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Ide

versão impressa ISSN 0101-3106

Ide (São Paulo) vol.46 no.78 São Paulo  2024  Epub 10-Jan-2025

https://doi.org/10.5935/0101-3106.v46n78.32 

RESENHAS

CONVERSANDO

Dora Tognolli1 

Psicanalista. Membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP). Diretora do Instituto de Psicanálise “Durval Marcondes” da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP). São Paulo

1Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Instituto de Psicanálise “Durval Marcondes” da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo

Benito Jr., Eugênio. Ipê das Letras,


Em que uma pedalada põe mil fios em movimento,

Em que as lançadeiras vão e vêm a toda a velocidade,

Em que os fios deslizam sem ser vistos, Em que cada golpe cria mil texturas.

(Freud, “A interpretação dos sonhos”, citação de Fausto de Goethe)

Conheço Benito desde nossos anos de formação, mas devo dizer que me tornei sua amiga e admiradora mais recentemente, quando ele ressurgiu como professor, escritor e agitador de grupos nos quais me incluo. Admiro sua capacidade de se conectar, no melhor sentido, e de agregar pessoas que, como eu, estão em busca de boas conversas, bons amigos, boa comida e, sem dúvida, afeto e prazer no convívio e diversão.

O convite para que eu escrevesse a resenha de seu mais recente livro me cativou e assustou: mais do que ler seus primeiros esboços, fui desacomodada da mera fruição de seu texto, para me pôr como interlocutora.

Tenho diante de mim um livro de crônicas ou contos: diversos, densos, potentes, que brincam com a flecha dos tempos, nos levando da infância aos dias atuais, à velhice, à morte. Cada história que se abre nos põe numa vertigem, em que Benito tece os fios de sua memória e nos convida a acompanhá-lo na jornada nada fácil da vida.

Temas variados são abertos e fechados, num ritmo mais lento ou veloz, nos convidando a prosseguir e entrar no próximo capítulo/estação: infância, quintal, família, amigos, namoros, desilusões, viagens, e tudo que vem junto, primeiros amores, perdas, mudanças, botecos, trabalho.

Oscilo na constatação de que estou diante da biografia de Benito, narrada pelo próprio autor, pois o tom de veracidade de suas palavras quase me convence: é tudo verdade! Mas diria que essa certeza pouco importa: a forma de narrar contém poesia, escolha de palavras e ritmos que transformam qualquer realidade pessoal em algo de universal.

Acompanhei cada conto muito de perto, cavoucando minhas memórias e reconhecendo cenas culturais que também me constituíram, das quais trago doces e nem tão doces lembranças. Momentos de formação que deixaram marcas, que nem sempre conseguimos visitar, mas que o trabalho da memória ativa com certa melancolia - notícias de perdas e restos de pessoas e lugares que nos acompanharam e abandonaram. Nesse sentido, o livro de Benito nos ajuda a tematizar estações importantes, que sua escrita poética tem o dom de acessar.

Sua forma de narrar consegue trazer o frescor de experiências datadas, mas que o acompanham sem cessar e permitem a abertura do tempo ou de novos tempos.

A abertura do livro foi muito tocante para mim: estive com Benito naquele quintal da infância, no sepultamento dos ratos, na desconstrução do cemitério, na mesa de jantar um pouco indigesta e pesada, polvilhada de conflitos de difícil absorção por uma criança, e me dei conta de como aquele quintal, que representa o vasto mundo, foi maior que ele, foi vivido em todos os tons, e que bom que Benito pôde fazer o luto dele e buscar novos mundos. Também visitei meu velho quintal, e sofri ao revê-lo em fantasia, acompanhada de Benito, e também ao deixá-lo, porque a vida era e é maior que ele.

Muito corajosa, a conversa de um menino com os adultos: como é difícil e necessário, só depois, conversar com esses que nos formaram, e reconhecer que, apesar de tudo, somos todos traumatizados, carregamos as marcas dos ideais e das frustrações que nossa família nos transmite sem saber… tributários de demandas que mal imaginamos para que servirão.

Memória e dor: um par difícil de digerir. Mas o trabalho da memória, feito na solidão dos quartos e escrivaninhas, na pandemia de Covid, nas internações e cirurgias, retorna e pede trabalho psíquico e muita conversa, que Benito desenvolve bem.

Estive com Benito à beira da morte, num quarto de hospital, na solidão da casa, na esquisitice de certos momentos, nas alucinações, nas viagens exóticas e criativas, mas sempre disposto a virar a chave, a atravessar, a se pensar de novo e diferente.

E agora me dirijo ao Benito escritor, reconhecendo, como Freud (1908/2015) já o fez há mais de 100 anos (“O escritor e a fantasia”), e invertendo sua formulação, que cada criador literário se comporta como uma criança, fazendo das palavras algo que reconhecemos no brincar - no seu sentido mais sério e ético - e nos sonhos. Benito leva muito a sério sua brincadeira com as narrativas, forjadas num território de afetos, construindo um mundo de fantasia que tem muito de realidade: o que um dia foi brincadeira, ativada pelo trabalho da memória, transforma-se em criação literária, disponível para fruição de seus leitores, entre os quais me incluo.

Precisamos sempre de um outro, fora de nós, que nos constitui e reconhece, que nos acompanha em momentos de desamparo e angústia sem nome. Copio e colo aqui um pequeno trecho dos “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”, quando Freud trata da angústia e do medo infantil, que, aliás, é tema de uma das epígrafes de Benito, retirada de Angústia, livro de Graciliano Ramos:

Escutei de um garoto de três anos, dentro de um cômodo escuro: “Tia, fale comigo; tenho medo, porque está muito escuro”. A tia exclamou: “De que adianta? Você não está me vendo”. Ao que o menino respondeu: “Não importa, quando alguém fala, fica claro”.

Pois é, Benito, você fala, escreve: e fica claro. Seus contos poéticos conduzem ao nosso infantil, onde sofremos, nos divertimos e compartilhamos algo do humano que o escritor, você, tem o privilégio de narrar e nos tocar.

Referências

Freud, S. (2015). O escritor e a fantasia. In S. Freud, Obras completas (P. C. de Souza, Trad., Vol. 6). Companhia das Letras. (Trabalho original publicado em 1908) [ Links ]

Freud, S. (2016). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In S. Freud, Obras completas (P. C. de Souza, Trad., Vol. 6, pp. 13-172). Companhia das Letras. (Trabalho original publicado em 1905) [ Links ]

Freud, S. (2019). A interpretação dos sonhos. In S. Freud, Obras completas (P. C. de Souza, Trad., Vol. 4). Companhia das Letras. (Trabalho original publicado em 1900) [ Links ]

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