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Jornal de Psicanálise

versão impressa ISSN 0103-5835

J. psicanal. vol.58 no.108 São Paulo  2025  Epub 11-Jul-2025

https://doi.org/10.5935/0103-5835.v58n108.12 

Textos seminais da psicanálise

Uma analista e sua formação: A construção da identidade

Una analista y su formación: la construcción de la identidad

An analyst and her training: the construction of identity

Une analyste et sa formation : la construction de l’identité

Ana Maria Andrade de Azevedo1 

Membro efetivo e analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (sbpsp)

1Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (sbpsp), São Paulo


Resumo

Neste trabalho, a autora relembra o início de sua formação psicanalítica, resgatando experiências pessoais e profissionais que marcaram seu percurso. Ao longo do texto, articula vivências clínicas, supervisões e observações com reflexões teóricas, revelando o impacto subjetivo desse trajeto. A construção da identidade como analista aparece entrelaçada ao vínculo com pacientes, supervisores e à escuta de si mesma.

Palavras-chave: formação psicanalítica; identidade do analista; supervisão; clínica; experiência subjetiva

Resumen

En este trabajo, la autora rememora el inicio de su formación psicoanalítica, recuperando experiencias personales y profesionales que marcaron su recorrido. A lo largo del texto, articula vivencias clínicas, supervisiones y observaciones con reflexiones teóricas, revelando el impacto subjetivo de ese trayecto. La construcción de la identidad como analista aparece entrelazada con el vínculo con los pacientes, los supervisores y la escucha de sí misma.

Palabras Clave: formación psicoanalítica; identidad del analista; supervisión; clínica; experiencia subjetiva

Abstract

In this paper, the author recalls the beginning of her psychoanalytic training, recovering personal and professional experiences that marked her path. Throughout the text, she articulates clinical experiences, supervisions, and observations with theoretical reflections, revealing the subjective impact of this journey. The construction of the analyst’s identity emerges as intertwined with the bond with patients, supervisors, and the analyst’s own self-listening.

Keywords: psychoanalytic training; analyst identity; supervision; clinical practice; subjective experience

Résumé

Dans ce travail, l’auteure évoque les débuts de sa formation psychanalytique, en retraçant des expériences personnelles et professionnelles marquantes. Tout au long du texte, elle articule les vécus cliniques, les supervisions et les observations à des réflexions théoriques, révélant l’impact subjectif de ce parcours. La construction de l’identité d’analyste se manifeste comme étroitement liée au lien avec les patients, les superviseurs et à l’écoute de soi.

Mots-clés: formation psychanalytique; identité de l’analyste; supervision; clinique; expérience subjective

Estimulada pelas palavras da nova editora do Jornal de Psicanálise, Mariana Mies, decidi escrever algo sobre meu trajeto como analista, acrescentando à minha trajetória alguns aspectos da teoria psicanalítica que me pareceram importantes.

Concordo plenamente com Mariana quando, em sua Carta-Convite, ela diz:

A construção do analista em formação se dá também em um ambiente privado e íntimo – o consultório de seu próprio analista. Ali se vive o primeiro contato com a cultura da psicanálise, uma maneira de ser analista e paciente, sob a influência de um pequeno grupo, como foi o grupo familiar. Aos poucos o analisa em formação ganha mundo: seminários clínicos, teóricos, supervisões. Eventos, congressos que vão colocando-o em contato com a comunidade psicanalítica com a qual aprende e contribui. (Mies, 2025)

Não tenho dúvida de que o primeiro analista contribui muito no início de nossa formação. Armando Ferrari foi meu analista didata, homem dotado de uma personalidade forte, intenso, que sem dúvida foi um personagem muito importante para meu percurso.

Ferrari decidiu mudar-se do Brasil para a Itália, em 1975, país de sua nacionalidade, quando eu cursava o segundo ano da formação. Já havíamos feito cinco anos de análise didática quando isso aconteceu, ele considerou que poderia dá-la por terminada.

Surpreendi-me num primeiro momento com isso, porém, logo entendi que ele queria me deixar livre para escolher outro analista, mesmo que este não fosse didata (havia poucos didatas naquela época). Tudo isso aconteceu nos anos 1970… Ferrari se foi, e eu não consegui buscar outro analista, naquele momento, pois sofria muito com sua partida. Foi um luto que durou muitos anos, e ele continuou presente em meu mundo interno, por muito tempo!

“A construção de minha identidade analítica”, como diz Mariana, foi acontecendo e se dando nesse clima de liberdade e, ao mesmo tempo, de falta. Tive como minha primeira supervisora Ligia Amaral, por quem tenho um grande reconhecimento, pois ela foi capaz de acolher minha orfandade e aceitá-la com naturalidade, e trabalhamos muito.

Foi meu primeiro caso clínico o de uma paciente intitulada Regina, que me fazia sentir muito angustiada e desorientada. Regina não parava de repetir sempre as mesmas histórias, as mesmas queixas, vivenciando um clima de muito sofrimento. Para mim, analista iniciante, com uma paciente três vezes por semana, era tremendamente difícil aguentar esse clima, tentando de diferentes maneiras abordá-lo, sem sucesso.

Ligia me ajudava como podia, salientando a importância da escuta, do acolhimento e da paciência. Eu percebia como tudo isso era importante, mas não bastava, sentia-me bastante angustiada e queria ir mais longe, pois já intuía que essa forma de comunicação, a repetição, acontecia com frequência. O tema me interessava. Depois de um tempo de trabalho, veio à minha mente a ideia de que Regina, ao repetir, criava um modelo em nossa relação, um modelo de vítima-e-carrasco, no qual, sem ser consciente do fato, eu ocupava o lugar que ela me atribuía, ou seja, o de um carrasco exigente, esperando que ela fizesse outra coisa, e não o que podia fazer.

Imediatamente lembrei-me de Ferrari: ele usava bastante a ideia de modelos e crenças quando trabalhava e interpretava. O divã do meu analista se impôs e me percebi fazendo uso de suas formulações comigo, de sua forma teórica peculiar de interpretar, e de como isso tinha me parecido importante, naquela época com ele, e agora com minha paciente.

Sem pretender descrever um passe de mágica, comecei a falar com minha analisanda sobre o que me pareciam ser suas crenças e modelos, de como ela se minimizava na minha frente, e ela começou a se interessar. Eu contava com Ligia Amaral, com meus seminários clínicos nos quais essas ideias também iam sendo bem recebidas. E então, além de Ferrari e Ligia, Freud se impôs como o mestre por excelência.

Esse foi meu primeiro trabalho, o mesmo caso de Regina de meu relatório, publicado mais tarde em meu livro Passado e presente (Azevedo, 2020). Minhas lembranças se acrescentavam ao meu trabalho com Regina, articulando-se com algumas das leituras teóricas que fazia na época. Uma elaboração interessante pôde ocorrer em meu trabalho e em minha vida.

Importante salientar aqui que um dos aspectos que ficaram muito claros para mim desde então foi de que analista e analisando se beneficiam mutuamente no trabalho analítico, cada um à sua maneira, mas há sempre um ganho mútuo.

A construção de minha identidade, iniciada no divã de Armando Ferrari, no escritório de Ligia e com meus pacientes, começou a acontecer. Meu segundo supervisor, Laertes Ferrão, marcou-me principalmente por sua acurada maneira de demonstrar como as perspectivas se superpõem, como o vértice usado é sempre só um dos vértices. “Eu vejo um balão no céu…” Meu trabalho com ele, “Modelos e conjecturas” (Azevedo, 2020), segue na mesma linha iniciada no primeiro relatório, e acredito que a partir daí fui ganhando confiança e desenvolvendo minha própria maneira de trabalhar.

Ferrari voltou ao Brasil quinze anos depois, trazendo seu livro A eclipse do objeto (1995), realizando supervisões e mesmo simpósios sobre sua obra. Colaborei em muitas de suas apresentações e penso que seu trabalho é inovador, interessante e importante para a psicanálise. Principalmente na área de adolescentes, e seu livro Adolescência: o segundo desafio (1996) é importante.

Mais segura, escrevi outros trabalhos, estudei outros autores, principalmente Bion, que atraiu minha atenção durante muitos anos. Bion é um autor que me marcou e está presente até hoje em meu pensamento, sendo impossível para mim não pensar sempre em seu modelo de Transformações (1965) e no Aprender com a experiência (1962). Acredito, no entanto, que talvez meu interesse enorme em André Green e em outros autores, como Fédida e Jean-Claude Rolland, tenha me levado de volta a Freud.

Depois de ter ilustrado a ideia de que nossas primeiras teorias provêm do divã de nosso próprio analista, de nossos supervisores e professores, e de nossos pacientes, todos se sucedendo, dando corpo e consistência às nossas experiências, chego agora ao ponto que quero salientar: a importância de algumas de minhas escolhas teóricas.

Foram os trabalhos de Freud, “Recordar, repetir e elaborar” (1914/1990c), “Construções em análise” (1937/1990a) e “Mais além do princípio do prazer” (1920/1990b) que abriram para mim as portas de uma psicanálise livre, criativa e rica. Tenho de dizer que a posição de Green, seus trabalhos e conferências influenciaram-me bastante em minha leitura freudiana, principalmente nesses artigos.

Como trabalhar com pacientes que repetem suas histórias, não param de contar e contar o que se passa em casa, no namoro, no casamento, situações, sem dúvida, da vida real, e ao mesmo tempo expressões de suas angústias e tensões, trazendo dessa maneira sua dor e seu sofrimento? Dar conselhos? Opinar sobre os acontecimentos, evitar fazer isso mantendo uma posição distante e fria, interpretando, às vezes, a inveja e a destrutividade?

Não estou querendo ser apenas crítica, pois tudo isso eu mesma fiz, me atrapalhei muitas vezes, percebendo que estava “me metendo” onde não devia, ou que usava jargões psicanalíticos, na falta de saber o que mais fazer… A contratransferência nos atormenta nessas horas, e os sentimentos muitas vezes tomam conta da cena!

Contar com Freud foi fundamental! Aliás, ele é nosso primeiro e último analista, posso dizer isso tranquilamente. Sua obra é monumental, e, apesar de ter me beneficiado tremendamente dos trabalhos de Klein, Bion, Meltzer, Green e muitos outros, parece que só depois de tudo isso pude compreender a importância de Freud.

Vou citar alguns trechos desses três textos de Freud, que me abriram muitas portas, e até hoje me encantam. Quando escrevi meu primeiro trabalho, “Considerações em torno de uma experiência”,2 muito me debati em torno da questão da “história do paciente”. Teoricamente, eu sabia que teria de interpretar fantasias inconscientes da paciente, porém, suas vivências na sessão comigo eram tão intensas, que eu compreendia que ela precisava repetir. E por quê? Que forma de prazer seria aquela que a levava, e a mim também, a sofrer tanto?

E foi só me detendo mais em Freud que veio à minha mente uma construção/interpretação que a ajudou. Entendi que Regina havia precisado construir mentalmente um modelo/uma teoria, que transformava sua vida, seu relato, num “mito de origem”, inquestionável e sagrado, que ela repetia para mim como numa religião, fosse ela qual fosse – e repetíamos, sem saber, orações, escrituras e “performances”. Essa abordagem a ajudou, pudemos conversar de outra forma, e durante anos trabalhamos tentando abalar e desconstruir aquele “mito de origem” que ela carregava tal qual uma corrente presa aos pés.

Relato tudo isso brevemente, assim como cito Freud brevemente: em seu magnífico artigo “Recordar, repetir e elaborar” (1914/1990c), ele inicia fazendo referência à hipnose, recuperadora de memórias e lembranças reprimidas – usada por ele e Breuer, no início da psicanálise. Agradecendo a essa técnica já ultrapassada, mas que havia contribuído muito para seu conhecimento, Freud, no entanto, percebe que em muitos casos o fato de o elemento de memória ser consciente ou não não será o que interferirá na rememoração, pois a convicção do paciente é que deverá prevalecer.

Diz ele, então: “o esquecimento se limita muitas vezes a destruir conexões, a suprimir relações causais e a isolar recordações que eram entrelaçadas entre si” (1914/1990c, p. 1654). As lembranças nunca poderão ser recuperadas, pois nunca chegaram a ser esquecidas, ou seja, nunca vieram a ser retidas nem a se tornar conscientes, portanto, como poderão ser lembradas?… É necessário desenvolver a diferença entre o esquecimento e a recordação.

Penso que Freud se refira a impressões sensoriais, a fantasias inconscientes, que talvez nunca tenham sido representadas, que, portanto, nunca puderam ser conscientes, e que, no entanto, têm sua ação e sua importância, não sendo de fato esquecidas, continuando a provocar reações e sintomas.

Ora, Freud está em 1917, falando claramente do que mais tarde será conhecido como processos de cisão e de splitting, ambos impedidores da recuperação e integração no ego desses elementos esquecidos; além de estar se referindo aos processos de negação, ainda não definidos completamente por ele. Acredito mesmo que Freud está falando de elementos não representados que têm poder de produzir efeitos e que não sofrem repressão, pois não têm palavras.

Penso que a ideia de “modelo”, como usado por Ferrari e depois por mim, aí se encaixa! Uma forma de falar de elementos não representados, fazendo uso de uma construção imagética, que sempre precede a representação em palavras (Rolland, 2004).

Green, mais tarde, trabalhou muito sobre as questões da representação e da não representação, em vários de seus textos (Green, 1995); mais especificamente em “A posição fóbica central” (2011), ele amplia as ideias propostas por Freud no “Recordar, repetir e elaborar” (1914/1990c), de que “as conexões são destruídas, as relações causais suprimidas e as recordações isoladas”, resultando no que ele vai denominar como o trabalho de “arborescência” (Freud, 1914/1990c, p. 1654; Green, 2007).

Essa observação ajudou-me tremendamente a poder sair da escuta do conteúdo de minha paciente, de suas queixas e de seu relato histórico, e perceber que outra abordagem era necessária. Forma e conteúdo são elementos de qualquer comunicação, e acredito que somos sempre muito atraídos pelos conteúdos, sem questionar ou examinar melhor a função e a maneira com que é feita a comunicação.

E Freud continua, em seu artigo, a falar dessas questões, dizendo: “O analisando não recorda nada do que foi esquecido, ele o vive de novo! … ele repete sem saber o que repete” (Freud, 1914/1990c, p. 1634). “Enquanto o sujeito permanece no tratamento, não se liberta dessa compulsão de repetição” (Freud, 1914/1990c). Só um trabalho constante diante da resistência e da repressão vai mudar esse estado de coisas.

Acho que foi isso que entendi quando propus a Regina o modelo do “mito de origem”, que, na verdade, ela inconscientemente conhecia, mas insistia em repetir sua versão consciente desse mito, pois só assim poderia penetrar nos conteúdos internos de sua mente, muitas vezes inconscientes, que se encontravam dispersos, cindidos e fragmentados, para poder tentar elaborá-los. Só quando aceitei, na experiência com ela, sua necessidade de repetir seu “mito”, sua história, para fazer-me desempenhar determinadas posições, pondo-me dentro da história, desempenhando papéis, foi que começou a ser possível questionar tudo isso, e caminhar. Ou seja, sua resistência pôde diminuir, e, graças à transferência, foi possível começar a elaborar. Freud, nesse mesmo artigo, também diz:

A transferência cria uma zona intermediária entre a doença e a vida, e através dessa zona vai tendo efeito a transição da primeira para a segunda. … Na prática a elaboração das resistências do analisando é uma dura prova para a paciência do analista. (Freud, 1914/1990c, pp. 1687-1688)

Essa primeira conquista libertou-me da necessidade de encontrar uma fantasia inconsciente por baixo do material verbal apresentado pela paciente, ao mesmo tempo em que me possibilitou pensar que era um pacote, que incluía muitas coisas, até mesmo o vínculo entre mim e ela, apontando também para as minhas fantasias e conjecturas!

A repetição que os analisandos apresentam precisa ser vista como uma outra construção, decorrente da cisão e fragmentação na associação livre dos elementos da repetição, que são rearranjados e reconstruídos de forma que não sejam identificados imediatamente. Aqui insiro o outro artigo de Freud a que fiz menção: “Construções em psicanálise” (1937/1990).

É quase natural que, após o exposto acima, eu necessitasse desenvolver uma maneira de lidar com a repetição na clínica, e ampliasse meu conhecimento a respeito. Foi nesse artigo de 1937 que encontrei elementos também fundamentais para meu trabalho, na minha clínica, ampliando a minha identidade como psicanalista e também como pessoa. Diz Freud:

Qual é então sua tarefa? [Do analista]. Sua tarefa é de fazer surgir o que foi esquecido pelo paciente, a partir de restos que deixou atrás de si, ou, mais corretamente, construir … É fácil imaginar as dúvidas correspondentes que surgem no caso das construções psicanalíticas … para o analista a construção é apenas um trabalho preliminar. (1937/1990, pp. 3366-3367)

Esse artigo de Freud, “Construções em psicanálise”, de 1937, é bem conhecido, e poucos ou praticamente nenhum analista deixa de usar na descrição de seus casos e de suas sessões a palavra “construção”. Aliás, nesse escrito está presente a “construção da identidade” como um item a ser pensado.

No entanto, sei que essas primeiras palavras de Freud podem gerar fortes objeções e recusa. A maioria de nossos colegas tem em mente que a psicanálise deve ir atrás do novo, do nunca percebido. Ideias essas que, sem dúvida, encontramos também em Freud, mas que em geral são atribuídas a Bion.

Admiro profundamente o trabalho de Bion e de outros analistas kleinianos e pós-kleinianos, mas creio que ao falarmos de construção e mesmo de reconstrução não estamos de maneira nenhuma falando do velho, do já vivido, do que já passou. Discordo totalmente nesse ponto, pois a ideia de construção se refere a uma possibilidade de recombinar, rearranjar os elementos que surgem como restos na mente do analisando, para que alcance a sua versão, sua perspectiva de sua própria vida e das relações que desenvolve nesta. A memória é hoje tratada como o esteio da humanidade, presente no ser humano. Os trabalhos de Ernst Cassirer (1944/1972) e de Edgar Morin (1994) nos fazem ver isso claramente em diferentes momentos da história do homem. Algo que o faz pertencer ao grupo, encontrar-se, identificar-se para então desenvolver sua própria identidade. Achei necessário fazer esse recorte.

Freud continua e salienta que a concordância do paciente ou a discordância deste em relação a nossa construção não tem muita importância, na verdade, não vamos acertar sempre, e enganos fazem parte de todo trabalho que se inicia ou se desenvolve! O analisando pode corrigir nossa construção, completá-la ou alterá-la como achar necessário. O trabalho é a dois, sempre.

Penso que a libertação de toda visão moral que Freud nos propõe nesse artigo é fantástica! “Só o curso posterior do trabalho de análise vai nos facultar dizer se nossas construções são corretas ou inúteis” (1937/1990, p. 3370). Com essa formulação também a ideia de um analista onisciente cai por terra.

Outro ponto fundamental e bastante atual diz respeito à observação que Freud faz em relação ao retorno do reprimido, presente em toda tentativa de construção, sob forma de alucinações, embora não psicóticas. Freud diz:

Talvez possa ser uma característica geral das alucinações, o que até agora não se havia reconhecido, que nelas reapareça algo experimentado na infância, e até então esquecido, que agora faz um caminho até a consciência de forma desfigurada e deslocada por intervenção de forças que se opõem ao seu retorno. (1937/1990, p. 3371)

Penso ser essa formulação atual, e parte do trabalho contemporâneo sobre os borderlines, muito importante. E Freud não fica aí, continua trazendo os delírios como equivalentes a nossas construções, falando sobre a verdade histórica e a verdade psicanalítica, a verdade objetiva e a verdade subjetiva.

Por um tempo esse tema me interessou muito e detive-me em alguns autores, como Donald Spence (1982) e Arnold Modell (1990), que me ajudaram bastante. Esses autores discutem justamente a noção de verdade histórica e verdade factual, além de se deterem na ideia da construção metafórica de toda a psicanálise.

Quando tive a oportunidade de entrar em contato com tantas ideias e teorias diferentes, não só me surpreendi pelo alcance metapsicológico dessas propostas, mas também consegui ter o alcance de um outro nível do que se passava com meus pacientes, com suas repetições e na relação transferencial. Penso que, para realizarmos o que é transferência e contratransferência, precisamos mergulhar, tanto na análise pessoal como na análise com nossos pacientes.

Eu podia entender que a repetição de Regina e de outros pacientes não apenas os fazia reviver situações internas traumáticas, atuá-las, mas reconhecer que tinham certeza de que era assim que as coisas tinham se passado. A convicção, como proposta por Freud, tornava realmente inquestionável esses “mitos de origem”.

A dificuldade que pode produzir uma situação vital como essa, diz Freud, é que “o caminho pelo qual uma conjectura nossa vai se transformar em convicção do paciente, é difícil de se descrever … o que precisa se constituir em objeto de uma investigação posterior” (1937/1990, p. 3371).

Devo dizer que minha investigação continua até hoje, tendo já passados muitos anos, e complemento essa afirmação dizendo que acredito que nunca terminará. Esse é o substrato da psicanálise, a busca e a investigação de nosso próprio mundo mental e emocional e o de nossos pacientes, ajudados pelos aspectos mais desenvolvidos de nossa mente, por nossos colegas e mestres.

Só ficou faltando me referir ao “Mais além do princípio do prazer” (1920/1990). A inclusão desse texto, aqui, se deve a uma experiência tardia, meus contatos com André Green e Jean-Claude Rolland, e a oportunidade que tive de estudar alguns de seus trabalhos. Bastante influenciada por André Green, a leitura do texto mencionado tinha e tem para mim uma importância muito grande. Green o considerava como o texto-chave de Freud e um texto que tratava de uma “virada” da psicanálise. Não apenas porque a teoria topográfica é aí substituída pela teoria estrutural, e a pulsão de morte é formulada em contraste à pulsão de vida, mas também porque, segundo Green, nesse texto Freud reformula sua noção de inconsciente, introduz a importância da compulsão à repetição, do complexo de Édipo, e assim a própria psicanálise se transforma.

Diz Green,

A compulsão à repetição, além do princípio do prazer, traz uma explicação inesperada e nova: a da pulsão como restauradora de um estado anterior … Se o retorno a um estado anterior da vida se tornar o objetivo geral de toda pulsão, restará precisar do que esse estado anterior (último ou primeiro) estava constituído. (2007, pp. 21, 23)

Eu havia passado anos de minha vida pensando sobre a repetição, sobre o trauma, sobre a história e a história, e, no artigo citado, entro em contato com um grande autor, tratando talvez exatamente do que sempre me instigou.

A originalidade da concepção de 1920 é se apresentar, sob um duplo aspecto, o sincrônico e o diacrônico. Como em suas concepções anteriores, ela oferece uma nova imagem sincrônica da constituição do psiquismo. E é isso o que impulsiona Freud a sustentar que a pulsão de vida e a pulsão de morte coexistem desde o nascimento. Porém, ao lado disso, a justificativa de que a pulsão de morte deve estar ligada a uma perspectiva filogenética, portanto, diacrônica, nos faz ter que retomar às origens da vida. (Green, 2007, p. 24)

Vida e não-vida é um tema retomado por Freud, o início traumático da vida em detrimento de concepções fantasiosas, a luta pela sobrevivência num ambiente talvez hostil à vida, aspectos de uma intensidade e importância talvez nunca antes tratadas pela psicanálise. Narcisismo, sadismo, amor, destrutividade, pulsão sexual, todos temas anteriores, serão retomados nesse texto fantástico, sem dúvida, inovador e transformador da psicanálise até então.

Vou examinar agora, mais precisamente as duas concepções, a diacrônica e a sincrônica, em relação à pulsão de morte. A primeira faz imaginar como a matéria orgânica original, não dotada de vida, é movida por uma força que age de forma totalmente irrepresentável … animando, no entanto, vitalmente essa matéria. Em seguida a esse acontecimento, a tensão aparece na substância, provocando uma “vitalização”, que é imediatamente ameaçada pelo retorno ao estado anterior, de não-vida, não tensão. Assim nasce para Freud a primeira pulsão … a pulsão originaria é a pulsão de morte. Essa visão se apoia numa hipótese filogenética. (Green, 2007, pp. 29, 30)

Não precisamos estar de acordo com a visão de Green, enfatizando em Freud a “pulsão de morte”, mas ele trabalha profundamente esse texto, em vários de seus escritos, principalmente em “Pourquoi les pulsions de destruction et de mort” (2007). Os efeitos das reflexões de Green foram muito impactantes em minha clínica e em minha maneira de considerar a experiência.

A repetição é, então, parte da própria vida, e cada um a sua maneira terá que lidar com ela. Para progredirmos, para caminharmos em direção ao futuro, teremos que lidar o tempo todo com essa força que ameaça com o retorno, com a volta daquilo que já fomos e não somos mais.

A presença de Jean-Claude Rolland, que também enfatiza esse aspecto, e que esteve presente em minha vida por vários anos, tanto em supervisões, como quando acompanhei e traduzi muitos de seus trabalhos, foi muito importante para o prosseguimento na clínica dessas ideias. Sua ênfase no Complexo de Édipo e nas angústias edípicas, em todas as análises, sua maneira sutil de interpretar as analogias e dar uma enorme importância à linguagem, hoje se constituem em pontos fundamentais de meu trabalho clínico. Seu trabalho fundamental é sobre a “melancolia”, em que ele aponta para a impossibilidade de separação do objeto, destacando o desamparo e reforçando a importância do narcisismo, como vínculo, e me fez repensar a psicanálise e meu trabalho.

Agradeço a todos esses autores, que me possibilitaram existir e construir uma visão multifacetada do ser humano, inacessível em sua totalidade, porém, alcançável emocionalmente, naquilo que podemos partilhar juntos. Fiz uso de minha própria experiência na psicanálise, de alguns dos caminhos que trilhei em minha busca de uma “identidade psicanalítica”, de certa forma descrevendo um modelo, o meu modelo de formação no Instituto de Psicanálise, e na vida. Fico em dúvida se falar da minha experiência seja a melhor forma de falar da “construção da identidade psicanalítica”. Talvez uma generalização e uma maior abstração na descrição dos fatos tornassem esse pequeno texto mais interessante.

Mas foi isso que me foi possível! Falar de minha trajetória até 1985, quando me tornei membro associado da sbpsp, para daí em diante começar a percorrer os mais variados caminhos institucionais, desde o cargo de secretária científica em São Paulo, na gestão de Fabio Herrmann, colega muito querido, em 1987, até a Secretaria-Geral da ipa, na gestão de Horacio Etchegoyen, não menos querido colaborador, em 1997.

Do Privado ao Público, nunca deixei de desfrutar das oportunidades de conhecer novos colegas, novas teorias, de apresentar trabalhos em congressos e na Sociedade, e, apesar de ter enfrentado muitas das dificuldades inerentes à psicanálise quando aproximada a outros meios, que não o institucional, tenho certeza de que sempre valeu a pena, e ganhamos!

2N. E. Esse trabalho foi derivado de seu segundo relatório, apresentado em reunião científica na sbpsp nos anos 1970.

Referências

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