O caricaturista americano Saul Steinberg, com o desenho “O Coelho”,3 de 1960, oferece uma imagem pueril, no seu realismo, do que é a topologia freudiana (Laplanche, 1980[1975-1977]/1998). A essência do inconsciente não está na noção de “lugar psíquico”, cuja função era essencialmente heurística, mas nas diferentes modalidades de circulação da energia psíquica: os processos primário e secundário (Freud, 1900/2019). O ponto de vista econômico, que apenas engrandece4 no decorrer da obra freudiana, é apequenado nessas representações topológicas do aparelho psíquico.
A introdução das instâncias da personalidade (Eu, Id e Supereu) ocasiona uma antropomorfização do aparelho psíquico que viabiliza uma absorção desse aparato conceitual na cultura popular e favorece uma confusão entre o senso comum e as verdadeiras razões para a implementação da teoria estrutural.
Em detrimento do antropomorfismo e realismo, que deixaram a segunda topologia mais acessível, a sua recepção entre os psicanalistas não foi rotineira; dentre outras razões, porque esbarra nas leituras francesas inauguradas principalmente com a psicologia concreta, cujo propósito era extrair o realismo da psicanálise e desvencilhá-la de sua base biologista; então a formulação do Id foi mais uma razão para que a segunda topologia desagradasse aos franceses. Adicionalmente, a segunda teoria da angústia origina-se de um fortalecimento do Eu.5 A essência da psicanálise não corria o risco de perder-se com esse recentramento do sujeito?
A inconveniência da segunda topologia só pode ser compreendida ao se considerar que a publicação de “O eu e o id” dá prosseguimento ao curso de pensamentos iniciado em “Além do princípio do prazer”. Se a pulsão de morte não foi aceita por uma parte expressiva da comunidade psicanalítica, então, tendo a segunda topologia nascido diretamente da formulação da pulsão de morte (Sulloway, 1979), uma adesão indiscriminada à teoria estrutural não seria um reflexo de uma incompreensão da segunda teoria das pulsões? É necessário concordar com Green (1973/2001): a recusa da pulsão de morte deveria ser acompanhada, por coerência, pela recusa da segunda topologia.
Duas questões merecem uma investigação. A primeira: por que Freud teria se extraviado nessa suposta biologização do inconsciente? E a segunda: por que esse biológico aparentemente solipsista resultou no fortalecimento do papel do Eu na teoria freudiana, até mesmo sob a forma de perigos realistas que estariam subjacentes à liberação da angústia?
Id: um inconsciente biológico?
Quais são as implicações do Id? Laplanche (1981[1977-1979], p. 192) menciona quatro, a “pulsional, genética, interpessoal e tópica”, que são resumidas por Monzani:
1) trata-se, em primeiro lugar, de uma referência mais direta ao polo pulsional e, através deste, ao nível biológico; 2) introduzir o id significa também, em segundo lugar, uma opção quanto ao problema das origens – trata-se de tomar uma orientação marcadamente geneticista em relação aos problemas psicanalíticos; 3) introduzir o id, em terceiro lugar, é acentuar fortemente o fator impessoal daquilo que nos move – é dar um passo a mais na “via para destronar o sujeito consciente e autônomo” e insistir sobre a existência de processos que nos movem ou através dos quais somos movidos; 4) por último, a introdução do conceito de id significa uma colocação de ordem na questão do conflito quando emergem as noções de ego, superego e ideal do ego, que são, em grande parte, inconscientes. (Monzani, 1989/2014, pp. 254-255)
É falacioso que não existisse antes do Id um flerte com o biológico. Se na primeira topologia, por um lado, “Freud tende a identificar os componentes básicos do inconsciente com as representações” (Monzani, 1989/2014, pp. 241-242), por outro:
Existe no discurso de Freud, e isso desde a correspondência com Fliess, uma certa exigência neolamarckista, muito criticada em geral pelos estudiosos, mas que aparece com uma insistência alarmante, em inserir nos componentes do inconsciente certas estruturas gerais e herdadas … Essa ideia de que existem certos mecanismos, certos esquemas de estruturação do psíquico pré-formados e hereditários conduz, evidentemente, a uma concepção do inconsciente que ultrapassa em larga escala um inconsciente formado sobretudo de representações. (Monzani, 1989/2014, pp. 244-245)
O que é esse inconsciente herdado? É comparado, em “O inconsciente”, ao instinto (Instinkt) dos animais. No miolo do inconsciente haveria essas formações psíquicas herdadas, as fantasias originárias (Freud, 1915/2010a; 1918[1914]/2010b). Tratar-se-ia de um inconsciente junguiano, arquetípico?
Não exatamente. Nas atas das reuniões da Sociedade de Viena, em 8 de novembro de 1911, encontra-se: “A conclusão de um tesouro de memórias inatas não se justifica, enquanto tivermos a possibilidade de explicar essas coisas através de uma análise dos fenômenos psíquicos” (Nunberg & Federn, 1976/2008a, pp. 294-295). E, em 17 de março de 1915, a respeito das fantasias originárias, está registrado que Freud nunca pretendeu sustentar que as fantasias fossem herdadas (Nunberg & Federn, 1976/2008b).
Portanto, não haveria, propriamente, uma transmissão de memórias, mas de esquemas ou categorias. Entretanto, a situação muda de figura com “O eu e o id”, na medida em que “vivências do Id” são mencionadas, que “o Id hereditário alberga os resíduos de incontáveis existências de Eu” (Freud, 1923/2011b, p. 48). E, apesar de rejeitar, certamente em resposta a Jung, a existência de um “inconsciente coletivo”, Freud (1939[1934-1938]/2018a) afirma que: “O teor do inconsciente é sempre coletivo,6 é patrimônio universal dos seres humanos” (p. 182).
O “biologismo de Freud” (Monzani, 1989/2014, p. 245) sempre esteve presente, do começo ao fim. Mas é inegável que a defesa da herança de memórias e a insistência de um conteúdo universal no inconsciente tenham fortalecido um biologismo que encontra o seu ápice nas caracterizações do Id.
“O eu e o id” traz a seguinte definição: “o Eu é a parte do Id modificada pela influência direta do mundo externo … A percepção tem, para o Eu, o papel que no Id cabe ao instinto” (Freud, 1923/2011b, p. 31). Ora, se “o Id é incapaz de viver ou experimentar vicissitudes externas senão através do Eu, que nele representa o mundo externo” (p. 48), logo, não há representações no Id. O reprimido conflui com o Id, porém, enquanto o reprimido é composto por representações, é necessário admitir um inconsciente constituído de pulsões sem representância psíquica.
Nas “Novas conferências”, o Id seria a parte obscura e inacessível da personalidade; suas características são todas negativas, porque provêm da oposição ao Eu.
Aproximamo-nos do Id com analogias, chamamo-lo um caos, um caldeirão cheio de excitações fervilhantes. Nós o representamos como sendo aberto em direção ao somático na extremidade, ali acolhendo as necessidades dos instintos, que nele acham expressão psíquica, mas não sabemos dizer em qual substrato. A partir dos instintos ele se enche de energia, mas não tem organização, não introduz uma vontade geral, apenas o esforço de satisfazer as necessidades do instinto observando o princípio do prazer. As leis do pensamento lógico não valem para os processos do Id, sobretudo o princípio da contradição não vale. Impulsos opostos existem um ao lado do outro,7 sem se cancelarem ou se diminuírem; no máximo, convergem em formações de compromisso, sob a dominante coação econômica de descarregar energia. Nada existe no Id que possamos equiparar à negação, e também constatamos, surpresos, uma exceção à tese filosófica de que tempo e espaço são formas necessárias de nossos atos psíquicos … O fator econômico – ou quantitativo, se preferirem –, intimamente ligado ao princípio do prazer, governa todos os processos. Investimentos instintuais que exigem descarga, isso é tudo o que há no Id, acreditamos nós. Parece até que a energia desses investimentos instintuais se encontra num estado diferente daquele de outras regiões psíquicas, que é bem mais móvel e passível de descarga, senão não ocorreriam os deslocamentos e condensações que caracterizam o Id e que não levam absolutamente em consideração a qualidade do que é investido – aquilo que no Eu chamaríamos de ideia. (Freud, 1933/2010d, pp. 215-217)
Em muitos aspectos, o Id se assemelha ao inconsciente da primeira topologia: “ausência de contradição, processo primário (mobilidade dos investimentos), atemporalidade e substituição da realidade externa pela psíquica” (Freud, 1915/2010a, p. 128).
Essa ênfase, porém, no ponto de vista econômico, a ponto de praticamente excluir do Id aquilo que no Eu recebe o nome de “ideia” ou “representação”, como se o Id fosse pura energia, se choca com a primeira topologia, pois, nela, aquilo que estava no âmago do inconsciente eram as fantasias originárias. E, com a segunda topologia, mesmo que Freud afirme que no Id não há representações, não é contraditório que o seu conteúdo seja todo herdado?
Caso Freud esteja se referindo às categorias, então o Id não é tão caótico assim, porque a fantasia assume formas pré-determinadas. Mas, à medida que a herança de vivências passa a ser cogitada, então o herdado não se restringiria mais somente às categorias. Existiria, por conseguinte, um inconsciente biológico, porque não é adquirido, não é redutível ao reprimido e detém um conteúdo que é universal: as vivências da espécie. Como conciliar esse inconsciente herdado com um inconsciente biológico de pura energia sem representância psíquica?
Outro paradoxo da segunda topologia é com relação à ausência de negação no inconsciente. Essa é uma formulação presente desde a primeira topologia, pois, no nível representativo do inconsciente reprimido não há negação, assim como, na noção de um caldeirão cheio de excitações fervilhantes, a possibilidade de negação também é impensável (Monzani, 1989/2014), o que faz com que a ausência de negação seja reiterada nas “Novas conferências”. Com a segunda teoria das pulsões, contudo, Freud escreve: “A afirmação – como substituto da união – pertence ao Eros, a negação – sucessora da expulsão –, ao instinto de destruição” (Freud, 1925/2011c, p. 281). O que exige a questão: se existe uma pulsão de destruição, cuja expressão é a negação, onde age essa pulsão? Certamente, o termo “negação” (Verneinung) não pode ter a mesma conotação quando se refere ao inconsciente reprimido e ao núcleo do Id. Mas Green, Sulloway e Monzani parecem concordar que o lugar do negativo é no Id (Monzani, 1989/2014).
Monzani aponta outra contradição do Id, a que diz respeito à atemporalidade, ironizando os psicólogos do ego por terem conseguido produzir “essa pérola do pensamento psicanalítico, ao afirmarem que os impulsos instintivos do id podem sofrer regressão. Gostaríamos de saber que significado essa afirmação pode ter” (p. 274).
O auge desse problema se localiza em “Inibição, sintoma e angústia”:
trata-se apenas de uma substituição do representante [psíquico] por uma expressão regressiva ou de uma verdadeira degradação regressiva do impulso genitalmente orientado dentro do Id? Não parece nada fácil decidir. A história clínica do “Homem dos Lobos” russo favorece resolutamente a segunda, a mais séria possibilidade. (Freud, 1926/2014b, pp. 38-39)
Existe uma distinção entre dois tipos de regressão: o retorno da libido aos objetos incestuosos e o retorno de toda a organização sexual aos estágios anteriores (Freud, 1917/2014a). Na histeria não ocorre o segundo tipo de regressão, apenas o primeiro. Na teoria freudiana, essa é uma das diferenças mais importantes entre histeria e neurose obsessiva, na medida em que esta última é caracterizada pela regressão à fase sádico-anal.
Para Freud “a essência de uma regressão libidinal, da fase genital à sádico-anal, por exemplo, baseia-se numa disjunção instintual, e, inversamente, o avanço da fase genital inicial à definitiva tem por condição um acréscimo dos componentes eróticos” (Freud, 1923/2011b, p. 52). A repressão teria uma relação especial com a organização genital e, portanto, com a histeria, enquanto nos outros estágios do desenvolvimento outros mecanismos seriam empregados pelo Eu (Freud, 1926/2014b).
A explicação para a severidade do Super-eu na melancolia e neurose obsessiva reside na regressão, porque a desfusão pulsional se estende do Id para o Super-eu. E, se ocorre tal regressão no Id, então a inexistência da temporalidade no inconsciente é relativa. Ademais, como pode o Id ser ininfluenciável pelas vivências exteriores, se o desenvolvimento da libido está condicionado à fusão das pulsões no Id? Ou o desenvolvimento e regressão ocorreriam de forma completamente independente das vivências, o que parece pouco provável, ou as vivências impactariam, favorecendo ou prejudicando, os processos de desenvolvimento que acarretam a fusão e desfusão das pulsões de vida e morte no Id.
No “Compêndio”, situa-se a última definição do Id:
A mais antiga dessas províncias ou instâncias psíquicas denominamos Id; seu conteúdo é tudo o que é herdado, trazido com o nascimento, constitucionalmente determinado; sobretudo, portanto, os instintos oriundos da organização do corpo, que aí encontram sua primeira expressão psíquica, para nós desconhecida em suas formas. (Freud, 1940[1938]/2018b, pp. 191-192)
A passagem é ambígua. Se o Id tem um conteúdo que é todo herdado, então não é pura energia. Essa determinação constitucional é, sobretudo, das pulsões oriundas do corpo. Há uma certa confusão entre pulsão e instinto, porque é como se agora as pulsões abarcassem o instinto (fantasias originárias). Ao mesmo tempo, é no próprio Id que as pulsões, provenientes do somático, encontrariam sua primeira expressão psíquica. Se é no próprio Id que um trabalho psíquico ocorre, pode-se concluir que é contraditória a formulação de que as pulsões no Id não tenham representância psíquica, tal como a imutabilidade do Id, já que nele se processa (ou não) um trabalho de representância psíquica.
Em suma, a novidade no Id não está tanto na transmissão de esquemas, porque essa crença nas fantasias originárias sempre permeou a obra de Freud. A inovação está em insistir numa dimensão não-simbólica, não-psíquica do inconsciente, numa espécie de inconsciente somático. São dois biológicos que devem ser contemplados separadamente: o inconsciente herdado e o inconsciente somático. Curiosamente, um é incompatível com o outro, pois, ao aceitar a herança, as afirmações taxativas de que não há representação no Id ou de que é puro caos merecem revisão.
O somático
Se houve uma aparente valorização do biológico sob a forma do Id, é necessário interpretar qual é o sentido do biológico em Freud. E esse sentido é o daquilo que se opõe ao psíquico, isto é, à simbolização. Na primeira teoria da angústia, não é simplesmente que o acúmulo da excitação física se convertia em angústia; se assim o fosse, todos os celibatários de Viena teriam desenvolvido um quadro de pânico. Não basta o acúmulo da excitação física, é necessário que haja um impedimento no seu processamento em excitação psíquica, em fantasia.8
Equivoca-se quem assimila esse biológico à biologia dos biólogos. Primeiro, pelas razões expostas por Laplanche (1970/2006a), como que a inércia, de acordo com a qual funciona o inconsciente, é um princípio mortuário que viola as leis biológicas de sobrevivência do organismo. Ademais, uma outra implicação seria interpretar o comportamento animal, ali onde estaríamos mais distantes da psique humana, como a expressão por excelência da pulsão de morte. A noção de pulsão de morte, e consequentemente o núcleo do Id,9 só faz sentido quando se imagina uma força ativa no aparelho psíquico que é refratária à simbolização, o que é bem diferente da concepção de um resquício animalesco da mente que escapou à humanização.
Notem que o inconsciente somático e o inconsciente herdado são antagônicos.10 Enquanto o primeiro representa o caos e a ausência de representância psíquica, o segundo é uma espécie de estrutura que serve à simbolização. Se a existência dessa estrutura é uma premissa de Freud, logo, o ser humano não nasce como uma tela em branco, como um animalzinho que será humanizado, uma vez que ele carrega consigo o Édipo: a história da espécie. E se algo soluciona o paradoxo de um inconsciente somático, é a pulsão de morte, a saber, que o originário não é o estado animalesco, é antes aquilo que é produzido por uma força destrutiva, que é, por excelência, humana.
Existe, por conseguinte, um mérito clínico na cesura que Lacan e Laplanche propuseram entre o homem e o animal. Qual manifestação clínica, seja o martírio melancólico, seja a catatonia esquizofrênica, seja a hipocondria paranoica, revela, no íntimo, algo que se assemelhe minimamente àquilo que caracteriza o animal?
O não-simbolizado já existia na teoria freudiana, sob a forma da neurose atual. No entanto, o inconsciente da primeira topologia, sendo constituído por representações e afetos, apenas contemplava as psiconeuroses. A própria nomenclatura “atual” remete à ausência da historização que a contrasta ao reprimido. Com a segunda topologia, é como se o inconsciente da neurose atual fosse criado, ao abarcar, além do reprimido, uma dimensão que transcende as representações, o que desloca a ênfase para o ponto de vista econômico.
A explicação para a nova topologia encontra-se, portanto, na alteração da teoria da psicopatologia freudiana, de maneira que foi necessário, cada vez mais, alojar, dentro do aparelho psíquico, uma instância da personalidade que contivesse a destrutividade (Green, 1998/2014).
Inicialmente, a psicopatologia paradigmática era a perversão:
As fantasias bem conscientes dos perversos – que em circunstâncias favoráveis são transformadas em ações –, os temores delirantes dos paranoicos, projetados hostilmente em outras pessoas, e as fantasias inconscientes dos histéricos, que a psicanálise revela por trás dos seus sintomas, coincidem até em detalhes no seu conteúdo. (Freud, 1905/2016, p. 63)
Com a segunda topologia, o modelo passa a ser a psicose, como se observa em textos como “Neurose e psicose” e “A perda da realidade na neurose e psicose”. A perversão, de repente, praticamente some de cena (quando aparece em “O fetichismo”, não está sendo mais pensada junto com a neurose, mas com a psicose). O novo parâmetro na teoria psicopatológica é a psicose.
Ao tratar da psicose, é mais difícil não levar em conta os efeitos deletérios da psicopatologia parental. Para realmente dar conta do conceito de pulsão de morte, seria necessário recorrer àquilo que Bion (1967/2018) descreveu a respeito da parte psicótica da personalidade, como um ataque à ligação. E a gênese dessa parte psicótica da personalidade pode estar associada, numa leitura copernicana, com uma espécie de função antialfa, a partir da introjeção, por parte da criança, da identificação projetiva parental, o que foi observado por Ferenczi (1985[1932]/1995): “Devo a vários pacientes a ideia, registrada alhures, de que adultos injetam à força a sua vontade, em particular, conteúdos psíquicos de uma natureza desprazerosa, dentro da personalidade infantil. Estes transplantes estrangeiros, cindidos, vegetam na outra pessoa durante toda a vida” (p. 81).
O realismo das ameaças
Segundo Lacan, o que Freud introduziu, a partir de 1920, foram as noções suplementares necessárias para manter o “princípio do descentramento do sujeito” (Lacan, 1978[1954-1955]/2010, p. 22). Se, por um lado, é verdade que pode ter ocorrido uma desvirtuação da teoria psicanalítica pelos “querubins da psicanálise”, como Lacan sarcasticamente chamou a psicologia do ego, é também verdade que, nos seus últimos textos, Freud (1940[1938]/2018b; 1937/2018c) apresentou uma leitura do processo analítico sob a ótica de uma aliança com a parte saudável do Eu do analisando.
A concepção de uma “alteração no Eu” não é uma novidade, porque pode ser rastreada até os artigos da década de 1890. Mas, com o decorrer de sua obra, em vez de reservar essas questões narcísicas para um quadro clínico específico, Freud as universaliza: “Cada indivíduo normal é apenas medianamente normal, seu Eu se aproxima daquele do psicótico nesse ou naquele ponto, em extensão maior ou menor” (Freud, 1937/2018c, p. 300).
Essa teoria psicopatológica pode ser ilustrada no “Homem dos Lobos”. Nesse paciente, Freud encontra três correntes opostas em relação à castração: aceitação, abominação e rejeição (Freud, 1918[1914]/2010b). Cada uma dessas correntes representa um modelo de funcionamento da psique dentro do mesmo paciente.
Enquanto, para Lacan (1981[1955-1956]/1988, p. 24), “não se torna louco quem quer”, como ele havia pregado na parede de sua sala de plantão, porque, para ele, o mecanismo da preclusão11 (Verwerfung, a “rejeição” de Freud) é suficiente para consolidar o diagnóstico de psicose; para Freud, nem esse mecanismo de defesa, nem as alterações no Eu são exclusivas da psicose, o que prova que Freud não tem uma concepção estruturalista da psicopatologia.
Com a segunda topologia, então, uma nova terapêutica surge, que não se limita a revelar o reprimido: “Nosso esforço terapêutico está sempre a oscilar, durante o tratamento, entre um pouco de análise do Id e um pouco de análise do Eu. Num caso, queremos tornar consciente algo do Id; no outro, corrigir algo no Eu” (Freud, 1937/2018c, p. 305).
A famosa expressão “Onde era Id, há de ser Eu” é seguida do acréscimo: “É uma obra cultural como o aterro do Zuyderzee, digamos” (Freud, 1933/2010d, p. 223); isto é, o Eu não pode ser invadido pelo Id, pelo processo primário. A ausência de uma separação entre consciente e inconsciente é uma das características da doença (Freud, 1940[1938]/2018b). É necessário ampliar e fortalecer o Eu, o que é inconcebível do ponto de vista clínico caso se caracterize o Eu exclusivamente como repressor de desejos e, consequentemente, como alienante. Ao inibir os processos primários, o Eu cumpre, também, uma função necessária para a manutenção da saúde mental.
Essa nova perspectiva do Eu também é passível de crítica, especialmente no tocante à importância da angústia realista na segunda teoria da angústia. Laplanche (1980[1970-1973]/2006b) argumenta que o realismo das ameaças das quais o Eu se defende fornece uma positividade para a pulsão: é como se a pulsão não fosse perigosa por si mesma, mas pelas suas consequências. E o resultado dessa leitura, do ponto de vista da técnica, é a possibilidade de um modelo adaptativo da análise, como se o Eu devesse se adequar às exigências da realidade, e o analista agiria a serviço da sociedade, não mais do desejo.
Embora a crítica de Laplanche tenha sua pertinência, há que se perguntar o que levou Freud a valorizar de tal maneira o objeto externo, e a nossa hipótese é que possivelmente decorra de uma alteração no modelo da psicopatologia: não que a repressão de desejos perversos deixe de ser importante, mas agora, no paradigma da psicose, é como se igualmente fosse necessário levar em consideração o desamparo e a dependência narcísica para com objetos indispensáveis para a constituição da subjetividade.
O papel a ser conferido ao objeto foi alvo de um debate entre os psicanalistas desde o tempo de Freud. Klein (1936/1984), uma psicanalista que sempre insistiu na discrepância entre mundo interno e externo, reconheceu a importância de que o bebê obtenha satisfação não através de um substituto, mas diretamente do seio.
Nessa mesma época, Freud escreveu exatamente o contrário:
Não faz diferença se a criança realmente mamou no peito ou foi nutrida com mamadeira e não gozou jamais do carinho dos cuidados maternos. Nos dois casos o seu desenvolvimento toma o mesmo caminho; no segundo, talvez o anseio posterior seja mais forte. E, por mais que a criança tenha sido alimentada no seio materno, sempre terá a convicção, após o desmame, de que a amamentação foi muito breve e muito pouca. (Freud, 1938[1940]/2018b, p. 248)
Em alguns momentos, Freud adotou essa posição, a que privilegia o intrapsíquico: “de modo algum a severidade do supereu desenvolvido pela criança reflete a severidade do tratamento que recebeu” (Freud, 1930/2010c, p. 101). Isso, complementa Freud em nota de rodapé, “foi corretamente destacado por Melanie Klein e outros autores, estes ingleses” (p. 101). No entanto, essa independência em relação aos objetos externos não deve ser exagerada:
Não é difícil nos convencermos de que o rigor da educação também influi grandemente na formação do Super-eu infantil. Ocorre que fatores constitucionais herdados e influências do meio real atuam conjuntamente na formação do Super-eu e na gênese da consciência, e isso não é nada estranho, mas a condição etiológica geral de todos esses processos. (p. 101)
Para além dos aspectos constitucionais, “pode-se dizer que a consciência severa tem origem na atuação conjunta de duas influências vitais: a frustração do instinto, que desencadeia a agressividade, e a experiência do amor, que volta essa agressividade para dentro e a transfere para o Super-eu” (Freud, 1930/2010c, p. 102). Este é o mecanismo da projeção: o impedimento da satisfação da pulsão resulta em agressividade, que, não podendo ser descarregada no objeto externo devido ao amor, retorna contra o próprio Eu. Então, no primeiro tempo, a agressividade é projetada em objetos, que serão posteriormente introjetados sob a forma de objetos persecutórios.
Mas uma introjeção primária também é contemplada por Freud. Em “O eu e o id”, em uma nota de rodapé bastante complexa, admite-se a oportunidade de influenciar o sentimento inconsciente de culpa quando esse “é emprestado, ou seja, é produto da identificação com uma outra pessoa” (Freud, 1923/2011b, p. 62). Aqui, há um Super-eu formado não por projeção da própria agressividade, mas por uma introjeção. Nas “Novas conferências”, acrescenta-se que “o Super-eu da criança é construído não segundo o modelo dos pais, mas do Super-eu dos pais” (Freud, 1933/2010d, p. 205). Ou seja, trata-se de um Super-eu transgeracional.
Essa perspectiva sobre o Super-eu também é desenvolvida no “Compêndio”: “Naturalmente, a influência parental inclui não apenas a natureza pessoal dos pais, mas também a influência das tradições familiar, racial e nacional por eles transmitidas, assim como as exigências do meio social, por eles representadas” (Freud, 1938[1940]/2018b, p. 194). E, ao final do texto: “E nisso importam não apenas as características pessoais desses genitores, mas tudo o que teve efeito determinante sobre eles próprios, as inclinações e exigências da condição social em que viveram, as disposições e tradições da raça de que descenderam” (p. 272). Todo esse campo dos ideais das gerações passadas é transmitido para as gerações futuras. O Super-eu é uma espécie de decantador das experiências dos ancestrais.
Considerações finais
Onde repousar: no intrapsíquico, ou no intersubjetivo; na teoria pulsional, ou na objetal/relacional? A melhor solução é a equação etiológica de Freud, porque inclui a ambos os polos. Nas palavras de Green (1973/2001):
Uma ênfase excessiva no ambiente conduziria, sem dúvida, a psicanálise para as vias da ortopedagogia. Subestimar o seu papel nos conduziria rapidamente ao perigo oposto, o de um constitucionalismo escandaloso, explicando as diferenças de comportamento em termos de uma dotação inata desigual de pulsões de vida ou de morte. Assim, embora a teoria freudiana das séries complementares possa parecer eclética, é a única que oferece uma hipótese de trabalho útil. Mas que fique bem claro que, quaisquer que sejam os fatores etiológicos, o que importa é a elaboração intrapsíquica das experiências conflituosas. (p. 249)
É necessário aceitar que uma das pedras angulares da psicanálise é a elaboração intrapsíquica. E nisso Green (1998/2014) acredita que um autor como Laplanche peque. Para o primeiro, a pulsão ocupa o lugar da causalidade na psicanálise, enquanto, para o último, não.
É claro que outras teorias existem, como a de Laplanche. Mas podemos dizer que, hoje, duas perspectivas se opõem, basicamente. Uma dá grande importância à estruturação intrapsíquica. A outra concebe diretamente essa estruturação intrapsíquica como resultado exclusivo da relação intersubjetiva. Não faço parte desta última, pois para mim a intersubjetividade pura não existe. A meu ver, cada um dos termos dessa intersubjetividade remete ao intrapsíquico, a seus respectivos psiquismos. Trata-se então de uma relação entre dois intrapsíquicos mediados pela intersubjetividade. (p. 66)
O inconsciente não é do outro. Admitir um inconsciente que não seja individual seria, segundo o próprio Laplanche, permitir que a prática psicanalítica deixasse de existir (Laplanche, 1993/2015). A conclusão da minha Tese de Doutorado (Zaidan, 2024) é que, se Laplanche precisou insistir na existência de uma metábole, de uma capacidade inata de tradução da criança para metabolizar as mensagens enigmáticas parentais, talvez isso se deva à necessidade de se levar em consideração que essa outra subjetividade, embora constitutiva, sofra alguma elaboração intrapsíquica, porque, do contrário, seria possível renunciar ao conceito de “pulsão”, sem o qual a psicanálise deixa de existir.













