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Nova Perspectiva Sistêmica

versão impressa ISSN 0104-7841versão On-line ISSN 2594-4363

Nova perspect. sist. vol.34 no.82 São Paulo  2025  Epub 19-Jan-2026

https://doi.org/10.38034/nps.v34i82.876 

CONVERSANDO COM A MÍDIA

ÂNGELA: CAMINHANDO JUNTOS RUMO ÀS EXPERIÊNCIAS DE IMPORTÂNCIA

JÚLIA SANTA CLARA FERREIRA1 

JÚLIA SANTA CLARA FERREIRA DE AZEVEDO FERREIRA

Psicóloga, Terapeuta Comunitária e Mestre em Psicologia pela Universidade de São Paulo com foco em estudos de processos grupais e cuidado em saúde. Integra o Núcleo de Terapia Comunitária Integrativa do Instituto Noos, trabalha como psicóloga clínica e facilitadora de processos grupais, acompanhando indivíduos, famílias e outros grupos em contexto privado e também no Sistema Único de Saúde.


http://orcid.org/0000-0002-7494-4245

1 Instituto Noos, São Paulo, SP, Brasil.


Ângela é uma das personagens do curta-metragem brasileiro de 2019 de mesmo nome, dirigido por Marília Nogueira e roteirizado também pela diretora, junto a Maria Fernanda Moreira e Jaqueline Souza. Ao assisti-lo pela primeira vez, lembro-me que fiquei muito sensibilizada com o modo como o roteiro buscava privilegiar as interações sociais cotidianas para explorar um processo de transformação vivido pela personagem Ângela. Desde então, mantive-me conectada com as reflexões nutridas pelo curta, especialmente por acreditar que ele ilustra um tema tão relevante para o campo do cuidado em saúde e do cuidado das próprias relações humanas.

Ambientado no interior de Minas Gerais, o curta apresenta o cotidiano de Ângela, uma mulher idosa que vive sozinha em sua casa e que tem a sua rotina preenchida pelo próprio interesse por sintomas clínicos e hipóteses diagnósticas atribuídas a si mesma. Sem viver interações sociais cotidianas, esses conhecimentos decorrentes de livros e noticiários são compartilhados em consultas médicas e organizados em recortes de papel que são fixados como lembretes em uma parede de sua casa. No entanto, a aproximação de Sueli, uma moradora da região, surge como um convite à criação de novos significados acerca do momento que tem vivido e também de novos sentidos sobre si mesma.

Além de Sueli demonstrar interesse pelas ervas que só encontra no quintal de Ângela, de forma persistente e cuidadosa, ela também passa a convidá-la a fazer caminhadas em sua companhia. Dentre as sutilezas das interações que passam a ser cotidianas, um elogio recebido por Sueli sobre um chá preparado com as ervas de seu quintal mobiliza Ângela a buscar, em uma gaveta cheia de receituários e medicamentos, um Atlas Botânico que parece lembrá-la de que há outra forma possível de cuidar dos sintomas clínicos e de compreender a si mesma.

Sobre os processos relacionais e as suas implicações para o modo como compreendemos a nós mesmos, diversos autores já nos atentaram, enfatizando uma dimensão relacional da constituição de si, ou de self, e nos ajudando a compreender que esses sentidos são transformados nos contextos relacionais e sociais em que vivemos (Anderson, 2009; Kenneth, 2009). Nesse sentido, um aspecto que me parece significativo nessas interações ilustradas é a postura de valorização e interesse de Sueli pelo cotidiano de Ângela, contribuindo para que ela se sinta reconhecida como importante e confortável para viver e partilhar suas novas descobertas. A fim de ampliar essa reflexão, retomo aqui uma ideia acerca das implicações de “experiências de importância” em interações sociais, apresentada por Ottar Ness e Dina von Heimburg em um workshop organizado por Pedro Martins em abril de 2025. Embora frequentemente associada à noção de significância ou de pertencimento, os autores exploram a ideia de que sentir-se importante constitui-se não apenas pela sensação de sentir-se valorizado pelas pessoas e suas comunidades, mas também pela sensação de agregar valor, participando ativamente desses contextos, uma condição que cria oportunidades de reconhecimento e possibilita que essas experiências de importância sejam também fonte de significados na vida (Prilleltensky, Scarpa, Ness & Di Martino, 2023).

Em determinado momento, ao apresentar para Sueli as ervas de seu quintal, Ângela afirma: “tudo é remédio”, contando aquilo que aprendeu com a leitura de seu Atlas e partilhando os novos sentidos sobre um novo modo de cuidado dos sintomas clínicos. Além disso, ainda que as ervas sejam compreendidas como cuidado desses sintomas, em um encontro com outras moradoras da região, o chá feito com as ervas não é servido como um remédio e ilustra uma forma de ampliar o cuidado que passou a ser recebido e ofertado na relação com Sueli, e de partilhar outras descobertas, sobre si e sobre a vida.

Outra cena que contribui com essas reflexões gira em torno de uma visita de Sueli a Ângela, em que ela se depara com a parede ilustrada com os recortes de sintomas clínicos e as hipóteses diagnósticas. Ao notar que sua coleção foi descoberta, Ângela a retira da parede de sua casa, como se sentisse constrangida; no entanto, Sueli apresenta a ela um mundo em que “todo mundo já teve uma coleção esquisita na vida”, convidando as outras moradoras da região a partilharem não só as suas próprias coleções, mas outros significados sobre viver em relação.

É significativa a postura de Sueli de não limitar a sua compreensão sobre Ângela a partir de explicações ou definições geradas devido à sua “coleção esquisita”. Ainda que demonstre surpresa, Sueli não apresenta caminhos para que Ângela mude algo equivocado, problematizando-a; ao contrário, ela possibilita novas interações relacionais, convidando-a a construir significados de acolhimento e escuta a partir disso. É na delicadeza desses pequenos e significativos acontecimentos cotidianos que o roteiro se encerra, possibilitando reflexões acerca da maneira como a compreensão de Ângela sobre si mesma, sobre os relacionamentos e sobre a vida vai sendo transformada nessas interações.

Podemos entender que a centralidade nos processos sociais interativos é um pressuposto relevante no campo das teorias pós-modernas e das terapias que propõem práticas comprometidas com a ampliação de um foco individual para um foco relacional em um processo terapêutico (McNamee, Rasera & Martins, 2024). Nesse sentido, e a partir dessa leitura sobre o curta-metragem, descrevo algumas das perguntas que ressoam em mim, enquanto terapeuta, esperando possibilitar outras e novas ressonâncias em nós.

Como nós, enquanto terapeutas, podemos convidar as pessoas que acompanhamos a ampliarem as suas redes de relacionamentos, apostando na sutileza das interações cotidianas que acontecem para além dos nossos espaços terapêuticos? Como podemos participar da criação de contextos sociais que contribuem para que as pessoas sintam que são valorizadas e que agregam valor? E, ainda, como podemos nos manter atentas e atentos à importância das redes de apoio social em diferentes momentos da vida dessas pessoas? Espero que outras reflexões sigam a partir daqui.

Para assistir ao curta-metragem, acesse o site Itaú Cultural Play, uma plataforma gratuita de streaming dedicada a produções nacionais.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

Anderson, H. (2009). Conversação, linguagem e possibilidades: um enfoque pós-moderno da terapia. (M. G. Armando, Trad.). São Paulo: Roca. [ Links ]

Kenneth, G. (2009). Relational Being: Beyond Self and Community. Oxford University Press. [ Links ]

McNamee, S., Rasera, E. F., & Martins, P. (2024). Praticando a terapia como construção social. São Paulo: Editora Noos. [ Links ]

Nogueira, M. (Diretor). (2019). Angela [Filme]. [ Links ]

Prilleltensky, I., Scarpa, M. P., Ness, O., & Di Martino, S. (2023). Mattering, wellness, and fairness: Psychosocial goods for the common good. The American Journal of Orthopsychiatry, 93(3), p.198-210. [ Links ]

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