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Ide

versão impressa ISSN 0101-3106

Ide (São Paulo) vol.46 no.78 São Paulo  2024  Epub 10-Jan-2025

https://doi.org/10.5935/0101-3106.v46n78.16 

A odisseia da guerra interior

HIPNOSE, FASCISMO E PSICANÁLISE: REFLEXÕES A PARTIR DA NOVELA MÁRIO E O MÁGICO, DE THOMAS MANN, E DO POSFÁCIO DE MARCUS MAZZARI

Hypnosis, fascism and psychoanalysis: reflections based on the novel Mario and the magician, by Thomas Mann, and afterword by Marcus Mazzari

Elsa Vera Kunze Post Susemihl1 

Psicóloga pela USP

1Membro efetivo e analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP). Docente do Instituto “Durval Marcondes” da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP). São Paulo


Resumo

Com base na novela de Thomas Mann Mário e o mágico e no posfácio “A hipnose do fascismo”, de Marcus Mazzari, a autora apresenta algumas contribuições vindas da psicanálise, centradas em Freud, Bion e Klein, para refletir a respeito dos fenômenos da hipnose e dos grupos, da massa e do fascismo. Tece semelhanças entre eles e aponta para o profundo intrincamento que existe entre o mais íntimo e inconsciente do indivíduo e os fenômenos grupais e de massa, o que permite iluminar a adesão a movimentos de massa fascistas e a submissão a líderes fascistas.

Palavras-chave: hipnose; fascismo; ideal do eu; grupo de trabalho e grupo de pressuposto básico; objeto interno Hitler

Abstract

Based on the novel by Thomas Mann Mário e o mágico and the afterword Hipnosis e fascismo by Marcus Mazzari, the author presents some contributions from psychoanalysis, with Freud, Bion and Klein, to reflect on the phenomena of hypnosis, of groups and mass and the fascism. She weaves similarities between them and points to the deep intricacy that exists between the most intimate and unconscious of the individual and the group and mass phenomena, which allow to illuminate the adhesion to fascist mass movements and the submission to fascist leaders.

Keywords: hypnosis; fascism; ideal of the ego; working group and basic assumption group; Hitler as internal object

Pretendo apresentar algumas ideias psicanalíticas a respeito da hipnose e do fascismo, individualmente e como fenômeno dual ou de grupo, tendo como pano de fundo a novela de Thomas Mann Mário e o mágico e o posfácio de Marcos Mazzari na edição recém-publicada.

A psicanálise como campo de investigação dos processos psíquicos conscientes e inconscientes, do funcionamento mental, trouxe à luz uma dimensão humana até então não formulada de maneira tão clara, ainda que presente e apreendida através das diferentes produções humanas ao longo da história. O conhecimento adquirido e em expansão no campo psicanalítico está profundamente ligado à prática clínica. Freud nos alertou de não fazer da psicanálise uma Weltanschauung, uma visão de mundo, uma ideologia. A psicanálise surgiu em um contexto histórico e cultural determinado, mas seus frutos puderam expandir-se muito além dele. E, como é próprio de todo conhecimento científico, sua utilização pode se voltar para os mais diferentes fins. Também o conhecimento psicanalítico pode ser utilizado tanto para a promoção do desenvolvimento pessoal e social e para a saúde, quanto para qualquer outro fim. A clínica psicanalítica, de Freud e até hoje, tem como objetivo o conhecimento dos fenômenos transferenciais e a promoção da experiência emocional em direção ao autoconhecimento. Penso que, nesse sentido, subjaz a ela uma ética de respeito e responsabilidade pelas escolhas de cada um. Está aí, a meu ver, a afinidade intrínseca da psicanálise com os ideais humanistas e democráticos, afastando-se da série orientação-sugestão-hipnose-fascismo. Por outro lado, lembremos que não demorou muito tempo, quando nos anos 1920 seu conhecimento foi usurpado para outros fins: o próprio sobrinho de Freud, Edward Bernays, extraiu algumas máximas obtidas pela leitura dos textos do tio, e as aplicou para desenvolver campanhas de propaganda comercial e política, o que lhe rendeu a fama de “pai das relações públicas”, eufemismo para propaganda nos eua, inaugurando assim a prática do aconselhamento político por experts da propaganda e publicidade. Esse know-how, como é comum acontecer, foi reimportado para a Europa e aprimorado pela propaganda nacional-socialista durante os anos que levaram à Segunda Guerra Mundial.

Hipnose

Para falar de hipnose em psicanálise, somos diretamente levados aos primeiros tempos de Freud no seu trabalho com as histéricas, seu contato com Charcot e Bernheim, suas experimentações e hipóteses provisórias do que estaria na base dos sintomas histéricos pungentes. A hipnose levou Freud a fazer a grande descoberta inaugural do novo campo da psicanálise, ou seja, a existência de processos inconscientes, sempre subjacentes ao nosso funcionamento mental e que determinam toda nossa vida consciente. A investigação de Freud direcionava-se antes à compreensão dos sintomas clínicos, do que ao próprio processo em andamento na hipnose. Sabemos que a hipnose logo foi abandonada como técnica para se alcançar os fenômenos inconscientes, sendo substituída inicialmente pela sugestão e finalmente pela descoberta da importância das associações livres, guiando Freud dessa forma ao estabelecimento do campo psicanalítico.

A psicanálise, filha desgarrada da hipnose, descobre os processos transferenciais, sua força e intensidade, e o campo altamente vulnerável no qual o indivíduo dominado por transferências inconscientes torna-se suscetível à influência do outro, à sugestão ou até à hipnose. Desde sua descoberta, o caráter alucinatório, de negação onipotente da realidade e de tentativa de supressão de dor e desprazer, era reconhecido nos fenômenos transferenciais. A grande novidade trazida por essa investigação e sua clínica, para a psicanálise, foi a descoberta de um trabalho mais além da hipnose e da sugestão, mais além da repetição de processos inconscientes transferenciais, e em direção a uma abertura possível, a um desconhecido a ser vivido com base na maior liberdade interna.

Essa chave de investigação aprofundou-se teoricamente, estendendo-se aos novos desenvolvimentos em psicanálise, dilatando-se a sua compreensão para os fenômenos interpsíquicos e grupais. Trataremos, por ora, desse tema pelo seu negativo, ou seja, de como podemos pensar o que move os indivíduos a se submeter a uma autoridade fascista, com base no campo de conhecimento adquirido pela psicanálise.

Lembro-me aqui de uma experiência publicada por um grande hipnotizador dos anos 1960, Albert Mason, médico que iniciou sua carreira de hipnotizador com muito sucesso conseguindo anestesiar seus pacientes, estendendo seus poderes para muitas outras áreas da medicina, granjeando fama internacional, até que em certo momento cai em si e passa a se perguntar: o que acontece na hipnose? Qual é esse poder que lhe é conferido? De onde vem? Abandona sua carreira como hipnotizador e faz a formação na Inglaterra para se tornar analista. Publica anos mais tarde suas reflexões a respeito, e lhes confere uma explicação bastante interessante, igualando a relação que se estabelece entre hipnotizador e hipnotizado a uma folie à deux, ou seja, uma loucura a dois. Supõe processos intensos de identificação projetiva, tal qual descrita por Melanie Klein, em andamento de maneira mútua entre ambos, cuja intensidade é tamanha, que produz resultados concretos no mundo real.

A massa e o eu

Em 1921, Freud publica “Psicologia das massas e análise do eu” (Freud, 1921/1969b), obra fundamental até hoje para compreender os processos grupais em sua relação intrínseca com o funcionamento psíquico do indivíduo. Retoma as descrições precisas de Le Bon sobre as características do funcionamento do indivíduo na massa: rebaixamento de sua capacidade intelectual e de discriminação, elevação da afetividade, predominância da personalidade inconsciente, tendência ao ato em vez do pensamento, afastamento da percepção da realidade. Freud acrescenta a importância do papel do líder e a sua tese principal: a ideia de que o que une os indivíduos na massa são as relações libidinais e amorosas. Estas são a essência da mente grupal, e são responsáveis pelo alto grau de sugestionabilidade da massa.

Freud segue sua investigação comparando as situações do enamoramento e da hipnose, mostrando que em ambas há um transbordamento da libido narcisista para o objeto, que é posto no lugar do ideal do eu. O hipnotizador, assim como o enamorado, também se põe no lugar do ideal do eu, provocando no hipnotizado a mesma submissão humilde que o enamorado tem com relação ao objeto amado e idealizado. E, então, Freud conclui sua compreensão do fenômeno grupal: “um grupo primário desse tipo é um certo número de indivíduos que puseram um só e mesmo objeto no lugar de seu ideal do eu, e consequentemente se identificaram uns com os outros em seu eu” (Freud, 1921/1969b, p. 126).

Retomando seu mito das origens, apresentado em “Totem e tabu” (1911/1969c), do assassinato do pai primevo, que detinha todo o poder, Freud, então, se aproxima da sua explicação conclusiva tanto da hipnose quanto do funcionamento dos grupos ao relembrar o clima misterioso/sinistro/estranho - unheimlich - que costuma cercar a hipnose, o que sugere que também o fenômeno hipnótico seja uma manifestação de algo antigo e reprimido, mas também familiar, justamente por isso. Lembra a técnica do hipnotizador: forçar o hipnotizado a conduzir todos os seus pensamentos conscientes em sua direção e se concentrar neles, obrigando-o a desviar sua atenção dos estímulos provindos do mundo externo:

o hipnotizador desperta no sujeito uma parte da sua herança arcaica, que [no seu passado] individual é direcionada aos pais e é reavivada na relação com o próprio pai, a partir de uma ideia de uma personalidade hiperpoderosa e perigosa, diante da qual só é possível adotar uma atitude passivo-masoquista e abrir mão da vontade própria… (Freud, 1921/1969b, p. 137, tradução nossa)

E ainda:

As características sinistras-estranhas, unheimlich, e coercitivas das formações grupais, que se apresentam nas manifestações de sugestão [sugestionabilidade], podem assim, com justiça, ter sua origem remontada à horda primitiva. O líder da massa ainda permanece sendo o temido pai primevo [originário], a massa continua a desejar ser dominada por um poder irrestrito e a ser extremamente adicta à autoridade, e, de acordo com a expressão de Le Bon, ela é sedenta de uma relação de submissão. Quem domina o eu não é mais o ideal do eu, mas, agora na massa, o ideal que domina é o pai primevo [originário]. A hipnose pode ser descrita como uma massa de dois, e a sugestão pode ser entendida como uma convicção que não está baseada na percepção e no trabalho do pensar, mas em um vínculo erótico. (Freud, 1921/1969b, p. 138, tradução nossa)

Essa compreensão apresentada por Freud da hipnose e sua ligação com os fenômenos de massa ilumina o estranho fenômeno do fascismo. Parece haver certo fascínio ou compulsão em reviver na relação com o líder fascista, poderoso e narcísico, a relação com um pai dos primeiros tempos, exigente, demandante, autoritário, persecutório, narcisista etc., e em se pôr em uma posição regredida e de submissão, despojada de vontade própria, de crítica e de contato com a realidade. O prazer nessa vivência viria da projeção no líder dos aspectos muito regredidos de um ideal do eu também exigente e narcísico e que se vê realizado no líder fascista. Há uma identificação com os poderes narcísicos e tirânicos desse líder e uma realização por identificação.

A novela

Na novela Mário e o mágico, que leva como subtítulo “uma experiência trágica de viagem”, Thomas Mann descreve o clima de irritabilidade, patriotismo, preconceito e inquietação que reina em Torre di Venere, na costa da Ligúria na Itália, onde o narrador passa férias com sua esposa e dois filhos. São relatados alguns episódios de discriminação pelos quais a família estrangeira passa, inicialmente no Grand Hotel e depois na praia. A seguir, a novela se volta para a expectativa de assistir ao espetáculo de Cavaliere Cipolla, “um virtuoso itinerante, um mestre da diversão, forzatore, illusionista e prestidigitatore (Mann, 1930/2023, p. 21). A história segue com a descrição detalhada dos diferentes números apresentados por Cipolla, desde o início indicando a manipulação a que o público é submetido por ele, impondo sua vontade aos diferentes espectadores, em um gradual aumento da tensão. Com o reconhecimento de que “… aquele aleijão presunçoso foi o mais poderoso hipnotizador que encontrei em minha vida…” (p. 46), a novela encaminha-se para o “final de terror”, um final já anunciado no início da novela, mas que traz em si também um desfecho libertador.

Encontramos descrições muito interessantes que nos ilustram a apreensão do autor com os estados emocionais descritos acima. A começar pela entrada em cena do hipnotizador, deixando o público esperar por mais de hora, “ele se fazia esperar … aumentava a expectativa com a demora de sua entrada” (Mann, 1930/2023, p. 14).

E então:

Ingressou naquele passo a passo acelerado no qual se exprime disposição para com o público e que desperta a ilusão de que o recém-chegado já percorrera um longo trecho nesse ritmo para ficar frente a frente com a multidão, embora instantes antes ainda estivesse nos bastidores. (Mann, 1930/2023, pp. 24-25)

Um pouco adiante há uma bela descrição das primeiras interações:

Esses modos não tinham mais nada de obsequioso; a rapidez de seu passo ao ingressar revelou-se pura manifestação de energia, despida de todo traço de sujeição. Sobre a ribalta e despojando-se de suas luvas com puxadelas indiferentes, com o que desnudou mãos compridas e amareladas, uma das quais ornada de um anel de sinete com lápis-lazúli em relevo, ele deixou vagar seus olhinhos severos, com olheiras embaixo, em inspeção pela sala, sem pressa, detendo-se aqui e ali num rosto, com exame ponderativo - a boca franzida, sem dizer uma palavra (p. 26) … O público o observava de modo tão penetrante quanto se via por ele perscrutado. (Mann, 1930/2023, pp. 25-26)

Logo há um pequeno embate com um participante que faz uma gracinha diante de Cipolla. Este aproveita a ocasião para fazer uma demonstração de força e dominação, deixando desde aquele momento claro para a plateia quem estará no comando da vontade e da ação: faz o rapaz mostrar a língua para a plateia e argumenta por meio de um jogo de palavras: “Fazes o que queres [como pensas]. Ou alguma vez não fizeste o que querias? Ou fizeste até o que não querias? O que não era tu a querer?” (Mann, 1930/2023, p. 27). Mostra assim qual seria a essência do espetáculo, o querer seria prerrogativa dele, Cipolla, naquela noite, demonstraria isso no espetáculo. Para reforço do seu poder, usa um chicote com o qual bate no chão ao dar suas ordens. Logo após essa primeira demonstração, faz um longo discurso utilizando sua possível fraqueza por um defeito físico para se impor narcisicamente e extrair disso admiração e poder. Ao longo das artes ilusionistas e hipnóticas, que vão se dando em um crescendo, a participação do público também vai se tornando intensa, há aplausos, entusiasmo, admiração. Acompanhamos a massa identificando-se com o hipnotizador poderoso e aplaudindo-o! Um exemplo do que vimos em Freud.

os detalhes grotescos eram seguidos por um público que ria, balançava a cabeça, dava-se tapas no joelho, aplaudia, um público que estava a olhos vistos sob o encanto de uma personalidade extremamente segura de si, embora, ao menos assim me parecia, não deixasse de nutrir um sentimento de insubmissão contra o que havia de desonroso nos triunfos de Cipolla, seja para o indivíduo ou para todos. (Mann, 1930/2023, p. 47)

Os poucos que ousam resistir à vontade de Cipolla, um a um, são vencidos. “A liberdade existe, e existe também o arbítrio, mas o livre-arbítrio não existe, porque um arbítrio que se pauta pela própria liberdade cai no vazio” (p. 39). Ou, retrucando para outro, que fará a vontade do hipnotizador, “ainda que o Sr. não queira” (p. 51). O narrador Thomas Mann comenta aqui: “É de presumir que não se pode viver psiquicamente do não querer; não querer fazer uma coisa não é, a longo prazo, um propósito de vida…” (p. 52).

Grupo de Trabalho e Grupo de Pressupostos Básicos

As ideias de Bion (1961/1970) sobre grupos também nos ajudam a pensar. Bion observa dois tipos de funcionamento grupal, que denomina Grupo de Trabalho (gt) e Grupo de Pressupostos Básicos (gpb). O gt reúne-se para cumprir determinada tarefa que em sua dinâmica é adequada a concluir o objetivo do grupo. Trata-se de um grupo que trabalha tendo consideração pela realidade, com noção de tempo e espaço, com discriminação e com tolerância à dor e à frustração. Já os gpbs compõem-se de uma dinâmica sempre latente e pronta a se manifestar. É uma dinâmica de grupo que se impõe com base nas ansiedades e vivências regredidas e inconscientes, psicóticas, despertadas nos diferentes membros dentro da vivência grupal. Bion descreveu três tipos de dinâmicas de pbs, nas quais diferentes fantasias grupais são compartilhadas e diferentes tipos de líder são escolhidos. As vivências em andamento estão sempre ligadas a onipotência, negação da realidade, intolerância à frustração e à dor, e manifestam-se em estados alucinatórios compartilhados. Bion mostra que todos nós somos levados a participar desses gpbs. Trata-se de uma participação involuntária em um modo de operar psiquicamente que é altamente atraente e familiar a nós, e sempre inconsciente.

Podemos, nesse sentido, considerar que em determinados momentos, talvez de crise real ou de crise alardeada, um líder onipotente e perseguido pode facilmente despertar no grupo um funcionamento em pb, indicando inimigos externos contra os quais se tem de lutar, ainda que imaginários, construídos habilidosa e alucinadamente, dos quais o líder vai nos salvar, e do qual dependemos para resolver nossas dores e frustrações. Sim, esse é um líder que se torna fascista e pode levar esse gpb para onde quiser.

Bion não se apoia em uma história especulativa imaginária dos tempos de origem, cujos restos são revividos na vida infantil e depois reavivados em uma situação grupal, conforme Freud. Mas nos remete a um extrato comum inconsciente e atuante em todos nós - quando, estimulados por experiências de desamparo, abandono e dor, prontamente somos impelidos a aderir a certas configurações grupais e a nos submeter a líderes que são postos por nós em uma posição especial de nos livrar desses estados tão penosos psiquicamente. Bion chama essa aderência ou prontidão de valência, apoiando-se no modelo da química. Pode ser um líder messiânico que promete o paraíso e a salvação, mas também pode ser um líder perseguido e perseguidor que leva o grupo à luta e à guerra. Sempre, tratando-se de pbs, são líderes com personalidade frágil, que operam com negação da realidade, ideias onipotentes, e são movidos pelo princípio do prazer e estados de alucinose. Logo, a questão apontada é que somos todos, por natureza, suscetíveis e vulneráveis, prontos para nos ancorarmos em situações que queremos acreditar que nos livrarão de um mal real ou fantasiado. Só nos resta estar atentos e nos interrogar: onde uma delas existe e se manifesta?

A novela

Na novela, o escritor se põe em uma dupla posição, relatando criticamente os acontecimentos conforme vão se dando, descrevendo com distanciamento o clima circundante presente e a reação dos outros. Mas, ao mesmo tempo, sutilmente ele também conta como vai sendo levado e atraído pelo clima presente, interrogando-se, várias vezes ao longo da novela, por que continuou sua temporada de férias, por que, diante de um ou outro fato, não resolveu partir. À medida que a novela progride, as perguntas vão se tornando mais frequentes - por que não foi embora diante do atraso do início do espetáculo, ou depois do intervalo, ou quando percebe que não é um espetáculo apropriado para crianças? Por que não se impõe às crianças, frustrando sua vontade e levando-as de volta para casa? Dá a entender que em algum nível também o escritor crítico se via enredado pela trama, atraído pelo espetáculo em andamento, sentindo em si o alcance do clima hipnotizante.

Será que éramos vítimas de uma fascinação que emanava daquele homem que ganhava o seu pão de modo tão insólito, fora do roteiro, em meio a artimanhas, e nos paralisava as decisões? Pode ser também que a pura curiosidade deva ser levada em conta. As pessoas queriam saber como continuaria uma noite começada daquele modo… (Mann, 1930/2023, p. 45)

E ainda:

Mas isso tudo não é a questão, ou a questão não é isso tudo. O mais acertado seria responder à pergunta do porquê de não termos partido agora com uma outra pergunta, a do porquê de não termos deixado Torre antes. Trata-se penso eu, de uma única e mesma pergunta, e, para esquivar-me, poderia dizer simplesmente que já a havia respondido. A coisa ali era tão peculiar e tensa, tão incomoda, malsã e opressiva quanto em Torre em geral, ou até mais: aquela sala constituía o ponto de convergência de toda peculiaridade, esquisitice e tensão com que a atmosfera da temporada parecia carregada; aquele homem que aguardávamos se nos afigurava a personificação de tudo isso, e, como em termos gerais, não havíamos ido embora, teria sido ilógico fazê-lo, por assim dizer, em termos particulares… (Mann, 1930/2023, pp. 45-46)

E, logo a seguir, uma certa conclusão: “Permite-me que eu resuma: aquele aleijão presunçoso foi o mais poderoso hipnotizador que encontrei em minha vida” (p. 46).

O Posfácio

No posfácio, Mazzari (2023) nos aponta a profunda transformação ocorrida em Thomas Mann nos anos de escrita do romance A montanha mágica, citando uma observação de Benjamin em carta ao amigo Gershom Scholem, de 1925: “… tenho praticamente certeza de que uma transformação íntima deve ter se processado no autor durante esse processo” (p. 83). Em carta de 1913 ao irmão, ainda antes de iniciar essa obra, Thomas Mann se queixava de exaustão, vulnerabilidade e uma crescente simpatia pela morte (carta de 08.11.1913, pp. 80-81), e apresentava, aos 40 anos, momentos de depressão e desesperança.

A saída dessa depressão se deu por meio da adesão convicta a um nacionalismo e patriotismo sustentado por conceitos idealizados de pátria, germanismo e cultura, pelos quais era necessário lutar, até em uma guerra, concepções que estavam em consonância com todo um movimento social que havia tomado a Alemanha de então.

Através dos comentários e das diversas cartas citadas por Mazzari, podemos imaginar que o autor Thomas Mann passou por uma elaboração profunda dessas suas ideias ao longo da escrita de A montanha mágica, que durou longos anos, alguns deles durante a guerra. Foi uma elaboração pessoal de um homem genial capaz de abstrações muito sofisticadas sobre política, arte e momento histórico, e que, diante de uma guerra com 17 milhões de mortes, sentiu-se impelido a rever essas concepções, possivelmente acompanhado de dor e de sofrimento psíquico. Podemos imaginar ainda que, quando ele envia o personagem principal do seu romance A montanha mágica ao inferno da guerra para lá morrer, para “a festa universal da morte”, também ele, Thomas Mann, se despede de uma ilusão visionária da qual havia compartilhado e que havia levado seu povo por meio de uma ideologia para essa empreitada alucinada, “conquistar Paris…”.

Em psicanálise, temos a experiência profunda de saber o quanto custa de dor e sofrimento renunciar a ilusões e concepções arraigadas, de negação da realidade e onipotência, do narcisismo, e de certezas. As concepções podem se manifestar da forma mais brilhante e abstrata, com conceitos apresentados com muita sofisticação e arte, como acompanhamos em Thomas Mann, ou podem se dar de uma forma mais coloquial e concreta naqueles que, como nós, não tão dotados de dons extraordinários - mas o que importa é a qualidade do processo a que ninguém parece escapar. Mazzari nos dá a oportunidade de acompanhar em Thomas Mann o seu luto pela concepção idealizada do próprio povo, pela ideia de que arte pode se fazer sem que esteja inserida em um contexto político, a concepção de que existe uma forma ideal de nacionalismo que não leva a luta e disputa…

Vemos nosso autor aproximar-se passo a passo, com sofrimento psíquico e embates profundos, dessas realizações, com uma capacidade de transmitir e deixar em forma de obra de arte, de sublimação, sua dor e seus conflitos. Não poderíamos pensar aqui, com base nessa retrospectiva, em um processo de autoanálise ensejada pela produção artística? E, assim como em uma análise, novas camadas vão se superpondo, novos insights vão ocorrendo, novos sentidos são percebidos naqueles eventos marcantes do passado. Assim, surge a segunda obra, Mário e o mágico, escrutinando e processando mais uma vez em literatura uma experiência pessoal terrível, sinistra, cujo alcance, apontado por críticos contemporâneos à publicação, o próprio autor só é capaz de perceber décadas depois, um verdadeiro sentido alcançado retrospectivamente, em um après-coup, quando em 1947 Thomas Mann fala em uma carta:2 “No fundo a novela foi, sim, uma primeira ação de combate contra algo que já na época dominava toda a atmosfera europeia e que não foi eliminado totalmente pela guerra” (Mazzari, 2023, p. 98). Foram-se 15 anos, nos conta Mazzari citando Thomas Mann, para acreditar que “Cipolla fosse possível na Alemanha. Eu superestimei patrioticamente minha nação” (p. 64). Pois, em mais um momento de horror, Thomas Mann viu a tempestade da próxima guerra se armar, e, dessa vez, se pôs ativa e criticamente a serviço da resistência e da luta contra a guerra e o fascismo, e a favor da democracia. Exilou-se, por ser perseguido pelo nacional-socialismo fascista de Hitler, e do estrangeiro continuou a lutar com a sua arma mais poderosa, a palavra. E, ainda, escreveu mais uma obra, fruto agora desse novo momento e de novas elaborações, e com uma nova camada de indagações, aproximações e sentidos: o seu Doutor Fausto.

Irmão Hitler - um Hitler interno

Gostaria de comentar o ensaio de Thomas Mann, Irmão Hitler, citado por Mazzari (2023), no qual o escritor acompanha o percurso daquele que aqui é tido como seu duplo, seu outro, com base no recurso literário da ironia. Mazzari (p. 87) se pergunta: “De que modo explicar o estrondoso êxito do charlatão wagneriano, do demagogo histriônico a cuja hipnose milhões de alemães passam a sucumbir?” E, a seguir, responde com base na união de duas situações: da “honra ferida, complexo de inferioridade de uma nação derrotada na guerra e submetida a duras condições do Tratado de Versalhes” com o “ressentimento insondável e sede de vingança pustulenta de um ser inútil, incapaz, malogrado uma série de vezes, extremamente preguiçoso, inapto para qualquer tipo de trabalho, condenado a eterno fracasso, artista amador frustrado, um verdadeiro desgraçado” (Mann, 1930/2023, p. 87).

Ressalto aqui a importância da união do líder hipnotizador fascista com uma determinada condição social propícia, bem como as características desse líder, altamente negativas e por vezes com defeitos físicos visíveis, como Cipolla, mas que são narcisicamente encobertos ou revelados.

E o aspecto aqui apresentado como um recurso literário vindo da ironia, de pôr o líder fascista como seu duplo, nos faz lembrar a contribuição psicanalítica de Melanie Klein, que nos alertou para encontrarmos em nós, em cada um de nós, o nosso “Hitler interno”, o que nos daria mais condições e nos instrumentalizaria para fazermos frente aos “Hitlers externos” e para podermos combatê-los melhor.

Se prevalecer o sentimento de que a guerra no exterior está sendo, de fato, travada no interior - de que no interior um Hitler interno está sendo combatido por um sujeito que assimilou características de um Hitler, e se torna semelhante a um Hitler -, o resultado será o desespero. Fica, então, impossível lutar nessa guerra, pois isso levaria inevitavelmente à catástrofe no interior. Se houver um equilíbrio maior entre os acontecimentos internos e os externos, a guerra não domina a situação e é possível voltar-se com força e determinação contra o inimigo externo. (Klein, 1940, citada por Frank, 2019)

Consideração final

Do ponto de vista psicanalítico, o irmão Hitler pode e deve ser procurado em cada um de nós, pois constitui aquela parte inconsciente de nossa personalidade que nos deixa vulneráveis a esses acachapantes movimentos do grupo ou da massa e seus líderes hipnotizantes e fascistas. Freud o aproximou ao pai da horda primitiva e depois ao pai da primeira infância, que, introjetado e atuante através da instância psíquica do ideal do eu ou supereu, será responsável pela sua projeção no líder ao qual se sentirá ligado libidinalmente e ao qual ficará submetido. Bion, à sua maneira, indica esse substrato inconsciente comum que todos nós temos e que nos impele a aderir a essas configurações de grupo ou massa, por ele denominadas “pb”, ressaltando os processos psíquicos neles atuantes, como negação onipotente da realidade, evitação da dor e desprazer, processos de alucinose. Klein, por seu lado, nos conta que somente o processamento pessoal, o embate pessoal com esses objetos internos, que nada mais são do que as edições da atuação de um superego com características tirânicas e muito pouco desenvolvido e integrado, é que nos vai preparar para enfrentar as difíceis situações grupais às quais sempre estamos expostos.

Encerro enfatizando em todas essas ideias o intricamento profundo existente entre o mais essencialmente interno e inconsciente atuante em cada um de nós e os movimentos grupais e sociais dos quais participamos e com os quais temos que nos haver.

2 Carta a Henry C. Hatfield, de 20.04.1947, citada por Mazzari (2023).

Referências

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Curtis, A. (Dir.) (2002). O século do ego: máquinas da felicidade (Vol. 1) [vídeo]. YouTube. Disponível em: <https://youtu.be/wXBn4J7qsXk>. Acesso em: 24 nov. 2023. [ Links ]

Frank, C. (2019). Melanie Klein (1882-1960): um “gênio feminino” ou um “antigênio”? In A. Socha (Org.), Melanie Klein: autobiografia comentada (E. V. K. P. Susemihl, Trad.). Blucher. [ Links ]

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