Psicanálise rumo aos estudos das relações raciais no Brasil
À medida que me aprofundei nas investigações teóricas e clínicas sobre as relações raciais no Brasil, percebi a carência de estudos que explorem ou analisem a complexidade envolvida na possível interação entre os mecanismos denegatórios e os processos de colonialidade. É sobre esse primeiro aspecto que desejo abordar as contribuições do texto de Ignácio A. Paim Filho e Hayanna Carvalho Santos Ribeiro da Silva. O segundo aspecto que enfocarei está relacionado à forma como a psicanálise tem tratado os processos de colonialidade e a branquitude, com o intuito de localizar como esse trabalho se insere nesse contexto. Por fim, os autores provocam a reflexão sobre a necessidade de racializar o divã, o setting psicanalítico e a figura do analista. Este será o terceiro e último aspecto que examinarei neste breve comentário.
É notório que o texto não se resume aos três pontos elencados acima. Diante de um trabalho tão abrangente e fértil - tão extenso em matéria de reflexões e propostas, retrato de uma mente criativa e inquieta -, coube a mim realizar algumas escolhas, cujo critério foi a aproximação das ideias dos autores com aspectos do debate presente no campo dos “Estudos críticos da branquitude” (cws).2
Denunciando os mecanismos da colonialidade
Com acuidade, Paim e Silva nos oferecem uma leitura acerca das operações psíquicas engendradas nos processos de colonialidade no Brasil, mostrando, a partir da proposta de ampliação da noção de “neurose cultural brasileira” (Gonzalez, 2020), a complexidade presente no fenômeno do racismo em nosso país. Os autores vão propor uma expansão conceitual ao que denomina “psiconeurose narcísica da cultura brasileira”, com o intuito de demonstrar que, além da foraclusão, o recalque e a clivagem também são operações que compõem e sustentam a dinâmica da violência racial no Brasil.
Os autores visibilizam e reintroduzem no centro dos estudos psicanalíticos sobre o racismo a presença de múltiplas operações que estruturam e regulam a interação do branco com o negro. Sustento que a ampliação proposta por Paim e Silva, que consiste em reconhecer a multiplicidade dos mecanismos denegatórios presentes no racismo à brasileira, nos impõe a necessidade de refletir e explorar como esses mecanismos produzem influências e são influenciados pela dinâmica da colonialidade.
Nesse sentido, antes de nos atermos à proposta de ampliação feita pelos autores, acredito que seja pertinente realizar uma breve digressão, a fim de situar os leitores acerca da questão da branquitude e da colonialidade. Esse trajeto nos fornecerá elementos indispensáveis para as reflexões que serão desenvolvidas mais adiante.
Branquitude, colonialidade e mecanismos denegatórios
A branquitude é a materialização institucional da colonialidade em curso. É uma tecnologia de poder extremamente sofisticada, com a capacidade de se reinventar e adquirir novas roupagens, a fim de manter a moderna estrutura suprematista da branquitude. Com isso, apoiamos a ideia de que, para abordar a influência da branquitude nas relações raciais, é necessário nos ater às peculiaridades do processo de colonização de cada território e, consequentemente, às reverberações que se sucederam após o encontro entre o colonizador e o colonizado.
Sendo assim, quanto à estrutura e dinâmica da branquitude, podemos dizer que é uma “posição de poder, é uma posição de privilégio, ocupada por aqueles que são considerados brancos” (Carneiro et al., 2023, p. 45). É uma tecnologia de poder colonialista, que se apresenta com caráter dinâmico e se estabelece sempre em contraposição ao não branco. Dada a singularidade do processo de colonização brasileiro, é necessário entender que a branquitude pode se manifestar de várias formas e só pode ser compreendida a partir da observação da performance de pessoas brancas, por exemplo, em seus relacionamentos amorosos, familiares, de trabalho, e nas relações analíticas não poderia ser diferente. Poderíamos sintetizar a branquitude como “uma guardiã silenciosa dos privilégios” (Bento, 2022, p. 41).
A branquitude não só encapsula a ideia de supremacia racial branca, mas também define como a narrativa em torno dessa supremacia é construída, mantida e perpetuada pelos próprios beneficiários desse sistema, seja por meio da ação direta ou do silêncio cúmplice.
O branco não se vê como portador de uma raça. A raça é uma categoria criada para distinguir o eu branco do outro negro (Faustino et al., 2023). Então, por exemplo, quando o sujeito branco opta por não usar a categoria de raça como critério nas decisões institucionais, ele está escolhendo não considerar os negros ou outros não brancos nesse processo. O resultado é um conjunto de sujeitos brancos tomando decisões institucionais que privilegiam grupos de sujeitos brancos em detrimento de grupos não brancos, materializando-se assim uma dinâmica relacional chamada “pacto narcísico da branquitude”.
Cida Bento (2022) propõe o conceito de “pacto narcísico da branquitude” para explicar como grupos brancos se organizam em função da manutenção de seus privilégios. Diz Bento:
As instituições públicas, privadas e da sociedade civil definem, regulamentam e transmitem um modo de funcionamento que torna homogêneo e uniforme não só os processos, ferramentas e sistemas de valores, mas também o perfil de seus empregados e lideranças, majoritariamente masculino e branco. Essa transmissão atravessa gerações e altera pouco a hierarquia das relações de dominação ali incrustadas. Esse fenômeno tem um nome, branquitude, e sua perpetuação no tempo se deve a um pacto de cumplicidade não verbalizado entre pessoas brancas, que visa manter seus privilégios. É claro que elas competem entre si, mas é uma competição entre segmentos que se consideram “iguais” (Bento, 2022, p. 18)
Continua dizendo:
O pacto narcísico é um pacto de referenciamento e fortalecimento entre iguais, mas também é um pacto de morte. O conceito de narcisismo é um conceito de morte, no sentido de que uma sociedade é desumanizada e desfigurada por um grupo que quer se manter no poder a qualquer preço, ficando cada vez mais assustador e violento com a ampliação das vozes negras que apontam a branquitude como relação de expropriação e dominação. É esse pacto narcísico que o mantém nessa condição de privilégio e poder. É esse lugar estéril e de morte no sentido de que a uniformidade não é geradora de vida, não cria o novo, só representa mais do mesmo. (Bento, 2022, p. 18, grifo nosso)
Vejamos: os autores que pesquisam a branquitude apontam para a importância de lançar um olhar ao lugar ou do território de onde se originam os discursos e práticas da branquitude. A estratégia metodológica consiste em analisar como esse território regula a estratégia, seu caráter, o estilo e a performance desenvolvida por grupos de sujeitos brancos, para manutenção de uma estrutura de poder que opere em função de seus privilégios.
Permitam-me reiterar um ponto de suma importância. Conforme tem sido observado até o presente momento, os processos de colonialidade não estão necessariamente alinhados a uma agenda oriunda do Norte Global. As pesquisas provenientes dos CWS demonstram que o processo de colonialidade passou a atender a agendas locais, resultando na perpetuação de uma identidade branca, frequentemente velada, que se revela como constantemente mutável e contingente, adaptando-se às características dos grupos que são reconhecidos como brancos em contextos locais (Hunter & Westhuizen, 2022). Em outras palavras, a colonialidade, enquanto uma tecnologia de segregação social, não se limita a cor e fenótipo europeu como critérios de parâmetros para o processo de exclusão social. Os CWS revelam que a lógica imperialista fragmentou-se, manifestando-se a partir de elementos presentes nas comunidades locais. Não obstante, essa lógica se orienta sempre em função da referência de brancura e branquitude hegemônica, que atualmente corresponde ao modelo de organização social neoliberal estadunidense (Cardoso, 2020).
Meu interesse, com essa digressão, consistiu em apresentar o funcionamento da dinâmica da branquitude. Acredito que apresentar esse contexto inicialmente se justifica em razão de dois pontos: 1) Porque nos fornece elementos para refletir sobre o estilo, a forma e a textura pela qual os processos de colonialidade se estabelecem. 2) Porque, reconhecendo o funcionamento ou as estratégias da branquitude, podemos pensar em como essa tecnologia de poder pode provocar efeitos diversos na subjetividade. Nesse sentido, faz-se pertinente neste momento levantar a seguinte indagação: haveria uma correlação entre os mecanismos denegatórios de caráter racial e a dinâmica que se estabelece nos processos de colonialidade? Em outras palavras, as manifestações desses mecanismos denegatórios estariam intrinsecamente relacionadas ou obedeceriam à forma como a branquitude opera em cada contexto territorial?
Pensando de outra forma, se, com Paim e Silva, consideramos que o racismo à brasileira não se sustenta apenas sob um mecanismo denegatório, mas em um amplo escopo de mecanismos com enraizamentos, se assim quisermos dizer, em dimensões ou registros distintos do inconsciente. Um além do recalque. Acredito existir valor nas seguintes reflexões: o que faz com que o fenômeno do racismo à brasileira se enraíze em mais de um tipo de mecanismo denegatório, como defendem Paim e Silva? Se, de acordo com a abordagem sugerida pelos autores, é possível afirmar que, no Brasil, vivemos sob a constante tentativa de apagamento de nosso passado escravocrata, produzindo assim um recalque na população brasileira quanto às violências raciais sofridas; se é possível afirmar a existência de uma dinâmica perversa que pode ser traduzida pela expressão “sei, mas, mesmo assim”, que caracteriza o desmentido e a clivagem na dinâmica racial brasileira (Gondar, 2022); se é possível ainda afirmar que, em certa parcela da população brasileira, a violência racial foi foracluída (Gonzalez, 2020), ou seja, se notamos uma não inscrição da violência racial no inconsciente de grande parcela de brasileiros, acredito que seja necessário pensarmos na possível relação entre branquitude e os mecanismos denegatórios.
Podemos refletir ainda. Estariam, então, as expressões de denegação subordinadas ao estilo pelo qual a dinâmica de poder da branquitude se estabelece nos territórios e instituições, ou estaria a branquitude subordinada aos distintos mecanismos denegatórios? Transcendendo uma lógica de pensamento binária, acredito que podemos formular nossas reflexões de outra forma, como, por exemplo: poderíamos considerar que a interação entre os mecanismos denegatórios e a branquitude teria, em sua base, um caráter de regulação mútua? Ou, ainda, haveria nessa dinâmica relacional momentos de sobredeterminação dos mecanismos denegatórios sobre a dinâmica da branquitude, e vice-versa? Onde se insere a vantagem de orientar as reflexões considerando essas interações?
Caso essas indagações encontrem ancoragem na realidade, sugiro que é exatamente aqui que pode se inserir uma das vantagens oriundas da ampliação conceitual proposta pelos autores. Diria, então, que sua abordagem ou ampliação contribui para pensarmos a dinâmica dos mecanismos denegatórios de forma relacional, portanto, situada racialmente e mais intersubjetiva. Distanciando-nos, assim, de uma abordagem dos mecanismos de defesa atrelados a uma lógica intrapsíquica de caráter metafísico e substancializada do inconsciente. Em síntese, sugiro que a ampliação proposta por Paim e Hayanna nos proporciona a oportunidade de investigar a presença de uma possível dinâmica de regulação mútua, presente na interação entre os mecanismos denegatórios e os processos de colonialidade que permeiam a branquitude. Assim, ao considerarmos as operações desses mecanismos denegatórios como influenciadas pelos processos de colonialidade, somos levados a ponderar sobre a existência de uma regulação mútua.
Caso consigamos identificar correlações entre a dinâmica da colonialidade e os mecanismos de negação, torna-se necessário explorar e analisar a maneira como tais mecanismos emergem no setting e na sociedade. O reconhecimento das expressões intersubjetivas e sociais de denegação racial pode proporcionar aos analistas uma maior sensibilidade em relação às manifestações de dor e sofrimento de seus analisandos, bem como às estratégias de cura que estes adotam em transferência.
Ademais, essa compreensão implicará o analista na análise das dinâmicas colonialistas que permeiam a interação intersubjetiva no setting analítico. Nesse sentido, podemos conceber o analista como um sujeito que, assim como seus analisandos, é atravessado por dinâmicas de poder de caráter interseccional e que, por sua vez, também recorre a recursos denegatórios. Recursos esses que podem ganhar materialidade no setting, por meio de contratransferências, reveries ou enactments.
Essa perspectiva solapa a noção de neutralidade, presente em certas concepções clínicas, provocando o campo psicanalítico a refletir sobre os atravessamentos do contexto sócio-histórico, suas produções teórico-técnicas e as implicações desses atravessamentos na dinâmica analítica. Diria que, partindo dessa perspectiva, podemos vislumbrar um analista mais intersubjetivo.3
Uma reflexão sobre a abordagem da branquitude pela psicanálise
O segundo aspecto que vou focalizar diz respeito à localização do trabalho de Paim e Silva no âmbito da produção psicanalítica acerca do racismo, bem como à maneira pela qual os autores examinam a branquitude a partir da psicanálise.
Em minha compreensão, o trabalho se propôs a abordar o tamanho do desafio que se apresenta aos psicanalistas quando consideram a multiplicidade de mecanismos denegatórios presentes no racismo à brasileira e as implicações dessas denegações para a população negra. Ou seja, os autores foca sua discussão no sofrimento do negro.
Podemos então dizer que o trabalho de Paim e Silva soma-se a um conjunto de estudos que buscam tratar o sofrimento do negro, sua dor e seus impasses numa sociedade altamente racializada. Embora os autores intuam uma relação entre branquitude e mecanismos denegatórios, não aborda os aspectos intersubjetivos envolvidos nas múltiplas configurações possíveis de interação inter-racial, intrarracial e étnico-racial, que se encontram no território nacional. Em tempo, é necessário dizer que as reflexões dos autores nos oferecem elementos significativos para que novos trabalhos possam desenvolver esses aspectos relacionais e intersubjetivos.
Conforme Lourenço Cardoso (2020) indica em sua noção de “razão dual racial”, embora seja de fundamental importância a exploração contínua do funcionamento do colonialismo e da branquitude, não podemos perder de vista que, se nos mantivermos alinhados a uma lente de pesquisa que privilegia a incidência sistêmica da dinâmica de poder do branco sobre o negro, continuaremos ainda regulados por uma esteira epistemológica binária.
As teorias raciais e racialistas, bem como as teorias antirracistas, têm operado suas análises num modelo dual, em que o negro e o branco são os únicos atores. Segundo Cardoso (2020), existe uma racionalidade nessa forma de abordar o debate racial no Brasil. Para ele, essa racionalidade espelha o modelo colonialista e ocidental de pensar os encontros étnico-raciais. No Brasil, podemos perceber a influência dessa racionalidade nas produções acadêmicas que privilegiam análises sobre o branco e o negro, o senhor e o escravo, o empregador e o empregado. Portanto, sendo essa dualidade marcada pela noção de raça, Cardoso (2020) nomeia essa estratégia encobrimento da branquitude como “razão dual racial” e propõe que repensemos o caráter e o horizonte das produções sobre as racialidades no país.
O produto desse modelo binário é uma epistemologia sobre o negro, visto que o branco não ganha atenção significativa enquanto objeto de pesquisa, se o compararmos ao volume de produções sobre o tema do negro. Resta aos brancos, sujeitos que ocupam majoritariamente os espaços de produção de pesquisa, produzirem uma narrativa sobre o negro. Nesse sentido, quando falamos de uma epistemologia do negro brasileiro, deixa de fazer sentido a ideia de relações raciais (Cardoso, 2020).
Dessa forma, observo que, se os estudos psicanalíticos sobre a branquitude e a colonialidade continuarem focando predominantemente no sofrimento do negro, permaneceremos concentrados numa produção de conhecimento que, em certa instância, contribuirá para a invisibilidade das estratégias da branquitude e de seu funcionamento. Situado nessa linha argumentativa, sugiro que ainda não podemos dizer que estamos estudando rigorosamente as relações raciais na psicanálise. Diz Cardoso:
No Brasil, a teoria relativa à branquitude significa, simplesmente por existir, a superação de “uma primeira” limitação do nosso modo de pensar. Refiro-me à cegueira que obstaculiza a problematização do branco. Olhar o branco, problematizá-lo, depois de tantos anos que Guerreiro Ramos nos incumbiu da tarefa de analisar o branco (Ramos, 1995[1957]b, pp. 215-240), finalmente, o estamos investigando de forma mais sólida e sistemática. Trata-se, evidentemente, de um passo à frente, um avanço importante, porém, insuficiente. Na minha perspectiva, o grande passo será dado com a superação do nosso modo de pensar da razão dual racial. (Cardoso, 2020, p. 78)
Então, acompanhando o pensamento de Cardoso (2020), concluímos que, para pensar a construção de um campo de estudos das relações raciais na psicanálise propriamente dita, não bastará apontarmos apenas as estratégias da branquitude em sua relação contrastante com o negro brasileiro, mas incluir outros grupos de indivíduos, oriundos de outras matrizes étnico-raciais e sua relação com a branquitude. Pensar as relações raciais no Brasil implica refletir sobre como a branquitude e os processos de colonialidade instauram binarismos racializantes, estabelecendo contrastes e subalternizações a partir da noção de raça, a exemplo do binômio Sudeste (moderno)/Nordeste (primitivo), como nos mostra Weinstein (2022). Essa proposta impõe a nós psicanalistas brasileiros o desafio de analisar como esses conteúdos se atravessam na cena transferencial, não como meros observadores do mundo ou como testemunhas silenciosas e desafetadas do genocídio negro e indígena desenfreado, mas como atores sociais que têm em suas mãos uma arma poderosa que pode agenciar mudanças individuais e coletivas.
Sobre o processo de racialização
Chegamos agora ao terceiro e último ponto que abordarei, relacionado ao trabalho de Paim e Silva, e que está diretamente ligado ao segundo. Trata-se da racialização da psicanálise e da pessoa do analista.
Já temos uma vasta literatura que aponta a necessidade de racialização da psicanálise. Se, por um lado, podemos afirmar que grande parte dos trabalhos e estudos psicanalíticos sobre o racismo em nosso país apontam para a necessidade de racialização do psicanalista, do seu setting e da psicanálise enquanto instituição e campo de produção de conhecimento. Por outro lado, é necessário sublinhar que carecemos de estudos que explorem de forma mais profunda, seja em pesquisas acadêmicas qualitativas, seja em análises clínicas ou estudos metapsicológicos, a dinâmica subjetiva e intersubjetiva presente no processo de racialização do analista, suas teorizações e dinâmicas institucionais presentes nas sociedades psicanalíticas. Em minha dissertação de mestrado (Souza Júnior, 2024), enfatizei a urgente necessidade dessas explorações e investigações, considerando as dimensões transferênciais, contratransferenciais e metapsicológicas sob uma perspectiva intersubjetiva.
Dada a escassez de tais estudos, recorri em meu trabalho a fragmentos clínicos apresentados nos trabalhos de Ana Gebrim (2021) e Eliana Reis (2022) para abordar a questão da racialização do analista. Evidenciei como ambas passaram por experiências análogas no que tange aos processos de racialização, a partir de suas vivências com seus analisandos no setting (Souza Júnior, 2024). Observemos um dado que considero importante.
Em seus respectivos trabalhos, as autoras nos comunicam que tiveram sua brancura e sua branquitude nomeadas e expostas por seus analisandos. Segundo elas, esse ato por parte de seus analisados as levou a um processo de racialização. No entanto, as autoras não se detiveram em descrever e discutir em seus trabalhos como se estabeleceu esse processo de racialização ou tomada de consciência racial na dinâmica clínica. Naquele momento, algumas perguntas se impuseram e ainda não encontraram destinos de respostas. Tais como:
clinicamente falando, quais os efeitos ou como [se estabeleceu] … a dinâmica intersubjetiva entre a dupla analítica, quando a psicanalista ainda não tinha uma autopercepção de sua branquitude e os privilégios advindos dela? Conforme a[s] autora[s], o primeiro passo para sustentar um espaço de escuta dos sofrimentos de ordem racial é o analista racializar-se, mas e depois desse processo? Quais os efeitos produzidos na análise quando o analista se racializa? Racializar-se produziria uma espécie de antídoto antiexpressão da branquitude? Ou, considerando que a branquitude continua a se expressar no processo analítico, mesmo o analista sendo um sujeito racializado, quais as expressões dessa tecnologia de poder colonialista no setting?
Ao formular essas perguntas neste momento, não temos a pretensão de respondê-las a partir de especulações teóricas. Aqui, pensamos que elas podem apontar ainda para outras preocupações sobre as quais, enquanto psicanalistas, precisamos ficar advertidos: quais as implicações clínicas caso os estudos sobre a branquitude do analista passem a enfatizar a necessidade de racialização? Será que a ênfase dada à necessidade de racialização do analista branco não seria uma forma de defesa por parte dos próprios analistas brancos, tornando o que estamos chamando de racialização uma cura artificial da identidade branca? (Souza Júnior, 2024, p. 165)
Dado esse contexto, torna-se então necessário ressaltar que, tanto do ponto de vista clínico quanto do teórico, carecemos de elementos suficientes para evidenciar os arranjos inconscientes que levam um indivíduo, beneficiário da branquitude, a optar, mesmo que por um breve instante, por abdicar de seus privilégios e adotar posturas antirracistas, em detrimento do gozo desses mesmos privilégios.
Em vias de uma psicanálise das relações raciais
Neste breve percurso, meu objetivo foi destacar as contribuições que considerei mais significativas do trabalho de Paim e Silva, considerando os debates contemporâneos sobre a colonialidade e a branquitude nos campos fronteiriços à psicanálise. Ademais, destaco a importância da ampliação da noção de “neurose cultural brasileira” para “psiconeurose narcísica brasileira”. Dentro dessa proposta, sublinho que sua ampliação, automaticamente, traz para o campo psicanalítico questões que já vêm sendo discutidas por estudiosos da colonialidade e da branquitude, as quais o campo psicanalítico ainda não teve a oportunidade de explorar com maior profundidade, a exemplo da relação dos mecanismos denegatórios com os processos de colonialidade, e como esses mecanismos e processos podem se regular mutuamente.
Busquei situar o leitor onde o trabalho de Paim e Silva se insere no campo das produções psicanalíticas sobre as racialidades, mostrando como a importância da racialização da psicanálise e do analista, apontada pelos autores e por outros estudos, carece de maiores investigações.
Em consonância com o pensamento de Cardoso (2020), proponho que um dos caminhos metodológicos possíveis, tanto para analisar a questão das relações raciais no setting psicanalítico quanto a questão da racialização do analista e da psicanálise no Brasil, consista em implementar estudos qualitativos, clínicos e explorações metapsicológicas, que analisem não apenas os mecanismos denegatórios perpetuados por pessoas ou analistas reconhecidos como brancos em relação ao negro, mas também em relação a outros sujeitos oriundos de outras matrizes étnico-raciais. A invisibilidade de outros grupos étnico-raciais nessas análises e pesquisas contribuiria para a manutenção de uma invisibilização da agência dos sujeitos brancos e uma hipervisibilização do negro, fazendo com que, consequentemente, a análise das “relações raciais” estivesse restrita ao binômio branco-negro, e suprimindo assim elementos complexos presentes nas performances denegatórias de sujeitos brancos e analistas brancos, especialmente quando estão em contato com a multiplicidade de sujeitos não brancos que compõem o tecido social brasileiro.
Conforme refleti, uma pesquisa ou análise psicanalítica, restrita à lógica da razão dual racial, tende a suprimir conteúdos inconscientes e culturais que poderiam emergir na transferência, contratransferência ou no campo intersubjetivo, por não reconhecer que, além do negro, existe uma multiplicidade de experiências étnico-raciais que compõem nosso território nacional, carregadas, por exemplo, de conteúdos transgeneracionais.
Nesse sentido, quais os limites e possibilidades de uma leitura dos mecanismos de denegação do branco brasileiro ou do analista branco no Brasil, se não considerarmos os aspectos relacionais e intersubjetivos que obedecem a demandas institucionais ancoradas no território onde o sujeito branco ou o analista branco está estabelecido? Como pensar uma “metapsicologia do fogo colonial”, tal qual propõem Paim e Silva, sem considerar o lugar de onde enunciamos nossos discursos ou a experiência de nossa corporeidade de forma relacional e intersubjetiva? Como pensar uma psicanálise das relações raciais sem considerar a multiplicidade de identidades ou experiências étnico-raciais que compõem nosso país?
Tendo em vista essas reflexões, sublinho que, se Lélia Gonzalez, por seu turno, nos indica a importância do lugar no qual enunciamos nosso discurso e nossa experiência, o trabalho de Paim e Silva, por sua vez, com sua proposta de ampliar nossa compreensão sobre os mecanismos denegatórios presentes no racismo à brasileira, contribui com o início da pavimentação do terreno para estudos que possam pensar as relações raciais propriamente ditas, apontando para as instâncias denegatórias presentes na relação dos brancos com outros brancos e nas relações dos brancos com os outros não brancos brasileiros. Esperemos que possamos constatar, a partir de novos ensaios e pesquisas, como a articulação do pensamento desses dois autores produzirá deslocamentos e avanços na compreensão clínica e social acerca dos encontros intrarraciais e inter-raciais.













