essas forças contraditórias.
Sem um ambiente cultural estabilizador, o indivíduo tende a sentir as contradições internas entre suas predisposições genéticas como uma tensão psíquica insuportável, que o leva à apatia e ao imobilismo, ou que se resolve pela opção incondicional por uma das predisposições comportamentais opostas. Essa opção, porém, tende a reduzir a liberdade psíquica necessária para o pleno exercício da cognição e a continuidade do desenvolvimento mental do indivíduo.
No entanto, o ambiente cultural das sociedades humanas contemporâneas é muito dinâmico: nossa vida parece estar, cada vez mais, sujeita a um fluxo vertiginoso de inovações tecnológicas e comportamentais. Nessas transformações, podem ocorrer episódios em que o próprio ambiente cultural torna-se instável e volátil a ponto de passar a ser um fator desestabilizador na vida dos indivíduos.
Por exemplo, os processos de polarização política progressiva ao longo do eixo ideológico direita-esquerda, como vemos hoje no Brasil e nos Estados Unidos, são extremamente desfavoráveis ao equilíbrio psíquico da população. De fato, no ambiente politicamente polarizado, é relativamente fácil o indivíduo ser engolido pelo radicalismo do seu círculo social mais próximo, tornando-se ele próprio um extremista fanático.
Isso ocorre porque as ideologias de direita e esquerda estão associadas a formas arcaicas de organização social: o modelo defendido pelas ideologias de direta é muito semelhante ao dos grupos que viviam nas florestas: competitivos, hierárquicos e belicosos; ao passo que a sociedade ideal para o pensamento político de esquerda tem exatamente as mesmas características gerais dos bandos que viviam nas savanas: cooperativos, igualitários e pacíficos. Assim, a polarização política pode ser entendida como uma regressão da sociedade a fases arcaicas da evolução humana.
Desse modo, em uma sociedade politicamente polarizada, o ambiente cultural torna-se um fator desestabilizador na psicologia dos indivíduos, ao invés de auxiliá-los na difícil tarefa de equilibrar as forças psíquicas inconscientes e contraditórias que dominam sua vida psíquica. O resultado é facilmente visível no comportamento estereotipado e irracional dos radicais, tanto de direita quanto de esquerda (Cortizo, 2023).
Episódios como esses, no entanto, tendem a ser temporários, pois a própria coevolução gene-cultura tende a promover a adaptação do ambiente cultural à genética da população (no curto prazo) e a adaptação da herança genética aos ambientes culturais mais adequados à vida das sociedades (em um prazo mais longo). Ou seja, há uma tendência natural de recuperação do que pode ser chamado de “equilíbrio coadaptativo gene-cultura”.
Desse modo, os episódios de polarização política e outras situações de desequilíbrio coadaptativo devem ser vistos mais como exceções temporárias: na situação normal, o ambiente cultural promove efetivamente o equilíbrio mental da população, não apenas por meio dos valores e normas sociais, mas também por costumes e rituais coletivos que os mantêm presentes na vida comunitária.
O foco do livro de Freud é a sociedade europeia típica da época, a relação perene entre a psique do indivíduo e as demandas da civilização moderna, em particular, as restrições que ela necessariamente impõe à agressividade e aos impulsos sexuais dos seres humanos. De fato, existe uma tensão permanente entre nossas predisposições comportamentais instintivas e as exigências da vida civilizada, mas esta tensão não é provocada pelo ambiente cultural, pois ela já foi internalizada há muito tempo, na herança genética dos Homo sapiens, como parte do processo de coevolução gene-cultura.
Nesse sentido, o mal-estar psíquico que se manifesta na vida civilizada não é provocado pela cultura em si, mas por contradições internas da nossa própria estrutura mental inata, que contém predisposições comportamentais opostas aos instintos primatas, predisposições estas que foram assimiladas geneticamente, por seleção natural, durante a ocupação das savanas pelos nossos ancestrais.
Com efeito, na condição normal de equilíbrio coadaptativo gene-cultura, os valores e normas sociais favorecem o equilíbrio mental dos indivíduos, fornecendo diretrizes que facilitam a solução dos inevitáveis dilemas comportamentais resultantes de suas predisposições genéticas contraditórias. Sem esse ambiente cultural, um Homo sapiens sapiens viveria atormentado por conflitos psíquicos ainda piores do que os nossos. Ou seja, o ser humano moderno seria uma criatura ainda mais neurótica sem a civilização.














