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Nova Perspectiva Sistêmica

versão impressa ISSN 0104-7841versão On-line ISSN 2594-4363

Nova perspect. sist. vol.33 no.80 São Paulo  2024  Epub 21-Nov-2025

https://doi.org/10.38034/nps.v33i80.739 

Artigo

O papel das avós no sistema de relações familiares: estudo qualitativo transcultural Portugal - Brasil

The role of grandmothers in the family relationship system: a qualitative transcultural study, Portugal - Brazil

El papel de las abuelas en el sistema de relaciones familiares: un estudio cualitativo transcultural Portugal - Brasil

Carolina Brito Schutel Lacerda1 

Carolina Brito Schutel Lacerda

Psicóloga. Especialista em Psicologia Clínica. Mestrado em Psicologia Clínica e da Saúde, Universidade da Beira Interior, Portugal.


http://orcid.org/0009-0001-7593-425X

Liliana Sousa2 

Liliana Sousa

Psicóloga. Terapeuta Familiar. Professora Catedrática do Departamento de Educação e Psico-logia na Universidade de Aveiro, Portugal. Investigadora integrada do CINTESIS@Rise, Center for Health Technology and Services Research, University of Aveiro, Portugal.


http://orcid.org/0000-0003-3491-7119

Rosa Marina Afonso1 

Rosa Marina Afonso

Psicóloga. Professora Associada do Departamento de Psicologia e Educação da Universidade da Beira Interior, Portugal. Investigadora integrada do CINTESIS@RISE.


http://orcid.org/0000-0003-2111-6873

1 Universidade da Beira Interior, Covilhã, Portugal.

2 Universidade de Aveiro, Aveiro, Portugal.


Resumo:

As relações entre avós e netos ganham importância em termos psicológicos, pois promovem a proteção da saúde mental dos mais velhos e dos mais jovens. As relações intergeracionais entre avós e netos têm colocado as avós como fontes de suporte emocional e cuidado aos netos, e como transmissoras de legados e histórias familiares. Este estudo qualitativo pretende analisar a percepção das avós sobre o seu papel junto dos netos, comparando avós portuguesas e brasileiras. Participaram no estudo 12 avós, 6 brasileiras e 6 portuguesas. Utilizou-se a entrevista semiestruturada, que foi submetida a análise de conteúdo. Os principais resultados sugerem que a experiência em ser avó é semelhante em Portugal e no Brasil, destacando-se a presença de sensações emocionais positivas e alterações na relação com os filhos, como a preocupação em não interferir na educação dos netos.

Palavras chave: avós; relações familiares; envelhecimento

Resumen:

Las relaciones entre abuelos y nietos son importantes en términos psicológicos, ya que promueven la protección de la salud mental de personas mayores y jóvenes. Las relaciones intergeneracionales entre abuelos y nietos han posicionado a las abuelas como fuentes de apoyo emocional y cuidado de los nietos, y como transmisoras de legados e historias familiares. Este studio cualitativo tiene como objetivo analizar la percepción de las abuelas sobre su papel con sus nietos, comparando abuelas portuguesas y brasileñas. Participaron del estudio 12 abuelas, 6 brasileñas y 6 portuguesas, participaron del estudio. Se utilizó una entrevista semiestructurada, la cual fue sometida a análisis de contenido. Los principales resultados sugieren que la experiencia de ser abuela es similar en Portugal y Brasil, destacando la presencia de sensaciones emocionales positivas y cambios en la relación con los hijos, como la preocupación por no interferir en la educación de los nietos.

Palavras clave: abuelos; relaciones familiares; envejecimiento

Abstract:

Relationships between grandparents and grandchildren are becoming increasingly important in psychological terms, as they priomote the protection of the mental health of both the elderly and the young. Intergenerational relationships between grandparents and grandchildren have placed grandmothers as sources of emotional support and care for their grandchildren, and as transmitters of family legacy and stories. This qualitative study aims to analyze grandmother’s perception of their role with their grandchildren, comparing Portuguese and Brazilian grandmothers. Twelve grandmothers participated in the study, six Brazilian and six Portuguese. A semi-structured interview was used, which was submitted to content analysis. The main results suggest that the experience of being a grandmother is similar in Portugal and Brazil, highlighting the presence of positive emotional feelings, and changes in the relationship with children, such as the concern about not interfering in the education of grandchildren.

Keywords: grandparents; family relationships; aging

Introdução

As melhorias globais nas condições de vida, o avanço na medicina e saúde pública e o desenvolvimento de novas tecnologias permitem que as pessoas vivam mais tempo e melhor (Santos, Moreira e Cerveny, 2014). Esse prolongamento da vida associa-se a relações familiares mais longas, que prolongam alguns papéis (como as relações filiais) e torna possível e cada vez mais comum outras relações familiares (por exemplo, bisavós e bisnetos). Uma das relações familiares que mais se tem prolongado é entre netos e avós, pois os avós vivem mais tempo para conviver com os netos, inclusive quando estes se tornam adultos (Esperança, Leite e Gonçalves, 2013; Osuna, 2006;).

O envelhecimento populacional no Brasil começou nos anos 1970, quando a sociedade foi se transformando, deixando de ser maioritariamente jovem, passando a ter cada vez mais um número expressivo de pessoas acima dos 60 anos (Miranda, Mendes e Silva, 2016). Em Portugal, esse cenário acentuou-se uma década antes, nos anos 1960 (Mota-Pinto, 2006). A expectativa de vida no Brasil para as mulheres é de 79,9 anos de idade e, para os homens, de 72,8 anos (IBGE, 2019); em Portugal, para as mulheres é de 83,41 e para os homens de 77,74 anos (INE, 2018). Por outro lado, a taxa de natalidade em Portugal é 8,4% (PORDATA, 2017) e no Brasil de 14,16% (IBGE, 2015). Assim, Portugal é uma sociedade mais envelhecida que o Brasil.

Esses dois países lusófonos que se cruzaram na história ao criar um passado comum (Zequinão, Medeiros, Lise, Trevisol e Pereira, 2019), têm semelhanças, por exemplo, em torno da predominância da religião católica (Silva, Gomes e Correia, 2009); porém, têm também grandes diferenças sobre questões psicossociais, demográficas, econômicas, culturais e políticas (Zequinão et al., 2019), com implicações nas dinâmicas dos sistemas familiares. Tanto em Portugal como no Brasil, o tema do envelhecimento e famílias ganha destaque, sendo os sistemas familiares considerados fontes de apoio instrumental e emocional que podem minimizar as vulnerabilidades e que estão a sofrer alterações relacionadas com o processo de envelhecimento individual e coletivo (Figueiredo, Silva & Oliveira, 2011; Mioto, 2008).

O papel dos avós tem como característica geral dar amor, carinho, proteção, suporte emocional, bem como transmitir histórias e legados familiares (García e Vega, 2013). Os avós fazem parte do desenvolvimento das crianças, atuando como modelos de referência, sendo por norma a seguir dos pais, as figuras de destaque no processo educacional e social (Esperança et al., 2013; Martínez, Díaz e Soler, 2019). Contudo, também é relatado que alguns avós interferem na forma como seus filhos decidem educar, afetando o sentimento de autonomia e responsabilidade parental e podendo até mesmo afetar o relacionamento conjugal dos pais dos seus netos. No entanto, também há avós que assumem o papel de mediadores nos conflitos que surgem no exercício da parentalidade dos filhos (Osuna, 2006; Zanatta e Arpini, 2017).

A forma como os avós atuam nas famílias foi se modificando e ampliando ao longo do tempo por causa de inúmeros fatores, nomeadamente, a entrada da mulher no mercado de trabalho, o aumento da expectativa de vida e o surgimento de novas configurações familiares (Osuna, 2006; Viguer, Meléndez, Valencia, Cantero e Navarro, 2010; Zanatta e Arpini, 2017). A convivência de múltiplas gerações durante mais tempo numa família pode fazer emergir conflitos advindos das diferenças geracionais (Marques, Gomes, Oliveira e Silva, 2019). Ou seja, as famílias têm de se adaptar ao envelhecimento (Becker e Falcão, 2016).

Um dos papéis dos avós é cuidar dos netos, o que pode gerar nos avós um efeito positivo no aumento da autoestima e qualidade de vida (Esperança et al., 2013), perspectiva de futuro, otimismo e satisfação (Wang, Cheng, Guo e Xu, 2019), além de maior participação e integração na vida social (Arpino e Bordone, 2014). Contudo, cuidar dos netos também pode gerar situações de estresse, restrição de tempo e problemas de saúde mental, tendo um impacto negativo na saúde dos avós (Wang et al., 2019), como com o aumento da probabilidade de depressão (Brunello e Rocco, 2016). A designação de “abuelos esclavos” (Guijarro, 2001) traduz um sentimento ambíguo de, por um lado, os avós se sentirem satisfeitos e felizes por cuidar dos netos e apoiar os filhos, mas, por outro, podem sentir-se cansados de suas atribuições como cuidadores e, algumas vezes, até mesmo explorados. Essa situação poderá diminuir a qualidade de vida e também falta de tempo para atividades de lazer (Meil e Rogero-García, 2014; Neuberger e Haberkern, 2014; Puig, Extremiana, Signes e Luz, 2015; Triadó et al., 2008; Triadó, Villar, Celdrán e Solé, 2014).

O objetivo deste estudo é analisar a percepção das avós sobre o seu papel junto dos netos, comparando avós portuguesas e brasileiras. Nesse sentido, é descrita a percepção das avós sobre o seu papel junto dos netos e a percepção das avós sobre a sua relação com filhos/filhas e genros/noras.

Método

Trata-se de um estudo qualitativo e exploratório que pretende captar percepções e significados da experiência de ser avó. Essa investigação está pautada por uma abordagem comparativa e transcultural para se perceber como ocorrem os fenômenos nas culturas portuguesa e brasileira, permitindo a reflexão sobre a influência dos contextos no desenvolvimento humano.

Participantes

O recrutamento das participantes ocorreu por conveniência e através do contato informal. Foram definidos os seguintes critérios de inclusão: (1) avós com idade igual ou superior a 65 anos; (2) residir na comunidade; (3) não apresentar evidências de défict cognitivo; (4) estar orientada no tempo e espaço; e (5) ter sido avó pela primeira vez há pelo menos 5 anos. O número de participantes foi obtido através da saturação dos dados (Vasileiou, Barnett, Thorpe e Young, 2018). As entrevistas foram realizadas na cidade de Covilhã, região central de Portugal e na cidade de Florianópolis, estado de Santa Catarina, região Sul do Brasil, entre dezembro de 2019 e janeiro de 2020.

Neste estudo participaram 12 avós (6 portuguesas e 6 brasileiras). A idade das avós portuguesas varia entre 68 e 83 anos, e as avós brasileiras compreendem idades entre 67 e 82 anos. Dentre as avós portuguesas, duas são viúvas, uma divorciada e as demais, casadas. As brasileiras são casadas, sendo apenas uma viúva. Conforme demonstrado na Tabela 1.

Tabela 1 Características sócio demográficas das participantes 

Nacionalidade Idade Escolaridade Estado civil Filhos: (nº: idade;) Netos: (nº: idade;)
PT1 74 Ensino superior Viúva 3: 44; 42; 36 2: 7; 6 meses
PT2 72 Ensino superior Casada 2: 45; 42 5: 17; 14; 8; 7; 4
PT3 76 9º ano Casada 2: 52; 44 2: 18; 4
PT4 83 Ensino superior Viúva 3: 58; 56; 46 5: 34; 30; 20; 13; 13
PT5 68 12º ano Divorciada 3: 42; 40; 37 3: 8; 5; 2
PT6 71 9º ano Casada 3: 46; 41; 33 4: 15; 12; 6; 2
BR1 67 Ensino superior Casada 2: 44; 41 4: 18; 14; 14; 10
BR2 82 Ensino superior Casada 3: 55; 53; 44 2: 15; 11
BR3 82 9º ano Casada 5: 60; 59; 58; 55; 52 9: 35; 29; 29; 27; 25; 15; 14; 12; 11
BR4 74 Ensino superior Casada 2: 46; 43 3: 15; 13; 4
BR5 74 12º ano Casada 3: 48; 45; 37 5: 18; 14; 5; 3; 3
BR6 82 12º ano Viúva 4: 57; 56; 55; 44 9: 32; 30; 30; 25; 24; 18; 16; 5; 4

Fonte: Desenvolvido pelas autoras.

Quanto ao contato com os netos, quatro avós portuguesas (PT1, PT2, PT5, PT6) afirmaram que veem os netos todos os dias. O mesmo só ocorre para uma avó brasileira (BR2). As demais avós do Brasil (BR1, BR3, BR34, BR5, BR6) disseram que o contato com os netos ocorre semanalmente, na mesma frequência que duas avós portuguesas (PT3, PT4). E apenas avós de Portugal destacaram que têm netos que vivem longe e que os contatos ocorrem mais nas férias ou por meios virtuais (PT2, PT5, PT6).

Instrumento

A coleta de dados foi feita através de entrevista semiestruturada, com um guião elaborado com base na revisão de literatura (e.g. Becker e Falcão, 2016; Silva et al., 2015; Osuna, 2006), que permitiu a identificação dos tópicos considerados importantes relativamente à relação das avós com os netos e filhos/as e genros/noras. O guião, apresentado na Tabela 2, foi aplicado com adaptações linguísticas em Portugal e no Brasil. Foram recolhidas informações sociodemográficas (idades, escolaridade, estado civil, número e idades de filhos e netos) e frequência de contato com os netos.

Tabela 2 Guião de Entrevista 

Percepção das avós sobre o seu papel junto dos netos
1. O que é ser avó para você?
2. Como é sua relação com seus netos? O que faz com seus netos?
3. Que impacto tem na sua vida ser avó? E na sua saúde?
4. Percebe alguma diferença no relacionamento com os netos em função da idade deles?
5. Quais os ganhos/dificuldades que tem da sua relação com seus netos?
6. Em que contextos/situações sente que seus netos precisam mais de você?
Considerando a relação com filhos/as e genros/noras
1. O que percebe que mudou no seu relacionamento com seus filhos, após o nascimento dos netos?
2. Em que contextos/situações sente que seus filhos precisam mais de você?
3. Qual a função da avó na família, na sua opinião?
4. Há diferenças em ser mãe ou ser avó? Quais?
5. Como é que gere com seus filhos/filhas/genros/noras o cuidado aos netos?

Fonte: Desenvolvido pelas autoras.

Procedimentos de coleta de dados

Os procedimentos iniciaram-se com o contato de potenciais participantes, a quem foi apresentado o estudo (objetivos, metodologia e colaboração solicitada) e garantidas as questões de privacidade e sigilo ao esclarecer que as informações obtidas na entrevista tinham como único objetivo um fim científico e de pesquisa. Após tal esclarecimento, as participantes que aceitaram colaborar assinaram o Termo de Consentimento Livre e Informado. Foi feito o registro em áudio de todas as entrevistas, devidamente autorizado pelas participantes. As entrevistas ocorreram em local de escolha das participantes, por norma as suas residências e organizações onde realizavam atividades diárias, sendo um local seguro e confortável que permitiu o sigilo, bem como a liberdade das participantes para se expressar. As entrevistas duraram em média 25 minutos, tendo variado entre 13 minutos e 53 minutos.

Procedimento de análise dos dados

As entrevistas foram gravadas, transcritas e submetidas a análise de conteúdo, seguindo as indicações de Moraes (1999), que permitem descrever, organizar e interpretar o conteúdo. A análise dos dados envolveu dois juízes independentes (autoras 1 e 3) que, numa primeira fase, leram integralmente as entrevistas e procederam à criação de sub/categorias de forma independente. Depois, reuniram-se para discutir e comparar o sistema de categorização até chegarem a um consenso. Posteriormente, uma terceira juíza (autora 2) fez a triangulação da análise com o objetivo de minimizar distorções (Santos, Ribeiro, Queiroga, Silva e Ferreira, 2020). Como resultado desse processo, foram identificadas categorias, subcategorias, indicadores e unidades de sentido, descritos em forma de texto narrativo para resumir e evidenciar os significados encontrados.

Resultados

Os resultados foram organizados em duas categorias: (1) Percepção das avós sobre o seu papel junto dos netos e (2) Relação da avó com os netos considerando a interação com filhos/as e genros/noras, com subcategorias e indicadores apresentados na Tabela 3.

Tabela 3 Categorias, subcategorias e indicadores encontrados 

Categoria: Percepção das avós sobre seu papel junto dos netos
Subcategorias Indicadores
Ganhos

- Felicidade

- Orgulho

- Gratidão

- Alegria/ânimo

- Vitalidade e saúde

- Percepções positivas

Sobrecarga

- Cansaço

- Falta de tempo para si

Atividades que realiza com os netos

- Conversar

- Atividades lúdicas

- Atividades escolares

- Mimar

Dificuldades no relacionamento com os netos - Ausência de dificuldades
Categoria: Relações da avó com os netos considerando a interação com filhos/as e genros/noras
Subcategorias Indicadores
Mudanças nos relacionamentos com os filhos após nascimento dos netos

- Os filhos têm menos tempo para os seus pais (avós)

- Preocupação por não interferir na educação dos netos

- Avós como recurso de sabedoria

- Colocar-se mais à disposição

Situações em que a presença das avós é mais requisitada

- Economicamente

- Quando os pais viajam

- Situações de doença e morte

Funções da avó na família

- Dar apoio enquanto os pais trabalham

- Advertir e auxiliar na educação dos netos

- Alimentação

- Apoio logístico

- Reunir a família

- Não ser avó a tempo inteiro

Diferenças entre ser avó e ser mãe

- Educação como função dos pais

- Avós têm menos responsabilidades

- Avós estão mais disponíveis

- Avós são menos exigentes com os netos

Fonte: Desenvolvido pelas autoras.

Percepção das avós sobre o seu papel junto dos netos

Nesta categoria, foram descritas as particularidades da relação entre avós e netos segundo a percepção das avós, emergindo quatro subcategorias: ganhos, sobrecarga, atividades que realiza com os netos e dificuldades no relacionamento com os netos (Tabela 3). Quanto à subcategoria ganhos, foi mencionado o que as avós percebem que recebem das suas relações com seus netos felicidade, orgulho, gratidão, alegria/ânimo, vitalidade, saúde e emoções positivas. Todas as participantes, avós portuguesas e brasileiras, relataram que se sentem bem e felizes no seu relacionamento com seus netos. A exemplo de PT3: “Pra mim, ser avó é tão bom, tão bom, que até custa descrever” e de BR2: “Avó é a coisa mais gostosa que tem”. Todas as avós apresentaram uma percepção positiva sobre a sua relação com seus netos. Como dizem PT4, “É muito boa. A minha relação com eles é muito boa”, e BR3: “É bem boa”. Uma avó portuguesa (PT3) e duas brasileiras (BR3, BR4) demonstraram ter orgulho da sua função de avó. Como dizem PT3, “Tem até pessoas que querem que os netos lhe chamem de tia, e eu não, gosto muito da palavra avó, porque avó é única, só há uma [...]”, e BR4, “Eu conheço vó que vai dizer que não quer ser vó, eu não, eu amo ser vó”. Três avós portuguesas (PT1, PT2, PT3) e quatro avós brasileiras (BR1, BR2, BR3, BR5) destacaram sentimentos de gratidão sobre a presença dos netos nas suas vidas. Isso pode ser observado nas falas de PT3: “É um impacto muito bom muito bom. Ajuda-me a realizar-me” e de BR1: “eu só agradeço a Deus todos os dias por ter tido esses netos”. É igualmente mencionado por todas as participantes que os netos lhe trazem vitalidade e saúde. A exemplo de PT1: “Ganho juventude! É um regressar a minha meninice também” e de BR3: “[...] a gente tem muito mais saúde, mais vivência, vitalidade”. Quatro avós portuguesas (PT1, PT3, PT4, PT5) e duas avós brasileiras (BR4, BR5) destacaram que os netos lhe dão alegria e ânimo. Por exemplo, PT4: “[...] quando estou mais em baixa, vou ao pé deles e eu não consigo estar triste [...] e isso faz com que eu não esteja triste, nem pense em dor, nem em depressão e nada disso. É uma relação que me faz muito bem a saúde” e BR5: “Eu até diria que na minha saúde é uma coisa bem benéfica porque eu acho que a alegria e essas coisas, é uma coisa muito boa”.

Relativamente à subcategoria sobrecarga, foram abordados sentimentos de cansaço associados às funções de avó, tendo aparecido dois indicadores: cansaço e falta de tempo para si. Duas avós portuguesas (PT1, PT6) e todas as avós brasileiras (BR1, BR2, BR3, BR4, BR5, BR6) disseram já ter sentido cansaço enquanto se ocupavam com os netos, tal como se pode observar nas verbalizações de PT1: “Um bocadinho sim, principalmente com o meu neto, que ele era muito doentinho e a minha filha tinha um trabalho, [...] portanto eu ficava com ele o dia todo” e de BR1: “Eu já me senti sobrecarregada, isso com certeza”. Sobre falta de tempo para si, em função dos cuidados aos netos, quatro avós portuguesas (PT1, PT4, PT6) e uma brasileira (BR5) afirmaram não sentir, como diz PT1: “Não, não. Eu consigo conciliar”. Uma avó brasileira (BR3) afirmou que já sentiu falta de tempo para suas atividades em função dos netos: “Teve sim (falta de tempo), principalmente a L., que foi a primeira, ela ficou bastante comigo”.

A subcategoria relativa às atividades que as avós realizam com seus netos envolve quatro indicadores: conversar, atividades lúdicas, atividades escolares e mimar. Quatro avós portuguesas (PT1, PT3, PT4, PT6) e quatro brasileiras (BR2, BR3, BR4, BR5, BR6) destacaram que gostam de conversar com seus netos. Por exemplo, PT4: “Conversamos” e BR4: “[...] eu sempre conversei muito”. Quatro avós portuguesas (PT1, PT2, PT3, PT5) e cinco avós brasileiras (BR1, BR2, BR3, BR5, BR6) ressaltaram que realizam atividades lúdicas com seus netos. PT1: “E brinco, que ele gosta muito de carros. Passamos o tempo a brincar com carrinhos”; BR6: “Eu brinco também com eles, [...] às vezes vamos à praia”. Duas avós, uma portuguesa (PT2) e uma brasileira (BR2), disseram que fazem as atividades escolares com os netos. PT2 diz: “Procuro fazer os deveres” e BR2, diz: “Faz os deveres de casa”. Cinco avós portuguesas (PT1, PT2, PT4, PT5, PT6) e três brasileiras (BR2, BR3, BR4) destacaram que também mimam seus netos, o que pode ser visto nas falas de PT2: “[...] dentro do possível, faço-lhes as vontades” e de BR3: “[...] vamos pro shopping, acabo comprando uns presentinhos”.

A subcategoria dificuldades no relacionamento com os netos decorre de quase todas as avós (PT1, PT2, PT3, PT4, PT5, PT6, BR2, BR3, BR4, BR5, BR6) se referirem a ausência de dificuldades no relacionamento com seus netos.

Relações de avó com os netos considerando a interação com filhos/as e genros/noras

Nesta categoria, foram descritas as relações entre as avós e netos considerando a relação com filhos/as e genros/noras, tendo emergido quatro subcategorias (Tabela 3): mudanças nos relacionamentos com os filhos após nascimento dos netos, situações em que a presença da avó é mais requisitada, funções da avó na família, diferenças entre ser avó e ser mãe. Quanto à subcategoria mudanças nos relacionamentos com os filhos após nascimento dos netos, as avós destacaram que os filhos têm menos tempo para seus pais (avós), que uma preocupação foi não interferir na educação dos netos e em ter avós como recurso de sabedoria, colocar-se mais à disposição. Uma avó portuguesa (PT3) e uma brasileira (BR6), sentem que, após a chegada dos netos, os filhos têm menos tempo para elas. Isso fica claro nas falas de PT3 “O que eles (filhos) não têm é tanto tempo para aquela visita diária” e de BR6, “Ah, antes eles estavam mais voltados pra mim, agora eles têm os filhos, então tem um pouco de divisão”. Três avós portuguesas (PT1, PT4, PT5) e quatro avós brasileiras (BR2, BR3, BR4, BR5) destacaram que uma das mudanças do relacionamento com os filhos depois da chegada dos netos foi a preocupação em não interferir na forma como eles escolhem educar as crianças. Ficando claro nos exemplos de PT1, “Não interferir, portanto, na vida dos filhos, não é? Que isso, a vida é deles, não é? Embora possamos dar uma opinião se eles nos pedirem, não é? Mas não interferir nem na educação dos netos, não é?” e de BR4, “Um dia desses eu até chamei a atenção da minha filha, não devia ter chamado, mas chamei. Não gosto de me meter na educação dos filhos”. Uma avó portuguesa (PT2) e uma avó brasileira (BR1) enxergam que, depois que os netos chegaram, foram vistas como um recurso de sabedoria para os filhos. É o que dizem PT2, “Mudou só tipo, fornecer-lhes informações para a educação deles […]. Eram mais orientações no sentido de os educar e pra eles caminharem no bom sentido”, e BR1, “Eu me lembro, assim, que eu descobri que todo mundo acha que a gente (avós) sabe tudo”. Quatro avós portuguesas (PT1, PT2, PT5, PT6) e três avós brasileiras (BR1, BR5, BR6) disseram que o que mudou foi se colocarem mais à disposição para ficar com os netos. A exemplo de PT5: “Basta dizer-lhes: vocês os deixam cá, ou depois eles dizem que vem buscar” e de BR5: “A gente se coloca sempre muito à disposição”.

Relativamente à subcategoria situações em que a presença das avós é mais requisitada, as situações são relativas a apoio econômico, quando os pais viajam e em situações de doença e morte. Três portuguesas (PT1, PT4, PT6) e uma brasileira (BR4) identificaram que economicamente é uma das situações em que avós mais são requisitadas para auxiliar filhos/netos. Destacado, por exemplo, por PT1, “[...] economicamente eu já os ajudei” e por BR4, “[...] só não precisaram financeiramente”. Outra situação que requer o apoio das avós acontece quando os pais viajam, identificada por três avós, duas portuguesas (PT3, PT5) e uma brasileira (BR4), como dizem PT3, “[...] quando eles viajam se é preciso ficar com os netos”, e BR4, “Essa pequena, a única coisa que ela precisa de mim é para a mãe ir viajar”. A terceira situação identificada foram as de doença e morte, citadas por quatro portuguesas (PT1, PT3, PT4, PT5) e três brasileiras (BR2, BR3, BR6). Fica evidente quando falam PT3, “[...] quando eles estão doentes também é preciso ajudar”, e BR3, “Agora, essas que perderam a mãe faz dois anos hoje, [...] meu filho está dando toda atenção para as meninas. Então, esse filho que tá precisando de mais atenção hoje”.

Quanto à subcategoria funções da avó na família, as avós referiram as funções de dar apoio enquanto os pais trabalham, advertir e auxiliar na educação dos netos, alimentação, apoio logístico, reunir a família, não ser avó a tempo inteiro. Quatro entrevistadas, duas portuguesas (PT1, PT5) e duas brasileiras (BR5, BR6), destacaram que uma das funções da avó na família é dar apoio enquanto os pais trabalham. É como dizem PT5, “E os filhos hoje em dia tem uma vida muito preenchida [...], tem que conservar os seus empregos. E as avós, aí, são o suporte […]. Ou vão pro pé dos filhos, ou trazem os netos para o pé delas”, e BR6, “Hoje, agora de noitinha, minha filha foi trabalhar e pediu para eu ir pra lá, então é mais de ficar de companhia com eles”. Advertir e auxiliar na educação dos netos, como também sendo função das avós, foi identificado apenas por duas avós portuguesas (PT1, PT2). PT2 diz “Eu acho que a avó tem que ajudar na educação dos netos”. Já duas avós portuguesas (PT4, PT6) e três brasileiras (BR1, BR5, BR6) enxergam que alimentar os netos é também sua função. Como fica evidente nas falas de PT4, “[...] iam lá almoçar todas as quartas feiras”, e de BR1, “[...] almoçavam comigo duas vezes por semana”. Uma portuguesa (PT6) e quatro brasileiras (BR1, BR2, BR4, BR5) destacaram o apoio logístico aos netos. Fica claro nas falas de PT6, “É mais nestas ajudas, de ir as buscar”, e de BR4, “E a gente leva muito, tá chovendo, vai buscar no colégio, vai levar no colégio”. Uma avó portuguesa (PT3) e três brasileiras (BR2, BR5, BR6) referem que reunir a família é uma das suas funções. Pode ser identificado nas falas de PT3, “Não. Ponho é, a família em primeiro, depois a academia”, e de BR2, “Unir. A união da família, eu acho que a avó é essencial”. Duas avós portuguesas (PT2, PT5) e três avós brasileiras (BR1, BR4, BR6) demonstraram a preocupação em não ser avó o tempo inteiro. A exemplo de PT5, “Não, não; por isso mesmo que eu não fico tomando conta deles todos os dias, porque tenho as minhas coisas”, e de BR6, “Não, isso não. […] Mas eu não deixo de fazer, assim, as minhas coisas por causa deles, não”.

Relativamente à subcategoria diferenças entre ser avó e ser mãe, surgiram quatro indicadores: educação como função dos pais, avós têm menos responsabilidades, avós estão mais disponíveis, avós menos exigentes com os netos. Uma avó portuguesa (PT1) e uma brasileira (BR2) disseram que a educação é função dos pais e não dos avós; PT1, “Mas para educar, pronto, estão lá os pais”, e BR2, “Mas as coisas essenciais, quem dá a orientação é a M. [filha], e eu sigo a orientação dela”. Já seis avós (PT5, BR2, BR3, BR4, BR5, BR6), sendo quase unânime entre as brasileiras, disseram que a diferença do papel de avó para o papel de mãe é que, sendo avó, há muito menos responsabilidades com os netos do que se tinha com os filhos. Como dizem PT5, “Mas é completamente diferente da responsabilidade que os pais têm com os filhos. Os avós não têm aquela responsabilidade, a gente está um bocado do dia com eles, mas depois eles vão com os pais”, e BR3, “Sim, a mãe é muito mais responsabilidade. Filho a gente tem que educar, cuidar dele muito. Neto não, neto é pra gente passar aquelas horinhas com ele, né? É diferente”. Três avós portuguesas (PT1, PT2, PT5) disseram que, no papel de avó, estão mais disponíveis. PT1, “[...] os avós estão mais presentes [...] porque estão mais disponíveis também”, e PT5, “[...] eu, quando era mãe, estava extremamente ocupada, muito cansada e não tinha disponibilidade para conversar com meus filhos como tenho com os meus netos. Eu agora estou muito mais disponível”. Uma avó portuguesa (PT2) e uma brasileira (BR1) destacaram também que são menos exigentes com os netos do que eram com os seus filhos, como dizem PT2, “[...] os avós tendem a ser mais benevolentes com os netos do que eram com os filhos […]. Têm o coração muito mais mole do que tinha com os filhos (…). A mãe é muito mais rigorosa que a avó”, e BR1, “[...] a gente, quando é mãe, a gente é muito mais exigente com as crianças, a gente é assim, quer aquela perfeição […]. Quando eu fui avó, eu tinha sempre uma complacência, em vez de eu ficar irritada […], ficava logo assim, amorosa”.

Discussão

Sobre os ganhos que as avós percepcionam das relações com seus netos, destacam-se a saúde e a vitalidade, as avós se sentem úteis e mencionam que ter saúde e disposição para cuidar dos netos, o que é muitas vezes uma motivação para os avós continuarem vivendo (Noriega, López, Domínguez e Velasco, 2017; Carter e McGoldrick, 1995). Destaca-se a presença de sensações emocionais positivas, como bem-estar, felicidade, orgulho e gratidão na relação com os netos (Osuna, 2006; Triadó et al., 2014; Zanatta & Arpini, 2017) que revelam que a relação com eles é fonte de emoções positivas e de satisfação. Apesar desse impacto positivo ser referido pela generalidade das participantes, foram mais enfatizadas pelas avós portuguesas as implicações que a relação com os netos tem no seu estado de ânimo, ao referirem que estar perto dos netos faz com que se sintam mais felizes e preenchidas. Esses resultados corroboram, por exemplo, Ku et al. (2013), que destaca que cuidar dos netos pode ser benéfico para melhorar a saúde.

Praticamente todas as avós brasileiras destacaram que um dos impactos de ser avó são os sentimentos de sobrecarga e cansaço que surgem no cuidado despendido aos netos e que sentem necessidade de ter um maior tempo para si. Guijarro (2001) explica que o sentimento de sobrecarga entre os idosos é ambíguo, já que se sentem bem em auxiliar no cuidado aos netos, mas que isso também os pode privar de outras atividades. O mesmo sentimento também apareceu nos resultados da pesquisa de Triadó et al. (2008) ao descobrirem que os avós se sentiam satisfeitos ao cuidarem dos netos, mas ao mesmo tempo, sentiam-se cansados. Esse resultado alerta para a ambiguidade que pode estar associada à experiência psicológica de ser avó e à importância de se verbalizarem as dificuldades e gerirem interações no sistema familiar.

A experiência de avós portuguesas e brasileiras coincidem sobre as atividades que realizam com os netos. Afirmam que na maior parte do tempo estão a conversar com eles, a brincar, passear, ver televisão ou, referenciadas em menor número, contando histórias (Osuna, 2006; Ramos, 2015). Sobre as atividades escolares, apenas duas avós referiram que auxiliam seus netos nessa tarefa, o que não é consistente com dados de outros estudos (Osuna, 2006; Viguer et al., 2010). Neste estudo, as avós estão mais associadas a atividades de lazer com os netos, o que pode relacionar-se com o fato das participantes referirem a ausência de dificuldades no relacionamento com seus netos.

No que tange às mudanças no relacionamento com os filhos depois do nascimento dos netos, as avós disseram que os filhos passaram a ter menos tempo para elas, assim como a sensação de que passaram a ser reconhecidas como recursos de sabedoria, frente às dificuldades que surgem no exercício da parentalidade dos seus filhos (Silva et al, 2015; Zanatta e Arpini, 2017). O nascimento de uma criança na família transforma todos os papéis, filhos se tornam pais e pais se tornam avós, o que ocasiona mudanças nos relacionamentos (Carter e McGoldrick, 1995), que geram uma reconfiguração na relação das avós com os seus filhos.

Algo amplamente referido por participantes portuguesas e brasileiras é a preocupação em não interferir na educação dos netos, pois podem surgir conflitos desnecessários frente a visões diferentes de educação. Esse resultado corrobora o constatado, por exemplo, por Dominguez, Vitorino e Morgado (2011), quando os avós entrevistados percebem que seu papel está em apoiar os filhos sem envolvimento excessivo. Apoiam, igualmente, outros estudos (e.g. Osuna, 2006; Zanatta e Arpini, 2017) que realçam que a interferência dos avós na educação dos netos, pode chegar a afetar a conjugalidade e o sentimento de autonomia dos filhos. A função de advertir e auxiliar na educação dos netos foi identificada apenas por avós portuguesas, contrariando o referido por Noriega et al. (2017), que destaca que educar é função dos pais e não dos avós.

Sobre as situações em que a presença da avó é mais requisitada, a literatura na qual esta investigação está baseada não faz referências às situações de viagem e de doença e morte. As avós aparecem como fontes de mediação de conflitos familiares (García e Vega, 2013) e também como apoio econômico em situações particulares (Albuquerque, 2011; Glaser et al., 2018; Cardoso e Brito, 2014). É possível que as situações mencionadas pelas avós tenham a ver com seus contextos particulares de vida.

Um dos pontos mais consensuais na literatura sobre o papel dos avós é que cuidam dos netos para que os pais possam trabalhar fora (Brunello e Rocco, 2016; Pacheco e Alves, 2012; Ramos, 2015; Wang et al., 2019; Wegner e Benitez, 2013; Zanatta e Arpini, 2017), o que se encontra também neste estudo com avós portuguesas e brasileiras. O que se constatou neste estudo está, também, em concordância com a literatura (e.g. Osuna, 2006), indicando a função de alimentar os netos, bastante justificada pela tendência culinária das avós. Na maioria, avós brasileiras relataram que é função da avó reunir a família, fator importante nas dinâmicas familiares na visão dos idosos (Silva et al., 2015). Outra função identificada majoritariamente por avós brasileiras é a necessidade de dar apoio logístico a família no que tange ao ir e buscar as crianças pequenas na escola (e.g. Esperança et al., 2013).

Sobre as diferenças entre ser avó e ser mãe, as avós brasileiras referiram que sentem que têm menos responsabilidades, enquanto as avós portuguesas percebem que estão mais disponíveis (Zanatta e Arpini; 2017; Carter e McGoldrick, 1995). Nesta investigação, as avós destacaram a presença de caprichos e mimos que fazem aos netos que não faziam aos filhos, como um fator que influencia numa relação única e especial (Pankhurst et al., 2019), ao descobrirem que “as guloseimas” que as avós dão aos netos é o que as participantes referem que diferencia da relação com os pais. Com o envelhecimento e a aposentadoria, os avós ficam com o tempo mais ocioso e com uma maior capacidade de relativizar, relacionada com o desenvolvimento do pensamento pós-formal e sabedoria, o que lhes permite estar mais disponível para atender aos netos. O avanço da medicina também proporciona que os idosos tenham mais saúde e, então, mais disposição para esses cuidados, o que faz com que a idade não seja só um fator debilitante, sendo possível dedicarem-se e serem mais tolerantes aos netos. Ambos os grupos de avós, concordam que são bem menos exigentes com os netos do que eram com os filhos, o que Esperança et al. (2013), classificam como uma relação mais leve e com mais tolerância. O fato de já terem criado seus filhos faz com que as avós olhem para os netos com olhar mais terno e amoroso, sem a obrigação de educá-los e corrigi-los.

Limitações e perspectivas de pesquisa

Sobre as limitações da pesquisa, destacam-se o reduzido número de participantes e o fato das participantes não serem de cidades equivalentes em termos de dimensão, o que pode influenciar nas experiências de ser avó. Com o avanço da medicina e das novas tecnologias, a expectativa de vida tende a aumentar e, as famílias, a terem cada vez mais idosos em seu meio. Tal fato abre a possibilidade de novos estudos, em Portugal e no Brasil, visando conhecer também a percepção de filhos e netos sobre a participação dos avós dentro das famílias. O surgimento de mais estudos acerca do envelhecimento no Brasil se faz pertinente, uma vez que, no continente europeu, a velhice já vem sendo estudada e analisada a mais tempo. Pelo Brasil ainda ser considerado um país jovem, pouco se tem estudado sobre as gerações mais velhas e esta investigação pode ser uma das propulsoras de novos estudos na área.

Considerações finais

Esta investigação é exploratória e descritiva, tendo-se procurado conhecer a percepção de avós sobre o seu papel junto dos netos através de uma perspectiva comparativa entre participantes de dois países com culturas diferentes: Portugal e Brasil. Apesar de existirem algumas diferenças, portuguesas e brasileiras têm experiências bastante semelhantes, com destaque para as sensações emocionais e impactos positivos que ser avó tem nas suas vidas, alertando para a possibilidade de sentirem alguma sobrecarga. Vale destacar o potencial de desenvolvimento psicológico que têm as relações intergeracionais familiares, trazendo benefícios aos mais velhos e aos mais novos, pois ambos ganham e aprendem nesta interação.

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Recebido: 12 de Junho de 2023; Aceito: 30 de Outubro de 2024

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