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Ide

versão impressa ISSN 0101-3106

Ide (São Paulo) vol.46 no.78 São Paulo  2024  Epub 10-Jan-2025

https://doi.org/10.5935/0101-3106.v46n78.30 

RESENHAS

AS SEMENTES DO ORATÓRIO

Camila Tricarico Alvim1 

Licenciada em Psicologia pela Universidade Paulista (unip) e pós-graduada em Psicanálise e Saúde pelo Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein. Psicoterapeuta de crianças, adolescentes e adultos, e cocriadora do espaço Casa do Jasmim. São Paulo

1Universidade Paulista. Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein. São Paulo

Trinca, Ricardo. 7 Letras, 2023. p. 192


As sementes do oratório é o romance de estreia de Ricardo Trinca pela Editora 7 Letras. Nascido em São Paulo, em 1975, é psicanalista, membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP) e da International Psychoanalytical Association (ipa), doutor em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo (USP), mestre em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e autor de diversos artigos e livros, principalmente no campo da psicanálise, tendo também publicado poesias.

Na arte do romance nos ofereceu um texto com sofisticada agudeza humana e psicanalítica. Um romance inteligente e delicado, no qual são apresentadas as “sementes” para compreender as origens e as gerações.

Uma história narrada de dentro (do autor, das personagens, de todos nós), que ultrapassa esse interior na direção das universalidades humanas. Texto de poucas exclamações, o autor Ricardo Trinca escreve sussurrando.

Retrato rigoroso e detalhista do dentro transgeracional. Fenômeno tão difícil de ser observado quanto descrito, e o autor o faz com maestria. No transcurso de tantas histórias dentro da história, a narrativa de As sementes do oratório desperta uma intensa e diversa experiência de pertencimento humano, tanto pelas proximidades da vida corriqueira de uma família ítalo-brasileira do interior, quanto pelos seus avessos, presentes também na vida de todos nós.

A transgeracionalidade é o fenômeno protagônico do romance. Esta surge como tema e personagem central da obra. De forma envolvente, a transmissão acontece nos diversos tipos de silêncios e silenciamentos advindos de sentimentos de vazios, traumas vividos e não elaborados, segredos, abandonos, violências, aniquilações, desmentidos da e na história entre gerações. Tudo aquilo que não pode ser elaborado migra e se repete. Elementos do passado que se atualizam como sintomas ou questões do presente nos ciclos da vida familiar e nos modos de transmissão dos afetos.

Nesse sentido, não há como desvincular a sofisticada temporalização não linear da história e a transgeracionalidade. Escrita num estilo em que os capítulos são fragmentados, o autor costura as heranças psicossociais adotando uma estratégica narrativa em que descreve a vida intrassubjetiva e intersubjetiva dos personagens de um grupo familiar, fazendo-nos também perceber que somos todos herdeiros de uma transmissão velada de vida ou de sua descontinuidade, de morte. Sabemos, desde Freud, em “Romances familiares” (1909/2019), que estes se dão justamente nessa trama invisível, dos elos de seus personagens. Estes, ora enlaçados na dinâmica desse coletivo, ora soltos sentindo-se como elos avulsos precisando inventar seu pertencimento.

Temos um narrador que amplifica e desdobra a complexidade das coisas ordinárias, retirando delas a vida que insiste e pulsa escondida. Faz o leitor conviver com o mistério dos sentimentos e dilemas de seus personagens no enredo de suas vidas comuns. Ele nos faz partícipes e cúmplices. Leva o olhar do leitor para o espetáculo das sutilezas e fomenta íntimas especulações.

O elemento dramático na evolução do romance na segunda metade do livro acentua a escrita singular, que navega nos paradoxos do humano. Sem explícitas referências psicanalíticas, descreve situações traumáticas com o tino artístico da cena literária e com a perspicácia da cena analítica, assim o escritor faz notar, até mesmo ao leigo, a importante intertextualidade, suas sensíveis reflexões, mas sobretudo provoca indagações, tal como diz Milan Kundera em A arte do romance: “… o romance inteiro não é senão uma longa interrogação” (1986, p. 39).

Desde minhas impressões como leitora, fui tocada justamente no ponto em que o autor ficcional cria a partir de si, da riqueza de sua personalidade e de seu ofício. O narrador analista nos deixa com as perguntas: onde foi que tudo se perdeu? O que mudou? Onde estariam os pontos de inflexão no transcurso transgeracional de uma história?

O romance de Ricardo Trinca não se preocupa em reconciliar ou resolver paradoxos. Passa longe de aconselhamento existencial. Apenas quer destacar quão complexas são as relações entre tais oposições na gangorra da vida. Propõe seus personagens com identidades definidas e destinos quase traçados, ao mesmo tempo que sugere ao leitor indeterminação, descristalizando cada um deles. Deixa respiradouros, possibilidades de situações de fuga consciente da repetição traumática, sugerindo assim tantos desdobramentos quantos forem possíveis aos leitores mais criativos.

Farei outra adjetivação ao narrador, desta vez a de poeta, daqueles que sabem receber dentro de si a marca de tudo que lhe acontece. O poeta traz à dor do enredo cor, sabor e beleza. Fazendo desta uma “dor elegante”, como no poema de Leminski. Todo poeta é aquele que sabe conservar no íntimo as marcas do perdido e tem o poder de transformar tal experiência em palavra. Um narrador que cria a beleza que encontra. Aquele que nos ajuda a ver a conquista de termos alcançado tudo o que um dia demos por perdido. Contempla ativamente o encontro de cada um de seus personagens com o destino que lhe abre como autor. Este que revela não qualquer beleza, mas aquela ontológica, que também lhe foi transmitida como herança imaterial: o reconhecimento do ser autêntico das coisas.

Para Winnicott, a experiência de ser está na base do gesto espontâneo e criativo: “Para ser criativa, uma pessoa tem que existir e ter um sentimento de existência, não da forma de uma percepção consciente, mas como uma posição básica, a partir da qual operar … estar vivo” (Winnicott, 1986h/1999, p. 31). É nessa perspectiva que vejo o escritor, poeta e analista. Valendo-me da principal metáfora desse livro, tenho a ousadia de reafirmar e reeditar a máxima bíblica: conheci a árvore pelos seus frutos, lendo e sonhando sob a sombra de sua copa, por vezes me alimentando deles, de ambos: sonhos e frutos. A leitura, assim como uma análise bem-sucedida, vitaliza, erotiza e faz sonhar.

Na estrutura do livro, passeando pela variação temporal, o autor abre espaço subjetivo e criativo para o leitor. Essa variação sugere abertura também para uma indeterminação cronológica entrelaçando fatos da sequência do tempo físico com os elementos atemporais percebidos, porém, nem sempre integrados à vida interior dos personagens, em que o passado, o presente e o futuro se transformam ou se congelam continuamente. Nessa trama fragmentada, a temporalização e a espacialização das subjetividades fazem combinar personagens e leitores caleidoscopicamente, somando a atividade do leitor, as produções imagéticas, a hesitação, a espera, a experimentação de suas emoções juntamente com a valorização dos instantes de cortes e de lacunas do texto.

O livro é um constante convite feito ao leitor para que olhe sua cicatriz umbilical, abrindo questões sobre suas origens. Traço sensível de escrita que acessa a delicada trama das subjetividades na dinâmica dos laços familiares, deixando à mostra suas suturas e suas feridas abertas. Uma obra que contribui para o debate atual com uma discreta e implícita crítica à ideia que predomina no imaginário contemporâneo: o culto ao individualismo exacerbado, em que cada um precisa convencer-se a si mesmo de que é o único agente responsável pelo seu próprio destino. Trinca recobra noção primorosa e fundante: ancestralidade.

É no inTrincamento entre a vida social e a dimensão subjetiva, de cultura e de psicanálise, que reside a potência da obra. Em tempos da falação vazia, de desumanização e emudecimento afetivo e seus tecnicismos de inteligências artificiais, a arte de escutar da psicanálise também tem muito a dizer. Na literatura (como em qualquer outra manifestação cultural erudita ou popular), um psicanalista pode abrir diálogo e inserir-se de forma “ético-política” ativa, promovendo encontros emancipadores de resistência e liberdade.

O livro é um relato que surpreende pela intimidade que provoca e compartilha. Divide pedaços, cacos, tocos, como pão quente e assim, no tempo de concluir a narrativa, compõe uma comunhão unitária integrando a experiência do leitor.

Resenhá-lo logo após a primeira leitura foi um gesto de meu entusiasmo pelo texto, a afirmação de sua relevância e a necessidade de comunicar um achado. O livro é de todos e precisa ser encontrado como a espátula de prata winnicotiana. Foi possível sentir frutificar as sementes invisíveis deixadas por entre as frestas da leitura germinando em fome de escrita, efeito contagiante de querer comungar.

As sementes do oratório é uma obra de sensibilidade narrativa e estética que se configura numa escrita de um olhar que fala, do enxergar com os ouvidos e escutar com os olhos… no romance e na prática psicanalítica. Sinto o cheiro de terra úmida! Faz-se urgente reflorestar! Indico vivamente a semeadura!

Referências

Winnicott, D. W. (1999). “Vivendo de modo criativo”. Tudo começa em casa. Martins Fontes. (Trabalho original publicado em 1986h) [ Links ]

Freud, S. (2019). Romances familiares. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Imago. (Trabalho original publicado em 1909) [ Links ]

Kundera, M. (2016). A arte do romance. (T. B. C. da Fonseca, Trad.). Companhia das Letras. [ Links ]

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