Introdução: assombração
Diante da fotografia dos participantes do 3º Congresso Internacional de Psicanálise, acontecido em Weimar, em setembro de 1911, a socióloga Avery Gordon (2008) narra seu sentimento de estar em presença de algo inquietante. Olhando para a imagem, que mostra cerca de 50 pessoas, em sua maioria homens (há apenas oito mulheres, sentadas na fileira da frente), Gordon é assombrada por um ruído branco ensurdecedor: a ausência da psicanalista Sabina Spielrein.
A partir dessa posição de “estar assombrada”, to be haunted, segue a assombração e percorre o fio da ausência de Spielrein, conduzida pela importância da pessoa que não está lá, o que remete ao peso social daquilo que fica oculto da história. Desse modo, o que não enxergamos, em primeiro plano, pode expressar traços sintomáticos de produções e exclusões sociais que revelam a ligação entre a produção de conhecimento, as relações de poder e a experiência social. Os sujeitos ausentes atuariam como espécies de fantasmas, que transitariam entre o mundo dos vivos e o dos mortos, marcando presença justamente por sua invisibilidade.
Para Gordon, uma característica identificatória do fantasma é a sensação de estranheza que ele produz no campo do qual faz parte. O unsettling - a inquietação - sentido em proximidade ao fantasma assemelha-se àquilo que ele representa: um sintoma do que está desaparecido, do conflito que ele personifica. A estranheza experimentada aponta um estremecimento dos limites do campo de conhecimento em que estamos inseridos, e o fantasma indica que o conflito está vivo, não foi settled. Em termos do repertório conceitual psicanalítico, estamos evidentemente no registro do Unheimliche, o qual, na conhecida definição de Schelling utilizada por Freud, “seria tudo o que deveria permanecer secreto, oculto, mas apareceu” (1919/2010b, p. 338).
Seguindo a linha de argumentação de Gordon, escrever histórias de fantasmas é escrever sobre presenças e ausências, exclusões e invisibilidades. Os fantasmas são assim recortados como pedaços incompreendidos da história, que representam um conflito ou uma dificuldade de elaboração, e carregam um tipo de invisibilidade visível: nós vemos que eles não estão lá.
Essa perspectiva metodológica está subjacente às hipóteses que enunciaremos brevemente, no espaço deste artigo, recortando um posicionamento teórico-historiográfico que dá suporte a uma proposta de estudo, tomando por objeto de investigação o entrelaçamento das trajetórias da vida e da obra de Sabina Spielrein: inquietas, sustentamos a assombração e a estranheza, e não direcionamos a pesquisa no sentido de resolver conflitos ou de criar uma tese linear e sem contradições. Olhamos, portanto, para as interrupções de pensamento e as dificuldades metodológicas como comunicações fantasmagóricas daquilo que não pode ressoar de outra forma.
A ausência de Spielrein em uma foto mobiliza, como elemento disparador, a investigação de uma temática fundamental: a ausência de reconhecimento dessa psicanalista como uma das autoras pioneiras nos primórdios de constituição da instituição psicanalítica. Aponta também para dificuldades que se anunciavam: a questão da feminilidade e a presença concreta de mulheres no círculo inicial que compunha a sociedade psicanalítica.
A foto no início deste trabalho foi tirada ao final do 3º Congresso Internacional de Psicanálise, muito próxima da conclusão da dissertação de Spielrein, intitulada Sobre o conteúdo de um caso de esquizofrenia (1911/2014b), importante trabalho psicanalítico sobre a esquizofrenia e o primeiro desenvolvido no âmbito de uma universidade (Cromberg, 2008). Spielrein já estava, portanto, inserida no campo psicanalítico, e desenvolvia um trabalho que ganhou reconhecimento posterior, “A destruição como origem do devir” (1912/2014a).
O conflito entre Freud e Jung, que tomaria forma em 1912, ainda não havia sido presentificado no congresso de Weimar. Jung tinha sido reeleito presidente da Associação Psicanalítica Internacional e, de acordo com Jones (1989), sua relação com Freud estava no melhor dos termos.
Fiebert (2009) formula algumas hipóteses sobre o posicionamento dos participantes nessa fotografia. Suspeita que ela tenha sido tirada ao final do congresso, como é costumeiro, e que tenha sido organizada por Jung. Em exame cuidadoso, é possível notar que Freud, que tinha 1,73 m de altura, está centralizado na foto e aparece mais alto que Jung, que media 1,88 m. Jung parece estar curvado, e Freud claramente está em cima de um banco ou caixa. Assumindo que Jung foi o responsável pelo arranjo da fotografia, Fiebert supõe que Freud “aprovou e ficou satisfeito com sua posição artificialmente elevada no centro do grupo, e provavelmente apreciou os esforços de Jung” (p. 25).
É claro que essa leitura do posicionamento dos participantes na foto é uma especulação, sendo desprovida de interesse, para os propósitos de nossa investigação, a falta de acesso às reais motivações que levaram Spielrein a não participar desse evento. Porém, considerando esse momento tão produtivo no percurso da autora, sua ausência no congresso, organizado por figuras tão proeminentes, mobiliza particularmente a nossa atenção. Assim, essa foto direciona nosso olhar para a questão de sua ausência na história formal da instituição psicanalítica, enviando-nos para um conjunto de questões relevantes pertinentes à história do movimento psicanalítico.
Notamos que as disputas de poder no âmbito do movimento psicanalítico e a ambição tanto de Freud quanto de Jung tiveram um peso significativo na política e na composição do seleto grupo dos pioneiros da psicanálise, em que se pode destacar a questão do espaço concreto ocupado pelas mulheres naquele momento (Nunberg & Federn, 1974). Spielrein, uma mulher russa e judia, paciente de Jung antes de se tornar médica e psicanalista, tem uma rica contribuição teórica e uma metapsicologia inovadora, e foi uma figura importante nas décadas iniciais da implantação do movimento psicanalítico no meio científico.
Um espaço à margem: a nota de rodapé
O apagamento de Spielrein não foi completo. Ficaram alguns traços que nos permitem retomar suas contribuições teóricas: o primeiro, e mais significativo, é uma nota de rodapé, escrita por Freud, em Além do princípio do prazer (1920/2010a), que reconhece e legitima um espaço original de sua autoria; um segundo, de dimensão biográfica, é a narrativa construída sobre a sua relação amorosa com Jung, amplamente conhecida a partir de sua divulgação por meio de uma retratação questionável apresentada no filme Um método muito perigoso (Cronenberg, 2011).
A nota de rodapé em questão é a seguinte: “Num trabalho substancial e pleno de ideias, embora não inteiramente claro para mim, Sabina Spielrein antecipou boa parte dessa especulação” (Freud, 1920/2010a, p. 227, nota 31, grifos nossos).
Essa afirmação, que faz parte de um texto freudiano tão fundamental, é o reconhecimento das construções anteriores de Sabina Spielrein no texto “A destruição como origem do devir” (1912/2014a). A autora apresenta uma importante discussão sobre o movimento do eu rumo à sua própria destruição, que ela entende como condição para a criação do novo, em um sucessivo devir. Ao lidar com problemas sexuais, ela questiona:
Por que essa tão poderosa pulsão, a pulsão de procriação,4 esconde, ao lado dos sentimentos positivos que são sempre esperados a priori, também outros negativos, como angústia, aversão, os quais na verdade precisam ser superados para que possamos chegar ao ato positivo? (p. 229)
A partir dessa questão, ela analisa a inerência da morte no ato erótico, e tece uma teoria sobre a tendência do eu à sua própria destruição, como via para a transformação. O eu está, portanto, sempre em mutação, se destruindo e se recriando sucessivamente: “Compreendi então que a principal característica do indivíduo consiste no fato de ele ser um divíduo” (p. 237).
Apesar de conterem diferenças metapsicológicas importantes, o texto de Spielrein, de certo modo, antecipa questões que serão expostas em Além do princípio do prazer (Freud, 1920/2010a), no âmbito do segundo dualismo pulsional e, mais especificamente, na conceituação freudiana de pulsão de morte e de dualidade psíquica.
Spielrein encontrou-se com Freud em Viena, pela primeira vez, em 1911, e no dia 29 de novembro daquele ano ela apresentou o trabalho “A destruição como origem do devir” em um dos encontros organizados por ele - que reuniu Freud, Federn, Rank, Sachs, Stekel, Tausk, entre outros (Nunberg & Federn, 1974). Alguns meses após essa apresentação, Freud escreveu para Jung, em 21 de março de 1912, comentando o trabalho de Spielrein: “Ela é muito brilhante; tudo o que diz tem significado; o seu impulso destrutivo não é muito do meu gosto, porque creio que é pessoalmente condicionado. Ela parece anormalmente ambivalente” (McGuire, 1974, p. 562). Em resposta, Jung escreveu para Freud, em 1º de abril de 1912:
Estava trabalhando no artigo de Spielrein. Que se diga: desinat in piscem mulier formosa superne.5 … Ela leu muito pouco e falhou inteiramente neste ensaio, que não é suficientemente completo. … Além disso, o ensaio está sobrecarregado de seus próprios complexos. (McGuire, 1974, pp. 565-566)
Ou seja, apesar do evidente reconhecimento relativo à nota de rodapé, podemos vislumbrar, pelos comentários anteriores, a ambivalência que permeia a recepção do seu trabalho na época.
Entrelaçamentos: paciente e amante
A relação de Spielrein com Jung começou em 1904, com sua internação no Instituto Burghölzli, em Zurique, então dirigido por Bleuler. Jung a tratou por 10 meses, até 1905, quando ela ingressou na Faculdade de Medicina da Universidade de Zurique, a partir da orientação de Bleuler. A sintomatologia da jovem se configurava como um quadro de histeria, com tiques, torções, dores e ataques de cólera, apresentando-se como uma grande oportunidade de aplicação do método freudiano, que já era objeto de estudo de Jung. Além de ser um caso interessante, que oferecia oportunidade de diálogo com Freud, a jovem histérica também era muito interessante: inteligente, tornou-se uma parceira intelectual de Jung e, juntos, estudavam e discutiam psicanálise (Richebächer, 2012).
A transferência foi intensa, e a paciente russa mudava seu comportamento na presença ou ausência do médico: quando ele não estava, ela ficava agressiva ou sofria de tiques e dores; quando ele retornava, tudo ficava bem e ela se mostrava solícita. Contava a Jung, com forte resistência, das agressões que tinha sofrido do pai na infância, e da excitação que sentia ao ver o pai agredir o irmão - e que, posteriormente, bastava a visão das mãos do pai para que sentisse excitação. Nesse período do tratamento, Sabina pedia a Jung: “Eu só quero sentir dor. … Eu quero que você faça algo muito ruim comigo, que me force a fazer algo que eu me oponha com todas as minhas forças” (Covington & Wharton, 2003, pp. 66-67). Para Jung, conforme descrito por ele nos registros de internação do hospital, a relação entre os dois reportava-se claramente ao complexo paterno da paciente (Covington & Wharton, 2003).
Após deixar o Burghölzli, Spielrein viveu um intenso apaixonamento por Jung, desejando um filho dele, que chama de Siegfried. Esse período, marcado por profunda amizade e trocas teóricas, durou até cerca de 1911, quando ela começou a se afastar do mestre (Richebächer, 2012). Entretanto, devemos destacar que a natureza da relação entre Sabina e Jung, após a alta do Hospital Burghölzli em 1905, não é clara, sendo objeto de largas discussões na comunidade psicanalítica.
Os dois seguem trocando cartas, algumas muito afetuosas, e se encontrando, até mesmo na residência de Jung e de sua família. Não há evidências de que ela tenha continuado a ser tratada como paciente, mas é fato que os dois continuaram a se encontrar, até mesmo como mestre e aluna - visto que, nessa época, ela já estava na faculdade e cultivava interesse pela psicanálise -, e também se evidencia o tom amoroso nas cartas trocadas entre ambos (Covington & Wharton, 2003).
Em 1909, Jung comete um equívoco: diante da ameaça de escândalo feita por uma aluna apaixonada por ele (Cromberg, 2008), interpreta que isso seria proveniente de Spielrein e, preocupado, escreve a Freud no dia 7 de março:
Uma paciente que há anos tirei de uma neurose incômoda, sem poupar esforços, traiu minha confiança e amizade da maneira mais mortificante que se possa imaginar. Resolveu armar um torpe escândalo simplesmente porque me neguei ao prazer de lhe fazer um filho. Sempre procedi com ela como um perfeito cavalheiro, mas perante o tribunal de minha consciência por demais sensitiva não me sinto realmente imaculado, e é isso o que mais dói, porque minhas intenções nunca deixaram de ser dignas. Mas o senhor sabe como são as coisas - mesmo o que há de melhor pode servir ao diabo para a fabricação de imundície. (McGuire, 1974, p. 257, grifo nosso)
Acusando Spielrein, ele se desresponsabiliza de qualquer envolvimento. Do lado de Freud, em resposta a Jung, ele entende completamente o amigo e oferece apoio. Spielrein escreve, então, uma sequência de cartas a Freud, revelando seu grande desapontamento com Jung, e evidencia uma confusão de papéis: ora Jung dizia-se seu médico, ora seu amigo, ora manifestava seus desejos amorosos sob o título de uma suposta poligamia: “O Dr. Jung, há quatro anos, foi meu médico; depois, tornou-se um amigo e, em seguida, ‘poeta’, isto é, amante. … Ele pregava a poligamia, sua mulher estaria de acordo etc.” (Carotenuto, 1984, p. 167).
Quando se esclarece que havia sim envolvimento, mas Spielrein não buscava escândalo algum, Freud se desculpa com ela pelo mal-entendido, mas Jung segue se defendendo, referindo-se a si mesmo como um marido exemplar: “Nunca tive na verdade uma amante e sou o mais inocente dos maridos. Daí minha violenta reação moral!” (McGuire, 1974, p. 262).
Ainda em 1909, após a ameaça de escândalo que Jung supôs vir de Spielrein, ela reflete sobre as atitudes recentes de Jung, sua grosseria e falta de responsabilidade, em uma das cartas da sequência enviada a Freud, de 10 de junho:
Durante três meses, analisei tudo, mergulhei em minha natureza, e procurei salvar a mim e ao meu ideal; no final, falei com uma colega, isto é, mostrei-lhe todas as cartas, e o resultado foi que me senti ainda mais só, já que não se podia desculpar o meu amado, e a ideia de que ele pudesse ser um homem mesquinho, que fazia experiências comigo, levava-me à loucura. (Carotenuto, 1984, p. 166)
Uma vez esclarecidos os mal-entendidos, e diante do parecer favorável de Freud em relação à atitude de Spielrein, as partes pareceram concordar que o relacionamento havia terminado, ficando os amigos em paz novamente. No entanto, a relação entre ambos continuou. Conforme relata em seus diários de 1909 a 1911, Spielrein quer superar esse amor e busca vias para isso - como substituí-lo por outro homem, com quem possa se casar -, mas continua muito próxima a Jung (Covington & Wharton, 2003).
Mais adiante, quando finalmente Spielrein informa a Jung por carta a sua decisão de “matar a fantasia de Siegfried para se dedicar aos cuidados de sua filha”, ele lhe responde, em carta de 3 de abril de 1919: “Esta faísca não pode e nunca será extinta. Se você trair isso, você está amaldiçoada” (Covington & Wharton, 2003, pp. 165-166).
Nesse contexto tão complexo, temos que nos amparar nas investigações existentes até o momento, em que aspectos clínicos e transferenciais se embaraçam a relatos no contexto amoroso entre médico e paciente. O que queremos sublinhar, porém, é que o grande interesse suscitado pela história controversa de um relacionamento entre analista e paciente estimulou e alimentou o esquecimento da obra escrita de Sabina Spielrein.
Nosso objetivo não é enveredar nem pelo campo das especulações nem pelo das obscuridades subjacentes a essa vertente propriamente amorosa da relação com Jung, mas questionar o esquecimento e sublinhar as contribuições teóricas dessa autora tão interessante e tão injustamente banida da história oficial da instituição psicanalítica.
A obra publicada de Spielrein é composta por 30 artigos, escritos entre 1911 e 1923, e seu papel na difusão da psicanálise foi de grande importância, especialmente na psicanálise russa e na psicanálise com crianças.6
O responsável pela publicação de documentos de Sabina Spielrein, descobertos em 1977, e que estavam guardados desde 1923 no porão da biblioteca do Instituto de Psicologia da Universidade de Genebra, foi Aldo Carotenuto, professor da Universidade de Roma e analista junguiano. Entretanto, ele fez uma publicação parcial dos documentos, privilegiando algumas cartas e trechos dos diários de Sabina, em detrimento de outros. Desde então, foram feitas outras publicações, mais completas, que propiciaram outra forma de olhar esse material. Cromberg (2008, 2014), em sua organização em três volumes das obras completas, cartas e diários de Spielrein traduzidos para o português, e Covington e Wharton (2003), com a tradução do material para o inglês, destacam as contribuições teóricas da autora e permitem que o leitor tenha uma apreensão do relacionamento de Spielrein com Jung, segundo uma leitura mais próxima do ponto de vista dela.
O “caso” Sabina Spielrein
Ainda em setembro de 1907, quando Sabina e Jung estavam em contato regular, o próprio Jung apresenta uma versão do “caso” Sabina Spielrein, em uma conferência de neurologia em Amsterdã. A apresentação é uma grande defesa da visão freudiana da histeria e do método de associação livre, que resgataria conteúdos inconscientes mais profundos do que a hipnose. O texto de Jung, publicado sob o título “A teoria freudiana da histeria” (1907/2011), descreve essa teoria e a ilustra a partir de sua própria experiência profissional com Spielrein: “Trata-se de um caso de histeria psicótica numa jovem senhora de 20 anos, intelectualmente bem-dotada” (loc. 467, par. 53). O diagnóstico de histeria psicótica não havia sido empregado anteriormente, fosse por Jung, fosse por Bleuler, nem mesmo nos registros do Hospital Burghölzli. Então nos perguntamos: por que mudar o diagnóstico de uma paciente que teve alta do hospital anos antes, em uma apresentação teórica do método freudiano?
A apresentação contém elementos instigantes sobre o uso do “caso” de Sabina Spielrein - nesse momento, uma colega profissional. Jung enfatiza a relação de Sabina com o pai, não inclui a mãe nem a complexa dinâmica familiar na etiologia do adoecimento, e centraliza todos os elementos da história clínica para uma leitura de não resolução do complexo de Édipo:
O pai era o objeto de transferência da sua libido infantil, e por isso as resistências se voltaram sobretudo contra ele, ao passo que a mãe não era atingida pelas resistências. Nessa época manifestou-se também uma inclinação pelo seu professor, que por sua vez foi vítima do sentimento de asco que se interpunha. Para essa jovem extremamente carente de amor, esse isolamento afetivo deveria naturalmente acarretar as mais sérias consequências, que de fato não se fizeram esperar. (loc. 470, par. 56)
Mesmo que a intenção de Jung fosse causar mais impacto na plateia e aderência à psicanálise freudiana, nossa hipótese é que essa alteração possa ter um efeito de descrédito, que contribui para o esquecimento da obra de Spielrein.
Spielrein teve um significativo percurso profissional como uma das primeiras psicanalistas da história, tendo sido paciente antes de se tornar psicanalista. Mesmo quando deixa de ter Jung como médico, e suas trocas ficam cada vez mais enriquecidas por debates psicanalíticos, ela continua sendo referida como “paciente”. É notável a demarcação de assimetria nessas relações. Que espaço poderia ocupar a amante e paciente na história da constituição do campo psicanalítico?
A instituição psicanalítica e as mulheres
Sabina Spielrein foi a segunda mulher a participar da Sociedade Psicanalítica de Viena, tendo sido aceita como membro no dia 11 de outubro de 1911, mesma data em que a única outra mulher, primeira a fazer parte desse grupo, se desligou da sociedade. Tratava-se de Margarete Hilferding, admitida no dia 27 de abril de 1910, após intensas discussões entre os membros sobre a viabilidade de receberem integrantes mulheres (Nunberg & Federn, 1974). Para um público de 20 homens, em sua primeira e única apresentação, Hilferding levou uma discussão inovadora com o trabalho “As bases do amor materno”: a autora propõe que o amor materno não é inato, mas que o bebê representa, para a mãe, um objeto de prazer sexual, como o prazer no seio pela amamentação, e outros prazeres envolvidos na maternagem.
Os comentários sobre o texto são extensos, mas Hilferding destaca que, “de certa forma, sentiu que não foi compreendida” (Nunberg & Federn, 1974, p. 125). Os participantes da reunião mostraram resistência à ideia de que o amor materno não é inato; consideraram, em sua maioria, que as mães com sentimentos hostis em relação aos filhos são exceções; e rapidamente introduziram o debate sobre o amor paterno. A recepção a Hilferding esclarece o “clima” da Sociedade Psicanalítica de Viena na época, na qual Spielrein entraria em breve.
Retornemos à foto do congresso de Weimar, de 1911. Jung ocupou um lugar proeminente no evento, e foi acompanhado de sua esposa, Emma Jung, e de sua nova amante, Antonia Wolff - ambas aparecem na fotografia (Cromberg, 2008). Antonia era uma mulher de 22 anos, que foi paciente de Jung, inteligente e conhecedora de mitologia clássica, com quem Jung manteve uma relação até o fim da vida. Spielrein alegou não poder comparecer devido às suas clássicas dores nos pés, sintoma que a acompanhava desde a internação no Burghölzli e que era, frequentemente, registrado em seus diários. Jung lamenta sua ausência (Covington & Wharton, 2003).
Nada nos impede de formular a hipótese, na perspectiva do percurso posterior de Sabina, de que sua ausência nesse congresso revele um movimento de respeito ao seu próprio trabalho, no sentido de protegê-lo, viabilizando sua potência de criação. Em função de sua relação com Jung, temia não se desenvolver como mulher e como autora - o que fez até o fim da vida. Contudo, supomos que a natureza polêmica da relação dos dois, no âmbito do próprio campo psicanalítico da época, em que a teoria se solidificava e se difundia, bem como a disposição do mestre em não admitir sua responsabilidade nesse relacionamento contribuíram significativamente para o esquecimento da obra de Spielrein.
Nesse sentido, sua condição de autoria foi obscurecida na história oficial da psicanálise, destacando-se seu papel de amante ou de paciente, em sua vinculação direta a um homem imbuído de muito poder dentro da instituição psicanalítica. Submetida ao esquecimento a própria condição de sujeito de uma obra, o que foi sublinhado foi o lugar de Sabina como objeto de estudo de uma teoria. A obra da autora, porém, conseguiu fazer esta inversão: de paciente a médica, de objeto a sujeito de pesquisa. Ela se desprende da devoção ao mestre e cria algo próprio: uma arquitetura teórica original.
Uma metapsicologia inovadora: destruição e criação
Um criador só faz aquilo de que tem absoluta necessidade.
GILLES DELEUZE
Em sua monografia Sobre o conteúdo de um caso de esquizofrenia (1911/2014b), Spielrein desenvolve a hipótese de que o inconsciente contém não somente experiências individuais, mas também oriundas do passado filogenético, de tal forma que a esquizofrenia poderia ser considerada uma forma de dissolução de um conteúdo pessoal, pertinente ao eu, nessas vivências filogenéticas, relativas ao nós. A ideia da dissolução do eu no nós será mais bem explorada em “A destruição como origem do devir” (1912/2014a), quando a autora elabora uma distinção entre dois espaços da psique que expressam tendências antagônicas: a psique do eu, que contém a tendência à diferenciação, e a psique da espécie, que manifesta a tendência à dissolução e à assimilação.
A tendência à diferenciação diz respeito à conservação do eu, com suas representações diferenciadas, ou seja, individuais; é uma tendência inerte, já que busca a manutenção do eu atual. A tendência à dissolução e à assimilação, por outro lado, é dinâmica e ambivalente, com componentes positivos e negativos, e que insiste na indiferenciação das representações do eu em representações da espécie. A pulsão sexual é expressão da tendência à dissolução, e contém, em seu âmago, a pulsão de morte. Portanto, a sexualidade liga-se, no pensamento da autora, à destrutividade; e essa destruição leva à transformação da experiência do eu em experiência da espécie, fazendo surgir, da matéria original, algo novo. Nas palavras da autora:
A pulsão de conservação da espécie é uma pulsão de procriação, e ela se expressa também psiquicamente na dissolução e na tendência à assimilação (transformação do eu em um nós) com a consequente nova diferenciação a partir da “matéria original”. “Onde o amor reina, o eu morre, esse déspota tenebroso.” No amor, a dissolução do eu no ser amado é, ao mesmo tempo, a autoafirmação, uma nova vida na pessoa do ser amado. (p. 261)
A destruição é inerente ao processo de criação, e a criação acompanha, necessariamente, a destruição. Uma experiência do eu assimilada pela psique da espécie não é portanto aniquilada, mas ressurge transformada e, segundo Spielrein, mais rica do que antes: assim se expressa o processo da criação artística. A arte é a busca pela expressão através do típico, do comum, daquilo que pode ser compartilhado com os outros. Cada representação que transmitimos aos outros, “diretamente ou na forma de uma obra de arte, é produto da diferenciação das vivências primevas que compõem nossa psique” (p. 243).
No entrelaçamento dos trabalhos científicos com as cartas e diários de Sabina Spielrein, percebemos como sua obra é expressão das ideias que desenvolveu sobre o processo criativo, aproximando-se da perspectiva apresentada por Deleuze (1999), que utilizamos como epígrafe deste tópico. A obra da autora está intimamente ligada às ocorrências da sua vida, ao seu lugar social, à sua condição de mulher, à sua história, aos seus amores e ao seu sofrimento: circunscreve temáticas relativas ao amor e à destruição, à criação a partir de vivências subliminares, e ainda toca em questões que seriam desenvolvidas posteriormente, sobre a condição feminina e o alcance da conceituação de feminilidade.
A criação autoral de Spielrein não pereceu diante de uma conjuntura política e social que insistiu em seu apagamento - não apenas como autora, mas também como pessoa, nas políticas de extermínio que resultaram no fim de sua vida. Nesse sentido, alinha-se estreitamente à sua concepção de criação, a qual, quando exteriorizada, é capaz de resistir ao apagamento, no sentido de integrar-se àquilo que é comum, ao mesmo tempo que destrói, sempre gerando algo novo (Spielrein, 1912/2014a).
Outra vertente que nos importa anunciar são suas contribuições no âmbito das questões relativas à condição feminina e à feminilidade, cuja relevância foi muito destacada posteriormente na literatura psicanalítica. Nesse contexto, Spielrein segue teorizando sobre a criação em seu texto “A sogra” (1913/2014c), no qual afirma que a possibilidade de criação, que passa pela capacidade de transformar um conflito próprio em algo impessoal, é menor nas mulheres do que nos homens. Isso se dá porque as mulheres tendem a trazer para si o que é vivido pelo outro, empaticamente, e até mesmo a realizar-se através do outro; no caso dos homens, que não são tão abertos à empatia como as mulheres, eles criariam mais e melhor do que elas.
Não é que as mulheres não sejam capazes de criar, nem que não existam brilhantes artistas mulheres. O que ela pretendeu enfatizar é que, devido às escassas possibilidades de se integrar à trama social, as mulheres o fazem, em grande parte, a partir da maternidade: “A mulher tem muito menos possibilidades de vivenciar seus desejos pessoais na realidade. Em compensação, ela possui uma capacidade muito maior de ‘empatia’ por outras personalidades e, assim, de viver suas vidas com elas” (p. 353).
Percebemos, nesse pequeno texto, que a autora era capaz de enxergar as limitações sociais impostas às mulheres, e as consequências disso para o exercício de uma potência criativa. Em suas palavras, é nessa forma de empatia que está “o motivo pelo qual as mulheres, apesar de não estarem nem um pouco atrás dos homens em inteligência e poder de imaginação, não terem criado nem de longe produtos artísticos com a mesma importância que eles” (p. 353).
Em “A destruição como origem do devir” (1912/2014a), Spielrein tece uma diferenciação das formas de amar masculina e feminina. Levando em conta que o feminino não se restringe à mulher, e o masculino não se restringe ao homem, já que ambos estão contidos em cada um, “no homem, o qual tem a função ativa de conquistar a fêmea, as representações do sujeito dominam; na mulher, por outro lado, a qual deve atrair o homem, as representações no sentido inverso passam a predominar” (p. 252). Em relação à pulsão sexual - que, relembremos, contém a destruição -, os homens, por serem mais ativos, querem destruir o objeto de amor, enquanto as mulheres desejam ser destruídas por eles.
No entanto, que tipo de destruição é essa, à qual aparentemente, na obra de Spielrein, as mulheres estão mais propensas? Se a destruição sempre contém a criação, dela deriva o surgimento do novo - no caso das mulheres, elas vivem a gravidez e o nascimento de um bebê como momentos emblemáticos. Aqui se recorta uma questão promissora: a autora não incorreria em uma contradição ao afirmar que as mulheres são menos propensas à criação?
Considerações finais
Finalmente, gostaríamos de enfatizar como a teorização da autora sobre a questão do primordial remete-nos às reflexões freudianas fundamentais sobre a feminilidade, tão bem desenvolvidas em “Análise terminável e interminável” (Freud, 1937/2018), cujas ressonâncias, no âmbito da metapsicologia freudiana, são evidentes e inquestionáveis.
Encarar certa dose de desamparo é preciso, portanto, para inventar um estilo próprio de habitar a existência, tensionando as referências identificatórias (Birman, 1999) - o que, segundo o repertório conceitual de Spielrein (1912/2014a), significa mergulhar no indiferenciado como condição fundamental para o nascimento do novo, desembaraçando-se da rigidez do eu.
Entendemos que o percurso do processo criativo de Spielrein, no seio de um ambiente psicanalítico tão adverso, expressa justamente a conquista de uma autoria, que enfim começou a ser reconhecida nas instituições acadêmicas e psicanalíticas.
Esperamos que nossa pesquisa seja uma contribuição nesse sentido.











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