O conceito de agência humana ( human agency) se refere à percepção de que os indivíduos não são apenas produtos das circunstâncias de vida a que são submetidos, ou seja, de que são capazes de fazer escolhas, definir objetivos e agir com base nessas decisões ( BANDURA, 2006). Nesse sentido, a agência humana (ou agency) pressupõe indivíduos cocriadores das circunstâncias de vida e de suas consequências, que se comportam em função da manifestação da vontade de agir ( KABEER, 1999), o que promove impactos no âmbito pessoal, social, econômico e organizacional ( CAUCE; GORDON, 2012).
As discussões acerca da conceitualização de agency não são recentes. Mesmo com o desenvolvimento conceitual do construto por diferentes autores, distintas perspectivas teóricas e estudos empíricos, a imprecisão do termo indica não ter sido solucionada. A associação do construto a diversos outros conceitos também é um fator observado, em que reducionismos ou generalizações são observados no uso da expressão, visto que boa parte dos conceitos utilizados se trata apenas de dimensões da agency. Tais equívocos acabam não contemplando a totalidade e complexidade do construto, sendo recomendado um processo de reconceitualização da agency ( ABELE, 2003; EMIRBAYER; MISCHE, 1998).
A compreensão da teoria já existente sobre o construto é fundamental nesse processo, já que a não observação e revisão dos avanços de estudos e técnicas existentes pode ocasionar esforços redundantes ( ABELE, 2003). Mesmo com as diferentes conceitualizações e percepções sobre agency, há concordância entre os autores em alguns aspectos, como a necessidade de considerar a multidimensionalidade do construto independentemente do método adotado para investigação. Alguns fatores podem ser inseridos ou retirados de acordo com a necessidade ou caso específico. No entanto, outros são elementos fundamentais para a compreensão da agency, tais como locus de controle, liberdade para decidir ( CAUCE; GORDON, 2012) e a ideia de vontade como a motivação para execução da ação ( REYNOLDS; PLACIDO, 2020).
Diferentes níveis e tipos de agency são necessários e variam de acordo com as distintas situações e contextos vivenciados, que não se limitam à agency pessoal. Tal capacidade pode ser impulsionada pelos ambientes sociais e relacionais que o indivíduo possui. Com isso, a ideia de “independência total” não é um pressuposto alinhado à agency, já que as pessoas não estão desconectadas de suas relações umas com as outras e exercem influência entre si ( LANDES; SETTERSTEN, 2019). Logo, o modo de funcionamento dos indivíduos é um resultado decorrente das influências intrapessoais e das forças ambientais a que estão submetidos ( BANDURA, 2018).
O objetivo deste estudo foi analisar as perspectivas teórico-metodológicas sobre agency, com base em uma revisão integrativa da literatura especializada. Há lacunas teóricas ( MOKKINK et al., 2010) e diferenças nas perspectivas de análise dos fatores que compõem o construto agency, que carecem de delimitação e atualização conceitual, aspectos relevantes para o desenvolvimento da pesquisa nesse âmbito.
Método
Foi adotado o método de revisão integrativa de literatura, que torna possível abarcar distintas perspectivas sobre um assunto, por meio de procedimentos sistematizados para coleta e análise dos dados ( DOOLEN, 2017). Seguiu-se o protocolo de revisão de literatura referido no Systematic Review and Meta-Analysis Protocols - PRISMA-P ( MOHER et al., 2015), executado em quatro etapas:
(1) identificação do problema de pesquisa que norteia a revisão de literatura, que é: quais são as perspectivas teórico-metodológicas dos estudos sobre agency?;
2) definição dos critérios para a extração e seleção dos documentos: selecionaram-se as bases de dados Scopus e Web of Science para a realização das buscas dos artigos para compor o corpus de pesquisa, que foram realizadas em outubro de 2020 e atualizadas em fevereiro de 2021 por duas revisoras independentes, contemplando os artigos até dezembro de 2020.
A estratégia de busca utilizada foi: [(“sense of agency” OR “human agency” OR “judgment of agency” OR “agency judgment” OR “personal agency” OR “types of agency” OR “forms of agency” OR “perceived agency” OR “feelings of agency”) AND (measur* OR assessment OR validity OR evaluation OR inventory OR scale OR “measures of agency” OR instrument)], investigada em títulos, resumos e palavras-chave.
3) Definição dos critérios de inclusão e exclusão dos documentos: os documentos das bases de dados foram analisados considerando os critérios de inclusão: a) artigos que abordam o conceito de agency a partir de uma perspectiva cognitiva e comportamental; b) estudos teóricos ou empíricos e; c) artigos em português, inglês ou espanhol. Não se restringiu a nenhum tipo de documento específico. A análise da elegibilidade foi feita a partir da leitura dos resumos por duas revisoras independentes. Os casos de divergência nas decisões das revisoras foram discutidos até que se chegasse a um consenso.
4) Análise dos resultados e limitações da revisão: a análise dos resultados foi feita por meio de três etapas, que são: a) análise de cocitação e; b) análise teórica acerca dos documentos mais citados dos principais autores de cada cluster identificados através da análise de cocitação.
Na análise de cocitação de autores verifica-se a frequência em que os pesquisadores são citados concomitantemente nos documentos analisados, o que possibilita a identificação de proximidade dos autores mencionados ( GRÁCIO, 2016; ZUPIC; ČATER, 2014). Para isso, utilizaram-se os documentos selecionados e o software VOSviewer. Devido à recomendação do uso de filtros para limitar os resultados da análise de cocitação para auxiliar no gerenciamento das informações ( ZUPIC; ČATER, 2014), utilizou-se como filtro um mínimo de 12 citações por autor, por possibilitar a identificação dos autores com maior destaque.
A partir da matriz decorrente da análise de cocitação, a terceira etapa consistiu na análise teórica sobre os principais autores de cada cluster. Executou-se uma análise de citação feita por meio do Histcite para verificar os autores mais citados pelo corpus de pesquisa ( GRÁCIO, 2016; ZUPIC; ČATER, 2014). Com base nessa análise selecionaram-se os documentos mais citados no corpus de pesquisa dos autores em evidência na análise cocitação, considerados seminais para os estudos da agency. Como critérios de inclusão para a análise, selecionaram-se apenas documentos em formato de artigo com maior número de citações. Nos casos em que foi necessário escolher entre dois documentos, utilizou-se como critério os artigos mais recentes e de diferentes autores. Foram selecionados quatro artigos de cada cluster, totalizando 28 artigos.
Resultados
A partir dos 2.388 documentos identificados, observou-se os critérios de inclusão para a seleção dos artigos. Com base na leitura dos resumos selecionou-se 471 artigos para leitura completa e verificação dos critérios de inclusão. Feito todo processo de filtragem dos artigos, observou-se que 1.215 abordam a agency a partir de uma perspectiva de movimento, como organização ou outros que não se referiam ao comportamento e à cognição (Critério 1); 203 são artigos que têm relação com o tema, mas não têm enfoque no estudo da agency (Critério 2); cinco são documentos duplicados (Critério 3); três artigos estão em outros idiomas que não o português, inglês ou espanhol (Critério 4) e; 17 documentos não estavam disponíveis online na versão completa (Critério 5). Com base nessa leitura e filtros, selecionaram-se 222 artigos. A Figura 1 apresenta as etapas de delineamento do corpus de pesquisa.

Fonte. elaborada pelos autores com base no PRISMA ( MOHER et al., 2015)
Figura 1. Etapas da coleta de dados e delimitação do corpus de pesquisa.
Com 222 artigos selecionados, iniciou-se a análise de cocitação de autores, que possibilita a identificação da estrutura intelectual da literatura sobre um assunto a partir da concepção sobre os diferentes conceitos por parte da comunidade científica, assim como quais são os pesquisadores centrais e intermediários e de que modo esse campo se desenvolveu e se estabeleceu em seu processo de desenvolvimento ( ZUPIC; ČATER, 2014). Essa medida não é estabelecida pelos autores cocitados, mas pelo modo que a comunidade científica compreende, utiliza os conteúdos e gera relações para o avanço do conhecimento. A ênfase na relação e conexão entre as produções dos autores viabiliza a identificação do core da literatura científica sobre o assunto ( GRÁCIO, 2016). A Figura 2 ilustra a representação gráfica da análise de cocitação.
Com base no mapa de cocitação derivado da análise gerada pelo VOSviewer, 34 autores foram identificados com destaque, subdivididos e agrupados em sete clusters. O Cluster 1 (em vermelho na Figura 2) conta com os respectivos autores e total de citação (em parênteses): Bandura, A. (215); Rotter, J. B. (15); Baumeister, R. F. (14); Deci, E. L. (14); Ryan, R. M. (13); Skinner, E. A. (13); Dweck, C. S. (13); Little, T. D. (18); Ajzen, I. (18) e; Ford, M. E. (13). No Cluster 2 (em verde) estão: Sen, A. (27); Foucault, M. (34); Kabeer, N. (13); Diener, E. (14) e; Taylor, C. (16). No Cluster 3 (em azul escuro) os autores são: Abele, A. E. (19); Wojciszke, B. (22); Bakan, D. (12); Côté, J. E. (15) e; Eagly, A. H. (13). O Cluster 4 (em amarelo) conta com: Elder, G. H. (24); Giddens, A. (15); Emirbayer, M. (15) e; Pearlin, L. I. (12). No Cluster 5 (em roxo) os autores são: Haggard, P. (16); Moore, J. W. (14); Dimaggio, G. (19) e; Lysaker, P. H. (16). No Cluster 6 (em azul claro) estão: Arendt, H. (12); Bauman, Z. (27) e; Connolly, W. (19) e no Cluster 7 (em alaranjado) estão: Schunk, D. H. (18); Pajares, F. (18) e; Betz, N. E. (15).
Para a análise dos clusters selecionaram-se os documentos mais citados dos autores de cada cluster decorrente da análise cocitação seguindo os critérios de inclusão. Os documentos, com o número de citações entre parênteses, são: Cluster 1: Bandura ( 2001); Rotter ( 1966; 13;) Bandura ( 1989; 12) e; Bandura ( 2006; 12). Cluster 2: Sen SEN ( 1985; 4); Diener e Tov ( 2011;) 1; Taylor, Lyubomirsky e Stein ( 2017;) 1 e; Diener ( 2012; 1). Cluster 3: Abele e Wojciszke ( 2007; 4) ( 2014; 2); Abele ( 2003; 3); Wojciszke e Abele ( 2008); 3. Cluster 4: Emirbayer e Mische ( 1998; 12); Elder ( 1994; 5) ( 1998; 2); Elder Jr., Eccles, Ardelt e Lord ( 1995; 2) e; Cluster 5: Haggard e Tsakiris ( 2009; 2); Dimaggio et al. ( 2002; 2); Dimaggio, Nicolò, Fiore, Centenero, Semerari, Carcione e Pedonet al. ( 2008; 2) e; Haggard, Clark e Kalogeras; ( 2002; 2). Cluster 6: Connolly ( 1993; 20); Arendt ( 1971; 1); Bauman ( 2000; 1) ( 2017; 1). Cluster 7: Pajares ( 1997; 3); Schunk ( 2008; 2); Betz; ( 1987; 2) e; Pajares e Graham ( 1999; 2). As análises dos clusters identificados foram baseadas nesses 28 artigos.
Discussão
A importância dos estudos empíricos e teóricos de Bandura fica evidenciada tanto pela análise de citação de documentos quanto de cocitação de autores. Os documentos mais citados pelo corpus de pesquisa selecionado são de Bandura BANDURA ( 2001) e dos 10 mais citados, seis são desse autor BANDURA ( 2006). Albert Bandura é o autor principal do cluster que faz parte, mas também é o que estabelece maior número de relações com os demais autores e clusters. A partir da análise de cocitação de autores observaram-se sete clusters relacionados com as diferentes perspectivas dos estudos sobre agency.
Agency e o Modelo de Causação Recíproca Triádica – Cluster 1
A principal categoria dos estudos de agency e que contempla o maior volume de artigos e citações está relacionada às pesquisas de Bandura juntamente com: Rotter, J. B., Baumeister, R. F., Deci, E. L., Ryan, R. M., Skinner, E. A., Dweck, C. S., Little, T. D., Little, T. D., Ajzen, I. e Ford, M. E. Ainda que os principais documentos dessa perspectiva teórica sejam de Bandura, Rotter ( 1966) já desenvolvia importantes desdobramentos teóricos sobre agency relacionada à ideia de controle interno e externo, embasado na Teoria da Aprendizagem Social.
Rotter ( 1966) considerava que a efetividade de reforços ou recompensas depende da maneira como são percebidos, especialmente se a recompensa é decorrente do próprio comportamento ou controlado por forças externas. Nos casos em que um reforço ocorre sem que esteja relacionado com uma ação do indivíduo, pode ser considerado como uma situação decorrente de “sorte ou acaso”, e passa a ser relacionado a um controle externo. Quando um evento é percebido como derivado de ações individuais prévias, há a percepção de controle interno do sujeito, que é de grande relevância para o desenvolvimento da teoria sobre agency.
A proposta banduriana para o entendimento da agency é pautada em um modelo de causação recíproca triádica, ou seja, “ação, fatores cognitivos, afetivos e outros fatores pessoais e eventos ambientais funcionam como determinantes de interação” ( BANDURA, 1989, p. 1175, tradução nossa). Nessa perspectiva da teoria cognitiva social, influências autogeradas são tão determinantes do comportamento quanto as interferências do meio. Ao considerar um mesmo ambiente, aqueles que conseguem desenvolver aptidões, ampliar suas opções e têm potencial de regular sua motivação e comportamento apresentam mais sucesso em seus empreendimentos em comparação com os que apresentam capacidade de agency restrita ( BANDURA, 1989).
Diversos fatores influenciam o curso dessas ações e da capacidade agency. A vinculação do sujeito com o meio social não se limita a questões pontuais de influência, visto que esse meio externo também faz parte da construção do sujeito que, por sua vez, atua sobre o meio com uma relação de autoinfluência. O “eu” é constituído e moldado pelo meio social, mas o meio social também é estruturado a partir dos agentes humanos. Logo, há um entendimento de que as pessoas contribuem de maneira importante para os acontecimentos em suas vidas, não sendo apenas produtos dessas circunstâncias BANDURA ( 2006).
Como recursos característicos para o exercício da agency pessoal, Bandura BANDURA ( 2006) menciona a intencionalidade, premeditação, autorreatividade e autorreflexão. A intencionalidade possibilita a visualização dos planos de ações que se pretende colocar em prática visando um fim. Não como uma previsão de acontecimentos, mas em um sentido de compromisso para a concretização desse objetivo. Na premeditação, eventos futuros são representados cognitivamente no presente, o que favorece a motivação e a regulação do comportamento. A autorreatividade se trata da reação comportamental baseada na conduta moral e padrões pessoais voltada ao desempenho necessário para o alcance dos objetivos antes determinados. Os possíveis resultados de ações premeditadas passam por uma autorreflexão, com avaliação e julgamento dos comportamentos para que as ações do sujeito concordem com seus valores pessoais, conferindo sentido à agência moral BANDURA ( 2006).
Somada a esses recursos, a autoeficácia é vista como um elemento central para a agency. Trata-se da confiança na capacidade de realizar uma tarefa ou função, ou seja, o julgamento e percepção das pessoas sobre sua própria capacidade, exercendo influência substancial na motivação, excitação emocional, padrões de pensamento e comportamento e, por consequência, acaba por gerar e controlar os acontecimentos na vida das pessoas ( BANDURA, 1989). Isso ocorre pois, se um indivíduo não acredita em sua capacidade de produzir resultados a partir de sua ação, há pouca motivação para que, de fato, produza esse comportamento ( BANDURA, 1989).
Agency e Bem-estar – Cluster 2
A agency associada ao bem-estar é observada na perspectiva adotada por Sen, A., Foucault, M., Kabeer, N., Diener, E., Taylor, C. Nessa linha de pesquisa, aborda-se a liberdade de agency, processo que envolve a deliberação e responsabilização sobre as próprias ações, especialmente para a própria vida da pessoa. Para a liberdade de agency considera-se que os indivíduos são livres para escolherem e agirem em prol de seus objetivos, obrigações e valores que julgam importantes como seres agentes e responsáveis pelo que decidem e querem obter. Para a percepção de bem-estar das pessoas é requerida liberdade e realização ( SEN, 1985).
Conceitos como a autonomia e liberdade pessoal também estão relacionados à agency, além da relação moral associada ao bem-estar. Nos casos em que essa capacidade de arbítrio é afetada – como crianças pequenas ou pessoas com doenças que afetam essa capacidade –, a capacidade de agency também fica prejudicada. Cabe salientar que a liberdade de bem-estar faz parte da liberdade de agency e são aspectos que não são independentes um do outro. A agency de um indivíduo pode influenciar o seu bem-estar, ao passo que a sensação de bem-estar também pode favorecer que uma pessoa aja em prol de seus objetivos ( SEN, 1985).
O bem-estar subjetivo se refere ao modo como os indivíduos percebem e avaliam os aspectos positivos em suas vidas. Os aspectos emocionais envolvem sentimentos e experiências positivas em relação às suas vivências, ainda que se considere poucos aspectos negativos ou desagradáveis. O pensamento consciente se relaciona com a percepção do indivíduo sobre aquilo que proporciona satisfação e gratificação à sua vida. Assim, o bem-estar subjetivo indica o quanto um indivíduo sente e acredita que sua vida está indo bem, indicando sua avaliação sobre sua vida quanto a aspectos cognitivos e sentimentais ( DIENER, 2012; DIENER; TOV, 2011). O sentimento de bem-estar pode potencializar emoções positivas e diminuir sintomas de ansiedade ou depressão ( TAYLOR; LYUBOMIRSKY; STEIN, 2017).
Sexo, Gênero e a Influência na Agency e Comunalidade – Cluster 3
A teorização quanto à influência de traços agênticos e comunais relacionados ao gênero e sexo se baseia na ideia de representação de papéis sociais e estereótipos de homens e mulheres. Ainda que sejam traços interrelacionados, os traços agênticos são associados ao masculino, enquanto os traços de comunalidade são ligados ao feminino. Nessa diferenciação são observados aspectos funcionais, visto que o investimento parental acaba sendo “embutido” nas mulheres (gestação, amamentação), enquanto para os homens parece ser mais importante que assumam uma postura de agente ao estabelecer uma relação conjugal e parental. No âmbito organizacional, o autoconceito de ser um sujeito agente é um traço importante e que gera impactos no sucesso de uma carreira, sendo agency e sucesso elementos que se influenciam de maneira recíproca, ainda que não esteja relacionada com o sexo biológico ( ABELE, 2003).
O traço agente evoca a ideia de determinação, atividade, profissionalismo, competência, individualidade, ambição, dominância, obtenção de metas, funcionamento intelectual e relaciona-se com a busca de si mesmo. A comunalidade é estabelecida mediante a consideração aos outros, associada ao coletivismo, moralidade, cooperação, cordialidade, confiabilidade, interdependência, funcionamento social, papel familiar exercido e investimento parental ( ABELE, 2003; ABELE; WOJCISZKE, 2007). Os traços de comunalidade são indispensáveis para a sobrevivência de indivíduos e grupos sociais. A agency é central especialmente nos casos em que há foco em um objetivo individual ( ABELE; WOJCISZKE, 2007; WOJCISZKE; ABELE, 2008). Elementos como a realização de metas e execução de tarefas com foco na competência, assertividade e determinação também se relacionam com a capacidade de agency, em que se observa um aumento no controle pessoal, no afeto positivo e na autoestima. Isso gera um efeito inverso na posição de receptor da “ação” de um agente, com diminuição no afeto positivo e autoestima e aumento da vulnerabilidade e da percepção de obstáculos como ameaça e não como desafio. Nesse processo, a manutenção de relacionamentos e primazia do funcionamento social, com benevolência, confiabilidade e moralidade estão associados à comunalidade ( ABELE; WOJCISZKE, 2014). Os principais teóricos associados a essa perspectiva são Abele, A. E. e Wojciszke, B., Bakan, D., Côté, J. E. e Eagly, A. H. Destaca-se que Bakan ( 1966) é uma das referências mais antigas dentre as 10 mais citadas pelo corpus de pesquisa selecionado.
Agency e a Noção de Curso de Vida – Cluster 4
A perspectiva de agency associada ao curso de vida enfatiza o impacto das forças sociais e suas consequências na vida das pessoas. Quatro conceitos são fundamentais para o entendimento desse paradigma: a ideia de interação das vidas humanas e períodos históricos, o tempo das vidas, vidas conectadas e a agência humana na tomada de decisões. Tais elementos são considerados como fundamentais para a compreensão das escolhas e mudanças de direção no curso de vida das pessoas e fatores que influenciam esse processo ( ELDER, 1994, 1998).
A noção de interação das vidas humanas e períodos históricos considera as mudanças sociais a que os indivíduos estão submetidos a depender do seu ano de nascimento, visto que eventos históricos e econômicos influenciam a sociedade em que a pessoa está imersa e, consequentemente, em sua vida, observadas as possibilidades e restrições que são impostas pelo meio. Ao considerar a ideia de tempo de vida, emergem os elementos associados à idade e momentos de transição da vida humana. Alguns desses eventos são esperados em determinados momentos com base em expectativas e convenções sociais - como o casamento e a gravidez, por exemplo, que são momentos de transição que não são esperados durante a adolescência, a depender do momento histórico e contexto social ( ELDER, 1994, 1998).
O princípio associado a essa linha teórica se baseia na ideia de vidas conectadas, caracterizado pela interdependência das relações sociais com parentes e amigos, com ênfase no processo de socialização. A intergeracionalidade dessas relações também é considerada, tendo em vista os impactos de escolhas pessoais e acontecimentos para além da própria trajetória, com consequências na vida de outras pessoas e gerações. A agency e a influência do contexto social são aspectos importantes nos estudos sobre curso de vida ( ELDER, 1994, 1998), assim como a percepção de eficácia frente a desafios e adversidades ( ELDER et al., 1995).
A centralidade da influência do padrão social e forças históricas é percebido no modo como as pessoas pensam, sentem e se comportam, moldando trajetórias e o desenvolvimento. A agency influencia a capacidade de escolha do caminho a seguir e na adaptação às situações, ainda que se considere o cenário social, momento histórico e possibilidades disponíveis, marcando o envolvimento ativo na “construção de um novo curso de vida” ( ELDER, 1998, p. 4). Trata-se de um processo de engajamento social associado ao período histórico e temporal, em que se consideram as influências do passado, mas com orientação para o futuro e as possibilidades, assim como é direcionado ao presente ao contextualizar esses elementos do passado e futuro considerando as contingências situacionais ( EMIRBAYER; MISCHE, 1998). Elder, G. H., Emirbayer, M., Giddens, A. e Pearlin, L. I. são os autores desse cluster.
Agency e Cognição – Cluster 5
A vertente teórica que aborda a sensação de agency associada aos processos cognitivos e execução de ações e movimentos tem amplo desenvolvimento da literatura. Apesar de essa revisão enfocar na agency como capacidade de fazer escolhas e atingir objetivos, esta perspectiva teórica também foi identificada no corpus de pesquisa selecionado. Bandura ( 2001) já apontava a possibilidade de investigação da agency em perspectivas micro ou macroanalíticas, sendo que a integração de ambas é o ideal para a investigação do fenômeno. No caso da percepção da agency como elemento cognitivo, o entendimento do fenômeno é realizado com enfoque nos processos individuais dos sujeitos e é observado nos estudos de Haggard, P., Moore, J. W., Dimaggio, G., Lysaker, P. H. e Betz, N. E.
A partir dessa perspectiva, a agency diz respeito à experiência de controlar as próprias ações. Trata-se da sensação de consciência de movimentos voluntários e suas consequências sensoriais ( HAGGARD; CLARK; KALOGERAS, 2002; HAGGARD; TSAKIRIS, 2009). A capacidade de predizer e monitorar as consequências dos comandos motores do corpo desenvolve um sentimento de controle da própria vida e dos eventos do mundo externo. O principal efeito dessa sensação de consciência corporal é o entendimento de “eu fiz isso”, juntamente com a respectiva consequência do ato motor. Em situações de ordem judicial, em que há necessidade de atribuição da responsabilidade por uma ação, é importante considerar os processos mentais e de consciência da ação por parte do indivíduo envolvido ( HAGGARD; TSAKIRIS, 2009).
Nos estudos de Dimaggio et al. ( 2002) e Dimaggio et al. ( 2008) é possível observar uma vertente clínica dos estudos de agency associada à cognição, metacognição, estados mentais e relações interpessoais, em que os autores observam o fenômeno em casos de transtornos mentais – com foco em transtornos narcisistas – e as implicações para a liberdade dos sujeitos.
Agency e Moralidade – Cluster 6
Conceitualizações de agency relacionadas à moralidade são observadas nos estudos de Arendt, H., Bauman, Z. e Connolly, W. Em discussões sobre moralidade a partir do julgamento do nazista Eichmann em Jerusalém, Arendt ( 1971) discute sobre a banalidade do mal, com adoção de ações imorais em função da incapacidade de pensar sobre seu comportamento, com aceite de regras impostas sem a devida deliberação. Em um debate sobre moralidade com base em Foucault, Connolly ( 1993) aponta a responsabilidade de agency nas escolhas pessoais.
A condição humana relacionada à autonomia e democracia é discutida por Bauman ( 2000), que aponta para a necessidade de poder deliberar livremente sobre a própria maneira de ser humano, considerando as individualidades. O fator geracional também é apontado como influenciador do modo como as pessoas consideram a condição humana (Bauman, 2017). Nesse cluster a agency é discutida de modo mais amplo, pois não é abordada de modo específico nos artigos analisados, mas tem relação direta com as discussões dos autores, especialmente no tocante a aspectos éticos e morais, configurando-se como temas correlacionados.
Agency, Aprendizagem e Processos Metacognitivos – Cluster 7
A última categoria analisada quanto as teorizações sobre agency refere-se aos estudos de Schunk, D. H., Pajares, F. e Betz, N. E. Trata-se de uma linha de investigação associada à perspectiva banduriana, especialmente a partir do conceito de autoeficácia. No entanto, há um maior enfoque nos processos de metacognição, autorregulação e aprendizagem autorregulada, especialmente em pesquisas sobre motivação, desempenho acadêmico e carreira. Ao considerar a conceitualização de Bandura ( 1977) sobre autoeficácia, Betz ( 1987) a compreende como a tendência em responder de maneira proativa às situações relacionadas a oportunidades educacionais e de carreira. Pajares ( 1977) explica que o conceito se trata da capacidade de produzir resultados e desempenho, mais específicos a tarefas e situações contextuais referentes a um objetivo. Conclui-se, então, que a agency é observada em aspectos mais amplos da vida dos sujeitos, em que é observada em diversos contextos de maneira mais generalizada, enquanto a autoeficácia é voltada para atividades, tarefas e objetivos mais específicos e contextuais.
A agency se relaciona com os comportamentos proativos, em indivíduos que agem em prol dos objetivos e que criam e agem de maneira efetiva quando surgem oportunidades. A percepção da autoeficácia como baixa pode levar à evasão, enquanto uma visão mais positiva tende a ser relacionada com comportamentos mais engajados com a busca de sucesso e, por isso, exerce importante influência no desenvolvimento educacional e de carreira ( BETZ; HACKETT, 1987).
Como principal fonte de crenças de autoeficácia observa-se a experiência de domínio, que decorre da avaliação e interpretação do desempenho das ações intencionais do indivíduo. A percepção de autoeficácia nas atividades acadêmicas atua como importante influenciador da motivação, autorregulação e desempenho ( PAJARES, 1997; PAJARES; GRAHAM, 1999). Assim, a autoeficácia atua em conjunto com outros mecanismos da agency na influência e previsibilidade de resultados acadêmicos ( PAJARES; GRAHAM, 1999). Recomenda-se avanços nas pesquisas sobre metacognição, autorregulação e autorregulação da aprendizagem, já que lacunas são observadas quanto à influência desses fenômenos no desenvolvimento e desempenho acadêmico, o que gera implicações para políticas e práticas educacionais ( SCHUNK, 2008).
Linhas de Pesquisa e Definições de Agency
As categorias analisadas acerca dos estudos de agency nomeadas de clusters indicaram diferentes perspectivas para estudo do tema. Ainda que o Cluster 1, que contempla a perspectiva banduriana, tenha mais força de relações e volume de documentos e autores incluídos, os demais clusters também indicam possuir teorizações consolidadas sobre a temática, estabelecendo relações entre si. Ao considerar as diferentes abordagens de agency nos sete clusters, observou-se três categorias a partir do desenvolvimento teórico proposto pelos autores: a) clusters que enfocam no desenvolvimento conceitual do construto, em que inclui-se: Cluster 1 (causação recíproca triádica), Cluster 3 ( agency e comunalidade), Cluster 5 (processos cognitivos e movimentos voluntários) e Cluster 6 (processos metacognitivos); b) clusters em que são evidenciados aspectos contextuais em que a capacidade de agency exerce influência, em que inclui-se: Cluster 3 (sexo, agency e papéis sociais), Cluster 4 (curso de vida) e Cluster 7 (motivação, desempenho acadêmico e carreira) e; c) clusters abordam conceitos relacionados à agency, em que estão: Cluster 2 ( agency e bem-estar) e Cluster 6 ( agency e moralidade).
Os clusters que se dedicam mais fortemente ao desenvolvimento conceitual de agency dão enfoques distintos ao construto. Um elemento em comum é observado que nos Clusters 1, 5 e 6: a relevância dos aspectos cognitivos para o entendimento da agency, mesmo ao considerar diferentes elementos influenciando esse processo. No tocante aos clusters que abordam pesquisas sobre agency sob um aspecto contextual, fica evidenciada a influência dessa capacidade em múltiplas facetas da vida das pessoas, que vai desde aspectos estruturais relacionados a papéis sociais de acordo com o sexo e gênero até a questões voltadas à vida profissional. Quanto aos dois clusters que focam em discussões relacionais - agency e bem-estar e agency e moralidade-, fica evidenciada a afinidade do construto com tais temas, já que possibilita abarcar discussões filosóficas em termos mais abrangentes da vida humana.
A partir das discussões acerca dos principais autores e teóricos sobre agency, verificou-se distintas conceitualizações sobre o fenômeno, ainda que nem todas essas linhas de pesquisa apresentam definições claras do construto. Diferentes conceitualizações sobre agency também são observadas na sociologia, especialmente nas propostas de Weber, Giddens e Latour discutidas por Hubner ( 2022), as quais são marcadas pela heterogeneidade, especialmente pela complexidade atrelada ao construto e suas implicações.
Os aspectos cognitivos e sociais aparecem em ênfase em descrições decorrentes de diferentes teorizações. Mesmo com diferentes entendimentos teóricos, tais distinções se dão mais em função de qual aspecto aparece em evidência, o que não configura uma situação de divergência entre as perspectivas. A partir dos resultados observa-se que uma conceitualização de agency que não considere a intencionalidade, premeditação, autorreatividade, autorreflexão, autoeficácia e autorregulação ou locus de controle interno como fatores referentes ao construto parece estar incompleto, visto que demonstram ser essenciais para compreensão do fenômeno.
Considerações finais
Este estudo pretendeu analisar as perspectivas teórico-metodológicas sobre agency, considerando a produção do conhecimento sistematiza na literatura consultada. Sinteticamente foi possível descobrir alguns aspectos essenciais: (a) o modelo de causação recíproca triádica, adotado por Bandura e seus seguidores, é uma das principais perspectivas teóricas referidas nos estudos sobre agency, em diferentes contextos, com ênfase na relação intrínseca entre motivação para a ação, fatores pessoais e fatores ambientais; (b) um dos principais consensos sobre o conceito de agency é referi-lo como capacidade de um indivíduo ou grupo de tomar ações conscientes e intencionais que têm um impacto no mundo ao seu redor; e (c) a disseminação dos estudos sobre agency em diferentes disciplinas, tais como psicologia, sociologia, antropologia, filosofia e estudos educacionais e organizacionais, possibilitou relacionar o fenômeno agency com aprendizagem, desempenho, papeis e estereótipos sociais, gênero, condições de saúde e trabalho, processos cognitivos, metacognitivos e decisões no curso da vida.
Foi observada a necessidade de uma compreensão mais aprofundada das complexas interações entre diferentes níveis e limites do agency, tendo em vista os determinantes sociais, políticos e econômicos, assim como uma melhor interlocução entre propostas metodológicas centradas no individualismo e na ação coletiva, frente à necessidade de compreender escolhas e decisões centradas em fatores pessoais, interações em redes e estruturas sociais. Além dessas lacunas, identificadas neste estudo, é relevante apontar uma ampla gama de conceitos que são utilizados, ora para definir a capacidade de agency - descrita em termos de autoeficácia, autorregulação, aprendizagem autorregulada, desempenho motivado, ora para se referir a fatores do agency, - intencionalidade, premeditação, autorreatividade, autorreflexão, autorregulação ou locus de controle interno, o que colabora para a percepção de um construto ainda em desenvolvimento. Por fim, foi importante detectar que os estudos do agency enfatizam mais o seu desenvolvimento teórico, em detrimento de investigações empíricas e tratamentos psicométricos e analíticos, o que restringe a análise de suas propriedades intrínsecas e suas relações com outros construtos, tais como personalidade, comportamento seguro, resiliência individual e grupal, liderança, adesão a tratamentos, empoderamento pessoal e profissional. Esses aspectos podem servir de indicações para pesquisas sobre agency.
Dentre as limitações do estudo é importante mencionar as próprias restrições dos softwares utilizados, que também podem gerar vieses de importação do banco de dados e sobreposição de informações salientes. É importante mencionar, também, que não foram incluídas, nesta revisão, documentos da literatura cinzenta (livros, trabalhos não publicados e documentos em formatos que não de artigos) na análise teórica dos dados. Ainda que sejam importantes fontes de informação sobre o tema, não foi possível inseri-los nas análises devido à extensão das obras, risco de viés da discussão e simplificação da teoria.
O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES)















