Introdução
Desde os primórdios da psicanálise, tentativas de relacionar o pensamento psicanalítico com a cultura e a sociedade foram realizadas. Embora, para Freud, o universo da clínica tenha sido a matriz a partir da qual a teoria psicanalítica se expandiu, a psicanálise era para ele muito mais do que um método terapêutico e seu alcance estendia-se à análise investigativa de fenômenos culturais. Contudo, os discípulos de Freud abraçaram essas causas de formas muito variadas, conferindo maior ou menor interesse às influências do contexto sócio-histórico e do ambiente externo em suas formulações teórico-clínicas, como observamos nas diferentes escolas de pensamento psicanalítico. A psicanálise contemporânea vem ultrapassando a “era das escolas”, que, por décadas, conduziu os psicanalistas “a opções exclusivas: pulsão ou relação de objeto; desamparo e dependência ou desejo; fantasia ou trauma; conflito ou déficit; intrapsíquico ou intersubjetivo?” (Figueiredo, 2009, p. 9). Transcender essas quase ideológicas opções parece ser necessário através da adoção de uma “lógica do paradoxo, substituindo o ou pelo e” nas formulações psicanalíticas, mantendo “a psicanálise aberta à criação e à invenção permanente” (p. 9). Hoje, a psicanálise e as disciplinas afins demandam uma fertilização cruzada e transdisciplinar através de uma “lógica de ambos e”/logic of both-and (Tubert- -Oklander, 2014, p. 163), muitas vezes adquirida por um “diálogo paradoxal entre paradigmas” (Figueiredo, 2009, p. 13). Adotando essa lógica, as epistemologias de diferentes abordagens psicanalíticas e das teorias analíticas de grupo podem construir, não sem discordâncias, um campo de trabalho suficientemente bom, nos quais as diferenças epistemológicas e os paradoxos podem ser contemplados e tolerados, permanecendo, contudo, não resolvidos.
Entretanto, a despeito da valorização do pensamento intersubjetivo na psicanálise, ainda hoje persistem reflexões que, mesmo inadvertidamente, têm como elemento norteador uma visão que opõe indivíduo e sociedade (Elias, 1939/1994), desconsiderando o contexto sociopolítico e cultural em que o sujeito se constitui. Nesse sentido, é fundamental recordar as palavras de Freud na Psicologia das massas, ao afirmar que “a psicologia individual é ao mesmo tempo também psicologia social”, postulação que aponta para a relação do indivíduo com o outro tomado “como modelo, como objeto, como auxiliar, como oponente” (Freud, 1921/1974, p. 91). Embora o potencial transformador da premissa freudiana tenha sido pouco valorizado por décadas, sua afirmação permitiu que trabalhos de orientação psicanalítica fora do setting tradicional adquirissem sentido e legitimação.
Atualmente, a sociedade espera que psicanalistas e analistas de grupo se posicionem sobre temas relacionados à violência, ao trauma, ao racismo, aos processos decoloniais, às políticas de identidade e à exclusão. Para tal, fazem-se necessárias a utilização de abordagens transdisciplinares e a criação de settings ampliados no enfrentamento dos desafios impostos pelo mundo contemporâneo. Nessa dimensão, Nosek (2008) recorda que a tarefa do psicanalista é abrir caminhos que levem do campo pulsional ao civilizatório, produzindo pensamento e ação no mundo, justificando, assim, uma prática clínica e uma atividade reflexiva sobre o mal-estar que nos cerca na atualidade.
O início dos trabalhos com grupos na Inglaterra e na América Latina
Em 1918, no 5º Congresso Internacional de Psicanálise, realizado em Budapeste logo após a Primeira Guerra Mundial, Freud, Ferenczi, Abraham, Simmel e Jones (1921/2023) apontaram para a interferência do contexto social no desenvolvimento das neuroses de guerra. Embora suas observações tenham conduzido Freud às elaborações teóricas na segunda tópica, após a Primeira Guerra, o interesse pela neurose traumática declinou. Contudo, a Segunda Guerra Mundial revelou novas facetas das neuroses traumáticas e formas de adoecimento somático e de estresse psicológico que predominavam entre soldados e vítimas (Thorner, 1946). Tais desafios demandavam dos psiquiatras convocados pelo exército inglês a criação de dispositivos de intervenção clínica. Foi assim que no Hospital de Northfield, na Inglaterra (1942 a 1946), dois experimentos inovadores permitiram o surgimento do trabalho analítico com grupos. O primeiro, conduzido por John Rickman e Wilfred Bion (1961/1975) com grupos sem líder, levou à conceitualização de grupos de supostos básicos - dependência, luta e fuga, e acasalamento - e grupo de trabalho, fundamentais para o estudo de processos primitivos e angústias psicóticas em grupos. Após a guerra, o primeiro experimento permitiu a fundação do Tavistock Institute of Human Relations, em 1946, responsável pela criação dos trabalhos realizados pela group relations, voltados para os estudos sobre liderança e organizações e centrados no legado do trabalho com grupos de Bion (Trist & Murray, 1990). Já o segundo experimento originou a criação das comunidades terapêuticas e do trabalho com pequenos grupos analíticos conduzidos pelo psicanalista alemão S. H. Foulkes, levando, em 1952, à criação da Group Analytic Society (Harrison, 2000). Associando a psicanálise freudiana e a sociologia de Norbert Elias, a grupanálise (Foulkes, 1948, 1964, 1975a; E. Foulkes, 1990) permitiu a exploração de processos intrassubjetivos, intersubjetivos e transubjetivos em pequenos, médios e grandes grupos.
Em paralelo e de forma independente, a partir de 1936, na Argentina, Pichon-Rivière formulou a unidade essencial entre os mundos interno e externo. Sua epistemologia centrava-se em uma abordagem pluridimensional do “homem-em-situação” (Pichon-Rivière, 1980, p. xii). Foulkes e Pichon- -Rivière não concebiam a distinção entre o indivíduo e a sociedade: “É uma abstração, um reducionismo que não podemos aceitar, pois carregamos a sociedade dentro de nós” (Tubert-Oklander & Hernández-Tubert, 2022, p. 106). Para Pichon-Rivière (1980), a mente, o corpo e o mundo externo formam uma unidade e estão dialeticamente inter-relacionados no tempo e no espaço por meio de um processo espiral dialético em constante expansão, trazendo evolução e mudança ao campo analítico. Em 1958, Pichon-Rivière, José Bleger, David Liberman, entre outros, idealizaram a Experiência de Rosário na Argentina, que deu origem à teoria e à técnica de grupos operativos, hoje aplicada em escolas, hospitais e comunidades. A experiência inovadora envolveu, através de conferências e trabalhos em pequenos grupos homogêneos e heterogêneos, a comunidade da cidade de Rosário. Nesse sentido, a experiência pode ser considerada pioneira com grandes grupos na América Latina.
Os primórdios do trabalho analítico com grupos no Brasil - conhecidos em nosso meio como psicoterapia analítica de grupo - estão interligados ao florescimento do movimento psicanalítico na Argentina na década de 1940. Em 1942, Ángel Garma, Arnaldo Rascovsky, Enrique Pichon-Rivière, Celes Cárcamo, Marie Langer e Enrique Ferrari-Hardoy fundaram a Associação Psicanalítica Argentina (apa). No final da década de 1940, a primeira geração de psicanalistas brasileiros, incluindo Walderedo Ismael de Oliveira, Alcyon Baher Bahía, Danilo Perestrello e Marialzira Perestrello (do Rio de Janeiro), Zaira Martins, Mário Martins, José Lemmertz e Cyro Martins (do Rio Grande do Sul), havia concluído sua análise didática com figuras importantes da apa. Essa experiência proporcionou-lhes os requisitos psicanalíticos para fundar, com outros analistas didatas, a Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro (sbprj) e a Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (sppa). Durante a estada na Argentina, os pioneiros brasileiros se familiarizaram com o trabalho analítico em grupo. Walderedo Ismael de Oliveira realizou sua análise didática com Marie Langer e, em 1947, entrou em contato com o trabalho em grupo de Pichon-Rivière (Martins, 2017).
O primeiro grupo analítico no Brasil foi conduzido por Alcyon Baher Bahía no Serviço Nacional de Doenças Mentais do Rio de Janeiro, em 1951. Com base no que aprendera com Pichon-Rivière, na Argentina, e nas experiências de Bion em grupos em Northfield e no Tavistock Institute, Bahía estabeleceu um serviço pioneiro de terapia de grupo (Martins, 2017). Em 1951, em São Paulo, Bernardo Blay Neto, inspirado por técnicas de psicodrama, conduziu grupos na enfermaria feminina do mesmo hospital. Em 1954, a Universidade de São Paulo (usp) implementou um programa de formação em psicologia clínica no atual Instituto de Psicologia. Na universidade, Durval Marcondes, em associação com Lygia Amaral - que estagiou na Clínica Tavistock em 1951 -, ofereceu grupos a estudantes a partir de 1955, abrindo uma clínica universitária em 1962 (Zimmermann & Bertoni, 1969).
A partir dessas experiências e inspirados pela combinação da abordagem de “grupos como um todo” de Grinberg, Langer e Rodrigué (1957) com as ideias de Bion e Foulkes em grupos, a psicoterapia analítica de grupo floresceu no Brasil pelos “três centros autodidatas e autônomos” (Zimmermann & Bertoni, 1969, p. 43), localizados no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Porto Alegre. A partir da década de 1990, as sociedades de formação em psicoterapia analítica de grupo entraram em declínio no país. Hoje, os trabalhos com grupos parecem receber um novo impulso a partir de universidades e iniciativas de psicanalistas e acadêmicos em clínicas sociais fomentando a criação de dispositivos de atendimento de pessoas em grupo. Entretanto, a riqueza teórico-clínica dos trabalhos com grupos realizados no passado no Brasil, bem como as abordagens contemporâneas da escola inglesa com grupos analíticos permanecem pouco conhecidas pelas novas gerações. Uma dessas contribuições diz respeito ao trabalho com grandes grupos desenvolvidos pela grupanálise inglesa e pela group relations no Tavistock Institute. Esses trabalhos, pouco conhecidos no Brasil, são bastante valorizados em institutos de formação na Europa, em Israel e nos Estados Unidos, estando presentes em conferências e congressos em todo o mundo, inclusive nos realizados pela Associação Psicanalítica Internacional (IPA), dentro da abordagem da group relations (Erlich et al., 2009).
O trabalho com grandes grupos
A década de 1970 foi um período de transformações e mudanças na prática psicanalítica e no trabalho com grupos. As pesquisas voltaram-se para a investigação de angústias primitivas e aspectos regressivos e pré-edípicos, presentes tanto nos pacientes difíceis quanto na psicodinâmica dos grupos. Assim, explorações analíticas caminharam para além das considerações enunciadas por Freud acerca do funcionamento grupal, ao se debruçarem não apenas sobre a ideia do líder como pai edipiano simbólico, mas sobre os momentos pré-edípicos das formações grupais. Nessa direção, a pesquisa sobre psicodinâmica de grandes grupos permitiu questionar o pensamento conservador de Le Bon sobre a psicologia das multidões do século 19, aprofundando e ampliando as investigações psicanalíticas sobre a psicologia das massas em diálogo transdisciplinar com a sociologia, a filosofia e a história (Penna, 2023).
O ímpeto herdado dos experimentos de Northfield, combinado com as novas perspectivas socioculturais das décadas de 1960 e 1970, conduziu a inovações nos cuidados em saúde mental que levaram ao desenvolvimento do trabalho com grandes grupos. Em 1965, no Hospital Halliwick, na Inglaterra, Lionel Kreeger e Patrick de Maré fomentaram uma nova cultura de atendimento em settings hospitalares e comunitários ao utilizarem técnicas analíticas grupais. Nesses espaços, iniciaram, em 1966, o trabalho com grandes grupos. Em 1971, o Institute of Group Analysis, em Londres, incluiu experiências com grandes grupos nos programas de formação grupanalítica. No ano seguinte, no Segundo Simpósio Europeu de Group Analysis, Kreeger (1975) e De Maré (2012) incluíram sessões de grande grupo no programa científico.
Em seus primórdios, o trabalho com grandes grupos era pouco desenvolvido, não estando restrito a uma única perspectiva teórica. Além disso, experiências com grandes grupos realizadas por grupanalistas se sobrepunham àquelas conduzidas pelos profissionais alinhados à tradição da group relations. Desde 1957, esses profissionais encontravam-se envolvidos com o desenvolvimento das Leicester Conferences, na Inglaterra, e dos trabalhos no A. K. Rice Institute, nos eua, que serviam de base à aprendizagem sobre liderança em grupos. Essas conferências incluíam no programa experiências com grandes grupos (Trist & Murray, 1990). Paralelamente, membros da Group Analytic Society empenhavam-se no trabalho com grandes grupos em ambientes hospitalares, tais como hospitais-dia, enfermarias, comunidades terapêuticas e reuniões comunitárias. A primeira geração devotada ao trabalho com grandes grupos em grupanálise foi influenciada por uma mistura de perspectivas teóricas freudianas, kleinianas, bionianas e foulkesianas (Wilke, 2003a). No entanto, enquanto o campo da group relations havia construído um enquadre mais estruturado e unificado para o trabalho, baseando-se em teorias de grupo bionianas, na grupanálise nunca houve uma abordagem única para o trabalho com grandes grupos (Penna, 2023).
Em 1975, Kreeger editou a primeira coletânea de artigos sobre grandes grupos: The large group: dynamic and therapy, na qual diferentes pioneiros ofereceram uma análise abrangente das primeiras tentativas de trabalho com grandes grupos. O ecletismo das contribuições é fascinante; no entanto, revelam dúvidas em relação à definição do que é um grande grupo, seu objetivo, o tamanho ideal, a ecologia do setting, o papel do(s) condutor(es) e também quanto ao seu valor terapêutico. Essas questões requerem investigação cuidadosa, no entanto, a participação em grandes grupos proporciona uma dimensão nova e ampliada da experiência pessoal, revelando aspectos das relações humanas que não são facilmente encontrados ou que não são revelados para os sujeitos em pequenos grupos (Hinshelwood, 1987).
A literatura sobre o tema diverge, especialmente quanto ao número ideal de pessoas para compor um grande grupo. Em pequenos grupos terapêuticos, o número de participantes varia entre sete e doze pessoas. Em grandes grupos, por outro lado, pode envolver entre 50 e 100 participantes, ou mais (Foulkes, 1975b, p. 52). Dependendo do número de participantes, seus membros podem não mais estarem frente a frente, impedindo que o grupo possa ser visualizado em sua totalidade através de um único olhar. Dependendo do tamanho de um grande grupo, a possibilidade de interações face a face diminui, excluindo a criação de intimidade, identificações ou estreitamento de laços entre seus membros. Isso pode conduzir à indiferença, ao anonimato e à alienação (Kreeger, 1975). Além disso, o tamanho, as propriedades acústicas da sala e a disposição das cadeiras - em dois ou três níveis, dispostas em círculos concêntricos ou em espiral - interferem na audição, na visão e na interação. Se as cadeiras estiverem dispostas em círculos concêntricos, a proximidade entre os participantes aumenta, facilitando a interação. Por outro lado, quando os participantes se sentam de costas uns para os outros, a experiência pode produzir ambivalência, conduzindo à criação de falsas hierarquias e de ansiedades paranoicas.
O trabalho com grandes grupos grupanalíticos explora a psicodinâmica de grandes grupos artificialmente criados como sistemas transitórios e não institucionalizados em institutos de formação, congressos, conferências e workshops. Isso nos permite realizar o estudo da sua psicodinâmica “como se fosse” um laboratório (Wilke, 2003a). Grandes grupos construídos oferecem oportunidades para o estudo da regressão, de processos primários e de fases iniciais da vida inconsciente, ampliando a compreensão de que “as defesas comuns contra a dor mental, a negação, a cisão e a projeção nos outros, têm imensas consequências sociais quando utilizadas por grupos inteiros de indivíduos” (Main, 1975, p. 63). A participação em grandes grupos remete ao “autoestudo” (Turquet, 1975, p. 90) e contribui para ampliar o autoconhecimento, permitindo que as pessoas aprendam da experiência sobre processos socialmente inconscientes (Hopper & Weinberg, 2011, 2016, 2017), cocriados por interações interpessoais e transpessoais. Embora desenvolvidos para a criação de interações criativas, pensamento, diálogo e mudança, grandes grupos podem também conduzir a projeções massivas, fragmentação, processo de exclusão e criação de “bodes expiatórios” (Pines, 1975). Além disso, os trabalhos em grandes grupos podem favorecer o surgimento de relações de poder, lutas por liderança, polarização e formação de subgrupos e contragrupos (Hopper, 2003b).
Inspirado nos antigos anfiteatros gregos, Pat de Maré (De Maré et al., 1991) formulou uma hipótese sobre a interação em grandes grupos. Sua abordagem encontra-se relacionada ao princípio de Koinonia, termo grego que remete ao desenvolvimento de um espírito de comunhão, bem como a criação de uma cultura de união (togetherness) e concidadania. O grande grupo oferece uma estrutura ou um meio para conectar o mundo interno de seus participantes às dimensões socioculturais em que as relações interpessoais têm lugar. Ele proporciona um setting no qual o espaço/gap existente entre cada indivíduo e seu ambiente sociocultural pode ser investigado a partir de uma perspectiva que o pequeno grupo simplesmente não pode proporcionar. Nesta direção, para De Maré, o trabalho contínuo em grandes grupos aponta para a possibilidade de humanizar a sociedade e desenvolver a cidadania através do diálogo entre pares.
O trabalho em grandes grupos construídos desencadeia fortes emoções, frustrando necessidades libidinais, mobilizando aspectos regressivos e ansiedades primitivas, bem como defesas e mecanismos psicóticos que conduzem desde ameaças à identidade (Turquet, 1975) até pânico e ódio (De Maré et al., 1991). No entanto, e quase paradoxalmente, o trabalho em grande grupo permite a criação de espaços seguros para a autorreflexão coletiva, transformando processos inconscientes - como os comportamentos irracionais das multidões do século 19 ou o comportamento dos seguidores atomizados das massas totalitárias do século 20 - em novas formas de pensamento e diálogo entre pessoas, grupos, instituições e comunidades (Penna, 2023).
Assim como Foulkes, os grupanalistas da segunda geração, como De Maré, Kreeger, Main, Turquet, Skynner e Pines, foram traumatizados pelo fascismo e pela Segunda Guerra Mundial. Engajados no contexto transformador das décadas de 1960 e 1970, almejavam a criação de possibilidades terapêuticas através dos trabalhos em grandes grupos. Entusiasmaram-se com a possibilidade de cocriar espaços seguros que pudessem prevenir o surgimento de formas de pensamento fundamentalista. Nas palavras de De Maré: “A única resposta à violência em massa é o diálogo coletivo” (De Maré et al., 1991, p. 31). Talvez a afirmação de De Maré sintetize os ideais de sua geração, materializado na grupanálise através do projeto do trabalho com grandes grupos. Suas inovações foram certamente influenciadas pelo desejo de utilizar os grandes grupos para fomentar o pensamento democrático e a liderança entre pares, fortalecendo o laço social e a cidadania madura. Nessa direção, o trabalho em grandes grupos conserva sua atualidade no mundo contemporâneo. Soma-se a isso o fato de que o trabalho com grandes grupos se tornou um instrumento teórico-técnico para lidar com experiências traumáticas coletivas e feridas transgeracionais. Por meio do trabalho em grande grupo, tem sido possível entrar em contato com o que foi inconscientemente transmitido, negado, encapsulado (Hopper, 1991) e encriptado (Abraham & Torok, 1995).
Em 1979, os psicanalistas britânicos Earl Hopper, Caroline Garland e outros (Hopper, 2003a) conduziram o workshop Síndrome do Sobrevivente. Foi uma iniciativa pioneira realizada pela grupanálise, com pessoas traumatizadas pela Shoá através do trabalho com pequenos e grandes grupos. O workshop alinhava-se aos primeiros esforços psicanalíticos, que, a partir da década de 1980, investigaram experiências traumáticas e processos de elaboração com o objetivo de interferir e tratar os efeitos das transmissões psíquicas transgeracionais. As experiências no workshop revelaram que os grandes grupos tendem a recapitular, isto é, a encenar (enact) processos socialmente inconscientes presentes em grupos e sociedades. De fato, através de processos de “equivalência”2 (Hopper, 2003a, p. 73) - ou “processos paralelos” (Searles, 1955) - é possível observar nos grandes grupos as experiências traumáticas presentes na vida inconsciente de grupos.
Na mesma direção, as experiências pioneiras do psicanalista Josef Shaked (2003) com grandes grupos transculturais na Áustria, na Alemanha e na Ucrânia (antes e depois do fim da Guerra Fria), bem como em Israel, facilitaram o confronto entre diferentes normas culturais e processos sociopolíticos vivenciadas por participantes. Tais iniciativas permitiram o início da elaboração traumática de feridas coletivas e a reparação de conflitos intergrupais no contexto sociopolítico. Foi assim que, a partir da década de 1980, a associação entre trauma coletivo e trabalho em grandes grupos permitiu a investigação sobre processos socialmente inconscientes presentes em grupos e sociedades (Hopper & Weinberg, 2011, 2016, 2017).
Trabalhos em grandes grupos possibilitam ainda, a partir do aqui e agora das sessões, observar os pressupostos básicos de Bion (1961/1975), como também explorar a psicodinâmica das formulações teóricas de psicanalistas (Sandler, 2001), grupanalistas (Hopper, 2003b) e profissionais da group relations (Lawrence et al., 2000) em suas tentativas de conceitualizar novos pressupostos básicos que se somariam ou não àqueles postulados por Bion.
Conduzir, facilitar ou coordenar grandes grupos
Em grupanálise, ainda é um desafio discutir o papel e o estilo do(s) condutor(es) e/ou facilitador(es) de grandes grupos, talvez porque pouco tenha sido escrito sobre o assunto (Wilke, 2003b). Foulkes (1964) foi enfático sobre o papel do condutor de pequenos grupos, no entanto, em relação aos grandes grupos, Foulkes (1975b) não disse muito além de recomendar que a equipe de condutores se reunisse periodicamente para discutir as reações imediatas às sessões e o nível ótimo de intervenção grupal, bem como a importância da manutenção de um nível tolerável de tensão no grupo de modo a permitir um trabalho construtivo. Skynner (1975) salientou que os condutores de grandes grupos devem abandonar posturas analíticas mais clássicas, tornando-se mais proativos e diretivos em suas intervenções, contendo níveis elevados de ansiedade e/ou abandonos prematuros das sessões. Para Kreeger (1975), conduzir um grande grupo é uma tarefa semelhante a “São Jorge lutando contra o dragão”, dada a mobilização de afetos profundos, fenômenos psicóticos e processos projetivos. O condutor fica sobrecarregado, exausto, diante da responsabilidade de criar um ambiente seguro, manter os limites do setting ao mesmo tempo que procura expandir a comunicação entre os participantes, almejando a criação de uma cultura de grupo (Wilke, 2003b).
Heribert Knott (2012) discutiu o trabalho com grandes grupos explorando os desafios enfrentados pelo condutor, destacando as angústias e a solidão que o atravessa. A oscilação entre processos de integração e desintegração e entre estados esquizoparanoides e depressivos concorre durante uma sessão. Assim, o condutor necessita adquirir múltiplas habilidades com o intuito de reunir, traduzir, unir e analisar as resistências, interpretando-as ao mesmo tempo que aponta para as fantasias inconscientes do grupo (p. 297). O condutor precisa, no aqui e agora da sessão, fazer uso da capacidade negativa em diálogo com a contratransferência. Talvez pelo nível de dificuldade envolvido, grandes grupos tendem atualmente a ser conduzidos por três ou quatro grupanalistas. A preparação do trabalho, a arrumação das cadeiras no setting e as discussões entre condutores antes e após as sessões são ainda tarefas essenciais.
O psicanalista argentino Juan Tubert-Oklander, radicado no México, e a psicanalista mexicana Reyna Hernández-Tubert (2022) compararam os estilos britânico e latino-americano de condução, facilitação e/ou coordenação de grandes grupos. Para eles, os britânicos trabalham mais como facilitadores do que como condutores, marcando um estilo mais passivo e reservado de estar nas sessões. Como observaram, o britânico Malcolm Pines (1975) introduziu um estilo eclético e benigno de facilitar e fomentar a comunicação em grandes grupos. Sua atitude pode ser descrita como típica da tradição grupanalítica, ao reafirmar a confiança que Foulkes (1964) depositou na comunicação, na interação e na progressão do processo grupal. Já na tradição latino-americana, tendo em vista a técnica dos grupos operativos de Pichon-Rivière, os condutores parecem não atuar como facilitadores, mas sim como coordenadores, sendo considerados como copensadores do processo. Nessa direção, os coordenadores latino-americanos revelam uma atitude mais ativa no fomento das interações grupais, contribuindo para a reflexão e a consecução da tarefa do grupo operativo através do uso de intervenções e interpretações. Apesar de diferenças teóricas, as tradições grupanalíticas inglesas e latino-americanas apresentam pontos em comum e uma fertilização cruzada na forma como vislumbram a condução, a facilitação ou a coordenação do trabalho analítico com grupos.
Em suma, existem diferentes estilos de intervenção, condução, facilitação e/ou coordenação de grandes grupos. Como sugeriu Patrick de Maré (2012), o objetivo principal é aprender a pensar em conjunto em prol do desenvolvimento do pensamento do grupo. Encontrar um equilíbrio ótimo nas sessões não está apenas relacionado às técnicas utilizadas, mas também está associado ao contexto e ao setting nos quais o grupo acontece. Nesse sentido, a realização de um bom trabalho em grande grupo parece estar associada à capacidade do condutor, do facilitador ou do coordenador de estar atento à ação dos processos socialmente inconscientes presentes na sessão, bem como com a singularidade de sua orientação teórico-técnica, estilo pessoal e personalidade. Tais habilidades relacionam-se à sua capacidade de oferecer continência, holding e limites, que - como peles psíquicas, envelopes psíquicos - possibilitam aos participantes do grupo o enfrentamento de ansiedades catastróficas e o medo do aniquilamento durante as sessões de grande grupo.
Perspectivas atuais no trabalho com grandes grupos
O trabalho com grandes grupos nasceu na Europa do pós-guerra, quando as relações horizontais e democráticas eram encorajadas e idealizadas. No entanto, o século 21 tem apresentado novos desafios. As experiências traumáticas do nosso tempo, a barbárie das guerras atuais e a extrema polarização que atravessa o mundo político-social intensificaram o sofrimento pessoal e coletivo, dificultando a criação de laços mais fraternos entre pessoas, grupos e sociedades.
Nas últimas décadas, o trabalho com grandes grupos afirmou-se como uma ferramenta de investigação teórico-técnica sobre a psicodinâmica de pessoas reunidas em grande número, sendo realizado em hospitais, comunidades terapêuticas, institutos de formação, instituições, organizações, conferências, workshops e comunidades. No cenário internacional, sua presença consolida-se - seja em congressos e conferências de psicanálise, grupanálise e group relations na Europa; seja em workshops e encontros científicos em países afetados por guerras e traumas sociais, como Sérvia, Ucrânia e Israel; seja em países em que o trabalho é ainda pouco conhecido, como no México, no Japão e na China. No Brasil, as possibilidades de trabalhos em grandes grupos são inúmeras, não apenas em trabalhos comunitários e clínicas sociais como também em hospitais, institutos de formação, universidades e trabalho organizacional.
Atualmente, o estudo da vida inconsciente dos grupos e da psicodinâmica dos grandes grupos parece crucial para enfrentar os desafios contemporâneos. Os grandes grupos proporcionam espaços únicos para lidar com transmissões psíquicas e experiências traumáticas e para fomentar o diálogo, a saúde mental e psicossocial e a cidadania democrática no mundo atual. No entanto, dadas as dificuldades socioeconômicas e psicossociais contemporâneas, para alguns, a ideia de trabalhar com grandes grupos leva à ambivalência e à descrença na possibilidade de utilizar o grande grupo como uma ferramenta para humanizar a sociedade e fomentar a concidadania. De fato, sessões de grande grupo, especialmente aquelas com mais de 100 pessoas, podem ser hoje desafiantes dada a polarização e as relações de poder presentes no mundo social. Embora concebidas como espaço para autorreflexão e promoção de diálogo, as interações em grande grupo correm o risco de se transformarem em palco para disputas político-ideológicas e/ou confrontos entre identidades pessoais, sociais e nacionais em busca de legitimação e representação. Nesse sentido, através de processos de equivalência e encenações (enactments), grandes grupos podem presentificar e atualizar experiências traumáticas não elaboradas, mas que clamam por representação no espaço social.
Enfim, a ideia de aprender da experiência em grandes grupos parece ser apenas um sparkle of togetherness/lampejo de “união” em meio aos laços sociais esgarçados, polarizados, traumatizados ou mesmo rompidos no desafiante século 21. Contudo, a capacidade negativa em Keats e Bion nos ensina diariamente que é fundamental tolerar a dor e a incerteza do não saber para apostar nos paradoxos que envolvem as pequenas, mas também as infinitas possibilidades do trabalho em grandes grupos.













