SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.34 número81Perguntas reflexivas, ética e comunicação não violenta para o trabalho com homens autores de violência“Momentos extraordinários” de Rosângela Russo índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

artigo

Indicadores

Compartilhar


Nova Perspectiva Sistêmica

versão impressa ISSN 0104-7841versão On-line ISSN 2594-4363

Nova perspect. sist. vol.34 no.81 São Paulo  2025  Epub 21-Nov-2025

https://doi.org/10.38034/nps.v34i81.871 

Conversando com a mídia

A delicadeza e a crueza do existir no quarto ao lado

Maria Cristina Viegas de Macedo1 

Maria Cristina Viegas de Macedo

Atua como terapeuta de família e casal no Instituto de Terapia de Família e de Casal de Belo Horizonte e como terapeuta dialógico no Instituto NOOS, em São Paulo. Integra a iniciativa “Somos Gente Paliativa” do Instituto Casa do Cuidar, oferecendo suporte em cuidados paliativos. Além disso, coordena atividades no PROESQ/UNIFESP.


http://orcid.org/0009-0006-1208-0732

1 Casa do Cuidar, São Paulo, SP, Brasil


O mais recente filme do diretor Pedro Almodóvar, “The Room Next Door”, lançado em outubro de 2024, mostra com muita delicadeza a trajetória de duas amigas (Martha, vivida pela atriz Tilda Swinton, e Ingrid, por Julianne Moore) que experienciam os mais diferentes e intensos afetos diante de uma doença que ameaça a vida de Martha. Com muita afabilidade de gestos, olhares, expressões faciais e movimentos corporais, a história invade o corpo dos espectadores, tocando seus corações e abalando, de certo modo, suas certezas; sim, porque ainda que o desfecho seja presumível, nada do que se sente ao assistir a esse filme e às belas interpretações impecáveis de Tilda Swinton e Julianne Moore, torna-se esperado, presumível: diante do impacto que as personagens vão sofrendo e vivendo ao longo da narrativa, nós, os seus interlocutores silenciosos e silenciados (tamanha a grandeza da emoção e da colisão interna provocada pela presença inegável de nossa mortalidade), somos tomados por fortes emoções e nada mais se edifica dentro de nós como algo já sabido (final provável), ainda que o desfecho desemboque naquilo que o espectador, provavelmente, espera, nada permanece como o que lhe aguarda a cada tomada, a cada cena e a cada diálogo. As emoções despertadas com o desenrolar dos fatos, arrebatam, fazem eco naquilo que em cada um de nós também é presumível, a nossa finitude.

Com a estética imagética que marca a produção de Almodóvar (suas cores, luz e enredo), vemos mais um filme seu versando sobre a complexidade das relações humanas; contudo, aqui, apesar de já termos sido agraciados com o também belíssimo “Hable con ella”, de 2003, que dialoga, de certa forma, com o estado de finitude, estamos diante de um diálogo “cru”, de “carne exposta”, do ser humano com a sua morte: Martha nos leva agonicamente por suas angústias e dúvidas em seu caminho rumo ao fim de sua existência, anunciado por um câncer e, caminhando ao lado dela e de sua melhor amiga, Ingrid, colocamo-nos também no quarto ao lado, em uma espera cheia de indagações e emoções por muitas vezes contraditórias, entramos em choque e sentimo-nos como quem acaba de receber um “xeque-mate”, a vida exposta de forma soberana, forte e bela! Nada mais a fazer, se não vivê-la enquanto dure - e é isso mesmo que acontece com as personagens e com aqueles e aquelas que as assistem: somente há o viver no tempo presente, diante da proximidade do ato final.

Mais do que importante, é possível afirmar que “O quarto ao lado” é um filme necessário, ainda mais em uma cultura que insiste em “deixar a morte no armário”. É preciso falar dela, para que possamos vivenciá-la com mais dignidade, conforto, amorosidade, compassividade e, também, por que não, com a alegria que for possível viver no momento de morrer. Por que não? Ingrid age para que Martha possa vivenciar o seu processo mais próximo disso; existe ao lado de sua amiga, como uma verdadeira “sentinela, uma guardiã de fim de vida” , zela pelos cuidados com o corpo de sua amiga querida; escuta-a, faz-se presente, mas também nos brinda com a mostra de sua humanidade que, fragilizada por esse encontro com a amiga e com a finitude, depois de um longo tempo sem se verem (Martha resolveu, de início, não comunicar aos mais próximos o seu diagnóstico), desorganiza-se também; ela se enfurece às vezes e lida com toda sorte de emoções contraditórias, mas se cuida, respira e reacende a “lamparina dos cuidados” com a sua presença. Entre discussões, desencontros e aproximações, as duas personagens, Martha e Ingrid, decidem permanecer juntas, cada qual por seus motivos, porém, cada qual por causa da e pela vida!

Com os diálogos que vão sendo construídos, não somente pela excelência da atuação das atrizes que protagonizam esse enredo, como também pela atuação da atriz Vick Luengo (que interpreta a filha de Martha), de John Turturro, Alvise Rigo, vamos vendo se descortinar em nossa frente a grandeza que é o existir (que pode mesmo adquirir maior sentido pela morte) sabendo morrer. Que possamos nos sensibilizar por isso e, quem sabe, cuidarmos mais de nossas existências e das existências de todos aqueles que estiverem ao nosso alcance. Oxalá que possamos todos ser Sentinelas da Vida!

“[...] Loucos são, de acordo com a contraverdade da qual tento lhe convencer, todos aqueles que não sabem morrer.” (Cassiana Lopes Stephan e Mayara Dionísio na apresentação da obra “Van Gogh, o suicidado da Sociedade”, de Antonin Artaud). Almodóvar nos convida a esse saber, colocando-nos como acompanhantes de Martha e Ingrid nessa jornada de vida-morte-vida; golpeia-nos com diálogos cruéis e delicados sobre o existir no tempo de morrer. Não somente pela beleza de sua estética, essa sua obra é necessária também, afirmo mais uma vez, pelo convite ao diálogo com aquilo que muitos de nós evitamos: o diálogo com a morte, com aquilo que nos torna seres humanos, humanos. Brindemos com Almodóvar a ela, fazendo assim elegias à vida. Estejamos muito vivos em nossa finitude.

Que nossas vidas possam ser significadas como o foi a de Martha, pela presença amorosa, firme e delicada de alguém que nos ame, que cuide e zele por cada um de nós. Morte, amor, vida, amizade, angústia, esperança realista, alegria, tristeza, inferno, calmaria, tudo isso é possível experienciar estando “no quarto ao lado”, bem como e talvez principalmente, a generosidade de Martha, no ato final, cuidando de sua amiga Ingrid. Que possamos nos colocar nesse quarto quando a vida nos convocar para entrarmos nele, com toda dignidade e verdade que Martha e Ingrid se colocaram.

Creative Commons License Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons