Introdução
Este artigo tem como objetivo geral resgatar a História da Psicopedagogia na Paraíba no período entre 2002-2022, construindo uma memória desta época. O início desse período se situa no contexto da expansão da educação superior no Brasil e da emersão do paradigma da educação inclusiva e do foco na aprendizagem. Em meio a estes debates educacionais, a Psicopedagogia surge no Brasil e se expande.
Neste trabalho, pretendemos apresentar o contexto mais amplo do surgimento deste campo do saber no Brasil, os primeiros registros do uso desta disciplina no contexto da educação popular de Paulo Freire, a formação das primeiras psicopedagogas paraibanas em São Paulo, a criação dos cursos de especialização e graduação na Paraíba e do núcleo da Associação Brasileira de Psicopedagogia (ABPp), bem como a realização dos primeiros encontros estaduais de psicopedagogia e outros eventos.
Finalizamos, concluindo pelos avanços desta área no estado, sua contribuição para a aprendizagem em níveis local e regional, bem como de seus limites, a exemplo da necessidade de ampliação do acesso a serviços psicopedagógicos aos alunos da rede pública básica e a demanda pela formação continuada dos profissionais.
Método
Para Saviani (2008, p. 155), a construção da memória histórica da educação brasileira, pode ser trabalhada à partir de três enfoques fundamentais: a preservação da memória, o ensino de história da educação e a produção historiográfica em si. Segundo ele,
A preocupação com a preservação da memória educativa vai assumir, à partir da configuração da história da educação brasileira, como um campo específico de investigação (...) Isso ocorre, de modo especial, a partir dos anos 1970, com a implantação dos programas de pós-graduação.
Este estudo trata de uma pesquisa em história da educação do tempo presente, que buscou localizar vestígios do passado recente referente à construção deste campo de conhecimento no estado da Paraíba. A investigação foi desenvolvida na Universidade Federal da Paraíba (UFPB). De acordo com Scocuglia (2007, p. 28), as histórias da educação do tempo presente “reconstroem as histórias da educação do passado sendo, portanto, fundamentais para a história e a historiografia da educação – do passado, do presente e da projeção do futuro”. A Psicopedagogia emerge no Brasil em meio ao contexto de expansão do Ensino Superior e à emersão do paradigma da aprendizagem, nos marcos da ampliação do acesso e à preocupação com a permanência na escola, bem como com o desempenho escolar dos aprendentes e o combate ao fracasso escolar1, tema extremamente relevante no debate psicopedagógico.
O recorte temporal situa-se, mais centralmente, nos anos 1990 e na primeira década dos anos 2000, em que se verificou a criação de inúmeros cursos de Psicopedagogia na Região Nordeste do Brasil (incluindo a Paraíba), bem como a criação e fortalecimento da secção local da ABPp. O recorte geográfico resulta da necessidade de produção em torno da construção desta área do saber em termos locais, cujo material ainda é escasso.
Quanto à tipologia documental utilizada, procurou-se trabalhar com fontes primárias e secundárias, como documentos oficiais das instituições da época (especialmente fornecidos pela UFPB), livros e artigos científicos, depoimentos de personagens envolvidos no processo histórico, realização de entrevistas com atores importantes do processo, fontes pictóricas (fotografias), páginas das diferentes instituições na internet e perfis em redes sociais digitais.
Resultados: a trajetória da Psicopedagogia na Paraíba
A Psicopedagogia propriamente dita no Brasil parte do consultório para a escola, influenciada pela formulação acadêmica e prática profissional da Argentina, país vizinho em que possui grande tradição. Nos anos 1970 e 1980, difundem-se centros de estudos e clínicas voltadas aos problemas da aprendizagem, nos estados do Rio Grande do Sul e São Paulo. Em 1986, é realizado o 1º Encontro de Psicopedagogos desta segunda unidade da federação. No mesmo ano, ocorre no Rio Grande do Sul o 1º Seminário de estudos em Psicopedagogia, em Porto Alegre.
Em 1979, havia sido criado o curso de formação clínica e institucional de Psicopedagogia no Instituto Sedes Sapientiae, em São Paulo, a partir de um grupo de educadores, pedagogos e psicólogos. Segundo Fagali (2007), esses fundadores do curso tinham em comum “uma visão integrada da pessoa que aprende e que orienta a aprendizagem, considerando os aspectos afetivos, psicomotores, cognitivos e sociais, atentas às necessidades educacionais da realidade brasileira, com especial atenção às populações de baixa renda” (p. 22).
A autora enfatiza que, apesar de se identificarem em relação às abordagens assinaladas, estes profissionais se complementavam em relação às suas especializações e atuações específicas na educação e no espaço clínico. De acordo com ela, “seus interesses, abordagens e atuações correspondiam às metas do Instituto que tem como prioridade o apoio e a prestação de serviços educacionais e sociopsicológicos à população de baixa renda (idem).
A partir dos Encontros de Psicopedagogia, promovidos inicialmente pela Associação Estadual de Psicopedagogos de São Paulo e em intercâmbio com os grupos de estados como o Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Paraná e Minas Gerais, gerando troca de experiência, enriquecimento das discussões da área no país e, principalmente, como destacam Scoz e Barone (2007, p. 93) “sedimentação do sentimento de uma identidade profissional apesar das diferenças”. Destacam, ainda, que também eram chamados a “responder anseios de outros colegas que isoladamente trabalhavam na área”.
Segundo as autoras, é possível se dizer que a história da Associação Brasileira de Psicopedagogia (ABPp) tem acompanhado a evolução histórica da Psicopedagogia no Brasil. Ambas assumiram um “compromisso social com a redução dos altos índices de fracasso escolar e, além disso, com uma concepção dos processos e dos problemas de aprendizagem” (idem).
Do encontro da Associação dos Psicopedagogos de São Paulo, em 1980, começou a se constituir a ABPp. De acordo com Scoz e Barone (2007, p. 93), a entidade nacional e as suas seções estaduais surgiram (inicialmente em estados como Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná) como resultado da mobilização “ pela crescente demanda de alunos com dificuldades de aprendizagens e observando a carência de um profissional que pudesse estar à frente a esta demanda”.
A conjuntura educacional demandou a criação de novos cursos na área, cuja oferta, em geral, se verificou no campo das instituições privadas de ensino, com forte crescimento no Brasil na década de 1990 e anos 2000, resultante das novas diretrizes formativas previstas na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) e das políticas governamentais. Para Borges e Ribeiro (2019), a expansão da educação superior no Brasil teria ocorrido no limite entre a democratização do acesso e a massificação2. A formação em Psicopedagogia ocorreria, especialmente, no nível da especialização. Muitos cursos de graduação foram criados, mas, no geral, não obtiveram longevidade, especialmente os ofertados na modalidade presencial. A maioria dos atuais graduandos neste campo do conhecimento estão vinculados a instituições que ofertam ensino à distância.
A educação inclusiva, por sua vez, tem sido reafirmada em importantes documentos internacionais, a exemplo da Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948), da Declaração dos Direitos da Criança (1959), a Convenção dos Direitos da Criança (1988), da Declaração Mundial de Educação para Todos (1991) e a Declaração de Salamanca (1994).
É nos anos 1990 que o debate pedagógico se desloca do “ensino-aprendizagem” para o aprender, com ênfase no desenvolvimento de habilidades e competências por parte dos alunos. Emerge aí a chamada “ideologia da aprendizagem”3. Segundo Carneiro (2019, p. 45), “a aprendizagem se ‘sacraliza’ e tudo passa a girar ao seu redor”, criando um clima favorável à emersão de campos do conhecimento como a Psicopedagogia.
A Psicopedagogia chega ao Nordeste
Os anos 1990 foram de grande expansão da educação superior nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. A Psicopedagogia acompanha a tendência de crescimento desta etapa da educação brasileira, especialmente, pela via das instituições privadas. Junto com os cursos de especialização na área, houve uma expansão da ABPp, com a criação de diversos grupos de estudos e núcleo em outros estados, fora do eixo Sudeste - Sul.
No Ceará, ainda em 1989, ocorre a fundação do capítulo cearense da ABPp, por iniciativa de Cleomar Landin de Oliveira, psicopedagoga pioneira no estado. A secção da entidade no Ceará tornar-se-ia uma das mais atuantes, em níveis local e regional. Dentre as diversas iniciativas de maior repercussão desenvolvidas pela ABPP naquele estado, ganhou destaque o projeto Lumiar, de atendimento psicopedagógico, em 2003, de cunho social e que contribui com a formação continuada de psicopedagogos naquele estado (Barone et al., 2020, p. 58).
Na Bahia, os primeiros sinais da Psicopedagogia são de 1964, época da fundação do Instituto Psicopedagógico daquele estado, pelo médico psiquiatra e filósofo Luiz Fernando de Matos Pinto, mas, é somente em 1994 que é criado o Núcleo Bahia de Psicopedagogia, coordenado por Teresa Marinho e Ana Maria Galvão, então diretoras do Centro de Terapias Integrativas (CETIS). Em 1996, é realizado o 1° Encontro de Psicopedagogia da Bahia (Idem).
Em Pernambuco, a psicopedagoga Graça Griz foi uma das pioneiras, liderando os primeiros grupos de estudo naquele estado. Em 1998, foi consolidada a criação do Núcleo da ABPp - Recife. Este núcleo promoveu eventos científicos e estudos sistemáticos sobre questões da aprendizagem. Em 2012, Recife sediou o I Encontro de Psicopedagogia de Pernambuco (Idem). Segundo pudemos ouvir em alguns depoimentos durante a pesquisa, várias profissionais da Paraíba foram fazer especialização em Psicopedagogia clínica ou institucional, em Pernambuco, antes de serem criados cursos semelhantes, no estado, pela proximidade geográfica.
O Rio Grande do Norte e o Piauí também foram unidades da federação em que ocorreu uma significativa expansão da Psicopedagogia nesta época.
A Psicopedagogia na Paraíba
Tomamos por base o Relatório da Pesquisa Memória da Psicopedagogia na Paraíba (Dantas, 2023), desenvolvido pelos que assinam este trabalho, no âmbito do Programa de Bolsas de Iniciação Científica – PIBIC, desenvolvido pela Pró-Reitoria de Pesquisa – PROPESQ da Universidade Federal da Paraíba – UFPB.
Os primeiros registros da prática psicopedagógica de que tivemos notícias no estado da Paraíba têm origem no movimento de educação popular, liderado pelo educador Paulo Freire. Ele veio participar, em 1963, de um curso em João Pessoa para difundir seu método de alfabetização e impulsionar a Campanha de Educação Popular da Paraíba (CEPLAR), uma entidade não governamental dedicada à educação de jovens e adultos na Paraíba, em parceria com o governo da Paraíba.
Neste evento, era parte da programação, segundo os registros da CEPLAR, a busca pelo estudo da Psicopedagogia (Porto & Lage, 1995, p. 77). Na abordagem freireana, a aprendizagem não se produz de forma unidirecional (do ensinante para o aprendente) e, sim, numa relação dialógica, entre sujeitos que ensinam e aprendem dialogicamente, numa relação de troca. Segundo Freire (2014, p. 95), “ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo”.
O processo educativo é, na essência, uma relação entre um sujeito que ensina, outro que aprende e um conteúdo estudado. A abordagem psicopedagógica situa-se no contexto de promover uma reflexão em torno da realidade do público a alfabetizar e a atitude do coordenador da ação (e dos alfabetizadores) frente ao grupo. Caberá futuramente uma pesquisa sobre a contribuição da Psicopedagogia para a educação popular, em especial no Nordeste.
As primeiras profissionais
As primeiras profissionais da Psicopedagogia da Paraíba foram formadas em São Paulo nos anos 1980, onde se concentravam os cursos de especialização na área, à época. Foi o caso, por exemplo, de Eliane Dutra Fernandes, pedagoga formada pela UFPB, com atuação na Secretaria Estadual da Educação e Cultura do estado, no setor de Ensino Supletivo (hoje EJA – Educação de Jovens e Adultos). Ela aparece como a primeira psicopedagoga paraibana (Dantas et al., 2021, p. 32). Eliane formou-se em Psicopedagogia pela Universidade São Judas Tadeu, na capital paulista, como foco na área institucional.
De acordo com ela, o currículo do curso era composto das disciplinas: Estrutura e Funcionamento do Ensino Brasileiro, Didática do Ensino Superior, Prática do Magistério I, Diagnóstico Psicopedagógico, Métodos e Técnicas de Pesquisa, Psicopedagogia e Relações Humanas, Laboratório de Sensibilidade, Filosofia da Educação, Psicologia Educacional, Currículos e Programas, Psicologia de Excepcionais e Psicopatologia, como opcionais. Cada disciplina exigia a apresentação de trabalhos ao final. Era exigência também a realização da prática com o estudo de um caso, com as características de dificuldades de aprendizagem.
Tempos depois, ela completou sua formação na área clínica pelo Centro Integrado de Tecnologia e Pesquisa (CINTEP), em terras paraibanas, e concentrou sua atuação na Secretaria de Estado da Educação (SEE), da Fundação Centro Integrado de Apoio ao Portador de Deficiência (FUNAD). A FUNAD é um órgão do governo do estado, referência no Serviço de Habilitação e Reabilitação nas quatro áreas da deficiência (física, intelectual, visual e auditiva), em toda a Paraíba, onde as pessoas com deficiência são atendidas por uma equipe multidisciplinar e que implementa políticas públicas de saúde e educação inclusiva.
Quem também se formou em psicopedagogia em São Paulo, na mesma época, em 1989, foi Jani-ne Marta Coelho Rodrigues, atualmente docente aposentada do Centro de Educação da UFPB. Ela fez um curso de Psicopedagogia na Faculdade Santa Joana, na capital paulista. Janine foi a primeira coordenadora do curso de graduação na UFPB e uma das primeiras profissionais a enveredar pelo caminho da Psicopedagogia hospitalar no estado, com um projeto no Hospital Universitário da UFPB.
CINTEP: o primeiro curso
O primeiro curso de Psicopedagogia no estado da Paraíba foi criado em 2002 pela empresa Mendonça Consultoria, em João Pessoa, e teve o formato de especialização. A empresa mudaria seu nome no ano seguinte para Centro Integrado de Tecnologia e Pesquisa (CINTEP). Inicialmente, a instituição era destinada à formação inicial e continuada de professores da educação básica e do Ensino Superior. Depois, enveredou pela pós-graduação latu sensu (especializações) em diversas áreas do conhecimento.
Inicialmente, a instituição concentrou suas turmas no âmbito psicopedagógico institucional, com foco na escola. A grade de componentes curriculares que o curso oferecia era composta por Psicopedagogia I e II, Tópicos Especiais em Psicopedagogia, Metodologia da Pesquisa, Desenvolvimento Cognitivo e Linguagem, Avaliação e Intervenção Psicopedagógica, Psicopedagogia e Relações Interpessoais e Ética na Psicopedagogia.
No ano de 2008, o CINTEP criou um curso de especialização na área clínica. Neste mesmo ano, foi instalada uma Clínica-Escola na mesma instituição. Esta se constituiu como um espaço de estágio dos estudantes de Psicopedagogia, com o papel de os colocar para atender crianças e adultos que enfrentam problemas de aprendizagem.
Neste mesmo ano, o CINTEP realizou um importante evento: O I Congresso Paraibano de Psicopedagogia, ocorrido em 25, 26 e 27 de setembro, na Estação Cabo Branco, em João Pessoa. O encontro contou com a presença de figuras importantes como as renomadas psicopedagogas Nádia Bossa e Quezia Bombonato. O seu tema foi “Caminhos para uma educação Interdisciplinar”. O Congresso teve conteúdo acadêmico e constou da realização de palestras, mesas-redondas, oficinas e apresentação de trabalhos.
Bossa e Bombonato permaneceram, em João Pessoa, por cerca de uma semana, para participar de reuniões com uma equipe do Centro de Educação da UFPB, a fim de tratar da elaboração do anteprojeto de criação de um curso de bacharelado em Psicopedagogia na UFPB.
Atualmente, o CINTEP oferece também cursos de especialização em Psicopedagogia hospitalar e na área de neuropsicopedagogia. Outras instituições que chegaram a oferecer ou ofertam, com menos regularidade, cursos de pós-graduação em Psicopedagogia no estado foram o Centro Universitário de Patos, anteriormente Faculdades Integradas de Patos (FIP) (atualmente UNIFIP), com turmas em Patos e Campina Grande, e o Centro Universitário de João Pessoa (UNIPÊ).
A graduação na UFPB
Em 2008, houve o surgimento do REUNI - Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais4, um programa instituído pelo Governo Federal. O Reuni tinha por objetivo ampliar o acesso e a permanência nas universidades federais (que sofriam com o problema da evasão) e, neste contexto, houve a criação do curso de graduação em Psicopedagogia na UFPB, como parte do Centro de Educação (CE), dentre outros.
O novo curso foi criado, não sem objeções, no âmbito interno do CE e fora dele. No decorrer da tramitação do projeto, insatisfações surgiram e o debate foi intenso, envolvendo diversos departamentos e órgãos colegiados da universidade, uns a favor e outros contrários à sua criação.
O curso foi instalado de acordo com a resolução n. 02A/2009 do Conselho Superior de Ensino, Pesquisa e Extensão (CONSEPE), considerando “a necessidade de capacitação de profissionais na área de psicopedagogia para atuar nos campos de trabalho emergentes”, com uma carga horária de 2.160 horas, 144 créditos, distribuídos em sete semestres letivos, e seu perfil profissiográfico inicial é a formação do psicopedagogo para atuar no campo institucional, prevista em seu primeiro Projeto Pedagógico de Curso (PPC).
Após a aprovação pelo CONSEPE, foram abertos concursos públicos para contratar docentes de todos os componentes curriculares a serem oferecidos. O reitor da UFPB, Rômulo Polari, designou as professoras Janine Rodrigues e Carmen Queiroz como as responsáveis pela instalação do novo curso. Na ocasião, elas realizaram visitas a diversas escolas de Ensino Médio e cursinhos da capital paraibana, apresentando a nova graduação, fator esse que, acredita-se, tenha sido um dos motivos de um grande número de inscrições para a primeira turma.
No ano de 2010, houve a primeira modificação no PPC. Neste momento, além dos alunos oriundos da Paraíba, passaram a procurá-lo interessados de várias regiões do Brasil. O curso, que durava três anos, aumentou para três anos e meio. Na primeira avaliação do MEC, o curso teve nota 4,0, mantendo esta nota posteriormente. No ano de 2022, se iniciou uma nova reforma curricular, ainda em fase de implantação, em que aumentou seu tempo de duração para quatro anos.
Os primeiros trabalhos de conclusão de curso produzidos pelos alunos versavam, principalmente, sobre as seguintes áreas: intervenção psicopedagógica, comportamento, ludicidade, aprendizagem, assessoramento psicopedagógico e construção da leitura e da escrita. Os objetos contemplados nos TCC demonstram a ênfase dada durante a formação do psicopedagogo, o que fortalece a formação dos profissionais. Com o tempo, houve uma maior diversidade dos temas dos TCC (Dantas et al., 2021, p. 47).
A clínica-escola de Psicopedagogia da UFPB foi criada no ano de 2011, inicialmente funcionando, de forma improvisada, em uma sala de aula do bloco do REUNI, no Centro de Educação (CE). No ano de 2016 foi transferida para um local destinado exclusivamente com essa finalidade, localizado no Centro de João Pessoa, pertencente à UFPB. Em 2022, a clínica-escola voltou a se instalar no campus universitário, onde se encontra funcionando atualmente.
Por se constituir em um serviço gratuito à população, a clínica-escola possui importante função social, visto que proporciona um serviço pioneiro e é a primeira clínica psicopedagógica pública e gratuita dentre as capitais dos estados, beneficiando estudantes de famílias pobres. Assim, “A instalação do serviço vem suprir uma deficiência do sistema educacional quanto ao acompanhamento das crianças com dificuldades e distúrbios de aprendizagem nos marcos da educação inclusiva” (Dantas et al., 2021, p. 75).
A pesquisa e a extensão no curso de Psicopedagogia na UFPB
O curso da UFPB, além de formar alunos no nível da graduação, desenvolve atividades de pesquisa e extensão universitária. Estas são um diferencial importante na formação, pois se constitui em experiências formativas que vão além da sala de aula.
A graduação curso conta atualmente com diversos núcleos, grupos, tais como o Núcleo de Pesquisas e Estudos sobre a Criança (NUPEC), Núcleo de Estudos do Desenvolvimento Humano, Educacional e Social (NEDHES), o Núcleo de Estudos em Saúde Mental, Educação e Psicometria (NESMEP) e o Grupo de Estudos em Processos de Aprendizagem e Diversidade (GEPAD).
A pós-graduação
Uma das limitações da formação em Psicopedagogia na UFPB é se concentrar na graduação. Um dos desafios do curso, inclusive, é avançar rumo à pós-graduação. E por que isto seria tão desafiador? Segundo Dantas et al. (2021, p. 92),
Por dois motivos principais: a) semestralmente, são formadas dezenas de novos profissionais, cuja necessidade de formação continuada é real, já que o mercado de trabalho é sobremaneira competitivo; b) como único curso de graduação instalado numa universidade pública federal (cujo modelo se assenta na indissociabilidade entre ensino e pesquisa), está condenado a ser um polo de produção de novos conhecimentos na área.
Em 2011, o Departamento de Psicopedagogia apresentou à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) o projeto de criação do Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Processos de Aprendizagem (PIPA): conexões biopsicossociais. O projeto, inicialmente com nível de mestrado e de caráter profissional, foi apresentado à área interdisciplinar, tendo como área de concentração “Aprendizagem e suas conexões biopsicossociais”, e duas linhas de pesquisa: Avaliação, intervenção e prevenção nos processos de aprendizagem e Aprendizagem e Aprendizagem Sociocultural. O projeto, apesar de bem avaliado, não conseguiu atender às exigências da CAPES à época (Dantas et al., 2021, p. 92).
A ABPp na Paraíba
A ABPp Paraíba surgiu através de um grupo de estudos em 2013 em João Pessoa. As reuniões aconteciam mensalmente em uma instituição privada no bairro de Miramar. Inicialmente, o grupo contava com dez psicopedagogos empenhados nos estudos e aprofundamento na área da Psicopedagogia. Em 2015, segundo Barone et al. (2020, p. 95), o Grupo de Estudos foi formalizado junto ao Conselho Nacional da ABPp com 40 associados.
A deliberação de abertura do Núcleo da ABPp Paraíba em João Pessoa ocorreu em 1° de junho de 2016, através da nomeação pelo Conselho Nacional da ABPp. A gestão do primeiro triênio 2016-2019 teve Suely Fermon de Morais Oliveira como presidente.
O crescimento do Núcleo da ABPP é efetivo, o que leva os membros de sua equipe diretiva a almejarem sua transformação em secção, segundo Barone et al. (2020, p. 95), a fim de dar mais visibilidade regional à formação e atuação dos psicope-dagogos paraibanos.
Os primeiros encontros de Psicopedagogia na PB
Em 2016, numa iniciativa do Grupo de Estudos da ABPp-PB, com o apoio da Coordenação do Curso de Graduação em Psicopedagogia da UFPB, aconteceu o I encontro de Psicopedagogia da Paraíba, com o tema central “Diálogos em psicopedagogia: sobre a aprendizagem no século XXI” na UFPB. A abertura do evento aconteceu com a conferência “O exercício da psicopedagogia no século XXI: Atuação e Profissionalização”, proferida pela psicopedagoga Luciana Barros de Almeida, presidente nacional da ABPp na época. Além disso, outras atividades aconteceram como palestras, apresentação de trabalhos e oficinas.
Desde a realização deste primeiro evento, os encontros de Psicopedagogia da Paraíba têm se constituído em um espaço de discussão, reflexão e trocas de experiências entre os profissionais da área e estudantes, em torno das questões relacionadas à aprendizagem e ao fazer psicopedagógico. Em 2017, foi realizado o II Encontro Estadual de Psicopedagogia da Paraíba, no campus do Centro Universitário de João Pessoa (UNIPÊ), em João Pessoa. Um tema recorrente nestes encontros é o debate em torno da regulamentação profissional.
No ano de 2023 aconteceu um evento online em comemoração aos 10 anos da ABPp na Paraíba, em concomitante com o IV Encontro de Psicopedagogia da Paraíba, com o tema “10 anos da ABPp na Paraíba: contextos, avanços e novas perspectivas psicopedagógicas”. A atividade contou com a participação da presidente da ABPP Nacional e do seu Conselho Nacional, Maria Irene Siqueira Castanho.
Além dos encontros, o núcleo, desde a sua implantação na Paraíba sempre apresentou agendas de formação, de regularidade semestral, oferecendo minicursos, palestras e oficinas, trazendo sempre importantes professores e profissionais da área de estudos. Também, tradicionalmente, tem promovido eventos que acontecem anualmente, como o Café em homenagem ao Dia do Psicopedagogo, que ocorre no dia 12 de novembro.
Nos anos da pandemia de COVID-19 a entidade passou a oferecer todos os seus minicursos e eventos de forma online, viabilizando o contato e a continuidade do ensino com seus associados e público externo em alguns encontros virtuais e “lives”.
Discussão
A pesquisa “História da Psicopedagogia na Paraíba” é um trabalho desafiador na medida em que possui um caráter pioneiro e se caracteriza como uma pesquisa de história do tempo presente, na qual o olhar histórico deve se dar sobre fatos recentemente ocorridos.
Seu caráter pioneiro trouxe consigo um conjunto de dificuldades na coleta de dados, visto que a ausência de produção que antecede este trabalho restringe a pesquisa inicial. O uso do método oral, em um primeiro momento, contribuiu para suprir a deficiência das fontes e ajudou a traçar caminhos para o trabalho dos pesquisadores envolvidos. Um elemento negativo da tentativa de coleta de dados foi a indisposição de algumas faculdades privadas em colaborar com a investigação, manifesta em negativas no fornecimento de informações ou em sucessivos adiamentos de encontros para entrevistas que nunca aconteciam.
Apesar dos obstáculos encontrados, é possível concluir que os objetivos principais da pesquisa foram atingidos. Os dados coletados permitem a construção de uma narrativa dos primeiros caminhos da Psicopedagogia na Paraíba. Muitas informações foram localizadas ou checadas com o uso das fontes digitais, especialmente, das redes sociais, onde foram encontradas muitas informações e imagens úteis à investigação. Por se tratar da construção de uma história do tempo presente, estamos longe de redigir uma narrativa definitiva acerca dos primórdios desta história, visto que várias outras versões ainda deverão ser produzidas, a partir de outros olhares.
A chegada da Psicopedagogia na Paraíba tem um potencial grande no sentido de contribuir com o avanço da educação no estado. A criação de cursos voltados a estudar a temática da aprendizagem, com a formação de centenas de especialistas e graduandos, constitui um importante capital humano a ser aproveitado por instituições públicas e privadas. Da mesma maneira, os resultados das pesquisas, projetos de ensino e extensão produzidos no âmbito da graduação da UFPB constituem-se em interessantes experiências a serem socializadas entre profissionais, pesquisadores e gestores.
Torna-se bastante importante uma maior aproximação entre a Psicopedagogia e a comunidade que dela participa, no sentido de um diálogo maior entre quem produz todo um conhecimento sobre aprendizagem e a comunidade educacional, em especial o poder público, os gestores e os profissionais que atuam na ponta do processo educativo.
Uma preocupação reside na pouquíssima disponibilidade de assessoria psicopedagógica aos discentes da rede pública básica, em especial, das escolas municipais e estaduais, responsáveis pela escolarização da maioria de nossas crianças e jovens, principalmente no interior, na periferia das maiores cidades e na zona rural. Da mesma forma, são poucos os escolares com acesso à atendimento clínico na área.
Uma das demandas que se apresentam também é a necessidade de se avançar na criação de cursos de pós-graduação stricto sensu (mestrado e doutorado), a fim de se investir na produção de pesquisas, dissertações e tese que aprofundem o conhecimento sobre os potenciais de aprendizagem, o fracasso escolar e temas como a inclusão/exclusão na escola e da diversidade na educação e outros, recorrentes no campo da Psicopedagogia.
Considerações
Resgatar a trajetória da Psicopedagogia na Paraíba tem sido importante, na medida em que contribui para enriquecer a história da educação no estado e revisitar a ação de muitos profissionais (homens e mulheres) que, movidos por sonhos, muito fizeram para desenvolver experiências de ensinar-aprender, sob novos olhares e novas abordagens, muito além dos modelos educativos tradicionais.
É fundamental que as instituições educativas (públicas e privadas), bem como o poder público, possam incorporar o conhecimento produzido por profissionais, estudantes e pesquisadores da Psicopedagogia como uma ferramenta para ajudar a reverter os problemas educacionais que afetam o estado.
Será importante a continuidade desta pesquisa, a fim de se reconstruir a trajetória da Psicopedagogia no estado, sob novos enfoques, a exemplo da Psicopedagogia clínica e institucional, áreas da atuação profissional que deverão ter sua história reconstituída nas próximas duas etapas da investigação, na perspectiva de se resgatar suas contribuições e vicissitudes no enfrentamento da problemática educacional paraibana, com foco no processo de aprendizagem.













