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Jornal de Psicanálise

versão impressa ISSN 0103-5835

J. psicanal. vol.58 no.108 São Paulo  2025  Epub 11-Jul-2025

https://doi.org/10.5935/0103-5835.v58n108.09 

Aula inaugural

A análise do analista: Da sua formação individual à vivência institucional

Celia Fix Korbivcher1 

Membro efetivo e analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (sbpsp)

1Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (sbpsp), São Paulo


Áspero é o caminho do aprendizado. Muitas vezes o que mantém o discípulo animado é a fé no mestre, em quem reconhece o domínio absoluto da arte: com sua vida, dá-lhe o exemplo do que seja obra interior e convence-o apenas com sua presença. Nessa etapa a imitação do discípulo atinge a maturidade, conduzindo-o a compartilhar com o mestre o domínio artístico. Até onde chegará o discípulo não é coisa que preocupe o mestre. Ele apenas ensina o caminho, deixando-o percorrê-lo por si mesmo, sem a companhia de ninguém. A fim de que o aluno supere a prova da solidão, o mestre se separa dele, exortando-o cordialmente a prosseguir mais longe do que ele e a se elevar acima dos ombros do mestre.

(Herriguel, 1975, p. 57)

Introdução

Agradeço o honroso convite feito por Elizabeth Coimbra para que eu participasse junto com Rodrigo Lage Leite da Aula Inaugural de 2025 do Instituto Durval Marcondes da sbpsp. Confesso que num primeiro momento me vi bastante apreensiva pela responsabilidade envolvida na tarefa. Eu me indagava sobre o que comunicar a vocês numa ocasião como esta. Pensei: trata-se de uma “aula inaugural”, um momento de recepção aos que estão chegando agora nesta casa, a “inauguração” de uma nova jornada conjunta na qual cabe a nós, do Instituto da sbpsp, a responsabilidade de oferecer a vocês a formação psicanalítica.

A transmissão da psicanálise nos momentos atuais tornou-se, a meu ver, um grande desafio. Estamos vivendo em tempos de mudanças drásticas, importantes mudanças, que ocorrem em tal velocidade, que se torna difícil acompanhá-las. Choques de valores, questões religiosas, de fanatismo e de racismo, além de questões de gênero e de novas organizações familiares, este é o cenário com o qual estamos convivendo, um cenário em que o desconhecido se impõe, e que abala as bases do nosso saber, a nossa estabilidade e a capacidade para nos mantermos pensando. Torna-se, mais do que nunca, imprescindível mantermos uma postura ética de respeito, de acolhimento da alteridade e da subjetividade alheia.

Ao me preparar para esta comunicação, não pude evitar remeter-me a lembranças dos tempos em que eu entrei nesta casa. Eram outros tempos. A Sociedade era pequena, havia pouquíssimos analistas didatas. As filas para iniciar a análise didática com esses analistas eram longas. Poucos eram aqueles que tinham acesso à formação. Os custos das análises eram altíssimos. “Era só para uma elite”, como costumavam dizer na época.

Naqueles tempos, uma vez iniciada a análise didática, era o analista quem autorizava o ingresso de seu analisando para começar a formação. Penso que essa era uma interferência importante no setting analítico, em que o Instituto invadia a sala de análise, tolhendo a privacidade e a liberdade da dupla. Essa prática com o tempo foi abandonada.

Lembro-me bem da Aula Inaugural da minha turma. Foi na Sergipe, num auditório pequeno, bem menor do que este. A turma era pequena. O clima era muito formal e de bastante apreensão. O discurso era de que a psicanálise era um saber para muito poucos. Havia na época uma espécie de aura em torno do pertencimento à sbpsp.

Naqueles tempos não havia o nosso prédio, “Olimpic Tower”, mas, para mim, ter sido aceita para cursar no Instituto de Psicanálise Durval Marcondes da sbpsp era como se eu tivesse sido aceita para ingressar no “Olimpo”.

Estou me dando conta agora do longo caminho percorrido por mim nesta casa, desde a minha entrada até os dias de hoje. Os tempos, felizmente, mudaram. A sociedade cresceu, hoje somos muitos! São muitos os analistas didatas e são muitos aqueles que têm acesso à formação psicanalítica em nosso Instituto.

Os valores das análises didáticas se adequaram mais às condições econômicas dos membros filiados, propiciando que a formação se tornasse acessível a um número bem maior de pretendentes. Recentemente foi dado início ao Projeto Análise Didática, um projeto que oferece a oportunidade de se ter “análise didática” com valores acessíveis, para que candidatos com severas dificuldades econômicas pudessem também realizar a formação.

Os tempos mudaram, sim, mas o rigor, a ética, a paixão pela psicanálise e o cuidado com a qualidade da formação, valores sempre presentes nesta casa, fizeram com que as bases, os fundamentos da formação psicanalítica fossem preservados e se mantivessem inalterados.

A análise didática, o principal pilar da formação, permanece numa alta frequência, como sempre ocorreu. Penso que essa é uma condição que favorece, a meu ver, ao analisando mergulhar em aspectos mais primitivos e primordiais da sua mente.

Ao lado da análise didática, a supervisão de casos clínicos e os seminários teórico-clínicos vão compor o famoso tripé da formação. Alguns colegas referem-se também a um quarto pé da formação, composto pela relação do membro filiado com a instituição e com os seus pares. Vou me estender sobre esse tema mais adiante.

Com a pandemia, entretanto, foi introduzida a análise online, uma prática muito valiosa naqueles tempos, por ter permitido aos analistas darem prosseguimento ao atendimento de seus pacientes, e também dos membros filiados em formação. A análise online é, a meu ver, um recurso admirável para situações especiais, como aquelas da pandemia, mas é necessário ter em mente a importante alteração que esse dispositivo provoca no setting analítico. Com essa prática, ficam suprimidas do campo a comunicação não verbal, as manifestações corporais, extremamente valiosas, que muitas vezes informam com mais agudeza sobre movimentos importantes da mente do paciente do que a própria comunicação verbal. No momento, felizmente, grande parte das análises voltou a ser presencial. Não pretendo me alongar aqui a respeito desse tema, como sabemos, um tanto polêmico.

É importante mencionar que, em relação às “análises didáticas” e supervisões online do Instituto, foram criados regulamentos por parte da ipa para legislar sobre essa prática durante a formação.

Entendo que o grande desafio da formação em psicanálise hoje tem sido manter um equilíbrio entre as suas bases, o rigor do método, e as novas demandas e subjetividades que se apresentam em nossos consultórios.

O “Caminho”

O tema desta Aula Inaugural é o “Caminho” percorrido da “análise do analista à sua vivência institucional”. Encontrei no livro O Zen na arte da cerimônia do chá uma descrição interessante sobre o conceito de caminho dentro do pensamento Zen:

O Caminho encontra-se no centro da criação cultural e espiritual do Japão. O Caminho é a tradição de uma arte. Para praticantes dessa arte, sem um Caminho não há uma trajetória a seguir … O Homem não procura apenas determinada perícia no Caminho, mas nele encontra um conjunto de princípios de verdades, de ensinamentos que podem proporcionar algo ao leigo … Dado representar uma tradição, o Caminho percorre várias gerações e será transmitido às descendências futuras, cristalizando a soma de experiências isoladas que se deram e que são de permanente importância para o posterior exercício do Caminho em questão. A tradição no sentido japonês não é a mera transmissão de algo acabado estabelecido, criado por um mestre. Tradição significa o ensino de um mestre em sua totalidade e o contínuo vivenciar do seu legado em toda a sua plenitude. E não são apenas os aspectos já maduros de um Caminho os transmitidos, pois a tradição inclui também o que ainda está imaturo, os elementos ainda em crescimento. (Hammitzsch, 1958, p. 7)

A definição de “Caminho” citada na passagem acima é para mim uma analogia bastante próxima daquilo que entendo estar contido no “Caminho” a ser percorrido ao longo da formação psicanalítica em nosso Instituto.

Este é o Caminho, um percurso nada aleatório a ser trilhado. É o resultado de uma longa tradição que desde Freud vem sendo praticada, uma tradição aberta, para incluir “aspectos imaturos, elementos em crescimento” (Herriguel, 1975), ou seja, uma tradição atenta à diversidade das questões que nos cercam, sem perder de vista os fundamentos que nos orientam.

Dentro das muitas tendências do ensino em nosso Instituto, simpatizo com aquela que é concebida dentro de um setting que não visa o acúmulo de conceitos teóricos, nem a procura de respostas prontas encontradas na literatura psicanalítica. “Trata-se de uma tendência que não é a mera transmissão de algo acabado, estabelecido … mas é o ensino de um mestre em sua totalidade e o contínuo vivenciar do seu legado em toda a sua vida” (Hammitzsch, 1958, p. 7).

Sobre a análise didática

Maria, 40 anos, uma mulher alta, bonita, vistosa, profissional de grande sucesso na área de marketing, numa de suas sessões, posicionada de bruços no divã, em meio a um clima de intenso envolvimento emocional com a analista, com um tom de voz meio amolecido, como se não estivesse nem dormindo, nem acordada, diz: eu estava lembrando da minha amiga que disse que na tal da Sociedade de Psicanálise é preciso fazer 5 anos de análise didática. Pensei: Gente!!! Que porra é essa, análise didática? O que é que isso tem a ver? Como é possível fazer uma análise que seja didática?

O espanto dessa analisanda com a notícia da existência de uma “análise didática” comoveu-me. Ao escutá-la eu também me indaguei: mas, afinal, o que seria essa tal de “análise didática”, a análise do analista? Como pode uma experiência de um intenso envolvimento emocional compartilhado com um analista ser didática?

O tema “análise didática”, ou melhor, análise do analista, é muito caro para mim. Desde Freud e a seguir com Eitingon e Abraham, a análise didática constitui o principal instrumento do qual o analista se serve para a constituição da sua identidade analítica. Análise pessoal do membro filiado é uma rara oportunidade de ele experienciar estando na posição de analisando a intimidade de um processo analítico.

Em nosso Instituto, a análise do membro filiado deve ser conduzida por um analista qualificado pela instituição depois de ter ele próprio percorrido o longo “caminho” da formação, ou seja, ter experienciado um contato profundo com a sua própria realidade psíquica, além de aspectos da sua mente primitiva e mente primordial, a mente ainda não nascida.

Como escreve Reiner (2025) citando Bion: “não se pode realmente experienciar algo na mente de outra pessoa, se você nunca vivenciou aquilo na sua própria mente”.

A análise didática, ou análise do analista, como se sabe, não envolve qualquer viés ligado ao ensino de teorias ou de técnicas, mas promove a experiência de uma troca viva, verdadeira, profunda e contínua entre analista e analisando. É uma experiência que permite ao analisando acercar-se mais de si mesmo, de sua própria realidade psíquica, de sua mente primordial – de seus próprios terrores e ameaças. É fundamental destacar, entretanto, que experiências dessa natureza instalam-se mais favoravelmente se ocorrerem dentro de uma dinâmica de encontros contínuos e bastante assíduos. Esse ritmo, penso, possibilita ao membro filiado um contato intenso e profundo com um método de trabalho rigoroso, o qual, possivelmente, lhe servirá de modelo de escuta psicanalítica em sua própria atividade clínica e o habilitará a sustentar processos psicanalíticos importantes.

A análise do analista, como sabemos, é um “Caminho” bastante longo, demorado, que exige muita paciência e entrega para ser atravessado. Se houve de fato uma entrega durante tal análise, esse será um caminho sem volta. A curiosidade pelo desconhecido inoculada na dupla é o que vai movê-la a prosseguir com o respeito necessário que a tarefa requer, sem data marcada para ser encerrada.

Penso que vale a pena explicitar aqui a minha visão sobre aquilo que caracteriza uma sessão analítica. Analista e analisando se encontram num determinado local e horário, onde têm a oportunidade de compartilhar a experiência emocional do momento. Recomenda-se que o estado mental do analista para essa tarefa esteja desprovido de ideias preconcebidas, vieses na observação ou qualquer desejo de cura. Esse estado pode favorecer uma conexão intuitiva e profunda, não apenas com a situação mental do paciente, mas também com a do analista consigo mesmo. Essa situação propicia ao analista inserir-se na cena junto ao paciente, em vez de apenas observá-la de fora. É a isso que Bion se refere ao falar de “tornar-se a experiência”.

A esse respeito, Reiner (2025) escreve:

É algo como a diferença entre estar em um barco no meio do oceano e nadar no oceano com nada além da própria mente para ajudar a manter-se à tona. Não quer dizer que não houve nadadores ousados que mergulhassem nesse oceano incognoscível… De certa forma, essa ideia busca aprofundar o nosso acesso a esse mundo muito diferente da mente, tentando encontrar uma maneira de manter-se à tona nele.

Essa seria, como propõe Ogden (2020) em seu artigo “O que quero ser quando crescer”, a experiência de uma psicanálise ontológica, centrada no ser, no tornar-se a experiência, diferente de uma psicanálise epistemológica, centrada no conhecer. Não existe, entretanto, como diz Ogden, um tipo de abordagem único – ontológico ou epistemológico –, mas as duas coexistem e se enriquecem mutuamente.

Experiências como essas, vividas ao longo de uma análise, podem ser transformadoras e promover mudanças psíquicas importantes.

É necessário enfatizar que a psicanálise não é uma atividade aleatória, baseada na aplicação de uma técnica, mas é uma prática calcada num método rigoroso de trabalho.

A palavra “método” vem do grego méthodos, formado por meta (por meio de) e hodós (via, caminho). Usar um método é seguir, regular e ordenadamente, um caminho por meio do qual um certo objetivo é alcançado.

Para Bion (1977), o método é uma questão central em sua abordagem clínica. Sua preocupação é com a investigação do novo, do que está faltando, evitando saturar o campo com alguma ideia já sabida, mantendo-se sempre fiel à disciplina da investigação do desconhecido. Seu método de trabalho está baseado numa autodisciplina em que o ponto fundamental para o analista seria um tipo de experiência (Grotstein, 1990) que perturba o universo do que está em andamento, tornando-se O modelo de um pensamento dinâmico que tolera a dúvida, a incerteza e a ambiguidade. Em outras palavras, tolera a presença de uma pluralidade de significados (Civitarese, 2010.

Precisamos lembrar também que a “intuição” e a “fé” (fé nos termos de Bion, e não a fé religiosa) são também dois elementos intrínsecos ao funcionamento da mente do analista no seu contato com o paciente na sessão analítica.

A palavra “intuição” é derivada do latim intuitus, olhar para dentro, olhar para a raiz. A intuição em psicanálise permite captar aspectos inconscientes do paciente que não são acessíveis pelo discurso articulado e racional. A intuição do analista vai emergir da própria experiência emocional compartilhada entre a dupla na sessão. Não se trata de um dom inato, mas de uma disposição interna para um olhar, fino, agudo e profundo, sobre o fenômeno mental, o qual durante a formação é vivenciado nas múltiplas experiências às quais o membro filiado se submete – na análise pessoal, na supervisão, na atividade clínica e nos seminários.

A intuição do analista, penso, é o seu guia na sessão, a bússola para orientar-se naquele imenso “oceano” que é a vida mental do paciente, e não sucumbir, mas tentar “manter-se à tona” (Reiner, 2025). É por meio da sua intuição que o analista vai direcionar o seu olhar para a realidade psíquica do seu analisando, para o seu mundo interno e a mente primordial.

Quanto à “fé”, é necessário destacar que o analista que se dispõe a realizar o ofício da psicanálise, ele tem em mente a “fé” de encontrar uma realidade última, o desconhecido, o incognoscível… (Bion, 1975) e tem a fé de que a sua própria mente vai mantê-lo à tona. É a atitude de fé que empurra o analista para mergulhar naquele “oceano” desconhecido e, estando ali dentro dele, junto ao paciente, experienciar a situação do momento (Prada e Silva, 2019).

Será a fé no método, a “fé no mestre” (como escreve Herriguel, na epígrafe), que vai estimular a pessoa a prosseguir o seu “áspero caminho” do aprendizado de si mesmo e de seu paciente.

O caminho para a Instituição

Sabemos que a relação do membro filiado com sua instituição tem um papel fundamental na formação.

Esta casa, a nossa instituição, na qual vocês estão ingressando hoje, é uma “grande casa” que se caracteriza por abrigar uma ampla diversidade de correntes teórico-clínicas. É importante destacar que uma atitude de respeito pelo diferente, pela alteridade, é um valor cultivado nesta nossa instituição. Essa atitude tem resultado num diálogo bastante enriquecedor para todos, o que não implica, entretanto, que não haja, eventualmente, tensões, como aquelas que ocorrem em qualquer grupo.

O membro filiado ao iniciar a sua formação por meio da análise didática permanece num ambiente privado e de grande intimidade. Aos poucos o seu “caminho” vai se expandindo em direção à instituição. Vai tomando contato com suas regras, suas normas e, principalmente, sua cultura. Inicia-se a partir daí a relação do membro filiado com seus pares e coordenadores nos seminários teórico-clínicos, com os supervisores, além dos eventos científicos.

A supervisão dos casos clínicos é também um componente essencial da formação. É um espaço para reflexão e aprimoramento da escuta analítica junto ao supervisor. Costumo sempre dizer a meus supervisionandos que não se trata de uma super-visão, mas de um espaço para considerar, eventualmente, uma outra visão a respeito daquele material. Um espaço que permite uma auto-observação e elaboração das vivências do membro filiado com seu paciente, além da oportunidade de uma escuta de si mesmo em seu trabalho, o que poderá propiciar-lhe a expansão de seu campo de observação.

No espaço da instituição vai se estabelecer uma interação dinâmica entre essas duas instâncias, o grupo e o privado, experiências que se intercambiam constantemente ao longo de toda a formação. Instala-se um senso de pertencimento ao grupo, a sua cultura, a um local para compartilhar suas experiências, inquietações e desafios com seus pares.

Acho importante lembrar que, muitas vezes, as discussões nos grupos a respeito de alguma ideia polêmica podem gerar grande turbulência nas mentes de seus pares. A pressão do grupo pode ser muito poderosa, ameaçando a sustentação da ideia em discussão. Entendo que ideias polêmicas e perturbadoras são aquelas que estimulam ao indivíduo avançar nas suas intuições e vir a, eventualmente, desenvolver algo criativo. Penso que a controvérsia não deve ser evitada, por essa ser uma boa oportunidade para o indivíduo aprofundar seus próprios argumentos.

É importante termos em mente quanto a necessidade de haver um equilíbrio, entre a instituição, com tudo que ela possa oferecer, incluindo a troca com os pares, mas não deixar de perder de vista a autonomia individual, a singularidade de cada analista.

É importante lembrar que o contato com aspectos da cultura que rodeia o analista é também uma fonte de alimento imprescindível para a sua mente. A arte, a literatura, a poesia propiciam ao indivíduo “engendrar o pensamento onírico, imagens poéticas e palavras que possam abrir novos caminhos e trazer outros sentidos, ampliando o espaço mental e adentrando em dimensões arcaicas, ainda não nascidas” (Vannucchi, 2024).

A formação, como podemos observar, é um longo “Caminho”, que se sabe bem quando inicia, mas não quando termina. É um “Caminho” que se percorre sem data certa para terminar. O regulamento fala em 5 anos, mas entendo que não há nada que possa definir a duração desse processo, pois a “formação” para mim, é um estado de mente que se perpetua no analista enquanto ele se dedica à prática da psicanálise.

Poucos de nós, entretanto, como escrevem Gabbard e Ogden (2009), sentem que realmente sabem o que estão fazendo ao concluir a formação em psicanálise. Ficam à deriva, lutando para encontrar a sua “voz”, o seu próprio “estilo”, com uma sensação de que estão praticando a psicanálise de uma maneira que não carrega a própria marca. “É somente após a qualificação [como analista] que você tem a chance de se tornar o analista que é você” (p. 311).

Mal sabia eu, na época em que iniciei esse “Caminho”, que a Sociedade se tornaria para mim “uma casa”, um abrigo que me acolheria, que acolheria as minhas inseguranças, dúvidas, incertezas, um lugar em que divido com os meus interlocutores as minhas inquietações e onde posso estar constantemente afiando os meus instrumentos de trabalho. Penso que a gente nesta instituição, parodiando José Mindlin, que falava de ter sido acometido por um vírus incurável, a sua paixão pelos livros, acaba sendo infectada também por um vírus, “a paixão pela psicanálise”, um vírus muito difícil de ser curado. A gente entra nesta casa e não quer mais abandoná-la. Muitos de nós encontram-se por aqui há mais de 40 anos.

Como diz Herriguel na epígrafe deste escrito,

Áspero é o caminho do aprendizado … Até onde chegará o discípulo não é coisa que preocupe o mestre. Ele apenas ensina o caminho, deixando-o percorrê-lo por si mesmo, sem a companhia de ninguém. A fim de que o aluno supere a prova da solidão, o mestre se separa dele, exortando-o cordialmente a prosseguir mais longe do que ele e a se elevar acima dos ombros do mestre. (Herriguel, 1975, p. 57)

Referências

Bion, W. R. (1975). Caesura. In W. R. Bion, Two papers: The grid and caesura. Karnac. [ Links ]

Civitarese, G. (2010). Cesura como o discurso do método de Bion. Livro Anual de Psicanálise, 24, 145-163. [ Links ]

Gabbard, G., & Ogden, T. (2009). On becoming a psychoanalyst. International Journal of Psychoanalysis, 90, 311-327. [ Links ]

Grotstein, J. S. (1990). Do I dare disturb the universe? Karnac. [ Links ]

Grotstein, J. S. (2010). Um facho numa intensa escuridão: O legado de Wilfred Bion à psicanálise. Artmed. [ Links ]

Hammitzsch, H. (1958). O Zen na arte da cerimônia do chá. Pensamento. [ Links ]

Herrigel, H. (1975). A arte cavalheiresca do arqueiro Zen. Pensamento. [ Links ]

Ogden, T. (2020). Psicanálise, ontologia e psicanálise epistemológica. Revista Brasileira de Psicanálise, 54(1), 23-46. [ Links ]

Prada, R., & Silva, J. (2019). O absurdo da fé. Trabalho não publicado. [ Links ]

Reiner, A. (2025). Poetry, art, science of psychoanalysis in Bion’s O. Routledge. (No prelo). [ Links ]

Vannucchi, A. (2024). O analista e o acesso à realidade psíquica: Clínica e formação psicanalítica. Trabalho apresentado em mesa no 11° Congresso da Fepal. [ Links ]

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