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Jornal de Psicanálise

versão impressa ISSN 0103-5835

J. psicanal. vol.56 no.105 São Paulo jul./dez. 2023  Epub 26-Ago-2024

https://doi.org/10.5935/0103-5835.v56n105.17 

Artigo

Emprestar a história para a dor não doer nos outros

Prestar la historia para que el dolor no lastime a los demás

Lending the story so the pain doesn’t hurt others

Prêter l’histoire pour que la douleur ne fasse pas de mal aux autres

Elisa Bracher1 

1Artista plástica, diretora do Ateliescola Acaia, diretora do instituto Çarê e criadora do canal Infâncias Despedaçadas. São Paulo


Resumo

Esta narrativa é compartilhada pela autora, artista plástica e educadora, que passou por uma experiência de estupro na infância. Relata como a mudança de sua família para Brasília quando tinha 11 anos a deixou isolada e vulnerável. O agressor era alguém próximo, e ela descreve a complexidade de sentimentos que uma criança enfrenta nessa situação. O texto aborda o impacto duradouro desse trauma, suas relações posteriores e a dificuldade de expressar sua dor.

Palavras-chave: estupro infantil; isolamento; trauma; dor

Resumen

Esta narrativa es compartida por la autora, una artista plástica y educadora, quien vivió una experiencia de abuso sexual en su infancia. Ella relata cómo el traslado de su familia a Brasilia cuando tenía 11 años la dejó aislada y vulnerable. El agresor era alguien cercano, y ella describe la complejidad de los sentimientos que un niño enfrenta en esta situación. El texto aborda el impacto duradero de este trauma, sus relaciones posteriores y la dificultad para expresar su dolor.

Palabras clave: abuso sexual infantil; aislamiento; trauma; dolor

Abstract

This narrative is shared by the author, a visual artist and educator, who went through a childhood experience of sexual abuse. She recounts how her family’s move to Brasilia when she was 11 left her isolated and vulnerable. The perpetrator was someone close, and she describes the complexity of feelings a child faces in such a situation. The text addresses the lasting impact of this trauma, her subsequent relationships, and the difficulty of expressing her pain.

Keywords: childhood sexual abuse; isolation; trauma; pain

Résumé

Cette narration est partagée par l’auteure, une artiste plasticienne et éducatrice, qui a vécu une expérience de viol dans son enfance. Elle raconte comment le déménagement de sa famille à Brasília lorsqu’elle avait 11 ans l’a laissée isolée et vulnérable. L’agresseur était quelqu’un de proche, et elle décrit la complexité des sentiments qu’un enfant éprouve dans une telle situation. Le texte aborde l’impact durable de ce traumatisme, ses relations ultérieures et la difficulté d’exprimer sa douleur.

Mots-clés viol d’enfance; isolement; traumatisme; douleur

Meu nome é Elisa Bracher, hoje tenho 57 anos. Sou artista plástica e educadora. E tenho uma história de estupro infantil.

Resolvi agora falar sobre isso porque fiquei muito chocada com a notícia de uma menina Yanomami que foi estuprada até a morte. A frase “estuprada até a morte” é muito forte, pegou muito fundo nas minhas entranhas e resolvi que seria importante fazer esse depoimento.

Quando eu tinha 11 anos, minha família mudou de cidade, de São Paulo para Brasília, e foi um momento complexo para todos. Nossa família ficou toda atrapalhada e eu acho que o sentimento que mais me caracterizava naquele momento, primeiro era um espanto de ter mudado para uma cidade em que eu não conhecia, que eu não entendia a lógica, e de uma solidão muito grande. Meus pais estavam muito atarefados e meus irmãos, alguns não foram, outros foram, mas enfim, eu fiquei nesse momento muito sozinha.

Eu acho que a criança é sempre muito dada e eu era uma criança alegre, uma criança de paz com o mundo, apesar de ter tido um acidente aos 5 anos, eu ainda estava me recompondo desse acidente quando fomos para Brasília.

Cheguei lá nessa solidão muito grande, e tenho a impressão de que a criança fica, eu fiquei pelo menos, muito vulnerável. Quase como se qualquer um que se aproxime de você e que faça um gesto, lhe proporcione um sentimento de acolhimento. Você aceita esse acolhimento. E por ser criança, também não percebe muito o risco que isso pode lhe oferecer.

E aí tem um agravante que é o momento em que você tem o desejo despertado. Para uma criança, como foi para mim, é muito violento. É uma coisa muito violenta, não tem o que fazer com isso. Não cabe em nenhum lugar. Não se sabe o que fazer com isso. É um misto de medo, porque se percebe que existe alguma coisa muito errada ali,. Dá muito medo. Por outro lado, tem um componente de prazer também. E a solidão continua ou até se acentua.

E o ato do abuso, do estupro, da violência, é uma sensação que fica muitos anos com você. Você se sente suja, uma pessoa suja, uma criança suja. Uma pessoa com um cheiro, com uma porra do homem, com o pinto. Você sente seu corpo desmembrado nessa sujeira. E isso acentua muito a solidão, porque isso faz com que você não se sinta à altura de entrar em lugar nenhum, de estar convivendo com ninguém. Fica uma confusão de sentimentos, enfim, de medo. Isso acaba por acentuar a solidão. Mas quando você está com a pessoa, naquele momento é como se fosse um vício, que te acalma, mas depois as sensações ruins se acentuam ainda mais.

A minha foi uma história que durou três anos, foi o tempo de permanência nessa casa, lá em Brasília. Eu me lembro de ficar esperando a minha mãe chegar do trabalho. Eu ficava perto do portão de entrada para ficar mais perto dela, para ouvir o barulho do carro chegando. Isso era uma coisa que eu já fazia em São Paulo, ficava esperando mamãe chegar, mas em São Paulo tinha uma porção de gente na casa, pessoas muito próximas, muito íntimas, e lá em Brasília não tinha.

Essa casa em que morávamos era muito grande, eu fui para o portão nesse dia. Eu me lembro, já estava escurecendo, tinha um carro e eu me sentei ali no capô desse carro, na garagem. O segurança da casa aproximou-se e sentou-se do meu lado. Eu não lembro muito bem a conversa que tivemos, eu sei que eu acabei deitando minha cabeça no colo dele. E ele começou a mexer no projeto de peito que eu tinha, eu não tinha nem seios ainda. Abriu minha calça, começou a me excitar muito, eu fiquei muito excitada. E aí aconteceu a coisa. Eu me lembro que, na minha cabeça, durou uma eternidade. E quando acabou, vesti a calça e estava muito assustada. E nessa hora senti o desmontar do meu corpo, como se o corpo se desmembrasse e as partes ficassem todas soltas. Fiz o movimento de voltar para casa, subir, queria tomar banho, me lavar, mas ele falou: Não, você tem que esperar, e me segurou. Muito assustada falei: Mas por que eu tenho que esperar? Ele tinha um espelhinho de barbear - uma época eu até comprei um desses no mercado para fazer um trabalho de arte - desses de pendurar. Ele me mostrou o espelho, o meu olho estava muito vermelho, completamente esbugalhado. Isso destruiu tudo, eu me senti um monstro. Acho que o que ele queria dizer ao me mostrar no espelho era que se eu fosse naquele estado, iria nos denunciar.

Lembro-me que isso passou a ser algo meio que permanente, de nos encontrarmos muitas vezes por semana. Não sei se eram todos os dias, mas muitas vezes por semana, eu tinha que me lavar muito. Era uma tentativa de tirar aquilo de mim. Horrível porque daí você se enxuga, você põe a roupa e no dia seguinte você está com desejo de novo. E ele me procurava. Como ele me procurava? Lembro nitidamente que o meu quarto tinha uma escrivaninha com uma janela que dava para o jardim. Ele chegava na janela e falava: Psiu. Às vezes, eu estava no quarto, mas fechava a janela, porque eu não queria encontrá-lo. Eu resistia um tempão, mas, em um dado momento, eu não aguentava e abria a janela. Ele punha a mão pela janela e tocava no meu peito, começava a me excitar e eu pulava a janela. A gente ia para trás de um bambuzal, que tinha lá em casa, e ficávamos ali. E era uma coisa violenta mesmo, de ele me fazer chupar o pau dele, um pau enorme na minha boca que era uma boca pequena, de uma menina de 11 anos. Muitas vezes ele gozava, ficava tudo sujo. E o cheiro, ficava aquele cheiro, aquela coisa. E ele tinha uma arma, ele deixava o cinto, a arma do lado, e me masturbava, chupava muito o meu peito. Era um peito muito pequeno e doía muito. Era um horror. Tinha muito pânico, até mesmo, de ficar grávida. Lembro-me de bater na minha própria barriga, porque se eu estivesse grávida assim eu poderia abortar. É curioso porque eu acho que ele era um cara perverso mesmo, porque o seu tipo de comportamento me levava a não desistir dos encontros com ele. Às vezes, doía quando ele beijava o meu peito, e aí ele diminuía. Ele controlava a intensidade da coisa. Até a intensidade de me deixar excitada, nunca tendo orgasmo, mas a um ponto de sempre querer voltar.

Acontece uma confusão de pensamentos… não são pensamentos, são sensações contraditórias, antagônicas dentro da mesma pessoa, dentro de mim. E só fui falar com meus pais sobre essa história depois que eu tive meu primeiro filho, muito mais tarde. Eu sempre me perguntava muito sobre isso: “Por que você não fala?”. Penso que são duas coisas: uma mais concreta, que você fica com essa sensação de que não faz mais parte, você não está mais autorizado a fazer parte daquele universo ao qual pertence. E na minha cabeça era assim: “Eu sou uma puta, eu estou fazendo isso, eu não posso mais estar no convívio da minha família. Eu não sou mais digna, eu não sou mais”. E você vai mesmo, meio que se fechando. A sensação é como se, por meio daquele pinto, ele fosse enfiando uma pedra dentro de mim que foi crescendo me separando e me desmembrando. Uma coisa muito densa, muito fria.

Eu me lembro que eu sonhava muito. Nesses sonhos - em casa tinha um balanço - eu estava sentada nesse balanço e tinha uma arma no chão. Esse balanço dava justamente para um bambuzal. E de trás do bambuzal saía esse homem e eu pegava a arma, mas não conseguia atirar nele. Foi um sonho muito recorrente na minha vida, nesse período.

Em nossa casa tinha uma piscina, era uma casa super grande, e mamãe falava para mim: “põe maiô, vem para a piscina, está muito quente, tira a roupa, o casaco”. E eu não tirava. Eu me lembro que eu não tinha consciência do porquê eu não tirava, do porquê eu não ia para a piscina, mas, sim, do incômodo de ela me pedir para tirar. Eu pensava: “não me enche a paciência. Eu quero ficar aqui quieta, fechada, do jeito que eu estou”. Hoje penso que foi uma conjuntura de coisas que aconteceu. Eu podia estar mais estranha, mais quieta, mais brava, mas porque a gente tinha mudado, por estar muito triste de ter saído de São Paulo, por meus irmãos não estarem morando em casa. Enfim, eu podia estar muito triste por muitas coisas e a família estava meio atrapalhada naquele momento. Papai trabalhava muito, mas quando estávamos todos juntos, era uma delícia, super gostoso, mas eu já me sentia à parte. Eu não fazia parte do grupo. A sensação era de um corpo fantasma, de um corpo sem alma. Em que a alma estava totalmente corrompida. É essa a sensação de que você, não sei, é uma puta dentro de uma família super organizada, socialmente bem-posta, com valores, legal, todo mundo muito afetivo, uma família que se gosta muito, e você não pode.

É como, não sei o que é, mas você não consegue mesmo.

Uma vez esse homem me entregou uma carta que um amigo dele escreveu, uma carta com muita baixaria, falando de um cara de pau duro, de calcinha, uma coisa… E eu fiquei excitada com a carta e pedi para ficar com ela. Ele falou: “não pode mostrar para ninguém essa carta”. Certa vez, a irmã da namorada de um irmão meu estava lá em casa, acho que era um feriado, e eu quase mostrei essa carta a ela, como se fosse uma coisa legal: “olha como eu sou grande de estar fazendo essas coisas”. Mas eu sabia que tinha alguma coisa errada e não mostrei. Eu perguntei para ele se poderia mostrar, totalmente ingênua, e ele ficou muito bravo comigo. Foi uma das únicas vezes que me lembro dele realmente ter ficado bravo comigo.

Outra cena marcante, que me deixou muito triste, sentindo que tinha acabado com a minha infância, “acabou, agora dane-se”: Na entrada da casa, tinha uns três jambeiros. Árvores muito altas e bonitas, eu adorava subir em árvore, minha vida era subir em árvore, andar de bicicleta, a cavalo, não tinha nada de mulher, mas de criança. Eu subi na árvore de saia, pois voltava da escola, e, de repente, escutei psiu, lá de baixo. Perna bonita, calcinha bonita, algo assim. Era uma sensação de estar sendo vigiada o tempo inteiro com alguém cercando.

Eu andava pela casa e me deitava no sofá do escritório, porque dali da janela ele não conseguia me ver. Para isso, teria que subir em um jardinzinho e era muito estranho que ele subisse. Mas ele não me ameaçava, por isso que acho que era muito calculado. Dizia: Não, você não pode contar, porque você vai me fazer mal. E criava uma situação de medo e raiva, nunca tive ódio, mas o medo, o desagradável da situação era menor do que o prazer, do que o desejo, do que a vontade de estar junto de novo. Ele tinha esse cálculo. E foi tão maluco, fiquei tão cindida da família que eu achava que me casaria com ele. vou me casar com esse homem, não quero essa vida com essa família. E quando lhe disse isso, foi horrível, porque ele me deu a noção do ridículo da situação. Ele era casado, tinha filhos, e falou: Pirralha, você é minha puta.

Às vezes, quando voltava para casa pela cozinha, depois de me encontrar com ele, eu tinha a sensação de que todo mundo sabia o que acontecia, mas ninguém falava nada. Se fosse uma situação em São Paulo, por exemplo, isso não aconteceria. Tínhamos uma unidade familiar ali muito mais preservada. Toda uma situação de cuidado, de afeto. E isso é muito sério, quando você rompe com o seu núcleo, internamente você rompe com seu próprio núcleo familiar. É por isso que eu digo fantasma. Você não pode nem chegar muito perto, porque se você chegar, vão descobrir. É muito estranho.

Eu tinha muito receio de ser descoberta. Hoje, olhando para trás, acredito que algo aconteceu que pode ter sido causado por ele. Eu tinha um cachorro chamado Gaspar, um dálmata, e um dia ele apareceu em casa com o fêmur gravemente ferido. Gaspar precisou passar por uma cirurgia, e comentei com o guarda o que tinha acontecido. Ele respondeu: Foi o vizinho bêbado da casa da frente. No entanto, acho que foi ele, Gaspar nos denunciou; ele sempre nos seguia. Após a cirurgia de Gaspar, ele melhorou e desapareceu. Mas, cerca de duas semanas depois, eu estava com ele, lá atrás do bambu, quando ouvi um latido que pensei ser de Gaspar. Corri até lá, depois que acabou o negócio, chamei minha mãe, que veio comigo para buscar Gaspar. Não é que não tinha um cuidado, alguma coisa tinha, mas estava rompido, estava tudo atrapalhado.

Quando voltamos para São Paulo, aconteceu uma situação bem esquisita comigo. Tive uma inflamação de garganta muito grande, completamente absurda. Foi tão intensa que acabei indo em uma médica “de sangue”, pois minhas defesas estavam no chão. Tanto é que ela ficou pesquisando muito para avaliar se eu tinha alguma outra doença, fiquei de cama, dois meses sem ir para a escola. Estava tão frágil e não conseguia falar, como se tivesse uma bola de porra na minha boca.

Depois disso eu tive algumas relações abusivas. A pessoa tende a reproduzir esse tipo de relação porque é a forma de prazer inicial que teve. E tem uma coisa que acontece comigo, hoje em dia menos, mas ainda acontece. Quando estou andando na rua, por exemplo, e tem alguém atrás, a menos de 3,5 metros, tenho que parar e deixar a pessoa passar. Não posso ter ninguém atrás de mim, sinto-me muito vulnerável. Até hoje tenho sensações físicas que me dão pânico. Eu achava que podia conviver com isso sem contar para ninguém e pensava: Já passou, estou bem, no fundo o que importa é que você está bem e que você continua vivendo independente do trauma que teve. Achava que não precisava contar para ninguém. Quando comecei a compartilhar minha história, isso me deu a oportunidade de começar a compreender esses aspectos e a minha aversão de ser observada. Acredito que, nesse contexto, tendemos a minimizar dizendo: Não, não fui vítima de violência. O homem enfiava o pau dele duro na minha boca e aquela porra toda, isso, e muito mais. Tem um nome que é do tamanho da violência. Eu não sei por que não usar as palavras que têm ou que eu gostaria que tivessem, o peso que teve a violência que eu vivi. Eu acho que é estupro mesmo. É porra. É pau. É o meu peito que virava um chiclete na boca daquele homem e doía. Eu ficava muito assim, e não queria pôr maiô, e não queria pôr roupa, e andava pela casa tentando me esconder.

É um pouco absurdo ficar confortável em um país em que tantas crianças são estupradas. Tantas crianças sofrem isso. Eu comecei a sentir que eu preciso, nessa vontade de fazer alguma coisa para melhorar o país, para melhorar a vida das pessoas, que é um pouco a razão da escola, tem a ver com o que de mais poderoso eu posso fazer que é emprestar a minha história para um movimento que possa, pelo menos trazer esse assunto à tona. Pelo menos contrapõe o: Não, mas não fala, minha filha. Ainda mais quando são casos que envolvem familiares. Quando eu comecei a fazer o Acaia,2 esse instituto que fundei, eu pensava: Mas por que eu faço isso? A frase que me vinha em mente era: É para minha dor não doer nos outros. Fiquei muito brava por muito tempo, tinha ataques de raiva. Como um bicho assustado. O bicho quer te destruir, porque ele fica muito machucado, é uma ferida que fica friccionando. Era isso, eu não queria e não quero nunca que a minha dor, doa nos outros. Mas o mais difícil nessa situação toda é essa mistura de sentimentos que a criança fica. É enlouquecedor.

O escritor russo Anton Makarenko escreveu um belo livro Um poema pedagógico, quando dirigia um centro, do tipo fundação casa: “Na minha experiência, o mais difícil de lidar e de conseguir dar um destino é para crianças que têm a sua sexualidade despertada precocemente, porque você não sabe o que fazer com aquilo” (2012).

A criança já é frágil por natureza, e ter uma pessoa má se aproveitando dessa vulnerabilidade torna a situação ainda mais desafiadora. Você não sabe como lidar com esses sentimentos, mas, ao mesmo tempo, você queria. Isso abala profundamente a sua estrutura emocional. É algo que te destrói e te enlouquece. Assim como existe uma relutância em pronunciar a palavra “estupro”, a decisão de falar sobre isso agora e iniciar um movimento de depoimentos foi desencadeada pela frase “estuprada até a morte”, que teve um impacto profundo em mim. E, sinceramente, uma parte de você realmente morre quando passa por uma experiência como essa. Às vezes, fico me perguntando quem sou por trás disso. Quero dizer, alguma parte de mim foi preservada, alguma parte precisava permanecer para não enlouquecer. De alguma forma, a família tinha uma estrutura afetiva, que segurou, mesmo que eu não tenha falado sobre isso por um longo tempo.

Mas eu sei que tem uma Licó, uma Elisa, que é meu nome, que morreu. Em casa sempre teve muita cultura, muita leitura e eu não conseguia alcançar isso. Mas como eu podia alcançar isso? Eu estava lidando com algo que nem sabia como chamar, não conseguia expressar nem para mim mesma, não conseguia identificar, não conseguia dar corpo, e ainda havia muitas outras coisas a fazer. Eu não conseguia fazer nada, mas pensava: Eu tenho que levar a vida, eu não posso ficar estacionada nisso. Tenho que ir para a escola, tenho que ir bem na escola, tenho que comer, tenho que me relacionar. E acreditava nisso e dizia a mim mesma: Acabou. Eu não vou mais pensar nisso, eu não vou. Acabou. Eu vou viver minha vida. No entanto, acabei me tornando uma pessoa muito brava, extremamente irritada, irritante e irritável. Para mim, um fator crucial nesse processo é a solidão, é algo muito determinante.

Uma criança não deve sentir solidão. Não é solidão no sentido de alguém ficar o tempo inteiro protegendo, mas é que se acontecer algo ela tem que poder falar. E para ela poder falar, ela não pode se sentir sozinha. Quer dizer, a ação do estuprador, do homem, não pode estar em algum lugar substituindo uma outra coisa. Ela tem que estar com tudo o que ela tem que ter. A criança tem que ser muito protegida, nesse sentido. Não é algo moralista, não é nesse sentido.

Esse homem entrou na minha vida como substituto de outras coisas. Eu estava muito sozinha e tudo foi se desarticulando dentro de mim. Havia uma dinâmica que permitiu que isso ocorresse. Não é algo que você possa simplesmente evitar, mas tenho visto casos em que as pessoas, eventualmente, conseguiram falar sobre o que aconteceu. Acredito que encontramos maneiras de seguir em frente, continuar com as coisas, apesar de tudo.

Na hora de deitar, é como se algo em meu corpo se manifestasse. É uma sensação de desarticulação profunda do corpo, uma sujeira muito intensa. Você se sente muito sujo o tempo todo, uma sensação que perdura. O esforço, o trabalho, a energia não são direcionados para reconstruir, mas sim para construir algo completamente novo. O corpo ficou muito danificado, machucado, desgastado, sujo.

Eu me tornei tão fechada, tão trancada. Não porque eu tinha uma conexão fraca com a minha família, na verdade, era o oposto - eu tinha uma ligação muito forte, cheia de amor. Passei por terapia em Brasília, fiz muitas sessões, mas nunca consegui falar sobre isso. É algo surreal, porque eu simplesmente não conseguia abrir minha boca, eu só permanecia lá. Às vezes, me pergunto: O que eu falava naquele divã lá? A situação era tão avassaladora que, para conseguir seguir em frente e não enlouquecer, eu precisava bloquear meus pensamentos e emoções, eu congelava.Outro sonho que tive na época em que comecei a falar mais sobre isso foi o sonho da geladeira. Era um sonho em que eu abria a geladeira e retirava um bloco enorme, como um tijolão, composto por uma camada de gordura e duas camadas de gelo. Tive esse sonho várias vezes. Acredito que essas coisas estão relacionadas: a relação, a casa, a família que era muito forte. E como quebrar essa barreira. Se eu falasse, eu quebraria e enlouqueceria. Eu não podia enlouquecer, como assim enlouqueceu?

A frase “para a minha dor não doer nos outros”, ressoa comigo porque, às vezes, quando não conseguimos lidar com nossos próprios problemas, acabamos agindo de maneira destrambelhada e ferimos os outros profundamente. Acho que tive muitos momentos assim, machuquei muito os outros. E, em certo momento, decidi que não queria mais fazer isso. Machucar alguém é uma sensação terrível. Eu fui muito machucada, e essa sensação é péssima. No entanto, eu era descontrolada. Tive uma reação traumática que durou muito tempo, e isso me surpreende. A sensação que tenho é que eu congelei, porque, se eu entrar nessa história, tenho a sensação de me desmilinguir, de virar só alma e perder o esqueleto que é o que me sustenta.

Se nossa família tem alguma religião é a psicanálise, uma sobrinha me disse. A psicanálise faz parte da cultura da minha família desde sempre, parte daquela cultura que eu não conseguia alcançar. O primeiro tratamento que fiz, iniciou-se aos 5 anos. Tive um acidente de bicicleta e fiz um edema cerebral. A leitura era de que eu tinha me tornado um pouco “suicida”, me machucava muito neste período.

Uma das pessoas mais importantes da minha vida era minha avó materna, diziam que ela era incapaz de fazer análise, era uma pessoa “peculiar”, na adolescência e na vida adulta namorou muito, mais do que o aceitável para a época em que viveu. Separou-se do meu avô, o que na época também era inaceitável. Era uma pessoa que podia ser muito brava, dada a estouros.

Cheguei em Brasília no final da década de 1970. Uma menina assustada e espontânea que se sentia muito sozinha. Logo nos primeiros meses de aula, no Instituto Presbiteriano, apaixonei-me por um menino de 15 anos, que era do círculo de conhecidos dos meus pais e tinha uma história de traumas profundos. Chegou na escola depois de um período que esteve internado em uma clínica psiquiátrica. Começamos a namorar, ele era doce, mas podia ser violento. Chegamos ao ponto de fazer sexo oral. Eu nele, ele não fazia em mim. Com o tempo passou a me pedir dinheiro, dizia que se eu não lhe desse dinheiro, ele contaria sobre nosso namoro para todo mundo. Eu conseguia dinheiro como podia: pegava escondido da bolsa da minha mãe, pedia aos empregados. Um dia eu não consegui dinheiro. Na escola ele disse que se eu não levasse o dinheiro no dia seguinte ia me matar.

Apavorada, contei tudo para minha mãe, que me acolheu e disse que no dia seguinte me levaria à escola, eu não iria levar dinheiro algum. E, assim, ela falou com a diretora e o menino foi expulso da escola.

Tivemos uma conversa, o menino, minha mãe, a acompanhante (que tinha vindo da clínica com ele) e eu. Minha mãe falou muito sobre namoro, amor, de que isso era normal, mas na nossa idade não deveríamos ultrapassar certos limites.

A acompanhante dele disse para minha mãe que se fosse ela, matava o menino. Isso eu soube depois.

Nessa época eu fazia análise e fomos, minha mãe e eu, conversar com a analista sobre o meu namoro. Minha história com o guarda começou logo após esse episódio, mas só muito mais tarde contei para meus pais, e depois de ter passado por muitos analistas.

A relação com o namorado não foi um escândalo. Na minha cabeça, porque ele era do “nosso círculo” familiar, porque tínhamos idades parecidas, porque de certa forma fazia parte do crescimento de uma menina de 11 anos. Por que eu não falei sobre o guarda na análise?

Difícil separar tantos fatores envolvidos.

Eu acabara de mudar de cidade, estava muito sozinha, como já falei, a família atrapalhada, a maioria dos meus irmãos já não morava conosco, tinha o namoro com o meu colega, e por conta do acidente eu já me machucava muito. Tinham alguns fatores novos, eu escondia meu corpo, tinha ataques de braveza. Além disso, eu não tinha a noção clara do que era aquela relação. Nesse período começaram a me chamar de Zilinha, diminutivo do nome da minha avó. Na volta para São Paulo, aos 15 anos eu era completamente fechada, agressiva e com o corpo muito coberto. Mas eu tinha decidido enterrar o assunto. Demorou um tempo para a relação com o guarda tomar forma, ter alguma concretude.

A transformação de algo nebuloso, ainda repleto de lembranças de desejo e prazer deram lugar à memória das ameaças, do medo. Até hoje não consigo ter muita raiva, mas é concreta a sensação de estar encurralada. Aos poucos, percebi que teria que falar sobre a relação com o guarda. Aquilo, cada vez mais, ganhava peso e forma à distância, com a família e uma certa identificação com minha avó, que julgada pelos seus inúmeros namoros. As linhas que eu raramente soltava não eram suficientemente explícitas para os analistas pegarem, muitos fatores poderiam me levar aos comportamentos que eu tinha. Em várias análises falei que não gostava de usar vestidos porque tinha vergonha. Era para ser entendido como se eu quisesse usar vestido. Acredito que esse era um fio de meada. Na penúltima análise que fiz, falei sobre o guarda nas últimas sessões, quando já estava combinado o fim do tratamento. Quando resolvi fazer essa análise, decidi que seria para falar sobre o guarda. Na primeira entrevista já contei a história, mas sem profundidade. Foi só um relato. A analista pediu uma segunda entrevista, eu fiquei bem incomodada, afinal já tinha falado o mais importante, além disso na primeira entrevista fui de vestido e na segunda fui com uma roupa assexuada. Mesmo assim, demoramos muito para começar a aprofundar o assunto que até hoje ocupa grande espaço na minha análise atual. Penso que o acontecido requisitou muito tempo para se transformar realmente em uma coisa só ruim, o percurso que um acontecimento faz até virar palavra é intenso e leva tempo, a análise só funciona com palavras. Me ressinto do cubo branco. Assim como na arte me ressinto das salas de exposição que são cubos brancos.

2 O ateliescola Acaia é uma escola experimental que atende em sua maioria crianças e adolescentes da Favela do Nove, da Favela da Linha e do Conjunto Habitacional Cingapura Madeirite, próximas à Ceagesp, em São Paulo. Dentro de uma proposta de educação integral associada a “oficinas de fazeres”, um dos objetivos do ateliescola é desenvolver e formalizar um programa que articule educação, saúde e cultura.

Referência

Makaenko, A. (2012). Poema pedagógico (T. Belynky, Trad.). Editora 34. [ Links ]

Recebido: 01 de Setembro de 2023; Aceito: 03 de Setembro de 2023

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