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Estilos da Clinica

versão impressa ISSN 1415-7128versão On-line ISSN 1981-1624

Estilos clin. vol.27 no.1 São Paulo  2022  Epub 07-Nov-2025

https://doi.org/10.11606/issn.1981-1624.v27i1p81-92 

Artigo

A neoborda autística em Temple Grandin

El neo-borde autístico en Temple Grandin

The autistic neoborder in Temple Grandin

Le néo-bord autistique chez Temple Grandin

Julianne Gomes Correia de Oliveira1 
http://orcid.org/0000-0002-6305-6904

Ângela Maria Resende Vorcaro2 
http://orcid.org/0000-0002-6538-8646

*Doutoranda em Psicologia, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Belo Horizonte,MG, Brasil. juliannegco@gmail.com

**Docente do programa de Pós-graduação em Psicologia, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Belo Horizonte,MG, Brasil, angelavorcaro@uol.com.br


Resumo

A literatura testemunhal de autistas aponta para modalidades singulares pelas quais esses sujeitos sustentam sua existência. Nesses escritos, podemos constatar, de modo inexorável, a complexidade da trama de uma solução bordejante para a angústia corporal que eles sentem. Encontramos no testemunho de Temple Grandrin o embaraço de um sujeito autista na tentativa de fazer um corpo, mediante a construção de um aparelho capaz de apaziguar seu caos sensório-corporal. Objetivamos, com este artigo, analisar o testemunho de Grandin a partir da invenção de sua squeeze machine e em virtude da função que esta desempenhou na construção de uma neoborda. Podemos atestar que, após o uso constante desse dispositivo, Grandin constituiu bordas corporais que lhe possibilitaram barrar o gozo e a incidência do Outro, apaziguando, assim, sua angústia. Para tratar desse nível de refinamento da borda, recorremos ao conceito de neoborda, de Laurent (2014), o qual diz respeito a uma forma mais elaborada de borda corporal.

Palavras chave: Temple Grandin; autismo; corpo; neoborda; psicanálise

Resumen

La literatura testimonial de autistas apunta para modalidades singulares a través de las cuales estos sujetos sostienen su existencia. En los textos consultados, podemos constatar, inexorablemente, el complejo entramado de una solución bordeante para la angustia corporal que ellos sienten. Encontramos en el testimonio de Temple Grandin la dificultad de un sujeto autista en el intento de formar un cuerpo, mediante la construcción de un aparato que puede apaciguar su caos sensorial y corporal. Con este trabajo, pretendemos analizar el testimonio de Grandin a partir de la invención de su squeeze machine y en virtud del papel que jugó esta máquina en la construcción de un neo-borde. Podemos averiguar que, después del uso constante de este dispositivo, Grandin constituyó bordes corporales que le permitieron impedir el goce y la incidencia del Otro, apaciguando, así, su angustia. Para abordar este nivel de refinamiento de borde, recurrimos al concepto de neo-borde, de Laurent (2014), que se refiere a un modo más elaborado de borde corporal.

Palabras clave: Temple Grandin; autismo; cuerpo; neo-borde; psicoanálisis

Abstract

The testimonial literature of autistic individuals points to unique modalities through which these subjects sustain their existence. In these writings, we can verify, inexorably, the complexity of the weft of a bordering solution for the bodily anxiety that they feel. In the Temple Grandin’s testimony, we observe the difficulty of an autistic subject in the attempt to make a body, through the construction of an instrument that can appease its sensorial-bodily chaos. With this work, we aim to analyze Grandin’s testimony from the invention of her squeeze machine and due to the role that this machine performed in the construction of a neoborder. We can attest that, after the constant use of this device, Grandin constituted corporal borders that allowed him to prevent the enjoyment and the incidence of the Other, appeasing, thus, her anxiety. To approach this level of border refinement, we turn to Laurent’s (2014) concept of neoborder, which refers to a more elaborate mode of body border.

Keywords: Temple Grandin; autism; body; neoborder; psychoanalysis

Résumé

La littérature de témoignages d’autistes indique des modalités singulières par lesquelles ces sujets soutiennent leur existence. Dans ces écrits, on peut vérifier, inexorablement, la complexité de la trame d’une solution de bordure pour l’angoisse corporelle qu’ils ressentent. On a trouvé dans le témoignage de Temple Grandin l’embarras d’un sujet autiste à tenter de faire un corps, à travers la construction d’un appareil capable d’apaiser son chaos sensoriel-corporel. Avec ce travail, on vise à analyser le témoignage de Grandin à partir de l’invention de sa squeeze machine et en raison du rôle que cette machine a joué dans la construction d’un néo-bord. On peut attester qu’après l’utilisation constant de ce dispositif, Grandin a constitué des bords corporels qui lui ont permis de barrer la jouissance et l’incidence de l’Autre, apaisant, ainsi, son angoisse. Pour approcher ce niveau de raffinement de bord, on se tourne vers le concept de néo-bord, de Laurent (2014), qui fait référence à un mode plus élaboré de bord corporel.

Mots-clés: Temple Grandin; autisme; corps; néo-bord; psychanalyse

A análise de testemunhos não é algo novo na psicanálise. Em sua investigação sobre os autistas de alto funcionamento, Maleval (2010) recapitula como Freud e Lacan utilizaram os casos clínicos em seus estudos, destacando como eles partiram das formas mais elaboradas de construção psicótica para chegar a uma compreensão sobre as condições clínicas mais típicas. Esse método - que consiste em partir das formas mais complexas a fim de esclarecer, consecutivamente, as formas mais simples -, é empregado pelo próprio autor, que se serve dessa linha metodológica da tradição psicanalítica no trabalho que desenvolve sobre a estrutura autística: “é o autismo de alto desempenho, e o de Asperger, que deve permitir iluminar novidades sobre o autismo de Kanner” (Maleval, 2010, p. 2).

Os testemunhos de autistas de alto funcionamento que se engajaram em tratar a si mesmos nos ensinam muito: eles podem ser encarados como um tipo de laboratório voltado ao estudo do funcionamento subjetivo autístico (Maleval, 2009). Para tanto, a distinção entre autismo e psicose, tão discutida pela psicanálise, faz-se necessária. Lacan comparece com uma série de elementos que possibilitam diferenciar uma condição da outra, sobretudo quanto às particularidades da alucinação, ao caráter verboso do sujeito e à posição deste em relação ao discurso do mestre. Em seu ensino, encontramos, em um intervalo de 20 anos, três referências importantes para o estudo do autismo, a saber: o seminário Os escritos técnicos de Freud (1953-1954), a Alocução sobre as psicoses da criança (1967) e a Conferência em Genebra sobre o sintoma (1975).

Com vistas a detalhar essas referências, evocaremos, de partida, os comentários lacanianos sobre os casos Dick, de Melanie Klein, e Robert, de Rosine Lefort, que aparecem no seminário supracitado. Nessa exposição, Lacan (1953-1954/1986) postula que ambas as crianças estão imersas no real. Ao tratar de Dick, que não tem um diagnóstico definido, ele alega que esse é um sujeito que “não tem o desejo de se fazer compreender, não procura se comunicar, as suas únicas atividades mais ou menos lúdicas são emitir sons e comprazer-se nos sons sem significação, nos barulhos” (p. 98). Sobre a realidade que ele experimenta, Lacan argumenta que “tudo lhe é igualmente real, igualmente indiferente” (p. 98), o que o leva a sentenciar que o menino “serve-se da linguagem de uma forma propriamente negativista” (p. 101), isto é, com o propósito de negar o Outro. Aliás, quanto à linguagem, Lacan deduz que, em casos como o de Dick,

O sistema pelo qual o sujeito vem se situar na linguagem é interrompido, ao nível da palavra. Não são a mesma coisa, a linguagem e a palavra - essa criança é, até certo nível, mestre da linguagem, mas ela não fala. É um sujeito que está aí e que, literalmente, não responde. (Lacan, 1953-1954/1986, p. 102)

Vale notar que Lacan (1953-1954/1986) descreve para Dick, implicitamente, um uso da linguagem que visa ao gozo, negando-lhe a função comunicativa. Talvez isso nos permita realizar uma aproximação dessa discussão com sua formulação posterior, sobre a lalíngua.

Quanto a Robert, Lacan (1953-1954/1986) o situa como um caso de psicose alucinatória crônica, considerando “o fato de essa criança só viver o real” (p. 124). A propósito da expressão O lobo! que Robert repete com frequência, Lacan assevera que essa consiste na “palavra reduzida ao seu caroço” (p. 125) e alerta que vemos aí “o estado nodal da palavra” (p. 125). É a partir dessa palavra congelada que o sujeito pode encontrar uma saída para se constituir. Sublinhamos, nessa colocação de Lacan, a referência a um ponto nodal que articula a linguagem ao real e congela a criança, fixando-a. É isso que exigirá do sujeito, para sua constituição, a busca de uma saída. Podemos reconhecer nesse ponto, tendo em vista as futuras elaborações lacanianas, a importância da passagem de S1 (caroço) para S2 (saber), a qual nem sempre se dá.

Em Alocução sobre as psicoses da criança, Lacan (1967/2003), ainda muito distante de uma distinção do autismo, fala de uma jornada de dois dias coordenada por Maud Mannoni sobre as psicoses na infância. Ele retoma uma frase que proferiu 20 anos antes, em uma reunião na casa de seu amigo Henri Ey: “Longe de ser a falha contingente das fragilidades do organismo, a loucura é a virtualidade permanente de uma falha aberta em sua essência” (p. 359). No que concerne à criança psicótica, Lacan recobra uma importante observação feita por David Cooper: “a de que, para obter uma criança psicótica, é preciso ao menos o trabalho de duas gerações, sendo ela seu fruto na terceira” (p. 360). Por fim, nesse discurso, ele questiona seus ouvintes:

Mas o que pergunto a quem tiver ouvido a comunicação que questiono é se, sim ou não, uma criança que tapa os ouvidos - dizem-nos: para quê? para alguma coisa que está sendo falada - já não está no pós-verbal, visto que se protege do verbo. (Lacan, 1967/2003, p. 365)

Salientamos, nesses trechos, a indicação lacaniana de que todo ser falante está implicado em uma falha fundamental que o inaugura, da qual a loucura é uma possibilidade entre outras. Ao mesmo tempo, observamos como Lacan (1967/2003) lastreia a posição da criança em relação à cadeia de gerações, afirmando que aquela já está submetida ao discurso que ouve.

Em 4 de outubro de 1975, após uma semana de trabalhos organizados pela Sociedade Suíça de Psicanálise, Lacan profere o que ficou conhecido como sua Conferência em Genebra sobre o sintoma. Encontramos, nessa comunicação, comentários preciosos acerca da criança, do autista e do esquizofrênico em sua relação com a fala e com a voz. De início, Lacan (1975/1998) reflete sobre suas observações de crianças pequenas que, mesmo antes de serem capazes de construir uma frase, dizem “talvez, ainda não”. Isso prova que, na criança, existe “uma peneira que se atravessa, através da qual a água da linguagem chega a deixar algo para trás, alguns detritos com os quais brincará, com os quais necessariamente ela terá que desembaraçar-se” (p. 11). O pressuposto lacaniano sobre o autismo nessa época comporta a impressão de que um sujeito que escuta a si mesmo está situado na linguagem, embora se proteja do verbo, permanecendo, por isso, fora do discurso. A respeito das alucinações, Lacan afirma que “nem todos os autistas escutam vozes, mas articulam muitas coisas e se trata de ver precisamente onde escutaram o que articulam” (p. 12). Subvertendo o pensamento corrente, ele então convoca seus interlocutores a escutar os autistas.

Trata-se de saber por que há algo no autista ou no chamado esquizofrênico, que se congela, poderíamos dizer. Mas o senhor não pode dizer que não fala. Que o senhor tenha dificuldade para escutá-lo, para dar seu alcance ao que dizem, não impede que se trate, finalmente, de personagens de preferência verbosos. (Lacan, 1975/1998, p. 13)

Em 1975, já considerando a referência ao termo diagnóstico autismo, Lacan o aproxima e o distingue da esquizofrenia, ao mesmo tempo que supõe que o autista filtra da linguagem algo da lalíngua. Ou seja, Lacan acredita que o autista está submetido à linguagem, mas que ele se serve dela de um modo singular, que não se presta a uma comunicação facilmente audível. A posição desse sujeito perante a linguagem deixa os clínicos um pouco surdos, exigindo deles uma detenção mais específica. Lacan parece indicar aí que os autistas ensinam que a presença de S1 (caroço) pode ocorrer desencadeada de S2 (saber). A propósito, é isso que mantém a criança fora do discurso, a despeito do fato de ela encarnar a linguagem.

No presente artigo, debruçar-nos-emos no testemunho de Temple Grandin, que acreditamos consistir em um paradigma clínico para pensar como o autista constrói um corpo. Seguimos a proposição de Miller (2011), segundo a qual

O singular como tal é o incomparável, não é o exemplo, pode ser o paradigma, palavra usada uma vez por Lacan, da qual fizemos lugar-comum. Pode ser o paradigma quando o deslocamos em uma classe particular, na classe dos casos ordenados pelo caso-guia, pelo caso-referência. Para haver paradigma, é preciso haver a singularidade de um caso apreendido como incomparável. Em seguida, engancham-se vagões a essa locomotiva, que parte sozinha, tal como o gato de Kipling. (Miller, 2011, p. 102)

A essa hipótese, conjugamos o seguinte problema: os estudos da neoborda nos orientam à extração da lógica da construção do corpo no autismo? De imediato, podemos destacar que a neoborda é um conceito forjado por Laurent (2012/2014) para designar uma borda artificial, superficial e frágil, que permite ao autista se defender do Outro e com este realizar trocas. Tratando-se de um artifício de defesa contra o real, a neoborda é, a princípio, um lugar de proteção, embora também seja um lugar de gozo: o autista se serve dela tanto para se encapsular, demarcando os limites suportáveis da incidência do Outro, quanto para vivenciar seu mundo imutável. É nesse lugar que o autista realiza a amálgama dos fenômenos do duplo, dos interesses específicos e dos objetos autísticos, estabelecendo, pois, os elementos constitutivos da neoborda.

Nesse seguimento, visamos a analisar o testemunho de Temple Grandin na perspectiva da construção de um corpo que resulta das condições lógicas da neoborda autística. Além da construção corporal, Grandin explicita o mais alto nível de elaboração do Outro. Sua trama testemunhal - que apresentaremos detalhadamente em seguida - trilhará um caminho biográfico para que, assim, possamos articular o que o autismo ensina à psicanálise: o movimento de um corpo a ser construído.

Testemunho de Temple Grandin

Temple Grandin, 72 anos1, é professora da Universidade do Colorado na área de zootecnia. Reconhecida por ser uma autista de alto funcionamento, ela revolucionou as práticas de tratamento do gado em fazendas e abatedouros, desenvolvendo técnicas que apelam a práticas humanizadas. A publicação de Grandin é ampla, variando desde textos técnicos de veterinária a escritos sobre o autismo. Diagnosticada como uma autista severa na infância, com mutismo prevalente e defesa maciça ao contato físico, ela, ao longo de suas soluções autoterapêuticas, pôde sair de sua posição recrudescida, abrindo-se mais para o Outro e para o laço social.

Encontramos, na autobiografia de Grandin, o embaraço de uma autista buscando estabelecer os contornos de um corpo, em meio a inúmeras tentativas de construção de um aparelho capaz de apaziguar seu caos sensório-corporal. Como ela mesma relata: “só comecei a falar com três anos e meio. Até então, gritos, assobios e murmúrios de boca fechada eram meus únicos meios de comunicação. Talvez fique mais fácil de entender se eu disser logo que me puseram o rótulo de autista” (Grandin & Scariano, 1999, p. 17).

Grandin detalha as incontáveis tentativas de construção de um aparelho que ela chamou de squeeze machine2, e é nesse testemunho que se encontra uma elaborada forma de objeto, o qual podemos designar como objeto autístico complexo (Maleval, 2009/2017). O corpo de Grandin, necessitado de bordas protetivas, levou-a a “sonhar com um aparelho mágico que pudesse exercer um estímulo de pressão intensa e prazerosa sobre todo o meu corpo” (Grandin & Scariano, 1999, p. 37). Com extrema dificuldade para o contato físico, Grandin desejava que essa máquina pudesse ser uma “substituta para os abraços da minha mãe, mas como algo que estaria a minha disposição o tempo todo para me aliviar” (Grandin & Scariano, 1999, p. 27). Antes da construção do aparelho, entretanto, ela recorria a expedientes mais simples: “quando eu era criança, [...] como não tinha nenhum recurso mágico que me consolasse, costumava me enrolar em um cobertor, ou me cobrir com almofadas do sofá́, para satisfazer meu desejo de estímulo táctil” (Grandin & Scariano, 1999, p. 27).

Podemos considerar que esse estímulo táctil tem o objetivo de contornar a insistente angústia sentida pelos autistas nas superfícies corporais. Com o uso de objetos do mundo exterior, Grandin o provocava, buscando solucionar seu caos sensorial. Dentre suas tentativas, é possível destacar o ritual que ela realizava antes de dormir: “à noite, eu esticava ao máximo os lençóis e cobertores antes de entrar debaixo das cobertas. Às vezes, pendurava cartazes de papelão à frente e atrás do meu corpo, como um homem sanduíche, porque gostava da pressão contra meu corpo” (Grandin & Scariano, 1999, p. 37). É importante salientar aqui essa premência de controle da pressão sobre o próprio corpo. Como Grandin afirma, “o que era o mais importante, até mesmo em minha imaginação, era eu quem controlava a intensidade da pressão exercida pelo forro plástico” (Grandin & Scariano, 1999, p. 40). Ao sonhar com uma roupa plástica que inflaria em seu corpo, tal qual o uniforme de um astronauta, esse sonho, mesmo no campo da imaginação, cumpria, para Grandin, alguma função. O interesse específico já trilhava seu fio: “meus projetos imaginários eram uma fixação - uma obsessão que ia sendo refinada e aperfeiçoada a cada máquina mágica que eu criava em minha mente” (Grandin & Scariano, 1999, p. 41).

A estimulação táctil do corpo persevera nas teorizações de Grandin sobre o autismo. Mestre e doutora em ciência animal, ela articula seu estudo dos animais ao da condição humana, para que, dessa articulação, recolha elementos que legitimem a importância de se estimular animais e bebês. Em suas palavras, “estudos sobre animais mostraram que mudanças neuroquímicas ocorrem de imediato, em resposta a carícias reconfortantes. A incapacidade que a criança autista tem com estímulos tácteis reconfortantes pode ser uma das causas de anormalidades neuroquímicas” (Grandin & Scariano, 1999, p. 187).

Grandin foi uma criança que não suportava ser tocada pelo outro. Entretanto, sua dificuldade táctil tornou-se a força motriz para sua invenção: a já citada squeeze machine. Para justificar o uso dessa máquina, ela desenvolveu um argumento sobre a importância precoce das estimulações no corpo, pois, nos bebês autistas, os estímulos tácteis “como carícias e abraços podem desenvolver um desenvolvimento mais normal, mesmo que o bebê se mostre indiferente aos caminhos, tal prática ainda pode ser benéfica. Se o bebê resistir ao toque, precisa ser gradualmente “treinado” a tolerar o toque reconfortante” (Grandin, & Scariano, 1999, p. 187). Seu argumento apoia-se em estudos sobre o cérebro:

Quanto mais um bebê viver sem experimentar o sentimento de ser reconfortado, maior é a probabilidade de que os circuitos cerebrais envolvidos nos desenvolvimentos de contato emocional com os outros sejam prejudicados. Vários estudos com animais demostram que circuitos os cerebrais que estão em uso constante tornam-se maiores. Os circuitos que são usados serão conservados, enquanto os circuitos ociosos tendem a encolher. Se o nenê não empregar seus circuitos “de sentir”, eles podem encolher. (Grandin & Scariano, 1999, p. 187)

Tomando o reino animal como uma chave de leitura para o desenvolvimento cerebral precoce, Grandin termina por lançar hipóteses sobre a constituição psíquica do bebê, sendo esta, no entanto, necessariamente dependente do Outro.

O Corpo no Autismo

Tomar o corpo como objeto de estudo implica, necessariamente, tratar da relação entre linguagem, corpo e gozo. Em termos lacanianos, entrar na linguagem possibilita estabelecer limites e fronteiras ao corpo por meio de um furo assimilável3 aos orifícios corporais, ao redor do qual se instaura uma borda. A linguagem fura o corpo por um orifício de entrada, e essa marca cicatrizante deixa um traço. Através desse traço indelével, é possível que se instalem circuitos pulsionais, demarcando o corpo e estruturando o inconsciente.

A singular incidência dos efeitos da linguagem nos autistas demonstra que, neles, a linguagem não forma corpo. Nesses casos, o ser não se deixa atravessar pelo elemento simbólico que o substitui parcialmente. Autistas mostram que corpo e linguagem podem não estar articulados, o que nos convoca a pensar sobre outros modos de ressonância da pulsão. Por isso, faz-se necessária a teorização psicanalítica da constituição do sujeito partindo das zonas erógenas do corpo como furos, a qual coloca em cena a superfície corporal necessária à identificação especular, bem como a operação simbólica da castração, que dá aos furos a simbolização estruturante da falta.

Todavia, nosso ponto de partida para deliminar o corpo no autismo é a sentença de Laurent (2014), derivada dos estudos lacanianos sobre as psicoses, de que ali há uma “foraclusão do furo”. Por essa perspectiva, que estende a operação psicótica de foraclusão à estrutura autística, localizando distintamente seu ponto de incidência, impõe-se uma diferença fundamental entre psicose e autismo. Enquanto na psicose a foraclusão está relacionada ao Nome-do-Pai, no autismo ela é relativa ao furo. Ressalta-se que, topologicamente, o furo está na relação entre RSI (Real, Simbólico e Imaginário). Nesse seguimento, sua foraclusão tem inúmeras implicações clínicas, afinal, a dimensão do corpo topológico exige um furo central, cujas bordas são providas pelos três registros.

Na dimensão do corpo das pessoas autistas, “não falta nada, não há buracos e, portanto, não é possível extrair algo para colocar no buraco” (Laurent, 2014, p. 29). Laurent (2014) discorre sobre a intensa angústia dos autistas, “que vão ao banheiro e não podem separar-se das suas fezes: não há buraco na dimensão do Real, essa castração no real, era uma tentativa de fazer frente a foraclusão do buraco” (p. 29). A dimensão topológica do corpo no autismo mostra que este não dispõe de furo no real, a partir do qual o sujeito construiria uma borda e, com ela, um corpo. Assim, não há diferença entre dentro e fora do corpo, e ambos apresentam uma interrupção parcial. Bremaud (2011) sintetiza:

O lugar e o verso, o interior e o exterior, o topo e o fundo, leva pouco tempo para alguém perceber que os autistas enfrentam uma grande dificuldade - e mais frequentemente uma impossibilidade - estar no espaço, o que é por vezes referido como “perturbações da organização espacial”. E porque a maioria dos clínicos concordam que seu espaço não é estruturado da mesma maneira que o dos sujeitos neuróticos e também é diferente do da maioria dos sujeitos psicóticos. Em essência, para dar conta do espaço autista, muitas vezes é feita referência à topologia e especialmente à banda de Moebius. (p. 651)

A dimensão moebiana franqueia a suposição de um mundo rodopiante no autismo, sem limites e fronteiras objetiváveis em termos de realidade interna e externa. Nesse mundo rodopiante, constatamos uma dificuldade em distinguir uma borda inferior e uma borda superior, uma face externa e uma face interna, assim como vemos na banda de Moebius. Se o autista não dispõe do furo, consequentemente não dispõe de uma borda. Portanto, com que corpo estamos lidando nessa estrutura? Impulsionados por esse questionamento, debruçar-nos-emos, a seguir, no que tange à borda autística como uma forma de tratamento da foraclusão do furo, possibilitando uma espécie de suplência corporal.

A Borda Autística: Duplos, Objetos Autísticos e Interesses Específicos

Para que um autista estruture uma borda que institua o contorno de um corpo, ainda que superficial e frágil, é necessário, como apontam Maleval (2009/2017) e Laurent (2014), o desenvolvimento de três elementos: o objeto autístico, o duplo e o tema de interesse específico. Primeiro, vale ressaltar a distinção intrínseca aos objetos autísticos, os quais podem ser simples ou complexos. Enquanto os objetos autísticos simples não colaboram com a interação social do autista, mantendo-o isolado e defensivo, os objetos autísticos complexos tomam os simples como uma base, aprimorando-os, de modo a contribuir para a composição corporal e a decorrente abertura para a interação social.

Laurent (2007) ressalta a importância dos objetos para a formação de um corpo no autismo, afirmando que “o objeto-fora-do-corpo [...] é seguidamente tomado, encerrado no interior do que se tornará corpo íntimo. Será sempre a produção de uma montagem do corpo, ainda que seja um objeto fora-do-corpo” (p. 31). O objeto atua como um órgão suplementar que as crianças tentam introduzir em seu corpo, como o órgão que convém à linguagem (Laurent, 2007, p. 31). O uso dos objetos é uma invenção do autista para refrear o gozo que o assola, possibilitando um endereçamento ao Outro, o que deflagra naquele a posição de um sujeito “encapsulado” em si mesmo.

A preponderância do duplo é resultante da deficiência da identificação simbólica no autismo. O duplo se apresenta como uma tentativa de esboço do campo do Outro, que permite alternativas de enunciação suportáveis e de apaziguamento da angústia diante do despedaçamento do gozo. Ele serve como uma compensação imaginária protetora para o autista, partindo de uma relação identificatória, não no sentido técnico da palavra, e sim no de uma equação adesiva, que se dá por meio de um transitivismo. O duplo pode ser uma pessoa, um animal ou mesmo uma personagem. A ele, o autista se cola, equivalendo-se. A função que o duplo exerce é a de um suporte na linguagem, que, por vezes, permite ao autista falar por “procuração”, o que, em um só tempo, o protege do Outro invasivo.

O último componente da borda autística é o interesse específico, que concerne a certas obsessões dos autistas em determinadas áreas do saber. O interesse específico também possui níveis de apresentação, sendo inicialmente notado como hiperfoco de atenção em determinado assunto, objeto, filme etc. Os interesses específicos em autistas de alto funcionamento despontam como uma capacidade de inteligência extraordinária. Tais autistas foram historicamente classificados como Savants, isto é, autistas inclusos na antiga classificação da síndrome de Asperger. Dessa forma, os interesses específicos surgem inicialmente como uma proteção para o autista, podendo se tornar uma verdadeira competência cognitiva, possibilitando, ainda, o franqueamento de um laço social.

Em Temple Grandin, podemos identificar uma grande elaboração desses componentes. O duplo de Grandin surge mediante o estabelecimento de um laço com os animais. Seu vínculo com esses seres solidificou-se em uma escola para crianças especiais, em que ela havia se aproximado dos cavalos que tinham distúrbio de comportamento por terem sido abusados e maltratados anteriormente, o que lhes causava problemas emocionais reativos. Grandin passava seu tempo livre junto desses animais, alegando ter estabelecido com eles uma relação de parceria. Podemos inferir que os cavalos e os bovinos serviram de duplo para ela, haja vista sua identificação especular com eles. Os comportamentos dos animais faziam-na refletir sobre seu próprio comportamento, sendo que, a partir disso, ela pôde também refletir sobre seus sentimentos. Conforme mencionamos anteriormente, o reino animal serviu a Grandin como uma espécie de chave de leitura, a partir da qual ela desenvolveu hipóteses sobre a constituição psíquica dos humanos.

Foi graças à contingência que Grandin pôde chegar à imagem de seu objeto autístico. Durante as férias na fazenda, período em que mantinha contato intensivo com os animais - uma de suas fixações -, ela passou a observar o gado preso em uma máquina utilizada para imobilizá-lo com vistas à realização de procedimentos veterinários. O que chamou a atenção de Grandin foi o estado emocional dos animais que, inicialmente assustados, passavam a se tranquilizar após a imobilização. Além de tomar os bovinos como um duplo, Grandin começou a experimentar a máquina, o que a levou, com o passar dos anos, a inventar um dispositivo próprio, que ela chamou de “máquina de pressão”. Com o testemunho da construção de seu objeto autístico, percebemos que este possibilitou a ela a construção de bordas corporais, que viabilizaram o desenho de limites e fronteiras capazes de conter o gozo e barrar o Outro, apaziguando, assim, sua angústia.

Como já dito, chamou a atenção de Grandin o estado emocional dos animais que, “assustados e nervosos, eram presos no brete [máquina de pressão] e, depois da pressão suave dos painéis, iam se acalmando” (Grandin & Scariano, 1999, p. 93). Identificada aos animais, que faziam operar nela a função do duplo, Grandin pediu para experimentar o brete. Ela detalha a primeira vez que o experimentou:

Primeiro ajustei a passagem para a cabeça de modo a acomodar a altura da minha cabeça quando eu me pusesse de quatro, e depois entrei na passagem para a cabeça de modo a acomodar a altura da minha cabeça quando eu me pusesse de quatro, e depois entrei na passagem. Ann puxou a corda que fazia os painéis do brete me pressionarem. Logo senti a pressão firme dos lados do corpo... O efeito era estimulante e relaxador. Porém, o que era mais importante para uma pessoa autista, era eu quem exercia o controle. O brete me dava alívio de meus ataques de nervos, como era de se esperar fiquei fixada naquilo. (Grandin, & Scariano, 1999, p. 93)

Na máquina de contenção, Grandin se espelhou nas emoções dos bovinos, o que lhe possibilitou entrar em contato com suas próprias emoções, vivenciando o sentimento de empatia e cuidado com outros humanos, levando-a a afirmar que o cuidado com o gado no matadouro a tornou mais dócil, abrindo-a para os laços sociais. Ela vivenciava a máquina por transitivismo, através do duplo-bovino, que se tornou instantaneamente uma fixação passível de ser nomeada como interesse específico (Maleval, 2009/ 2017).

A primeira versão da squeeze machine foi construída por Grandin de modo que ela “era presa e solta por outra pessoa”. Devido ao insucesso desse empreendimento, Grandin reformou o dispositivo, de maneira que “poderia fechá-lo ou abri-lo eu mesma” (Grandin & Scariano, 1999, p. 97). Entretanto, salientamos a transposição dessa máquina a um nível bem mais complexo.

Nas páginas finais de sua autobiografia, Grandin incluiu o Apêndice técnico C, com informações técnicas para pais, professores e outros profissionais que lidam com pessoas com autismo. Nesse apêndice, ela apresenta uma descrição completa da máquina de pressão, permitindo-nos entrever sua capacidade de sintetizar seu objeto complexo: “a máquina de pressão é toda forrada com uma espessa camada de espuma de borracha, coberta com um material plástico de forração com avesso de tecido” (Grandin & Scariano, 1999, p. 187). Grandin ainda generaliza sua experiência de uso, ao dizer que “ela [a máquina] aperta o usuário com muita firmeza, mas traz alívio e conforto. O acolchoamento é projetado para se ajustar ao corpo do usuário, proporcionando uniformidades dos pontos de pressão” (Grandin & Scariano, 1999, p. 187). Ela também compartilha sua preocupação com os detalhes do aparelho, que estão diretamente ligados ao fluxo de sensações: “o sentimento da pressão é dominante e cria um ambiente tranquilizador. Ao mesmo tempo, o cérebro recebe muitos impulsos pela pressão. A pressão aplicada pela máquina ativa os receptores de pressão de cada ramal nervoso da medula espinhal” (Grandin & Scariano, 1999, p. 187). Por fim, Grandin ressalta o controle sobre o objeto: “depois que o usuário se prende à máquina, não tem como se retirar ou enrijecer-se para evitar a sensação de estar envolvido. É muito importante que o usuário tenha o controle do aparelho” (Grandin & Scariano, 1999, p. 188).

Um ponto que parece ser uma conclusão da experiência sensorial de Grandin concerne aos efeitos da construção de sua borda autística:

Ele precisa ser capaz de operar os controles e reduzir a pressão a qualquer momento. Depois de ter passado de dez a quinze minutos na máquina, a pressão constante, o efeito de alívio vai diminuindo à medida que o sistema táctil se habitua a ela. Para conservar o efeito de alívio e reconforto, o usuário precisa ir diminuindo a pressão bem devagar, e depois fazê-la aumentar lentamente de novo, até que torne a atingir um nível que produza a sensação de conforto. (Grandin & Scariano, 1999, p. 188)

Devido à facilidade de construir “engenhocas” e à destreza com trabalhos manuais, como ela mesma relata em seu livro, é digna de destaque a engenhosidade de Grandin na construção de seu artefato:

A máquina é acionada por um compressor de ar, que opera um cilindro de ar ligado aos painéis por meio de polias. Já que a máquina é movida a ar comprimido, ela produzirá uma pressão constante, mesmo que o usuário mude de posição. A abertura para o pescoço permite que a pessoa possa apoiar os ombros nela. Quando a abertura se fecha em torno do pescoço, ela reforça a sensação de ser envolvido pelo abraço da pressão. (Grandin & Scariano, 1999, p. 189)

Com o decorrer dos anos, Grandin foi aperfeiçoando seu objeto, e esse instrumento tornou-se um objeto autístico complexo, cumprindo função de borda para seu corpo e para todo estatuto de seu ser. Até o momento da escrita de sua autobiografia, percebemos como ela tenta significar o brete em sua vida. Cumprida sua função inicial de borda, o objeto autístico complexo de Grandin serviu como um recurso para aparelhar afetos e linguagem e como uma ferramenta em seu laço social. “Não tenho a menor dúvida de que o brete e a minha porta simbólica foram instrumentos para aperfeiçoar minha atividade escolar e as relações com outras pessoas” (Grandin & Scariano, 1999, p. 108).

Ao longo de sua vida, à medida que se distanciava da dependência do uso constante da máquina, Grandin criou uma solução: “só depois de ter tirado uma foto (que eu mandei ampliar e emoldurar) de mim mesma no brete, pude encarar meus medos” (Grandin & Scariano, 1999, p. 118). Esse distanciamento nos mostra a possibilidade de estabilização presente na borda protetiva, na medida em que o recurso do objeto deixa de se configurar como um órgão suplementar. “Estava chegando finalmente ao ponto em que conseguia pensar no meu brete com prazer e afeição. E isso me permitia ter uma atitude mais favorável em relação a outras pessoas” (Grandin & Scariano, 1999, p. 118).

Por fim, mediante a convergência entre objeto e linguagem, Grandin se separou daquele, interrogando a dinâmica da relação da dependência dela pelo objeto e o poder que ela mesma conferiu a ele. Podemos apontar que seu objeto autístico possibilitou uma mediação, pela qual ela operou uma passagem de extração do significado e da função do objeto em sua vida, até poder prescindir dele.

A Neoborda como um Savoir-y-Faire

Um conceito que vem ao encontro dessas proposições é o de neoborda autística, o qual foi forjado por Laurent (2014) e pode orientar nossa compreensão do estatuto da invenção no autismo. A neoborda consiste em uma construção elaborada da borda autística protetora, funcionando como suplência. Consideramos que a neoborda se conjuga como um savoir-y-faire, por ultrapassar as fronteiras defensivas implicadas em uma borda autística. Cabe localizar, entretanto, a diferença entre savoir-faire e savoir-y-faire.

O savoir-faire pode ser entendido como o saber do artesão, saber este que se transmite pela cultura. Por seu turno, o savoir-y-faire é o conceito que Lacan (1973-1974/2018) introduziu para mostrar como o sujeito inventa um modo de fazer que não está previsto, que não está prontamente presente no laço social discursivo, mas que pode ser criado, sendo, inclusive, incluído no laço e, assim, transmitido.

A singularidade do caso de Temple Grandin nos permite, além de identificar e analisar a presença dos componentes da neoborda autística, estabelecer os indicadores de um elemento estrutural que, por tangenciarem o real, mostram o mais alto nível de elaboração do Outro, enquanto alteridade radical incomensurável. Grandin, em suas palavras, parece ter chegado a esse nível de elaboração:

Vocês estarão provavelmente perguntando o que isso tudo tem a ver com o sentimento de finalidade. Muito. Deus, seja o que for, e o acaso formaram a estrutura genética que me criou, e alguma coisa aconteceu no processo que desconectou o “fio” do cérebro que faz uma criança sentir-se atraída por sua mãe e por outros seres humanos que lhe oferecem afeto. Só quando cresci o suficiente e adquiri o talento necessário para construir minha máquina de pressão foi que essa conexão foi reparada. (Grandin & Scariano, 1999, p. 112)

Parece-nos que, nesse talento necessário, inscreve-se um savoir-y-faire, franqueando o reparo de uma conexão, um novo enodamento na estrutura. Nos casos clássicos, o autista não se serve da linguagem para imiscuir-se no discurso social; ele não assume uma voz enunciativa, não cedendo ao Outro sua voz. Muitos autistas apresentam conexão com a linguagem, embora não a utilizem para se comunicar, e sim para se deleitar com a linguagem, fora do discurso do mestre, como sublinha Lacan (1953-1954/1986) no seminário Os escritos técnicos de Freud, ao dizer que Dick é mestre da linguagem.

Por vezes, o autista fala não para ser compreendido, mas para usufruir de uma sonoridade inaudita, quando seu isolamento condiz com sua exigência de imutabilidade. Dominar, controlar e se proteger do Outro, permanecendo fora do discurso do mestre, é uma constante em casos como esse, mesmo que seja por meio do uso da palavra desabitada de seu uso comum, sem a intenção de demanda ou endereçamento.

O saber de Grandin está longe, de certo modo, das descrições acima. Todavia, é possível localizar, em seu testemunho, que ela foi uma autista severa, em pleno mutismo, até os três anos e meio de idade. Antes do destino dado por seu objeto autístico, ela insistia na busca da imutabilidade, nas estereotipias, no mutismo, na ecolalia e na voz mecânica, comum a outros autistas. Foi com seu constante trabalho de construir uma topologia própria, que delimitasse os espaços, modulando o gozo e buscando lidar com o Outro, que ela inventou o aparelho de intermediação que franqueou sua circulação social.

Testemunhos como o de Grandin demonstram o que são os circuitos iterativos do autista, marcados pelo característico traço de iteração, e como eles nos convocam a lidar com a imersão no real. São circuitos cuja aparente estereotipia apenas ressalta os ensaios de constituir bordas, nas tentativas de reinscrever o encontro traumático do ser com a linguagem. O sujeito autista nos ensina, seja por meio de suas estereotipias, seja por meio de suas outras sofisticadas invenções, que o significante não está à altura do gozo do vivo.

Resistindo ao mandato do discurso, os autistas nos ensinam outros modos de apropriação não-toda do significante, na clínica da invenção, do savoir-y-faire. Grandin, além de construir uma borda autística protetora com duplos, objetos autísticos e interesses específicos bem delimitados, pôde ir além, servindo-se desses elementos para construir uma profissão, um laço social, um nome.

Para concluir, retomamos nossa aposta de que Temple Grandin é um caso paradigmático. Sua invenção, tão singular e incomparável, serve-nos para pensar na direção do tratamento do autismo. Indubitavelmente, cada autista poderá construir uma borda própria e seus elementos variarão caso a caso. Advertida da singularidade de sua invenção, Grandin é categórica: “é preciso enfatizar que a máquina de pressão não é recomendada como panaceia para todas as crianças autistas” (Grandin & Scariano, 1999, p. 105). Cabe a nós, psicanalistas, extrair o singular do caso e secretariar a construção de sua invenção.

Referências

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Miller, J. A. (2011). Sutilezas analíticas. Paidós. [ Links ]

1Idade referente ao ano de 2020.

2Tal aparelho ganha, em diferentes traduções, os nomes de máquina do abraço, máquina de pressão ou brete.

3Lacan estabelece o neologismo troumatisme, resultante da junção de trou e traumatisme, para concernir à incidência traumática do furo, já que esta é uma condição para o sujeito do inconsciente (Lacan, 1973-1974/2018).

Revisão gramatical: Nilce Almeida E-mail:semnilce@gmail.com

Recebido: Dezembro de 2020; Aceito: Março de 2022

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