Por que motivo a menstruação de uma cadela lhe despertava tanta ternura enquanto a sua própria lhe repugnava? A resposta me parece fácil: o cão jamais fora expulso do Paraíso. Karenin ignora tudo sobre a dualidade entre o corpo e a alma e não sabe o que é o nojo. É por isso que Tereza se sente tão bem e tão tranquila a seu lado.Kundera, 2008, p. 290.
O resto é sempre, no destino humano, fecundo.Lacan, 1964/1985, p. 129.
O título evoca, pelo duplo significado, a tese central deste texto: aquilo que registramos em nossa história enquanto economia de prazer na zona anal e o que fazemos com os efeitos de seu recalque. Anais, enquanto anotações de eventos, remete ao período romano mais antigo, quando o pontífice registrava em uma tábua branca nomes de cônsules, magistrados e atividades notáveis (importantes e dispendiosas) que ocorriam naquele ano [annus] e ficava exposta em um lugar aberto, às vistas. Eram os chamados Annales maximi, registro que se tornou comum ao longo dos séculos, escrevendo a história e as narrativas de um povo e suas instituições. Quanto à nossa anatomia - anus - que, por sua vez, deriva de anulus, anel (Bueno, 1974), assemelha-se na voz, aproxima-se nos traços e, mesmo com sua distinção etimológica, também é marca enquanto escrita de um percurso constante pulsional.
No dia 4 de janeiro de 2024, foi notícia na maioria dos jornais do país, o falecimento de um idoso de 71 anos que, após ter um sonho revelador - destaco este aspecto, decidiu cavar um buraco dentro de sua própria casa, na cozinha, para encontrar ouro que ali estava escondido. Com certa maquinaria e pagando ajudantes, depois de gastar quase tudo que possuía por tão grande obstinação, conseguiu o feito de cavar 40 metros livres, onde, infelizmente, caiu enquanto retirava água e lama e morreu no mesmo instante.
Não temos referências desse sonho que revela, muito menos em análise, mas é inegável a provocação que nos leva ao texto freudiano de 1908 Caráter e erotismo anal. Lá, Freud estabelece uma íntima ligação entre o interesse pelo dinheiro e o complexo da atividade anal. Percebida abundantemente na clínica, tal ligação leva Freud (1908/2015, p. 356) a dizer que “a neurose, neste ponto, segue apenas uma indicação da linguagem” citando, como exemplo, que a pessoa avarenta é tratada em alemão de “schmutzig” [suja]. Em nossa própria cultura, não seria difícil observar tal relação; não à toa aprendemos, desde crianças, a lavar a mão quando manuseamos o dinheiro porque “dinheiro é sujo”.
Na antiga Babilônia, ouro são as fezes de Mammon, referência que chegará ao Ocidente condenando moralmente o dinheiro: “Ninguém pode servir a dois senhores. Com efeito, ou odiará um e amará o outro, ou se apegará ao primeiro e desprezará o segundo. Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro” (Bíblia, 2002, Mateus 6,24, p. 1714). Com Freud, podemos dizer que não há justificativa melhor do que percebermos que fezes e ouro se unem justamente pela tamanha oposição construída entre eles por nossa cultura. Tratando das referências mitológicas e antigas superstições, o caso do idoso mais nos serve como possível alegoria do texto freudiano. Ouro oferecido pelo Diabo se transforma em fezes em sua partida e essa figura mitológica nada mais é, dirá Freud (1908/2015, p. 356), “do que a personificação da inconsciente vida pulsional recalcada”. Aí temos o fundamental desse relato: a ação inconsciente.
Dinheiro e pulsão anal constituem uma das relações que Freud estabeleceu nesse texto, mas gostaríamos de estender sobre outros aspectos, relacionando-os com a experiência sexual polimorfa da criança. Em Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, Freud (1905/2016) trabalha a grande complexidade da pulsão e como ela se projeta sobre as diversas partes do corpo: genitais, boca, ânus, uretra, os órgãos, a pele, enfim, todo o corpo, como sempre nos testemunharam as histéricas. Pulsão que mira um objeto, mas não predefinido: qualquer peça pode ocupar posto nesse jogo libidinal onde naturetrieb volveu-se trieb. Nessa perspectiva, Freud (1905/2016, p. 91) traz a analidade como lugar de economia e “é de se presumir que a significação erógena dessa parte do corpo é muito grande originalmente”.
Até mesmo os constantes distúrbios intestinais na criança cuidam para que não faltem estímulos nesta área. E, mais que fundamental, o trato intestinal começa a ser controlado pelo bebê enquanto privação e oferta mirando o prazer e a relação com o Outro (fase sádico-anal). Em primeiro lugar, o que lhe importa não é o asseio, mas o prazer secundário obtido pela passagem das fezes até então contidas com certas contrações e dores. Em segundo lugar, as fezes são tratadas “como uma parte do próprio corpo, constitui o primeiro ‘presente’: através da liberação ou retenção dele, o pequeno ser pode exprimir docilidade ou desobediência ante as pessoas ao seu redor” (Freud, 1905/2016, p. 92); o cíbalo é, para a criança, “a dádiva por excelência, o dom de amor” (Lacan, 1962-1963/2005, p. 331). Nesse sentido, percebemos o quanto é narcísica a nossa relação com esse produto, e sua perda é narcísica, assim como a perda do seio materno e de outros objetos investidos, a perda da urina e dos fluidos corporais.
É no Seminário 10: A angústia que encontramos em Lacan (1962-1963/2005) um desenvolvimento mais extenso da questão anal ao dizer das formas em que o objeto a se manifesta, ligado à constituição do sujeito no campo do Outro e o representando. O objeto a sempre se apresenta em função de causa, causa de desejo e “desse objeto desagradável [o excremento], é privilégio da análise, na história do pensamento, ter feito emergir a função determinante na economia do desejo” (Lacan, 1962-1963/2005, p. 321).
À criança, num primeiro tempo, pedimos que retenha suas fezes. Retenção que se estende por um bom período, “a ponto de esboçar a introdução do excremento no campo do pertencente ao corpo e de fazer dele uma parte do corpo, considerada, pelo menos durante um certo tempo, como não devendo ser alienada” (Lacan, 1962-1963/2005, p. 327). Até que solicitamos que as solte e aquela parte apegada ao sujeito é elevada e valorizada no horizonte da demanda do Outro. O feito da defecação, portanto, será não só aprovado, mas envolto em elogios, limpeza e, consequentemente, em um acréscimo de erogeneidade. É nesse lugar que o excremento está na relação agalmática mãe-filho e o “ágalma só é concebível em sua relação com o falo, com a ausência dele, com a angústia fálica como tal” (Lacan, 1962-1963/2005, p. 328). Por isso, entre tantas funções excretoras, o ânus é privilegiado por sua função de corte, ação do esfíncter: “É esse corte que dá valor, dá ênfase ao objeto anal, com tudo o que ele pode vir a representar não simplesmente de dom, como se costuma dizer, mas de identidade” (Lacan, 1962-1963/2005, p. 79).
Quando falamos de desejo anal, adverte-nos Lacan, não estamos tratando da demanda materna - Solte o cocô! - mas do lugar de causa: “foi como simbolizador da castração que o a excrementício chegou ao âmbito de nossa atenção” (1962-1963/2005, p. 328). A evacuação, enquanto resultado da função anal, terá toda a sua importância no nível fálico, enquanto imagem da perda do falo. Olhando para a fase oral, na qual o objeto a é o seio, o bebê, chapado no peito da mãe, “não sabe, não tem como saber que o seio [...] é a realidade do limite do a em relação ao Outro. Ele acredita que o a é o Outro e que, ao lidar com a, está lidando com o Outro, o grande Outro, a mãe” (Lacan, 1962-1963/2005, p. 328). É no nível anal, inversamente, que o bebê terá a oportunidade, pela primeira vez, de se reconhecer num objeto que é guardado e evacuado, assimilado e perdido. E mais: renegado, porque com o “belo produto”, apreciado pelo Outro, não se deve ter relações, deve ser descartado. Parece mesmo, no nível biológico, que o ser vivo se interessa mais pelo que entra; o excremento está no fluxo daquilo que se descarta e se desinteressa.
Nesse sentido, Lacan (1962-1963/2005, p. 329) nos traz toda a ambiguidade para o sujeito diante da demanda do Outro; “ao mesmo tempo, o que está ali é a criança e não deve ser ela, e mais até, não é dela”.
Há algum tempo, uma antiga companheira de trabalho relatou um episódio vivido com seu filho quando tinha dois anos de idade. Recém-separada, com poucas condições financeiras, dividia a cama com o pequeno. Em uma manhã, bem cedo, um forte odor a despertou e percebeu o que acabara de acontecer. O filho, após defecar na fralda, manuseava todo aquele produto: levava à boca, esfregava pelo corpo, fazia riscos na parede e, por fim, passou no rosto da mãe. Ela, atordoada e incomodada com a situação, repreendeu o filho, foi lavá-lo e, em seguida, limpou todo o quarto. Com a insistência do cheiro, deu-se conta de que não havia se olhado no espelho e que estava com o rosto também sujo. Um parênteses impossível de não ser colocado é que ela vive, atualmente, fortes constipações, ficando, às vezes, uma semana sem ir ao banheiro.
Tal acontecido entre mãe e filho, no que há de mais simbólico, emerge como exemplo não só da relação libidinal do menino com suas fezes e do retorno do recalcado para a mãe, mas também nos aponta como a cultura faz seu trabalho no recalque: “São principalmente os componentes pulsionais coprófilos que se mostram intoleráveis com nossa cultura estética” (Freud, 1912/2023, p. 150). É o que Lacan (1962-1963/2005, p. 329) conclui ao dizer que “se a criança faz sujeira com ele [cocô] - todos sabem que é com isso que a gente se suja -, prefere-se indicar-lhe que é melhor fazê-la com outra coisa, com as massinhas do psicanalista infantil ou com as cores certas, que têm um cheiro menos ruim”.
No texto Sobre a mais geral degradação da vida amorosa, Freud (1912/2023) apresenta o primeiro recalque de nossa relação com a analidade sob o conceito de recalque orgânico. Em nossos primórdios, com o alcance da postura bípede, o olfato foi desprivilegiado e nossas partes inferiores perderam lugar enquanto contato mais imediato, algo que ainda observamos em muitos animais, por exemplo, nos cachorros. Inclusive, nos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, Freud (1905/2016, p. 48), em nota, fará a relação do fetiche com o abandono olfativo, apontando “a importância, na escolha do fetiche, de um ‘prazer de cheirar’ coprofílico que desapareceu mediante o recalque” exemplificando os pés e os cabelos como objetos fetichistas devido ao odor mais forte que possuem. Em nosso desenvolvimento, o olhar se fortaleceu e o corpo ressignificou suas partes: “a pele glabra, o superdesenvolvimento da musculatura facial para atender à complexidade da mímica facial, as mamas, os lábios, os lobos da orelha” (Jorge, 2022, p. 227). Algo, contudo, que não retirou o valor de nossos membros inferiores - nas palavras de Freud (1912/2023, p. 150): “Os processos fundamentais, que geram a excitação amorosa, permanecem inalterados” além disso, continuamos nos reproduzindo e nascendo “inter urinas et faeces”; o lugar de saída dos excrementos forma, juntamente com o sexual, “uma unidade demasiadamente íntima e inseparável”, continuando o “fator imutável determinante”.
Nesse aspecto, Lacan traz um parágrafo interessante, inclusive para nossa introdução etimológica, ao dizer da “assinatura” depois da passagem do ladrão, marca bem reconhecida pelos policiais e manuais da medicina legal. “Trata-se do fato curioso de o camarada que acaba de manejar o pé-de-cabra na casa de vocês, para abrir as gavetas, sempre ter uma dor de barriga nesse momento” (1962-1963/2005, p. 331). Para Lacan, aqui nos reencontramos com os condicionamentos dos mamíferos, em que há uma função de marca para as fezes. É o lugar em que o animal assegura para si a posse de um território, área de seu mundo e de sua exclusividade no cruzamento reprodutivo. Lembrando algumas publicações, Lacan apresenta o hipopótamo como exemplo dessa delimitação territorial fecal, onde ele se comporta invencível, dominante, dentro de sua área e completamente tímido, assujeitado, quando transpõe tal limite. Não poderíamos deixar de reconhecer nesse fundamento biológico “a função de representante do sujeito que tem o objeto a como fruto anal” (Lacan, 1962-1963/2005, p. 332).
Em extensão, neste litoral, a cultura trata de operar sobre nosso complexo anal, o que leva Freud a trabalhar a relação obsessiva de um indivíduo com o mundo. No texto Caráter e erotismo anal, Freud (1908/2015) não utiliza a palavra “obsessivo” enquanto diagnóstico, mas podemos aproximar a tríade sintomática com tal estrutura. O foco, porém, está no que jaz às atitudes de ordem, parcimônia e obstinação. Estabelecida a relação entre caráter do adulto e certa função corporal infantil e os órgãos nela envolvidos, Freud apontará o caráter escrupuloso, avarento e teimoso à função anal. Para nosso autor, a primeira infância dessas pessoas foi difícil no controle da atividade anal; crianças mais relutantes ao abandono da fralda ou que se ocupavam demasiadamente com os excrementos, mantendo um nítido acento erógeno nessa zona. Com o trabalho cultural, firmado no período de latência, as formações reativas de vergonha, nojo e moralismo surgem como uma barreira à relação libidinal anal e o surgimento dos traços de caráter citados brotam claramente como reação ao sujo, ao perturbador, ao que está no lugar errado.
Por isso, “se pretendemos deter-nos nesse objeto singular, sem dúvida, é pela importância de sua função, sempre reiterada à nossa atenção, e especialmente [...] na análise dos obsessivos” (Lacan, 1962-1963/2005, p. 322). Para eles, sobrevém o a excrementício, a como causa do desejo de reter. “Se eu quisesse realmente ligar sua função a tudo o que disse sobre as relações do desejo com a inibição, eu preferiria chamar esse a de rolha” (Lacan, 1962-1963/2005, p. 348).
Se esses termos nos levam a considerar o neurótico dentro das fases de seu desenvolvimento psíquico, é interessante notar, com Lacan (1957-1958/1999, p. 489), que nossa denominação de fase oral ou anal “é a maneira como o sujeito articula sua demanda, através do aparecimento [...] dos significantes que se formaram em tal ou qual etapa de seu desenvolvimento e que serviram para articular sua demanda em fases recentes ou mais antigas”.
O que podemos denominar como fixação seria, portanto, a insistência desses significantes tomados na mais tenra infância e regressão seria o reencontro desses significantes na fala do sujeito. Quando o neurótico está em confrontação com a demanda, há uma redução do discurso - “o estoque do significante, reduzidíssimo nesse momento, é posto em ação, na medida em que o sujeito articula correlativamente alguma coisa” (Lacan, 1957-1958/1999, p. 94) - e percebemos como as mesmas leis estruturais estão em toda a sua conduta.
O modo como se exprime, a articulação da fala, os traços motores, um gaguejar, um tropeço são significativos em “remeter a um significante da demanda como falta oral ou anal”, ou seja, “significantes tomados de empréstimo da bateria de um certo número de seus próprios órgãos” (Lacan, 1957-1958/1999, p. 490-491). Por isso, há uma ação econômica. Aquela relação imaginária de nossa infância é fixada e elevada a um status significante e, justamente, quando dizemos de imagens orais, não se trata de alimentos, e quando dizemos de imagens anais, não se trata de excrementos. “É por essas imagens estarem fora de seu texto, por não se tratar da necessidade pura e simples, que elas assumem uma outra função” (Lacan, 1957-1958/1999, p. 491). São as queixas ouvidas e percebidas no divã.
Porém, as formações reativas não são exclusivas como resposta a este trabalho de cultura. No final de seu texto Caráter e erotismo anal, Freud (1908/2016, p. 357) traz a dificuldade em encontrar tais reações “em pessoas que mantêm na vida adulta a qualidade erógena da zona anal” donde podemos considerar não só os estímulos nessa área, como também a atividade coprofílica. Contudo, a saída mais corrente, cultural não só como efeito, mas também como causa, seria a sublimação. Referenciado à arte (sublime), à química (sublimação de um estado diretamente a outro) e à psicologia (subliminar), o termo “sublimação” em Freud ganha o significado daquilo que, sexual em sua origem, é deslocado para algo que não tenha aparente relação com a sexualidade e que seria mais aceito socialmente (Roudinesco; Plon, 1998). O cirurgião que transformou seu sadismo, o padeiro que aplicou seu erotismo anal no produzir pães, o boxeador que deu vazão à sua pulsão de morte, ou seja, funções sociais fundadas no complexo sexual de cada sujeito. Dirá Freud (1905/2016, p. 80): “Desviando-se as forças pulsionais sexuais das metas sexuais para novas metas - um processo que merece o nome de sublimação - adquirem-se fortes componentes para todas as realizações culturais”. A arte também será um lugar privilegiado nesse aspecto, uma revolução estética para dar espaço àquilo que chamamos de resto.
Nossa referência vem de Miller: A salvação pelos dejetos, texto publicado na Revista da EBP em 2010. O título é a definição feita por Paul Valéry do Surrealismo, movimento artístico do início do século XX, que nasce, podemos dizer, da descoberta freudiana: “a promessa surrealista nunca teria sido proferida se não tivesse havido antes a psicanálise” (Miller, 2010, p. 19). E o que a psicanálise traz à tona? Os dejetos da vida psíquica e como eles operam em nós: sonhos, atos falhos, chistes, esquecimentos, o próprio sintoma. Mais ainda: por meio deles, a salvação; palavra de origem religiosa que aqui aponta não para um “salvar de algo”, mas para uma verdade, um saber sobre o sintoma. Até então, havíamos sempre buscado a salvação como Hércules que, na encruzilhada entre vício e virtude, optara pela virtude, caminho dos ideais. Freud nos abre uma terceira via: caminho dos dejetos (Miller, 2010).
Dejeto é o que sobra; da extração do ouro, o cascalho, o que cai enquanto algo se eleva, aquela lama na empreitada do idoso, “o que se evacua enquanto o ideal resplandece”. Ideal que “é a glória da forma, enquanto o dejeto é in-forme”, nas palavras de Miller (2010, p. 20). Sem forma, mas que informa, prevalecendo sobre uma totalidade em que ele é só uma parte. Aqui se aproxima o Surrealismo como estetização desse resto. O “in-forme” participando da estética cultural, apontando para uma nova consideração de beleza. Duchamp (1917), com sua obra A fonte, seria uma importante referência. Mas, com mais significância, lembramos de Piero Manzoni (1961) e sua obra Merda de artista. Ele produziu 90 latas de metal, com inscrições em diversas línguas, que continham fezes humanas e foram vendidas a preço de ouro, algumas leiloadas por quase trezentos mil euros. É inegável a relação com as conclusões de Freud.
A psicanálise, pioneira e avant-garde, continua atenta aos nossos restos. Opõe-se à cultura higienista, virtual em si, que insiste nas cores pálidas, em uma leitura estatística da sociedade, em seções opressoras, racistas, desiguais. São os restos que nos humanizam e deles tratamos em nossas análises. Fica o convite em considerarmos nossos nojos e repulsas, vergonhas e moralismos, como fruto de um trabalho cultural de sublimação ou como desfavorável reação àquelas economias de prazer infantis. Afinal, como marcou Eliana Mendes (2023, p. 81) em seu texto pelos 125 anos da psicanálise: “os desejos são sempre infantis, inconscientes e indestrutíveis”, muitos deles, certamente, fundados em nosso complexo anal. ϕ













