Os sabores, aromas e texturas de Frida Kahlo: um misto de fantasia e realidade entre os mundos dos vivos e dos mortos
A obra intitulada O segredo de Frida Kahlo, de autoria do mexicano Francisco Haghenbeck, considerado pela crítica um dos melhores escritores da América Latina, é um delicioso mergulho na intimidade fúnebre de Frida Kahlo. Mistura fatos reais e nada secretos com narrativas fantasiosas acerca de um misterioso, e para sempre perdido, livro de receitas.
Enaltecendo a cultura mexicana e as raízes indígenas de que a artista tanto se orgulhara, as receitas reunidas em forma de amor e ódio se misturam a eventos que marcaram profundamente sua alma e seu corpo. Destaca-se a diversidade de sabores, aromas e texturas.
Profundo como tudo que leva o nome da pintora, mesmo para quem nunca cozinhou um ovo ou nunca sofreu por amor, o livro mostra a associação entre comida e vida e como a escolha por determinadas combinações de alimentos, assim como pelas cores de suas telas, refletia a emoção sentida ao longo das experiências vivenciadas.
Numa atmosfera sombria, a obra se inicia com a visita de um misterioso cavaleiro e as narrativas que envolvem o tão celebrado Día de los Muertos mexicano. Com um texto nada simplista, o autor convida o(a) leitor(a) a percorrer passagens da infância de Frida, os ritos religiosos de que ela participava, a inquietude da menina cheia de coragem e a constante referência à erva santa, como se desse pistas do desejo por algo que pudesse curar as dores que a acompanhariam desde a tenra idade até a morte.
Exóticas e nada óbvias como a própria Frida, não sugerimos ao(à) leitor(a) com estômago fraco que tente reproduzir essas iguarias em um dia de domingo. Aqui tudo é único, feito para os fortes e com grande apreço pelo inesperado, pelo amargo e atroz da vida. Não há espaço para o trivial. O paladar dela exigia um sabor único, tal qual a forma muito particular como decidiu viver.
“Tenha a coragem de viver, pois qualquer um pode morrer”. A todos(as) que conhecem um pouco sobre a vida e a obra da pintora, o que de mais marcante se pode observar é a linha tênue entre a vida e a morte, sempre presente em suas obras, além da dança entre os mundos de los muertos y de los vivos, de que ela parecia peculiarmente gozar.
Em suas obras, assim como em sua vida, nota-se uma tendência à pulsão pela morte, uma inclinação por situações que poderiam causar medo a um neurótico qualquer, mas que pareciam não abalar muito aquela mulher franzina, que poderia ser a própria encarnação de todas as forças ocultas que existem no mundo, ou seja, uma verdadeira bruxa de Coyoacán.
O livro apresenta o declínio financeiro da família, a rebeldia da menina que questionou a fé católica, os sucessivos episódios que dilaceraram seu corpo, a criatividade que aflorou no encontro com Diego, a malícia e a coragem da jovem que tinha ímpeto de ser o que desejava, a entrada no movimento comunista… Para cada fato, um prato. Aqui, a referência livre entre paladar, superação, força e determinação não pode deixar de ser citada. Há uma explosão de sabores e sentimentos ao longo da obra, ao passo que, conforme os anos avançam, outros personagens, para além do núcleo familiar, vão sendo contemplados nas receitas, ficando mais evidente a vontade de Frida de ser amada, desejada, escolhida, engolida e saciada por inteira, utopia que ela aparenta nunca ter conseguido atingir.
Regras parecem nunca ter funcionado para uma revolucionária nata. Dona de seu desejo, a liberdade de misturar doce e salgado e produzir algo particularmente prazeroso é claramente degustada por ela em suas experiências sexuais. Livre como somente uma mulher que esteve submetida a uma sociedade hipocritamente rígida – e que negava o destino de Virgem de Guadalupe – podia ser, Frida recusava o arroz com feijão e parecia desejar matar pra comer todos os que a fizeram sofrer.
A santa padroeira da melancolia era sem dúvida uma mulher ao mesmo tempo frágil e muito forte em sua subjetividade, cheia de ideologias e sonhos, que lutou bravamente com seus inimigos internos e, assim como o caderno de receitas, se perdeu e se achou muitas vezes dentro de suas dores.
É curioso pensar em Frida como uma única pessoa, como alguém que cabe em uma descrição, tal qual uma receita de bolo ou de uma mulher. Ela tinha obsessão pela qualidade de seus quadros e travava sem medo lutas ideológicas com seus camaradas, posicionando-se, por um lado, como uma guerreira fálica destemida e, por outro, como uma mulher despedaçada, sedenta por alguém que a ajudasse a colher seus cacos espalhados em sua própria mente.
Não há dúvida de que a arte salvou Frida dela mesma durante toda a devastação de sua existência, assim como Frida salvou a arte da cafonice da religiosidade cristã imposta a uma nação que cultiva hábitos pagãos. Os pratos exóticos, que parecem feitos para impactar e até causar repulsa, dedicados a amores e desamores, aparentam exercer a função de afastar aqueles que ela estava condenada a amar e de aproximar aqueles que ela parecia se divertir em odiar.
Se comida é afeto, como dizem, é óbvio que as anotações desse caderno somente poderiam acompanhar o delírio que foi a vida histérica de Frida Kahlo – cheia de nadas e vazia de muitos, um misto de solidão e completude que apenas quem tem a capacidade de ver além pode compreender.
O requinte dos pratos parece acompanhar a complexidade dos sentimentos vivenciados pela artista. A tentativa de se organizar extrapolava as telas, e assim como um filho não concebido, desejado mas não nascido, o livro de receitas é uma reunião de tudo o que pôde nutrir sua fantasia de se preencher com a vida de alguém que nunca existiu. A desfragmentação de uma artista incompreendida e a histeria de uma mulher cujo desejo parecia nunca cessar são apenas algumas nuances de uma personalidade real, de carne e osso, que ao longo de sua conturbada existência tentou temperar-se para ser engolida por si mesma.
A todas as Fridas, sofridas e batalhadoras, que diariamente tentam ser livres nesse mundo loucamente moralizante, que massacra nossos desejos e enquadra nossas vontades: ¡Viva la vida! ¡Vivan las Fridas!













