Nos últimos anos, o trabalho dos servidores públicos e suas condições têm mudado profundamente, seja pelas consequências das transformações tecnológicas e de gestão da 4ª Revolução Industrial (Saniuk et al., 2020), seja pela aplicação de políticas de redução dos custos de manutenção do Estado. Nas universidades, isso tem significado, entre outros aspectos: mais informatização com crescente migração da burocratização para portais digitais acessíveis de qualquer lugar; mais exigências de produção acadêmica e sofisticação da sua aferição, desembocando em um clima acadêmico produtivista e com sobreposição de atividades (Geraldini & Bicalho, 2016; Tuleski et al., 2017); expansão das atividades, cursos, campus e de universidades (Barbosa et al., 2020); expectativas mais imediatas de internacionalização da produção e funcionamento com parcerias em rede (Castro & Cabral-Neto, 2012); aumento de cobranças acerca da interação com a sociedade e aplicabilidade das pesquisas; o uso de estratégias à distância de trabalhos coletivos (p. ex., bancas de avaliação de trabalho final na pós-graduação stricto sensu); expansão de tal uso para outras atividades (Almeida et al., 2021); e complexificação da gestão universitária (Salgado, 2020). O conjunto dessas mudanças requerem novas competências dos servidores (Almeida et al., 2021), incluindo o domínio do uso de novas tecnologias.
Tudo isso no ambiente de aplicação de políticas de redução de custo, já mencionada, abrange: menor concessão de verbas para universidades; estagnação de salários; mudanças nas políticas previdenciárias e de custeio das aposentadorias (Rodrigues & Afonso, 2015); surgimento do regime de trabalho celetista nos hospitais acompanhando a criação da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares - Ebserh (Garcia-Primo & Borges, 2018); e retração nas contratações.
Em síntese, os servidores vivem contradições em que crescem os esforços de expansão das atividades, os requerimentos de competências e as exigências de produção sem melhorias nas condições de trabalho (e.g., Borges et al., 2020; Geraldini & Bicalho, 2016; Ribeiro & Leda, 2016; Ruza & Silva, 2016; Santos et al., 2016), enquanto reconhecem a necessidade de superar a insuficiência dos serviços. Além disso, há diferenças entre os grupos ocupacionais de servidores nas universidades. Tessarini e Saltorato (2021) mostraram os funcionários técnico-administrativos percebendo-se inferiorizados no cotidiano de trabalho. Blanch (2003) e Antunes (2018), entre outros autores, têm assinalado as diferenças contratuais e jurídicas como aspecto especialmente importante na conformação dos demais aspectos das condições de trabalho. Professores, funcionários técnico-administrativos (TAE) e empregados celetistas (empregados na Ebserh) contam com diferentes condições contratuais e carreiras. A maior parte dos estudos consultados tende focalizar apenas um dos grupos ocupacionais. Entendemos que uma pesquisa abarcando mais de um grupo ocupacional tem o potencial de elucidar diferenças e semelhanças, as quais podem subsidiar políticas de gestão de pessoas nas universidades.
Desenvolvemos, então, pesquisa com o objetivo de identificar e caracterizar as tendências da percepção das condições de trabalhos dos servidores da UFMG e a variância desta, segundo os grupos ocupacionais: professores, TAE e celetistas. Justificamos buscar a consecução desse objetivo pela necessidade de as universidades gerirem suas condições de trabalho sustentadas no saber científico, tendo em vista realizar suas missões de ensino, pesquisa e extensão para com a sociedade de forma crescentemente aprimorada.
Condições de Trabalho
Os primeiros estudos sobre as condições de trabalho foram marcados pela preocupação acerca dos efeitos de suas formas precárias, advindas das revoluções industriais, na saúde e na vida dos trabalhadores (Engels 1845/1986; Marx, 1867/1975). Neles, as análises se concentravam nos aspectos físicos e do conteúdo do trabalho, como os níveis de periculosidade e insalubridade, os acidentes de trabalho e a fadiga provocada pelas atividades repetitivas (Álvaro & Garrido, 2006; Alves & Jackson-Filho, 2017). Posteriormente, outras dimensões das condições de trabalho passaram a ser incorporadas nas pesquisas, como as relações interpessoais, nas décadas de 1920 e 1930, e o crescimento de estudos sobre qualidade de vida e sobre os indicadores sociais, a partir das décadas de 1960 e 1970 (Álvaro & Garrido, 2006).
Embora não haja consenso acerca dos aspectos definidores das condições de trabalho, Borges et al. (2022) sinalizaram três tendências conceituais sobre o fenômeno: (1) ênfase nos aspectos econômicos, físicos e materiais do trabalho conforme criticaram Pietro (1994) e Álvaro e Garrido (2006); (2) uso do termo confundindo-o às suas consequências, sublinhado por Ramos et al. (2002); e (3) consideração do conteúdo e entorno do trabalho, defendida por vários autores (e.g., Álvaro & Garrido, 2006; Blanch, 2003; Blanch et al., 2010; Cardoso & Morgado, 2019; Prieto, 1994; Ramos et al., 2002). Identificamo-nos com a terceira tendência por seu maior potencial para responder às demandas sociais, trabalhistas e/ou de organização do trabalho.
Assumimos a definição de que as condições de trabalho são “um conjunto de circunstâncias no marco das quais se desenvolve a atividade laboral e que incide significativamente tanto na experiência de trabalho quanto na dinâmica das relações de trabalho” (Blanch, 2003, p. 42). Essa definição não prescinde de um enfoque na dimensão política da vida (Costa et al., 2015), pois toda ação humana se desenvolve entre relações de poder e conflitos de interesses. Adicionalmente, alguns autores (como Álvaro & Garrido, 2006; Cardoso & Morgado, 2019) reclamaram a inclusão de aspectos psicossociais, como violência e discriminação nas análises.
Na terceira tendência, tipologias têm sido construídas (e.g., Álvaro & Garrido, 2006; Blanch et al., 2010; Pietro, 1994; Ramos et al., 2002) com a intenção de sistematizar o conhecimento e de facilitar investigações empíricas sobre o tema. Entretanto, devido ao caráter socio-histórico das condições de trabalho, os pesquisadores têm sido expostos ao dilema entre, de um lado, buscar tipologias generalizáveis e aplicáveis a diversas ocupações, perdendo a possibilidade de apreender as especificidades socio-históricas de cada ocupação; e, de outro, apreender as singularidades e as diferenciações de condições de trabalho, bem como suas consequências na qualidade de vida das pessoas. A opção pelo segundo caminho perde as possibilidades de diagnóstico unificado das condições de trabalho em todas as ocupações, entretanto, privilegia a construção de uma psicologia concreta que parte da realidade do trabalho (Lhuilier, 2017) e, por consequência, tende a ter mais potência de fundamentar intervenções e aplicações específicas. A dialética entre teoria e prática relaciona-se a uma visão de ciência com papel transformador. Esses princípios - concretude da realidade e dialética entre teoria e prática - são basilares na adoção de abordagens psicossociológicas (Borges & Barros, 2021; Lhuilier, 2017).
A intensidade das mudanças nas universidades e a complexidade estrutural têm requisitado cuidados e diagnósticos voltados ao real vivido nestas instituições e, por consequência, estimulou o desenvolvimento de uma taxonomia das condições de trabalho, própria aos servidores públicos das universidades (professores, funcionários técnico-administrativos estatutários e empregados públicos da Ebserh). Assim, Borges et al. (2021), aplicando análise fatorial (eixos principais), indicaram uma estrutura da percepção das condições de trabalho com três fatores secundários (ou de segunda ordem) e 15 fatores primários (ou de primeira ordem) (Figura 1). A todos esses fatores adicionam-se condições contratuais e jurídicas, não passíveis de análise por tal técnica estatística.
Os fatores das condições de trabalho são interrelacionados. Por isso, as análises fatoriais identificadoras da estrutura perceptiva, representadas na Figura 1, usaram a técnica de rotação oblíqua e abrangeram correlações significativas entre os seguintes pares de fatores: Ambiente Físico e Exigências; Exigências e Violência; Atualização do Saber e Flexibilidade de Jornada; Gestão por Objetivos e Suporte e Proteção (Borges et al., 2021).
Entre as singularidades de tal estrutura, o fator de segunda ordem - Exigências, Contradições e Condições Materiais - abrange fatores primários de distintas direções como Exigência e Precariedade Material, de um lado, e Respeito às limitações, de outro. No segundo fator - Comunicação, Desafio e Participação - predominam fatores primários referentes à organização e ao conteúdo do trabalho e no último - Suporte e Planejamento -, à gestão. A reflexão sobre a descrição de cada fator primário (Figura 1) indica que apreendem características do cotidiano universitário a que nos referimos, por exemplo: 1) o fator Processo Burocrático apreende irracionalidades que têm sido motivos de queixas (Geraldini & Bicalho, 2016; Tuleski et al., 2017); os fatores Discriminação e Violência, conteúdos reclamados por outros autores (como Álvaro & Garrido, 2006; Cardoso & Morgado, 2019); o fator Exigências, produtivismo; o fator Precariedade Material, o contínuo baixo investimento de recursos públicos nas universidades e assim por diante.
Método
Participantes
A amostra totalizou 1.047 servidores, sendo 750 do regime de trabalho estatutário (221 professores e 529 TAE) e 297 celetistas, dos quais 256 (86,2%) eram concursados e 41 (13,8%), terceirizados. Os celetistas atuavam na Ebserh. Seguimos, assim, a estratégia de considerar, então, três grupos ocupacionais - professores, funcionários TAE e celetistas - no desenvolvimento da pesquisa.
A amostra apresenta média de idade de 41,63 anos (DP = 10,35). A maior parte dos participantes tem em torno dos 33 anos de idade e 25% deles, acima de 50 anos. Os participantes com nível de ensino superior eram 93% da amostra. Em relação ao sexo, 68,2% são mulheres. O estado civil casado ou com união estável predominou (58,2% da amostra).
Instrumentos
Aplicamos uma ficha sociodemográfica e o Questionário das Condições de Trabalho (QCT). A referida ficha abrangeu itens sobre: idade, tempo de trabalho na Universidade, no cargo e no trabalho, sexo, estado civil e nível de instrução. A versão utilizada do QCT (Borges et al., 2021) foi reconstruída a partir da versão anterior (Borges et al., 2013), considerando as singularidades do ambiente de trabalho universitário.
Tal versão do QCT contou com: 28 itens sobre as condições contratuais e jurídicas, com alternativas nominais para as respostas; e 200 itens para mensurar os fatores identificados na Figura 1 (Borges et al., 2022; Borges et al., 2021), os quais previam respostas em escala Likert - 1 (Nunca), 2 (Raramente), 3 (Algumas vezes), 4 (Muitas vezes), 5 (Todo o tempo) e 6 (Não se aplica). A adoção da alternativa de “Não se aplica” considerou a probabilidade de alguns itens não encontrarem aplicação em algum/uma setor/área da universidade, bem como preservar a liberdade do participante de omitir-se em algum item.
Atividades de Campo
Realizamos as atividades de campo em 2017. Contamos com serviço especializado em informática, que elaborou o formato digital do QCT, tendo em vista a segurança das respostas em termos de qualidade de registro, sigilo e anonimato. Neste formato, foi possível a inserção de salvaguardas para impedir o preenchimento do formulário saltando questões e garantir ao participante a possiblidade de suspender o preenchimento com retorno em outro momento. Mensagem para esclarecer os objetivos da pesquisa, o caráter voluntário e anônimo da participação, bem como a aplicação do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) precediam o acesso do servidor aos instrumentos de pesquisa.
Aplicamos os instrumentos utilizando o sistema de informática da UFMG, que disponibilizou link para acesso ao participante, sem a possiblidade de duplicidade de respostas. Igualmente, a gestão de pessoas do hospital universitário forneceu o link para os trabalhadores vinculados à Ebserh. No caso dos trabalhadores do hospital, disponibilizamos os instrumentos também em formato tradicional (impresso), para quem o preferissem.
Procedimentos de Análises de Dados
As respostas ao questionário on-line eram automaticamente remetidas à planilha do software “Excel” do Microsoft Office, que dialoga com o Statistical Package of Social Science (SPSS). As aplicações em formato tradicional demandaram a inserção manual das respostas no banco de dados do SPSS.
Inicialmente, fizemos uma exploração das estatísticas descritivas, examinando características da amostra e certificando-nos da qualidade do banco de dados (por exemplo, verificando se havia respostas em branco, uso da alternativa não se aplica no QCT, etc.). Levantamos as distribuições de frequência das respostas às questões acerca das Condições Contratuais e Jurídicas e aplicamos o quiquadrado, ou teste t, para comparar segmentos da amostra, conforme o nível da medida (nominal ou contínua). Os escores nos fatores descritos na Figura 1 foram estimados por média ponderada das pontuações dos participantes nos itens componentes pelas cargas (pesos) correspondentes a cada item (Borges et al., 2021). Exploramos a normalidade das distribuições estatísticas dos escores em cada fator. Usamos os coeficientes Skewness e Kurtosis. Seguimos Kim (2013) que recomendou aceitar Skewness < 2,0 e Kurtosis < 7,0. Não corresponderam a este critério apenas os escores do fator Discriminação, cuja skewness = 2,63 e a kurtosis= 9,47. O fato provavelmente ocorreu pelas dificuldades das pessoas em admitir por meio de questionário a existência do fenômeno, embora que a versão do QCT utilizado adote a estratégia de não perguntar por ações pessoais de discriminação, mas sobre a percepção de discriminação no ambiente universitário. Após a estimação dos escores nos fatores, levantamos as estatísticas descritivas (médias, desvio-padrão e quartis) das distribuições de frequência dos participantes por fator. Aplicamos ANOVA com medidas repetitivas para apreender quanto os escores nos diferentes fatores diferiam, embora sejamos cientes que na realidade dispomos de diferentes medidas realizadas na mesma amostra ou para suas partes. Por fim, aplicamos MANOVA (Linear Multivariate Model) com teste posthoc (LSD) para comparar as médias em tais escores entre três grupos de participantes: TAE, celetistas e professores. Entendemos que o uso de técnicas estatísticas comparativas contribuirá para elucidar diferenças e semelhanças dos grupos ocupacionais.
Resultados
Das Condições Contratuais e Jurídicas
Entre os servidores estatutários (Regime Jurídico único, RJU), comparamos professores e TAE e não encontramos diferença em relação à proporção em que são sindicalizados (42,3% e 42,1% respectivamente). Em contrapartida, encontramos diferenças significativas em relação: 1) à percepção da extensão da jornada real ((2 = 217,99, p < 0,001) em que os professores tendem a informar que trabalham mais que a jornada contratada e os TAE, conforme a jornada contratada, sendo que, entre os professores ((2 = 60,64, p < 0,001), aqueles com DE estendem mais a jornada; 2) à localização residencial (t = 29,98, p < 0,001), à medida que os TAE gastam em média 68,02 minutos no trajeto casa-trabalho-casa, enquanto os professores, 47,59 minutos; 3); à tendência docente de trabalhar mais noites (7,32 noites em média por mês) do que os TAE (1,63 noites em média por mês) (t =134,16, p < 0,001), bem como mais sábados e/ou domingos no mês (3,32 desses dias em média por mês) do que os TAE (0,29 dias em média) (t = 272,65, p < 0,001); 5) à jornada ideal ((2 = 276,22, p < 0,001), quando entre os TAE prevalece a definição de 30 horas (69,4% deles), enquanto entre os professores, de 40 horas (52,9% deles); 6) à utilização das férias ((2 = 58,64; p < 0,001), pois os TAE (71,3%) tendem a aproveitar mais frequentemente para efetivamente descansarem do que os professores (33,8%); 7) ao recebimento de adicional de insalubridade ((2 = 41,96, p < 0,001), sendo mais TAE (51,6%) se queixam do recebimento do que os professores (39,8%); 8) ao salário recebido, em que os TAE tendem a concentrar-se na faixa salarial de R$ 3.001,00 a R$ 5.000,00, enquanto os professores (32,1%), de R$ 8.0001,00 a R$ 11.000,00; 9) à representatividade do salário na renda familiar ((2 = 18,16, p = 0,001), mais professores (39,8%) contribuem em torno da metade do que os TAE (31%) o fazem.
Comparando os TAE com os empregados celetistas encontramos diferenças relativas: 1) à jornada de trabalho real declarada ((2 = 200,21, p < 0,001), em que os TAE (59,7% deles) tendem a trabalhar conforme a jornada prevista e os celetistas (49,2%) a mais; 2) ao percurso casa-trabalho-casa (t = -3,19, p = 0,001), em que os celetistas gastam mais tempo (83,24 min em média) do que os TAE (68,02 min em média); 3) à tendência dos celetistas trabalharem mais noites (2,47 por mês) e sábados ou domingos (1,80 dias desses por mês) do que os TAE (1,63 e 0,29 respectivamente) (t = 2,42, p = 0,001 e t = 3,92, p = 0,001); 4) aos celetistas (94,7%) tenderem a vender as férias parcialmente, embora que todos considerem que efetivamente descansam; 5) aos celetistas (36%) considerarem que recebem o percentual justo por insalubridade; 5) à sindicalização ((2 = 5,09, p = 0,02), em que os TAE (42,3%) são mais sindicalizados do que os celetistas (34,3%).
Dos Escores nos Fatores do QCT
Observamos (Tabela 1), então, que as distribuições dos escores nos fatores primários referentes às Exigências, Contradições e Condições Materiais evidenciaram seu caráter contraditório, pois que os escores mais elevados são justamente em Respeito aos Limites Orgânicos versus a Precariedade Material e, em seguida, em Exigências. Não há médias muito elevadas em tais fatores primários, mas observamos que os quartis das distribuições mostram que, no fator Respeito às Limitações, 25% da amostra apresentou escores acima de 4,22 e, no fator Precariedade Material, a mesma proporção da amostra apresentou médias acima de 4,00. Em ambas as distribuições a mediana está deslocada à direita do ponto médio. O último quartil do fator Exigências se inicia em ponto mais baixo que os dois anteriores, mas a mediana também está deslocada à direita.
Tabela 1: Distribuições de Escores nos Fatores de Condições de Trabalho (N=1047)
| Fatores de Condições de Trabalho | Média | DP | Percentis/Quartis | ||
| 25% | 50% | 75% | |||
| Exigências, Contradições e Condições Materiais (F = 913,57; p < 0,001) | |||||
| F1 Processo Burocrático | 2,60 | 0,88 | 1,99 | 2,54 | 3,14 |
| F2 Discriminação | 1,53 | 0,59 | 1,12 | 1,33 | 1,76 |
| F3 Ambiente Físico | 2,29 | 0,74 | 1,71 | 2,23 | 2,77 |
| F4 Exigências | 3,28 | 0,82 | 2,69 | 3,27 | 3,87 |
| F5 Violência | 2,47 | 0,70 | 1,95 | 2,37 | 2,87 |
| F6 Respeito aos Limitações | 3,64 | 0,75 | 3,19 | 3,76 | 4,22 |
| F7 Precariedade Material | 3,40 | 0,94 | 2,82 | 3,44 | 4,00 |
| Comunicação, Desafio e Participação (F = 390,30; p < 0,001) | |||||
| F1 Atualização do Saber | 3,34 | 0,76 | 2,82 | 3,38 | 3,92 |
| F2 Responsabilidade | 3,09 | 0,95 | 2,46 | 3,14 | 3,78 |
| F3 Participação | 3,17 | 0,87 | 2,64 | 3,29 | 3,70 |
| F4 Informatização | 4,01 | 0,88 | 3,53 | 4,22 | 4,70 |
| F5 Flexibilidade de Jornada | 2,64 | 0,71 | 2,12 | 2,62 | 3,12 |
| Suporte e Planejamento (F = 1089,25; p < 0,001) | |||||
| F1 Suporte e Proteção | 2,71 | 0,74 | 2,18 | 2,65 | 3,20 |
| F2 Normatização | 3,90 | 0,77 | 3,40 | 3,97 | 4,50 |
| F3 Objetivos | 3,62 | 0,66 | 3,19 | 3,66 | 4,13 |
Nota. O test posthoc (LSD) assinalou: para Exigências, Contradições e Condições Materiais,
diferenças significativas entre as distribuições de todos os fatores primários; para Comunicação,
Desafio e Participação,a média de Informatização diferencie significativamente das demais por ser a
maior e a de Flexibilidade de Jornada, por ser a menor, enquanto que os outros três fatores não diferem
uns dos outros, tendo todos médias próximas ao ponto médio da escala; para Suporte e Planejamento, as
três médias são significativamente diferentes.
No fator Processo Burocrático, a média e a mediana estão à esquerda do ponto médio da escala. Entretanto, se o conteúdo do fator tem uma natureza de crítica a tal processo temos um quartil da amostra acentuadamente crítico a ele, o que está longe de ser desprezível.
Os escores no fator Discriminação são os mais baixos e revelam que vão em direção da inclusão. Entretanto, devemos atentar que os quartis da distribuição (Tabela 1) revela que 25% da amostra apresentaram escores acima do ponto de 1,76. Haja vista a natureza do conteúdo do fator, essa proporção deveria acender o sinal de alerta na instituição. O número de 38 participantes (3,6% da amostra) que apresentam escores acima de 3 (ponto médio da escala de 1 a 5) é pequeno, mas é importante registrar que existe esse segmento percebendo discriminação no ambiente de trabalho. Acerca dos escores no fator Violência, assinalamos também não ser desejável que 25% da amostra apresentem escores a partir do ponto 2,87.
Os cinco fatores primários referentes à Comunicação, Desafio e Participação mostraram uma tendência a escores mais elevados do que nos anteriores. Esses fatores representam pontos fortes nas condições de trabalho na Universidade. Provavelmente, as oportunidades de atualização do saber, de participação nas decisões, o senso da responsabilidade por assuntos valorizados e a tendência à informatização valorizam a identidade dos servidores com a academia. Entretanto, isto não significa uma organização do trabalho sem problemas, haja vista as contradições e queixas acerca das Exigências e a Precariedade Material apreendidas anteriormente.
A média mais baixa referente à Flexibilidade de Jornada destoa da tendência. Em período anterior às atividades de campo da presente pesquisa, a UFMG vivenciara a adoção de ponto eletrônico para os funcionários TAEs, sob um clima de conflitos e resistência. Esse fator é correlacionado com o primeiro, Atualização do Saber. Se seus escores tendem a ser mais baixos que dos demais fatores primários componentes do fator secundário Comunicação, Desafio e Participação, provavelmente a falta de flexibilidade esteja dificultando a atualização do saber.
No fator de segunda ordem, Suporte e Planejamento, os escores de dois fatores primários (Normatização e Gestão por Objetivos) indicaram que os participantes tendem a considerar os aspectos abrangidos como pontos fortes da instituição. Entretanto, os escores no fator Suporte e Proteção revelam uma tendência à percepção das condições de trabalho na UFMG como de desamparo, considerando a descrição do que o fator mensura (Figura 1).
Apresentadas as distribuições dos escores nos fatores das condições de trabalho, passamos a abordar a variância dos mesmos por grupos ocupacionais (Tabela 2). Os coeficientes F e seu nível de significância assinalam quando há diferenças significativas ou não nas médias obtidas por cada grupo, as médias em que tais diferenças ocorrem e o teste posthoc (LSD) adotado entre quais grupos em específico se localizam. Assim, entre 15 fatores primários, há diferenças significativas em 12 fatores.
Tabela 2: As Condições de Trabalho por Grupos Ocupacionais (TAE, Celetistas e Professores)
| Fatores | Grupos Ocupacionais | N | Média | DP | MANOVA | ||
| Coeficientes | PostHoc | ||||||
| Exigências, Contradições e Condições Materiais (F = 16,24; p < 0,001)** | |||||||
| F1Processo burocrático | 1.TAE (RJU) | 529 | 2,64 | 0,99 | F = 12,40 p < 0,001 | 2 e 3 | |
| 2.Celetistas | 297 | 2,86 | 1,09 | 1 | |||
| 3.Professor (RJU) | 221 | 3,03 | 0,95 | 1 | |||
| F2 Discriminação | 1.TAE (RJU) | 529 | 1,61 | 0,75 | F = 0,99 p = 0,372 | ||
| 2.Celetistas | 297 | 1,64 | 0,88 | ||||
| 3.Professor (RJU) | 221 | 1,54 | 0,64 | ||||
| F3 Ambiente Físico | 1.TAE (RJU) | 529 | 2,35 | 0,93 | F = 7,45 p = 0,001 | 2 | |
| 2.Celetistas | 297 | 2,58 | 0,82 | 1, 3 | |||
| 3.Professor (RJU) | 221 | 2,32 | 0,93 | 1 | |||
| F4 Exigências | 1.TAE (RJU) | 529 | 3,11 | 0,82 | F = 41,91 p < 0,001 | 2 e 3 | |
| 2.Celetistas | 297 | 3,57 | 0,78 | 1 | |||
| 3.Professor (RJU) | 221 | 3,54 | 0,78 | 1 | |||
| F5 Violência | 1.TAE (RJU) | 529 | 2,47 | 0,73 | F = 1,67 p = 0,19 | ||
| 2.Celetistas | 297 | 2,54 | 0,75 | ||||
| 3.Professor (RJU) | 221 | 2,56 | 0,72 | ||||
| F6 Respeito às Limitações | 1.TAE (RJU) | 529 | 3,81 | 0,73 | F = 16,18 p = <0,001 | 2 | |
| 2.Celetistas | 297 | 3,50 | 0,80 | 1, 3 | |||
| 3.Professor (RJU) | 221 | 3,69 | 0,74 | 2 | |||
| F7 Precariedade Material | 1.TAE (RJU) | 529 | 3,28 | 0,96 | F = 19,62 p < 0,001 | 2 e 3 | |
| 2.Celetistas | 297 | 3,53 | 0,92 | 1 e 3 | |||
| 3.Professor (RJU) | 221 | 3,73 | 0,88 | 1 e 2 | |||
| Comunicação, Desafio e Participação (F = 99,23; p < 0,001) | |||||||
| F1 Atualização do Saber | 1.TAE (RJU) | 529 | 3,15 | 0,69 | F = 165,14 p < 0,001 | 2 e 3 | |
| 2.Celetistas | 297 | 3,27 | 0,74 | 1 e 3 | |||
| 3.Professor (RJU) | 221 | 4,10 | 0,45 | 1 e 2 | |||
| F2 Responsabilidade | 1.TAE (RJU) | 529 | 3,25 | 1,10 | F = 9,79 p < 0,001 | 3 | |
| 2.Celetistas | 297 | 3,26 | 1,26 | 3 | |||
| 3.Professor (RJU) | 221 | 3,63 | 0,96 | 1 e 2 | |||
| F3 Participação | 1.TAE (RJU) | 529 | 3,23 | 0,91 | F = 0,26 p = 0,77 | ||
| 2.Celetistas | 297 | 3,21 | 0,94 | ||||
| 3.Professor (RJU) | 221 | 3,27 | 0,84 | ||||
| F4 Informatização | 1.TAE (RJU) | 529 | 4,06 | 0,87 | F = 36,53 p < 0,001 | 2 e 3 | |
| 2.Celetistas | 297 | 3,74 | 0,99 | 1 e 3 | |||
| 3.Professor (RJU) | 221 | 4,38 | 0,55 | 1 e 2 | |||
| F5 Flexibilidade de Jornada | 1.TAE (RJU) | 529 | 2,73 | 0,64 | F = 166,07 p < 0,001 | 2 e 3 | |
| 2.Celetistas | 297 | 2,50 | 0,88 | 1 e 3 | |||
| 3.Professor (RJU) | 221 | 3,57 | 0,49 | 1 e 2 | |||
| Suporte e Gestão por Objetivos (F = 51,69; p < 0,001) | |||||||
| F1Suporte e Proteção | 1.TAE (RJU) | 529 | 2,72 | 0,77 | F = 41,44 p < 0,001 | 2 e 3 | |
| 2.Celetistas | 297 | 3,11 | 0,78 | 1 e 3 | |||
| 3.Professor (RJU) | 221 | 2,51 | 0,75 | 1 e 2 | |||
| F2 Normatização | 1.TAE (RJU) | 529 | 4,03 | 0,73 | F = 57,35 p < 0,001 | 2 e 3 | |
| 2.Celetistas | 297 | 4,17 | 0,70 | 1 e 3 | |||
| 3.Professor (RJU) | 221 | 3,49 | 0,84 | 1 e 2 | |||
| F3 Gestão por Objetivos | 1.TAE (RJU) | 529 | 3,67 | 0,70 | F = 3,63 p = 0,03 | 3 | |
| 2.Celetistas | 297 | 3,64 | 0,67 | ||||
| 3.Professor (RJU) | 221 | 3,53 | 0,62 | 1 | |||
Tal fato reflete, provavelmente, as diferenças (já expostas) na percepção das condições contratuais e jurídicas entre os segmentos. Se examinamos as diferenças nas médias, entre professores, há a tendência de perceberem mais como incômodas conteúdos do fator Processo Burocrático (prescrições que às vezes desconhece racionalidade), mais insatisfação com as Exigências (cobranças acentuadas e desproporcionais a infraestrutura) e mais Precariedade Material (Percepção da carência de equipamentos, de materiais, de softwares, entre outros); perceberem mais oportunidades de Atualização do Saber e valorizarem mais as Responsabilidades assumidas; queixarem-se menos acerca da Informatização adotada e sentirem mais desamparados (menores escores em Suporte e Proteção).
Os TAE tendem a perceber menos Flexibilidade de Jornada e, em contrapartida, mais: Respeito às Limitações; uso adequado da Informatização na execução de tarefas, Suporte e Proteção por parte da gestão; orientação de suas atividades pela Normatização universitária e pelos objetivos institucionais (fator Gestão por Objetivos). Há mais divergências entre os professores acerca da orientação das ações concretas pelos objetivos institucionais, pois o exame da distribuição completa dos escores indica haver mais professores proporcionalmente apresentando escores inferiores a 3 do que os TAE.
Os empregados celetistas criticam os Processos Burocráticos incluídos em suas atividades tanto quanto os professores. Criticam também mais as características do Ambiente Físico, a desproporcionalidade de Exigências e a Precariedade Material. Os celetistas, ainda, são o grupo que mais percebe com Suporte e Proteção por parte da gestão e que o trabalho é mais orientado pelas normas.
Discussão
O desenvolvimento da pesquisa se guiou pelo objetivo anunciado - identificar as tendências da percepção das condições de trabalhos dos servidores da UFMG e a variância desta segundo os grupos ocupacionais, a saber, professores, TAE e empregados na Ebserh (celetistas). É hora, então, de indagarmos acerca dos significados do que encontramos.
As ocupações universitárias gozam de status social de senso comum como empregos estáveis e de qualidade. Contribuem para isso o regime de trabalho estatutário, disponível para os professores e TAE, bem como o regime celetista (com concurso) para os empregados na Ebserh. É certo que, em comparação com trabalhos informais e outras formas emergentes, os grupos ocupacionais universitários dispõem de garantias de segurança - do emprego, do posto de trabalho, da renda, de proteção a acidentes, de reprodução de habilidades e de representação (Standing, 2013) - que os diferenciam positivamente, caracterizando como empregos de qualidade e não como precários. Nossos resultados corroboraram nestes pontos.
Entretanto, é certo também que, mesmo entre as condições contratuais e jurídicas, os resultados revelaram outros aspectos que, além de contrariar o senso comum citado, são indicadores de precarização. Os professores relataram jornadas reais mais extensas que as contratadas, apesar de perceberem mais flexibilidade de jornada do que os demais. Tal contradição autoriza indagar, como autores antecedentes (e.g., Silva, 2019), se o menor controle da jornada não tem sido aplicado para beneficiar o trabalhador, mas sim para fazer frente às exigências elevadas das quais os grupos ocupacionais analisados se queixam, em especial os professores.
Autores antecedentes (e.g., Cantarelli et al., 2017; Silva, 2019; Tuleski et al., 2017) já caracterizara que as referidas Exigências são vistas pelos servidores como geradoras de competividade, correspondendo ao que vem sendo designado por produtivismo acadêmico. Além disso, os resultados sinalizaram a desproporção entre tais exigências e a precariedade material, corroborando as contradições que a literatura tem apontado entre requerimentos de competência e produção e as condições de trabalho (e.g, Borges et al., 2020; Geraldini & Bicalho, 2016; Ribeiro & Leda, 2016; Ruza & Silva, 2016; Tessarini & Saltorato, 2021). Esses resultados vão ao encontro do tipo de gestão e organização do trabalho que caracterizam precarização pela intensificação do trabalho, aumento da competividade, da pressão de tempo e do controle. (e.g., Antunes, 2018; Antunes & Druck, 2015).
Observamos que largas proporções de professores e dos celetistas percebem como inadequada a burocratização presente em seus cotidianos. É provável que os TAE tenham pontuado menos esse fator porque parte deles vê a burocracia como inerente a seus cargos, enquanto professores e celetistas entendem como mais uma barreira a ser vencida para realizar o trabalho almejado e institucionalmente prescrito. Outra possibilidade é a menor frequência de queixas acerca da burocratização pelos TAE estar associada à autopercepção inferiorizada (Tessarini & Saltorato, 2021), inibidoras da pró-atividade. Podemos indagar se avanços tenham ocorrido simplificando a burocracia por meios de tecnologias digitais, especialmente sob o estímulo da necessidade de adoção do trabalho remoto durante a pandemia da COVID-19. Autores (e.g., Almeida et al., 2021), entretanto, têm descrito as dificuldades enfrentadas por professores e TAE com os novos modos de trabalho à distância. As mudanças precisam ocorrer pela simplificação, e não pela mera substituição de mecanismos, nem fragmentando as etapas na tentativa de fazer o trabalho remoto reproduzir ou imitar o presencial. Fica, então, a hipótese de que o problema e as queixas sobre ele tenham se intensificado.
Para Cantarelli et al. (2017), Tuleski et al. (2017) e Nunes et al. (2020), as contradições e produtivismo esvaziam o sentido do trabalho dos servidores, divergindo dos significados socialmente atribuídos por eles próprios. Em outras palavras, pode desmontar para o servidor o papel de transformação social de suas funções, competindo-nos indagar: A quem serve tal desmonte? A pressão exercida pelas contradições e produtivismo pode contribuir para defasagens entre o volume de produção científica pelas universidades e sua qualidade, fenômeno que vem sendo sublinhado na literatura (e.g., Mafra, 2020)? Quanto reduz na autonomia dos servidores no exercício de suas atribuições?
Apesar da propalada autonomia constitucional e a decorrente estrutura colegiada, a gestão universitária é atravessada, no estabelecimento de metas e no requerimento de competências e produção, pelas políticas e ações dos órgãos de fomento e de fiscalização da aplicação dos recursos, Ministérios da Educação (MEC) e da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI). Silva (2019) já chamara atenção para a complexidade e multidimensionalidade do problema do produtivismo acadêmico. Portanto, a superação da precarização advinda do tipo de gestão e organização do trabalho requer entendimento político entre gestores universitários e outras instâncias da estrutura governamental. Demanda, portanto, ações políticas de gestores e servidores em geral e em conjunto. Por isso, retomamos que professores e TAE compartilham uma taxa de sindicalização que, embora possa ser alta para os padrões brasileiros, contrasta com a estabilidade no emprego. Os celetistas participantes, por sua vez, apresentaram baixa sindicalização. Termina sendo um indicador de enfraquecimento político, dimensão da precarização (Antunes, 2018; Antunes & Druck, 2015). Não devemos esquecer que o enfraquecimento político dos trabalhadores não independe da sobrecarga, da competitividade instalada e dos impactos na saúde. Tudo isto fortalece a diminuição da capacidade do trabalhador de organizar-se coletivamente, um traço do trabalho precário (Kallerberg & Hewison, 2013).
Em relação aos fatores primários Das Exigências, Contradições e Condições Materiais, devemos comentar que os resultados mostraram tendência a escores mais baixos no fator Discriminação, aqui queremos que o leitor relativize isto, haja vista que na atualidade há uma tendência ao preconceito velado (e.g., Brauer et al., 2000; Crandall & Eshleman, 2003; Lacerda et al., 2002). Expressar discriminação abertamente é crime. Além disso, também consideramos que, por mais baixos que sejam os escores, eles indicam que para uma parcela da amostra (25%) as discriminações ocorrem, embora que, prevalentemente, numa frequência designada por raramente na escala adotada. Indagamos, por isso, se as raras ocorrências não são suficientes para afetar negativamente as pessoas.
Digno também de nota são os escores baixos encontrados no fator primário Suporte e Proteção, que é um dos componentes do fator secundário de Suporte e Planejamento, indicando uma percepção de desemparo. Tal achado corrobora os resultados de duas dissertações: uma acerca da tutorização de professores em estágio probatório (Rosa, 2017) mostrou a reduzida institucionalização das ações; e outra, acerca dos TAE em estágio probatório (Macedo, 2018) mostrou o uso das remoções como meio para compensar conflitos de socialização, evitando enfrentar a origem dos problemas.
Os escores menores do desejável em Suporte e Proteção para os três grupos ocupacionais, bem como, no caso dos professores, a carência de repouso após extensa jornada de trabalho para além das horas contratadas e o uso das férias para dar conta das atividades excedentes expõem tais trabalhadores à insegurança de saúde, também dimensão de precarização (Antunes, 2018; Antunes & Druck, 2015).
Os professores e TAE compartilham o regime de trabalho estatutário (RJU), mas observamos que acerca de alguns fatores (Processo Burocrático, Ambiente Físico, Exigências, Responsabilidade e Gestão por Objetivos) não divergem conjuntamente em comparação aos celetistas. Devemos considerar que esse último grupo abriga mais trabalhadores com menor tempo de casa já que a maioria foi contratada a partir da criação da Ebserh, são menos sindicalizados, trabalham mais dias (já que vendem parte das férias). A percepção dos diversos fatores ora se aproxima mais da visão dos professores, ora dos TAE. Compete-nos indagar se as condições dos celetistas, decorrentes do regime de trabalho, afetam a consolidação de uma identidade como grupo ocupacional?
Os três grupos ocupacionais convergiram na percepção do fator Participação, todos com média um pouco mais à direita do ponto médio da escala. Na Tabela 1, notamos que 25% da amostra apresentaram escores menores ou igual a 2,64. Distinto do senso comum que espera em uma estrutura organizacional colegiada, como a universitária, isto seja um ponto forte, a Participação é vista como aquém do esperado pelos três segmentos. As tendências de precarização do trabalho apontadas ao longo do artigo, entretanto, demandam implicação da gestão organizacional, mas também dos segmentos de trabalhadores. Isto não quer dizer que as participações devam ser absolutamente iguais. Especificamente, podemos esperar que o grupo TAE possa contribuir mais em propor mudanças de cunho burocrático, os professores contribuir mais no ajuste das exigências que lhe são realizadas, os celetistas em desnaturalizar as inadequações ambientais e assim por diante. Embora tenhamos começado mencionando a importância da participação de todos, também é pertinente levantar a importância da implicação da gestão da universidade e das entidades sindicais, não para dirigirem o processo de mudança internamente, mas para lidarem articulações mais amplas, pois que alguns dos aspectos de precarização identificados não independem das ações de outros órgãos, como órgão de fomento, órgão que avaliam as ações universitárias e das políticas de gestão pública e trabalhista. As Exigências, a Precarização Material e os excessos de horas trabalhadas não são forjados exclusivamente nas instâncias internas. Lembramos que a qualidade de um emprego não se afere apenas de aspectos econômicos e de estabilidade, mas também do conjunto de benefícios, interesse da natureza do trabalho, do espaço de autonomia do trabalhador, desenvolvimento da sociabilidade, entre outros aspectos (Hewison, 2016; Kalleberg, 2016).
Considerações Finais
Em síntese, os resultados sinalizaram o avanço da precarização no trabalho dos servidores, principalmente nas dimensões relativas à organização e gestão do trabalho, mas também em dimensões mais concretas como a extensão real das jornadas e/ou sobrecarga. Além disso, mostrou o que afeta mais cada categoria ocupacional, podendo apoiar a definição de estratégias tendo em vista a melhoria das condições de trabalho e, a médio e longo prazo, da saúde dos servidores e das instituições. Portanto, o uso de estatísticas comparativas mostrou-se adequado a consecução do objetivo da pesquisa.
Como limitação da pesquisa assinalamos que as proporções dos grupos ocupacionais na amostra não correspondem as do quadro geral de servidores da UFMG. Elas refletem, na realidade, a adesão dos participantes à iniciativa de pesquisa. Contamos, portanto, com uma amostra acidental e não-aleatória, sem controlar as razões e perfis de quem aderiu ou não. Embora os coeficientes das análises apontem na direção da robustez das análises, optamos, por exemplo, por não utilizar o coeficiente F (Pillai’s Trace) que pressupõe amostras do mesmo tamanho. Além disso, sugerimos em outras oportunidades a adoção de estratégia específica para obter a adesão de terceirizados de forma a permitir distinguir entre celetistas dois subgrupos: concursados e terceirizados.
Sugerimos ainda reavaliar as condições de trabalho, pelos mesmos critérios em um segundo momento para compreender a evolução dos fenômenos, avaliar a extensão do impacto de tais condições na saúde do trabalhador e compreender o impacto das mudanças oriundas no período de pandemia. As condições de trabalho são dinâmicas e a pesquisa apresentada focalizou, principalmente, o momento em que as atividades de campo se realizaram.











Curriculum ScienTI



