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Junguiana

versão On-line ISSN 2595-1297

Junguiana vol.43  São Paulo  2025  Epub 25-Ago-2025

https://doi.org/10.70435/junguiana.v43.202 

Artigo Original

Sexo (entre homens gays): sobre o gozo, fetiches, o numinoso e a individuação

Sexo (entre hombres gays): sobre el goce, los fetiches, lo numinoso y la individuación

Pitágoras Baskara Justino, conceituação, análise e redação – rascunho original, revisão e edição* 

Médico, com especialização em saúde mental pelo Hospital Sírio Libanês, São Paulo, Brasil; Doutor em ciências médicas pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) – Brasil; analista junguiano pelo Instituto Junguiano de São Paulo / Associação Junguiana do Brasil (IJUSP / AJB); Participação no Núcleo de Terapia de Casal e Família - Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica (SBPA).


http://orcid.org/0009-0004-5965-0312

* Pesquisador independente. São Paulo, São Paulo, Brasil.


Resumo

O trabalho explora a sexualidade masculina homoafetiva sob a perspectiva da psicologia analítica de Jung e da psicologia arquetípica de Hillman, abordando temas como o gozo, o numinoso e a individuação. Por meio de relatos clínicos e análises teóricas, discute-se a sexualidade como uma expressão arquetípica da psique, conectada à imaginação, à Sombra e ao processo de integração do inconsciente. A repressão cultural e histórica da sexualidade é analisada em contraste com sua potencialidade criativa e transformadora, destacando práticas e fantasias como portais para o autoconhecimento e a conexão com o Self. Ao enfatizar a importância de integrar essas dimensões no trabalho terapêutico, o texto defende uma abordagem que valorize a riqueza simbólica das experiências sexuais, reconhecendo seu papel na dinâmica arquetípica e na ampliação da consciência. ■

Palavras-Chave: psicologia analítica; sexualidade; gozo; fetiches; numinoso; individuação

Resumen

El trabajo explora la sexualidad masculina homoafectiva desde la perspectiva de la psicología analítica de Jung y la psicología arquetípica de Hillman, abordando temas como el goce, lo numinoso y la individuación. A través de relatos clínicos y análisis teóricos, se discute la sexualidad como una expresión arquetípica de la psique, conectada a la imaginación, la Sombra y el proceso de integración del inconsciente. La represión cultural e histórica de la sexualidad se analiza en contraste con su potencial creativo y transformador, destacando prácticas y fantasías como portales para el autoconocimiento y la conexión con el Self. Al enfatizar la importancia de integrar estas dimensiones en el trabajo terapéutico, el texto defiende un enfoque que valore la riqueza simbólica de las experiencias sexuales, reconociendo su papel en la dinámica arquetípica y la expansión de la conciencia. ■

Palabras-clave: psicología analítica; sexualidad; goce; fetiches; numinoso; individuación

Abstract

The work explores male homoaffective sexuality from the perspective of Jungian analytical psychology and Hillman’s archetypal psychology, addressing themes such as pleasure, the numinous, and individuation. Through clinical accounts and theoretical analyses, sexuality is discussed as an archetypal expression of the psyche, connected to imagination, the Shadow, and the process of unconscious integration. The cultural and historical repression of sexuality is analyzed in contrast with its creative and transformative potential, highlighting practices and fantasies as portals for self-discovery and connection with the Self. By emphasizing the importance of integrating these dimensions into therapeutic work, the text advocates for an approach that values the symbolic richness of sexual experiences, recognizing their role in archetypal dynamics and expanding consciousness. ■

Key words: analytical psychology; sexuality; pleasure; fetishes; numinous; individuation

Introdução

“Semana passada tive uma experiência incrível com um cara do Grindr. Eu estava comendo ele e de repente ele cagou no meu pau. Sei que parece nojento, mas me senti tão poderoso. Sensação daquilo ser errado e mesmo assim eu estava fazendo – o gozo foi incrível” (relato de paciente homem gay).

A ausência de discussões sobre sexualidade e fantasias sexuais em meus atendimentos, especialmente entre pacientes heterossexuais, me intriga. Essa ausência contrasta com a visão de Jung (2015) e Hillman (2013), que concebem a sexualidade não apenas como um instinto, mas como uma força criativa fundamental para a individuação. Acredito que, como analistas junguianos, temos subestimado a importância da sexualidade em nossas práticas clínicas. Essa lacuna reflete um sintoma cultural mais amplo, enraizado em nossa própria prática, marcado pela repressão e tabu em torno da sexualidade. Paradoxalmente, em minha experiência, homens gays frequentemente abordam o tema de forma aberta e profunda durante as sessões.

Olhando para trás, posso dizer que sou o único que prosseguiu o estudo dos dois problemas que mais interessaram a Freud: o dos resíduos arcaicos e o da sexualidade. Espalhou-se o erro de que não vejo valor na sexualidade. Muito pelo contrário, ela desempenha um grande papel em minha psicologia, principalmente como expressão fundamental – mas não a única – da totalidade psíquica. Minha preocupação essencial era, no entanto, aprofundar a sexualidade, além do seu significado pessoal e seu alcance de função biológica, explicando-lhe o lado espiritual e o sentido numinoso [...]. Como expressão de um espírito ctônico, a sexualidade é da maior importância. Esse espírito é a “outra face de Deus”, o lado sombrio de Sua imagem (Jung, 2015, p. 174).

Hillman também amplia nossa compreensão da sexualidade, vendo-a não apenas como um instinto biológico, mas como um fenômeno psíquico que revela as profundezas da alma humana e seus arquétipos.

O sofrimento lacerado e torturante, ao invés de ser curado pela medicina de Apolo, torna-se uma iniciação ao cosmo de Dionísio (Hillman, 1984, p. 232).

Para aprofundar minha análise, utilizarei relatos de pacientes gays e trechos de entrevistas. A partir da psicologia junguiana e arquetípica, quero explorar aspectos teóricos relacionados à sexualidade, buscando identificar padrões e generalizações que transcendam a orientação sexual. No entanto, dada minha própria experiência como homem gay, as reflexões serão direcionadas para a compreensão da sexualidade masculina homoafetiva.

Embora a teoria freudiana tenha trazido importantes contribuições para a compreensão da sexualidade, como os conceitos de polimorfismo perverso no desenvolvimento psicossexual e o fetichismo, foi Jung quem expandiu essa discussão ao explorar a sexualidade como expressão de símbolos do inconsciente coletivo. Enquanto Freud enfatizava o polimorfismo perverso da libido — “polimorfa” pela multiplicidade de formas de obtenção de prazer e “perversa” por transcender os padrões da sexualidade adulta —, a teoria junguiana destacava a enantiodromia da libido, ou seja, sua transformação do instintivo para o espiritual. Nesse sentido, uma fantasia freudiana como o incesto pode ser compreendida simbolicamente, segundo Jung, como uma nostalgia por renascimento: não mais um desejo literal de penetração na vagina materna, mas um retorno simbólico ao útero arquetípico, representando o inconsciente transpessoal de onde todos viemos. Para Jung, a grande causa das neuroses do homem moderno não é a repressão sexual, mas a atrofia de sua capacidade simbólica (Downing, 2006).

Na sociedade moderna, vários fatores culturais empobreceram nossas experiências simbólicas e nos condicionaram a um comportamento específico e rígido de sexualidade. Corbin (2024) destaca a evolução das práticas sexuais e da intimidade, mostrando como o prazer foi gradualmente “civilizado” e integrado às estruturas sociais. Ele discute o impacto da moralidade, das convenções sociais e das mudanças culturais na percepção do prazer, revelando como o corpo e os desejos sexuais foram regulamentados e transformados ao longo do tempo. Por exemplo, na Idade Média, o discurso religioso cristão moldou fortemente a visão da sexualidade, retratando o prazer sexual como pecaminoso e algo a ser controlado. Instituições como a Igreja Católica estabeleceram regras rigorosas para a prática sexual, limitando-a ao contexto do casamento e apenas para a procriação, reprimindo qualquer expressão de desejo fora desse modelo. Além disso, durante o século XIX, com a consolidação da era vitoriana, a repressão sexual foi ainda mais evidente. Normas sociais impuseram um ideal de recato e contenção, especialmente para as mulheres, enquanto práticas como a masturbação eram demonizadas e associadas a doenças físicas e mentais. Mesmo a ciência médica influenciou os comportamentos sexuais, rotulando práticas não convencionais como “desvios” ou “patologias”, criando um sistema de controle baseado em supostas verdades científicas. Mesmo hoje podemos perceber como os corpos são regulados pela mídia e pela publicidade, que criam padrões irreais de beleza e desejo, impactando a percepção de si mesmo e do prazer (Corbin, 2024).

Como analistas, e pensando no processo de individuação de nossos pacientes, poderíamos explorar mais a sexualidade (e fantasias sexuais) no consultório clínico?

A individuação, conceito central da psicologia analítica, é um processo de formação e singularização da alma. Ao se diferenciar dos padrões coletivos, o indivíduo desenvolve sua singularidade. A repressão desse processo prejudica a vitalidade e a criatividade. Indivíduo e alma se conectam profundamente através de símbolos e pela imaginação, expandindo a percepção de si mesmo. Neste processo, nossas experiências, por mais pessoais que pareçam, se conectam a um contexto mais amplo, arquetípico e mítico (Jung, 2013a).

Como reconhecer as experiências (imagens) sexuais como emanações da alma (arquetípicas)? São elas numinosas?

Corbett (2012) descreve o numinoso como uma experiência direta do indivíduo com o sagrado; o encontro com forças que transcendem a experiência individual com o mundo, e que não precisa estar, necessariamente, ligada a ensinamentos, doutrinas ou tradições religiosas. Ele cita também Rudolf Otto que descreve estes momentos como “o mistério tremendo e fascinante que se apodera de nós”.

Nos sentimos atordoados, atônitos e cheios de admiração porque fomos abordados por algo estranho, que não faz parte do nosso mundo comum, algo muito difícil de expressar em palavras (Otto, 1958, apudCorbett, 2012, p. 12).

Nesse sentido, a meu ver, reconhecer o aspecto numinoso da sexualidade e trabalhar com as fantasias sexuais pode ser um caminho criativo para o autoconhecimento e a individuação. Como propõe Hillman, a tarefa não é sobre interpretar racionalmente essas fantasias, mas sim acolhê-las e integrá-las à nossa experiência psíquica, permitindo um diálogo mais profundo com o inconsciente (Hillman, 2010).

A Metáfora do Sexo: Multiplicidade e Sombra

“Desde o começo do namoro, nós transávamos com camisinha pois eu sabia que ele era portador do HIV. E por muitos anos, nossa vida sexual foi satisfatória assim. Mas quando decidimos abrir a relação e eu o via transando com outros caras, sem camisinha, sendo leitado por eles, aí eu percebi que aquilo sim era sexo pra mim; aquilo me levava ao êxtase!” (relato de paciente homem gay).

“Eu adoro gangbang. Como passivo, me sinto extremamente bem quando vários caras estão me comendo. É como se eu fosse um objeto para eles e eles podem fazer o que quiserem comigo” (relato de amigo homem gay).

Tanto a psicologia analítica quanto a psicologia arquetípica criticam a categorização da sexualidade dentro de moldes sociais preestabelecidos, delimitando as experiências psíquicas e desvalorizando a vasta gama de imagens que possam florescer a partir destas experiências. Ambas entendem a sexualidade como um fenômeno imaginal e polimorfo.

Jung defendeu que um problema real na psicologia seria uma forte tendência de permitir que a sexualidade fique confinada em preconceitos sociais, que delimitam a psique e desvalorizam a vasta gama de conteúdos psíquicos (Santana, 2017, p. 46).

A natureza múltipla da sexualidade, a plasticidade do instinto e sua fácil contaminação pela oralidade, pela agressão e pela criatividade, significam que a sexualidade nunca é “sempre” ou “somente”, nunca uma e a mesma (Hillman, 1984, p. 65).

Berry (2014) ainda nos lembra que quando a psicologia profunda volta seu olhar para as fantasias da primeira infância, certos padrões se revelam com clareza — sobretudo a multiplicidade das expressões sexuais. Há experiências que envolvem a boca, o ânus, os órgãos genitais — e cada uma oferece seu tipo específico de prazer. A fantasia infantil, segundo essa perspectiva, nos apresenta como seres multissexuais, capazes de vivenciar a sexualidade por diversas vias. Importante destacar que esses prazeres não têm, a princípio, qualquer vínculo com o gênero. A identificação com o masculino ou o feminino é algo que se forma mais adiante. Antes que nos reconheçamos como meninos ou meninas, somos polimorficamente perversos: desejantes, excitáveis, sensuais em tudo. Cada região do corpo, em algum momento, pode ser tomada por uma energia erótica particular (Berry, 2014).

Como podemos experimentar a delícia do gênero sem cairmos nesses dogmas defensivos, limitantes? Um passo poderia ser reconectar o gênero com o campo original de prazer pré-gênero. Em vez de enxergarmos o gênero como um desenvolvimento que nos afasta do polimorfo, talvez pudéssemos experimentá-lo como uma outra forma dos muitos prazeres, uma das maneiras em que a sensualidade se diverte (Berry, 2014, p. 61).

Na perspectiva junguiana, as expressões da sexualidade masculina homoafetiva podem ser interpretadas como manifestações das dinâmicas arquetípicas da anima, associadas a um complexo materno, e influenciando como o homem internaliza e se relaciona com o feminino (Jung, 2014).

Hillman (1985) problematiza o binarismo presente na teoria junguiana tradicional, sugerindo que a oposição entre elementos psíquicos é apenas uma entre diversas formas possíveis de manifestação dos padrões arquetípicos. Enquanto Jung enfatiza a “tensão dos opostos”, Hillman propõe uma visão mais dinâmica: em vez de uma oposição rígida, ele fala de tensão dialética destes pares que se encontram em uma relação contínua e mutuamente reveladora. Assim, pares como masculino/feminino, luz/sombra, ativo/passivo, não estão presos numa oposição estática ou numa luta dualista, mas sim num movimento conjunto, em diálogo contínuo, onde um complementa, revela e até depende do outro para existir com sentido.

Nesse sentido, Hillman recorre à noção de Sizígia — pares arquetípicos de opostos complementares — para mostrar que ambos os polos participam simultaneamente da mesma realidade (Hillman, 1985). A Sizígia nos convida a reconhecer a presença de múltiplas facetas dentro de cada indivíduo, com potencial para vivenciar e desenvolver aspectos diversos da sexualidade. Esta fluidez sexual pode ser compreendida como a capacidade de transitar entre diferentes expressões e identidades sexuais, sem se fixar em um único ponto. A Sizígia, ao reconhecer a coexistência de polaridades, oferece um espaço para essa fluidez, questionando a necessidade de rótulos e categorias rígidas.

De acordo com esta segunda posição, todo arquétipo subentende outro: criança-mãe, mãe-herói, herói-pai, pai-filho, filho-velho sábio, velho sábio-filha, filha-mãe, mãe-criança, e assim por diante, não importa como começamos ou de que forma prosseguimos [...]. Assim, a anima pode ter diferentes nomes, valências e imagens dependendo do tandem em que se encontra. Parece que só podemos captar sua essência em contraste com alguma outra coisa. Normalmente, este contraste tem sido identificado com a contrassexualidade. Mas também falamos de anima em tandens com ego, sombra, persona e self (Hillman, 1985, p. 183).

No escopo conceitual da psicologia analítica, destaca-se a oposição fundamental entre a persona – a faceta socialmente adaptada da personalidade – e a Sombra, constituída pelos aspectos de si mesmo que são reprimidos ou negados. A persona representa o “eu” público moldado pelas expectativas sociais e convenções, enquanto a Sombra abriga conteúdos pessoais incompatíveis com a autoimagem consciente e os valores coletivos vigentes. Essa relação antitética gera um confronto interno que, segundo Jung, precisa ser enfrentado para possibilitar o desenvolvimento psicológico pleno. Com efeito, a integração da Sombra constitui uma das tarefas mais árduas do processo de individuação (Jung, 2013b).

No contexto do amadurecimento psíquico, acredito que as fantasias sexuais, incluindo desejos fetichistas e outras elaborações eróticas, manifestam-se como uma via simbólica de acesso aos conteúdos sombrios da psique. Semelhantemente aos sonhos e à imaginação ativa, essas fantasias podem evocar impulsos e imagens tanto da Sombra pessoal quanto de padrões arquetípicos coletivos, proporcionando ao indivíduo a oportunidade de confrontar e elaborar tais elementos inconscientes. Ao permitir que aspectos renegados da personalidade encontrem expressão simbólica, as fantasias sexuais configuram um espaço psíquico no qual a consciência pode engajar-se em diálogo com a Sombra. Esse engajamento facilita gradualmente a assimilação desses conteúdos inconscientes, contribuindo, assim, para o avanço do processo de individuação.

Thomas (2024) descreve alguns exemplos do encontro com a Sombra Coletiva (arquetípica) entre os praticantes de BDSM (acrônimo que engloba diversas práticas relacionadas a dominação, submissão, controle e prazer):

Nestas práticas, características distintivas que compõem uma identidade pessoal foram apagadas. A pessoa no papel de Submisso é transformada em um objeto de propriedade pertencente ao Dominador. Esta é a resposta da Sombra que privilegia, na cultura ocidental, indivíduos com autoconfiança, responsabilidade pessoal, independência, individualidade e habilidade. Como um exercício de negação e apagamento, a figura do Submisso, em suas roupas de látex, coloca certas questões impensáveis: O que resta de você quando você não é mais uma pessoa? Quando você deixa de lado os vestígios de identidade, para onde você vai? O que acontece com um relacionamento pessoal quando a construção da pessoa desaparece? O que acontece com a psique quando ela é libertada das histórias que você conta a si mesmo e aos outros sobre a pessoa que você pensa que é? (Thomas, 2024, p. 44).

Para o autor, estas experiências guardam, a partir da perspectiva da alma, muito valor psíquico, pois expõem uma parte não examinada da Sombra pelo ego consciente, assim como confrontam o viés do nosso pensamento coletivo (o herói). A passagem mostra o prazer de se render que acompanha a submissão, esta submissão requer coragem e força.

Nada é mais sublime ou divino, conectando-se ao Self, do que apagar o ego e seu senso de self. O que acontece de uma perspectiva interior quando a pessoa submissa é conduzida, por uma corrente, amarrada, é que todos os sentidos são elevados além da mente egóica; você fica com uma orientação estética. Se você acha que precisa estar no controle para orientar o mundo, ali você foi vencido. Se você está em um estado de profunda submissão e confia na pessoa que o puxa, então todos os seus sentidos estão focados nela, o que o tira de si mesmo e o deixa em um lugar que está além da mente do ego. E isso aumenta um senso de altruísmo em um estado realmente profundo de submissão, o que pode levá-lo a esse senso de unidade com o Self - conexão com os sentidos que restam. É uma conexão pelo menos com a pessoa que o conduz, pelo menos a um estado de ser maior do que o corpo enclausurado (Thomas, 2024, p. 44).

Em um nível social abrangente, a Sombra revela as verdades incômodas da nossa natureza coletiva, contrastando com as narrativas idealizadas que construímos sobre nós mesmos e a sociedade. Podemos ver expressões da Sombra na glorificação da agressividade, na obsessão pelo controle, no sadismo, bem como na busca por prazer através da humilhação e da dominação.

A sexualidade humana, em particular nas dinâmicas de poder e submissão, transcende as preferências individuais, refletindo aspectos profundos da psique coletiva. A forma como nos relacionamos com o poder, a vulnerabilidade e o desejo é influenciada por padrões arquetípicos e experiências sociais que moldam nossa compreensão da sexualidade. É necessário reconhecer a complexidade da psique humana e a interconexão entre o individual e o coletivo para compreender as dinâmicas de poder e submissão que permeiam as práticas sexuais.

O Gozo: Renascimento e Morte

“Eu transo quase todos os dias. Nos fins de semana mais de uma vez por dia. Não vejo nenhum problema nisto. Você vê?” (relato de paciente homem gay).

“Eu pedi para meu namorado me dar uns tapas na cara, mas ele assustou e acabou brochando” (relato de paciente homem gay).

Hillman (1998) identifica três dimensões distintas do Eros: o himeros, o desejo físico e imediato; o anteros, o amor correspondido; e o pothos, o anseio pelo idealizado e inacessível. O pothos representa a dimensão espiritual do amor, a busca incessante por algo além do presente. É essa força que impulsiona a individuação, levando-nos a buscar experiências que transcendam o imediato e o conhecido. Para o autor, os sinais de pothos em nós manifestam-se como uma vontade nostálgica de partir, uma ansiedade, o desejo erótico, e um impulso urgente para a transgressão (Hillman, 1998).

Essa busca é marcada pela ambivalência e pela inquietação, revelando um desejo profundo pela união dos opostos (Sizígia). O outro, nesse contexto, não representa apenas um objeto de desejo, mas sim um símbolo daquilo que ainda não foi integrado à nossa psique. O pothos nos impulsiona a buscar essa união, mesmo que ela pareça inalcançável. Desta forma, pothos também se expressa na busca incessante pelo prazer sexual, embora sua essência resida em um anseio mais transcendental (Hillman, 1998).

A alteridade, ou seja, a presença do outro em nossas vidas, é sentida como um desconhecimento de si mesmo, uma alienação interna. Sempre há em nós uma sensação de estranheza, de ser um pouco desconhecido para nós mesmos, e nunca podemos nos conhecer plenamente a não ser através da descoberta do outro, que frequentemente fantasiamos estar em algum lugar distante. Por isso, partimos em busca dessa figura, seja ele ou ela (Hillman, 1998, p. 198).

Dentro deste mesmo tema, Edinger (2008) explora a ideia do Coniunctio como o processo de fusão real e transformador dos opostos, proporcionando morte e renascimento psíquicos (masculino e feminino, ativo e passivo, consciente e inconsciente, espírito e instinto). Ele destaca que a união dos opostos é um movimento natural do processo alquímico e da psicologia analítica: representada, simbolicamente, por imagens alquímicas, como o casamento sagrado (hieros gamos), que reflete a integração psíquica. O Coniunctio requer a tensão entre os opostos e a capacidade de suportar o conflito psíquico. A integração ocorre quando essas forças são reconciliadas (por exemplo, um novo conteúdo da Sombra é reconhecido e integrado à consciência). Como arquétipo, podemos entender o Coniunctio como esse movimento contínuo na busca da integração (Edinger, 2008).

Pothos, segundo Hillman (1984), impulsiona a alma para a integração. Assim, a busca pelo gozo (o desejo erótico) pode ser vista como uma tentativa de alcançar o Coniunctio, a união dos opostos e a integração da psique.

A consciência heroica do ego segue um caminhar ascendente. Mas, o movimento da libido representado por Dionísio vai e vem [...]. A libido desce em busca de refúgio quando está pressionada pelas excessivas exigências de Licurgo, o cego tirano da vontade de domínio exemplificada pelo rei mítico da Ilíada (Hillman, 1984, p. 249).

Ainda para Hillman (1984), o Coniunctio não é apenas um processo psíquico de integração dos opostos, mas também uma expressão arquetípica do anseio da alma por relação e conexão. Nesse sentido, o desejo sexual não é apenas um catalisador, mas um componente essencial do processo alquímico da alma, evocando imagens profundas de união e separação que mantêm viva a energia criativa da psique (Hillman, 1984).

E por isso o orgasmo, segundo Hillman (2010), pode ser considerado como uma experiência de transcendência temporária do ego, um momento em que a consciência cotidiana é suspensa. Essa “morte momentânea” da identidade pode ser entendida arquetipicamente como uma descida ao mundo da alma (Psyche):

Eu mencionei anteriormente como nossas fantasias conduzem os eventos para uma possibilidade incurável, para meningites ou cânceres, ou para suicídio. A possibilidade incurável é nada menos do que a morte (Hillman, 2010, p. 229).

Hillman (1984) relaciona Eros (o arquétipo da união) com Thanatos (o arquétipo da morte) para enfatizar como o desejo e o êxtase sexual nos confrontam com aspectos profundos de nossa mortalidade e transcendência. Essa interação pode ser vista como uma dinâmica simbólica que alimenta o processo de individuação:

O Hades dentro de Dionísio diz que há um significado invisível nos atos sexuais, uma significância para a alma no desfile fálico, que toda nossa força vital, incluindo os desejos polimórficos e pornográficos da psique, referem-se ao mundo inferior das imagens (Hillman, 2013, p. 77).

Hillman (1984) ainda complementa que a alma se forma e se transforma no percurso do mundo. Aquilo que tem significado para a vida, simultaneamente tem significado para a alma; por isso, é necessário considerar o próprio modo de viver à luz de Hades — o mundo interior de profundezas, sombras e invisibilidades. O outro aspecto dessa identidade misteriosa, Dionísio dentro de Hades, revela que há uma vitalidade arquetípica (zoé) presente em todos os fenômenos sombrios. “O reino dos mortos, afinal, não é tão morto quanto esperamos”. Hades pode tomar posse da psique por meio de fantasias sexuais, revelando uma libido secreta que habita nas sombras. Suas imagens também são dionisíacas — não férteis biologicamente, mas férteis do ponto de vista da psique, no plano das imagens, da imaginação e da alma. “Nesse sentido Hades e Dionísio são o mesmo” (Hillman, 2013, p. 78).

A suprema beleza da Psique é aquela que nem mesmo Afrodite possui e que deve vir de Perséfone, a Rainha das almas mortas, cujo nome significa “portadora de destruição” [...]. A caixa da beleza que Psique deve buscar como sua última tarefa alude a uma beleza do mundo subterrâneo que nunca pode ser vista com os sentidos. É a beleza do conhecimento da morte e dos seus efeitos sobre todas as outras belezas. Psique deve “morrer” a fim de experimentar a realidade desta beleza [...]. Reconhecemos o primeiro fruto de uma união psicologicamente criativa pelas experiências de prazer (entre Psique e Eros) – pois este é o nome do seu primeiro filho. Prazer, deleite, alegria, Voluptas [...]. Em nossa história, a realização da Psique é Prazer, o prazer nascido da alma (Hillman, 1984, pp. 96-97).

Sexo no consultório: o Analista e as Práticas Sexuais não Convencionais

“Você caga na minha boca?” (experiência pessoal)

“Enquanto estou metendo, adoro enforcar o passivo!” (relato de paciente homem gay)

Hillman (1995) nos convida a enxergar o desejo sexual não apenas como um impulso biológico, mas como uma rica tapeçaria de símbolos e arquétipos. Cada fetiche, cada fantasia erótica, pode ser interpretado como uma dramatização dessas forças arquetípicas profundas.

A pornografia, por exemplo, funciona como um palco onde arquétipos como Eros e Thanatos se entrelaçam, criando narrativas complexas sobre poder, submissão e a dualidade entre vida e morte. As imagens que encontramos nesses conteúdos vão além do explícito, revelando um mundo de significados simbólicos que dialogam com nossos mais profundos anseios e medos (Hillman, 1995).

Tziallas (2015) aprofunda essa análise, mostrando como a pornografia contemporânea reforça e recria arquétipos culturais. Ele descreve a representação recorrente, em sites de pornografia para homens gays, de dinâmicas de poder, como dominação e submissão, sadismo e masoquismo; e que nos remete a mitos e lendas ancestrais.

Assim, o desejo sexual não é apenas uma experiência física, mas uma jornada simbólica que nos conecta com as profundezas do inconsciente coletivo. Ao explorarmos as imagens e fantasias eróticas, estamos, na verdade, dialogando com arquétipos que moldam nossa percepção da realidade e de nós mesmos.

A tarefa da psicologia arquetípica, e de sua terapia, é descobrir o padrão arquetípico das formas de comportamento. Pressupõe-se sempre que tudo se encaixa em algum lugar: todas as formas de psicopatologia têm seu substrato mítico e pertencem ou têm guarida nos mitos [...]. De modo que, hoje em dia, quando quisermos encontrar os deuses, é para nossas patologias que devemos olhar. Para nós, o trabalho principal da terapia, mais do que a análise do inconsciente, consiste na conservação, exploração e vivificação da imaginação e dos insights daí derivados (Hillman, 1998, p. 184).

A sexualidade, especialmente em suas formas menos normativas, desafia convenções e nos confronta com o “outro” dentro de nós – um aspecto arquetípico que simultaneamente é um “isso” e um “tu”. Esse confronto, embora desafiador, tem o potencial de abrir novas vias de integração psíquica e autoconhecimento, permitindo que aspectos reprimidos ou negados da personalidade venham à tona (Thomas, 2024).

No espaço analítico, a sexualidade emerge como um portal para as profundezas da psique. O trabalho terapêutico não se limita a categorizar ou julgar essas dinâmicas; ao contrário, deve oferecer um ambiente no qual o paciente pode explorar suas fantasias e imagens interiores, confrontando as forças instintivas e simbólicas que moldam sua sexualidade. Esse processo permite que o indivíduo reconheça a riqueza arquetípica presente em suas experiências e comece a integrar os significados que emergem desse diálogo com o inconsciente.

Assim, o sexo deixa de ser apenas um ato físico ou biológico e se revela como um agente de transformação psíquica. Ele atua como uma ponte entre o mundo literal e o imaginal, onde cada encontro sexual se torna uma oportunidade de explorar o simbólico.

Conclusão

A sexualidade e as fantasias sexuais representam dimensões poderosas e muitas vezes negligenciadas no trabalho analítico. Essa negligência pode ser reflexo de uma moralidade culturalmente imposta, que limita nossa capacidade de acessar esses conteúdos em profundidade. Como analistas, também carregamos nossos próprios preconceitos e resistências, os quais precisam ser enfrentados e integrados para que possamos auxiliar nossos pacientes em seus processos de individuação.

Para Hillman (1985), a integração das imagens psíquicas exige atenção à sua autonomia relativa, reconhecendo-as como expressões simbólicas que transcendem o pessoal. O reconhecimento desse “politeísmo psíquico” permite enxergar além das projeções, percebendo a força arquetípica impessoal que molda a psique. Hillman (1985) afirma: “Reconhecer que todo meu eu e minha importante subjetividade vêm de um arquétipo que é totalmente impessoal” (Hillman, 1985, p. 137).

Ao integrar as fantasias sexuais na prática clínica — da mesma forma que fazemos com os sonhos —, abrimos um espaço para que a consciência dialogue com os conteúdos inconscientes de forma dialética e simbólica. Esse trabalho é essencial para que a anima deixe de ser vivida como uma entidade autônoma e passe a ser compreendida como uma função da psique integrada à totalidade do indivíduo. Assim, o reconhecimento e a integração dessas dimensões ajudam nossos pacientes a acessar não apenas seu potencial transformador, mas também uma compreensão mais ampla e legítima da sexualidade como expressão vital e criativa da alma. ■

Referências

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Financiamento: Nada a declarar.

Recebido: 25 de Janeiro de 2025; Aceito: 13 de Abril de 2025; Revisado: 08 de Maio de 2025

Conflito de interesses:

Nada a declarar.

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